quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Hay que ter ternura? Jamás!

Quanto a homofobia do regime, Guillermo Cabrera Infante conta em Mea Cuba várias histórias sobre a perseguição sofrida por muitas pessoas, entre elas os conhecidos escritores Reinaldo Arenas e Virgilio Piñera. Estes escritores, assim como vários outros homossexuais, eram também partidários da revolução.

Ele dedica mais espaço para Piñera, que era seu amigo, até porque por meio dos acontecimentos que envolvem a perseguição ao escritor por causa de sua condição sexual, as histórias vão compondo um panorama esclarecedor do desprezo humano usado como instrumento de pressão sobre o pensamento divergente.

Com histórias desse tipo, acompanha-se o padecimento da cultura cubana sob Castro. O ataque à sexualidade de Piñera e outros foi, na verdade, a via para eliminar o que essas pessoas tentavam trazer de diferente no aspecto cultural e que não se encaixava no projeto político da revolução.

A morte de Piñera em Cuba, aos 68 anos, tem componentes absurdos até para o regime cubano. Ele teve um ataque cardíaco e a ambulância demorou três horas (sic!). É claro que quando o socorro chegou ele já estava morto.

No velório sumiu o corpo de Piñera. As autoridades explicaram que o haviam levado para fazer uma autópsia, o que não era necessário. Para Cabrera Infante, o que o governo temia era um ajuntamento de gente. O cadáver voltou apenas meia hora antes do enterro e o percurso até o cemitério foi feito de forma apressada, forçado pelo governo cubano.

Sobre o preconceito com a homossexualidade de Piñera, Cabrera Infante conta uma história com Che Guevara que é de arrepiar a esquerda moderninha que vê no guerrilheiro argentino um símbolo de liberdade. Em visita à embaixada cubana na Argélia, remexendo na biblioteca, Che Guevara encontrou alguns livros de Virgilio Piñera. Pegou um deles e perguntou ao embaixador: “Como é que você pode ter o livro dessa bicha na embaixada”. E atirou com raiva o livro na parede.

O texto onde Cabrera Infante conta tanta coisa foi publicado em 1981, mais de dez anos antes de Antonio Candido discursar no Prêmio Casas de las Américas elogiando o regime cubano. É um ensaio publicado pela revista mexicana Quimera. No Brasil, o livro Mea Cuba é de 1983, como já disse. A honestidade intelectual não exigiria de Candido a consulta de textos como este antes de escrever seu elogio ao regime cubano? Talvez ele até tenha feito isso, mas se fez é provável que tenha sido com a visão de que Cabrera Infante fosse um agente da CIA.

E se deu mal também nisso. Há duas semanas Fidel Castro assumiu a culpa pela onda homofóbica de seu governo, quando perseguiu homossexuais. Não era um preconceito aleatório, mas uma política de Estado. Eles eram acusados de serem “contrarrevolucionários” e muitos eram enviados para campos de trabalho forçado. Que os comunistas cubanos se preocupassem com esse tipo de coisa, tendo tanta coisa para fazer naquele ínicio de revolução, explica muita burrada que aconteceu em Cuba.

Mas, enfim, Castro fez essa confissão no final de agosto ao jornal mexicano La Jornada afirmando que isso foi um erro do regime e menos de duas semanas depois veio com essa de que o modelo cubano não serve mais nem para Cuba. Pelas barbas de Karl Marx, o que virá mais por aí? Deve ter muito esquerdista relendo com muita preocupação e pesar seus escritos a favor do regime cubano.
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POR José Pires


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Hay gobierno em Cuba? A esquerda brasileira é a favor

No final, Fidel Castro dá razão aos críticos e demole os bajuladores

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Janine Ribeiro pede pra deixar pra lá a quebra de sigilo

O professor da USP, Renato Janine Ribeiro, resolveu dar sua opinião sobre a quebra de sigilo de pessoas ligadas ao candidato José Serra. Fez isso na Folha de S. Paulo, em um artigo que já está sendo republicado na blogosfera petista, os blogs e sites governistas, alguns deles com suspeita de seus donos receberem dinheiro do governo ou favorecimentos pessoais. Os dados revelados com a quebra de sigilo eram publicados nestes blogs antes do caso virar um escândalo.

Parece coisa combinada, pois sempre é assim. Basta surgir complicação para o PT que logo são publicados artigos com argumentações em muito parecidas com as dos petistas. Em alguns casos esses textos com ares de imparcialidade até antecipam a linha de defesa que vem depois.

Não estou evidentemente afirmando que Janine Ribeiro esteja metido em uma conspiração contra a oposição, mas é um fato que ele escreveu exatamente o que lideranças petistas vêm afirmando desde que surgiu o escândalo.

Ele repete inclusive argumentos parecidos com os de Lula, ditos ontem no programa eleitoral de Dilma, quando o presidente da República dividiu o país entre os que gostam ou não do Brasil.

É um raciocínio fascista, que não surpreende dentro do interesse marqueteiro de Lula, mas que soa estranho no texto de um “professor titular de Ética e Filosofia Política”, como Janine Ribeiro se identifica no pé do artigo.

O professor traz essa argumentação no final do texto, depois de afirmar que “a exploração política do caso é exagerada” e de colocar a quebra de sigilo da filha de Serra na mesma situação de “centenas de milhares de declarações vendidas na rua 25 de Março, em SP”.

Num trecho do artigo, ele chega ao ponto de dizer que o que está ocorrendo parece uma "birra um com o outro" e que "o povo" não merece isso. Pois é, acontece um atentado contra os direitos de vários contribuintes e um professor da USP vê na reação da oposição "uma birra".

Depois de escrever essas coisas, ele finaliza dessa forma: “Teremos, todos nós, que construir este país, pelo resto de nossas vidas. Melhor evitar paixões e atos que tornem, depois, difícil a colaboração, pelo menos entre quem gosta do Brasil”.

É esquisito um intelectual dividir o debate político entre os que gostam ou não gostam do Brasil. A esquerda tem o hábito de tachar qualquer coisa que a desagrade de “fascista”, mesmo que o caso não se enquadre de fato na definição. Mas essa visão política expressada primeiro por Lula e depois por Janine Ribeiro é, sem dúvida alguma, fascista.

O ponto central do artigo do professor é de que houve uma exploração política da quebra de sigilo. Ainda para justificar formalmente sua tese, ele traz para a discussão a opinião de que a mídia tem falhado na cobertura dessa eleição, centrando a atenção mais no resultado de pesquisas ou em escândalos do que na informação global, inclusive do que acontece nas eleições estaduais.

Nisso, em parte o professor pode até ter razão, mas ele encaixa esta preocupação apenas para fortalecer e até justificar sua tese da inocência do PT e de Dilma em relação ao escândalo. O que ele propõe é que o caso da quebra de sigilo seja deixado pra lá pela imprensa e a oposição. “Melhor seria a oposição e a imprensa que a apoia aceitarem que nas eleições se perde e se ganha “, ele diz.

Janine Ribeiro não está gostando do rigor com que este tema está sendo tratado, o que é surpreendente no professor que levantou uma polêmica danada quando defendeu a pena de morte para o grupo de assassinos que roubou um carro no Rio de Janeiro e levou à morte uma criança que ficou dependurada pelo cinto de segurança à porta do carro, no que ficou conhecido como “Caso João Hélio”, ocorrido em 2007.

Na época, o professor foi além da defesa da pena de morte. “Se não defendo a pena de morte contra os assassinos”, ele escreveu sobre o crime, “é apenas porque acho que é pouco”.

Já quanto à crimes contra a Constituição e o Estado, parece que Janine Ribeiro não vê a necessidade de rigor algum.
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POR José Pires

Com um DNA desses não se brinca

O candidato José Serra disse que a violação de sigilo fiscal está no DNA do PT. Ele tem toda a razão, mas assim fica difícil entender qual era a razão política que levou seu programa eleitoral a tratar Lula como um estadista poucos dias antes de estourar o escândalo.

Não, não vou abandonar o pensamento de que o lulo-petismo precisa ser derrotado, posição que defendo e não é de hoje. Para barrar o risco do lulo-petismo só não acho aceitável maluquices como as do Psol ou PSTU, mas felizmente essas possibilidades são pra lá de remotas. Na minha opinião, o lulo-petismo tinha que ter sido apeado do poder já no mensalão. Mas a oposição subestimou a capacidade de superação de Lula e seus companheiros quando o viu acovardado naquela famosa entrevista em Paris.

E a oposição tem mostrado que aprendeu pouco de lá pra cá. Só se recupera por meio de sustos, como foi com a quebra de sigilo. Tem uma dificuldade danada de seguir com coerência uma linha de comportamento que não seja conduzida por interesses circusntaciais da política.

Sempre o que pode acontecer de pior numa eleição é evidentemente ter menos votos que o adversário. E na atualidade a derrota para o PT pode ser muito mais grave que em qualquer outra eleição. E como isso pode de fato acontecer, eu acho bom se preparar inclusive para o que virá com este possível terceiro mandato do lulo-petismo.

O repúdio da população com a quebra de sigilo só não é maior por conta dos erros anteriores da campanha de Serra e a posição sempre dúbia de Marina Silva. É lamentável que por isso este repúdio à ilegalidades que podem ser definidas claramente como crimes contra o Estado não possa ser capitalizado de forma completa em razão de equívocos anteriores da oposição.

Agora, com, a realidade já posta, dá para ver o quanto Serra não ganharia se tivesse vindo desde o início da campanha eleitoral atuando de forma crítica, sem amenizar as críticas ao governo Lula. Bem, independente da trapalhada criminosa da quebra de sigilo, o candidato já vinha em queda muito séria, uma conseqüência do marketing errado que já criticávamos aqui desde o começo, quando Serra ainda estava bem a frente de Dilma nas pesquisas.

A quebra de sigilo parece mesmo ser coisa do DNA petista. Vivem na mesma condição que determina que o escorpião dê a ferroada que o faz também perder a vida. E aqui o que se pede à oposição é que ela não faça o papel do sapo, pois mesmo que haja um ou outro petista honesto, é inevitável que no final ele acabe agindo em conformidade com o corpo partidário. É o DNA que domina.

E com este DNA não se brinca, porque as consequências políticas trazem riscos que vão muito além desta eleição.

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POR José Pires

Desde as Diretas Já eles aprontam contra os democratas

A busca da satanização do adversário pelos petista não é nova e os tucanos sabem muito bem disso. Para o petista não existe debate político com objetivos que estejam acima do interesse partidário e nisso pesa muito a raiz histórica leninista de muitos que hoje dominam a máquina partidária. E por mais que ele fiquem irritados em público com esta explicação, é sabido que reservadamente bate até um orgulho com a analogia entre o método local e a ideologia forjada pelo mestre político russo a partir do marxismo.

O petista vai de cabeça em suas ações. E não falo do pensamento, mas da cabeça como arma de guerra, um aríete usado para abalar o adversário. E é claro que dessa forma a cabeça não pode pensar em agir com equilíbrio e cautela, mesmo em situações arriscadas para o país.

Temos muitos exemplos históricos. Não é de hoje que eles atrapalham. Na campanha das "Diretas Já", por exemplo, os petistas se juntavam em grupos para vaiar nas manifestações as lideranças que não pensavam de acordo com eles.

Outra situação exemplar é a da disputa entre Fernando Henrique Cardoso e Jânio Quadros, pela prefeitura paulistana em 1985. Era a primeira eleição direta nas capitais após muitos anos com prefeitos nomeados pela Ditadura Militar.

Havia naquele momento uma clara possibilidade de retrocesso na abertura política, mas os petistas não davam bola para o risco. Naquela eleição Fernando Henrique foi acusado de ser ateu e até de fumar maconha. Mas o PT até gostou dessas sujeiras que vinha da campanha janista.

O curioso é que o ateísmo e a maconha era uma discussão muito mais ligada aos meiors petistas, mas eles não fizeram nenhuma interferência denunciando o jogo sujo de Jânio Quadros. Ao contrário, batiam apenas nos tucanos.

O candidato petista era Eduardo Suplicy, que até apareceu em um debate com uma tartaruga que ficou famosa na história das campanhas políticas. Nunca mais se ouviu falar dessa tartaruga. Suplicy deve ter perdido ela. A argumentação do PT era a de que Jânio não representava risco algum para o processo político, o que foi desmentido pelos caminhos abertos por sua vitória naquela eleição para a política feita com demagogia e sem nenhum respeito pela ética ou o bom senso.

E por falar nesta eleição, na época o recém-criado Datafolha afirmava que o eleito era Fernando Henrique Cardoso. Insistiram neste erro até nas pesquisas de boca de urna, quando os erros são praticamente nulos. Mas isso é outra história. Voltemos ao DNA petista.

Este DNA dominou sempre a ação dos petistas e influiu de forma decisiva inclusive nas disputas internas do partido, que foi aos poucos eliminando pessoas decentes e grupos preocupados realmente com transformações de qualidade na política brasileira.

O poder quase total acabou ficando nas mãos do grupo que tem o deputado cassado José Dirceu como chefe de alta importância e que hoje tem o domínio sobre a candidatura de Dilma Rousseff.
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POR José Pires

Muita coisa já foi feita por debaixo dos panos

Todos esses processos de espionagem e ataques diversos aos adversários feitos pelo PT não são mesmo coisa nova e os fatos históricos estão aí para demonstrar. Se hoje usam até informações cujo sigilo é defendido pela Constituição, no passado esta intromissão vinha por meio da mídia, encaixadas em reportagens políticas.

Os interesses em torno desses acontecimentos ainda são bem fortes. O próprio PT está no poder federal. Mas ainda vamos acabar conhecendo o que se fez de ilegal para atingir adversários políticos enquanto a esquerda esteve na oposição. O país pode se horrorizar com os métodos que foram usados de forma encoberta.

O que se sabe é que a máquina sindical usava e abusava do acesso de funcionários à informações nos mais variados setores da administração pública no Governo Federal, nos municípios e até em bancos estatais e privados.
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POR José Pires

FHC já teve a família atingida

O episódio da ameaça contra Fernando Henrique Cardoso e sua falecida mulher, Ruth Cardoso, na época dos escândalos dos cartões corporativos usados de forma ilegal por autoridades petistas é outro exemplo significativo do uso da máquina pública contra adversários.

Os tucanos deveriam ter brecado este sistema ali mesmo, mas foram “delicados”, como sempre. Sobrou para eles até a suspeição de que teriam abandonado o assunto depois de um acordo com os petistas.

Naquela época havia também um dossiê. E a oposição não agiu com o rigor esperado mesmo ficando comprovado que a fonte dessa ameaça era a Casa Civil do governo Lula, ocupada por Dilma Rousseff.

Mas ali já se via que essa agressiva postura política nada poupa, atingindo inclusive a família dos adversários. O próprio ex-presidente FHC teve também usado contra ele um filho que ele teve fora do casamento. Para isso na época foi usada uma revista então alternativa, a Caros Amigos, que se alinhou de forma incondicional ao lulo-petismo depois que Lula foi eleito.

Quando esteve no poder, Fernando Henrique também tinha seus filhos acusados o tempo todo de usar o poder do pai presidente da República para ganhar dinheiro. No entanto, o que vemos hoje é que, se houve um filho que ficou milionário durante o mandato do pai presidente, foi o filho do Lula, que ganhou mais de cinco milhões de reais em apenas um negócio que parece ter sido favorecido pela influência do pai na presidência da República.
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POR José Pires

Em batida parecida, antigamente quem sofria eram os democratas


Processos parecidos com os de agora foram usados incontáveis vezes contra adversários. E muitas vezes isso foi relevado por setores da política brasileira, quando não houve até convivência, algumas vezes em razão de que os alvos atingidos não mereciam respeito algum.

Os golpes desfechados contra políticos de comportamento notoriamente contrário à ética acabavam sempre encaixados como instrumentos válidos no momento. É a velha frase que diz que os fins justificam os meios.

Isso nunca é verdade. Pois mesmo que o objetivo desse tipo de ação seja supostamente ético, depois fica muito difícil brecar processos ilegais, que passam a ser usados de forma indiscriminada.

É o que se vê agora com os dossiês petistas e a quebra do sigilo fiscal de adversários feita de forma criminosa. Bem, pelo menos já temos a certeza de que não se pode fechar os olhos para essas coisas. Mesmo que o alvo seja um PC Farias, ele não deve ser combatido com métodos que passam por cima dos direitos e da Constituição.

É bom lembrar que há muito tempo algumas pessoas, inclusive da política, vêm alertando o país sobre esses métodos. E os tucanos merecem como um crédito histórico a lembrança de que vários de seus líderes vem fazendo isso antes até do PT alcançar o poder.

É gente como Franco Montoro, Mário Covas, os próprios Serra e FHC, e também setores históricos do PMDB, como Ulysses Guimarães e outras figuras expressivas da política brasileira, que foram contrários a ilegalidades mesmo quando usadas contra a ditadura militar.

E um dado histórico que o PT não quer discutir de forma alguma é o da participação na luta armada nas décadas de 60 e 70 de sua candidata a presidente. Naquele tempo a oposição democrática ao regime já abominava este tipo de método.

E o interessante é que até essas discordâncias eram tratadas com fúria pelos petistas, que de imediato passavam a satanizar tais políticos. Então era movida uma máquina de difamação da imagem dessas pessoas, por vezes, foi bem eficiente. Hoje ainda tentam construir uma má fama histórica para os que, de fato, foram responsáveis pela queda do regime.

Se ainda hoje alguns vêem alguém como o ex-governador de São Paulo, Montoro, por exemplo, como um político indeciso e até tolerante demais, em boa parte é efeito dessa difamação histórica, feitas à época e que segue até hoje. É claro que quando buscam estigmatizar tal tolerância, os petistas escondem que ela serviu também para Montoro não tomar medidas severas quando manifestantes liderados pelo PT derrubaram as cercas do Palácio dos Bandeirantes para afrontar o governador Montoro.

Convém destacar que Montoro era o primeiro governador paulista na primeira eleição direta após vinte anos. A oposição democrática trabalhava então enfrentando muitas dificuldades, inclusive na administração de estados praticamente levados à falência por governadores anteriores nomeados pela ditadura. E era preciso também ter muito cuidado para preservar e ampliar a abertura democrática.

A eleição de um presidente civil pelo colégio eleitoral, que acabaria vindo em 1985 com Tancredo Neves, não existia nem em sonho, pois o regime ainda pensava em se manter no poder.

Mas a agressividade era uma marca do PT usada da forma mais irresponsável. Nisso pareciam bastante como o MIR, o partido de extrema-esquerda que causou um estrago político danado no Chile durante o governo de Salvador Allende.

Enfim, para o PT cabia também muito bem a frase que diz que os fins justificam os meios. Pode ser vista como um slogan do partido, que desde sua fundação tem atrapalhado bastante, primeiro a reconstrução democrática do País e agora a consolidação desta mesma democracia.
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POR José Pires

Contra PC Farias parecia que valia tudo

Desde os tempos da ditadura venho participando de muitas atividades políticas apartidárias e, de lá para cá, nunca vi nenhuma em que não aparecesse um grupo de petistas tentando instrumentalizar, atropelando o bom senso e sempre prontos a desrespeitar regras da democracia e até jurídicas. Como forma de emplacar estas propostas elas vinham sempre embaladas com a justificativa de que seriam usadas para o “bem”.

É bem conhecida a participação do então deputado federal, José Dirceu, na maquinação feita pela revista Veja para não infringir a lei com a publicação das declarações do Imposto de Renda de Paulo César Farias, o tesoureiro da campanha do então presidente Fernando Collor. Os editores da revista pensavam em publicar os documentos quem tinham nas mãos, mas poderia incorrer em um crime. Foi combinado então com Dirceu que a revista afirmaria que as declarações de renda haviam sido encaminhadas anonimamente a ele, antes de chegar ao conhecimento da revista. Dessa forma, estaria criado um “fato legislativo”, uma defesa legal para que a revista não corresse o risco de ser processada. E assim foi feito.

Este episódio é dos mais interessantes pelo que mostra da reviravolta da esquerda brasileira. As ações concatenadas entre Dirceu e a Veja eram para atingir Fernando Collor. Hoje os petistas estão juntos com Collor, inclusive com pessoas íntimas do então presidente, como o dono do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, e o líder da tropa de choque collorida, Renan Calheiros, além de outros políticos ligados ao esquema.

Outro fato curioso é que, na época, um jornalista como o editor da Carta Capital, Mino Carta, pelejava para encontrar material para derrubar Collor, o que acabou aparecendo com a hiostória do Fiat Elba revelada pela revista. Hoje, Coimbra e Carta estão juntos na mesma revista, bem ativos na defesa de Dilma.

É claro que se podia alegar que qualquer recurso podia ser visto como válido contra alguém como PC Farias. O problema, como eu já disse, é parar a coisa depois, como estamos vendo agora. O fato é que coisa não parou, com a diferença que hoje a revista Veja está no lado adversário e e Collor e Dirceu juntaram as armas em defesa de Lula. Mas não faltam veículos para o serviço, alguns criados exclusivamente para isso, na profusão de sites e blogs da nossa internet.
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POR José Pires

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Um presidente da República a serviço do marketing de Dilma


Dá para usar o jargão que Lula repisa sempre para falar de um Brasil que só existe na cabeça dele e na propaganda governista. Nunca um presidente da República desceu tanto no aspecto cívico como Lula fez neste 7 de setembro quando apareceu no noticiário como presidente da República à frente do desfile do Dia da Independência desfilando em carro aberto e depois surgiu no programa eleitoral como garoto-propaganda da candidata, fazendo uso inclusive das simbologias da nossa independência para reforçar argumentações mentirosas que a campanha petista tem usado para tentar esconder os crimes de quebra de sigilo cometidos contra a oposição.

Falava o presidente da República ou o cabo-eleitoral de Dilma? Reparem na imagem acima, retirada do programa petista, a identificação de Lula como "presidente do Brasil" e o símbolo verde amarelo espetado no lado esquerdo de seu terno para criar confusão na cabeça dos telespectadores e reforçar o embuste.

O marketing político apoderou-se da simbologia da Presidência. A apresentação foi encenada de forma a dar uma aparência oficial para a presença de Lula. Para criar uma confusão descarada entre os dois papéis os petistas aproveitaram até o hábito dos nossos presidentes falarem à Nação neste dia.

O cargo mais alto da República foi usado de forma marqueteira em um dia muito especial para os brasileiros, algo que nenhum outro presidente até hoje tinha feito. Nem na ditadura militar o cargo de presidente foi utilizado para tal coisa. Só faltou Lula usar a faixa presidencial no programa eleitoral petista. Devem estar guardando isso para um futuro próximo.
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POR José Pires

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Agora vai

Anuncia-se uma tal de "lei da responsabilidade educacional". Seria uma lei com metas básicas sobre a educação que seriam cobradas de Estados e Municípios. Já está sendo colocada como uma daquelas panacéias brasileiras para o desenvovimento da educação no Brasil.

É como se o país precisasse de um documento legal para por em prática soluções de um problema que já foi suficientemente diagnosticado, como acontece com vários problemas brasileiros que jamais são conduzidos para os caminhos (muitas vezes, as soluções são bem variadas) já indicados por especialistas e pelo debate em torno do assunto.

É também como se o País já não tivesse legislação suficiente sobre educação e o entendimento prático de como chegar à qualidade em cada estado ou município. "Ah, então a educação é ruim porque faltava essa lei nova", essa parece ser a lógica.

Numa nação que tem uma Constituição que só falta definir normas para a escovação dos dentes, não é de estranhar esta idéia de que a realidade pode ser desentortada à força de leis.

Os demagogos agradecem e estimulam a impressionante facilidade dos brasileiros aceitarem essas empulhações. É o país da Lei Maria da Penha, uma lei específica para a violência contra a mulher no país das chacinas, dos crimes encomendados, da tortura e violências das mais variadas que já fazem parte do cotidiano e que óbviamente não escolhem o sexo das vítimas.

A violência sofrida pela mulher que deu nome à lei é impressionante, mas precisava de uma lei específica para punir o marido da Maria da Penha? Acharam que precisava. E demagogo aproveita qualquer ocasião que pareça. O resultado é que o marido violento de fato, o da Maria da Penha, já está livre depois de ter ficado preso menos de dois anos, mas muito marido já foi preso em cela de bandidos perigosos depois de uma briga doméstica sem maiores conseqüências.

Somos também o país do crime hediondo, mas, puxa vida, o que é mesmo um crime hediondo? Acho que é coisa difícil de explicar para as pessoas próximas da vítima. Para a vítima é ainda mais complicado, mas numa projeção metafísica poderíamos afirmar então que alguém que foi morto sem atrocidade acabou levando vantagem? Ah, bom.

Mas de qualquer forma, como é ínfima a porcentagem de crimes elucidados pela polícia e ainda menor o número de criminosos presos, é o tipo de lei que na mão de um bom estatístico pode até fazer diminuir o impacto dos números, pois possibilita uma fragmentação da incompetência.

A Lei Ficha Limpa, que está aí em plena execução, é outro exemplo. Se o Judiciário e os partidos funcionassem de fato, como já está muito bem definido não só por leis ordinárias, mas por códigos morais implicítos na vida de qualquer um, não haveria necessidade alguma de uma lei nova para impedir que certos patifes se candidatassem.

A bem da verdade, sendo compostos de gente bem crescida que não precisa consultar a toda hora o Código Penal e muito menos leis novas para saber o que é certo ou errado, os partidos não deveriam permitir nem a entrada de pessoas que podem ser barradas pela Lei Ficha Limpa, quando mais que elas se candidatassem.

Como os partidos permanecem os mesmos e a Justiça dificilmente se renovará, o mesmo acontecendo com um conjunto de instituições, nem é preciso dizer qual será o destino da Ficha Limpa. Irá para o ralo, do mesmo modo que foi a Lei de Responsabilidade Fiscal, que por sinal é inspiradora desta "lei da responsabilidade educacional".

Para terminar, por melhor que seja esta nova lei, por certo que o organismo responsável diretamente por sua execução tem que ser o Ministério da Educação. Como esta área do governo, qualquer deles, seja do PT ou do PSDB, é incapaz até de fechar universidades privadas picaretas que atentam não só contra a Educação, mas agridem até o Código do Consumidor, nem é preciso fazer uma projeção detalhada do que vai acontecer com ela.
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POR José Pires

Falta de verde

Marina Silva é nova do lado de cá do poder, pois saiu do PT há pouco e parece ter deixado lá seu coração. Não duvido que volte ao lar um dia, até para viver de forma prática o simbolismo do filho pródigo, no caso uma "filha pródiga", o que dá um tom contemporâneo ao misticismo de que ela tanto gosta.

Esta condição delicada, de estar de um lado em que o crescimento eleitoral exigiria rigor crítico, auto-confiança e ousadia, sendo ao mesmo tempo responsável por uma parcela imensa de responsabilidade nos erros e na má condução de políticas públicas e em decisões de governo na área ambiental, parece que deixou Marina entortada. Foi o que impediu o florescimento de uma candidatura que tinha um espaço imenso para crescer.

Mas para isso ela teria de mirar no Lula que compara lavouras de soja à um "cerradinho", quando firma sua posição de que se dane o "cerradinho". Mas acontece que vibra em seu coração o Lula amoroso, compreensível e também didádico, que até deu a ela importantes lições sobre o meio ambiente, quando numa reunião entre os dois disse o seguinte: “Marina, essa coisa de meio ambiente é igual a um exame de próstata: não dá para ficar virgem toda a vida. Uma hora eles vão ter que enfiar o dedo no c... da gente. Então, companheira, se é para enfiar, é melhor que enfiem logo”.

O cara é de uma delicadeza, não? Porém, não é só Marina que se confunde com Lula. Esta confusão em relação ao verdadeiro caráter do nosso presidente, que obscurece para muitos o patife que ele é de fato, acomete até políticos com longa carreira na oposição, como já ocorreu com José Serra, que quase virou um Zé. Mas, pelo visto, depois da agressão à sua filha o tucano acordou.

Mas voltemos à Marina, nossa amazônida compadecida. Hoje ela lamenta na imprensa que a eleição está virando um "vale-tudo". Ela diz isso sobre a troca de acusações dos últimos dias entre partidários de Serra e de Dilma.

Ah, a doce e pacífica Marina. Certamente quando era ministra de Lula acompanhava pouco os passos de seu governo, concentrada que estava em defender a perereca de que Lula tanto fala. Não estava atenta aos ataques diários à oposição, ao uso da máquina pública, a agressão ao aparato jurídico... bem, mesmo o mensalão Marina acha que foi coisa de "meia dúzia". Nossa Osmarina parece uma Carolina.

Então ficamos assim. Serra e o pessoal em torno dele tem seus sigilos fiscais violados de forma criminosa, agressão que atinge até sua filha, e quando ele reage ao abuso, nossa equilibrada Marina vê um "vale-tudo" de campanha.

Seria muito que tivéssemos uma candidatura verde, alguém com competência para trazer para o cotidiano político a questão do meio ambiente, o mais importante tema da atualidade porque estamos todos em risco em razão dos desatinos com o planeta. Seria excelente ter esta discussão como um ítem essencial desta eleição, tarefa que Marina chamou para si e não teve competência para desempenhar.

Precisamos muito de políticos verdes, mas de laranjas não carecemos, não. Isso já existe demais na política brasileira.
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POR José Pires

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Lula, Dilma e o direito de lavar a própria cueca

Um dado (epa, como diria o pessoal de O Pasquim) interessante nesta nova treta governista da violação do sigilo fiscal de pessoas próximas do candidato José Serra é o alto número de mulheres implicados no caso. No início da descoberta do escândalo era uma, agora já apareceram outras quatro mulheres.

Não é que seja necessário, mas este tipo de coisa vem bem para quebrar este discurso demagógico e sexista que o governo Lula tenta estabelecer para favorecer a candidata Dilma Rousseff. Essa fixação em questões de gênero é só eleitoral. Se tivessem achando que o foco é o meio ambiente, como acreditaram no início da campanha, mas logo abandonaram, não haveria mais petista vermelho. Seriam todos verdes.

Não há nenhuma diferença no aspecto ético ou administrativo no fato do governante ser homem ou mulher. O que vale não é o que um e outro tem no meio das pernas. Neste caso o que conta mesmo é o caráter.

Mas para o PT é preciso enfiar na cabeça do eleitor que é uma qualidade o fato de Dilma ser mulher. E isso quando é notório que no ambiente de trabalho Dilma não tem nenhuma qualidade, como equilíbrio e tolerância, que os marqueteiros tentam vender com atributos femininos. Ao contrário, é conhecida por ser violenta e grosseira, os piores estereótipos masculinos.

E a jogada marqueteira é casada. Juntam os compromissos do presidente da República com o interesse eleitoral do PT. Hoje Lula esteve no Paraná para a abertura do "2º Ciclo de Encontros Regionais para o Fortalecimento da Equidade de Gênero no Mundo do Trabalho". Neste estado o benefício da demagogia é duplo. Além de favorecer Dilma, o PT tem ali como candidata a mulher do ministro Paulo Bernardo.

Quem paga pelo palco para Lula e os companheiros somos nós, é claro. O evento tem o apoio das seguintes empresas federais: Serpro, Embrapa, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaipu, Eletrobras e a de sempre, a Petrobras, onde os petistas descobriram que o petróleo é deles.

É claro que Lula deitou falação, da forma simplificada, bem idiota mesmo, como encara qualquer assunto. Falou até da necessidade do homem lavar a própria cueca. Ele não falou nada sobre a lavagem de dólares na cueca.

Mas deitou falação sobre um tema sobre o qual seu governo fez bem pouco. Em oito anos não atacou de forma conclusiva nem problema graves como a escravidão sexual de milhares de mulheres.

Mas é curioso saber de discursos sobre direitos femininos vindos da boca do Lula que, quando já era um líder político conhecido, dizia certos ambientes políticos para "comer as menininhas". Isso foi na época em que ele viajava para Cuba junto com João Pedro Stédile, do MST, para seminários de doutrinação política, mas na ilha só queria saber de praia e rabo de saia.

Mas Lula é um político sem nenhum caráter, com um discurso para cada platéia.Se os planos da sua candidata dessem certo na década de 60 e hoje fossemos uma ditadura comunista, ele seria sem nenhum problema um convicto comissário do povo.

Mas eu gostaria mesmo de ver esses arroubos feministas em questões como a das relações do Brasil com o Irã, por exemplo, onde as mulheres não têm nem direitos básicos e são mortas a pedradas. Mas nada disso. Em casos como o do Irã, Lula só pensa nos direitos do Ahmadinejad.
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POR José Pires

Nossa mídia e as plantações do Planalto

Ao lado, um recorte da página de hoje do Estadão na internet. Vejam a linha fina, abaixo da manchete, que diz "Operação de abafar escândalo da violação de IRs causou profundo mal-estar no Planalto".

Lula peleja para fazer de um crime político uma simples questão de erro burocrático, uma falta de zelo numa agência da Receita. A imprensa não deveria cair nessa, pois o que temos aí é um atentado contra os direitos civis, uma agressão à Constituição. Tem uns momentos históricos que exigem que o jornalismo exerça um papel mais firme. Eu penso que este é um desses momentos que pedem maior combatividade. Será que vai dar ou iremos ficar com a versão de que estão todos indignados "no Planalto"?

Hoje o Estadão ainda fez um belo serviço estampando na capa a tentativa de autoridades da Receita Federal em abafar o caso, mesmo sabendo já sabendo da fraude. Bem, eu não acredito que a fonte dessa enganação seja exatamente a Receita.

Mas no geral, parte importante da mídia vem se comportando de forma pouco rigorosa neste caso. Ainda ontem, mesmo todos tendo na cara a documentação comprovando que era falso o material que a Receita Federal usava para alegar que a própria Verônica Serra havia pedido a quebra de seu sigilo fiscal, vários sites ainda usavam aquela palavrinha mágica para se eximir de responsabilidade sobre a notícia, informando que os documentos eram "supostamente" falsos ou que assinatura dela é que foi "supostamente" falsificada.

A palavrinha serve para se eximir de responsabilidade com a notícia. Afinal é falsa ou não? A situação é bem parecida com a ordem de Dilma como chefe do Gabinete-Civil para levar para Brasília a mulher do representante das Farc no Brasil. Mesmo com o fac-símile do documento oficial assinado por ela, até hoje ainda ainda sai notícia dizendo que Dilma "supostamente" deu a ordem.

Bem, desse jeito fica bem mais difícil diminuir o calor que choca o ovo da serpente para o ano que vem. Lula e seus assessores (ou "o Planalto", como gostam de dizer) pelo que se vê plantam a versão de que a violação está apenas no âmbito da Receita Federal e inclusive a operação-abafa.

Com se diz entre gangues, é do jogo. O que não é "do jogo" é a imprensa acolher de forma mansa a manipulação.

Por aí pode-se chegar também à conclusão de que a quebra de sigilo foi feita por deliberação própria das moças de Santo André, que entre uma sapeada nas fofocas da internet e uma renovada no orkut, resolveram ver como andava a vida fiscal da filha do Serra.
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POR José Pires

Eu não sou mesmo um exagerado

Dois amigos e uma amiga muito querida me telefonaram para falar sobre o texto abaixo. Elogiaram, para depois comentar o exagero do tamanho desse manifesto indignado. Pois é, mas o exagerado não sou eu, não. O tempo em que vivemos é que é um exagero.
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POR José Pires

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Gangues da política e o escândalo como meio de vida

Numa entrevista em julho de 2005, o sociólogo Francisco de Oliveira prognosticava um futuro sombrio para o PT, partido que ajudara a fundar e do qual havia saido recentemente. "O PT", dizia ele, "vai ser um peronismo, todo dividido em gangues". O bando de gangues disputaria ferozmente para ver quem assume o controle.

Naquele mesmo ano, em junho, surgiria o caso do mensalão, o esquema de suborno de parlamentares para garantir a maioria governista no Congresso Nacional e muita coisa viria depois, derrubando inclusive ministros muito fortes, como ocorreu com Antonio Palocci, que teve que se demitir do Ministério da Fazenda quando a descoberta da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo inviabilizou sua presença no governo Lula e interrompeu um futuro promissor, que previa inclusive a candidatura presidencial hoje ocupada por Dilma Rousseff.

A situação prevista por Oliveira há cinco anos parece estar tomando o formato definitivo nestes últimos meses, com dossiês dos mais variados, um deles atingindo inclusive a família do ministro da Fazenda, Guido Mantega, numa clara luta interna pelo poder num possível governo da petista Dilma Roussef. A carniça ainda não está posta, mas as hienas já se mostram bem vorazes.

Com mais de trinta dias ainda pela frente até a hora do voto, os petistas já lutam entre si por espaços no governo, tendo no centro do combate figuras vistosas como a do deputado cassado e forte dirigente partidário, José Dirceu, e a do sempre prestigiado Antonio Palocci, figura do gosto até de alguns tucanos.

É claro que os dois já contam com Dilma na presidência da República e nem Palocci, sempre poupado pelos tucanos, quer ver de forma nenhuma Serra na presidência do Brasil. É também muito óbvio que uma máquina que se movimentou de forma cruel para destruir um humilde caseiro não deixaria de seguir a mesma disciplina para impedir que a oposição ganhe a eleição. Naquilo que foi feito com Francenildo já havia o estilo de gangues que se vê nesta quebra de sigilo.

As tentativas de intimidação não são de agora. Até a ex-primeira-dama Ruth Cardoso, já falecida, foi alvo de ataques quando a atual candidata, Dilma Rousseff, ocupava o Gabinete-Civil de Lula. Para se defender dos escândalos dos cartões corporativos, o governo inventou os dossiês de gastos do presidente Fernando Henrique Cardoso e de sua mulher.

Para mim, aquilo já podia ser visto como crime político. Mas os tucanos deixaram pra lá, criando inclusive na opinião pública uma suspeita de que houve acordo político, com os dois lados esquecendo o caso em função de sujeiras mútuas.

As atividades de verdadeiras gangues, algumas das quais o próprio Lula chamou de "aloprados", continuaram com seus crimes políticos em menor ou maior grau, culminando com a atual quebra de sigilo fiscal de várias pessoas próximas do candidato José Serra e cometidas de forma criminosa dentro da própria Receita Federal. Até a filha do candidato, Verônica Serra, teve o sigilo quebrado.

Assim se vê que em conjunto com a briga interna pelo poder existe também uma articulação bem firme de ataque e intimidação para dificultar a atuação da oposição e buscar manter de qualquer forma o poder dentro dos mesmos moldes atuais. Para perenizar o lulo-petismo no governo eles se juntam, mas nada deve permitir uma convivência pacífica além dessa concordância básica. Se Dilma for eleita, não tenho dúvida alguma que a luta de gangues prevista pelo ex-petista Francisco de Oliveira será das mais quentes que já se teve em nossa história.

A ações criminosas, que atingiram até a filha do candidato tucano, mas que haviam atingido antes também o vice-presidente nacional do PSDB, Eduardo Jorge, evidentemente não favoreceram os mandantes, pois nada de condenável foi encontrado nas declarações fiscais dos dois, o mesmo ocorrendo com os demais que tiveram quebrado o sigilo fiscal.

Mas não podemos deixar de lado que tudo que veio a público sobre todos esses casos foi sempre por ação de fora do governo, da imprensa ou de políticos oposicionistas. Nunca houve uma movimentação interna em defesa da ética ou de denúncia da corrupção e do uso da máquina pública como forma de pressão. Ao contrário, ações internas foram sempre no sentido de negar ou acobertar.

Vendo o problema por este ângulo, não há como não suspeitar de que outros sigilos foram ou estão sendo quebrados em busca de elementos de pressão contra empresários que não seguem de forma obediente os ditames do governo e de jornalistas, políticos e profissionais de vários setores que insistem em se comportar com independência. É o escândalo como meio de vida, usado como uma ferramenta que, às vezes, pode ser muito eficiente para a intimidação.

É muito curioso como figuras influentes das altas esferas do governo Lula se movimentaram com precisão após o surgimento do escândalo, sem demonstrar qualquer supresa pelo ocorrido, como se houvesse algo muito bem ensaiado para abafar um acontecimento que é provável que já viessem debatendo internamente bastante nos últimos dias. Ou talvez meses antes, não?

Até o chefe de gabinete de Lula, Gilberto de Carvalho, entrou na história insinuando em entrevista a imprensa que o culpado da quebra de sigilo da filha de Serra poderia ser.... Aécio Neves. Carvalho sempre aparece para abafar crises no interesse do governo. Na época do assassinato de Celso Daniel ele era o mais firme na pressão para que as investigações se encerrassem o mais rápido, mesmo tendo sido assessor direto e amigo do o prefeito petista sequestrado e morto de forma bastante violenta.

Sobre este novo escândalo ele disse o seguinte: "Pode ser um comércio para chantagem, e é bom lembrar que, naquela época, setembro do ano passado, havia uma guerra tucana entre os tucanos de Minas e os tucanos de São Paulo". Se ele não fosse o braço-direito de um presidente da República que não honra o cargo, é claro que ele não amanheceria no gabinete pegado ao do presidente da República.

Porém, o próprio presidente Lula veio hoje reforçar o trabalho de despistamento, de uma forma que parece concatenada. Desta vez a culpa não sobrou para Aécio, mas Lula tentou transformar o caso numa simples questão de falsidade ideológica, quando tudo indica que aconteceu um crime político dos mais graves. O petista colocou em dúvida inclusive a falsificação comprovada dos documentos que supostamente teriam sido apresentados à Receita Federal para obter os dados fiscais de Verônica Serra.

Como piada daria até para observar que pelo menos desta vez o Lula não veio com a alegação costumeira de que não viu nada, o que até uns meses atrás ele fazia quando explodiam crises em seu governo, mas acho que a situação não merece humor algum. Eu tenho a impressão de que a impunidade vem fazendo com que os crimes sejam assimilados de forma tão rápida pela opinião pública que, com um pouco mais de tempo eles nem vão mais se dar ao trabalho de esconder intenções ou tentar abafar escãndalos.

Existe um risco de que num futuro bem próximo tais casos deverão ser tratados na base do "Eu fiz mesmo, e daí?", mais ou menos como já vem acontecendo nos últimos anos na Venezuela. Ainda podemos ter pela frente a inversão daquela máxima do homem que morde o cachorro como fato extraordinário. Aí então, o destaque noticioso no Brasil vai ser quando não estivemos vivendo nenhuma escândalo político.
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POR José Pires

Campanha de Serra pede "virada" ainda no primeiro tempo

Há alguns dias apareceu a notícia de que o site do candidato José Serra ficou mais de um dia fora do ar. Tenho a impressão de que foi bem além disso, pois no dia em que li a notícia de que haviam resolvido o problema entrei no site e encontrei apenas uma página em branco.

Surgiram várias explicações para o fato, desde um mero problema técnico até um ataque de hacker, mas não sei o que deu afinal, pois como já disse aqui neste blog a candidatura do Serra não tem uma comunicação direta com os internautas. Já me cadastrei no site e nunca recebi coisa alguma deles. Da campanha da Dilma recebo todos os dias.

Pra ninguém dizer que poso de profeta depois da coisa ter acontecido, desde o início da campanha venho dizendo que o marketing de Serra estava no caminho errado, como fiz no texto "Serra: conceito e visual no caminho errado", publicado em 12 de julho. Em agosto, no texto "Os tucanos voando baixo na internet", falei sobre a falta de comunicação com os internautas. E isso porque ainda não tinham inventando a besteira de tentar transformar o Serra num Zé. Disse em 16 de agosto, antes de todos, que até por ser uma impostura isso desmotivaria e até poderia afastar os que já acreditavam em Serra e não estavam afim de Zé algum. Apontei também a tática como deficiente do ponto de vista técnico, coisa de marketing nada profissional. Ainda lá atrás, no dia 5 de julho, eu falava que os tucanos não ocupavam espaço na internet, o que os petistas vem fazendo há pelo menos três anos e de forma bem agressiva.

O componente humorístico da queda do site tucano foi a informação de que a própria responsável pela internet deles nesta eleição, Soninha Francine, soube do caso somente depois de mais de dez horas que o site estava fora do ar. Deve ter sido a própria Soninha que deu esta informação à imprensa, pois ela tem este estilo, digamos assim, “sincero” de fazer política.

Bem, se foi assim, até a responsável pela internet permanece horas sem acessar o site do candidato, não é mesmo? E aí a piada fica melhor: quantos mais na campanha perceberam que o site ficou fora do ar?

Vamos trabalhar, pessoal. Mas entre os internautas é provável que poucos tenham notado. Eu mesmo, que sou do ramo, já não acessava o site tucano há alguns dias porque havia desistido de esperar algo deles na internet. Com já disse aqui no blog, nesta área essencial da comunicação eles já perderam. Em comunicação nada se resolve no curto prazo. Na internet isso fica ainda mais difícil. Internet é, basicamente, presença cotidiana. Mas como isso pode ocorrer sem nem e-mail os tucanos mandam para os cadastrados?

Mas parece que está resolvido o problema técnico. E aproveitaram para dar uma mudada, como pude ver agora há pouco. O site do Serra está no ar. Bem, essa é a boa notícia. Mas era melhor que tivessem continuado fora do ar. O site agora traz apenas um formulário para que o internauta expresse sua opinião e dê uma força para a campanha.

Outra novidade é que o vice Índio da Costa aparece na cabeça da página, logo atrás da imagem de Serra. Deve ser para fortalecer a autoria dessa idéia de que é a "hora da virada", que na imprensa foi veiculada como sendo uma sacada dele, o vice.

Vejam lá em cima os dois, exatamente como está na página do tucano. É nesta hora que faz falta um bom marqueteiro para ajeitar uma coisa dessas: "Põe a imagem do vice mais para a direita... isso, vai avançando por detrás da imagem do Serra, mais para a direita, mais, mais, mais... pronto, sumiu".

Ao lado de Serra e do vice, uma frase em forma de slogan, mais um desastre tucano nesta eleição: “É hora da virada”. Hoje, no primeiro dia de setembro, ainda falta mais de um mês para a eleição, mas a sacada vem de cerca de uma semana atrás. Mesmo que fosse fevereiro, um mês é bastante tempo numa eleição.

As coisas estão mudando bastante: no meu tempo, virada era uma necessidade desesperada de final de jogo. Como estamos ainda no primeiro tempo, ou turno, o que esses idiotas fazem é apontar para o eleitor que eles acham que Serra pode nem ir para o segundo turno. Eu sabia que esse negócio de tucano ficar ligado no Lula não ia acabar bem.

Os responsáveis pela campanha de Serra devem pensar que a palavra “virada” pode servir de estímulo neste clima de derrotismo que vem sendo gradativamente criada por eles próprios. Mas quem será que falou isso para eles? Virada não é sinônimo de força, mas de desespero, e disso até a torcida do Corinthians sabe, pois só é possível desejar uma uma virada quando a derrota total e iminente.

Mas, talvez por falta de algum corintiano na equipe, colocaram no ar uma das grandes bobagens eleitorais da nossa história política que até reforça a campanha da adversária petista, que busca construir um clima de vitória até no primeiro turno. Bem, se a própria campanha do Serra vem com essa conversa de “hora da virada”, é difícil que o eleitor pense outra coisa senão que ele está derrotado.

Outra coisa: não foi criado clima algum de compromisso com a candidatura da parte da grande massa de eleitores, até porque o que o próprio candidato vem fazendo com suas absurdas transformações é demolir a empatia que já existia antes do início da campanha.

Mas tirando essas deficiências para a aplicação da idéia de uma virada, nem existe razão objetiva para acreditar nisso. Tiraram isso do clima criado por pesquisas? Ora o eleitor já está acostumado com essas coisas, porque em toda a eleição é igual. E o que temos são pesquisas eleitorais, a maior parte delas, quase todas, de nenhuma confiança e credibilidade. E, além do mais, temos pelo menos trinta dias pela frente, o que é bastante tempo numa eleição.

Não é “hora da virada”, até porque um período desses permite muita variação. Mas mesmo sendo um desastre esta idéia da “virada”, o que se espera na comunicação de uma campanha política é que haja um trabalho criativo em torno da proposta, com material gráfico e de texto de bastante qualidade e um trabalho de campo, em comitês eleitorais e todo o aparato que envolva gente pelo país afora, para criar um clima de animação.

Seria bom desenvolver rapidamente um site com muitas informações e as criações de conteúdo que a internet permite. Mas o que temos não é nada disso. Foi feito um site onde se pede um comentário com o tema “O Brasil pode mais. Diga por quê”. E é só isso. No lado esquerdo as opiniões vão correndo. Tem opinião até da responsável pela internet do Serra, a Soninha Francine. E fica nisso.

Não sei se dá tempo, mas acho que se é era pra ter “hora da virada”, já passou da hora de tirar a campanha do Serra dessa pasmaceira derrotista e sem criatividade, que é um dos pontos negativos que impediram até agora um crescimento da candidatura. Mas isso eles só podem resolver se tiver segundo tempo.
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POR José Pires

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Leonardo Boff e suas duas mulheres

Não é de hoje que o ex-frei Leonardo Boff anda doidinho de pedra, mas seu estado piorou bastante neste período eleitoral. Os textos que publica na imprensa são escritos num formato em que junta um evangelismo ecológico a um estilo de autoajuda. Seus livros devem seguir no mesmo tom. Não tenho visto nenhum, nem por curiosidade naquelas sapeadas em livrarias, pois tenho coisas mais importantes para ler ou sapear.

Mas tenho seguido como posso o que ele anda publicando na imprensa e na internet. Ele já foi obcecado pela Teologia da Libertação e hoje juntou a ecologia ao tema que o fez famoso. É uma composição estranha. Fica difícil crer que atualmente Deus esteja ligado no meio ambiente só porque é do interesse de Leonardo Boff, assim como nas décadas de 60 e 70 Deus estaria ocupado com a libertação do povo latinoamericano, também porque o então frei da Igreja Católica tinha esse interesse na época.

Boff é aquele tipo de gente que desmoraliza até causas boas. Sua forma de abordar a ecologia torna romântico e até piegas um assunto que pode ser melhor esclarecido se for tratado de forma prática e técnica.

Nesta eleição Boff se engajou na campanha de Marina Silva. É provável que tenha influência sobre a candidata, pois ela não consegue de forma algum trazer a ecologia para o cotidiano do eleitor e se fortalecer com um discurso bem elaborado.

E Marina deve babar de adoração ao ex-frei. Esse evangelismo ecológico é também a cara dela. O estilo religioso e ecológico de Boff deve fazer dele um ídolo da candidata do Partido Verde, mas a verdade é que o ex-frei singra a campanha com os pés em duas canoas. É seu estilo, desde quando era membro da Igreja Católica.

Acontece que o barco de Dilma Rousseff é sabidamente mais potente que o bote que o PV arrumou para Marina Silva. Então Boff já andou declarando há cerca de um mês o apoio de Marina à Dilma no segundo turno. Nenhuma novidade para mim, mas de qualquer forma, não deixou de ser curioso que alguém tão próximo de Marina confesse de forma tão prematura que na verdade a candidata não é verde, mas laranja.

Hoje, em um artigo que chega até a ser engraçado, mas que não pode ser visto apenas dessa maneira, Boff junta sua candidata com a candidata do Lula e proclama a presença das duas nesta eleição como um fator de avanço apenas pelo fato de ambas serem mulheres. Ele diz também que este momento foi criado por forças transcedentais, cujo interesse é de que o poder seja de uma mulher.

É claro que ele sabe como está o andamento da eleição, com a campanha de Dilma, tendo o presidente da República à frente, querendo criar uma situação de vitória no primeiro turno. Com este clima, essa conversa serve apenas para o fortalecimento da candidata do PT, já que sua suposta candidata, Marina Silva, está bem fraca na disputa.

Logo no início do texto, Boff afirma o seguinte sobre Dilma e Marina: “ambas com indiscutível densidade ética e com uma compreensão da política como virtude a serviço do bem comum e não como técnica de conquista e uso do poder”.

Isso dá bem a dimensão da sua leviandade política. O ex-frei é aquele tipo de articulista com uma filosofia que se encaixa em qualquer circunstância do seu interesse. O problema é que os textos sempre dão a impressão de que ele faz isso com uma marreta. O encaixe só convence se o leitor for cego em qualquer matéria afeita ao assunto, inclusive a política.

Como ele anda obcecado pela ecologia, o assunto entra em tudo. Ele é um desses que fazem algo fascinante como a ecologia se transformar num assunto cacete. Segundo sua filosofia, Gaia e a Grande Mãe, como ele chama o planeta Terra, tem uma mensagem para nós, que vem “através dessas duas mulheres”, Dilma e Marina, é claro.

Esta mensagem seria de “equlíbrio” e, sempre segundo seu amalucado texto, “deverá passar pelas mulheres predominantemente e não pelos homens”. Os homens, na visão de Boff, “depois de séculos de arrogância, estão mais interessados em garantir seus negócios do que salvar a vida e proteger o planeta”.

Parece um texto combinado com o Lula. Tirando a pseudo-filosofia, é o mesmo lero-lero de presidente marqueteiro que tenta qualificar Dilma pelo fato dela ser do sexo feminino. Como se os problemas ambientais do planeta, a "Grande Mãe", como ele prefere, tivessem origem numa questão de gênero.

Nesta dobradinha entre Teologia da Libertação e ecologia, Boff segue uma linha semelhante de raciocínio. As coisas sempre se encaixam. O pensamento está sempre de acordo com seu interesse político momentâneo. A ecologia pode servir para o elogio ao MST, assim como poder servir para Dilma, uma notória inimiga dos ambientalistas. E para isso ele pode até usar de forma condenável o nome da candidata que supostamente apóia, a verde Marina que ele tenta transformar em laranja.
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POR José Pires

Mas no final, Boff vai mesmo é com a mulher do Lula

Até vindo de Leonardo Boff o artigo é exagerado. Como tantos outros textos seus, tem um lado cômico, ainda que involuntário, mas o serviço que presta para a candidata governista não é nada engraçado. Boff junta sua candidata com a candidata do Lula e proclama a presença das duas nesta eleição como um fator de avanço apenas pelo fato de ambas serem mulheres. Ele diz também que este momento foi criado por forças transcendentais, cujo interesse é de que o poder seja de uma mulher.

De quebra, ainda arruma mais um defeito para o candidato José Serra, o único ainda em condição de disputa com a candidatura do PT. Serra é homem. Se não fosse a desonestidade flagrante até que datia para rir.

É claro que Boff sabe como está o andamento da eleição, com a campanha de Dilma, tendo o presidente da República à frente, querendo criar uma situação de vitória no primeiro turno. Com este clima, essa conversa serve apenas para o fortalecimento da candidata do PT, já que sua suposta candidata, Marina Silva, está bem fraca na disputa.

Logo no início do texto, Boff afirma o seguinte sobre Dilma e Marina: “ambas com indiscutível densidade ética e com uma compreensão da política como virtude a serviço do bem comum e não como técnica de conquista e uso do poder”.

Isso dá bem a dimensão da sua leviandade política. O ex-frei é aquele tipo de articulista com uma filosofia que se encaixa em qualquer circunstância do seu interesse. O problema é que os textos sempre dão a impressão de que ele faz isso com uma marreta. O encaixe só convence se o leitor for cego em qualquer matéria afeita ao assunto, inclusive a política.

Como ele anda obcecado pela ecologia, o assunto entra em tudo. Ele é um desses que fazem algo fascinante como a ecologia se transformar num assunto cacete. Segundo sua filosofia, Gaia e a Grande Mãe, como ele chama o planeta Terra, tem uma mensagem para nós, que vem “através dessas duas mulheres”, Dilma e Marina, é claro.

Esta mensagem seria de “equlíbrio” e, sempre segundo seu amalucado texto, “deverá passar pelas mulheres predominantemente e não pelos homens”. Os homens, na visão de Boff, “depois de séculos de arrogância, estão mais interessados em garantir seus negócios do que salvar a vida e proteger o planeta”.

Parece um texto combinado com o Lula. Tirando a pseudo-filosofia, é o mesmo lero-lero de presidente marqueteiro que tenta qualificar Dilma pelo fato dela ser do sexo feminino. Como se os problemas ambientais do planeta, a "Grande Mãe", como ele prefere, tivessem origem numa questão de gênero.

Nesta dobradinha entre Teologia da Libertação e ecologia, Boff segue uma linha semelhante de raciocínio. As coisas sempre se encaixam. O pensamento está sempre de acordo com seu interesse político momentâneo. A ecologia pode servir para o elogio ao MST, assim como poder servir para Dilma, uma notória inimiga dos ambientalistas. E para isso ele pode até usar de forma condenável o nome da candidata que supostamente apóia, a verde Marina que ele tenta transformar em laranja.

Como ficaria difícil criar qualquer tipo de combinação entre as duas no aspecto político, ele apela para o sexismo. Fica como uma visão torta, efeito das marretadas para encaixar algo tão absurdo numa discussão que envolve o destino do País.

O ex-frei não entende nada de mulher, como dizem amigas minhas quando alguém vem com essa conversa de que o exercício do poder pode ser mais ameno na mão das mulheres. E o interessante é que a própria Dilma, em quem Boff identifica uma suavidade que seria emanada da própria Terra, desmente seu arrebatamento. Dilma é grossa, mandona, passa o trator em qualquer discussão sobre respeito ao meio ambiente, como bem sabe Marina, dita por ele a alma gêmea da candidata petista.

Mas a teoria do ex-frei pode ser derrubada de forma bem simples. É só pedir que ele explique onde entra Margareth Tatcher neste enredo romântico ou mesmo a brasileira Kátia Abreu, senadora do DEM que é vista e tratada como demônio pelos ambientalistas.

A receita de Boff poderia também causar um problema para seus companheiros no Rio Grande do Sul. Ora, vendo a coisa por este lado a única salvação dos gaúchos é a recondução da governadora Yeda Crusius ao poder. Até prova em contrário, Tarso Genro e Fogaça não possuem entre as pernas essa nova e indispensável qualidade para governar.

Boff também não explica a razão de ter apoiado Lula nas últimas duas décadas, já que a "Grande Mãe” exige uma mulher na direção de seu destino. Bem, mas aí talvez seja um insight recente da própria Terra, que teve uma compreensão de que, definitivamente, com homem no poder não dá. E para felicidade da “Grande Mãe”, o ex-frei tem não só uma, mas duas candidatas ao posto de salvadora do planeta. Isso é que é sorte da Terra, não?

Porém, sabemos muito bem que Boff usa este argumento do feminino como a redenção do humano apenas pra prestar um serviço à candidatura do PT. Sim, candidatura do PT, porque dá a impressão de que ele está na coordenação política de Marina Silva com uma sinceridade parecida com aquela que dedicava à Igreja Católica.
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POR José Pires

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Serra e a Síndrome do Zé

Nesta eleição o candidato José Serra pode acabar dando o nome a um efeito eleitoral que geralmente acomete políticos sem rumo definido e que numa campanha seguem sem nenhum senso crítico as determinações de marqueteiros. Não é coisa nova, mas com o rumo que a sua candidatura vem tomando desde que o marketing tomou de vez a frente da política, este efeito pode passar a ser chamado de Síndrome do Zé.

Até começar de fato a campanha, Serra vinha se colocando no noticiário com a coerência de sempre. Poupava-se do confronto direto com Lula, porém sem perder a imagem de oposicionista. E, sem dúvida, era o que sustentava os altos índices que tinha desde que começaram as pesquisas.

É impossível ter a certeza da exata motivação que fazia tanta gente cravar seu nome em todas as pesquisas que apareciam, mas não dá para acreditar que alguém pensaria em votar em Serra por uma suposta proximidade com Lula ou pela continuidade do governo que aí está, sem críticas ou rupturas importantes com o modelo lulo-petista.

Com certeza não era isso que há meses vinha levantando o prestígio de Serra, até porque o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves, explorava este papel de variadas maneiras, sem que isso refletisse alguma vantagem para sua posição em qualquer pesquisa. Aécio deixou de ser o neto de Tancredo para ser Lula desde criancinha. Mas amargou uma rabeira de fila nas pesquisas. Era o lanterna em qualquer situação e perdia no segundo turno para qualquer um.

Penso que o que sustentava Serra acima de todos os outros nomes da oposição, vencendo inclusive a candidata de Lula ou o oficioso Ciro Gomes, era o desejo de mudança de uma parcela importante do eleitorado, uma porção de gente que gradativamente foi se frustrando com a dificuldade do tucano em assumir com vigor este papel.

Na minha visão, o marketing desastroso dos tucanos, apresentando de forma populista um político que sempre foi visto como o contrário disso, para isso até trocando seu nome para Zé, veio só fortalecer a queda de prestígio que vinha se desenvolvendo de forma lenta em razão de erros políticos sucessivos, sendo o pior desses erros o abandono do discurso crítico que sempre foi a marca de Serra.

O marqueteiro dos tucanos é um gênio. Em poucos dias conseguiu fazer de um dos políticos brasileiros de identidade mais firme uma figura indefinida, que num momento ataca de frente a candidata Dilma e logo após afaga até com carinho o criador desta adversária, o presidente Lula.

Serra é vítima de um dos maiores males de marqueteiros. Pode ser chamado de Síndrome do Zé, assim como poderia ter o nome de Síndrome do Geraldo. Mas Síndrome do Zé é bem melhor, pois Alckmin nunca teve personalidade mais firme antes de tentar virar Geraldo. Ou pelo menos nunca soubemos disso.

A Síndrome do Zé acomete aquele político que segue de forma obediente as determinações de seu marqueteiro. Político experiente e de personalidade não faz isso, o que torna ainda mais interessante o fato de Serra atender de modo obediente seu marqueteiro, passando a fazer coisas que nada tem a ver com o que construiu até agora e muito menos com o que as pessoas sempre esperaram dele como líder político.

Não é nova esta técnica de fazer uma mudança abrupta e sem base na personalidade do político. Já teve até marqueteiro que quis raspar o bigode de candidato que por anos nunca teve a cara lisa. O mesmo marqueteiro que convenceu Serra com esta proposta equivocada em que até a figura de Lula é tratada como grande estadista, já fez coisa pareceida com Alckmin, ou o Geraldo, na campanha histórica para a presidência da República em que o candidato tucano teve menos voto no segundo turno do que no primeiro.

O marqueteiro do Serra está fazendo também a campanha tucana em São Paulo para o governo estadual. E por lá ele ainda persegue esta idéia de fazer o povo chamar o Alckmin de Geraldo. É bem curiosa esta mania de trocar nome de candidato. Será uma doença profissional, algo como uma LER que dá em marqueteiro? O fato é que em caminhadas de rua sempre vem alguém da campanha na frente da turma de Alckmin avisando o povo: "Olha o Geraldo aí". Parece piada, mas isso acontece de verdade.

Não sei se fazem isso também com o Serra. Olha o Zé aí, gente! Bem, mas ele que se cuide, pois não é improvável que com esta linha possam até levar a disputa com Dilma para o segundo turno para então quebrar o ineditismo de Alckmin, ou Geraldo. Isso, o Zé pode ter menos votos no segundo turno que o Serra no primeiro. Ou vice versa.

Mas ainda dá para reverter a imagem do candidato para o que havia antes da Síndrome do Zé? É bem difícil, já que os efeitos desta síndrome se dão com uma rapidez danada e muitos desses danos não permitem soluções no curto prazo de uma campanha eleitoral.

E um dos piores efeitos desta síndrome já parece ter se instalado na candidatura tucana. É o que faz o eleitorado não aceitar a nova imagem que o marketing tenta impor e também não ter mais confiança na capacidade do candidato encarnar aquilo que aquilo que até então sua carreira política representava.

Isso parece já estar ocorrendo com a candidatura de Serra. E ele que se cuide, pois se isso estiver de fato acontecendo a derrota é certa. E o pior não é só isso: é o que vem depois. Com a descaracterização, é muito rara a sobrevida de políticos atacados por esta síndrome.
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POR José Pires

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Benefício com custo alto demais

Entre as lições que esta eleição trouxe para a oposição, uma delas é sobre o cuidado que se deve ter na composição das alianças. O problema é que esta é uma questão bem velha, entretanto, como ficamos sabendo agora que burro velho (ou tucano velho, tanto faz) tem a necessidade inclusive de antigas lições, resta-nos torcer para que a dificuldade com ensinamentos novos não seja a mesma com lições até mais velhas que o próprio burro.

Podemos começar com uma questão, velhíssima também, a do custo-benefício, coisa simples que até alguém sem doutorado em economia, como é o caso da Dilma Rousseff, não teria dificuldade em saber.

Numa análise de custo-benefício, qual teria sido o fator que pesou para que José Serra (ou Zé, se já não deixaram pra lá esta imensa besteira) aceitasse o PTB na aliança formada em volta de sua candidatura?

Tudo concorre contra a companhia do PTB em qualquer tipo de avaliação que se faça sobre este partido. Para os tucanos, então, sair em campanha com os logotipos lado a lado é enterrar boa parte do discurso que poderia alavancar a subida de Serra, a começar pela da corrupção, tema que é a base óbvia de desgaste de Lula e do PT, com o mensalão como um fato destacado de reforço à questão.

Mas fica difícil de convencer o eleitor com o discurso contra a corrupção, tendo ao lado o PTB e ainda mais estando na presidência do partido o inacreditável Roberto Jefferson, que fez a denúncia do mensalão apenas porque teve problemas com sua cota na partilha do suborno.

O que tem de lucro na parceria com o PTB é apenas seu tempo no horário eleitoral no rádio e na TV, o que é muito pouco, cerca de 1 minuto. Não dava para o PSDB passar sem isso? Claro que dava, mas ficaram centrados no horário gratuito, sem fazer uma análise séria sobre o custo-benefício. E isso porque os tucanos tem a imagem de entenderem bastante de economia.
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POR José Pires

A herança maldita vem junto na aliança

Esta questão do custo-benefício também se apresenta na aliança dos tucanos como o DEM. Parece bastante como o problema que o Serra tem com o o PTB, pois ambos os partidos nada trazem além do benefício do tempo eleitoral gratuito. Porém, mesmo o DEM tendo mais tempo a oferecer do que o PTB, será que vale o custo?

Já expus aqui as razões porque vejo este partido como uma farsa. Não tem representatividade alguma pelo país afora e quanto tem presença marcante em alguma região é pela rejeição que os patifes locais da legenda angariaram em décadas de arrogância e falcatruas.

A história do DEM, em conjunto com atuações recentes, inclusive no desempenho do partido em assuntos da administração pública, interfere de forma negativa em qualquer ponto político importante na atualidade.

O meio ambiente é um item dentro da agenda deles somente na truculência da sua bancada ruralista, boa para peitar o governo para deixar de pagar dívidas em bancos público e intransigente em qualquer aspecto da regulação das atividades agropecuárias e não só na questão do meio ambiente. Não querem discussão nem sobre a qualidade dos produtos, seja sobre métodos de exportação ou abuso em agrotóxicos e medicamentos para os animais.

Na escolha do vice da chapa de Serra, o deputado Índio da Costa, ficou bem claro como é difícil a convivência com a truculência do DEM. Depois do vice ter sido imposto, os tucanos ainda tentaram justificar com a presença do deputado na relatoria da Lei Ficha Limpa, que traria para a campanha esta questão importante.

Mas na realidade, além de Índio da Costa não ter conquistado essa importância no encaminhamento da Lei Ficha Limpa, sua presença na chapa traz também a lembrança de variados escandalos, como o dos panetones em Brasília, armado por um nome nacional do DEM, o ex-governador Arruda. Porém, mesmo se o governador distrital de Brasília não tivesse sido pego em flagrante, bastaria puxar a ficha do DEM para pegar muita coisa suja do tempo em que eles foram o PFL. Herança maldita o DEM tem de sobra.

Ou seja, o relator da Ficha Limpa é do mesmo partido do protagonista do escândalo mais significativo dos últimos tempos. E o DEM é muito mais conhecido por este fato, uma mancada grosseira que além do mais foi a melhor ajuda recente para a justificativa lulo-petista que busca nivelar a política pelo discurso de que todos são iguais na falta de ética.
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POR José Pires

Richa, Alckmin e Anastasia que se cuidem

Em Brasília a desatenção, para dizer o menos, da alta cúpula do DEM quanto à corrupção de um de seus líderes de maior importância, pode vir sempre ao debate quando o assunto for a lei Lei Ficha Limpa. O então presidente do partido e atual líder de bancada, Rodrigo Maia, era amigo de Arruda e não conseguiu nem fazer o companheiro se segurar próximo de ano eleitoral.

Maia pode sempre afirmar que não sabia de nada da corrupção em Brasília, mas é uma justificativa que, em política, é apenas um pouco menos pior do que ser ladrão.

No DEM é difícil se dar com a tigrada e no PTB tem o Roberto Jefferson, um político que perde as estribeiras todo o tempo e, pior, sempre imaginando que está sendo admirado pela espirituosidade e o tino político. Deve ser até interessante assistir a uma conversa entre ele e deputado Rodrigo Maia. Mas que seja de fora, sem nenhuma responsabilidade pela consequência do que sai da boca dos dois.

Jefferson é em parte responsável pelo fuzuê da escolha do vice de Serra. O petebista inclusive aproveitou a confusão que veio depois que ele anunciou em primeira mão que o PSDB havia optado por uma chapa com um vice tucano para atacar o DEM, que não aceitava tal solução.

Na ocasião ele e Maia fizeram uma dobradinha destruidora, um alimentando a discórdia no twitter e o outro sendo bem agressivo na entrevistas à imprensa, tratando muito mal até mesmo os companheiros de aliança.

Jefferson continua fazendo pela internet o estranho serviço que não parou de fazer desde que ocorreu aquela confusão. Em seu twitter ele acaba de decretar a derrota de Serra. Estamos há mais de um mês da hora final do voto, mas ele parece não se ligar muito na construção da candidatura. O negócio é explorar fatos, qualquer fato. Vejam o que ele escreveu: “Agora que os anéis se foram, resta salvar os dedos. Temos que guardar energias para eleger o Beto Richa, consolidar o Geraldo Alckmin e virar o Antonio Anastasia”.

Bem, pelo menos ele tem a sinceridade de avisar o paranaense Beto Richa, o paulista Alckmin e o mineiro Anastasia para se cuidarem, pois contam agora com a participação ativa do presidente do PTB em suas campanhas.
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POR José Pires