quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Um secretário pra arrumar confusão

A gente pensava que o ex-presidente (oba, até que enfim!) Lula seria um problema para o governo da presidente Dilma Rousseff e criaria ambigüidades políticas com seu estilo falastrão, mas a divisão veio mesmo de dentro. Ainda é cedo para Dilma sossegar em relação ao Lula, mas foi da sala ao lado que veio a confusão.

Governo do PT tem bastante maluquice, mas é esquisito logo em início tão problemático de administração, com divergências com sindicalistas da base aliada, corte de gastos e volta da inflação, o secretário-geral da Presidência dar o pira. Mas foi o que fez Gilberto Carvalho. O homem foi para o Fórum Social Mundial, em Dacar, no Senegal, e passou a opinar de forma determinante sobre assuntos que não são da sua alçada

Esse senhor não é brincadeira. Carvalho não conseguiu até agora sequer dar explicações convincentes para um conflito mais simples onde teve papel central, que é o da morte de seu falecido amigo Celso Daniel, que foi seqüestrado, torturado e assassinado quando era prefeito de Santo André, e vai se meter na confusão dos diabos que é o conflito no Egito. Não dá para evitar o trocadilho: se aquilo já é areia demais para o Brasil, imagine então o excesso que é para o seu caminhãozinho na Secretaria- Geral da Presidência.

Não sei se foi porque estava ao lado do ex-presidente (opa, mas isso é bom mesmo!) Lula, mas Carvalho resolveu também repetir o chefe e pedir desculpas pela escravidão. O ato é uma bobagem, mas, de qualquer forma, um secretário-geral não tem legitimidade para tomar uma atitude dessas em nome do país.

A bem da verdade, nem o presidente a República pode fazer algo assim se não for escorado numa legítima deliberação entre os brasileiros. O que acontece é que para contemplar parte da militância negra pendurada em boquinhas no governo ou com privilégios oferecidos pela máquina pública, o governo Lula veio com suas tolas leituras sobre a questão do negro em nosso país, a começar por este mito maluco da existência de uma africanidade.

Quando alguém vem com essa conversa pra mim, sempre alerto que antes de tentar me convencer é melhor juntar primeiro numa mesa um egípcio, um argelino e um sudanês e mais alguns países que podem ser escolhidos à vontade para ver o que eles pensam dessa idéia de uma África integral.

Zumbi quem mesmo?
Mas o pior é que, neste assunto, até naquilo que toca de fato o Brasil essa esquerda toma o caminho errado. Por falta de conhecimento ou má-fé. Ou mesmo as duas coisas, pois elas costumam caminhar juntas. Na análise do que foi a escravidão no país, esquecem Joaquim Nabuco e enaltecem um tal de Zumbi dos Palmares. Digo “um tal” porque falam de uma figura inventada, porque Zumbi não teve peso algum na libertação dos escravos.

Esquecem Joaquim Nabuco e até aí tudo bem. Se Nabuco tivesse a infelicidade de ver um dirigente petista na sua frente certamente sua reação seria de desprezo. Nabuco foi senador. Já imaginaram essa grande figura brasileira no Senado que Sarney amoldou junto com o governo do PT? Mas, além de esquecer importantes abolicionistas, essa esquerda também despreza de forma equivocada uma liderança importante entre os negros e um dirigente muito mais marcante na história de Palmares, que foi Ganga Zumba.

Mas esse tipo de perspicácia não poderia vir de uma esquerda que idolatra um incompetente político e militar como Che Guevara, em detrimento de tantos outros líderes bem mais capazes (alguns também de esquerda) de vários países da América Latina.


Venham para cá, africanos. Tem Prouni para todos
Mas voltemos ao secretário-geral da Dilma. Além da contrição pessoal em relação à escravidão, ele ainda prometeu curso superior de graça para imigrante africano. Ele quer um Prouni exclusivo para africanos. Será que alguém já explicou para Carvalho a conseqüência que pode ter para o Brasil uma promessa dessas em um continente com tantos países empobrecidos? Se a imigração africana já é um problema na atualidade, com oferta de curso superior de graça onde é que vamos parar?

Mas Carvalho aproveitou também para dar o famoso pitaco na crise política do Egito. Foi imediatamente desautorizado pelo atual ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, que parece ter a intenção de tirar o Brasil das frias internacionais em que foi metido nos dois mandatos de Lula.

Em qualquer governo que sucedesse o de Lula alguém teria de fazer isso, pois sua retórica megalomaníaca acabou comprometendo o Brasil com situações muito complexas e que exigem um poder de fogo que o país não tem e provavelmente jamais terá.


Tática petista aérea no Egito
Mas alguém precisa avisar todo o conjunto do governo petista e até explicar detalhadamente para o PT que não somos o rei do mundo. Olha gente, aquele negócio do Obama dizer "Ele é o cara" era só brincadeira. Mas, para petista entender melhor, pode-se usar um outro exemplo simples, utilizando o drama vivido atualmente pelo Egito: como o Brasil tem dificuldade até para distribuir leite no Haiti é melhor ficar de fora da questão do Egito e de outras complicações políticas da região, que junta terroristas islâmicos, o Irã, Israel e todas as ditaduras árabes em torno, a maioria de países endinheirados pelo petróleo.

Mas vamos supor que os brasileiros se metam neste assunto, como o secretário-geral da Dilma expôs em Dacar. Bem, se acontece uma guerra civil no Egito, por exemplo, teremos tropas para mandar para lá para acompanhar o ministro Jobim com sua farda de araque? Ou podemos seguir o estilo da retórica paraquedista que vigora até o momento nas relações externas do governo petista e lançar de paraquedas o Lula para ele mandar ver um olho no olho com a multidão egípcia.

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POR José Pires

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Para o Ipea o SUS até que está bem

Hoje o Ipea lançou uma pesquisa de avaliação do SUS, cuja edição é um primor: deram um jeito dar a entender que, segundo a pesquisa, a população aprova o serviço. Alguns sites caíram na conversa do Ipea, mas o que acontece é que deram o destaque à opinião favorável do paciente quando é finalmente atendido. Mas o problema do SUS não é exatamente a dificuldade de chegar até o médico? É isso mesmo. Mas o Ipea quer que a gente se concentre na satisfação do usuário depois de ser atendido.

Tem uma frase no site do órgão que mostra bem aonde querem eles chegar: “Os resultados mostram que os serviços do SUS são mais bem avaliados por aqueles que costumam utilizá-los, quando comparados com aqueles que não os utilizam”. O título também vai ao ponto que interessa ao governo: “SUS é mais bem avaliado por quem utiliza o serviço”. Pela imagem do site do IPEA, que publico acima, dá para sentir o nível.

Isso significa que quem chega à frente de um médico para ser atendido avalia o serviço como bom, é isso? Bem, mas não é nem preciso fazer pesquisa para saber a dificuldade que é ser atendido.

Este problema também foi detectado pela pesquisa, mas o Ipea fez uma edição que puxa para esta pauta doida que afirma que quem é atendido gosta do serviço. Segundo a pesquisa, o maior problema é a falta de médicos, o que dizem 57,9% dos entrevistados. A demora para o atendimento nos postos, centros de saúde e hospitais ficou em 35,9%. E para 34,9%, a demora para conseguir consulta com especialistas é o maior defeito do SUS.

Mas até esse formato de pergunta e resposta não me parece ter muito a ver com o que se espera do Ipea. Eu penso que o órgão deveria trazer informações aprofundadas sobre o sistema SUS, fazer comparativos, e não vir com um esquema de perguntas e respostas. Está mais para pesquisa do Instituto Vox Populi. Mas a eleição ainda não acabou?

Acho os números, todos eles, muito fora da realidade. Não estão de acordo com a insatisfação que sentimos no cotidiano. Dá a impressão de que os pacientes do SUS estão com medo de expor suas opiniões. E quem não teria, na condição que essas pessoas vivem? Basta conversar com qualquer um que dependa de atendimento público de saúde para perceber que os problemas com o SUS são bem maiores que estes detectados pelo Ipea.

Já soube até uma pessoa que atendeu a um telefonema de um atendente de posto de saúde que avisava sobre a liberação de uma consulta e teve de dizer que o paciente havia morrido um mês antes. Não li isso em jornal, nem ouvi em conversa alheia. Soube por uma pessoa próxima da família.

Claro que este é um caso extremo, mas quem já não ouviu reclamações sobre atendimento médico de pessoas que dependem do SUS? Não são poucas as que revelam demora até de meses em consultas, mesmo quando o caso é de doença crônica ou com alto risco de morte.

Então de onde vem essa descoberta do Ipea de que o pessoal anda gostando do serviço? Talvez seja porque o brasileiro pobre leva uma vida tão difícil que é capaz de dar graças à Deus caso consiga ser atendido por um médico para tratar de alguma doença, mesmo que seja depois de passar dias e até meses numa fila. E alguém acredita que uma pessoa na condição de sofrimento dessa gente tenha capacidade de avaliar a qualidade do atendimento?

Ao contrário do mineiro, segundo diz o ditado, o SUS não é solidário nem no câncer. Quando a presidente Dilma Rousseff ainda estava em campanha tentou-se aplicar à sua imagem o mito de que ela seria uma pessoa de muita força de vontade, pronta a enfrentar o câncer recém-descoberto. Com o ex-vice-presidente José Alencar tentaram fazer a mesma coisa.

Bem, tanto Dilma quanto Alencar receberam atendimento de especialistas famosos e até bem caros e passaram pelos melhores hospitais aqui e no estrangeiro, para onde puderam ir de avião ou helicóptero. Não é o caso de quem depende do SUS, independente da força de vontade do paciente. No caso de Dilma, na época até foi revelado pelo colunista da revista Veja, Diogo Mainardi, que foi importante na recuperação de sua saúde um remédio muito caro, o Mab Thera. Um frasco custa cerca de oito mil reais e está fora do alcance de quem usa os serviços do SUS.

Quem tem câncer e está no SUS, portanto, tem duas doenças. E mesmo quem tem doenças menos graves sofre bastante em filas intermináveis , postos de saúde entupidos de gente e até hospitais e pronto-socorros que negam atendimento por absoluta falta de condições de acolher doentes ou feridos.

Mas aí vem o Ipea e revela que “o SUS é mais bem avaliado por quem utiliza o serviço”. Bem, a pesquisa elimina quem morreu por falta do serviço.


Tudo contra FHC e tudo a favor de Lula
Na eleição para presidente da República o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) prestou um ótimo serviço para o então presidente Lula e, por extensão, para sua candidata Dilma Rousseff. Nos meses anteriores ao pleito, o Ipea foi divulgando um monte de números positivos sobre o país que coincidentemente acabavam batendo com a pauta da campanha do PT. Foi um serviço completo e tão bem feito que Márcio Pochmann manteve-se forte no posto de presidente da instituição. Saltou de Lula para Dilma sem nenhum arranhão.

Na eleição, assim como fez durante todo o segundo mandato de Lula, Pochmann atuou de forma bem diferente de quando estava fora do poder e os tucanos é que governavam o país. Naquela época ele desencavava números negativos.


Quando Fernando Henrique Cardoso era o presidente, Pochmann foi um mestre em descobrir mazelas do governo. E nisso estava certo. Nessa época ele escrevia artigos e dava entrevistas como professor da Unicamp e, de qualquer forma, na crítica às políticas oficiais é que está a maior contribuição de um pesquisador, de um jornalista ou de qualquer outro profissional que pretenda debater com seriedade os problemas brasileiros.


Porém, ao que parece, o ponto de vista rigoroso usado por Pochmann não era bem para resguardar sua independência intelectual. Parece que nesse período ele já visava a subida ao poder de seus companheiros que, quando lá chegaram, o levaram com eles.


Desde que assumiu a presidência do Ipea, Pochmann passou a adestrar os números, de forma que qualquer pesquisa que sai do Ipea é sempre para mostrar o Brasil no melhor dos mundos.

Isso pode muito eficiente em campanha eleitoral, mas desse modo o Ipea acaba tendo anulado seu papel crítico. Fica sendo mais um órgão de propaganda e deixa de apontar os reais problemas do país.

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POR José Pires

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Por detrás dessas pirâmides...

Senado brasileiro, uma Casa nada engraçada

José Sarney na presidência do Senado de novo parece uma piada imoral, mas não dá pra rir. O Senado é o contrário da casa criada por Vinícius de Morais. É tétrica. O governo petista, de início com Lula e agora em sua continuidade com Dilma Rousseff, mostra que está bem cristalizado o rumo moral (ou imoral, é bem melhor) que tomou depois de anos na oposição construindo um caminho para o poder com um discurso completamente oposto ao que fazem há mais de oito anos.

E não há porque se concentrar na crítica a Sarney. Se ele não existisse, outro ocuparia seu lugar assombrando o Brasil, talvez uma criação vinda até da acomodação natural criada pela forma dos petistas conduzirem os negócios de Estado, que basicamente se concentra em poder e dinheiro. Grana e poder atraem e até criam esse tipo de gente.

Além do mais, Sarney é o que seus colegas acreditam que o Senado tem de melhor, tanto que apenas oito senadores votaram contra sua candidatura. Se alguém ainda tem dúvida da inutilidade hoje do Senado para a sociedade brasileira, então está aí mais uma boa razão que os próprios senadores trazem para ser analisada.

Mas se as condições políticas permitissem, o presidente da Casa poderia ser até um petista histórico e para isso a própria Marta Suplicy mostrou que está bem preparada, aboletando-se com avidez na chapa sarneysista. Haveria então um outro presidente, porém o jogo (ou jogada, tanto faz) seria ainda o mesmo.

Marta é um fenômeno político que explica muito bem a tragédia ética do PT e da dificuldade do Brasil adquirir qualidade por meio da política. Ela parecia que ia ser grande coisa com sua personalidade audaz do início da carreira, mas conformou-se ao mais do mesmo da política. Vai longe o tempo em que dizia que Paulo Maluf era nefasto. Relaxou para gozar, parece isso. Seu prazer com o poder chega a ser lúbrico e pode ser percebido no olhar lascivo dela, sentadinha ao lado do Sarney.

Mas repito que o negócio não é o Sarney. Ele é só uma peça, ainda que muito importante no funcionamento da máquina de apropriação e uso dos recursos públicos.

Sarney é imoral. Claro que é, mas o chefe de tudo isso é o presidente de honra do PT. Vem de Lula e do forte grupo em torno dele o suporte para reinstalar na presidência do Senado um presidente envolvido em corrupção de moldes impressionantes até para uma Casa como aquela.

Na relação entre o PT e Sarney, no entanto, parece existir uma dependência extrema com o senador da parte dos dois governos, de Lula e Dilma. Sei que a dependência num caso assim é sempre mútua, mas percebe-se que ocorreu uma quebra de equilíbrio nessa relação, pendendo mais para o poder de Sarney.

E aí está um perigo, muito parecido como o que o governo de Fernando Henrique Cardoso viveu com outro senador poderoso e também nefasto, para usar uma palavra de que o PT gostava no passado. Com o falecido Antonio Carlos Magalhães os tucanos sentiram o drama que é um desequilíbrio desses entre o governo e um áulico.

Para um governo no início, como o de Dilma, seria até melhor evitar a repetição de Sarney na presidência. Para saber disso não precisa ser nenhum Maquiavel. Qualquer marqueteiro ou conselheiro político aconselharia isso, mas pelo jeito também esta marionete inverteu o controle sobre os cordéis que deveriam comandá-la. A presidência do Senado teve que ser de Sarney mais por imposição dele do que pela vontade e o interesse do governo petista.

Não é raro na política o boneco fazer refém seu titereiro, o que, como já disse, foi um erro que o governo FHC cometeu com o ex-senador Antonio Carlos Magalhães. O PT que se cuide. Os tucanos demoraram em perceber o problema com o falecido senador baiano. Em parte isso custou ao PSDB o poder — que, por sinal, foi para o PT — e até hoje os tucanos lambem as feridas feitas na imagem do partido.

Em relação à influência excessiva de Sarney na costura de apoios vitais, os petistas só podem contar com o tempo e rezar (ainda que a presidente não tenha aprendido a fazer isso durante a campanha) para que sua saúde não permita que ele percorra incólume os quatro anos de Dilma. Senão ele pode tomar conta. Até porque Dilma tem a seu lado, na pessoa de seu vice Michel Temer, alguém mais afeito à parceria com Sarney do que com ela.

Mas o tempo, que vem dando outra conformidade aos petistas em tão curto período, logo dará resposta também para esta questão. Para obter um resultado favorável o PT necessita sorte, o que não tem faltado para eles nos últimos anos e compensa bem o que lhes falta de juízo.


Quando é que alguém vai ouvir Paulo Francis?
Paulo Francis costumava dizer que alguém tinha que cravar uma estaca no coração do Sarney. É até engraçado ver as pessoas explicando hoje que este delicioso polemista (epa!) estava na verdade fazendo uma metáfora, mas tenho a impressão de que Francis estava sendo literal quando escrevia isso. De qualquer forma, o tempo mostra que a estaca era o único remédio.

Sarney esteve ao lado de todos os governos que o Brasil teve nos últimos tempos, da ditadura militar até agora. Sempre foi instrumento essencial na necessária legitimação do poder junto à classe política.

A ditadura militar serviu para ele criar uma base forte e também iniciar sua fortuna. Sarney é um milionário. Nossos historiadores cotumam fixar-se em demasia no aspecto político da ditadura brasileira, mas essa facilitação que os militares deram para a construção de fortunas pelo país afora foi fundamental para o apoio que deu a duração de duas décadas para o golpe de 64.

A ditadura perseguia, prendia e até matava o que havia de forte nos estados brasileiros. Fala-se mais na perseguição à intelectuais e políticos, mas a ditadura também destruiu muita coisa de qualidade que vinha sendo feita na área empresarial. Houve muita pressão sobre empresários combativos e mais criativos em regiões que, depois dessa política de terra arrasada, viu crescer mediocridades como a de Sarney no Maranhão. O senador Antonio Carlos Magalhães, de quem falo acima, também ganhou poder e conquistou sua fortuna dessa forma.

Com a queda da ditadura, Sarney foi servir aos governos civis e até virou presidente da República. Mas aí foi um acaso da sorte dele e do azar do Brasil. Fala-se bastante do governo Collor, mas sem o governo anterior de Sarney é provável que o breve reinado dele e de PC Farias não tivesse existido.

Collor nem teve tempo para a corrupção. Este sistema corrupto instalado no país tem origem na verdade no governo de Sarney, quando ele estabeleceu o esquema corrupto de trocas entre os políticos, a começar para estender seu mandato presidencial de quatro para cinco anos.

Sarney dura tanto porque faz a ponte entre o Poder e os interesses econômicos que na verdade dominam os governos, da ditadura até aqui. Dão muitas razões para o golpe de 64 — bagunça política, sindicalismo, ameaça comunista, etc. —, mas sempre é bom lembrar que acima de tudo havia o interesse de grupos econômicos em implantar ou manter o sistema econômico que mais lhes interessava.

Hoje essa regra não mudou. O presidente faz de conta que governa, tira a parte dele (e Lula, assim como Sarney, tirou muito), mas a verdade é que o controle de fato do poder está mais acima.


Sarney serve pra isso. E sua história fica até interessante porque fez parceria com os torturadores e agora está ao lado de alguém que foi torturada. Não deixa de ser um desfecho curioso para uma biografia. Se é que vivemos na atualidade um desfecho. Nunca devemos esquecer que ninguém fez o que o Paulo Francis aconselhou e Sarney segue sem nenhuma estaca cravada no coração. Vai que o homem seja imortal.
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POR José Pires

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sempre subliminar


Está aí uma coisa na qual somos parecidos com o Egito: lá também não dá para entender as mensagens dos pixadores.

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POR José Pires

Guerra suja nos bastidores

O PSDB não se acerta mesmo. Hoje, como muita gente já sabe, foi transmitido na televisão o programa político do partido. E a direção dos tucanos, na mão do ex-senador e agora deputado Sérgio Guerra, conseguiu a façanha de produzir uma peça que aparenta fraqueza e divisão interna do partido. Nem o marqueteiro da Dilma Rousseff produziria mais danos aos tucanos. Mas, de qualquer forma, talvez cobrasse menos por isso ou até faria o serviço na faixa, não?

Eu falava ontem num texto aqui no blog sobre a manipulação que as direções partidárias fazem do poder político e financeiro de um partido, servindo-se da máquina para favorecimentos pessoais e o bloqueio de talentos emergentes ou de qualquer outro tipo que não esteja de acordo com o interesse dos caciques. Pois a máquina serve também para o ataque a adversários internos. É o que parece que o deputado Guerra tentou fazer com Serra, mas acertou o próprio pé.

O programa do PSDB parece um Esperando Godot, pois os minutos passam como se fosse uma espera interminável pelo personagem principal que afinal não aparece. Não é o Godot, é claro: é o Serra.

Estranhei a falta de destaque para Serra, que aparece apenas em três cenas rápidas e não tem fala nenhuma. Mas parece que a coisa é ainda pior. Vi o programa na internet, mas o programa que foi ao ar na TV tem até menos cenas com Serra. É o que já se informa em alguns blogs.

Metade do programa é tomado por Fernando Henrique Cardoso. Esconderam o ex-presidente da República durante a eleição passada. Aliás, escondem o pobre em todas. Mas, se for para expor FHC da forma que fizeram nesse programa, creio que é melhor para ele permanecer escondido. O programa de perguntas e respostas com jovens não foi bem dirigido. Soou falso. O ex-presidente, que é bom de televisão e sempre se apresenta bem quando é entrevistado, estava pouco à vontade, parecendo repetir frases decoradas.

Outra estrela do programa foi Guerra, como sempre sem nenhuma intimidade com o vídeo, pura carranca. Certa vez o falecido senador Antonio Carlos Magalhães, que era uma víbora escolada, naquele ninho de cobras que é o Senado, acertou na mosca quando deu um apelido para o então deputado Michel temer: mordomo de filme de terror. É isso.

É claro que com isso não faço nenhum juízo de valor, é claro, mas aponto apenas uma questão técnica. Vejam lá em cima a performance do presidente do PSDB numa cena que tirei do programa. Cá pra nós, você compraria um partido usado desse homem? Mas política também não é só uma questão de vídeo. Tem ainda os bastidores, onde se dão as rasteiras e facadas pelas costas. Guerra suja mesmo, se é que me entendem.

Os jornais já começam a explicar que o imenso bloco em que FHC aparece é para aproximar os tucanos dos jovens, o que evidentemente foi assoprado para os jornalistas por algum marqueteiro ou dirigente do partido. Mas aí fica ainda maior o erro técnico da presença de Guerra logo depois: ele decerto espantou a moçada.

Bem, mas é menos mal que FHC não tenha feito uma palestra pela descriminação da maconha, o tema com o qual ele está encafifado no momento.

Mas agora falando sério: ao tomar metade do primeiro programa do partido depois da eleição presidencial em que não deram fala ao candidato Serra, um candidato que foi para o segundo turno depois de uma luta braba e teve 44 milhões de votos, Fernando Henrique Cardoso se coloca ou na posição de tolo ou de parceiro de Guerra e Aécio Neves na rasteira pública em Serra.

Talvez FHC não tenha sido avisado da treta, mas então ele foi usado de forma vergonhosa. Vergonhosa para ele também, é claro. Não fica bem para ninguém ser feito de laranja depois de velho, ainda mais para quem já foi presidente da República e por duas vezes. Logo mais saberemos o que aconteceu de fato.
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POR José Pires

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Depois do Morro do Alemão, Jobim quer por o exército argentino nas ruas

A criação do Ministério da Defesa foi uma das realizações do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso de grande importância histórica. Deu ao comando das Forças Armadas um peso civil, como acontece em qualquer democracia respeitável do Ocidente. O PT não pode se queixar disso, pois recebeu pronto um serviço que não foi um dos mais fáceis de fazer num país que em período relativamente recente viveu uma ditadura militar.

É uma herança bendita, ainda que o governo de Lula não tenha conduzido a pasta com o devido equilíbrio que um ministério tão importante exigiria. O Ministério da Defesa foi centro de crises graves, como a do setor aéreo brasileiro, e também foi envolvido em negócios pra lá de estranhos, como o da compra dos aviões Rafale, os caças franceses que o governo quer comprar de qualquer jeito, a despeito de vários especialistas garantirem que este não é um bom negócio.

Lula também colocou na chefia do ministério um político que não prima pelo equilíbrio e muito menos pela discrição. Ao contrário, o ministro Nelson Jobim atua até com certo prazer como chamariz para polêmicas que não raramente nada tem a ver com assuntos militares. É o tipo de político que parece ter um gosto especial em ver suas próprias fotos na imprensa. E depois que virou ministro pegou também a mania de vestir uma farda militar para sair a campo nas atividades da pasta. Nunca teve qualquer ligação com a Marinha, a Força Aérea ou Exército, talvez nem recruta tenha sido, mas sai de farda como se fosse militar graduado.

Mas o governo do PT gosta muito de Jobim, que, aliás, é uma herança do governo FHC, onde foi também figura poderosa. Mas a despeito disso e de outros atos condenáveis do passado, como a falsificação de parte da Constituição de 88, o governo petista gosta muito dele. E é claro que não pode ser pela sua experiência militar, pois no setor só existe em seu currículo o fetiche recente de sair nas fotografias envergando uma farda de mentira, nalgumas vezes uma farda camuflada, de combate nas selvas. É um costume que num homem da sua estatura física chama a atenção que é uma barbaridade.

Tirando a felicidade do ministro nessas situações, quando parece um menino orgulhoso fantasiado de militar, nem simbolicamente isso faz bem. A imagem do poder militar sob o mando democrático civil é parte importante do cargo.

Em qualquer nação sensata e ainda mais no Brasil, um ministério da área militar deveria ficar ao largo de muitos assuntos da República, mas como fazer isso se Lula nomeou para o cargo e Dilma manteve um ministro que palpita até sobre assuntos do Supremo Tribunal Federal em rodinhas de repórteres?

O comandante é fogo. Agora ele está colocando o nosso Ministério da Defesa até na definição da política interna dos outros países em assuntos militares. Ontem, durante a visita da presidente Dilma Rousseff à Argentina, Jobim trouxe um tema fora da agenda num encontro fechado com ministros do Brasil e da Argentina: “o uso das Forças Armadas na segurança pública”. Ele acha que esse é um ponto que deve ser discutido entre os dois países.

Jobim falou com orgulho das recentes operações militares em favelas brasileiras, no Rio, e afirmou que a Argentina deveria fazer o mesmo. O ministro argentino da Defesa foi rápido na resposta ao brasileiro: "Não temos possibilidades de usar as FFAAs, porque teríamos que mudar a lei".

Talvez o ministro brasileiro da Defesa não saiba disso, mas é bem óbvio que colocar as Forças Armadas atuando na segurança pública é um assunto bastante difícil na Argentina.

Lá a ditadura não é tida como branda e também é muito difícil encontrar um argentino disposto a esquecer o passado. Foram muitos os crimes cometidos pelos militares argentinos, a começar pelo golpe contra a democracia, o que aconteceu aqui também, não é mesmo?


O terror de uma nação aprisionada
A comissão criada para investigar os crimes políticos da ditadura militar, que governou Argentina de 1976 a 1983 ,foi presidida pelo escrito Ernesto Sábato, entre outros argentinos respeitáveis,. O relatório final trouxe resultados fora de qualquer suspeita no famoso livro “Nunca Más”, da Comissão Nacional para os Desaparecidos Políticos, CONADEP na sigla argentina, criada no governo de Raúl Alfonsín, em dezembro de 1983.

Foram mortas 30 mil pessoas na Argentina. Os militares mantinham 340 campos de concentração. Quanto aos desaparecimentos, a Comissão contabilizou na época cerca de nove mil. Porém, deixando muito claro que o número poderia ser bem maior, porque mesmo com a queda da ditadura, as famílias ainda tinham medo de denunciar os sequestros pelo temor de represálias. Hoje se sabe que o número de desaparecidos é bem maior, até porque todo o tempo aparecem histórias novas. Há quem acredite que pode chegar à 30 mil.

A repressão política não poupou setor algum da sociedade argentina e foi de uma ferocidade impressionante, com torturas, estupros, fuzilamentos sumários, pessoas atiradas de aviões em alto mar, roubos feitos por militares dos bens de prisioneiros e mortos e houve até o sequestro de crianças recém-nascidas, que eram tiradas à força das mães e cedidas para serem criadas por famílias de militares ligados à repressão.

Pesado, não? E esse terror foi praticado quando a Argentina tinha 28 milhões de habitantes, o que permite avaliar a proporção da influência que isso teve sobre todos os argentinos.

Outra questão é que por lá essa história não acabou em acordos em que de um lado a esquerda retira dinheiro do Estado por meio de anistias conduzidas de forma espúria e do outro militares ligados à repressão são compensados com o perdão por seus crimes.

Por sinal, o ex-ditador Jorge Videla foi condenado à prisão perpétua há pouco mais de um mês na Argentina, o que permite avaliar o senso de oportunidade do nosso ministro com sua sugestão de colocar nas ruas o exército argentino no combate ao crime comum. Mas possivelmente estamos com um trabalho ainda no início, com o assunto colocado para a discussão até que se caracterize uma proposta, para o que deve ser provavelmente um plano continental.

Nosso ministério da Defesa tem uma tarefa que vai ser interessante acompanhar. Vamos esperar para ver a reação dos chilenos quando o ministro Jobim desembarcar no Chile dizendo que eles também têm que botar as tropas na rua.

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POR José Pires

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Questão de currículo

Eu não seria maluco de cobrar respeito à capacidade técnica na política brasileira, muito menos dentro do PSDB, um partido com uma longa lista de exemplos que mostram que não é por este mérito que se faz carreira por lá, mas esta tentativa de recondução do ex-senador e agora deputado federal Sérgio Guerra à chefia do partido já é maluquice demais até para tucano.

Se o PSDB fosse uma empresa privada, uma sociedade anônima, Guerra nem adentraria o ano como presidente de nada. Já na eleição passada os sócios o teriam chutado, talvez até mesmo durante o próprio processo eleitoral, de tantos que foram os erros da própria direção partidária que levaram o candidato a presidente da República a perder uma eleição que já estava praticamente ganha.

Mas vamos a esta eleição. Numa relação administrativa normal para alcançar qualquer cargo conta muito o currículo do candidato, não? Numa conferida em seu currículo, Guerra não leva nada. Não, não vamos nem tocar em seu mandato de oito anos como senador, porque aí ele teria que abandonar até a política. Fiquemos, portanto, só na questão da organização do partido na base do agora deputado.

Em Pernambuco, onde Guerra é quem manda no PSDB, o partido acabou. No primeiro turno, no estado do então presidente do partido, Serra ficou em terceiro lugar, atrás de Marina Silva. No segundo turno, é claro que Dilma venceu. O tucano perdeu em todas as cidades pernambucanas.

O próprio Guerra hoje é deputado federal porque fugiu da disputa por uma cadeira no Senado, onde poderia tentar a reeleição. Ele se elegeu deputado, mas sabemos como isso funciona. Como é um cacique local, ocupa os espaços de rádio e TV do partido de forma personalista, marcando sua imagem. Vários caciques tucanos fazem isso. É um estratagema usado em todo o país e uma das razões mais fortes do esvaziamento do partido.

Não é um recurso permitido pela lei eleitoral, mas é o que fazem. O rebaixamento da política brasileira vem em grande parte dessa forma de uso da máquina partidária. Os partidos não se abrem para a sociedade, muito menos para a renovação de lideranças.

Quando vierem para cima de você dizendo que o Congresso Nacional que está aí é representativo do que somos, lembre-se dessas coisas que os caciques fazem. Desse jeito, poucos dos que vão para Brasília representam de verdade o que é nossa sociedade.

Mas voltemos ao presidente que quer voltar ao PSDB. O uso da máquina partidária, no entanto, não é o bastante quando existe uma disputa de fato. Por isso Guerra fugiu da eleição para o Senado. E por isso também seu partido não tem poder algum hoje em Pernambuco, um estado dominado nos últimos anos por Eduardo Campos, que começou a carreira como neto de Arraes e segue hoje como afilhado do Lula.

No seu currículo, Guerra tem também uma ação muito importante na eleição passada. Foi uma ligação telefônica sua que deu início ao desastre da escolha do vice do Serra, uma crise determinante para a cambulhada de outras que foram gradativamente eliminando a vantagem do tucano sobre Dilma.

Guerra passou para o presidente do PTB, Roberto Jefferson, a informação de que o vice seria o senador paranaense Alvaro Dias. O problema é que a decisão ainda não havia sido bem amarrada. E é claro que Jefferson saiu tuitando loucamente a informação de cima de sua moto. O que veio depois já é do conhecimento geral. Foi um dos episódios mais ridículos da nossa história política.

Pode ser que Guerra tenha pedido que Roberto Jefferson fizesse segredo [não vai colocar na internet, viu, seu malandrinho?], o que é o mesmo que colocar um balaio de espigas de milho na frente de um burro (ou mula, cavalo, tanto faz...) e pedir para que ele não mexa em nada.

Só por esta história com o Roberto Jefferson, o agora deputado Sérgio Guerra teria que ser despachado rápido da presidência. Nisso nem cabe um julgamento técnico. É muita falta de capacidade de percepção. Só um idiota político passaria um segredo para Roberto Jefferson. A menos que tenha sido para prejudicar a candidatura do candidato do seu partido que ele revelou a tão delicada decisão em primeira mão para o manjado falastrão que é o presidente do PTB. Mas seria demais o próprio presidente dos tucanos fazer uma coisa dessas, não é mesmo?
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POR José Pires

Abre-te, Sésamo!

Ainda falando sobre o imbróglio da volta do ex-tesoureiro Delúbio Soares ao PT, de onde ele oi expulso, vou dar aqui uma contribuição ao partido (epa!) para ninguém dizer que estou de má-vontade ou que só sirvo para criticar.

O PT tem o cargo de presidente de honra, para o qual Lula voltou há pouco e até com um bom salário. E notem que Lula presidia exatamente o governo que foi fonte das complicações do companheiro Delúbio e, ainda mais, em oito anos de mandato Lula se meteu em maracutaias muito mais graves que o defenestrado ex-tesoureiro e nem por isso sofreu qualquer punição. Ao contrário, com sua conhecida personalidade de mulher de malandro o eleitorado brasileiro até premiou Lula.

Mas o fato é que o PT tem o cargo de presidente de honra e Lula já está nele instalado. Pois o que o partido tem que fazer é ampliar este cargo, o que é permitido pelo caráter honorário da função. O PT pode ter uma certa quantidade de presidentes honorários. Como a política não vive sem simbologias, sem hipocrisia 40 integrantes é um número bom. Porém, comecemos pelo injustiçado Delúbio Soares. Para presidente de honra penso que ele é um companheiro à altura do Lula.
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POR José Pires

domingo, 30 de janeiro de 2011

Hay que ser duro pero sin... e blá, blá, blá


O ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira foi despejado da mansão milionária onde vivia cercado de obras de arte, móveis de altíssimo preço e outros badulaques de rico. E o juiz também permitiu que a imprensa finalmente entrasse no local.

A mansão pode ser leiloada para arrecadar parte do dinheiro que Ferreira ficou devendo depois da quebra do Banco santos. A casa tem área uma área equivalente a 82 apartamentos de 50 metros quadrados e teria custado R$ 142, 7 milhões.

O banco quebrou em novembro de 2004 e só agora Edemar Cid Ferreira está levando um pé na bunda da Justiça para desocupar o imóvel. Bem, você que experimente atrasar alguma prestação de qualquer crediário. Ou tente deixar de pagar o aluguel. Uma nova lei do inquilinato votada rapidinho pelos nossos nobres congressistas em 2010 diminuiu o prazo para despejo do inquilino ou desocupação do imóvel. Era de seis meses. Mudou para 30 dias. Mas essas coisas só acontecem na parte de baixo do Brasil.

O rombo do Banco Santos é de R$ 2,2 bilhões. Muita gente perdeu dinheiro na jogada, menos um dos clientes mais importantes do banco, o senador José Sarney, chapa do governo Lula, agora do governo Dilma e de qualquer outro governo que aparecer. Sarney foi avisado por um passarinho e tirou seu dinheiro um pouco antes do banco falir.

Entre tantas obras caríssimas, num canto da mansão do ex-banqueiro está pendurada uma imagem de Che Guevara feita por Vik Muniz. Não deixa de ser significativo da bagunça conceitual que virou este ícone da esquerda.
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POR José Pires

sábado, 29 de janeiro de 2011

Ney Matogrosso: um transgressor faz 70 anos

O cantor Ney Matogrosso faz 70 anos em agosto. Estamos mesmo todos ficando velhos, mas alguns aparentam menos que os outros e isso não é só uma questão física. Ney não muda nas fotos. E é bom ver também que o vigor artístico do grande artista permanece o mesmo. E olhem que ele enfrentou barras bem difíceis na vida.

Numa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo de hoje, ele se define como um sobrevivente, no que tem toda razão. Perdeu mais da metade dos amigos, levados pela Aids, porém, além disso, colocou em cena discussões muito difíceis de serem encaradas até hoje no Brasil, quando mais nas décadas de 70 e 80, quando o país era fechado para qualquer questão que ficasse próxima do assunto sexo.

Quando Ney surgiu, como o centro do conjunto Secos e Molhados, no Brasil as revistas não podiam publicar fotos de mulheres nuas, nem com as poses mais recatadas. O jornal O Pasquim escandalizava publicando na capa fotos de mulheres de tanga. Imaginem então como era com o que Ney fazia nos palcos. Os shows do Secos e Molhados tinham um conteúdo sexual bastante explícito. É espantoso que eles não tenham sido mortos por algum reacionário numa cidade do interior do Brasil. Ney conta que foi bastante ameaçado.

Esse componente sexual opressivo da ditadura militar está sempre em segundo plano nos textos sobre o período. Isso quando não é totalmente deixada de lado essa característica moral do golpe de 64, que teve muita influência no apoio à ditadura por uma classe média bastante temerosa do sexo.

A dificuldade em ser franco neste assunto num país que sempre foi muito conservador, mas que, além de tudo, era dominado por uma ditadura militar, fica bem explicada numa resposta do cantor ao jornalista, falando como eram publicadas declarações suas na imprensa da época: “Quando me perguntavam sobre sexo eu respondia tudo. Aí, quando eu ia ler no jornal, em vez de sexo estava escrito amor. ‘No amor, ele é liberal...’ Mas eu não tinha falado de amor, tinha falado de sexo”.

O Brasil era fechado para tudo. Um artista tinha que ter muita coragem para sair pelo país afora, até em cidades das mais machistas do nosso interior, levando a pulsão agressivamente erótica que era a base da arte de Ney. Era mais fácil falar em política naquela época dura do que fazer o que ele fez num Brasil que era ainda mais opressivo no comportamento do que na política.

Ainda não foi equacionado de forma clara o papel de Ney Matogrosso na nossa cultura, para a qual trouxe uma força que vai além da sua reconhecida capacidade como cantor.

Ney sempre demonstrou uma inteligência notável na construção de sua carreira. Um cantor se eleva da média não só pela qualidade vocal — que nele é bastante — mas pela capacidade de escolha de caminhos artísticos. E isso ele soube fazer muito bem.

Vem aí um documentário sobre a vida de Ney, dirigido por Joel Pizzini. Tomara que seja uma obra que ajude a entender a dimensão dele para a nossa cultura e não fique só na exaltação do formidável cantor que ele sempre foi.


Com homem ou mulher, tudo igual
Na entrevista ao Estadão publicada hoje, tem até uma fala de Ney que pode ajudar bastante a combater essa divisão entre sexos e raças que alguns buscam impregnar na política brasileira, especialmente reforçada na exploração do fato de termos uma mulher na presidência da República. Sabemos que é apenas para faturar uns votos, mas é uma leviandade que pode atrapalhar muito.

O cantor tinha a ilusão de que um relacionamento entre homens seria diferente de um relacionamento entre homens e mulheres. Mas logo ele viu que os conflitos são todos parecidos. E é claro que isso vai além do plano sentimental e ainda bem que é assim, pois de outra forma não haveria uma igualdade a ser conquistada, não é?

É curioso, pois numa entrevista feita há alguns anos atrás o ecritor Aguinaldo Silva também confessava um equívoco parecido que viveu na sua juventude, com a diferença que ele pensava que os homossexuais fossem todos progressistas.

É claro que ele viu logo que isso era um absurdo. Mas não é um absurdo menor do que pensar que possa haver diferenças substanciais na condução política entre um homem e uma mulher, um branco e um negro ou até entre um homossexual e um heterossexual.

Mas vamos ao que Ney diz: “E eu caí na triste realidade de que tudo é igual, homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem. É tudo igual. Muita coisa rolaria água abaixo se na verdade todos se revelassem como são. E eu estou falando da favela ao Palácio do Planalto”.

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POR José Pires

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A hipocrisia de cada um

Só se espanta com a defesa de Delúbio Soares feita pelo deputado André Vargas quem não conhece a história do deputado eleito pelo Paraná. O petista, que foi um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff, fez uma apaixonada defesa da volta do ex-tesoureiro que foi expulso do partido. Vargas disse que seria "hipocrisia" não aceitar Delúbio de volta.

Bem, hipocrisia é uma coisa que depende bastante do ângulo de visão. E o que poderia fazer um deputado num governo que frauda até o superávit fiscal? Num ambiente desses evidentemente nenhum conceito pode ser visto com exatidão. E certamente quem defendesse o respeito estrito às regras morais ficaria de fora do círculo íntimo do poder.

Daí a relativização da ética. Outra boa explicação sobre este fenômeno está no convívio natural, que pode moldar comportamentos e até mesmo o olfato. Tem um bom ditado gaúcho para isso: os gambás se cheiram.

E tem também a história pessoal de cada um. Isso conta bastante em qualquer análise moral. Na diferença final entre um Al Capone e um Eliot Ness, é claro que conta muito como foi a construção da vida de cada um. E também é claro que numa hipotética discussão entre os dois não haveria jeito deles se entenderem sobre o conceito de hipocrisia.

Vargas já teve envolvimento com um prefeito que foi cassado por corrupção em Londrina, a cidade onde o petista começou sua carreira. O prefeito era Antonio Belinati, que foi acossado durante meses pela população tendo à frente um movimento político denominado "Pé Vermelho! Mãos Limpas!".

Em junho de 2000, Belinati acabou sendo cassado. Mas antes disso o PT se entendeu muito bem com ele. Fizeram até dobradinha política com seu filho, lançado pelo prefeito como candidato a deputado estadual. E durante a luta empreendida pelos londrinenses para retirar da prefeitura o político acusado de corrupção, líderes do PT local, como Vargas e o agora ministro Paulo Bernardo, estiveram sempre do lado de Belinati.

Numa apreensão feita pelo Ministério Público de uma caderneta onde eram anotadas quantias em dinheiro repassadas a políticos pelo prefeito Belinati apareceu o nome do deputado Vargas, além das iniciais "P.B." atribuídas a Paulo Bernardo. O fato ficou conhecido como "Lista do Zavierucha". Zavierucha era o tesoureiro que fazia as anotações.

Durante o movimento feito pela população contra a corrupção na prefeitura, os membros do movimento "Pé Vermelho! Mãos Limpas" chegaram a ser processados pelo então deputado federal Paulo Bernardo, numa ação que veio evidente para pressionar e dificultar o trabalho político de oposição a Belinati. Na época, Vargas e Bernardo eram aliados do maior apoiador do prefeito londrinense e peça essencial do esquema que dominava a prefeitura, o então deputado José Janene, já falecido e que foi um dos políticos denunciados ao STF pela Procuradoria Geral da República no inquérito do mensalão, que ainda corre naquele tribunal. Não só por coincidência, Janene e Delúbio estão lado a lado, como acusados no inquérito do mensalão.

Quando teve seu nome flagrado em 2000 na caderneta do prefeito cassado por corrupção, o deputado Vargas imediatamente alegou que era dinheiro para campanha política, buscando diminuir o delito como sendo uma questão de, no máximo, um caixa dois.

Como se vê, a solidariedade a Delúbio Soares é um fator natural. Até porque a justificativa que o ex-tesoureiro e outros petistas implicados no mensalão usam para tentar escapar de suas responsabilidades teve origem, de certa forma, na cidade onde o deputado André Vargas começou sua pujante carreira.

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POR José Pires

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Aposentando a ética

As pessoas fazem da própria vida o que quiserem, mas algumas atitudes públicas dos nossos políticos são de causar espanto. Não pela impropriedade moral e até ilegalidade do que vem a público, é claro, mas pela tolice do gesto em si. É no mínimo uma análise errada da relação de custo-benefício.

A queda moral da política parece estar criando entre os brasileiros um fator psicológico que faz da honestidade um fardo que não vale a pena carregar. E fica mesmo difícil ser honesto num país em que o mérito vale tão pouco, quase nada, uma terra onde um golpe de esperteza vale mais que décadas de preparo técnico.

Mas alguém ter que dar o exemplo para que não míngüe o combate ao clima criado nesses anos todos e fortalecido especialmente nos oito anos do PT. E, na política, se este exemplo não vem da oposição dirá de onde? De quem está no governo é que não vem.

Com sua decisão de acumular o salário do Senado com a aposentadoria de governador no Rio Grande do Sul, o senador Pedro Simon jogou uma pá de cal em toda uma história de honestidade. Além de dar uma força para o argumento central do PT para abandonar qualquer sentido ético, que é o de que todos fazem igual na política. O igual aí evidentemente é sempre o que se relaciona às falcatruas flagradas pela imprensa.

Junto com Simon, um jogo que até parece combinado vem o senador Álvaro Dias e requere no Paraná sua aposentadoria de governador. A bufunfa é grande: com isso ele poderia pegar por mês mais de 50 mil reais. Eu digo "poderia" porque esta aposentadoria pode ser anulada, o que deve configurar como um perfeito golpe tucano. O senador ficará com o pesado ônus político por ter pedido uma aposentadoria imoral, mesmo sem conseguir recebê-la.

No caso de Álvaro Dias, sua atitude é de um peso moral de uma relevância que transcende ao seu papel político no plano nacional, que já não é pequeno. Ele foi cotado para ser o vice de José Serra na chapa presidencial. Num cenário em que uma oposição ao governo petista exige muita cobrança ética, Álvaro Dias fez o serviço de apequenar-se perante adversários cujo nível não raro toca a sarjeta.

E aí ficam os dois, Dias e Simon, tentando justificar o indefensável. Quem pode achar correta uma aposentadoria depois de trabalhar apenas quatro anos, às vezes bem menos? Só quem recebe, é claro. Num país como o Brasil, onde aposentado tem que sair catando latinha de alumínio no lixo para complementar o que ganha, não há como não ficar escandalizado com algo assim.

E o engraçado é que para se defender das críticas, os dois senadores começaram a levantar atitudes éticas em suas carreiras políticas. Bem, vamos acreditar nisso, mas então depois de um tempo aposenta-se a ética, é isso?

E a gente sabe que tem outras sem-vergonhices além da aposentadoria dos dois. Quando a imprensa descobre um assunto como este, logo começam a aparecer outras situações que são praticamente um assalto aos cofres públicos. Isso ocorre em todos os ambientes de trabalho, seja nos governos, nos legislativos e no sistema judiciário — em todas as instâncias, nos municípios, nos estados e no governo federal.

No Senado, entre outros privilégios, tem até plano de saúde vitalício extensivo a toda família. Quando se queixam de seus salários, nossos nobres senadores sempre se esquecem de falar nessas coisas.

Simon e Álvaro Dias dão a impressão de que vão encerrar a carreira. O senador gaúcho já havia anunciado isso no ano passado e até fez, como sempre, um discurso ético para justificar sua saída. E, também, com a idade que tem resta pouco espaço à frente para Simon na política brasileira. Fica sempre o exemplo ético, mas a história da aposentadoria diminuiu bastante sua estatura moral.

De qualquer maneira, além dos danos à história pessoal de cada um, os dois senadores fizeram em uma tacada até tola um desserviço à luta para conduzir o Brasil para um caminho com um mínimo de respeito moral.
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POR José Pires

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Progresso que não anda

Sete em cada dez pessoas sofrem com congestionamentos de trânsito no país. É o que diz uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). É claro que isso é um resultado do crescimento da frota de veículos no país, que agrava um problema sem solução. Não adianta esquentar a cabeça porque o único jeito é diminuir o uso do automóvel individual, mas infelizmente os governos fazem exatamente o contrário.

O transporte público é o meio mais usado, com o índice de 44,3%. Em segundo lugar vem o carro próprio, com 23,8%. A moto está na terceira posição e a bicicleta vem depois dos pedestres. Mais pessoas andam a pé do que de bicicleta: 12,3% e 7%.

De qualquer forma há uma desproporção entre os que usam o carro próprio e os demais meios. O que se vê é um privilégio na atenção ao carro. E um descaso com o transporte público. Até o empresariado escolhido para gerir este tipo de serviço é o mais desqualificado do país. Muitas vezes é gente até de práticas criminosas. Não à tôa, parte substancial da corrupção no país corre no meio do transporte público. No próprio PT tem o caso do ex-prefeito Celso Daniel, um amigo de Lula que acabou sendo morto num crime que envolve propina no transporte público.

O que existe é o estímulo ao transporte individual e um descaso com o transporte público ou com a alternativa mais divertida e com melhores resultados para a saúde, que é a bicicleta. No ano passado, o governo Lula injetou uma dinheirama nas montadoras de automóveis, uma política que acaba resultando em gastos imensos também nas outras decorrências negativas do uso do automóvel e que não estão nessa pesquisa do Ipea.

Além dos engarrafamentos, o Brasil também é recordista em acidentes de trânsito. E neste assunto os jornais costumam fixar-se no número de mortos e se esquecem da infelicidade dos feridos e de suas famílias. O trânsito gera também este outro gasto, de tratamentos que muitas vezes se prolongam por toda a vida do acidentado, além de indenizações e pensões.

A pesquisa do Ipea mostra também que muita gente não quer nem saber de transporte público. 32% dos entrevistados não passariam a utilizar transporte público sob nenhuma condição. Isso revela a imagem do transporte público no país. Mas é claro que pegar um ônibus apertado nem sempre é a única opção. Existe sempre a opção de andar a pé ou ir de bicicleta.

Mas para isso precisaríamos de políticas públicas sérias neste assunto e, para começar, um estímulo cotidiano dos nossos dirigentes políticos. Mas basta dar uma olhada para o barrigão do ex-presidente Lula e na forma física de sua sucessora para ver que este é mais um tema que não é do interesse deles. E aquela história da opção pela esteira para escapar da leitura também é outra mentira. Eles não fazem nem uma coisa nem outra.

O negócio deles é com as montadoras. O levantamento do Ipea mostra que de 2000 a 2010 a frota de veículos cresceu 90,9% a mais que a população. As motocicletas apresentaram um aumento de 242,2%.

O período coberto parece ter sido escolhido para confundir, o que não é novidade no Ipea depois que o presidente Lula deu uma guariba no instituto para um melhor atendimento do interesse do governo. Porque não mostrar os índices de 2003 a 2010? Foi um período em que a frota não só cresceu demais como tivemos até o próprio presidente Lula se gabando do feito com um orgulho besta.


Duas rodas ainda por baixo
Sobre o respeito aos ciclistas a pesquisa chegou a números bem baixos e dos quais, mesmo assim, bem duvidosos na minha opinião. No Sul do Brasil 60% dos sulistas vêem respeito a pedestres e ciclistas. Nas outras regiões o índice varia entre 36,3% e 40,7%.

Neste caso, acho que o restante do país esta sendo mais sincero que o Sul, onde o número de respeito me parece elevado demais. Eu, que sou bicicleteiro, não tenho tido o prazer de encontrar esse pessoal bacana que respeita tanto bicicleta. Ciclista sofre nas cidades brasileiras. Se até lugar para estacionar é difícil, quanto mais segurança para rodar pelas ruas.

O ciclista também está incluído numa categoria inferior na cabeça das pessoas. A bicicleta é vista como um meio para se exercitar ou como um veículo de passeio. Todo mundo acha bem elegante a pessoa chegando de bicicleta no escritório. Mas isso em filme ou propaganda. No Brasil, o uso da bicicleta no cotidiano é visto ainda como coisa de pobre ou de gente excêntrica.

A bicicleta é o melhor meio de transporte. Não tem nenhum dos efeitos colaterais do carro, como obesidade e várias doenças, não atravanca as cidades, não polui e nem faz barulho. E também está ao alcance do bolso de qualquer um.

As pessoas ainda vão se conscientizar disso. Só espero que no Brasil isso não siga o modelo de sempre: como cópia do que acontece no estrangeiro ou como remédio depois do esperado colapso energético.

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POR José Pires

Tuito, logo existo

Escrevi abaixo sobre os problemas da cantora Gal Costa com seu Twitter, uma complicação que mostra como é delicado este meio de comunicação. A verdade é que ninguém sabe ainda exatamente para que serve essa ferramenta tão delicada e por isso mesmo atualmente cabe tudo nela: recadinhos pessoais, gracinhas tolas, auto-confissões e, claro, tem espaço também para mensagens que valem a pena ser lidas.

Esse tipo de coisa aconteceu bastante no início dos blogs, quando proliferaram blogs falando de questões pessoais. Hoje o filtro natural da internet deu um sentido mais organizado para os blogs. O modelo que ficou ainda é o opinativo, muitas vezes com auto-referências, porém sem aquele clima de diário íntimo que no começo dava o tom da maioria.

Era a época do "tenho um blog, logo existo". E daí saiu muita besteira. O Twitter atualmente está numa situação bem parecida.

Daí o estilo de diário íntimo que toma conta dessa ferramenta. É claro que mesmo assim tem muita coisa aproveitável, mas como chegar a esses textos com algum sentido informativo? Quem é que tem tempo para seguir tantos tuiteiros comentando o que estão fazendo da vida? Essa é a questão que pode barrar o Twitter para quem não tem tempo para seguir dezenas ou até centenas de gente escrevendo besteiras, para fazer depois o trabalho de separar algo que preste entre tanta porcaria.


Em Twitter calado não entra mosca
Gal Costa não aguentou a pressão depois que comentou sobre um prestador de serviços que alegou dor de cabeça para adiar o conserto do ar-condicionado da sua casa. Daí, abandonou o Twitter.

Mas tem também os que abandonam o Twitter exatamente para não sofrer pressões por causa de algum comentário infeliz. Foi o que aconteceu com a presidente Dilma Rousseff, que desapareceu do Twitter.


Vejam acima a última mensagem dela, escrita em 2010. Ela promete "conversar mais" em 2010, mas foi igual promessa de campanha. Depois disso, ela sumiu. E com este descaso seu Twitter ficou até engraçado. Parece uma daquelas tantas piadas involuntárias que ela fazia como candidata.

A penúltima mensagem é uma promessa de solidariedade ao governador do Rio: Sérgio Cabral. Dima escreve: "Quero dar minha solidariedade ao povo do Rio e apoio ao Sergio Cabral. Estamos juntos nesse enfrentamento com o crime organizado".

E o cenário político mudou tanto que os dois nem podem faturar politicamente com este caso. Agora o problema no Rio são as mortes com as chuvas, que já estão perto de mil.

Desde que venceu as eleições, Dilma nunca mais postou algo e nem teria como fazer isso sem arrumar uma confusão por semana. É um dos problemas do uso do Twitter para fazer política. É que em política existe o tempo de se calar, o que é incompatível com o funcionamento do Twitter. E Dilma está nessa época em que é melhor não escrever ou falar qualquer coisa da própria cabeça. Mas isso passa. Mais uns quatro anos e ela poderá voltar a escrever em seu Twitter.

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POR José Pires

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Gal Costa atropelada pelo Twitter

Nem sabia que a cantora Gal Costa tinha Twitter, mas na internet estão noticiando que ela abandonou o dela depois que se meteu numa polêmica em que foi chamada até de racista, por causa de um post que não agradou a ninguém.

Twitter é um perigo. Foi numa tuitada do presidente do PTB, Roberto Jefferson, que começou a que foi talvez a maior crise da candidatura de José Serra e, com certeza, a crise que detonou todas as outras que vieram depois. Jefferson anunciou em primeira mão o nome de senador paranaense Alvaro Dias como vice e veio então toda aquela confusão.

O Twitter também já complicou a vida de outras pessoas. Teve gente que até foi demitida depois de postar alguma bobagem qualquer, porque no Twitter, basicamente é mesmo tudo bobagem, no nível de uma conversação de mesa de bar. No geral, o clima é esse. E aí é que está o problema. As pessoas não atentam para a diferença que a palavra assume na forma escrita. Este é um erro cometido principalmente por quem não é do ramo da escrita.

A cantora escreveu isso no seu Twitter: "Como na Bahia as pessoas são preguiçosas! Técnico do ar-condicionado ñ pode terminar o trabalho pq está com dor de cabeça. Essa é a Bahia!!!" É uma banalidade que provavelmente ela pretendia que fosse entendido como uma brincadeira a mais com a fama de preguiçoso dos baianos, mas deu um bafafá danado.

É o outro grau da palavra quando é escrita. Gal poderia dizer a mesma coisa que saiu no Twitter até para o técnico com dor de cabeça e possivelmente ele até iria rir da frase. Mas um bilhete escrito da mesma forma já poderia ofender bastante. E escrito no Twitter, a coisa piorou. Já tem gente vendo nisso uma manifestação de preconceito contra os baianos. Ah, tenha paciência, não?

Mas acontece isso mesmo. E não é apenas em razão da rapidez da internet e a Gal deveria saber disso. Na época em que o falecido senador Antonio Carlos Magalhães foi flagrado rompendo o sigilo da votação eletrônica no Senado, ela e colegas cantores baianos foram prestar solidariedade a ele.

Pois quando essa solidariedade virou letra de forma nas notícias da imprensa, Gal e os artistas baianos sofreram um violento e justo repúdio de gente de todo o país. Foi justo porque até o senador ACM sabia que tinha cometido uma safadeza, tanto que renunciou para não ser cassado.

Tem várias besteiras, digamos assim, midiáticas, da Gal. Mas vou falar de uma que acompanhei de perto. Nessa ocasião, muitos anos antes, Gal poderia também ter aprendido uma boa lição sobre o efeito do que sai da língua e depois vai para os jornais. Foi no início da década de 80. Depois de chegar para um show na cidade de Londrina, no Paraná, ela falou para os jornalistas que a cidade parecia uma fazenda. Quando isso saiu impresso nos jornais do dia seguinte tinha gente que queria até linchar a cantora.

Escrevo tudo isso porque o compositor Tom Zé quis fazer um comentário sensato (logo ele, não?) sobre o caso e disse o seguinte: "Gal está aprendendo a lidar com os códigos da comunicação de massa, é isso".

Eu penso que o caso dela não tem remédio. Tem mesmo que abandonar o Twitter. A não ser, é claro, que contrate um assessor para Twitter. Artista tem assessor para tudo quanto é coisa que os mortais comuns fazem sózinho, então por que não um assessor para Twitter?


Retoque: Ou um P.S. sobre algo que me deixou encafifado. É a foto que a cantora usa como identificação em seu Twitter. Chega a ser engraçado, pois parece ela antes da invenção da internet, o que é confirmado pelas fotos publicadas nas notícias sobre a polêmica, onde aparece uma senhora gorda. Deve ser aquela coisa do meu melhor lado para fotografia. O melhor lado da Gal é o de vinte anos atrás, é isso?


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POR José Pires





Muita encrenca por coisa ruim

Quando falta o bom senso, uma questão que já não é boa pode ser piorada bastante. É o que vem acontecendo com a repercussão das relações entre o governo brasileiro e o Irã, tornadas estranhamente fraternas pelo presidente Lula. O olho no olho com o iraniano Ahmadinejad constribuiu para meter o Brasil em encrencas que a habilidade do Itamaraty vinha até agora conseguindo manter longe de nós.

Nesta semana a amizade petista com Ahmadinejad criou compicações até nas relações do Brasil com Holywood. "Lula, o filho do Brasil", o abacaxi criado a partir da história da vida de Lula ficou de fora da disputa do Oscar de filme estrangeiro, depois de ter sido incluído entre os pré-selecionados de maneira evidentemente marota. É claro que a mão do governo do PT teve um peso danado para que a comissão do Ministério da Cultura e pela Academia Brasileira de Cinema tentasse encaixar o filme na disputa.

Falando nisso, escrevi sobre o assunto abaixo e não publiquei o nome dos integrantes da comissão que indicou o filme por unanimidade. Aqui está: Cássio Henrique Starling Carlos, Clélia Bessa, Elisa Tolomelli, Frederico Hermann Barbosa Maia, Jean Claude Bernadet, Leon Cakoff, Márcia Lellis de Souza Amaral, Mariza Leão e Roberto Farias.

Mas a inexplicável atitude da comissão brasileira bateu no bom senso de uma comissão maior. O filme ficou fora do Oscar de filme estrengeiro. No Brasil, "Lula, o filho do Brasil" foi um fracasso de crítica e também pifou na bilheterias, mesmo com esquemas de venda de pacotes de ingressos para empresas e sidicatos. Até agora não chegou a um milhão, quando esperavam cinco milhões de espectadores.

O filme é ruím. Uma peça de propaganda que estava incluída inclusive no roteiro eleitoral bolado pelos marqueteiros do governo petista para favorecer a candidata de Lula, mas até nisso o filme gorou. Não houve o encanto popular esperado para dar o impulso ao culto à personalidade de Lula.

Fora do Oscar por causa do olho no olho?
Mas onde é que entra o Irã nisso? Já havia entrado há meses. Em julho do ano passado, Paulo Barreto, irmão do diretor e também produtora do filme, disse que estavam tendo dificuldade para exibir o filme nos Estados Unidos por causa da visita do presidente Lula ao irã. Numa reportagem da Folha de S. Paulo, Paula Barreto disse o seguinte: “O distribuidor é judeu e nos disse que era inviável exibir o filme num cinema onde a maioria do público é de judeus”.

À parte a afirmação tola de que o público de cinema nos Estados Unidos é composto em sua maioria de judeus, a fala de Paula Barreto já havia dado uma certa polêmica, bem restrita, é verdade, mas não menos grave pelo fato de suas declarações davam a entender que haveria um boicote judeu ao filme sobre Lula.

A idéia de que houve um boicote judeu é racista, além de não se apoiar em fato algum. Ao contrário, filmes que tocam em questões até bem delicadas para os judeus tem tido espaço de exibição garantidos nos Estados Unidos.

Mas não deixa de ser uma novidade pra defender filme ruim. Muito já se falou sobre as dificuldades da nossa indústria cinematográfica, inclusive com críticas aos Estados Unidos, algumas delas muito justas, mas é a primeira vez que alguém alega uma conspiração judaica para justificar a falta de sucesso de uma obra nacional.

Isso poderia ficar por aí, mas o problema é que com o filme do Lula fora do Oscar voltaram com essa conversa. Agora surge a história de que ele não foi selecionado para concorrer ao Oscar devido à “influência de produtores e distribuidores judeus”.

Essa conversa parece literatura barata de antissemitismo. Como o livro "Os Protocolos do Sião" é mesmo comprovadamente uma farsa, está aí um capítulo novo para exemplificar a maldade dos judeus: eles boicotam filmes brasileiros.

Representantes da comunidade judaica já estão se manifestando e com toda razão. Fatos históricos bem recentes mostram que o terror pode começar também dessa forma aparentemente só idiota. Osias Wurman, cônsul honorário de Israel, mandou uma nota para os jornais com o seguinte trecho: "Sou contra o uso da comunicação para criar "ídolos". A História não perdoa a idolatria. Covardia da fracassada produtora em atribuir aos judeus o destino desta obra induzida e sem qualidades para um Oscar. Nada a ver com Israel ou lobby judaico".

Não é preciso ser israelense para concordar com ele. Mas só faltava ao cinema brasileiro criar uma inimizade com a comunidade judaica dos Estados Unidos — que tem por certo grande influência intelectual por lá —, ainda mais por conta de uma tolice dessas em torno de um um filme de má-qualidade nos mais variados sentidos. Como ato de política cinematográfica, com certeza deixa bastante a desejar.

E isso sem contar que o envio desse abacaxi para a pré-seleção já tinha sido um ponto contra a nossa indústria cinematográfica. Foi uma manifestação de falta de seriedade técnica e política, que cresceu com esse problema novo provocado por falas preconceituosas. Isso ainda pode ir muito longe. Não é preciso acontecer um caso como o do WikiLeaks para sabermos que os gringos anotam tudo.

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POR José Pires

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Lula fora do Oscar

O Brasil fica fora da disputa do Oscar. Como todos devem estar sabendo, o filme brasileiro na lista de pré-indicados ao prêmio de melhor filme estrangeiro era "Lula, o filho do Brasil", de Fábio Barreto, em indicação oficial em que o governo petista pesou a mão. Forçaram a entrada do longa, que é de baixa qualidade e foi um dos micos do ano que passou.

É uma peça de ficção, com a história de vida de Lula bem falseada. O filme foi indicado por uma comissão do Ministério da Cultura e pela Academia Brasileira de Cinema. É um dos degraus mais baixos da queda moral desses oito anos: o Estado interferindo na cultura para fortalecer a imagem de um político.

E com a indicação desta bobajada é claro que acabaram queimando, por antecipação, as chances de uma produção brasileira ganhar o Oscar de filme estrangeiro, o que viria bem para a nossa indústria cinematográfica. Mas os interesses do PT estão sempre acima do interesse nacional.

Foi fácil captar verbas para a produção, afinal era uma peça essencial na construção da imagem de Lula, com vistas também a ter um papel definidor na eleição presidencial do ano passado. O filme teve uma dinheirama de empresas com ligações com o governo federal e, depois de pronto, o governo fez de tudo para que ele acontecesse. Só faltou oferecer pipoca de graça, se é que não fizeram isso. Falava-se numa meta de 5 milhões de espectadores e o investimento político e de propaganda mirava de fato num número estupendo desses, mas faltou combinar com o público, que acabou não comparecendo.

Até agora o filme não alcançou 1 milhão, quando a própria direção nacional do PT afirma que o partido tem 1.388.617 filiados. Então tem que baixar o centralismo democrático e enquadrar a companheirada: pelas contas, tem muito petista que não foi assistir o filme do chefe.

Com o filme fora do Oscar, para alcançar o sucesso no exterior agora só resta a Lula tentar a secretaria geral da ONU. Mas já é bom ir para a disputa sabendo que assim como na Academia de Holywood, na ONU não tem PT, PMDB, PP e PDT que garantem uns votinhos em troca de cargo.
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POR José Pires

Fala o mestre

"Hoje está provado que a nossa técnica de destruição supera a capacidade de destruição da natureza. Mas se Deus deixa que destruam 3 milhões de árvores na Amazônia, assim sem mais nem menos, é porque as faz nascer em outro lugar, onde também deve haver macacos, flores e águas altas. É para lá que eu vou quando eu morrer."

É o Tom Jobim falando sobre a destruição da natureza no Brasil. Tirei do belo livro feito por sua irmã, Helena Jobim, onde ela conta muita coisa interessante sobre a convivência entre os dois. Este livro é muito importante, até porque, além das falas cotidianas do compositor captadas por um ouvido amoroso, traz também textos praticamente inéditos escritos por ele, alguns que de fato não sairam em lugar algum.

Esta frase sobre a capacidade destrutiva dos brasileiros em cima de suas riquezas naturais é do início da década de 80, mas é claro que ele já vinha alertando bem antes sobre o perigo desta destruição.

E vinha também extraindo da nossa natureza a matéria prima para suas músicas. Tom Jobim traz uma lição em sua obra e que seria bom os brasileiros terem na cabeça, que é o uso da nossa natureza — a brasileira mesmo, pois na sua música quando ele canta “pedra”, é uma pedra das nossas — como força-motriz para as nossas realizações. Esta é uma questão cultural e também econômica. É desse potencial que podemos extrair dinheiro e prestígio, como a bossa nova mostrou muito bem. Derrubar, queimar, assorear, poluir, demolir, enfim, destruir essa força natural vai fazer o Brasil ir para o buraco.

A frase dele é ótima. Tirando a esperança de reencontrar tudo refeito por Deus depois de morrer, assino embaixo.
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POR José Pires

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Rio colhe suas tristezas

Várias histórias comoventes nesta tragédia que acontece no Rio de Janeiro. Primeiro a devastação do sítio do Tom Jobim pela violência das águas. Por coincidência eu andava nesses dias relendo coisas dele, revistas com entrevistas que tenho muito bem guardadinhas, biografias e, claro, uma escutada nesta ou naquela música que uma frase ou um fato traz à lembrança [...é, mas quando é que você não está fuçando em alguma coisa do Tom Jobim? É verdade, mas aconteceu mesmo].

O simbolismo da queda da casa e a destruição no sítio é bem forte. Num belo livro escrito pela irmã do compositor, Helena Jobim, ela conta uma breve história ocorrida com ele em Jerusalém, quando depois de um show eles foram tirar uma foto em uma plantação de oliveiras e Jobim escolheu ficar do lado de uma árvore em meio a tantas outras.

Depois de feita a foto perceberam uma pequena placa onde se lia que exatamente aquela árvore havia sido plantada pelo pianista Arthur Rubinstein. De pronto um amigo de muitos anos, Tião Neto, disse para o compositor: “Não existem coincidências”.

Por coincidência é mais ou menos assim que eu penso. A destruição do sítio onde Jobim fez tantas coisas boas no Rio deveria ser vista como um alerta sobre os perigos de que ele já falava há muito tempo e que começam a acontecer de forma muito grave e continuada.

Ou será coincidência que o Rio colha tristezas aindas mais pesadas exatamente um ano depois da tragédia em Ilha Grande?

Em torno da destruição do lugar de onde, entre tantas belezas, saiu Dindi, Matita Perê e Águas de Março, tem também outras histórias comoventes.

Um caso terrível é do aposentado que foi soterrado com a família e viu a mulher e os filhos morrerem ao seu lado. É uma história impressionante contada pelo jornal Extra, do Rio. É uma daquelas reportagens que devia vir acompanhada de um lenço. Você pode ler clicando aqui ou aqui.

Histórias como esta trazem o lado humano da questão. É o sofrimento cotidiano e as perdas que passarão infelizmente a compor a memória de toda uma região. Mesmo um cético como eu sabe que, no final, o que importa é o nosso semelhante. Fiquei aqui pensando como será difícil para os sobreviventes dessa tragédia darem contnuidade às suas vidas depois que as coisas voltarem a uma relativa normalidade por lá.

O número de mortos já se aproxima de setecentos. É provável que chegue à mil. Naquela região será difícil encontrar alguma pessoa não tenha perto de si uma história pavorosa que ficará em sua cabeça talvez por toda a vida. Este sofrimento psicológico nenhum jornal consegue captar e sobre ele é praticamente impossível obter indenização ou cobrar responsabilidades. É coisa que não aparece em estatísticas e estudos.

Em Nova Orleans, em 2005 morreram cerca de 1500 pessoas. Hoje no Rio, ainda com muita gente possivelmente soterrada, o número de mortos já é quase a metade do que teve naquele desastre nos Estados Unidos. E por lá passou um furacão. Mas com os governos que temos o brasileiro não precisa disso para sofrer.


Fugindo da culpa
Aqui no Brasil nossos furacões são outros: as autoridades políticas se incumbem de criar o cenário perfeito para os desastres. Quando Nova Orleans viveu aquela situação dramática, a nossa esquerda foi rápida em apontar o presidente George W. Bush como o vilão. Bush certamente teve sua culpa, apesar de que não concordo com o uso de espantalhos na política, no estilo estratégico da esquerda brasileira.

Já no drama vivido hoje pelos brasileiros com as chuvas, essa mesma esquerda, em blogs e sites muito bem pagos com dinheiro público ou com favorecimentos de governos, investe contra a imprensa que busca contar o que se passa no Rio. Com isso, esses braços articulados do poder tentam desviar o foco dos culpados pela tragédia. E quem são? Ora, é a presidente Dilma Rousseff e o governador Sérgio Cabral. Os dois são a continuidade de governos anteriores. Dilma vai para o terceiro mandato petista. Cabral foi reeleito.

Teve um tempo em que no Brasil jornalistas pressionavam para o aprofundamento de qualquer investigação e a busca do esclarecimento dos fatos. Hoje jornalistas acoitados pelo poder petista trazem essa novidade de atacar a imprensa quando ela faz direito seu trabalho.


O que ocorre no Rio espanta pela enormidade e pelo peso dramático de tantos mortos, mas na essência não é muito diferente do abandono cotidiano que os cidadãos sofrem do poder público em todas as cidades brasileiras. A população sofre com serviços precários ou até com a total ausência em questões básicas pelas quais pagam impostos. Os brasileiros penam uma barbaridade enquanto o dinheiro público escoa na roubalheira, no pagamento de salários altos e mordomias para os políticos e no mau uso ocasionado por má-fé ou deficiência técnica.

E nem estou falando de direitos que os político exploram como se fossem doações assistencialistas, mas de serviços que custam muito caro e são pagos pelo cidadão muitas vezes até antecipadamente. É a internet que não funciona, ruas com asfalto precário, falta de segurança, bancos que atendem mal, transporte público de má-qualidade e tantos outros descasos, inclusive a falta de saneamento básico no país onde existem mais aparelhos celulares que tratamento de esgoto.

Acreditar que a chuva é a causa dos problemas serve apenas para ajudar na fuga das autoridades brasileiras às suas responsabilidades. Até porque sabemos muito bem que, quando não é a chuva, a seca também serve como justificativa para eles escapulirem.

Alguém vive numa cidade onde os serviços básicos, aqueles pagos todo mês pelo contribuinte, são prestados de forma razoável pelo administrador público? Bem, se vive então não conte pra ninguém, senão milhões de brasileiros vão querer se mudar para esta cidade.

É preciso apontar os responsáveis e cobrar suas responsabilidades, que vão além de um passeio rápido de coletezinho em frente aos jornalistas quando acontece alguma tragédia. Se fosse possível ser conseqüente na cobrança de responsabilidades pelo que acontece no Rio e em várias cidades brasileiras, muita gente sairia corrida do poder, alguns até iriam para a cadeia. Mas esta possibilidade ainda é a de um país de ficção, um mero desejo de muitos brasileiros. O problema é que enquanto não fazemos um país assim, vamos tendo que chorar muitos mortos.

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POR José Pires

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

James Thurber, um traço sempre na memória

Este desenho de James Thurber é um dos primeiros cartuns de que tenho memória na minha vida e é uma das imagens artísticas que mais me marcou. Vi este e mais dois ou três numa reportagem da antiga Seleções do Reader’s Digest ali pelo início dos anos 60. Eu tinha doze ou treze anos e a Seleções era um dos poucos canais nossos com o mundo exterior. O Brasil era uma província. Ainda é, mas hoje pelo menos temos a janela da internet para espiar o tempo todo lá fora.

É difícil explicar para um jovem de hoje como era a coisa, tão complicado como fazer alguém entender atualmente que os jornais eram feitos então numa máquina de escrever. A informação era passada de mão em mão, isso literalmente. Quando vi estes desenhos era muito especial ter uma revista nas mãos. O que tínhamos aqui? A TV recém-começava e televisão no Brasil sempre foi porcaria. Nem a TV a cabo nos salva disso. Nossa indústria editorial era pequena. A qualidade de impressão, que até hoje não é nada boa no país, na época era péssima. Mas era o que tínhamos e então era com emoção que eu recebia uma reportagem qualquer com a reprodução de alguma pintura ou desenho, mesmo que a impressão não fosse grande coisa.

As revistas ficavam guardadinhas durante anos para serem espiadas quando fosse preciso. Algumas imagens eu recortava e guardava. Eram como tesouros da informação, de forma que ter acesso a algo tão precioso como os desenhos de Thurber não era para qualquer um e obviamente de forma alguma tão fácil como hoje.

Só para ter uma idéia, de um pintor como Paul Klee, tomando como exemplo outro artista que adoro, com a facilidade criada pela internet acabei vendo mais obras dele nos últimos três anos do que em todos os outros anteriores meus de vida. E de verdade mesmo, antes da internet cheguei a ver pouco mais de uma centena de obras dele ou de qualquer outro artista e muitas vezes em reproduções de qualidade bem ruim. Agora já vi quase tudo de Klee e de outros bons pintores.

Mas, voltando aos meus tempos de menino, quando conheci o trabalho de James Thurber este cartum me encantou bastante. Isso mostra, sem falsa modéstia, que eu era mesmo bem precoce. Até para hoje é um trabalho de difícil compreensão e que para ser apreciado exige uma certa capacidade técnica, especialmente por causa do traço sofisticado ao extremo. A simplicidade pode afastar o leigo e, não raro, quem não entende de arte tende sempre a apreciar mais o excesso do que a síntese.

A piada é surrealista como pede o desenho de uma foca atrás de uma cama. Thurber conta que fez primeiro o desenho, sem saber em que ia dar. Depois escreveu o diálogo para a cena estranha. A mulher diz: "Está bem, você ouviu uma foca". Vejam a imagem ampliada, que postei em formato bem grande, clicando sobre ela. Dá para perceber detalhes do caminho da pena do artista sobre o papel.

Thurber é extremamente sofisticado em sua simplicidade. Muitos bons desenhistas levam anos para “desaprender” a desenhar e fazer algo tão despojado assim, o que ele aparentemente conseguiu desde sempre. Acho até que, em parte, porque Thurber era administrador na revista New Yorker quando começou a publicar. Depois acabou sendo altamente reconhecido como escritor, o que de certa forma deve tê-lo mantido fora das pressões comuns a todo artista. O mundo sempre exige o excesso e isso vale também para quem desenha para imprensa.

Isso pode ser uma das explicações para este desenho tão caligráfico e que parece tão espontâneo. Mas a melhor explicação mesmo é que o cara era bom de verdade e bastante corajoso: o cartum é de 1932.

Mas a simplicidade sempre engana muito. Em arte, algo tão simples assim na maioria das vezes é sempre resultado de um trabalho danado.

Sempre me ficou na memória este cartum que publico aqui e também outro, de um sintetismo gráfico maravilhoso, uma cena onde está um bicho estranho, que parece ser um enorme hipopótamo, tendo caídos à sua volta um sapato, um chapéu e um cachimbo. Na frente dele uma senhora com as mãos na cintura pergunta de forma enérgica: “O que você fez com o Dr. Millmoss?”

Mais tarde vi muitos outros desenhos de Thurber, inclusive as belas capas da New Yorker, onde ele depois passou a escrever também com muito sucesso. Tenho um belo livro de cartuns seus, além de centenas de desenhos recolhidos na internet. É um daqueles artistas inspiradores que até uma rápida olhada basta para reforçar a crença na necessidade da arte.

Entrando na internet dá para ver muitos desses desenhos, como nesta página do Flickr, onde uma pessoa teve a delicadeza de escanear e publicar vários cartuns retirados de um álbum. Mas o que ficou mesmo de forma marcante na minha memória foram estes dois cartuns de que falei, publicados no tempo em que essas coisas só eram vistas impressas em tinta.
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POR José Pires