quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Afinal, quem é Dilma Roussef?

Dilma Roussef é muito esperta. E pelas histórias que conta, na sua juventude ela fazia parte de um grupo pra lá de esperto. Até comiam farinha com palitinho, o que não é coisa pra qualquer rapaziada. O grupo que está em torno dela agora também é muito esperto, tão ladinos que devem ser capazes até de fazê-la imaginar que, vencendo a eleição, ela é quem estará no comando.

Esta questão do aborto é um bom exemplo da esperteza da tigrada. No plano deles, logo o Brasil inteiro estará pedindo desculpas para a Dilma. O ponto que realmente interessa neste assunto é que a candidata do PT mente. Não, Dilma não “falta com a verdade”, como se costuma dizer quando o verdadeiro sentido das palavras traz um temor de seu uso como contra-ataque pelo adversário. Não estamos atacando ninguém. Só pedindo respeito para com a verdade. Mas o PT está sempre procurando criar este clima de medo no debate político, como se pretendessem dominar até o que sai das nossas bocas.

Neste e em outros assuntos Dilma Roussef não “falta com a verdade”. Ela mente. É mentirosa.

Ela já afirmou que é favorável à descriminação do aborto. Ou, para usar as palavras certas, é pela legalização do aborto. Ela já deu esta afirmação em entrevistas escritas e gravadas. Nada contra, até porque eu tenho a mesma posição. O problema é que ela disse isso quando lhe era conveniente. Deve ter feito então muito sucesso entre a companheirada. E agora desdiz porque o cenário político exige uma outra Dilma.

Bem, sobre a posição favorável ao aborto não há o que discutir. O direito à opinião permite inclusive a luta para que a legalização ocorra. E o bom senso também permite a quem tem posição tão avançada escolher com mais inteligência seus caminhos políticos. Minha candidatura a presidente da República, por exemplo, é só para daqui umas três décadas, quando eu vou estar com a idade do Plínio de Arruda Sampaio. Isso se o Brasil melhorar até lá, é claro.

Voltando, não há nenhum problema em ser favorável ao aborto. Acho até que, tirando a piada, o assunto não seria determinante se as duas candidaturas que estão neste segundo turno fossem mais consistentes. Mas o que não se admite é a mentira oportunista em um debate público. Isso e as encenações posteriores, como o uso do batizado religioso do próprio neto numa das tentativas de manipular a opinião pública e também a ida à basílica de Aparecida, onde disse aos jornalistas que era devota da santa, mas durante a missa fez errado o sinal da cruz. Puxa vida, mas foi-se até o tempo em que cristão-novo sabia mais de religião que os devotos de sempre.

Na foto cima, todo mundo segue a missa direitinho e faz o sinal no momento certo. Dilma só fez depois. A melhor tirada sobre essas mancadas quem fez foi Augusto Nunes, em seu blog no portal da Veja. "É nisso que dá estudar catolicismo com Frei Betto", ele escreveu. Nunes está certo, o Frei Betto é fogo. E o pior é que se ela estudasse guerrilha com ele tomaria bomba do mesmo jeito.

Um dia alguém ainda vai trazer uma grande revelação sobre Dilma, nada escandaloso e nem da sua vida íntima, mas que pode aplacar a curiosidade de muitos: afinal o que é que Dilma sabe fazer?

Por enquanto, em seu trânsito forçado em vários assuntos ela só comprovou uma especialidade: a de neófita.
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POR José Pires

A verdade é uma só: a candidata mente

A questão central, então, não é o aborto em si, mas o fato da posição da candidata Dilma mudar conforme a oportunidade. Aí a coisa fica perigosa, afinal o cargo em disputa é a presidência da República e não o de presidente de uma associação qualquer. Porém, como eu disse, ela é esperta e seu grupo de agora é ainda mais esperto do que seus companheiros de outrora com os quais passava as tardes comendo farinha com palitinho.

Mas esperteza é bom para a prática do estelionato. Na política deve-se exigir outras qualidades, entre as quais uma bem básica e da maior importância é a coerência.

Dilma mente sobre o aborto, mas isso não é novidade. Ela já mentiu bastante sobre seu passado e seu programa político na TV repassa sempre algumas dessas mentiras, como a da sua participação nas lutas pelas democratização do país. Dilma não teve papel relevante em nada do que aconteceu nos últimos anos.

A luta pela democracia, a imprensa anternativa, a organização política e partidária, a campanha das diretas, as primeiras eleições para as capitais e para os governos estaduais, a eleição de Tancredo neves, a primeira eleição para presidente da República, nada disso teve a presença de Dilma.

Ela fez a luta armada, mas até nisso ela não tem sido "assertiva". Pelo contrário, é bem recalcitrante. Segundo o que ela diz, seu papel é dos mais singulares e cheio de contradições. Era da liderança mas nunca pegou sequer num trabuco. Seu grupo roubou o cofre do político Ahemar de Barros, mas ela nada sabe do assunto. São argumentos que soam até como um desrespeito às pessoas que lutavam a seu lado, muitos deles torturados e mortos pela ditadura militar.

Ela mente também sobre sua posição administrativa quanto ao meio ambiente. E acho esta mentira até mais grave que a do aborto, pois o próximo presidente da República terá que definir políticas públicas sobre o meio ambiente numa situação mundial extremanente delicada para todo planeta.

Tanto quanto o seu partido, a candidata do PT nunca teve o menor interesse pelo meio ambiente. A ecologia pode até fazer parte do programa petista, mas há muito tempo que a máquina partidária é dominada por gente que até se gaba de ter um pensamento muito prático, o que significa que o importante é tocar o desenvolvimento pra frente, sempre privilegiando a lavoura de soja sem dar atenção a nenhum cerradinho.

A raiz leninista de todos eles também não permite uma compreensão clara sobre esta questão que a cada dia fica mais difícil de resolver. Capitalismo e marxismo sempre padeceram da mesma ilusão do industrialismo como um redentor da humanidade. O capitalismo ainda permitiu a discussão crítica que permitiu amenizar a destruiçao, mas os países sob o poder do socialismo real implantaram à força políticas agrícolas e industriais que arrasaram o meio ambiente.

Dilma nunca teve respeito algum pela ecologia. Por isso, até ganhou um "Troféu Motosserra" de ambientalistas quando foi secretária no governo do Rio Grande do Sul nos anos 80, época em que estava pendurada em cargos do brizolismo.

O PT tenta se fazer de vítima e conduzir uma discussão sobre coerência política para o plano do respeito à posições pessoais. Para fortalecer esta farsa, os petistas agora até vieram com a conversa de que o que levou Dilma a ser agressiva no debate com Serra na Rede Bandeirantes foi um boato repassado pela internet de que ela seria lésbica.

Bem, eu recebi há pelo menos três meses este e-mail apócrifo onde se conta a história de um processo que Dilma estaria sofrendo de uma mulher que supostamente teria tido um caso amoroso com ela.

O destino deste e-mail foi o mesmo de tantos outros, inclusive de vários outros e-mails, mas muitos mesmo, com ataques terríveis contra o candidato Serra. Esse tipo de coisa vai depressa para a lixeira. Alguns eu nem abro, já que é possível perceber o conteúdo idiota pela linha do assunto.

Mas o que fez Dilma e seu grupo muito esperto? Trouxeram o lixo para a opinião pública. Vale tudo para se fazer de vítima e procurar obscurecer o centro da discussão: o de que Dilma mente.
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POR José Pires

O currículo de quem mentiu a vida toda

O histórico de falsidade de Dilma Rousseff é longo. A candidata já mentiu até em assuntos mais importantes do que este do aborto, como no caso do seu currículo falso, onde apresentava um título de um doutorado nunca concluído. Ali, Dilma mostrou que não respeita nem códigos morais e até legais que sustentam o respeito ao ensino superior.

Quando foi pega na mentira do doutorado, ela tentou usar um estratagema parecido com o de agora. É normal entre petistas. Quando flagrados, fazem-se de vítima e passam a atacar quem busca o esclarecimento.

Eles tentaram de todas as formas se safar da treta curricular. Dilma ainda não era candidata a presidente, mas ocupava a Casa-Civil de Lula. Alegaram até erro de subalternos, que teriam publicado o currículo por engano no site do ministério.

Acontece que Dilma se apresentava pessoalmente como doutora. A mentira da agora candidata foi comprovada quando surgiu, na época da polêmica sobre o falso currículo, o e-mail de um professor da USP narrando um encontro com a então ministra onde fica claro que ela sempre mentiu sobre o doutorado.

O e-mail foi enviado a um grupo de colegas por Ildo Sauer, ex-diretor de gás e petróleo da Petrobrás no governo Lula. A mensagem evidentemente vazou e é totalmente autêntica. Isso já foi confirmado diretamente pelo professor Sauer.
Vale a penas ler na íntegra, inclusive com a grafia do próprio autor. O e-mail é o seguinte:

"Em fins de 2002, todos os membros do grupo de energia (dirigido pelo Lula) do Instituto Cidadania, foram solicitados a entregar o currículo. No dela (Dilma) constava o título de Doutor. Como ela tinha manifestado interesse em estudar os assuntos de regulação, perguntei:
- Você tem o Doutorado?
- Sim.
- Então vou te convidar para participar da banca de doutorado da Sonia Seger Pereira Mercedes, que analisa comparativamente, desde o Império até 2002, a estrutura e regulação das industrias de energia elétrica e saneamento, discutindo os impactos dos ajustes liberais dos anos 90. Você vai ter a chance de se atualizar e contribuir... Resposta:
- NÃO TENHO TEMPO PARA ESTAS COISAS....
Me senti constrangido. Afinal "estas coisas" para as quais ela não tinha sequer tempo, eram o foco principal da vida profissional e vocação de muitos de nós, e, com certo sentimento de orgulho....
HOJE COMPREENDO...
O DESPREZO E O DESDÉM ERAM FERRAMENTAS PARA ENCOBRIR A IMPOSTURA...
HÁ OUTRAS.....
Abraço
Ildo"

É isso. A situação descrita pelo professor é bem verossímil, até pelo desprezo de Dilma pelo trabalho dos outros. Ela já fez isso com Marina Silva e outros ministros. Paulo Bernardo já confessou que recebeu um tratamento duro dela. Teve ministro que saiu chorando de reunião quando ela era a ministra mais prestigiada pelo presidente Lula.

Dilma também já foi grosseira em público com o ex-ministro Carlos Minc, que entrou no ministério do Meio Ambiente no lugar de Marina, que saiu porque facilitava menos o atropelo às leis ambientais.

Um episódio com Minc ocorreu na Conferência do Clima, em Copenhague, onde Dilma estava apenas em razão da sua candidatura. Minc tem vasta experiência nesse tipo de evento. Dilma é uma neófita no assunto, como em tantos outros. Pois quando fazia ponderações numa reunião interna durante a conferência, Minc foi destratado por ela. “Olha menino, isso aqui não é coisa de amador, é para profissionais”, ela disse. Minc tem 59 anos , apenas quatro anos menos que Dilma, e pelo menos 30 de militância ecológica.

A atitude de desprezo é parecida com a narrada pelo professor da USP, na conversa em que ela confirmou com falsidade seu doutorado. O falso currículo foi bastante debatido na época. E foi apenas mais uma entre tantas mentiras, que soma-se agora à sua posição referente ao aborto e que pode ser juntada também à mentira muito grave sobre os objetivos do grupo de luta armada em que ela participava da liderança. É a história da velha argumentação farsa de que eles lutavam pela democracia, quando, na verdade, o que pretendiam era a implantação de uma ditadura comunista no Brasil.

Enfim, mentir já uma prática incorporada na sua vida. É provável até que todos eles tenham essas mentiradas como verdades pétreas. Até não me espantaria em saber que por temor à implacável chefe todo mundo a trate na intimidade como doutora Dilma.
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POR José Pires

O poder sem escrúpulo algum

Essa conversa que os petistas trouxeram para a internet sobre o e-mail apócrifo que fala em lesbianismo, acaba liberando a discussão de um assunto que, de outra forma, ocuparia apenas o espaço da lixeira em correios eletrônicos. Nunca vi sequer uma menção disfarçada ao tema do suposto lesbianismo de Dilma em nenhum blog ou site, mesmo os que são de oposição radical ao PT.

Não dá para dizer o mesmo dos blogs e sites governistas. Os ataques ao candidato Serra são de um nível que passa da calúnia e da difamação. Nada tem de debate político. Já vi até acusações bem graves que tocam em sua vida íntíma.

É tamanha a agressividade que obriga até o petista mais empedernido a concordar que, no tocante à democracia, os tucanos estão bem à frente deles. Não se fazem de vítima, como fazem sempre os petistas, e tampouco ameaçam ou processam nenhum blog. Suportam até as grosserias e leviandades como parte do debate político.

Não faltam ataques grosseiros também à Marina Silva. Nas últimas semanas ficou conhecido um desses ataques à candidata do Partido Verde, feito por um dos autores de um dos blogs mais antigos em apoio à Dilma, o Blog da Dilma, que evidentemente deve ter ligação direta com a campanha da candidata.

A agressividade é impressionante e mais impressionante anda é a falta de capacidade política para compreender a importância que Marina teria neste segundo turno. O texto foi publicado cerca de uma semana antes da eleição. É também um grave erro de avaliação. Não perceberam o potencial da candidatura do PV.

No texto, Marina é chama de "traíra". Um trecho: “Marina mostra que não tem pudor nem ideologia, é só uma ecochata fazendo o jogo sujo do poder por despeito e vingança". Noutro ponto, a candidata é atacada de forma mais pessoal, na sua relação com o líder seringalista Chico Mendes, que foi para ela uma espécie de mestre na política. Leiam: "Traiu também a memória de Chico Mendes quando se uniu àqueles que, disfarçadamente, alegraram-se com a morte do grande líder seringueiro". Com a repercussão negativa da publicação do feroz ataque, ordens superiores devem ter determinado a exclusão do post, o que foi feito pelos responsáveis pelo Blog da Dilma. Mas já havíamos copiado. Quem quiser ler na íntegra, clique aqui, onde está também o fac-símile da página do blog.

Num outro site da internet, da revista eletrônica Nova-e, um articulista resolveu chamar José Serra de “José Serra, o Escroto”. Isso mesmo. É um absurdo, mas é a pura verdade. A Nova-e até já teve um bom conteúdo. Hoje é um site de um assunto só: a eleição de Dilma. O petismo tem esse poder de contágio: torna ilegível tudo que toca.

Pois o articulista da Nova-e resolveu chamar o candidato tucano de “José Serra, o Escroto”. Vai parecer sempre inacreditável, mas é isso mesmo. Vejam um trecho: “A grande mídia acusa os independentes de irresponsáveis. OK, vamos lá, vamos fazer como a Veja, assumir o papel de mau gosto: a partir de hoje, só me refiro a José Serra como José Serra, o Escroto”. Ele faz este preâmubulo como justificativa e toca a se referir desse modo a Serra.

Fiz questão de contar: ele escreve isso vinte vezes. A falta de senso fica clara até na justificativa para a grosseria, quando ele alega que “a grande mídia acusa os independentes de irresponsáveis”. A resposta a isso é uma piada involuntária: o articulista passa a agir como um irresponsável.

Podemos pegar incontáveis exemplos desse estranho modo de ver o mundo, uma insensatez que tomou conta da personalidade até de pessoas que antes pareciam relativamente equilibradas.

Já falamos algumas vezes do caso do jornalista Mino Carta. Ele poderia passar para a história como um dos nossos maiores jornalistas, um autor de grandes inovações jornalísticas e criador de revistas importantes com a Veja e a Carta Capital, que foi uma boa publicação até o início do governo Lula. E seu caso é deveras estranho; antes de Lula ganhar a primeira eleição para presidente da República o editor de Carta Capital desancava o petista. Fez até um romance, “O Castelo de Âmbar”, em que Lula é um personagem importante como o nome de “Tosco”. No livro Lula é também o “derrotado vitalício”.

Mas de lá para cá tudo mudou. Depois que Lula finalmente alcançou o poder (que, aliás, ele quer que seja vitalício), Carta deixou o jornalismo de lado e passou a fazer uma revista de propaganda política. Carta Capital adotou uma linha editorial governista e faz ataques à oposição. Vive praticamente de anúncios do governo e de empresas estatais. Duvido que tenha leitura fora do círculo simpatizante petista. Eu fui um leitor assíduo, hoje acompanho apenas por obrigação profissional.

Em seu antigo blog, Mino Carta já justificou esta aderência ao poder que acabou com sua também antiga imagem como a única salvação que viu para resguardar sua Carta Capital do “definitivo, irremediável fracasso". Palavras suas, é claro. Bem, está certo que da vida nada se leva, mas será que não temos que pensar no que deixaremos aqui? O Mino Carta anterior havia construído uma herança mais digna.

Existem muito mais exemplos dessa capacidade que o governo Lula teve de destruir o equilíbrio das pessoas, muitas vezes prejudicando seriamente sua capacidade técnica e afetando a credibilidade, aí sim de forma "irremediável", até em profissões onde o respeito à credibilidade é tudo.

Dilma pode até ganhar esta eleição, mas com a subida ao poder feita dessa forma, manipulando sem escrúpulos a informação até em prejuízo da respeitabilidade pessoal e a qualidade profissional de seus seguidores, não tem como não suspeitar que tentem coisas muito piores do que já vimos nestes oito anos de Lula.
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POR José Pires

domingo, 10 de outubro de 2010

Afeição

No episódio que cito no post abaixo, em que Lula disse que com ele "agora a polícia bate em quem tem que bater", ficou claro em outra declaração que o nosso presidente é um grande mentiroso.

Lamentando a aproximação do fim do mandato ele fez menção de como seria bom não largar a faixa presidencial. Vai na íntegra :"No dia 31 de dezembro, à meia-noite, eu ainda estarei com a faixa. Estou pensando em colar a faixa (presidencial) na minha barriga com aquela cola que não sai, e daí sair correndo".

Para flagrar e mentira do Lula nem precisaria desta afirmação, já que pode ser constatada em qualquer fotografia ou cena de TV. Acontece que o que se sabe é que a faixa presidencial fica no peito da pessoa. Qualquer faixa. Alguém já imaginou o vexame de uma moça falando sobre a faixa de miss na barriga? É no peito, o que em concurso de miss, aliás, até conta pontos.

Na barriga ela só fica se a pança já estiver muito avantajada, o que pode ser visto claramente que acontece com o petista.

Como se vê, é outra mentira do Lula aquela história de que ele prefere uma esteira de ginástica a um livro. A bem da verdade, como é possível perceber pela estranha animação que ele demonstra em algumas ocasiões públicas e pela sua cara em fotografias, o objeto de que Lula parece gostar mesmo é bem outro.
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POR José Pires

Sem espaço para a segurança

Basta dar uma passada rápida de olhos nos jornais ou na internet para ver que a violência domina a vida brasileira. Nas grandes cidades e também nas médias é só ir até à esquina para sentir o nível da desgraça ou à vezes nem é preciso sair de casa. A violência entra no quintal e não pode ser evitada pela portaria do prédio.

Também invade os condomínios de altos muros e milícia própria, onde brasileiros com maior capacidade econômica e grande peso nas decisões do país resolveram dar as costas às suas cidades e se fechar aos problemas brasileiros. Quando buscamos uma imagem de violência e falta de equilíbrio social vem sempre à nossa mente os lugarejos medievais fortemente protegidos, onde os visitantes podiam ser recebidos com óleo fervente jogados de cima das muralhas. Nesses condomínios brasileiros só falta o óleo fervente.

Mas, enfim, a violência é o grande problema brasileiro. Até porque é expressão da falta de direitos básicos e a ausência total de ação do Estado, que foge de suas responsabilidades em qualquer área.

A falência da segurança pública começa a ter consequências diretas na política, onde as organizações criminosas passaram a ter um perigoso poder decisório. Se isso não for parado agora, enquanto aparentemente ainda existe essa possibilidade, qual será o custo mais para a frente?

A violência tem criado quadros cotidianos terríveis. Abrir a internet é começar o dia com uma notícia ruim. Pode ser na sua própria cidade ou em qualquer outra do Brasil. O grupo armado manda os jovens se ajoelharem e mata todos com tiros à queima-roupa. Um mata o outro por causa de um sinal vermelho. Ou verde, tanto faz. O terror é vivido pelas crianças desde cedo. E nem é mais sensacional a notícia de uma ou outra atingida mortalmente por um tiro dentro da escola ou caminhando pela rua.

Nesta semana o presidente Lula tocou no assunto a seu modo. Foi mais para favorecer sua candidata à presidente da República do que para dar satisfação de suas responsabilidades.

No governo dele, conforme suas palavras literais, “a polícia bate em quem tem que bater”. Esse é o problema de ter alguém como Lula na presidência da República. O próprio presidente acaba dando um valor institucional para a violência. Deve ser complicado para um governante estrangeiro entender um país como o nosso, onde a polícia é liberada pelo próprio presidente para bater em seus cidadãos. Mas só em quem merece apanhar, conforme a lógica de Lula.

Mas numa coisa ele tem razão. A polícia bate mesmo. Não é culpa exclusiva do PT, mas não podemos esquecer que o partido chegou ao poder levado pela esperança dos brasileiros de que iria resolver também isso. Também não é culpa só dos tucanos, mas é um fato que eles tiveram tempo para encaminhar soluções, lá atrás, quando o problema ainda não era tão grave.

Parcelas determinantes da polícia do Lula ou de qualquer outro administrador público — pois no Brasil até as prefeituras começam a ter polícia própria com as tais guardas municipais — estimulam a violência e até exploram o terror instalado nas cidades brasileiras, ora agindo em sociedade com o tráfico ou favorecendo de forma conivente suas atividades.

Pode-se dizer que é uma minoria corrupta dentro das polícias, mas o fato é que a ação dessa, digamos assim, banda podre policial, parece decisiva não só na ineficiência das ações de prevenção e repressão como também na criação de terríveis conexões entre o crime e o Estado.

Policiais violentos e corruptos lucram até com a incompetência das instituições policiais e de justiça, que sequer amenizam a violência. Como o combate ao crime não dá certo, isso possibilita o surgimento do que em outros países é chamado de grupos paramilitares, mas que a nossa imprensa resolveu, com sua peculiar bonomia, chamar de “milícias”.

Pressionada por um lado pela ineficiência da polícia e, por outro, pela ação dos bandidos, a população aceita os paramilitares e nem teria a opção de rejeitá-los. Eles aparecem com a promessa da pacificação, mas trazem outros problemas. O bandido não pode ter a aprovação direta de qualquer autoridade e por isso é obrigado a agir na obscuridade. Já a milícia, além da relativa aprovação social, pode ter também a vista grossa de autoridades políticas, da polícia e da justiça, isso quando não recebe o apoio de fato ou executa suas ações em consórcio com a polícia.

Dá até saudade da época em que, como no samba, podia-se chamar o ladrão. Dá saudade também de quando chamar a polícia não era um risco.

O que acaba acontecendo é que nos bairros ocupados por estes paramilitares, até a venda do gás de cozinha, a TV a cabo e o aluguel ou venda de imóveis ficam em suas mãos. Hoje em dia em certos bairros do Rio de Janeiro é impossível regular oficialmente o preço do gás de cozinha porque os bandos armados tem tabelas próprias.

É um problema muito grave e bem próximo de todos. Na grandes cidades brasileiras e também nas médias é impossível encontrar alguém que não conheça uma pessoa que sofreu alguma violência. Mesmo horrores maiores, como o homicídio ou qualquer outro tipo de agressão física, já são tão comuns que os jornalistas nem se preocupam em ir atrás das histórias. As notícias são como resumos de boletins de ocorrência da polícia.

Mas tem alguns lugares em que o barulhos dos tiros e os gritos das vítimas não chegam. É na coordenação de campanha dos candidatos à presidência da República.

Este assunto não recebeu a devida atenção de nenhum dos nove candidatos no primeiro turno e é improvável que seja discutido pelos dois que estão neste segundo turno. O período até a hora do voto é curto até para o aborto.

Do que se sabe, Dilma pretende dar continuidade a "tudo de bom que está sendo feito pelo Lula", o que significa que seguirá com a política da “polícia que sabe em quem tem que bater”. Já o Serra vem prometendo que irá criar o Ministério da Segurança Pública, sem que nenhum jornalista tenha perguntado se para isso ele pretende antes fechar o Ministério da Justiça.
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POR José Pires

sábado, 9 de outubro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Ondas

Estou gostando das versões sobre a votação de Marina Silva. A versão da própria candidata é bem bacana. Para ela houve uma movimentação de eleitores com "postura e valores" que desembocou em seu nome. Ela só não explica porque este alevantamento cívico se concentrou em seus 19 milhões de votos sem resvalar nos 33 milhões de votos do Serra. Para lá só foi eleitor de olho em cargos? O Serra, hein? Só ele para atrair 33 milhões de gente sem "postura e valores".

É melhor lidar com políticos mais próximos de um padrão de normalidade. Políticos como Marina a gente nunca sabe se estão de onda ou acreditam mesmo no que estão falando. É capaz dela estar mesmo falando sério.

Gostei da explicação da Marina, mas a do Ciro Gomes é bem melhor. O Serra é fogo: emplacou o deputado meio cearense e mezzo paulista na cordenação de campanha da Dilma e a armação está rendendo. A animação na internet é total.

Ciro Gomes é uma peça rara. Qual é o político que sairia para passear de limusine nos Estados Unidos fazendo compras caras, filmaria este estranho passeio e ainda colocaria na internet? A família, ou "family", do Ciro fez isso. Mas o deputado neopaulista é precavido. Num determinado momento ele alerta a "family": - Pára com isso. Não vamu falar de compra não! Falar de compra e de dinheiro pra quê?"

E que outro político falaria que o vice da chapa da qual ele é agora um dos coordenadores, o deputado Michel Temer, é o chefe de um "ajuntamento de assaltantes"?

Mas eu dizia que gostei da sua versão para os votos da Marina. Para Ciro Gomes foi a "frouxidão moral" que motivou esse eleitores. E como quem perdeu com esta ida para o segundo turno foi sua candidata, Dilma, é sobre ela que ele deve estar falando. Ou então a "frouxidão moral" é do chefe do ajuntamento de assaltantes, não?

Mas ele não parou aí com sua brilhante análise. Os votos de Marina, segundo Ciro, também são dele. E evidentemente ele está falando das duas eleições que disputou para presidente da República, de 1998 e 2002.

Essa é uma versão sensacional: no inconsciente coletivo dos brasileiros está cravado um nome, o de Ciro Gomes; e cada movimentação que ocorre contra a "frouxidão moral" naturalmente é movida por esta imanente engrenagem que é o nome do deputado neopaulista que voltou pro Ceará.
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POR José Pires

Com que roupa

Entro no blog do cartunista Solda e quase levo um susto. Este “quase” aí é porque hoje em dia ando preparado para tudo. Se abrir um site numa manhã e ler que o presidente da República foi encontrado caído no chão na biblioteca do Alvorada em coma alcoólica, só vou achar estranho sua presença na biblioteca.

Mas voltemos ao blog do Solda. Lá encontro uma foto do cartunista Laerte vestido de mulher. Veja na imagem ao lado ele e o cartunista Bennet vestido de jovem; a frase abaixo é uma gozação que o Solda costuma fazer, mas só com os inimigos; puxei para cá para mostrar que ela serve também para o uso com os colegas.

Pensei em deixar esse assunto pra lá. Mas olhando o Laerte vestido de coroa perua com esta naturalidade que se vê na foto, também imaginei como ele deve estar se divertindo com as pessoas em volta dele fingindo que nada de novo está acontecendo — "E aí, Laerte? Bonito brinco, cara. Nossa que vestido lindo! Minha sogra tem um igualzinho, mas não cai tão bem no corpo dela". Pois vamos falar dessa esquisitice.

O Laerte esteve lançando um livro novo em Curitiba. Solda é de lá e é um cartunista dos bons. Nos anos 70 e 80, quando em São Paulo estávamos mais preocupados com a mensagem política contra a ditadura militar, em Curitiba ele já prestava muita atenção à qualidade do traço. Em suma, desenhava bem melhor que nós.

Além de publicar seus cartuns no blog, Solda faz também algo como uma coluna social na internet onde publica fotos do seu círculo de amizades e de colegas da publicidade, do jornalismo e, claro, do circuito nacional do humor, mais exatamente os cartunistas. Até foto do Duda Mendonça já saiu, quando foram todos — escritores, cartunistas e simpatizantes como o Duda Mendonça — num frio danado passar um fim-de-semana juntos numa pousada próxima à Curitiba. Mas a gente não estranha, porque curitibano é mesmo estranho.

No seu blog levo muito desses “quase” sustos. Conheço muitos que saem nas fotinhas, gente que não vejo há bastante tempo. Evidentemente todo mundo já tem certa idade e em muitos não caíram nada bem as marcas da velhice que se aproxima ou que já tomou conta do corpo.

A única pessoa que não envelhece no blog do Solda é o Paulo Leminski. Mas o Leminski foi embalsamado culturalmente pelos curitibanos. Moscou tem a múmia do Lênin para ser visitada. Dá a impressão de que em Curitiba podemos encontrar o Leminski ainda sentado em um bar em frente à interminável saideira. E o bom e velho Leminki nem velho ficou. Morreu perto dos quarenta.

Estou fazendo piada, é claro. O riso eletrônico do blog está com defeito. Mas o embalsamento cultural do pobre Leminski é um fato. Tem momentos que até parece paródia e é provável que até o Leminski iria rir se visse o que fizeram com ele, mas os curitibanos levam muito a sério a interminável louvação ao poeta nativo. Não atrapalhemos o culto ao culto Leminski.
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POR José Pires

Chateação, drogas e rock and roll

Mas eu dizia que meus contemporâneos estão todos ficando velhos. E a velhice cai bem em alguém? Já vi, digamos assim, gente da minha geração e perguntei para alguém do lado — mulher geralmente é melhor para esse tipo de questão, mas escolha uma que pega leve — se eu também estou acabado do mesmo jeito. As moças costumam me dar uma força para eu enfrentar com otimismo as cerca de três décadas (eu disse que elas me deixam otimista) que vem aí para finalizar. Dizem sempre que, para a minha idade, até que estou ótimo.

Mas e o Laerte? Anda se vestindo de mulher. Eu poderia pensar numa performance. Hoje todo mundo faz isso. Mas vejo na maquiagem do cartunista e nos brincos bem escolhidos um método e não um arranjo rápido para maravilhar os fãs. O que será isso?

Mudança de sexo não é coisa rápida e eu saberia logo porque os sites são loucos por esse tipo de coisa. Não se pode dizer que a internet brasileira só tem lixo, mas o internauta tem que agir como um vira-lata e fuçar muito para encontrar algo bom para ver. Daí que iriam adorar em estampar a manchete "Cartunista muda de sexo", em letras bem grandes logo acima de assuntos menores como aquecimento global ou o prêmio Nobel de Vargas Llosa.

É claro que corri para sapear na internet e encontrar uma explicação para o que anda acontecendo com o cartunista. Numa entrevista para a revista Bravo, Laerte conta que passou a se vestir de mulher levado por uma “profunda crise”. Ele garante que não é tara sexual, apesar de revelar que descobriu “um prazer indescritível, que nunca cogitei sentir”.

Pode ser. Mas a visão aqui de fora pode ser patética. Ele já deve ter ouvido isso dos filhos e dos amigos, mas não fica bem. É difícil de encontrar um valor estético, filosófico ou de qualquer outra qualidade em um homem de idade vestido de mulher. Não tem jeito do cara não ficar parecendo uma perua coroa.

Laerte não é homossexual. Mas atualmente quem é? Desconfio que não existe mais viado ou lésbica. Os pastores evangélicos estão pregando contra algo que nem existe mais. O homossexual já é uma espécie em extinção, irmão. Hoje em dia todo mundo é bissexual, que é o que o cartunista declara ser.

Ele é um dos grandes quadrinhistas nacionais, uma qualidade que evidentemente é relativa ao mercado brasileiro para esse tipo de trabalho. O quadrinho é uma arte industrial. Num país como o nosso, com a cultura de massa em um nível baixo e tão uniformizada, não se pode esperar evidentemente que surja um Asterix por aí. Mas o Laerte realmente fez muita coisa boa no ramo.

Digo isso porque ele expõe como um dos elementos da sua crise pessoal a insatisfação com o seu trabalho, que parece crônica. Ele diz que tem vergonha de tudo o que fez em quarenta anos de carreira. Mas aí pode ir para casa que você não tem problema algum. Isso é um sinal de saúde mental.

Os quadrinhos e também o cartum ou a charge, todo esse tipo de comunicação de massa depois de certa idade cansa mesmo. É difícil trabalhar nisso sem seguir códigos que não permitem uma expressão mais individual, até porque sem isso corre-se sempre o risco de romper a comunicação com o leitor.

Com música, seja MPB ou rock deve ser assim também. Para perceber isso, basta ouvir um grande álbum antigo. Aquilo não resiste a uma análise crítica sem que coloquemos o peso da nossa relação existencial com o, digamos assim, produto.

Bem, não é à toa que a maioria dos roqueiros cai nas drogas.
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POR José Pires

A difícil arte de não fazer arte

Fazer cartum ou charge pode até ser divertido. Mas é coisa rápida e sem pretensão artística, até porque uma rápida olhada em um quadro do Miró, por exemplo, basta para botar qualquer cartunista em seu devido lugar.

No Brasil é trabalho duro, pois o mercado é tão restrito que não permite mais nem um certo avanço dentro da própria linguagem do desenho de humor. Desenhistas de alta qualidade, como André François, que fez carreira na França, ou Steinberg, que viveu nos Estados Unidos, esses passariam fome no Brasil se tentassem viver do seu trabalho aqui. Será que é o leitor que não quer coisa melhor? Não dá para saber, pois os editores não deixam passar nada que não esteja no nivel de desenho infantil em que entrou e estacionou a charge e o cartum no Brasil.

Mas, de qualquer jeito, é sempre difícil se contentar com esse trabalho como forma de arte e mais difícil ainda não se sentir muito incomodado depois de algum tempo sentado na prancheta desenhando os mesmos bonecos de sempre. Fazer quadrinhos é pior ainda, pois exige uma enfadonha repetição de desenhos.

Mesmo desenhistas esplêndidos como Harold Foster, do antigo Príncipe Valente, ou o atual Milo Manara ou até mesmo Carl Barks e seus patos, cansam a gente depois de algumas folheadas. Hal Foster e Carl Barks ainda se sustentam mais porque são formidáveis contadores de histórias. Mas Manara nem isso é. Como é que alguém como Manara consegue ter satisfação artística? Como faz para ter satisfação desenhando um ou dois álbuns daqueles, com o mesmo traço, o mesmo naturalismo detalhista onde parece não ter penetrado nenhum dos conhecimentos que a arte moderna trouxe para o ser humano?

É duro, sei bem disso. O elogio “como você desenha bem” só satisfaz até certa idade. Em gente sã não passa dos 25 anos. Alguns podem buscar fugas, como o álcool ou drogas, mas tem meios melhores para sobreviver a esta chateação, mas não vou contar agora.

Mas tenta-se de tudo. O Glauco fundou uma seita, o Verissimo toca sax, mal e porcamente, imagino, mas parece que com mais satisfação do que desenhar suas cobrinhas. O Jaguar bebe feito doido. Outros destroem a saúde com drogas. Descubro agora também que o Laerte se veste de mulher. E depois o maluco sou eu.

Quem tem um pouco mais de sensibilidade, nem que seja só pelo conhecimento que tem de arte, não pode se satisfazer com cartum ou quadrinhos. Isso sem falar nos fãs. Os de cartum ainda são melhores, mas os de quadrinhos são insuportáveis na sua ignorância sobre qualquer outra coisa que não seja quadrinhos.

É claro que isso não é justificativa para ninguém sair por aí vestido como uma perua coroa. A crise do Laerte pode vir de outros fatores, talvez algum que nem possa ser apreendido por linguagem alguma, quanto mais por uma linguagem como a das histórias em quadrinhos, que não permite maiores aprofundamentos.

Um dos grilos do cartunista, que é levantado no momento certo na boa entrevista feita na Bravo por Armando Antenore, é o da velhice, e aí, como dizíamos quando éramos jovens, aí é mesmo broca.

Não existe vantagem alguma em envelhecer. Ninguém fica mais sábio, nem paciente e nem qualquer outra qualidade se agrega de forma natural com o passar dos anos. Um jovem idiota que não se prepara melhor será um velho idiota. O velho chato certamente foi um jovem chato. A jovem sem charme será uma perua velha. E assim por diante.

A velhice pode ser mesmo um saco. E o pior é que a única fuga possível é ainda pior do que ficar velho: é morrer jovem.
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POR José Pires

Envelhecer também é "cosa mentale"

Mas a consciência da velhice pode ter um peso diferenciado para cada um. Todas as pessoas de quem vale repetir uma opinião garantem que é uma droga envelhecer. A mudança da composição para a decomposição, como dizia o bem-humorado Tom Jobim, é realmente difícil de agüentar. Ainda não cheguei lá, mas não é agradável saber que dentro de alguns anos não vou poder correr pelo mato em cima de uma bicicleta como faço agora.

Este desconforto só pode ser evitado com uma preparação mental, é claro. O negócio é entender gradativamente que não se pode chegar aos setenta, oitenta muito menos, de bicicleta. É preciso chegar andando. Seria melhor chegar de bicicleta e daria até um epitáfio melhor, mas fazer o quê, não?

O Laerte está perplexo com a rapidez do tempo. A aceleração ele afirma que vem com a idade. Ele explica dessa maneira essa consciência que de certo modo o atormenta: “Uma rapidez estonteante, que se associa à falta de produtividade. Para um garoto, 12 meses fazem uma diferença brutal. Quantas coisas se modificam num intervalo tão pequeno! Já para um cinquentão, 12 meses normalmente não representam nada. Tudo permanece idêntico”.

Aí temos que voltar ao que falei, sobre as percepções diferenciadas sobre a vida e a consciência da idade. Este é um dado que diferencia a juventude da velhice. É muito difícil para um jovem ter consciência existencial, já para um velho esta consciência pode ser plena. O problema é que isso chega quando já temos menos tempo.

O Laerte está vendo tudo se acelerar e isso o angustia. Tenho dez anos menos que ele, que já vai para os sessenta, mas vejo isso de forma bem diferente. E ele diz que tem essa sensação desde os quarenta anos. Leonardo da Vinci, que para sua época morreu bem velho, com 67 anos, dizia que a arte é “cosa mentale”. Tudo é.

Costumo percorrer de bicicleta pelo menos três vezes por semana uma estrada de terra bem acidentada. Percebo sempre que a estrada nunca é a mesma. Falando dessa forma devo parecer um velhinho oriental conversando com um discípulo, mas esta é a realidade que vejo. Esta estrada é sempre transformada pelo que está se passando em minha cabeça. Claro que os aspectos exteriores também contam — uma luz diferente ou a cerração de um dia chuvoso, tudo influi nesta percepção — mas como dizia o bom e velho Leonardo, o que vale mais é a "cosa mentale". De forma que sigo sempre através de um universo novo numa simples estrada.

Mas e a velocidade? É só a externa, da bicicleta. O segredo é ser ágil só por fora. Por dentro é preciso estar equilibrado e deixar a tarde se alongar.

Algumas vezes alguém vem me dizer que a vida é curta. Pois eu acho o contrário e não é que eu esteja querendo sair de cena, ainda que viver no Brasil esteja ficando cada vez mais chato. Um ano é bastante tempo, em dez anos dá para fazer muita coisa. E posso passar a tarde toda pensando em apenas alguns minutos que passei com alguém.

Mas voltemos ao Laerte e a sua mania de se vestir de mulher. Não é preciso deitar no divã, mas acho que posso ajudar. Um de seus problemas, como ele mesmo confessou, é o tempo se acelerando, não? Pois então ele encaminha de forma errada esta questão.

Desse jeito ele vai perder ainda mais tempo, pois como qualquer mulher sabe e os maridos também, uma mulher gasta horas em frente ao espelho para se montar como se fosse uma perua coroa, esforço que até vale em certas coroas bem apanhadinhas, mas que não está dando bom resultado para o colega, como vejo pela foto.

Desse jeito o Laerte deixa de se beneficiar de uma das vantagens de envelhecer, que é o desprezo à convenções sociais. Quem na juventude já via como besteira o respeito aos modos de se vestir ou de se comportar, com o passar dos anos fica ainda mais certo disso. Daí que com a idade a gente aprende que é melhor aproveitar a vida do que perder tempo escolhendo roupa.
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POR José Pires

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Acusando sem olhar o próprio passado

Evidentemente ninguém é besta de esperar gratidão do Lula. O único compromisso real dele é com seu próprio interesse e quando digo próprio nem estou situando este interesse no âmbito do partido ou de um grupo. Lula elimina e até despreza quem não mais lhe convém.

É provável que ele bandonasse à própria sorte até o Lulinha, seu filho, se alguma denúncia viesse a interferir na sua carreira política. Então é só para registrar que vou falar de uma declaração sua feita numa reunião de governadores.

Lula está nervoso em ter de enfrentar pela terceira vez um segundo turno. Seu sonho político era derrotar os tucanos pelo menos uma vez no primeiro turno para quebrar o recorde do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que o derrotou duas vezes no primeiro turno.

Na tal reunião com governadores aliados, Lula disse o seguinte: "Estou vendo um bando aí falando de aborto. Aposto que vários deles fizeram ou acompanharam no mínimo dois ou três..."

Pois é, o "bando aí" defendeu Lula dos ataques de Fernando Collor na eleição de 1989, inclusive da acusação de que ele teria tentado forçar uma namorada a fazer um aborto.
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POR José Pires

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Armação


Vá entender os petistas... Eles vivem alertando que o Serra é traiçoeiro, que é um político que arma contra os adversários o tempo todo, enfim que o Serra apronta barbaridade em qualquer eleição.

Pois eles não estão vendo que esse negócio do Ciro Gomes integrar a coordenação de campanha da Dilma Rousseff no segundo turno é armação do Serra? Esse tucano é ladino demais. Botar o Ciro Gomes na coordenação de campanha do adversário é um golpe de mestre!
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POR José Pires

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Fala o filósofo do Planalto

O delegado Protógenes de chefia nova

Esta eleição foi cheia de piadas. Poderíamos até rir mais gostosamente se elas não fossem sintomas de um sistema falido, mas a gente também precisa se divertir um pouco. Vamos deixar por ora de falar da maior delas, a Dilma, e comentar um dos golpes armados para a eleição de um político e que acabou também não dando certo. Foi o notório delegado Protógenes, que participou há pouco tempo de uma encenação com grande cobertura da imprensa e logo depois usou a notoriedade alcançada para tentar se eleger deputado federal.

Protógenes se lançou pelo também notório PcdoB, o partido mais oportunista do Brasil. De Mao Tsé-Tung a Lula, passando por Stálin e Enver Hoxha da Albânia, o PCdoB já tentou de tudo. Protógenes é só mais um desses lances. Até guerrilha no Amazonas eles fizeram para tentar implantar no Brasil um comunismo do pior tipo, uma mistura de maoísmo com o sistema comnuista albanês de então. Não deu certo, felizmente.

A candidatura de Protógenes também deu chabu. Hoje ele depende do fenômeno Cacareco ou macaco Tião ou Enéas agora chamado Tiririca. O problema é que Tiririca parece ser incapaz de soletrar Pro-tó-ge-nes (é assim?) e por isso pode ter impugnada sua candidatura.

Tiririca tem mesmo um jeitão de quem fugiu da escola, porém, quantos políticos brasileiros não tem um perfil parecido? O problema de Tiririca é que ele não soube usar com habilidade esta imperfeição de sua formação. Mas ainda temos muito chão pela frente. Caso haja a consagração do lulo-petismo nesta eleição pode-se até abrir espaço para que Tiririca seja o sucessor de Dilma Roussef daqui quatro anos. Esse negócio de exigir que político saiba ler e escrever é coisa da elite.

Mas voltemos a Protógenes. Sua candidatura começou com uma farsa e termina como piada. Mesmo que o comediante não tenha a candidatura impugnada por ser analfabeto, o delegado vai fazer parte da bancada Tiririca. O abestado está na chefia.
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POR José Pires

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Os acertos dos institutos de pesquisas

Algumas pessoas estão dizendo que os institutos de pesquisas erraram. Discordo. Pelo contrário, penso até que houve muito acerto. Os institutos de pesquisas fizeram tudo certinho e conforme o combinado. Mas, como disse o Garrincha, faltou combinar com os russos, neste caso o eleitor brasileiro.

Deve ter sido decepcionante para os institutos de pesquisas o que os eleitores fizeram. Impediram o sucesso de uma arte. Hoje em dia no Brasil uma pesquisa parece mais a previsão de um futuro que vai sendo construído com o rebaixamento gradativo de umas candidaturas e a conseqüente elevação de outras. Nalguns casos parece até mágica, pois aparecem uns candidatos do nada que vão subindo, subindo e subindo, com uns ensaios de disputa real no entremeio, mas que não se concretizam de fato em meio a quedas deste ou daquele candidato e até o surgimento de elementos-surpresa, mas nada que impeça o desenlace que parece pré-determinado.

Pode ser até coincidência, mas com a Dilma Rousseff foi assim. Lembram que no início ela ficava atrás até do Ciro Gomes? Ah, o Ciro Gomes... Sempre foi o arroz de festa das pesquisas. Até hoje nunca ficou claro qual seria a lógica para a sua aparição sempre súbita, sem que nada de significativo estivesse acontecendo em sua vida política e mesmo ele passando meses na obscuridade, sem aparecer sequer para seus deveres no Congresso.

Ninguém sequer sabia onde andava o Ciro Gomes, mas era batata: em pesquisa ele aparecia. Isso pode ser expliado pela dificuldade do trabalho de composição de um cenário com ares verdadeiros. Daí a solução meio parecida com a de certos escritores de ficção, que para despertar a atenção do leitor puxam um personagem do nada que vai criando áreas de atrito no enredo. O Ciro Gomes sempre caía bem para isso. Vai fazer falta.

Mas este trabalho — o das pesquisas, não o dos escritores de ficção — vem tendo um relativo sucesso nos últimos anos. Este segundo turno que aparece agora contrariando previsões científicas parece mais um abuso da realidade. Desta vez todos os institutos erraram... espere aí, é melhor, aspar: “erraram”.

Quem acompanha de perto a política brasileira sabe como o uso sem nenhuma regulação do recurso das pesquisas vem deformando o processo eleitoral. No interior do Brasil, em cidades menores onde a vigilância é sempre é mais difícil e a sociedade civil bem menos organizada, alguns institutos fazem horrores dignos de marqueteiros. A propósito, nestes lugares algumas pesquisas são contratadas exatamente para serem usadas em propagandas eleitorais.

Por isso mesmo é preciso se precaver. No Paraná, onde o tucano Beto Richa venceu o pedetista Osmar Dias, colocado na disputa por Lula para fortalecer a candidatura de Dilma e quebrar Serra no Sul do país, foram proibidas pelo TRE pelo menos meia dúzia de pesquisas de institutos com força nacional, inclusive pesquisas do Data Folha. E todo mundo sabe que tem que haver muita irregularidade para uma pesquisa ser proibida por um TRE.

Lula queria que Osmar Dias ganhasse no primeiro turno ou que pelo menos levasse a disputa para o segundo. Para o PT era até uma questão de honra, com o perdão da palavra, pois o Paraná é a terra do senador Álvaro Dias, do PSDB, que chegou a ser anunciado como vice de Serra. Lula fez um esforço considerável, até que conseguiu convencer Osmar Dias a sair candidato, melando a chapa tucana. Até hoje é muita a curiosidade sobre os argumentos de Lula, que todo mundo sabe que é adepto de um olho no olho.

Outro lance curioso é que Osmar Dias é irmão do senador Álvaro Dias. E petista é fixado nesse negócio de família, como mostram, os episódios do dossiê contra a mulher de Fernando Henrique Cardoso e a quebra de sigilo da flha do Serra. Dividiram os irmãos.

Mas voltando à eleição estadual, no dia anterior à eleição, o Ibope e a TV Globo divulgaram uma pesquisa. Deu empate de 49% entre os dois candidatos ou uma eleição “rigorosamente empatada” como disse o apresentador. A coisa fica até engraçada naquele cenário de um futurismo mágico, em que os números vão subindo num facho de luz quando o jornalista determina com a mão o efeito. A Globo é craque para caracterizar bem as coisas. Parece mesmo ficção científica.

Mas deu xabu. O resultado acabou sendo de 52,44% para Beto Richa e 45,63% para Osmar Dias, bem longe da margem de erro de dois pontos percentuais. Tem tucano bobo e tucano arisco e nesses o visgo não gruda. Mas sabemos o que poderia ocorrer se o tucano paranaense não fosse ligeiro e impedisse a criação de um clima de derrota para ele. Ah, caia no visgo que, dizem alguns, tinha uma coloração avermelhada como a terra do norte daquele estado.

Mas, como já disse, não é só no Paraná que fazem essa construção de resultados, para o qual nossa imprensa até dá uma facilitada.

Hoje em dia nossos jornalistas se pautam de tal forma em pesquisas, que até os donos de certos institutos são tratados como experts no que vai brotar das urnas. Em que país sério um jornal, site ou revista poderia publicar com ares de imparcialidade sequer uma entrevista de dono de instituto de pesquisas anunciando o futuro vencedor de uma eleição? Pois no Brasil publica-se até artigos dessa forma.

Tudo isso é feito sem nenhum senso crítico, mesmo com todo mundo sabendo que praticamente todos essses institutos trabalham também para partidos políticos com o interesse direto em pesquisas divulgadas durante toda a eleição, um trabalho que algumas vezes começa até meses antes do início oficial da disputa.

Não foi só quanto ao segundo turno da eleição presidencial que todos os institutos erraram. Em vários estados muitas pesquisas se mostraram bem furadas, muitas de forma bastante suspeita. O exemplo da eleição em São Paulo do tucano Aloysio Nunes Ferreira para o Senado.

Ele esteve sempre entre os últimos nas pesquisas, coisa que é de desanimar qualquer um. É o mesmo visgo do Paraná. Pois Aloysio Nunes acabou como o senador mais votado da nossa história política.

O eleitor decidiu pelo segundo turno numa eleição que todos os institutos garantiam que seria resolvido no primeiro com a vitória acachapante de Dilma já no primeiro. Já tem explicações de todo tipo para isso: onda verde, voto evangélico e tantas outras justificativas. Não me espantaria se alguém viesse com a história de isso é rejeição ao guarda-roupa vermelho da candidata petista, um motivo até justo.

Até agora só não disseram que o segundo turno foi decidido pra afrontar as maracutaias que os institutos vem armando, o que também seria muito justo. Mas o justo mesmo seria que neste segundo turno não tivesse institutos de pesquisa. Afinal, desta vez eles perderam a eleição.
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POR José Pires

Uma imagem vale...

Aquele ditado que dizem ser chinês, o que diz que "uma imagem vale por mil palavras" não vale pra tudo. Muitas vezes a imagem precisa até de legenda. Mas em alguns casos até com a mesma palavra, uma imagem fala mesmo muita coisa. E mesmo quando se referem exatamente ao mesmo acontecimento, acabam falando coisas bem diferentes.






domingo, 3 de outubro de 2010

sábado, 2 de outubro de 2010

Esperando o pior

Não costumo publicar notícias de outros sites, pois penso que dessa forma não estaria fazendo um blog. Aí estaria produzindo um clipping diário, o que encontramos bastante na internet brasileira, muitas vezes como se fossem blogs, o que não são de fato.

Seria fácil para mim passar o dia republicando notícias e isso com certeza me daria muito mais leitores. Um alto número de acessos dá prestígio e dinheiro. Mas seria honesto profissionalmente fazer isso? Na minha visão isso é piratear o trabalho alheio. E assim isso aqui também não poderia ser chamado de blog.

Como disse na década de 40 0u 50 um office-boy, encantado com a rapidez de Joel Siveira escrevendo um texto na redação de um desse jornais brasileiros que já fecharam há décadas, tem que ter "texto próprio".

Como não tenho rabo preso com ninguém posso até dizer que o Ricardo Noblat, por exemplo, faz um clipping diário e não um blog. Ele publica um comentário de vez em quando, um plá para dar uma cara pessoal, mas não basta. O Luís Nassif também faz isso e até mais malandramente, pois formata seu clipping diário para que tenha uma cara de blog.

O problema é esses clippings diários adquirirem o status de blogs. Cada um faz o que quer, dentro do limite dos direitos alheios, mas penso que esse tipo de coisa deforma no Brasil o conceito de blog.

Hoje faço uma exceção e publico três textos retirados de outros sites, porque expressam com muita qualidade problemas centrais desses terríveis oito anos que vivemos com Lula e apontam para os perigos dos próximos quatro e até mais além. São boas análises dos riscos que corremos no futuro, seja quem for o próximo presidente da República, mas que podem se configurar em um desastre com a eleição da petista Dilma Rousseff, auto-proclamada herdeira legítima da continuidade dos erros de Lula.

São três textos altamente elucidativos da manipulação do governo Lula sobre as contas públicas do Governo Federal, evidentemente com a intenção, de início, de emplacar a candidatura da petista Dilma Roussef e posteriormente elegê-la presidente da República, o que infelizmente pode acontecer amanhã ou num provável segundo turno.

Um porco tem que ter focinho de porco, orelha de porco e rabo de porco, aquele rabinho retorcido que nenhum outro animal tem, mas com habilidade e uma oposição fracassada pode-se forjar muito bem uma fraude política com cara de eleição legítima.

Ainda não é o fim do mundo, como dizem os evangélicos que se grudam em Serra ou Marina Silva, mas não tenho dúvida de que Dilma tem a capacidade para fazer o Brasil chegar lá com muita rapidez.

Por mais que batamos na madeira (toc, toc, toc, de novo!) os indicativos são de que o plano de Lula deu certo. Mas a conta vai ficar bem alta para os brasileiros, conforme a opinião dos articulistas abaixo e da matéria que, para mim, fecha muito bem o raciocínio dos dois. Vou lincar os três textos para o caso deste post surgir isolado em alguma busca na internet, mas eles estão publicados logo abaixo:

Yoshiaki Nakano, no artigo “Pré-sal e gastança pública”.
Míriam Leitão, no artigo “Dinheiro inventado”.
E na Veja, a matéria "Vejam que maravilha é o Fundo Soberano de um país que pensa no futuro: a Noruega."


Num determinado ponto de seu excelente texto publicado no jornal Valor Econômico, Nakano alerta inclusive sobre os aspectos técnicos perigosos da recente capitalização da Petrobrás, que pode forçar uma grande entrada de capitais externos e que para mim foi feita na linha do uso eleitoral do notório "pré-sal". É uma forma bem esperta para atrair a atenção do eleitorado para uma novidade lulo-petista supostamente muito boa para o país. Porém, o problema virá depois, pois esta capitalização é feita com ingredientes técnicos com riscos claros previstos por estudos econômicos e já enfrentados em outros países.

É uma série de decisões enganosas, que envolvem a Petrobrás, o BNDES e até o Banco Central. Diz Nakano o seguinte: “Essa enxurrada de entrada de capitais e a política de juros do Banco Central estão alimentando a expectativa de novas apreciações do real, que poderá se converter num processo de "profecia que se autorrealiza", porém desestabilizadora e catastrófica, no médio prazo. Veja o ritmo assustador de crescimento no déficit de transações correntes, que deverá superar US$ 50 bilhões neste ano. Tudo isto é exatamente o que a hipótese de "doença holandesa" prevê”.

Já Míriam Leitão, que sempre foi uma competente jornalista da área da economia e que teve recentemente um crescimento de qualidade admirável em seu conteúdo jornalístico com a inserção que costuma fazer da interrelação entre a economia e o meio ambiente, faz neste texto uma denúncia que eu entendo como uma manipulação dos números da nossa economia pelo governo Lula. O governo, diz ela, que escreve em O Globo, faz de assuntos econômicos vitais um apanhado de números vazios.

Eu até acrescentaria que este modo propagandistíco e até marqueteiro de lidar com a economia cria uma ilusão de que estamos no melhor dos mundos e consequentemente impede que a população adquira a consciência da necessidade de trabalhar sobre os problemas brasileiros com realismo e determinação.

Quisera que um certo candidato tivesse conversado um pouco mais com esta jornalista em vez de ter brigado com ela. Ela dá o nome certo para a manipulação: são mágicas. O problema é que o maravilhamento com os coelhos que saltam de forma impressionante da cartola governista em breve custarão bastante caro para os brasileiros.

É como costumo dizer: a política é um espetáculo diferente, no qual o ingresso é cobrado quase sempre muito tempo depois de terminado o show.

Míriam Leitão esclarece de forma muito simples o que se passa: “Dívida é dívida; receita é receita. Toda pessoa sabe disso. Mas não as estatísticas do governo. Como uma sucessão de truques fiscais, o Ministério da Fazenda está tornando artificialmente superavitárias as contas públicas”.

Sobre as mágicas feitas usando as pródigas cartolas do BNDES e da nossa Petrobras, com uma forte influência no clima que favoreceu a candidata de Lula, ela faz uma daquelas perguntas que trazem inseridas a própria resposta: “Como é possível a emissão de título que é dívida, vira capitalização do BNDES, aumento de capital da Petrobras e, no fim, entra no caixa do Tesouro como receita?”

Para finalizar, temos também um texto publicado na revista Veja e que infelizmente parece ter passado desapercebido. O escândalo com as erenices merecem mesmo muita atenção, mas sobre o que interessa de fato para todos, que é o futuro do próprio ser humano. Mas a bagunça petista cria até este desvio de atenção do que realmente importa.

Como eu disse, o texto de Veja serve para completar a análise dos dois articulistas, pois traz um exemplo prático daquilo que dá para entender que está faltando aqui. É um relato curto sobre como um país usa de forma inteligente seus recursos econômicos e naturais para criar qualidade de vida e, em conjunto, ir se preparando para os tempos difíceis previstos para todos nós em todo o planeta.

É a Noruega, país que faz de seu Fundo Soberano mais, mas muito mais mesmo, do que uma palavra vazia de uso eleitoral, como é a regra aqui no Brasil. Qualquer conceito econômico só tem validade se estiver apoiado em realização prática. Do contrário, depois do aproveitamento político e eleitoral feito por grupos restritos, nada sobra além de contas a pagar.

Com administração decente os noruegueses usufruem desde já de seus recursos e ainda formam estruturas para o que pode vir mais adiante. Eu destacaria um trecho do texto de Veja, onde se diz que um dos objetivos do governo é o seguinte: “Preparar o país para o declínio na produção de petróleo e, bem mais adiante, para o fim das reservas nas águas geladas do Mar do Norte”.

Ressalto este ponto pois julgo que aí está uma referência do grande erro desses oito anos do governo Lula e que, infelizmente, podem se prolongar para mais quatro com a eleição da sua candidata.

Foi a falta de preparação do país para uma economia sustentável, não só obedecendo técnicas econômicas reais e realmente aplicadas na condução do governo, mas organizando o País para um futuro muito diferente do que tudo que vivemos até agora, quando teremos um planeta próximo do esgotamento de muitas de suas reservas naturais, entre elas o petróleo.

Enfim, como temos pouca ou quase nenhuma infraestrutura e nossas lideranças não possuem capacidade ou interesse de criar políticas de longo prazo, não precisamos temer surpresas no futuro. As dificuldades já estão muito bem garantidas.
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POR José Pires

Dinheiro inventado

O GLOBO, Míriam Leitão, 1 de outubro de 2010

O governo decidiu confundir a todos. Aproveita a pouca paciência que as pessoas têm em relação ao assunto "contas públicas" para criar um rolo compressor que está tornando os números vazios de significado. A conta baterá sobre nós contribuintes. As despesas aumentaram este ano 17,2%; a dívida emitida para capitalizar a Petrobras, por mágica, virará receita do governo.

Dívida é dívida; receita é receita. Toda pessoa sabe disso. Mas não as estatísticas do governo. Como uma sucessão de truques fiscais, o Ministério da Fazenda está tornando artificialmente superavitárias as contas públicas.

Como é possível a emissão de título que é dívida, vira capitalização do BNDES, aumento de capital da Petrobras e, no fim, entra no caixa do Tesouro como receita? Pois foi essa mágica que ele fez desta vez. Diariamente, sai um truque desses da cartola do Ministério da Fazenda. Todos eles juntos escondem que o governo está gastando demais. Além disso, o Brasil está perdendo um dos avanços das últimas décadas, que foi o aumento da transparência das contas públicas. Hoje, já é impossível seguir uma série histórica de superávit primário, porque ele mede coisas diferentes; não se confia mais na dívida líquida, porque ela virou biombo que esconde o aumento da dívida bruta.

Esse assunto nos diz respeito diretamente. Transparência em gasto público é democracia. Ajuste fiscal não é burrice, como diz Dilma Rousseff, é sensatez. Sem ele, o contribuinte será chamado a pagar mais ao governo.

O regime fiscal do país mudou neste final do governo Lula. O equilíbrio comemorado nos anos Palocci começou a mudar lentamente, mas o regime fiscal se transformou radicalmente durante a crise. O abalo externo foi usado como pretexto para uma licença para gastar e para maquiar números. Assim está sendo feito um superávit primário para inglês ver, mas que não pode enganar a nós mesmos que pagamos a conta.

Veja-se o que foi feito no caso da Petrobras. A União emitiu dívida de R$75 bilhões para capitalizar a Petrobras; R$30 bilhões foram entregues ao BNDES. O banco pegou esses papéis e pôs na Petrobras para acompanhar o aumento de capital. Os outros R$45 bilhões foram transferidos diretamente para a estatal como aumento de capital da União.

Primeira parte da mágica é dizer que essa emissão de título não entra na conta da dívida líquida. A mentira que pregam aqui é dizer que se trata de um empréstimo e que o BNDES, um dia, vai pagar. E se vai pagar, ficam elas por elas. O problema é que o governo se endivida a 10,75% por ano por um prazo curto, e o BNDES, se pagar, o fará nas calendas. Esses R$30 bilhões não são empréstimo, como não foram os R$180 bilhões que o governo já pôs no banco desde a crise.

A segunda parte da mágica é a seguinte: a União vendeu cinco bilhões de barris de petróleo para a estatal, que levará décadas para tirá-los do fundo do mar, e há poucas informações técnicas sobre a existência, possibilidade de exploração e custo real desses barris.

Na terceira parte, a Petrobras devolve os R$75 bilhões como pagamento ao Tesouro desses barris futuros. A diferença entre os R$45 bilhões que foram dados para a Petrobras e os R$30 bilhões que passaram pelo BNDES virarão receita em setembro. Essa é a melhor parte da mágica: um papel que saiu por uma porta e entrou por outra. Papel de mil e uma utilidades: era dívida, deixa de ser, aumenta o patrimônio do BNDES, aumenta a participação que a União tem na Petrobras e ainda vai virar milagrosamente receita em setembro.

Por que o governo faz essa circunavegação fiscal? Para esconder o fato de que está gastando de forma espantosa. Em 2009, era a tal política anticíclica. Gastar para evitar a crise. O ciclo mudou, a gastança continua. E não é verdade que está gastando para aumentar os investimentos. O setor público federal continua investindo em torno de 1% do PIB apenas.

O superávit conseguido em agosto, de R$4 bilhões, só é superávit, porque as estatais anteciparam dividendos no valor de quase R$7 bilhões. Um dos truques é assim: o governo vendeu ao BNDES dividendos da Eletrobras. Isso entrou como aumento de capital do banco para emprestar mais. O banco pagou esses dividendos ao Tesouro e - kabrum! - virou receita em agosto.

Esses contorcionismos fiscais são diários e vão transformando em circo a contabilidade oficial brasileira. Está ficando difícil entender. Esse caminho de esvaziar os indicadores de significados é o escolhido pela Argentina para a inflação. É um perigo. As verdades econômicas não desaparecem por causa das falsificações.

O economista Alexandre Marinis gosta de usar os dados da Receita Líquida total (receita, menos as transferências para estados e municípios). Ele derruba com dados a tese de que os gastos foram para aumentar investimentos.

Por essa medida, o superávit primário caiu de 15,8% da receita em outubro de 2008 para 6,7% em julho de 2010. Os investimentos cresceram apenas de 3,9% para 4,8%. "Os dados mostram que toda a economia gerada com a redução do superávit primário foi queimada com pessoal, previdência e custeio, ao invés de aplicada em investimentos num país com uma infraestrutura à beira do colapso", diz ele, num relatório. Em reais, a queda do superávit em 12 meses foi de R$91 bilhões para R$45 bilhões no período.

No mês que vem, o governo vai "bombar" o superávit primário com essa receita inventada, inexistente, fruto de ilusionismo fiscal. Na hora que a conta chegar ao nosso bolso, ela será real e concreta.

Pré-sal e gastança pública

VALOR ECONÔMICO, Yoshiaki Nakano, 1 de outubro de 2010

Segundo as manchetes da imprensa, o Secretário do Tesouro Nacional comemorou que a operação de capitalização da Petrobras resultará, em setembro, na entrada de caixa de R$ 30 bilhões, gerando o "maior superávit história". O presidente Lula festejou também a capitalização da Petrobras, como "a maior do mundo", que gerou a entrada de uma enxurrada de capitais do exterior aumentando mais de 1.100%, de setembro em relação a agosto, batendo recorde histórico. Os especuladores do mercado financeiro comemoram, na mesma proporção, a apreciação do real, que chegou a R$ 1,70 por dólar. Engordando seus polpudos ganhos acima da taxa de juros praticada no Brasil, que permanece a mais alta do mundo, quando o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos pratica taxa próxima a zero.

Essa enxurrada de entrada de capitais e a política de juros do Banco Central estão alimentando a expectativa de novas apreciações do real, que poderá se converter num processo de "profecia que se autorrealiza", porém desestabilizadora e catastrófica, no médio prazo. Veja o ritmo assustador de crescimento no déficit de transações correntes, que deverá superar US$ 50 bilhões neste ano. Tudo isto é exatamente o que a hipótese de "doença holandesa" prevê. Mais do que isso, o "boom" no setor de recursos naturais resultará num encolhimento do setor de "tradables" manufaturados, como vem acontecendo, e de forma cada vez mais acelerada no Brasil. Esse efeito destruidor do setor de manufaturados é tão maior quanto mais aberta for a conta de capitais, levando a uma especialização crescente do país em setores exploradores de recursos naturais e não "tradables". (Ver pesquisa cobrindo 90 países e 81 setores manufatureiros, Kareem Ismail, The Structural Manifestation of the "Dutch Disease": The Case of Oil Exporting Countries", IMF Working Paper, Abril de 2010).

Para aqueles que se preocupam com o desenvolvimento do país no longo prazo e com as futuras gerações, não há nada a comemorar com a descoberta do pré-sal e capitalização da Petrobras. Ao contrário, os fatos acima apontados confirmam que o Brasil não tem nem instituições, nem maturidade econômica para se beneficiar, a longo prazo da descoberta de grandes jazidas de petróleo, a exemplo de muitos outros países, como a Venezuela e México, para mencionar apenas os nossos parentes próximos. Não somos a Noruega, que institucionalizou os recursos efetivos vindos da exploração de petróleo, constituindo reserva para o futuro, ou seja, poupança para gerações futuras.

o caso brasileiro, estamos fazendo pior do que faz a Venezuela hoje ou outros países, apreciam a taxa de câmbio consumindo a receita efetiva de exportação de petróleo. O Brasil está apreciando a taxa de câmbio antecipadamente e consumindo uma receita de exportações, que poderá ou não, se materializar no futuro, provavelmente, muito depois da Olimpíada de 2014, ampliando o passivo externo e a gastança pública. É importante lembrar que a receita futura é ainda incerta e existem riscos e desafios tecnológicos não triviais para extrair petróleo em águas do pré-sal.

De janeiro a agosto deste ano, os gastos do governo federal e Banco Central aumentaram 17,2%, em relação, ao mesmo período do ano anterior. A rigor, o Tesouro Nacional está colocando, antecipadamente em caixa, R$ 30 bilhões, próximo de 1% do PIB, para pagar os aumentos galopantes de consumo do governo, particularmente aumento de salários do funcionalismo, dado desde 2008. Lembro que somente esses aumentos representam muito mais do que as receitas futuras agora antecipadas. Não estamos consumindo uma receita efetiva de exportações de petróleo, só isto seria desastroso para um país que poupa e investe apenas 19% do PIB. Estamos antecipando receita futura para pagar gastança passada!

Com a apreciação da taxa de câmbio, além de consumir uma receita futura incerta, estamos destruindo o setor manufatureiro brasileiro que foi construído por gerações passadas, no último século, com a entrada de importações, particularmente de países que mantêm a sua taxa de câmbio ultra-depreciada, como a China. Fábricas são fechadas para se transformarem em importadoras. Muitos setores industriais, num processo regressivo, são obrigados a se especializar em atividades exploradoras de recursos naturais. Veja o exemplo do setor de soja, cujas fábricas de óleo foram fechadas, tornando o Brasil exportador de grãos. Da mesma forma, o setor siderúrgico, que vinha alcançando notável renovação e avanço tecnológicos depois da privatização, está se tornando, cada vez mais, exportador de minério de ferro, e o Brasil de exportador, de repente, está importando em torno de 30% do aço consumido.

Quando analisamos para que setores da indústria os investimentos estão sendo canalizados, dados do IBGE mostram um quadro típico da "doença holandesa": aumentaram, de 1996 a 2008, nos setores baseados em recursos naturais e de petróleo, e diminuíram nos setores de maior valor agregado e intensivos em tecnologia. Não é a toa que o saldo comercial desses últimos setores, que em 2005 era de cerca de US$ 5 bilhões, tenha se transformado num déficit, que deverá atingir US$ 60 bilhões.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP.

Vejam que maravilha é o Fundo Soberano de um país que pensa no futuro: a Noruega

VEJA mostrou recentemente alguns truques contábeis com que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, permite gastança ao governo enquanto, tecnicamente, mantém as contas públicas em ordem.

No meio dos coelhos retirados da cartola, figura o uso de 18 bilhões do chamado Fundo Soberano – uma massa de recursos teoricamente destinado a fazer investimentos no exterior para defender o país de futuras crises financeiras – para comprar ações de empresas estatais.

Agora, o governo decidiu realocar a dinheirama do Fundo Soberano para tentar conter a valorização do real, algo já comentado em outro post.

Ou seja, em vez de pensar no futuro, aqui no velho e bom Brasil pensamos em resolver o imediato, em fechar o caixa. Enquanto isso, um pequeno país de menos de 5 milhões de habitantes, como a Noruega, utiliza com sabedoria o mar de petróleo existente sob suas águas territoriais. Já juntou, desde os anos 90, um gigantesco Fundo Soberano de 464 bilhões de dólares – o segundo maior do mundo, logo após o de Abu Dhabi. O destino do dinheiro: as futuras gerações.

O Fundo Soberano norueguês tem dois objetivos fundamentais:

1) fortalecer a previdência social nas próximas décadas, para fazer frente ao progressivo envelhecimento da população e a diminuição da proporção entre pessoas ativas e aposentados;

2) Preparar o país para o declínio na produção de petróleo e, bem mais adiante, para o fim das reservas nas águas geladas do Mar do Norte.

Superávit e desenvolvimento humano – O que alimenta o fundo são os impostos pagos pelas petroleiras, o dinheiro embolsado pelo governo norueguês por concessões a empresas privadas para exploração de petróleo no Mar do Norte e os dividendos que recebe por sua participação acionária na estatal petrolífera StatoilHydro (que não detém monopólios).

Vamos aproveitar para lembrar que a Noruega ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de Índice de Desenvolvimento Humano, elaborado pela ONU a partir dos dados sobre expectativa de vida, educação e renda per capita dos países.

E, além de seu belíssimo Fundo Soberano, em plena era de questionamento do modelo de estado de bem-estar social, o país se dá ao luxo de proporcionar a seus cidadãos benefícios como 10 meses de licença-maternidade com salário integral para mães com emprego.

Em contraste com quase todos os países ricos pesadamente endividados, a Noruega ostenta um orçamento superavitário e destina mais de 1% de seu PIB em ajuda a países pobres, enquanto a poderosa Alemanha, por exemplo, separa 0,4% para essa finalidade, e os Estados Unidos – mesmo depois de uma puxada para cima determinada pelo presidente Barack Obama – apenas 0,2%.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Transparência petista

Pra ninguém dizer que só critico, na minha opinião a candidata Dilma Rousseff foi quem teve o lance de maior sinceridade no debate de ontem na TV Globo. Foi quando ela falava sobre transparência no PT e disse que "no site estão registradas todas as doações que são oficiais".

Aqui vale o jargão: nunca na história dos debates políticos neste país um candidato teve tamanha sinceridade.
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POR José Pires

Saudades do Serra

O José Serra que conhecemos até começar esta campanha já perdeu esta eleição. Calma, não entrei no coro do “já ganhou” para a candidata do PT, mas é difícil encontrar alguém que acredite em vitória tucana mesmo que haja um segundo turno entre Dilma e Serra. Só com um milagre, dizem alguns, mas como Serra é um convertido recente é difícil crer que Deus lhe conceda esta graça.

E fui bem claro de que estava falando do outro Serra, aquele que depois sofreu tal transformação que acho que nem suas tias devem reconhecer na TV. Quando a gente vê este Serra do debate de ontem na Rede Globo, sem fazer nenhuma interrogação firme para a Dilma, até dá saudade daquele outro. As tias dele devem sentir isso também.

Serra sofreu uma tal transformação na sua imagem que apenas uma vitória nesta eleição pode permitir que ele siga com prestígio na carreira política. Está naquela situação crucial do ganhar ou ganhar. Fora disso, vai ficar difícil seguir a carreira. O Serra anterior a esta eleição, um político que era respeitado até intelectualmente, ah, este Serra não existe mais.

Os elogios ao Lula e a dificuldade de se colocar de um modo firme na campanha, ou pelo menos coerente com seu passado, criaram um outro Serra, infelizmente muito próximo dos políticos comuns.

Uma cena de destaque de seu último programa político na TV mostra bem o que o espera depois de contado o último voto da urna, seja no primeiro ou segundo turno. A cena mostra Serra lendo a Bíblia na sala da casa de uma pessoa pobre.

Chega a ser constrangedor de tão tolo e é também patético, porque duvido que algo assim traga votos que compensem o desgaste do candidato nos meios onde ele sempre teve prestígio político e apoio eleitoral.

Não é uma questão de ser ateu ou religioso, mas é que o uso da religião ou até da submissão aos que a usam como forma de pressão política já deu provas suficientes de que termina em porcaria. Fortalece a opressão e ameaça a liberdade não só das minorias. Também dá em corrupção, como já vimos muito bem com as bancadas “religiosas” no Congresso Nacional.

Mas sei como é que acaba indo para o ar uma cena desastrosa como esta. Vem da análise da política com olhos de marqueteiro. E isso tapa a visão sobre amplos aspectos da existência, mas vamos ficar no mais simples: depois da eleição a vida do candidato continua. E ele vai sair por aí com uma Bíblia na mão?

Olha só que lição importante num período tão curto: não se deve dar a própria vida nas mãos de um marqueteiro. E o interessante é que aquele outro Serra parecia saber disso.
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POR José Pires

quinta-feira, 30 de setembro de 2010