domingo, 21 de novembro de 2010

Porquinho na esteira

Os petistas fingiram achar engraçado a nova chefe (ou chefa?) chamá-los de Três Porquinhos na reunião do Diretório Nacional, mas a verdade é que o apelido pesa. Hoje o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, anunciou em seu Twitter que começou a fazer exercícios para fugir do apelido. Dutra é um dos Três Porquinhos, junto com o ex-ministro Antonio Palocci e José Eduardo Cardoso.

Bem, um exercício físico sempre vem bem, mas há uma confusão do presidente do PT quanto à origem do apelido de porquinho. Deve ser esse tipo de coisa que traz tanta preocupação ao Marco Aurélio To-Top-Top Garcia com a falta de idéias na esquerda brasileira.

Top-Top-Top Garcia disse na última quarta-feira que a esquerda "tem mais votos que idéias", o que me faz ao menos uma única vez concordar com ele. Ora, se o presidente do maior partido da esquerda brasileira não consegue atinar sequer para o motivo de um apelido tão simples, fica mesmo difícil que esse partido produza alguma idéia para compensar os votos que arranca do eleitorado com a máquina do governo federal.

Será que Dutra pensa mesmo que ele e os outros dois coordenadores de campanha de Dilma Rousseff foram comparados à famosa trinca de porquinhos só por suas adiposidades? Decerto estará imaginando também que o apelido que era falado apenas às suas costas até que Dilma tornou isso público viria também das três encantadoras figuras criadas pelos Estúdios Disney. Top-Top-Top Garcia tem mesmo razão. É bem evidente que esse pessoal precisa de esteira de ginástica, mas, muito mais que isso, eles precisam mesmo é de livros.

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POR José Pires

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Os três porquinhos e o Brasil


Não deixa de ser engraçado a presidente eleita, Dilma Rousseff, chamando seus coordenadores de campanha mais destacados de “três porquinhos”, mas não convém rir muito disso porque existe um estilo no que se viu na reunião do Diretório Nacional do PT em que ela fez a piada humilhante com três figuras políticas petistas bem vividas. E este estilo vai se instalar na presidência da República e pode influenciar bastante as relações em todo o país.

José Eduardo Dutra e José Eduardo Cardoso estavam presentes, mas o terceiro porquinho, Antonio Palocci (o daquela porcaria da quebra do sigilo bancário), cuidava de outros afazeres. Triste fim do tão prestigiado Palocci — um petista por quem até certos tucanos guardam muito respeito —, acabar subordinado a uma chefe (ou chefa?) que faz piadinhas depreciativas em público.

Mas Dilma fez a piada de forma simpática, dirão alguns para consertar a gafe da gerente (ou gerenta?). Ah, bom...

Na reunião com os três porquinhos em primeiro plano já dá para ver uma Dilma deixando para trás a ternura implantada de forma artificial pelo marketing político. E é apenas o primeiro discurso público da eleita. O vídeo está na internet para ser conferido. O tom de voz na piada com os dois líderes petistas e o ex-ministro da Fazenda já é uma boa pista. Mas tem mais. Ela esquece termos coletivos. Sua fala: “Acredito que os três porquinhos foram muito bem sucedidos na coordenação da MINHA campanha”.

Lembro que há poucos dias era "NOSSA campanha". Dilma pode até consertar isso nas próximas falas, mas é este ato falho que expressa o que vem por aí.

Dilma tem uma personalidade opressora, o que é confirmado por vários depoimentos. Em situação de superioridade, ela não respeita habilidades técnicas ou profissionais e muito menos os sentimentos alheios. Pisa mesmo. As coisas têm que ser do jeito que ela quer. É o pior tipo de chefe que existe e não só pelo inferno cotidiano que acaba sendo criado: esta forma de administrar é contraproducente.

Digo com sinceridade e sem nenhuma intenção de fazer piada: não é à toa que Dilma pegou em armas para implantar por meio da força bruta suas idéias. É o jeito dela e isso não ficou para trás. Nada indica que ela tenha buscado trabalhar este claro desvio de personalidade. Eu disse desvio? É óbvio que ainda hoje em dia ela acredite naquilo como um rumo certo, apenas com as ressalvas contextuais entre aquela época e o que ocorre agora.

Mas voltemos aos três porquinhos. Seria mais engraçado se não estivéssemos todos presentes também nesta piada. Dessa forma, não há como deixar de trair uma boa dose de nervosismo no riso, o que é perceptível na reunião do PT. Olhando o vídeo, tenho a impressão de que um que não achou muita graça foi o governador da Bahia, Jaques Wagner.

Não é um mundo dos melhores ter um estilo brutal como o de Dilma implantado no posto mais alto da República. Será que ainda vamos ter saudades da descontraída irresponsabilidade de Lula? Com ele, tivemos um presidente que destruiu como nenhum outro dirigente público parâmetros de seriedade na administração pública. Com a força da propaganda governista cotidiana e a ausência do Judiciário, além da conivência da imprensa, Lula liberou qualquer prefeitinho a tocar sua prefeitura sem nenhum respeito à ética ou qualidade administrativa.

E com Dilma poderemos ter um presidente que parece ver no assédio uma ferramenta eficiente para alcançar a produtividade. No Brasil, o presidente da República infelizmente tem influência demais. Já imaginaram esta grossura se espalhando?

Parece que a propaganda eleitoral de que o Brasil está em ótima situação não foi finalizada com a eleição, mas todos sabem que a coisa não está tão boa assim. Até a imprensa sabe disso, mas embarca na onda governista mais com um olho no caixa das empresas do que no interesse jornalístico e ético das redações.

Mas como a realidade não segue as pautas dos jornais e muito menos às da propaganda política, teremos tempos duros pela frente. Vai ser duro enfrentar isso com alguém na presidência da República que acha que produtividade se alcança no grito. Tomara que não aconteça com o país o que tivemos com Lula, que contagiou a vida dos brasileiros de forma marcante com seu otimismo propagandístico calcado na irresponsabilidade e na ausência ao trabalho.
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POR José Pires

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

PIB chinês e outros PIBs

Que o crescimento do Produto Interno Bruto, o PIB, não serve como referência de qualidade já é coisa mais que comprovada. Gastos com um furacão, por exemplo, podem dar um bom reforço no PIB de um país. Bem, pena para os petistas que o Brasil não tem furacão, não é mesmo?

Esta é uma daquelas verdades que não pegam no Brasil, tanto que o crescimento artificial do PIB brasileiro serviu como uma das vitaminas inventadas pelo marketing para bombar a candidatura de Dilma Rousseff. Até a qualificação do crescimento do nosso PIB, na associação com um tal "PIB chinês", serviria como pista do embuste, mas mesmo assim todos engoliram a lorota.

O PIB chinês é uma boa comprovação do que é este valor referencial. A economia chinesa cresce em grande parte às custas da opressão sobre a força de trabalho chinesa, uma economia que não permite os mínimos direitos trabalhistas e onde os trabalhadores recebem salários baixíssimos. Em muitos casos a situação é praticamente de trabalho escravo, com o agravante de que tal situação é mantida pelo Estado. Outro fator importante para manter o PIB nas alturas é o uso abusivo dos recursos naturais da China e um descaso absoluto com qualquer regra de respeito ao meio ambiente. Hoje, o país já sofre com o esgotamento de recursos naturais e a desertificação de grande parte de seu território. A poluição dos ares e da água também é altíssima, além do esgotamento dos recursos hídricos. Milhões de chineses já têm sérias dificuldades para obter água potável.

A destruição ambiental é uma das desgraças do comunismo, com certeza a pior delas, mesmo que todos os outros desatinos gerados por esta idéia política e econômica já sejam suficientes para manter a humanidade horrorizada por séculos.

Mas o PIB chinês é alto, tanto que a presidente eleita passou todo o período eleitoral falando do nosso nesses termos. Isso já uma dica do que ela pode fazer no governo, pois a China já mostrou como se faz um PIB chinês. É sobre terra arrazada. Literalmente.

Mas um PIB desses tem sustentação? Claro que não. O que a China vem fazendo com a natureza e com sua população tem uma conta a ser saldada no curto prazo. Mas o que importa nesse negócio de PIB são os números frios. É uma conta sem projeção futura e sem nenhum interesse na discussão da subtração que virá como consequência.

Um outro bom exemplo dessa lorota que é o PIB pode ser pescada hoje mesmo nas notícias da internet. É sobre o alto crescimento do PIB do Piauí, detectado em números do IBGE. Os dados são da Contas Regionais do Brasil 2004-2008, divulgadas nesta quarta-feira pelo IBGE. O Piauí teve o maior crescimento real em 2008, com 8,8% de alta no PIB, superando a média nacional, de 5,2%. Coitado do estado de São Paulo, não é mesmo? Pobre Minas Gerais.

Pois é, o Piauí teve um PIB chinês em 2008. Mas é o PIB do Piauí. Com dizia o grande cartunista Fortuna, não é nada, não é nada... não é nada.
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POR José Pires

domingo, 14 de novembro de 2010

Dando o ar de sua azaração

Já deu pra ver que o seca-pimenteira fez mais uma vítima, não? Pois é, no dia 23 de setembro, na função dupla de presidente da República e cabo-eleitoral de Dilma Rousseff, Lula visitou a Seleção Feminina de Vôlei em Maringá, no Paraná. Desta vez não foi o time que procurou Lula. O próprio petista levou sua uruca para azarar as pobres moças, que acabaram perdendo logo depois o título mundial para a Rússia.

Mas houve uma séria imprevidência durante a visita do pé-frio. As atletas o presentearam com uma camisa da seleção autografada por ela. Tinha que dar no que deu: é mais um time na interminável lista de desgraças desportivas que têm como centro a relação muito próxima com as energias de Lula.

A fama de pé-frio do Lula é muito conhecida no meio esportivo. Observem bem a foto. Parece haver um ar de preocupação entre as atletas que posam com o Supremo Apedeuta, ele como sempre aparentando estar duas doses acima da humanidade em animação. A tensão das atletas é vísivel. E dá para entender o temor de quem teria a responsabilidade de disputar um torneio mundial pouco mais de um mês depois desta azaração.

No encontro em Maringá, o bravateiro ainda veio com uma lorota ufanista em cima do nosso voleibol. Vejam o que ele disse: "Antes, quando jogávamos contra Estados Unidos, Rússia e Cuba, já entrávamos em quadra achando que éramos inferiores. Agora, são os adversários que têm medo de jogar contra as meninas e meninos do Brasil. O voleibol é um orgulho para o Brasil".

Nesta lógica torta do seca-pimenteira do Planalto até o voleibol seria outro depois dele virar presidente do Brasil. Ele está sempre assim, sem medo de dizer besteiras. Mas faltou seguir a máxima do Grarrincha e combinar com as russas.
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POR José Pires

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O bravateiro Lula nas memórias de Bush

Em seu livro de memórias, lançado ontem, o ex-presidente George W. Bush desmascara de forma indireta uma grande bravata do presidente Lula.

Que Lula é bravateiro, todo brasileiro sabe. Ele já confessou que seu passado na oposição foi cheio de bravatas, hábito que não abandonou depois que alcançou o poder. No seu primeiro mandato, quando Bush ainda era presidente dos Estados Unidos, o petista disse numa roda de churrasco com deputados do PTB que um dia "acordou invocado" e ligou para o Bush. Era para cultivar a imagem de que tinha essa intimidade com o presidente americano.

Pois ele mentiu. Na sua autobiografia, "Decision Points", Bush não cita Lula nenhuma vez. Ele fala do Brasil apenas duas vezes e mesmo assim de forma secundária. De Lula, nada. É bem pouca intimidade com um camarada que não pensava duas vezes antes de ligar para a Casa Branca depois de acordar invocado.

Até o ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, merece umas palavras no livro que conta a experiência de Bush nos dois mandatos. Mas ele não lembra nem um pouco do petista. E, pelo jeito, deve ter esquecido também aquele convite do Lula para que Bush viesse pescar na Amazônia depois de deixar a Casa Branca.

Mas, de qualquer forma, fica registrada de forma indireta mais esta bravata de Lula. Pode até ter acontecido de um dia ele ter ligado para o Bush depois de acordar invocado, mas pelas memória sdo ex-presidente dá pra entender que Bush mandava dizer que não estava.
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POR José Pires

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Humor a favor do pior

O adesismo no Brasil contamina praticamente tudo. Perdeu-se o sentido crítico até em atividades que teriam, ao menos na teoria, que ser independentes. Hoje em dia anda tudo misturado.

Até o humor não toca mais de fato nos assuntos de forma crítica, de forma que os políticos devem até estar gostando das charges que fazem com eles. Dos programas de humor da TV eles devem gostar ainda mais.

Não costumo ver televisão, mas hoje, com a internet, felizmente é possível ficar informado sem perder tempo na frente da TV à espera dos programas. É lamentável o que andam fazendo em programas de humor, como o Pânico e o CQC. O humor na televisão brasileira acabou descendo para níveis ainda mais baixos que os chamados programas de baixaria.

Primeiro, criam uma confusão entre informação e entretenimento do mais baixo nível. Constrangimento e moças boazudas são os ingredientes mais usados. E as pessoas pensam que é jornalismo o que eles fazem, perseguindo artistas e políticos e buscando extrair humor do constrangimento causado de forma grotesca por seus integrantes munidos de microfones e agindo como se fossem repórteres.

Este é um problema grave. Nesta confusão a imprensa acaba sendo depreciada. Nas revistas e nos sites a internet existe uma questão aparecida, com a invasão da fofocas com celebridades editadas como se fossem noticiário sério. Na internet é ainda pior que nas publicações impressas, porque pelo menos nesta área a fofocagem é feita em revistas especializadas neste tipo de besteira.

Já nos sites acaba havendo uma mistura, de forma que fica difícil saber onde termina o jornalismo e começa a construção de textos sensacionalistas e muitas vezes até inventados. Isso é jornalismo? As pessoas que fazem essas coisas podem até ter o diploma, este canudo que o corporativismo sindical luta para tornar obrigatório, mas esta é uma atividade bem longe do jornalismo, ainda que não fiquem claras as diferenças.

Os programas de humor avançam ainda mais na quebra desses limites e não é sem querer. A confusão deliberada reforça o efeito desejado. Afinal a ambiguidade é uma ferramenta muitas vezes essencial no humor. Mas o que querem de fato esses programas de humor? Bem, não querem outra coisa além de fama e dinheiro.

E o resultado do que eles vêm fazendo, ao contrário de reforçar a crítica aos políticos e à cultura da celebridade que sufoca a arte no Brasil, acaba na verdade é banalizando estes assuntos. Reforçam a cultura da celebridade e dão um tom jocoso ao pior da política brasileira.

Com este método acabam até puxando para baixo gente com uma história um pouco melhor que a maioria. Logo no início da eleição para presidente da República vi o candidato Jose Serra sendo entrevista por uma moça do Pânico, uma descendente de japonesa que faz o papel de boazuda tola. O Serra chegou a dançar uma dessas bobagens que eles inventam para se fazerem de engraçados.

E se o Serra se negasse? Bem, poderia ter se envolvido numa polêmica terrível e acusado de ter má-vontade, ser mal-humorado, ou até de coisas piores. É um clima de chantagem que beneficia esse tipo de porcaria. Mas como a gozação é feita sem nenhum objetivo crítico fica tudo igual.

E esta ilusão de que tudo é igual acaba favorecendo os patifes. Andei vendo alguns programas do CQC com Paulo Maluf. Nem se fossem dirigidos por algum marqueteiro do próprio Maluf ele teria tamanho benefício. O ex-prefeito de São Paulo é uma figura tarimbada nisso. Com certeza ouviu muitas vezes do Duda Mendonça o conselho de procurar aproveitar a rejeição à políticos do seu tipo, manipulando o sentido real da sua imagem.

O Maluf cara-de-pau, que abraça até quem acabou de fazer uma crítica pesada, é um personagem que não permite ganhar a disputa para um governo estadual. Mas dá de sobra para uma eleição de deputado. E é óbvio que ele navega nesta onda. Está vivendo disso.

Programas como o CQC são ótimos para este fim. É um caso interessante de simbiose onde existe um benefício quase natural entre o humorista e o criticado. Maluf é um parasita dos cofres públicos. Suga mesmo. Mas com programas como o CQC é outra a biologia. A nutrição é mútua.

Um encontro ocorrido entre Maluf e Ernesto Varela, nesse último sábado, revela bem a harmonia dessa convivência. Os dois se abraçaram. É uma compreensão de igual para igual do sentido prático da encenação. Será que assinaram contrato?

E se alguém acha que estou exagerando quando digo que estamos numa época de adesismo, tente imaginar o Maluf abraçado a um membro do semanário O Pasquim na década de 70 (o Ziraldo não vale). Impossível, não?

Não tem chargista que vai para Brasília receber comenda de Ordem ao Mérito dada pelo Sarney? Ah, tem até cartunista que aceita a bolsa-ditadura do Lula. Pois do mesmo modo oportunista, o CQC pode muito bem fingir que critica o Maluf apenas para aproveitar a audiência que ele pode atrair. Não importa que o humor falsamente crítico na verdade humanize esta figura nefasta da política. O que interessa é faturar.

Varela e Maluf se encontraram em um camarote do GP Brasil e Maluf abraçou Varela dizendo: “Eu adoro o CQC”. O apresentador devolveu o cumprimento: “E eu adoro o senhor”.

É claro que, espertamente, Varela tenta escapar pela ambigüidade que o papel de humorista dá à sua fala, mas seja qual for o sentido real do que disse, o resultado é sempre o de criar uma simpatia em relação a Maluf.

Pode parecer que existe um tom irônico no “adoro” de Varela, assim como no “adoro” de Maluf, como se eles sentissem o contrário do que falam. E é muito bom para os dois que as pessoas pensem assim. Mas aí seria viajar na linguagem. Não acredito que haja outro sentido nesta amabilidade mútua e pública. É no literal: Varela e Maluf se adoram mesmo. E eles têm bons motivos para isso.
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POR José Pires

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

As bombas do ministro Haddad

A situação do ministro da Educação, Fernando Haddad, chega a ser cômica: a cada prova do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, seu ministério leva bomba com algum problema que ganha as manchetes. O Enem era para ser uma aferição da qualidade do ensino e passou a ser uma confirmação da má-qualidade do Ministério da Educação do governo Lula.

Agora foram os cabeçalhos trocados, mas já teve vazamento de dados pessoais de participantes e até o furto da prova de uma gráfica de São Paulo e a tentativa de venda, denunciada no final do ano passado pelo jornal O Estado de S. Paulo. O Enem era para ser um sinônimo de qualidade, coisa de bom aluno e de estudante aplicado. Mas virou sinônimo de desordem e corrupção. O MEC é o ignorante bagunceiro do fundo da sala de aula, isso quando não é coisa pior.

Um projeto estratégico para a educação brasileira acabou sendo desmoralizado. Entre os estudantes a maior expectativa quanto ao Enem é qual vai ser a estupidez que irá acontecer com o próximo exame.

Os problemas do ministro Fernando Haddad não são poucos na sua bagunçada pasta. É uma bomba atrás da outra. Com ele encalacrado nas confusões do Enem, a imprensa passa a vasculhar tudo à sua volta. Pode dar até problema no currículo. E já deu.

Fala-se bastante da falta de experiência da presidente eleita Dilma Rousseff, o que é um fato. Mas Haddad também não mostrou muito serviço antes de virar ministro por um dedaço de Tarso Genro.

Ninguém tem lembrado do fato, mas foi o ex-ministro Tarso Genro que indicou Haddad, quando abandonou o ministério da Educação para assumir o da Justiça. Será que vai ter uma vaga para Haddad lá no Rio Grande do Sul, onde Genro ganhou a eleição para o governo? vai ser difícil para o ministro da Educação passar de ano e ir para o governo Dilma.

Mas, voltando ao currículo de Haddad, basta dar uma sapeada em seu Currículo Lattes para sentir a coisa. Desde 2003 ele não atualiza a joça. Por sinal, no Lattes tem até uma informação que me deixou bastante curioso. É sobre o domínio de línguas. O espanhol, o ministro da Educação diz que "compreende bem, fala bem, lê razoavelmente e escreve pouco". É estranho que alguém compreenda bem e fale bem uma língua estrangeira sem ter a capacidade de escrever com a mesma competência.

E o ministro Haddad nem pode dizer que é como um Lula em espanhol, porque para isso Lula teria que falar bem o português que não consegue ler e nem passar para o papel de forma alguma.

Hoje o blogueiro da Veja, Reinald Azevedo, andou destacando trechos de textos publicados por Haddad antes de ser nomeado ministro.

Um trecho de "Trabalho e Linguagem - Para a Renovação do Socialismo", escrito por Haddad, mostra com clareza o nível do ministro: “O sistema soviético nada tinha de reacionário. Trata-se de uma manifestação absolutamente moderna frente à expansão do império do capital“. É um atestado de fé no sistema soviético. O livro é de 2004, mas num trabalho anterior, quando ele tornou-se mestre em economia em 1990, Haddad pôde demonstrar sua confiança no modelo comunista da antiga União Soviética. A monografia se chama “O caráter sócio-econômico do sistema soviético”.

O problema, como é bem colocado por Reinaldo Azevedo, é que menos de dois anos depois ocorreu o fim da União Soviética.

É bem estranho uma crença dessas no futuro da União Soviética, escrita por alguém em 1990. Este foi o ano da queda do Muro de Berlim, mas os avisos da dissolução do modelo soviético vinham bem antes que começassem a quebrar os tijolos do muro. As idéias da glasnost e da perestroika foram apresentadas oficialmente por Mikhail Gorbachev em 1986. Mas antes disso, num espaço de décadas, já havia muita literatura mostrando que o modelo se sustentava na miséria da população das repúblicas submetidas à força pelo governo comunista. O modelo dependia até mesmo do trabalho escravo. Ainda na década de 50 (em 1958 em livro publicado no Brasil) Milovan Djilas já criava o conceito de "Nova Classe" e mostrava que o que se criava era uma mera burocracia ineficaz e corrupta.

Será que enquanto escrevia sua monografia Haddad estava entre os que torciam pelo golpe deflagrado pela linha dura do Partido Comunista Soviético? Terá ele acreditado até o fim (talvez até hoje) que essas forças não permitiriam jamais a mudança de modelo, com o fim do comunismo?

É também provável que estando absorvido demais na monografia, possa ter escapado ao ministro Haddad informações que eram repassadas naquela época inclusive pelos jornais diários. Cinco anos antes dele entregar sua monografia (Puxa vida, quem será que aprovou a peça acadêmica?) já havia muita literatura revelando o colapso do modelo soviético.

O ministro tem também outra obra sobre o tema do comunismo. É um livro com manifesto político — "Em Defesa do Socialismo" — publicado pela editora Vozes na coleção "Zero à Esquerda", a prova de que um trocadilho pretensamente muito esperto pode sair pela culatra.

E depois o pessoal ainda estranha quando o MEC distribui nas escolas livros que exaltam de forma mentirosa o socialismo real e tratam como estadistas progressistas assassinos como Stálin e Mao Tse-Tung.

Haddad acabou ficando na mesma posição de velhos líderes comunistas do antigo pecezão que até hoje não admitem que aquilo tudo, inclusive a queda do Muro de Berlim, aconteceu de verdade. Prestes morreu com a certeza de que tudo era um jogo da direita. E até hoje o mais que centenário Oscar Niemeyer não admite que Stalin tenha sido um ditador criminoso. Ora, Antonio Cândido até escreveu que “Fidel Castro é um líder extremamente humano”.

Escrevi sobre isso aqui, aqui e aqui.

E que ninguém submeta Haddad a uma prova sobre o tema, na forma de um Enem sobre o sistema soviético e outras formas de comunismo. Com certeza o ministro vai tomar bomba.
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POR José Pires

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O segundo em primeiro

Hoje o Estadão Online traz um exemplo da paparicação que se faz com Chico Buarque no Brasil. Colocam em destaque na página Chico Buarque como vencedor do Prêmio Jabuti. Veja ao lado. Ora, acontece que o cantor ficou em segundo lugar. O próprio texto embaixo da chamada torna ridículo o tratamento que o site deu à premiação. O primeiro lugar foi Edney Silvestre. Então por que o destaque para Chico Buarque? É a paparicação de que falei.

Ao Chico se perdoa tudo e o que vem do Chico é sempre tratado como se fosse coisa de gênio. E como o cantor trabalha muito bem seu perfil dissimulado, sabe se aproveitar de forma estupenda dessa falta de senso crítico da imprensa. Virou um mito vivo, mesmo não tendo requisitos para tanto nem na sua especialidade, a MPB.

Chico Buarque é gênio da MPB? Não mais que João Bosco ou Aldir Blanc e de tantos outros da sua geração. Aliás, musicalmente Chico é melhor quando está com parceiros como Francis Hime do que quando faz as coisas sózinho. Isso é um fato, não opinião minha.

Mas a paparicação em torno do Chico acabou criando o mito. Chico é um militante pela liberdade. Menos, menos. Sua participação em eventos políticos é sempre mais tocada pela aparição rápida e sustentada apenas por este mito do que por atitudes práticas de sua parte. E nos últimos anos a única coisa que ele tem feito é apoiar o Lula. Foi até locutor de uma peça publicitária vergonhosa do marqueteiro Duda Mendonça, aquela da última eleição de Lula em que grávidas caminham num campo. Depois descobriu-se que várias das grávidas do Duda Mendonça usavam barrigas falsas.

No tocante à liberdade política, tem também a relação histórica de Chico com um regime político contrário à democracia. Ele é o mais importante avalista no Brasil da ditadura de Fidel Castro. E hoje em dia não sai em ajuda nem a seus colegas cubanos, como o cantor cubano Pablo Milanés, que reclamam em Cuba uma abertura política.

O que o Estadão Online faz hoje não é coisa séria, pois dá destaque ao segundo lugar, levado por esta paparicação que criou um mito que não se sustenta em pé de forma alguma.
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POR José Pires

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Agora vai

Quem é vivo sempre aparece. Os muito vivos mais ainda. O deputado Paulo Perreira da Silva, o Paulinho da Força, que também é presidente do PDT-SP, apareceu para cobrar a fatura do apoio à Dilma Rousseff. E veio com uma curiosa conta para organizar o toma-lá-dá-cá.

Primeiro, Paulinho disse que seu partido quer mais um ministério, além do ministério do Trabalho, que no governo Lula é do PDT. Qual ministério? Qualquer um. É sério: foi isso que ele respondeu.

"Nós vamos brigar pelo Ministério do Trabalho e por mais um, não sei qual ainda”, disse Paulinho. Isso de certa forma cala os críticos que diziam que Dilma faria um governo sem rumo. Será um governo de objetivos é muito claros, conforme pode-se ver na fala do pedetista.

Mas o melhor mesmo foi a fórmula que Paulinho da Força encontrou para justficar o direito de seu partido ter mais um ministério. Segundo ele, como o PMDB tem 78 deputados e 14 senadores, isso significa que 13 deputados valem um ministério, o mesmo que dois senadores e meio.

Já o PDT tem 28 deputados e quatro senadores, daí os dois ministérios reivindicados pelo partido. Isso tudo pelo raciocínio do deputado Paulinho.

A coisa está se organizando. Pode ter corrupção, clientelismo, tudo isso a que o brasileiro já está até se acostumando a ver na política. Mas parece que, graças ao Paulinho da Força, encontraram finalmente um cálculo para a moeda deste toma-lá-dá-cá.
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POR José Pires



Amém, companheiros

As burecas existem

Ainda não dá para ter certeza se a Bulgária existe. Pode ser mais uma mentira da Dilma. Mas já estamos ficando craques nos usos e costumes búlgaros. Com todo o respeito, será que a dona Dilma já comeu bureca? Recomendo. É uma delícia.

Não confundam com brusqueta, que é italiana e é coisa bem diferente. Também é uma gostosura, mas não é como a bureca ou boureka. Quem veio lembrar dessa gostosura foi a fotógrafa Elvira Alegre, por meio de um e-mail onde ela relembra os tempos em que labutava na imprensa alternativa, como no combativo e ousado jornal Ex, que teve um papel muito importante na denúncia da morte de Vladimir Herzog, e no semanário Aqui São Paulo, fundado por Samuel Wainer nos anos 70 e citado no texto da Elvira. O Haf, de quem ela fala, é o falecido jornalista Hamilton Almeida Filho, um dos editores do Aqui São Paulo.

Falando nisso, Wainer nasceu lá por aquela região, na Bessarábia, e isso foi até motivo de uma agressiva campanha contra ele feita pelo Carlos Lacerda. Como estrangeiros não podiam ser donos de jornal, Lacerda usava esta justificativa para que o jornal Última Hora saísse das mãos de Wainer e o presidente Getúlio Vargas fosse atingido com isso.

Aos poucos vamos chegando ao destino que Campos de Carvalho buscou em vão no ótimo "O Púcaro Búlgaro", de que já falei aqui. Talvez a Bulgária exista mesmo. Ao menos as burecas búlgaras tem a existência garantida, inclusive no Brasil. Leiam no e-mail da Elvira Alegre:

"Lendo no seu blog as baboseiras que Dona Dilma fala, dá vontade de chorar... que mulher desinformada... coitada não teve o prazer que tive de comer nos idos dos anos setenta deliciosas burecas e buriquitas preparadas por uma senhora búlgara no bairro Bom Retiro, em São Paulo. Grávida da minha filha mais velha, Joana, ia levada pelo Haf e Samuel Wainer matar aquela "vontade de comer nãoseioque" típica da gravidez. Fiquei tão fã do acepipe que virei frequentadora assídua do lugar, uma portinha onde subíamos uma escadinha até a delicatessen que era na própria casa da senhora de quem não me lembro o nome, que pena. Tal fissura levava os companheiros do jornal Aqui São Paulo, com redação ali perto na rua Três Rios, a perguntarem quando me viam "e aí quando nasce a buriquita?"

Obs. são deliciosos pastéizinhos de massa leve assados, recheados com verdura ou carne e uvas passas. Burecas maiores e buriquitas menores.

Beijos e até, Elvira"

Viram? Já estamos quase lá. Se a Rosa não nos atrapalhar, como aconteceu no livro do Campos de Carvalho, ainda vamos provar a existência da Bulgária.
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POR José Pires

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Afinal a Bulgária existe mesmo?

Que bacana, com Dilma Rousseff na presidência da República o Brasil pode estreitar os laços com a Bulgária. Nem me perguntem para quê, pois eu não sei.Em assuntos búlgaros eu penso como o genial escritor Campos de Carvalho: tenho dúvida até se a Bulgária existe ou é outra mentira da Dilma.

Já explico a entrada do Campos de Carvalho aqui, mas voltando à importância da Bulgária para nós brasileiros, não se preocupem que logo os jornais, revistas e sites estarão repletos de justificativas para isso. E os próprios blogueiros petistas que entram de cabeça e de forma fanática em qualquer coisa que o governo Lula inventa logo estarão escrevendo com grande convicção sobre a importância da Bulgária para os brasileiros.

Não faltarão receitas búlgaras,os costumes búlgaros e talvez até encontrem algum parente búlgaro dos Rousseff perdido em alguma ilha deserta. O Brasil já é naturalmente enfadonho, chato mesmo, e tem uma imprensa que não ajuda muito a amenizar isso.

Pelo jeito até mesmo a presidente eleita não tem muita fé na existência da Bulgária. Ontem no Jornal Nacional ela soltou uma pérola, depois de passarem uma reportagem sobre familiares dela na Bulgária. Lá vai:

"Olha, Bonner, eu tenho a impressão que vai ser uma comoção. Uma emoção para mim e acho também uma emoção para eles, porque é um país pequeno. Você imagina nesse país pequeno, em que a visão do Brasil, o Brasil visto de lá é 190 milhões de pessoas, é um país que está se desenvolvendo, criando emprego, um país que é visto no mundo como uma das grandes oportunidades. Então, eu acho que vai ser muito interessante, até porque eu acredito que eu sou a única búlgara entre aspas para eles que teve algum sucesso fora da Bulgária. Eu não sei falar uma palavra, nada. Então vai ser muito difícil".

Seria impressionante se já não tivéssemos tido contato até demasiado com a dona Dilma. Vindo dela, nada surpreende. Mas mesmo assim é fogo imaginar que teremos quatros anos à frente disso aí. Teremos na presidência da República a búlgara de maior sucesso fora da Bulgária, é isso? Ah, santinha...

Dilma ainda pode vir a ser a redenção intelectual do Lula. E não duvido que ele tenha tramado sua eleição exatamente por isso. Mas a bobajada só mostra que sua candidata também não tem interesse por livros. Esteira parece que ela também não gosta muito.

A Bulgária tem Elias Canetti. Mesmo que Dilma nunca tenha lido Canetti, além de tudo um prêmio Nobel, mas também um escritor de obras-primas importantes para a discussão do totalitarismo, ela nunca teve interesse nem em saber um pouco sobre a cultura da terra de seus antepassados? Se tivesse, teria chegado fácil na existência desse escritor tão bom.

"Auto-de-Fé" e "Massa e Poder" são seus livros mais conhecidos, mas gosto muito da sua obra memorialística. Ensinam muito sobre um período essencial da história mundial e também trazem histórias deliciosas de ler. Não é qualquer um que pode escrever sobre Freud, Joyce, Karl Kraus, Alban Berg, Alma Mahler, Schonberg,Kokoscha, Robert Musil e Tomas Mann, só para citar alguns, como se eles estivessam na esquina. E na esquina de Canetti eles estavam de fato.

Os livros de Canetti que tenho, publicados pela editora Companhia de Letras, só padecem daquela burrice editorial brasileira de não ter o índice onomástico, o que é sempre uma trabalheira para a consulta e nas releituras.

É óbvio que não é preciso ter pais búlgaros para ler Canetti, mas isso pode ser um motivo a mais. Sei que Dilma só está interessada no que dá proveito imediato. Mas é notável até sua falta de curiosidade, digamos assim, intelectual.

Mas com essa onda búlgara que deve vir por aí na nossa imprensa, bom mesmo seria desencavar um livro de Campos de Carvalho, "O Púcaro Búlgaro". É uma maravilha de novela, de um dos nossos maiores escritores e um dos poucos brasileiros com uma obra universal. É engraçadíssimo, brilhante mesmo. Tem menos de 90 páginas. É curto e grandioso como obra literária, além de ser um dos livros mais engraçados que já vi.

Campos de Carvalho é um escritor de humor de altíssima qualidade de texto, uma coisa rara em qualquer lugar (talvez até na Bulgária) e ainda mais no Brasil.

Pena que ele Carvalho já morreu. Essa nossa imprensa maluca iria entrevistá-lo muitas vezes, afinal ele talvez seja o único autor brasileiro que se dedicou a tentar descobrir a Bulgária. E o que parecia coisa de maluco até recentemente hoje adquire um caráter até institucional, já que temos uma descendente de búlgaros eleita presidência. E Campos de Carvalho pensando que escrevia ficção.

O escritor não pode mais falar de assunto algum, mas quem sabe não seria uma boa, na febre búlgara que deve acometer nossa imprensa, perguntar para a própria Dilma sobre o livro? "O Púcaro Búlgaro" só não é obra seminal porque depois dele (foi impresso em 1964, quando nosso país ainda era os Estados Unidos do Brasil) ninguém mais se interessou por este instigante assunto que é a Bulgária. Mas agora acredito que a coisa vai melhorar.

"O Púcaro Búlgaro" é a história de uma expedição à Bulgária na tentativa de descobrir se este país existe. E não vou revelar mais nada para não estragar a leitura. Tenho o livro de Campos de Carvalho numa edição preciosa da editora Civilização Brasileira, com capa e ilustrações do grande Poty. Olha aí ele na imagem só para dar inveja. Tive umas outras três edições deste livro, perdidas ou afanadas, talvez até por conhecidos acima de qualquer suspeição. Inimigos é que não foram, pois estes não se aproximam das nossas bibliotecas.

Não cabe aqui revelar se afinal ficou comprovada a existência da Bulgária. A existência de Dilma pode ser uma prova disso, afinal ela é a nossa presidente e isso não parece ser um sonho ruim do qual podemos despertar num instante.

Dilma que, por sinal, não deixa de ser uma púcara. Já explico: púcaro é um pequeno vaso que serve para extrair líquidos de outros vasos maiores. De certa forma, em política Dilma tem servido para algo parecido, não? Taí uma imagem para a Marilena Chauí fazer mil estrepolias filosóficas.

E não vou me estender mais porque o que temos muito que fazer agora. É tempo de nos aprofundarmos neste inebriante mistério que é a Bulgária. Se é que ela existe.
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POR José Pires

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Em sociedade


Flagrante da festinha privé que Lula deu no Palácio do Alvorada logo que foi anunciada a vitória de sua candidata à presidência da República. E pensar que durante a campanha a presidente eleita estava preocupada com o Paulo Preto, não é mesmo?
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POR José Pires

Acudam

Não é que precisasse disso para confirmar o que já sabemos, mas o primeiro discurso de Dilma Roussef depois da confirmação de sua eleição mostra que teremos um período muito chato pela frente.

Pena que chatice não permita o exílio. Uma situação dessas até justificaria que um filho teu fugisse à luta, talvez para Paris, onde Chico Buarque deve estar nessa hora depois de ter ajudado a impingir isso para o Brasil.
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POR José Pires

domingo, 31 de outubro de 2010

Bem além dos 3% de insatisfeitos

Ué, não eram apenas 3% dos brasileiros que não queriam nada com o Supremo Apedeuta? Não é isso que dizem os números desta eleição.Até o momento em que escrevo, com 99,96% dos votos apurados, é 43,95% para Serra e 56,05% para Dilma. Isso contando apenas os votos válidos.

A bem da verdade, são os votos de Lula, que se colocou de tal forma na eleição que Dilma muitas vezes nem parecia a protagonista de sua própria campanha.

Lula também usou a máquina pública da forma que quis, para montar o cenário perfeito para sua candidata. Foram meses em que a agenda do governo brasileiro foi submetida ao interesse da candidatura Dilma, primeiro na apresentação da desconhecida ao país e depois na combinação de eventos entre os assuntos de Estado e o interesse eleitoral da campanha petista.

A máquina pública foi utilizada inclusive na montagem de cenas de Dilma com personalidades estrangeiras de prestígio, entre elas o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para uso posterior em campanha, como de fato foi feito nos programas de televisão no primeiro turno e também no segundo.

Depois, Lula também montou da forma que quis o cenário eleitoral, sempre usando a caneta presidencial e sabe-se lá o que mais. Forçou alianças, impediu candidaturas estaduais e até passou uma rasteira no companheiro Ciro Gomes, que teve sua candidatura presidencial derrubada à canetadas.

Nunca se viu no Brasil tal abuso de poder, mas mesmo assim Lula não fugiu à sina de ter de disputar um segundo turno. A façanha de ganhar eleição pra presidente no primeiro turno ainda é privilégio de Fernando Henrique Cardoso. E o que deixa Lula ainda mais fulo é que o feito ocorreu com derrotas dele e ainda por cima por duas vezes.

Lula brigou de forma encarniçada, abusou do poder, se colocou de forma personalista numa eleição que parecia a dele. Por isso é impossível não ver nessa votação de Serra uma manifestação contrária a seu governo neste clima de plebiscito criado no país. E temos também os votos nulos e brancos, que somam mais de 7 milhões, além da abstenção, que ficou num percentual impressionante da votação total: 21,50%.

Se juntarmos todos os votos, bem mais de 50% dos brasileiros não estão satisfeitos com a forma que o Brasil vem sendo conduzido.

É bem além da ínfima porcentagem de insatisfeitos com seu governo que saem de pesquisas de institutos que trabalham inclusive para o PT. Os números são outros, muito acima do que tentam forjar como índice de popularidade e aprovação para um governante que faz um péssimo uso da faixa que leva no peito, ou melhor, na barriga, como ele diz. Esta eleição mostra que os brasileiros que não se dobraram são muito mais que os tais 3%.
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POR José Pires

Sai dessa, Zé...

Mas falemos também do candidato José Serra. O tucano colocou-se numa situação em que outro candidato jamais esteve em nossa história recente. É uma posição bem estranha, pois ele perde de duas formas.

Se ganhar a eleição, terá sempre que ouvir que não foi por méritos próprios, mas que foi levado ao poder pelo voto evangélico e pela força eleitoral deste ou aquele político, com o ex-governador e senador eleito, Aécio Neves, podendo levar uma vantagem nesta teoria caso haja uma boa votação para Serra em Minas Gerais.

E se perder a eleição, bem, perder sempre é ruím, mas para Serra pode ser um pouco pior. Se não for eleito a culpa vai ser exclusivamente dele, porque vai aparecer sempre alguém dizendo que havia indicado outra estratégia eleitoral, não só no primeiro turno como no segundo.
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POR José Pires

Preparando-se para o pior

Corre na internet uma piada sobre o Tiririca que muitos contam como se fosse uma declaração verdadeira do deputado de mais de um milhão de votos conquistados com palhaçada. Como Tiririca tem que provar que é alfabetizado, ele concordaria em se submeter a uma prova escrita... desde que seja corrigida por Lula.

A piada é boa e apóia-se na compreensão do despreparo de Lula. É apenas uma das piadas em cima deste grave defeito para o qual o Brasil parece nem querer acordar. Porém, o sucesso dessas tantas piadas sobre a obtusidade pessoal de Lula fazem tanto sucesso que é evidente que muito mais de 3% dos brasileiros têm os olhos bem abertos para o desastre que foi o período Lula que, infelizmente, pode não acabar no dia de hoje.

Em janeiro o Supremo Apedeuta sai do poder e deve-se começar então a desconstrução de sua imagem. Será um processo natural que virá com os resultados do que ele fez até agora. E neste último ano sua equipe teve que fazer malabarismos fiscais para que não aparecesse ao menos a parte disso que afeta diretamente a economia.

O restante deste desastre que é seu legado já está à vista, mas a maioria se esforça para não ver e nem escutar, já que parte da herança lulista é feita de tiros e gritos de horror das vítimas da violência cotidiana em nossas cidades.

Sem a caneta numa mão e a chave do cofre em outra e também sem o suporte diário de uma máquina de propaganda trabalhando a imagem de um presidente — aí sim vale o chavão — "como nunca se viu neste país", é muito difícil que sua imagem não vá se esboroando.

Lula vai deixar um legado terrível que deve criar muitas dificuldades para o presidente que será eleito hoje, seja Dilma ou Serra. Se eu achasse que o país tem bastante tempo pela frente (o que não acontece, até pelos graves problemas mundiais relacionais aos recursos naturais do planeta) até veria com bons olhos a eleição de Dilma, pois o próprio percurso de seu governo livraria de vez o Brasil dos danos do PT, diminuindo a influência nefasta desse partido sobre o país.

Mas acontece que a solução dos problemas brasileiros não depende apenas de esforço interno e enfrentamento dos riscos que se desenham para nós não estão limitados ao que pode ser feito entre nossas fronteiras.

É difícil do brasileiro colocar isso na cabeça, assim como é também difícil que isso entre na mentalidade tecnocrática de alguém como Dilma, mas pela primeira vez na história mundial a humanidade chega numa situação em que qualquer arrumação econômica e social tem que ter em vista o ponto crucial em que estão os recursos naturais do planeta, muitos deles a menos de vinte anos do esgotamento total e outros praticamente no final, inclusive recursos essencias para tecnologias modernas como deste computador onde teclo este texto ou do celular que tem sido vendido aos brasileiros como uma grande conquista social e econômica (não contam também que todo dinheiro dessa "conquista" vai pro estrangeiro).

Quatro anos de Dilma vão atrasar bastante a preparação do Brasil para enfrentar este difícil processo mundial, que não é para daqui uma centena de anos. É algo que até quem já passou dos trinta anos ainda terá tempo de ver, penso eu que com muito pesar. E para formar estruturas para enfrentar a barra pesada que vem aí não basta dar Bolsa Família para pobre e ficar acreditando na redenção social e econômica do país com os recursos do pré-sal — e o triste é que parece que isso não é só discurso eleitoral; eles parecem mesmo crer nisso.

Mas isso é conversa que não ganha eleição. Tanto que ninguém tocou neste assunto e o deputado que ganhou mais votos tinha um slogan equivocado que dizia que "pior do que está não fica". O Brasil pode ficar pior do que está, sim. E poderemos ver isso hoje.
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POR José Pires

Um governo de faz de conta e do conto-do-vigário

Todo o dia tem uma notícia nova sobre os problemas que Lula deixa para seu sucessor. O leitor tem que ser muito atento, pois a maioria dos jornais e sites deixam a denúncia desses males por conta de uns poucos colunistas ou colocam como notícia na parte de baixo das páginas.

E a máquina de propaganda do governo também faz um serviço pesado que acaba abafando qualquer problema que seja levantado de forma mais eficaz pela imprensa.

Isso quando não são os próprios assuntos que vão sendo pautados pelo Palácio do Planalto. Daí factóides vão sendo tratados como se fossem fatos verdadeiros e até conclusivos. Isso ocorre com a riqueza virtual do petróleo descoberto na camada do pré-sal. Ainda nem se sabe de fato como chegar até este petróleo, se é que ele está em condições de ser extraído. Mas sabe-se que para isso ocorrer levará pelo menos uma década. Entretanto, Lula passou os últimos dois anos de seu mandato falando do assunto como já fosse dinheiro em caixa. E Dilma seguiu na cantilena. Parte de suas promessas de campanha se baseiam nesta fonte de financiamento.

Não existe nenhum país que tenha alcançado equilíbrio social apenas pelo fato de ter grandes reservas de petróleo e está aí a Venezuela (um dos membros da Opep) para comprovar isso. E aí entramos nós, sempre os maiorais, é claro. O Brasil vai ser o primeiro a fazer isso. Só falta chegar no petróleo do pré-sal, mas isso é detalhe para um governo que deu pitaco até no vazamento de petróleo no golfo do México.

O governo Lula trata o assunto como se o dinheiro do pré-sal já estivesse pronto para ser gasto. A candidata do PT passou todo esse segundo turno falando em seu programa eleitoral de TV e de rádio sobre o que pretende fazer em seu governo com os recursos do pré-sal, um discurso que pode ter convencido muito eleitores desprevenidos.

É um governo construído em cima de factóides desse tipo. E a imagem de Lula se escora nestas miragens sem substância alguma. Alguém duvida que ele vai ser atingido de imediato quando os brasileiros perceberem que caíram em um conto-do-vigário da maior irresponsabilidade?
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POR José Pires

Tiririca é a cara de quem?

Hoje mesmo podem ser lidas outras notícias sobre a situação difícil legada por Lula. Num site pode-se ler que a indústria nacional perde espaço nas prateleiras dos supermercados, onde produtos nacionais são substituídos por importados. Os produtos vem de vários países e não são mais brinquedos vagabundos de plástico. O jornal O Estado de S. Paulo contatou em um hipermercado que, de 17 liquidificadores, 10 eram importados, havendo entre eles um modelo trazido do México. O jornal fez uma lista grande em que os produtos nacionais sempre perdem em grande proporção para os importados.

A desindustrialização é um fato. Para ficar apenas em um exemplo, na Black&Decker há dez anos, 80% dos produtos vendidos pela companhia no mercado local eram fabricados no Brasil. Atualmente esse porcentual é de 50%. A lista de substituição do nacional pelo estrangeiro é bem grande. Vamos citar mais um dado: hoje, 87% dos aparelhos de DVD comercializados no Brasil são importados.

E isso é apenas um pouco do legado de Lula. Se tem uma monstruosa crise estrutural sendo gerada na indústria, noutros setores não é diferente. Pode pegar qualquer um: meio ambiente, agricultura, saúde, emprego, educação, segurança, em todos os prognósticos não são nada bons, em alguns o desastre já acontece agora.

Na segurança, por exemplo, o país pode até ter inveja da paz que reina no Iraque, tanto em quantidade de mortos quanto no risco que o cidadão corre no cotidiano. Indo para outro site, podemos ler que um jornalista foi assassinado com um tiro na nuca em Paraíba do Sul, a 147 km do Rio de Janeiro. Nem importa o motivo do crime, pois notícias assim já fazem parte do cotidiano do brasileiro. Há menos de uma semana seis pessoas foram mortas e nove ficaram feridas numa chacina na Baixada Fluminense. Mílicias tomam conta de bairros inteiros em grandes cidades. Jovens são assassinados todos os dias em execuções sumárias. A violência já tomou conta de cidades médias e até de cidades pequenas.

Temos muito mais problemas. O legado de Lula é grande. E estou entre os chamados 3% que acreditam que esses dramas brasileiros vem do despreparo de Lula. O petista não sabe governar. Aliás, quando foi que se soube que Lula parou algumas horas atrás de sua mesa de trabalho? Ele faz política o tempo todo e como nunca montou uma boa equipe, já que seu partido e aliados estão na mesma escala de incompetência, temos um país desgovernado.

O caso Erenice comprova isso que estou falando. Pega em flagrante usando a Casa-Civil como esquema de favorecimento de amigos e familiares, a ministra que ocupou o lugar de Dilma Rousseff colocada lá pela própria, teria a obrigação de acompanhar toda a rotina administrativa do governo enquanto o presidente Lula sai a saracotear pelo país vendendo seu peixe e fazendo campanha eleitoral.

Mas é óbvio que isso Erenice não fazia. E aí é que está o verdadeiro problema. Até a corrupção é fichinha perto do evidente desgoverno que esta situação comprova. Se nem Erenice e muito menos Lula cuidavam da administração, quem é que estaria fazendo isso? Acho que não precisa responder, não?

Por variados interesses, alguns até para não contrariar o auto-engano e abrir á frente dos olhos uma realidade nada agradável, boa parte dos brasileiros faz de conta que as coisas estão indo bem no país em que todos tem um celular (ou mais de um), mas a maioria não tem esgoto tratado e mais de dez milhões não tem nem água em casa.

Mas, voltando ao Tiririca e o avaliador ideal para sua prova de alfabetização, hoje Lula saiu em defesa do deputado de mais de um milhão de votos.

Ainda em campanha eleitoral neste dia de eleição, Lula votou em São Bernardo do Campo e falou mal do candidato da oposição. O petista votou logo de manhã e saiu dando declarações favoráveis à Dilma e contrárias ao Serra. Ele sabe que imediatamente sites, rádios e televisões divulgam o que ele fala. Faz propaganda de caso pensado.

Mas Lula aproveitou para defender Tiririca. Eis o que ele disse: "O Tiririca é a cara da sociedade. Acho uma cretinice o que estão tentando fazer com o Tiririca. Estão desrespeitando 1,5 milhão de pessoas que votaram nele. Então, que não deixassem ele ser candidato. Acho que tem de fazer prova é quem está pedindo para ele fazer prova".

Parece uma auto-defesa, bem na linha de seu pensamento de que as leis devem ser atropeladas, conforme a conveniência do momento. Se Tiririca engambelou a lei e botou sua candidatura em campo mesmo sendo analfabeto, deixa isso pra lá. Lula não tem valores morais. Nunca teve. O problema é que ele expressa e age dessa forma com a faixa de presidente no peito, ou "na barriga", como ele diz.

Este é outro legado de Lula. Esta queda moral talvez seja sua mais problemática herança, fortalecida em dois mandatos onde atuou de forma desavergonhada contra as leis em variados setores, conforme o interesse de seu governo, da sua família e dos companheiros. Na telefonia, no meio ambiente ou na legislação eleitoral, nada ficou em pé quando barrava tais interesses.

Se Tiririca for mesmo “a cara da sociedade”, certamente não é a sociedade pela qual muitos brasileiros vêm lutando com muito esforço. Tiririca é “a cara da sociedade” de Lula e seus companheiros.
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POR José Pires

sábado, 30 de outubro de 2010

Pelo Twitter, o PT entra na história da internet

Dentre os políticos que marcaram esta campanha eleitoral, poucos deixaram uma impressão tão negativa como o deputado estadual petista Rui Falcão. No início da campanha de Dilma, Falcão era um de seus mais poderosos coordenadores, mas foi forçado a ficar nos bastidores praticamente escondido depois que foi descoberto o tal “núcleo de inteligência” dentro da campanha petista. O tal núcleo — nada inteligente, por sinal — se dedicava a espionar adversários e foi acusado até de espionagem interna no PT.

Há cerca de duas semanas, o jornalista Amaury Ribeiro Jr. acusou Falcão de ter furtado o dossiê com dados fiscais violados de tucanos e familiares do presidenciável José Serra. Segundo ele, o deputado petista “copiou” o conteúdo de sua investigação contra os tucanos, então armazenado num computador pessoal que estava num flat pago pelo próprio PT para Amaury ficar em Brasília.

Só o envolvimento neste lance já bastaria para o petista entrar de forma nem um pouco louvável para a história desta eleição, mas ontem o petista conquistou também a fama de ser o primeiro político brasileiro obrigado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a conceder direito de resposta no microblog Twitter, o que fixa seu nome definitivamente na história da internet.

É provável até que Falcão seja o primeiro político no mundo a fazer isso. É o PT conquistando glórias. O TSE concedeu o primeiro direito de resposta no Twitter por causa de dos “tweets” postados pelo deputado, que também é vice-presidente nacional do PT.

Num primeiro “tweet” ele afirmou o seguinte: “Cuidado com os telefonemas da turma do Serra. No meio das ligações, pode ter gente capturando seu nome para usar criminosamente…”.

Em outro “tweet, ele escreveu: “…podem clonar seu número, pode ser ligação de dentro de presídios, trote, ameaça de sequestro e assim por diante. Identifique quem liga!”.

Na ilustração estão as mensagens da página do deputado no Twitter. Para aumentar, clique na imagem. O nível é o mesmo de tantas manifestações feitas nesta eleição, que propagam boatos e atacam de forma desleal os adversários políticos. E algo bastante grave por vir de um membro da alta direção do PT, mas também é uma providencial comprovação de que é das lideranças petistas que vem o baixo nível que observamos no conjunto das manifestações de petistas em sites e blogs.

A primeira reação de Falcão foi pela via óbvia do respeito ao TSE, ou, como ele escreveu logo acima do direito de resposta, “A decisão da mais alta Corte Eleitoral deve ser respeitada e cumprida”.

Porém, logo depois o petista passou a seguir a linha definida pelo chefe, o presidente Lula, de fazer galhofa com a lei e os tribunais. Num de seus últimos “tweets” ele fazia a seguinte piada: “Quero agradecer a @joseserra_ e aos seus eleitores pela audiência ao meu twitter. Se soubesse disso antes, teria dando uns 10 dir.de resp.”. Ele fez também outras gozações com a decisão do TSE, o que mostra que o estilo Lula de lidar com a lei pegou mesmo no PT.

A profissão de Rui Falcão é o jornalismo, o que ao menos na teoria o qualificaria para compreender que não é nenhuma glória ser o primeiro político obrigado a conceder direito de resposta por ter usado o Twitter de forma ofensiva numa campanha eleitoral.

Mas suas piadinhas parecem indicar que ele ainda não entendeu os danos à sua imagem. Ou então é nervosismo. Afinal, com esta medida do TSE eternizam de maneira nada digna ele e seu partido na história da internet.
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POR José Pires

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Comando delicado











































































Ontem no programa eleitoral de Dilma Rousseff surgiu novamente a curiosa cena em que a candidata do PT tenta controlar um cachorro que não mostra nenhum disposição em aceitar seu comando. É o cachorro do José Dirceu, um labrador que ele abandonou na casa oficial que Dilma herdou quando passou a ocupar seu lugar na Casa Civil.

Dilma não deve gostar nem um pouco, mas naquele casa ela não é o macho alfa. A candidata lança na água um pedaço de pau para o cachorro pegar e isso pelo menos ele faz. Mas quando o animal volta e ela se abaixa para receber de volta o objeto, ele desguia para direita e cai fora como o pedaço de pau na boca. Vejam nas cenas acima. Na última, o cachorro do José Dirceu se manda, deixando Dilma na mão.

É o ponto em que o marqueteiro teve que dar uma escurecida na cena e fazer uma fusão rápida para não evitar um vexame para Dilma. Porém, não é a perda do controle sobre o cachorro do José Dirceu o que mais preocupa o Brasil. Mas a metáfora criada de forma involuntária pelo marqueteiro vem bem para ilustrar os problemas que podem surgir caso Dilma se eleja neste domingo.

Se Dilma Rousseff vencer a eleição neste domingo, deve se intensificar no PT uma luta interna pelo controle do poder que, desta vez, não terá a presença de Lula atenuando com seu peso histórico os níveis da disputa e até impedindo que a luta entre os grupos petistas atingisse a figura do presidente da República.

Neste caso, sortudo como é, ele acabou ganhando com as quedas ocorridas com o mensalão. Muitos dos companheiros que apearam forçosamente do poder, sendo o próprio Dirceu um deles, iriam dar um trabalho danado, pois se até eram de pular no lago para pegar o pedaço de pau, não aceitariam com muita facilidade vir até a mão de Lula com toda a obediência.

Hoje não existem dúvidas sobre o poder que Dirceu teria, caso não tivesse sido atropelado pelo mensalão. O Brasil certamente teria dois presidentes da República. E não seria improvável que o oficioso tivesse mais poder que o oficial.

Com esta turma não podendo atuar às claras, Lula teve que compartilhar menos o poder neste segundo mandato. Mas se Dilma ganhar, esta turma volta com tudo. E isto não tem nada a ver com propaganda do adversário: é um fato. Em política um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar.

Dirceu até já avisou: um mandato de Dilma é melhor que o de Lula, pois aí é o projeto partidário que vai para o governo. E quem tem um peso danado no comando deste "projeto partidário" é o próprio Dirceu, que aproveitou o primeiro turno para aniquilar várias lideranças petistas.

Também a exigência da disputa de um segundo turno veio reforçar o poder dos companheiros em um possível mandato de Dilma, na medida em que diminuiu bastante o mito da figura de Lula como o indicador máximo da vitória. E Lula, bem, Lula certamente tem um peso simbólico muito forte no partido, mas a máquina partidária está em outras mãos.

Vamos esperar até domingo e torcer, é claro, para que não dê Dilma. Mas se isso acontecer, tenho aimpressão de que Dilma ainda vai ter saudade desse teimoso cachorro do José Dirceu.
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POR José Pires

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Manifesto do PT usou o nome de Ruth Rocha contra a vontade da escritora

Documento petista algum resiste a uma análise aprofundada. Como se viu logo no ínicio desta eleição, não dava pra confiar nem mesmo no programa de governo da Dilma Roussef. A própria candidata havia rubricado página por página do documento, mas depois voltou atrás. E seu programa de governo foi pro lixo com rubrica e tudo

Nessa Lula ficou calado, mas bem que poderia ter dito que nunca na história deste país um programa de governo durou tão pouco. Pode ser até outro recorde mundial de seu governo.

Pois agora o PT está com problemas em mais um documento importante da campanha. É no manifesto dos artistas e intelectuais em apoio a Dilma, lançado com grande alarde no Rio de Janeiro há menos de duas semanas. O problema é de assinatura falsa, o mesmo que já havia sido denunciado no dia seguinte ao lançamento pelo cineasta José Padilha, diretor do filme "Tropa de elite 2". Hoje quem veio a público anunciar que usaram também seu nome no manifesto sem que ela consentisse foi a escritora Ruth Rocha.

Padilha chegou a divulgar uma nota oficial, publicada também no site do filme "Tropa de elite2", negando que tivesse assinado qualquer apoio à Dilma, ao contrário do que foi anunciado em evento com a candidata acompanhada de artistas e intelectuais, quando seu nome foi lido em público como se ele estivesse apoiando a petista. Na ocasião foi lido também o nome de Ruth Rocha.

O cineasta não assinou e teve peito para reclamar. Sabemos como isso funciona. Com Padilha a treta não funcionou. Como adquiriu prestígio com dois filmes de muito sucesso, o que deve ter dado a ele uma relativa independência financeira, o cineasta pode denunciar o uso indevido de de seu nome num manifesto eleitoral. É claro que nisso influiu também sua dignidade pessoal, comprovada pelo seu gesto, mas quantos outros podem fazer o mesmo, com a maioria dos mecanismos de financiamento na área cultural ligados direta ou idiretamente ao governo?

Deve ser difícil para um artista ou intelectual comprar uma briga dessas, tendo depois de apelar para uma Petrobrás da vida ou até de passar o chapéu em busca de financiamento em empresas privadas, tantas delas sujeitas á pressões políticas.

É simples desse jeito. Está cada vez mais difícil viver e trabalhar com independência hoje em dia na área cultural, de tal forma que até para se encaixar em prêmios internacionais tem pesado mais o dedaço governista que o mérito artístico. A indicação do filme "Lula, o filho do Brasil" para competir pelo "Oscar" prova isso.

Nós sabemos muito bem disso e os petistas ainda mais, pois foi de forma deliberada, até com alto planejamento, que teceram as redes que hoje aprisionam pelo bolso (ou estômago) intelectuais e artistas. Isso tem acontecido também em outras áreas vitais para a democracia, como no jornalismo e até na publicidade.

É preciso coragem para romper esta teia. Por isso sempre é bom quando a gente pode falar de atos como o da escritora Ruth Rocha, que hoje denunciou o uso de seu nome. Ela também não assinou o manifesto. Seu nome foi colocado no alto do manifesto sem que ela soubesse de nada.

Ruth Rocha divulgou uma carta aberta afirmando que não apóia Dilma e que mesmo que apoiasse não foi consultada para o uso de seu nome. O texto é endereçado á própria candidata do PT, como o título de "Carta á candidata Dilma".

Mais esta denúncia de apropriação indébita de uma assinatura famosa coloca agora em dúvida todas as demais assinaturas do apoio a Dilma. Quando é que vai sair um documento sobressalente autenticando cada nome em cartório? Coisa do PT só dá para acreditar se for assim. E dependendo também qual é o cartório que autentica, pois um poder cartorial como o do PT saberia ajeitar muito bem uma legitimação.

O manifesto de artistas e intelectuais teve a liderança do sociólogo Emir Sader, que posa (o próprio Sader escreveria "pousa", não é Reinaldo Azevedo?) de intelectual militante, mas que já teve vantajosas sinecuras do governo petista.

Na ocasião do desmentido do cineasta José Padilha, Sader desconversou com uma conversa songamonga, dizendo o seguinte: " Eu recebi a informação com a confirmação de Padilha. Mas se ele diz que não, então tudo bem". Agora vamos ver como ele justifica a colocação da assinatura de Ruth Rocha no documento, sem que ela nem ter sido consultada.

Até agora já são dois nomes importantes da nossa cultura que nem sabiam do manifesto. Isso tem cheiro de estelionato político, não é? E nem vem com a conversa de que dois nomes é bem pouco entre centenas de signatários, pois a denúncia de Ruth Rocha vem aumentar a desconfiança de que muitos com o nome colocado sem consentimento no manifesto podem ter se calado por temor em confrontar a máquina petista.

Porém, desta vez Sader não pode vir com lorota, pois muito precavida, Ruth Rocha já antecipa em sua carta aberta que este tipo de coisa é imperdoável. "Os mais distraídos dirão que, na correria de uma campanha... “acontece“. Acontece mas não pode acontecer", ela escreve acertadamente.

Apesar da modéstia de quem afirma que não lhe cabe "considerações próprias a estudiosos em geral, jornalistas, economistas ou cientistas políticos", a escritora produziu um texto claro em que situa de forma concisa o papel de cada governante nas transformações ocorridas no país desde o final da ditadura militar em 1985. Ela inclui até o desacreditado ex-presidente Sarney e não deixa de fora nem o mais contestado dos nossos presidentes, Fernando Collor, ambos, conforme o texto, tendo trazido "contribuições para a reconstrução nacional após o desastre da ditadura".

Pena que Dilma não tem o perfil de quem dá atenção ao que o outro tem a dizer e nem poderia ser diferente, pois de outro modo ela não teria chegado onde chegou dentro do esquema petista. É difícil também que qualquer petista faça outro esforço que não o de buscar amenizar a repercussão desta "Carta à candidata Dilma Rousseff". O texto de Ruth Rocha poderia ter um bom efeito sobre a soberba que cerca este governo e sua candidata e que envolve seus apoiadores.

A escritora repõe os méritos políticos do que temos hoje de bom no país, tirando as transformações feitas no Brasil daquela esfera do "nós fizemos tudo", que o gogó petista quer fazer da nossa história recente e até do período que vai até Cabral. Para ela, o que temos aí vem de um conjunto de esforços, com os variados governos eleitos pelo voto desde a abertura política, cada um fazendo sua parte.

Resumindo, ela diz o seguinte: "O PT tem a ver com isso. O PSDB também tem assim como todos os cidadãos brasileiros. Mas não foi o PT quem fez, nem Lula, muito menos a Dilma. Foi a democracia. Foram os presidentes desta fase da vida brasileira. Cada um com seus méritos e deméritos".

Ruth Rocha é mais conhecida como autora de livros infantis. Pois no final ela dá um merecido puxão de orelha nos que usaram de forma abusada seu nome. Como se estivesse falando para a própria candidata, ela finaliza o texto da seguinte forma:

"Hoje eu penso como deva ser tratada a nossa democracia. Pensei em três pontos principais.

1) desprezo ao culto à personalidade;

2) promoção da rotação do poder; nossos partidos tendem ao fisiologismo. O PT então...

3) escolher quem entenda ser a educação a maior prioridade nacional.

Por falar em educação. Por favor, risque meu nome de seu caderno. Meu voto não vai para Dilma."

Bem, como estamos num segundo turno evidentemente além da Dilma só tem outro candidato. E é improvável que alguém que se expressa como Ruth Rocha vote nulo ou se abstenha em um momento tão importante da nossa democracia. Temos aí mais um voto importante que não aceita o controle que querem impor ao Brasil.
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POR José Pires

sábado, 23 de outubro de 2010

O caso Celso Daniel na ante-sala do presidente Lula


O PT e o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, viraram réus num processo em que são acusados pelo Ministério Público de participar de uma quadrilha que cobrava propinas em Santo André. A Justiça aceitou a denúncia. Está de volta o conhecido caso Celso Daniel, que envolve também o assassinato do então prefeito petista de Santo André, em janeiro de 2002. A propina é grande: R$ 5,3 milhões foram desviados dos cofres públicos.

Carvalho foi secretário municipal em Santo André entre 1997 e 2002, na prefeitura administrada pelo PT. Era o braço direito de Celso Daniel. O prefeito foi seqüestrado, torturado e morto no dia 18 de janeiro de 2002 depois de um jantar com Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, que na época era seu segurança. Sombra é acusado de ter encomendado o crime e vai a júri popular a partir de novembro.

Para o Ministério Público, Daniel foi morto porque queria que a propina fosse destinada apenas ao PT e não para os envolvidos. Até sua morte, ele era o principal coordenador da campanha presidencial de Lula.

Desde a época do crime, Carvalho vem trabalhando para que o caso fosse encerrado como um crime comum. Com esta denúncia, aceita pela Justiça, o chefe de gabinete de Lula virou réu, acusado da participação em um esquema que seria o precursor do mensalão.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, na citação a Justiça pede que Carvalho receba o aviso em sua casa ou no “gabinete pessoal da Presidência da República”. Seria melhor no gabinete da Presidência, não? Afinal foi ali, numa função tão próxima de Lula, que ele fez todos os esforços para que o caso Celso Daniel fosse enterrado lá atrás.

Mas agora felizmente está de volta o caso. E já numa instância em que há uma obrigação de seu aprofundamento. E digo felizmente, sem nenhuma relação com alguma satisfação pessoal pelo envolvimento de uma alta figura do governo Lula. É que, se o PT até vive bem com seus fantasmas escondidos no porão, a Nação não tem a mesma tranqüilidade com tanta coisa encoberta e que exige explicação mais convincente.

Mas a situação de Gilberto Carvalho está bem complicada nesta denúncia do Ministério Público. Vejam um pedaço da denúncia aceita pela Justiça, em que ele é citado: “Ele concorreu de qualquer maneira para a prática dos atos de improbidade administrativa na medida em que transportava o dinheiro (propina) arrecadado em Santo André para o Partido dos Trabalhadores".

Mais um trecho da denúncia, onde fala-se também do ex-segurança Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, acusado de participação direta na morte de Celso Daniel e que é companheiro de Carvalho entre os réus: "O valor arrecadado era encaminhado por Ronan ao requerido Sérgio e chegava, em parte, nas mãos de Gilberto Carvalho, que se incumbia de transportar os valores para o Partido dos Trabalhadores".
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POR José Pires

Depois do alvoroço, o PT só quis abafar o caso


O que mais me chocou no assassinato de Celso Daniel não foi o amplo espectro de corrupção que se gestava ali e que acabou tomando conta de fato do governo Lula. O Ministério Público diz que no esquema de Santo André estavam as pegadas iniciais do mensalão e isso fica evidente já que, ao que parece, Celso Daniel não condenava a propina, mas apenas o direcionamento para os bolsos dos envolvidos. Sua morte teria sido causada exatamente porque ele queria que o uso fosse exclusivamente do partido.

Esta corrupção política não me surpreende. Conheço essa turma muito tempo antes do Lula botar os pés enlameados no Palácio do Planalto e também tenho um metro bem diferente para a análise da política.

Estão falando bastante de “metro” hoje em dia, expressão que voltou por conta de seu uso em debates políticos, então me deixem falar do meu metro.

É no indivíduo que está a chave para a compreensão dos acontecimentos. Por mais influência que a História tenha sobre os rumos do mundo, até para entender o processo histórico é preciso ter os olhos atentos ao sentimento humano, a capacidade individual de transformar ou de fazer retroceder. Para entender um caso como este da morte brutal de Celso Daniel é só observar bem as reações humanas. Cada indivíduo se revela em sua atitudes quando ao caso. Até os que só agem nos bastidores.

Logo que foi descoberto o cadáver do prefeito o PT, tendo Lula à frente, criou uma comoção nacional denunciando uma conspiração direitista, — palavras do próprio Lula na época — que estaria planejando matar petistas. Celso Daniel seria só um desses mortos. Até o então presidente Fernando Henrique Cardoso teve que intervir prometendo proteção ao PT e uma ampla investigação para deter a conspiração denunciada por Lula.

Porém, poucos dias depois do enterro de Celso Daniel, os petistas mudaram de opinião e passaram a insistir na tese do crime comum. A “conspiração direitista” foi esquecida. Nem o Lula, que no enterro de Daniel falou até em Che Guevara, se manifestou mais sobre o crime. E vejo que até a imprensa não se lembra desse alvoroço criado por Lula e o PT. Depois, numa mudança abrupta, todos os figurões do partido passaram a agir para abafar o caso.

Mas não eram todos amigos de Celso Daniel? E aí é que a medida humana faz ver as verdadeiras intenções de pessoas que abandonam de imediato um caso em que alguém tão próximo foi morto de forma tão cruel. Não tem como não suspeitar. Qual é a pessoa que tendo um amigo assassinado dessa forma (Daniel foi barbaramente torturado antes de levar um tiro à queima-roupa no rosto) não lutaria de todas as formas para esclarecer tudo?

É o que os irmãos de Celso Daniel vêm fazendo. E os petistas amigos do prefeito morto fazem o contrário. Deixando a questão política de lado e nos concentrando no aspecto humano deste drama, de um amigo sendo torturado barbaramente e depois morto, a situação de quem tenta impedir o esclarecimento do caso é muito suspeita.
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POR José Pires

Um "crime comum" pra lá de fantástico


Nesta morte do Celso Daniel este lado humano foi muito pesado. Todas as pessoas que o cercavam quando ele era vivo e tinha poder político passaram a agir para que o assasinato não fosse investigado a fundo. Com a exceção dos irmãos do político petista, todos agiram para que sua morte fosse esquecida, agarrando-se com teimosia e de forma suspeita à tese do crime comum.

Logo depois de sua morte o partido de Celso Daniel foi para o poder, onde permanece até hoje, passados quase oito anos. E e se alguma movimentação houve neste período da parte dos que eram seus amigos quando ele estava vivo, esta movimentação foi sempre no sentido contrário ao do esclarecimento do crime.

A tese do crime comum foi agitada o tempo todo, como se fosse uma bandeira política do partido. E não se admitia de forma alguma que as investigações fossem retomadas.

Mas a família de Celso Daniel não concordou e buscou um esclarecimento do assassinato. E foram muito pressionados por isso. Seus dois irmãos nunca aceitaram a tese de crime comum e se movimentaram de forma admirável pelo esclarecimento dos fatos. Por isso foram ameaçados de morte e tiveram que sair do país. Hoje eles vivem na França, onde são reconhecidos oficialmente como exilados brasileiros.

A denúncia sobre a propina na prefeitura admnistrada por Celso Daniel e que teria sido a origem da sua morte, agora aceita pela Justiça após investigações do Ministério Público, é em bases parecidas com o que um desses irmãos do prefeito, João Francisco Daniel, vem dizendo desde que aconteceu o crime. Já na época do crime ele afirmava que seis dias depois da execução do prefeito o atual chefe de gabinete de Lula o procurou e disse, na presença de duas testemunhas, que entregava o dinheiro a José Dirceu.

João Francisco disse em depoimento na CPI dos Bingos que Carvalho contou isso para ele “três vezes” e que o chefe de gabinete de Lula dizia também que sentia medo de transportar tanto dinheiro (uma vez foi R$ 1,2 milhão) em seu Corsa preto. Entre outras coisas, por causa de histórias como essa é que o irmão de Celso Daniel pelejou para que o caso não fosse encerrado com a versão de crime comum.

Já Gilberto Carvalho, que hoje trabalha na maior proximidade com Lula, no gabinete ao lado da sala da Presidência da República e em contato diário com o presidente, que se prolonga até em finais-de-semana e em ocasiões íntimas, já que os dois são muito próximos há bastante tempo, nunca usou este poder que não fosse para brecar o interesse da imprensa sobre o assunto e tentar impedir qualquer aprofundamento da investigação. Ele fez tudo o que podia para que o inquérito concluísse com a versão de crime comum.

É uma história pesada, bem pesada. E não só porque envolve o assassinato de uma pessoa fundamental no esquema de poder que depois viria a governar o país, mas também por esta estranha atitude dos companheiros de partido e até de amigos bem próximos do morto de tentar encerrar o caso de qualquer forma.

É o “crime comum” mais estranho que já se viu e não só pela importância do morto. Depois do assassinato de Daniel morreram tantas pessoas ligadas diretamente ao caso e em circunstâncias tão incomuns que até num filme policial pareceria demais. Contando o prefeito, foram oito mortes.

Foi assassinado até o garçom do restaurante onde Sombra e Celso Daniel jantaram antes do crime. Antônio Palácio foi morto em fevereiro de 2003 e no mesmo mês mataram uma pessoa que havia presenciado sua morte. O sitiante que foi a primeira pessoa a identificar o corpo do prefeito abandonado em uma estrada foi assassinado com dois tiros em dezembro de 2003. O legista Carlos Delmonte Printes, que fez a autópsia no corpo de Celso Daniel foi encontrado morto em outubro de 2005 em seu escritório.

Essas mortes dariam para compor um enredo extraordinário, mas tão estranho, que haveria dificuldade até de ser aceito por um diretor de cinema. Se os responsáveis pelos dois filmes da Tropa de Elite estiverem atrás de uma boa história, aí está. Mas terão que cortar muita coisa, para que a platéia aceite o filme extraordinário que um caso desses pode dar.
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POR José Pires