sexta-feira, 18 de março de 2011

O lobby nuclear partindo pra cima

Em meio à crise nuclear japonesa provocada pelo acidente na usina de Fukushima o lobby nuclear se movimenta inclusive no Brasil. E como rola muito dinheiro nessa área os interesses são muito fortes. O governo do PT reativou as usinas nucleares de Angra dos Reis depois delas ficarem paradas durante 23 anos. E já está em andamento a construção de mais quatro usinas em diferentes estados.

Com o acidente em Fukushima, em países onde a população tem mais poder de influência sobre suas lideranças a tendência é que os projetos nucleares sejam repensados, até com possível desistência da construção de novas usinas.

O acidente nuclear no Japão também já começa a mudar bastante as preocupações com segurança nos países com usinas em funcionamento. Em qualquer lugar em que a opinião pública exerce forte pressão sobre seus dirigentes a relação com a energia nuclear não será a mesma de antes de Fukushima, principalmente no tocante à segurança.
A coisa é tão grave que até políticos como a chanceler alemã Angela Merkel, que de verde não tem nada, mas nada mesmo, estão agindo com mais rigor neste assunto. Merkel suspendeu o plano que estendia o prazo de vida de usinas nucleares no país. E esta extensão era uma decisão de seu próprio partido.

A China suspendeu a aprovação de todos os projetos de usinas nucleares, mesmo os que já estavam nos estágios iniciais. Todas vão passar por uma revisão dos padrões de segurança. Também passará a haver a exigência de segurança em todas as usinas já existentes.

Este maior cuidado com os programas de energia nuclear necessariamente vai implicar em maiores custos, o que pode afetar os lucros da empresas do setor, todas multinacionais e de grande poder econômico.

Uma conseqüência imediata será a busca dessas empresas por mercados mais maleáveis. Isso já acontecia antes de Fukushima, com os fortes lobbies atuando para abrir espaços em países onde a classe dirigente permita maiores lucros com menores exigências.

Para se instalar com menos incomodações, as empresas do setor são capazes de pagar cientistas e estudiosos de várias áreas para emitirem opinião favorável ao uso de energia nuclear. É verdade que alguns acadêmicos e intelectuais fazem isso de graça e até com certa ingenuidade, como se o debate de um tema como esse estivesse sendo estabelecido da forma mais democrática.

As empresas não podem se arriscar com esse tipo de coisa. Então, o debate é muito bem azeitado por elas com especialistas que até interpretam um papel de independência para dar mais credibilidade ao uso da energia nuclear.

Compram-se também os políticos, é claro. E, nesse caso, aqui no Brasil o lobby nuclear não terá dificuldade alguma. Aliás, pelo que se vê parece que já não está tendo.

Político brasileiro se presta a todo tipo de serviço. Se o pagamento for bom, tem gente no nosso Congresso que é capaz até de ter atitudes patrióticas. E no caso da corrupção brasileira isso pode ser até uma elevação de categoria. O patife pode passar da atividade ordinária de roubar dinheiro da saúde pública e elevar de status como corrupto nuclear.
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POR José Pires

Aguenta, Brasil: vem aí a corrupção atômica

O governo do PT reativou o Programa Nuclear Brasileiro, que já estava há mais de duas décadas parado, e pretende ampliar perigosamente o número de usinas. Mas o que fez esse pessoal que era adepto de soluções mais naturais para os problemas brasileiros ficar com essa animação com a energia nuclear? Bem, uma pista é a previsão de gastos apenas em Angra 3: 7 bilhões de reais. Imagine o que não vai render as próximas quatro.

O problema é que tipo de usina nuclear o Brasil terá com o baixo nível de exigência que o governo petista já mostrou em outras ocasiões, inclusive abolindo leis reguladoras para favorecer grandes empresas, como Lula fez na compra da Brasil Telecom pela Oi. Com a capacidade que essa gente já mostrou para tocar obras muito menos arriscadas, tem que ter má-fé ou ser maluco para expressas otimismo com o que pode vir por aí.

E nunca é demais destacar a partir de que tipo de liderança que um programa desses existe. Quem comanda o ministério de Minas e Energias é Edison (Yo soy la garantia!) Lobão, do grupo de José Sarney, o homem que há oito anos detém o poder na área da energia. Sarney é quem manda num ministério de tamanha importância.

E nem acho que a dificuldade do Brasil em lidar com algo tão perigoso como a energia nuclear seja em razão do governo ser do PT ou de ter Lobão comandando todo o processo. O Lobão logo mais sairá do cargo e o PT também não é eterno, mesmo que eles queiram tanto que até fizeram um mensalão para isso.

Nosso problema é o conjunto das forças políticas, deteriorado a tal ponto que hoje em dia não se cumpre nem certas formalidades para ao menos disfarçar o fato do país estar entregue a uma corja de patifes. Pode-se constatar nas atitudes mais variadas do nosso Congresso, a começar pela permanência de Sarney à frente do Senado depois da comprovada corrupção que é base de sua carreira política.

Cito o senador do Maranhão eleito pelo Amapá apenas como um exemplo de forte carga simbólica do estado a que chegamos, mas basta dar uma olhada em todo o Congresso para ver que sobram poucos ali que prestam e mesmo estes não seriam confiáveis para lidar com áreas de muito risco.

Sinceramente, o que nós não precisamos de forma alguma é que essa gente passe também a fazer suas velhacarias e trapalhadas com energia atômica.
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POR José Pires

Yes, nós já temos lixo atômico

Sobre a segurança do Programa Nuclear Brasileiro tem algumas histórias que não trazem nenhuma confiança no que temos aí, a começar por uma primeira delas, ainda no início da construção da Usina de Angra dos Reis, em 1978. Vivíamos na ditadura militar, num clima em que a segurança era algo muito especial para os militares.

Foi uma reportagem da extinta revista Repórter Três (excelente, mas que teve apenas uma edição) que mostrou que no Brasil era muito difícil ter barreiras de sigilo, mesmo num projeto cercado de mistérios como foi o Programa Nuclear.

O jornalista Caco Barcelos, começando na carreira, entrou na Usina de Angra da forma mais simples: pegou um emprego como operário da mais baixa categoria na obra e passou dias vendo e anotando tudo que havia no projeto mais secreto da ditadura militar. A ótima chamada de capa da revista (veja acima) mostrava o que seria possível acontecer se o Caco Barcelos não estivesse na obra só para fazer uma reportagem: "Sabotamos a Central Nuclear".

A energia nuclear é algo caro e extremamente perigoso, como foi possível ver em Fukushima, mas o risco já é do conhecimento mundo há pelo menos três décadas. Este não é o primeiro acidente nuclear grave e é impossível qualquer governo garantir que seja o último.

O que há de mais preocupante na energia nuclear não é só o risco de acidente numa usina, mas também a geração de lixo atômico dentro do processo normal de funcionamento de uma usina.

Ninguém sabe como resolver este grande problema da energia nuclear. O lixo radiativo permanece perigoso por centenas de milhares de anos.

No que diz respeito ao destino do lixo atômico, há anos que o Greenpeace vem alertando que o Programa Nuclear Brasileiro trata o assunto de forma provisória. Nesta semana, surgiu uma revelação gravíssima sobre o lixo atômico da Usina de Angra dos Reis e que infelizmente não vem recebendo o merecido destaque na imprensa.

Em seu Ex-blog, distribuído pela internet, o ex-prefeito do Rio, Cesar Maia denunciou que nas Usinas Nucleares de Angra o lixo atômico fica em caixas de chumbo depositadas em prateleiras de um galpão como num supermercado.

Para mostrar a gravidade do problema, Maia narra a visita anterior feita por um grupo de brasileiros às Usinas Nucleares da Alemanha, da Siemens. E faz a comparação com o método do governo brasileiro.

Na usina alemã os brasileiros só entraram com identificação um a um, feita fora da usina. Foram feitas fotos de todo mundo, houve um encontro em uma sala reservada com o oferecimento de informações. Entraram todos com os uniformes de segurança, que terminada a visita foram incinerados.

Mesmo com o rigor que foi visto pelos brasileiros, na época dessa visita a forma de armazenamento feito pela usina ainda não havia sido aceita pela corte suprema alemã.

O lixo atômico alemão fica numa antiga mina de sal. O grupo desceu de elevador por 800 metros.

Lá embaixo, caixas de chumbo lacradas são colocadas no meio do sal, que se fecha em torno das caixas como pedras, obstruindo qualquer risco de contato com o ar. E repito que o processo ainda estava sob a avaliação da corte suprema, mesmo com toda essa segurança.

De volta da viagem, o grupo foi visitar as Usinas Usinas Nucleares de Angra dos Reis, quando viram o lixo atômico depositado em prateleiras.

O acesso foi feito sem cuidados especiais coma identificação. Na mesma sala de recepção foram dadas as informações e vestidos os uniformes.

As tais prateleiras com o lixo atômico estão num galpão a 200 metros do prédio da Usina. Conta o ex-prefeito Maia o que viram lá: “Mas o susto maior veio quando foi pedido para se conhecer a área de depósito de resíduos nucleares. São caixas de chumbo como na Alemanha, mas depositadas em prateleiras de um galpão como num supermercado”.

No texto em seu Ex-Blog, Maia ainda sugere que, “no mínimo, caberia ao Congresso Nacional constituir, urgente, uma comissão especial e visitar esse depósito, ou outro local de depósito das caixas de chumbo dos resíduos nucleares”, mas aí voltamos à questão da baixa qualidade política a que chegamos.

E o fato é que se tivéssemos um Congresso decente o tratamento do lixo atômico numa usina brasileira não estaria sendo feito dessa forma. Bem, com políticos decentes talvez nem tivéssemos usinas nucleares.

E se for para fazer uma visita como essa alguém duvida que o governo do PT não vá mexer os pauzinhos para criar uma comissão que mantenha tudo como está? Claro que vai. Não é difícil até que peguem uns mensaleiros para fazer o serviço.
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POR José Pires

quinta-feira, 17 de março de 2011

Agora vai

Em razão da crise nuclear japonesa, com o acidente em Fukushima, já devem estar surgindo na internet propostas de campanha contra o Programa Nuclear Brasileiro. Mas já vou avisando: esse negócio de rede social, twitaços, movimentações no Facebook, no Orkut, essas coisas todas, tudo isso é muito bacana. Porém, não se deve esquecer que sem tropas amigas para neutralizar pelo menos a aviação do adversário, nada feito.

Mas, voltando à idéia da campanha contra o Programa Nuclear Brasileiro, como sou do contra acabei de bolar uma campanha a favor. Está aí ao lado. Vamos à luta, pelo Programa Nuclear Brasileiro
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POR José Pires

Já tem serviço pro Lupinho vindo do Japão

O governo mostra preocupação com a falta de peças e partes de eletroeletrônicos comprados do Japão. Segundo informação do Ministério do Desenvolvimento, empresas da Zona Franca de Manaus manifestaram preocupação com um possível desabastecimento nas próximas semanas.

Francamente, não faz sentido que esse tipo de preocupação seja trazido para a opinião pública, quando dentro do próprio governo está um especialista sobre as consequências da tragédia no Japão, que junta terremoto, tsunami e acidente nuclear, além de um inverno rigoroso.

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi (o Lupinho da Dilma), pode muito bem dar um jeito nesse desabastecimento e em outros problemas que vierem pela frente. E ele garante que o Brasil vai ganhar com o que aconteceu no Japão. Vão lá, pô! É o Lupinho que tem o mapa da mina.
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POR José Pires

Japão: o medo da radiação e a coragem de quem ainda está na usina de Fukushima

O acidente nuclear no Japão está por um fio de uma tragédia nuclear. As autoridades japonesas tentam aparentar um controle da situação, mas vários países muito interessados no assunto porque podem sofrer conseqüências do que acontecer no Japão já deixam claro que é difícil retomar o controle sobre os reatores.

O governo dos Estados Unidos já havia recomendado pela embaixada em Tóquio que os cidadãos americanos guardem uma distância de 80 quilômetros do epicentro do complexo de Fukushima. Autoridades americanas também já disseram que ante uma situação semelhante os Estados Unidos agiriam como maior precaução que os japoneses e estabeleciariam uma zona de evacuação bem maior que o raio de 20 km, depois ampliado para 30 km.

França, Alemanha, Inglaterra, Colômbia, México e Índia também recomendam a seus cidadãos que saiam de Tóquio. Esses países já tem prontos aviões para retirar seus cidadão por causa do risco nuclear.

Em Fukushima a luta é desesperada na tentativa de evitar a fusão dos reatores. As operações consistem em jogar água com caminhões cisterna e também usando helicópteros. O trabalho para evitar a tragédia na central já faz vítimas entre os trabalhadores. 19 trabalhadores foram feridos e 20 foram expostos à radiação. Dois estariam desaparecidos. Ficar exposto na situação exigida pelo trabalho dos responsáveis pelo esfriamento do reator dificilmente deixa de ser mortal.

Ontem o diretor da principal reguladora nuclear dos Estados Unidos dizia durante audiência do Subcomitê de Comércio e Energia da Câmara dos Deputados que os níveis de radiação ao redor da usina nuclear japonesa ameaçavam de forma letal os agentes de emergência.

Segundo Gregory Jaczko, da Comissão Reguladora Nuclear, haveria dificuldade de chegar perto dos reatores por causa desse alto nível de radiação. As doses a que os agentes de emergência poderiam ser submetidos “seriam potencialmente letais num curto período de tempo".

Para se ter uma idéia do risco, nenhum dos homens que há 25 anos trabalharam na emergência do acidente nuclear de Chernobyl está vivo. O grupo de emergência que trabalha na usina atômica japonesa já é comparado aos 47 samurais (os rônins), lenda histórica do Japão. Estes seriam “ronins” modernos.

Não discuto sobre a coragem necessária para fazer um serviço desses, mas existe um risco danado nesta visão romântica sobre homens que provavelmente estão ali apenas por uma imposição profissional. O senso de dever evidentemente é admirável, mas uma história de heróis nesse momento pode vir para ajudar os lobbystas nucleares e dirigentes japoneses fugirem às suas responsabilidades.
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POR José Pires

Bem longe de Fukushima, o lobby nuclear está com toda a energia

Enquanto os japoneses enfrentam a crise nuclear, aqui, bem longe de qualquer risco, o lobby nuclear age para evitar o aprofundamento de um debate entre os brasileiros sobre os riscos do projeto nuclear brasileiro. É possível obter energia a partir de fontes limpas e, claro, também sem o risco letal da energia nuclear, que não está apenas nos problemas que podem ocorrer em uma usina, mas também na difícil destinação do lixo atômico e também na mineração para obter o urânio. É todo um ciclo perigoso, do início ao fim, mesmo que não aconteça um desastre como o de Fukushima.

O governo do PT retomou o projeto nucelar depois de 24 anos parado. O nível de eficiência foi elevado às alturas anteontem pelo ministro Edison Lobão, do ministério de Minas e Energias. Segundo ele foram feitos até estudos sobre o comportamento das marés na região por um período de mil anos. Vou repetir, é isso mesmo: mil anos. Eita nóis! É a única usina atômica do mundo com mil anos de garantia.

Hoje quem apareceu para defender o uso de energia atômica foi Aloizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia. Para ele, as usinas brasileiras “foram bem construídas” no cenário de riscos do Brasil. “Nossa engenharia é a mais segura”, ele disse. Ou seja, estamos muito melhores que o Japão em energia nuclear.

Bem, para confiar no que diz Mercadante, teríamos que acreditar que os nossos japoneses são mesmo melhores que os deles, o que é só peça de propaganda. A energia atômica é ingovernável. Esta é uma lição do acidente em Fukushima e uma repetição de outros acidentes do passado, inclusive problemas menores com usinas atômicas no próprio Japão que foram escondidos pelas autoridades. E com um desastre nuclear não dá para revogar o irrevogável, como já fez Mercadante com a própria palavra e numa situação de menor — mas infinitamente menor — risco.

O lobby nuclear é forte e com uma capacidade muito grande de ocupação da mídia. Já li muita argumentação leviana sobre o assunto, sempre partindo de uma inverdade no caso brasileiro: de que em nosso país é indispensável o uso da energia nuclear.

São muito interessantes as frases de efeitos que surgem, com comparativos que são engraçados mesmo numa situação trágica dessas. Numa matéria publicada logo depois do acidente, um defensor da energia nuclear disse que os trens na região de Nakashima foram destruídos pelo terremoto, mas não seria por isso que as ferrovias deveriam ser abolidas.

Bem, se um acidente com trens tivesse como conseqüência a contaminação por radiação atômica de vasta região, certamente o uso de ferrovias seria inviabilizado como meio de transporte.

Outra comparação engraçado foi feita por um cientista do Instituto de Engenharia Nuclear da CNEN. Não vou dar o nome, até porque para o azar dele sua declaração saiu no pé da matéria em que o ministro Lobão defende o projeto nuclear brasileiro com um ardor semelhante às defesas da honra do seu padrinho José Sarney.

O cientista, que é também é vice-coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Reatores Nucleares Avançados... ah, então vou dar o nome: Paulo Augusto Berquó de Sampaio comparou o desastre nuclear de Fukushima com algo parecido acontecendo com a usina de Itaipu.

Ele disse o seguinte: “A energia nuclear tem contribuído muito, inclusive para reduzir emissões de gases do efeito estufa e vejo, apressadamente, surgirem argumentações injustas. Já imaginou o que aconteceria com Itaipu diante de um terremoto de 9 graus? Seria uma catástrofe”.

Vejam que ele usa na argumentação um terremoto bem grande na região de Itaipu. Deve ser para ampliar o efeito retórico. O do Japão, que é um lugar de muitos terremotos, foi um pouco menor que isso. E mesmo assim foi o maior já visto por lá.

Mas vamos ficar com esse terremoto de 9 graus em Itaipu. Bem, se for essa mesma Itaipu que temos aí, concordo que seria uma catástrofe. Mas haveria como remediar os danos, mesmo que levasse muito tempo.

Porém, se o terremoto de 9 graus ocorresse numa Itaipu nuclear, bem, aí talvez o lobby viesse com um outro desses argumentos de peso. Talvez o dos trens da região de Fukushima.
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POR José Pires

quarta-feira, 16 de março de 2011

Edison Lobão: curriculum vitae

Para não ser injusto com o ministro de Minas e Energia, o sarneysista de carteirinha Edison Lobão, desencavei um texto deste blog publicado em janeiro de 2008, quando ele foi nomeado ministro por Lula. O texto revela outra habilidade sua, além da incrível façanha de virar um bamba em energia só com a leitura de jornais. É sobre o currículo dele. Vejam abaixo. É gente assim que decide um futuro para os nossos filhos com lixo atômico e muito risco de vida.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
O agente Lobão

Em vários resumos biográficos sobre Edison Lobão, senador e futuro ministro de Lula, está dito que ele é jornalista, o que surpreende muita gente, inclusive a mim, pois pouco ou nada se sabe de sua carreira na imprensa. É certo que tampouco se sabe de algo útil que ele tenha feito nessas décadas em que atua como político,mas de sua atividade jornalística sabe-se menos ainda.

Pois o excelente Janio de Freitas traz um oportuno esclarecimento sobre este sombrio tópico biográfico, apenas transparecido em seu currículo. Pois foi nas sombras mesmo, servindo à ditadura militar, que Lobão fez “jornalismo”, em atividade que certamente deve ter sido muito importante como um impulso inicial na sua carreira política.

Leiam o que Janio de Freitas escreve em sua coluna de hoje, uma ótima contribuição para a memória brasileira, sempre tão embaralhada e ainda mais nestes tempos:

“Parece esquecida, nos perfis de Lobão publicados nos últimos dias, a sua carreira jornalística. É verdade que, em termos propriamente jornalísticos, não foi menos destalentoso do que em sua carreira na Câmara e no Senado, onde o máximo que demonstrou foi a persistência de permanecer, já por umas duas décadas, entre os mais inúteis. Na imprensa, porém, útil Edison Lobão foi. Como "repórter e cronista político" do 'Diário de Brasília', prestou serviços diários aos chefões da ditadura. Seus textos eram como recados saídos do Planalto, de serviços militares ou de informações, e armações de políticos governistas contra opositores. Seu ar soturno caia-lhe muito bem. E assim também quando deu continuidade em lugar mais apropriado -o partido da ditadura, a Arena- ao papel que escolhera na vida. Sem imaginar a retribuição que a democracia de Lula e do PMDB lhe ofertaria.”

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POR José Pires

Problema em Fukushima piora: o governo brasileiro entram no debate

Em razão da enorme diferença entre o horário no Japão e o nosso, acordamos no Brasil com a notícia de que o dia foi muito ruim para os japoneses. O trabalho para esfriar a central ainda é intenso, mas ainda sem resultados comprovados. Dois reatores estão com estruturas avariadas e podem estar emitindo radiação. 200 mil pessoas foram evacuadas da região e num perímetro de 30 quilômetros em torno central não se pode sair de casa. A situação é mais difícil se lembramos que houve um terremoto e um tsunami naquela área. A dimensão de uma catástrofe nuclear faz naturalmente que as pessoas esqueçam disso.

A situação é péssima no Japão e já começa a ter efeitos desagradáveis no Brasil, porque à exemplo de qualquer questão internacional, começa a afetar a língua das nossas autoridades. “Autoridade” neste caso evidentemente refere-se só ao cargo ocupado.

Ontem o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, comentou o drama japonês e o ministro Edison Lobão arriscou a palavra na área de sua pasta, a da energia nuclear. Isso mesmo, adentrando o terceiro milênio e num mundo com muitas dificuldades à frente, o PT deu a condução da pasta de energia ao grupo do senador José Sarney. Será isso aquela famosa e revolucionária forma petista de governar de que eles falavam quando eram oposição?

Lobão garantiu que o que acontece em Fukushima não vai mudar nada no programa nuclear brasileiro. As usinas nucleares de Angra ficaram paradas durante 24 anos e voltaram a funcionar com o governo do PT. No ministério que cuida do assunto eles colocaram o Lobão, uma indicação do senador José Sarney.

Então, para um dos ministros da Dilma o Brasil vai se dar bem com a tragédia no Japão e para outro nos temos muito mais competência para lidar com usinas atômicas do que os japoneses ou qualquer outro povo.

Não sei de onde o ministro Lobão tirou tanta certeza, mas não pode ser do histórico em prevenção dos brasileiros. Mas quem sabe ele não tem uma carta na manga, um ás talvez? Gente como o Lobão tem sempre dessas coisas.

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POR José Pires

O Brasil leva vantagem, cerrrto?

Ninguém sabe qual é a especialidade do ministro Lobão, porque isso é difícil de aferir no governo do PT, que não é composto com esse tipo de método. O negócio ali é por meio de cotas: tem a cota do próprio PT, a cota do Sarney, até a do Chico (fala fino-fala grosso) Buarque, e por aí vai. Lobão é da cota do Sarney.

Mas a qualidade da visão analítica do governo Dilma Roussef acabou sendo muito bem exposta por esse neófito em qualquer assunto, mas que comanda a pasta da energia, e também nas palavras do outro importante comandante, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que disse que “o Brasil vai acabar ganhando” com a tragédia nuclear no Japão.

Tirando a indelicadeza, ou melhor, a grossura diplomática, como é que num ministério diretamente ligado à economia pode estar alguém que acha que um baque do tamanho que o Japão deve sofrer pode ser bom para qualquer país? É uma visão estúpida falar em levar vantagem com um desastre natural de tal dimensão e ainda em conjunto com um grave acidente nuclear. Nem que fossemos um país de piratas. Com o mundo de tal forma integrado, não existe como ignorar as consequências pesadas que virão dos acontecimentos no Japão.

Seria dessa forma, mesmo que o mundo vivesse uma situação de normalidade, afinal, o Japão é uma das grande potências ocidentais. Porém, o que torna a opinião de Lupi ainda mais idiota é que estamos numa crise econômica séria, tão grave que atinge até os Estados Unidos.

O ministro Lupi transmitiu a posição econômica do governo Dilma sobre o desastre no Japão e o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, avançou no terreno da discussão nuclear para defender o programa nuclear, ou atômico, do governo Dilma.

Lobão disse que as Usinas de Angra dos Reis foram feitas com "a melhor tecnologia existente". Segundo ele o projeto tem estudos cobre o comportamento das marés por um período de mil anos. É uma informação impressionante. Como existe hoje uma dificuldade em saber o que vai ocorrer na natureza nos próximos dez anos, seria interessante saber como é essa projeção com um prazo tão longo. Esse estudo tinha que ser levado para a ONU.

O ministro aproveitou para chamar o governo japonês de incompetente e louvar a manha brasileira em usinas nucleares. “As dificuldades que as usinas de lá tiveram as nossas não terão. As nossas têm uma proteção maior. Nós não temos razão nenhuma para preocupação maior. Vamos prosseguir com o nosso programa”, ele disse.

Isso só não é de impressionar porque vem dos companheiros colocado pelo PT no poder. É bastante besteira, mas ainda assim é um alívio que o Lula esteja de cueca em casa tomando cana (eu acho que ele deveria estar tomando cana em outro lugar, mas aí é outra história) e não deitando falação como presidente da República. Era capaz de ele dizer que “há males que vem para bem”, como falou quando dezenas de técnicos e cientistas foram mortos na explosão no Centro de Lançamento de Alcântara, em 2003. Não seria difícil ele mandar ao governo japonês uma mensagem nesse tom.
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POR José Pires

O ministro neófito em energia virou especialista até em usina atômica

Mas, de qualquer forma, o que impressiona nessa extraordinária segurança em meio à polêmica mundial trazida pelo acidente em Fukushima, é a capacidade de aprendizado do ministro Lobão. Em cerca de três anos ele passou de Lobão para Professor Pardal. Quando foi nomeado por Lula para o ministério de Minas e Energia, em 2008, esse poço de auto-suficiência disse aos jornalistas que se espantavam com sua falta de currículo na área que ele estava se informando dos assuntos da pasta pelos jornais.

Como isso até parece piada de tão absurdo que é, transcrevo o que ele disse na época: "Estou lendo alguma coisa que chega às minhas mãos. A imprensa, por exemplo, está escrevendo muita coisa técnica. Todos os dias saem até informações boas. Estou me informando sobre energia elétrica, sobre hidrelétrica, sobre gás, sobre petróleo."

De lá para cá, nesse pouco mais de três anos, ele parece ter reunido um imenso cabedal de conhecimento da área, avançando até na especialização em usinas atômicas. Eu só não sugiro mandar essa sumidade para Fukushima para esfriar os reatores e, de quebra, também a cabeça dos japoneses, porque não podemos dispor de um especialista tão seguro sobre questões tão complicadas.

Quer dizer, para o Lobão não há nenhuma razão para se incomodar com um acidente preocupante para o mundo todo e que perturba especialistas em energia nuclear de tal forma que fez o comissário europeu de Energia falar até em “apocalipse”.

O acidente no Japão fez também a Suiça e a Alemanha anunciarem a revisão de seus programas nucleares e é óbvio que todos os governos estão esperando apenas o desfecho dos acontecimentos em Fukushima para discutir com mais profundidade a necessidade de revisão que isso trará inevitavelmente para qualquer programa nuclear.

Mas tudo isso é fichinha para o ministro Lobão, que até há pouco tempo se informava sobre energia pelos jornais. Haja paciência, mas, no final, temos à nossa frente uma antiga cena: a dúvida só pode freqüentar a cabeça do sábio. Todo idiota tem a cabeça repleta de certezas. Mas se a autoridade nas mãos de um ignorante já é preocupante em qualquer situação, essa perturbação tende a aumentar na razão do peso que suas decisões pode ter em nossas vidas.
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POR José Pires

A teoria petista do melhor dos mundos

Mas, infelizmente, nesse governo o comportamento tolo de investir sem nenhuma profundidade sobre qualquer questão não é uma atitude exclusiva do ministro Lobão. Essa é a pior herança do PT e que teve em Lula um misto de teórico e porta-voz: é a cultura de não medir riscos e subestimar situações perigosas ou o próprio adversário.

Podemos chamar isso de “Teoria da Marolinha”, que se aplica inclusive no enfrentamento de tsunamis e, vê-se agora, serve até para assuntos atômicos. Eles contemplam a realidade com uma confiança cuja única base de sustentação é o otimismo de um marqueteiro bem pago. O problema é que isso contagia de forma muito mais fácil que a exigência de enfrentar os problemas com trabalho duro. Aquela história de ter para oferecer apenas “sangue, suor e lágrimas”, nem pensar.

E quem tem o bom senso de apontar as inconveniências dessa auto-suficiência de fachada que faz parecer que vivemos no melhor lugar do mundo e acaba criando sérias dificuldades para exigir do brasileiro qualquer esforço coletivo, bem, quem aponta os problemas que estão na nossa frente é tachado de "tucano" ou pouco patriota.

Esta visão demagógica e trabalhada pela propaganda como se fosse de um otimismo realizador acaba levando a isso. Afinal, se o Brasil pode se dar bem em todas as situações, porque não à frente de um reator nuclear explodindo? Isso é uma quirera, ainda que nuclear, não é mesmo, merrrmão.

Somos o país do pré-sal e só podemos nos dar bem. Mesmo que as previsões preocupantes de estudiosos e cientistas estejam certas e que tenhamos daqui a vinte ou trinta anos um planeta com escassez de energia e metido em problemas graves ambientais, inclusive com a falta de água potável e até de recursos hídricos para a agricultura, nosso país estará no melhor dos mundos.

Passaremos o final dos tempos vendendo petróleo (com pouco sal, muito sal, tem tudo no cardápio) para o mundo inteiro. É provável até que os países mais poderosos mandem o pagamento em dinheiro a bordo de seus encouraçados, submarinos, aviões de combate e porta-aviões. Pena que até lá é provável que o ministro Lobão não esteja vivo para receber a bufunfa pessoalmente em nossos portos.
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POR José Pires

terça-feira, 15 de março de 2011

Acidente em Fukushima foi próximo dos 25 anos de Chernobyl

A situação em Fukushima está cada vez pior. O acidente está próximo de uma tragédia nuclear que pode abalar o Japão e mudar de vez a opinião mundial sobre o uso da energia atômica. Agora à tarde o comissário europeu de Energia, Günther Oettinger, definiu com palavras muito fortes o que está ocorrendo na central nuclear. "Se foi falado em apocalipse, na minha opinião é uma palavra muito bem escolhida".

Ele não exclui "o pior para as próximas horas ou dias". Outras avaliações sobre o acidente também levam a pensar o pior sobre o que está acontecendo de fato em Fukushima. Até o momento as autoridades japonesas estabelecem o nível 4 para o acidente, mas a Autoridade de Segurança Nuclear francesa afirma que o acidente está em no nível 6. A Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES, pela sigla em inglês) vai até 7, um nível que foi alcançado no pior acidente nuclear do mundo, o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

Por coincidência o acidente de Chernobyl faz aniversário de 25 anos dentro de poucos dias — foi no dia 26 de abril. O desastre na antiga União Soviética espalhou radioatividade por centenas de quilômetros, alcançando a Europa e a Escandinávia. Várias regiões em torno do epicentro do acidente nuclear estão inabitadas até hoje. Foi determinada uma zona de exclusão de 30 quilômetros ao redor do que era antes a cidade de Chernobyl. A antiga União Soviética legou à região uma imensa zona de lixo atômico onde depois de mais de duas décadas ainda é impossível viver.

O Japão não parece estar fora do risco de viver uma tragédia parecida com a de Chernobyl. E, para piorar, o território japonês é tão pequeno que ficaria bem difícil de arrumar espaço para uma zona de exclusão do tamanho que a contaminação pode exigir. Se acontecer o "apocalipse" temido pelo comissário europeu de Energia, Günther Oettinger, praticamente acabou o Japão. A recuperação será difícil.

Já se noticia que a radiação foi detectada em Tóquio. Com uma olhada no mapa do Japão dá para perceber a dimensão da imprevidência dos japoneses. Fukushima fica à apenas 250 quilômetros da capital japonesa, quase a metade da distância entre Rio e São Paulo. Se a radiação atingir Tóquio de forma grave, para onde vão deslocar 13 milhões de pessoas? Pois é, construiram usinas atômicas num país onde não tem para onde correr.
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POR José Pires

No Japão até as boas notícias dão medo

A dimensão do acidente nuclear em Fukushima, no Japão, revela-se cada vez maior. É o gato japonês já no telhado. Já se teme um desastre nuclear. Neste tipo de problema a gente pode avaliar o perigo pelas boas notícias. O Japão informou à ONU que os níveis de radioatividade na porta da central nuclear estão baixando. É claro que esta é a boa notícia. Mas o problema é que os níveis estão muito acima do normal. E não é uma boa notícia para o náufrago avisar que ele vai se afogar, mas não é com tanta água. E com acidente nuclear é assim. Até boa notícia faz todo mundo ter vontade de sair correndo.

Ontem, como informei aqui, o presidente da agência de segurança nuclear da França, André-Claude Lacoste, havia situado em gravidade o desastre japonês além de Three Miles Island. A agência francesa posicionou o acidente no nível 4 (acidente com consequências de alcance local). Hoje a agência elevou o acidente ao nível 6 (influências externas longas). E a escala vai até 7 (catástrofe local com consequências globais).

Também nesta terça-feira, o primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan, em discurso televisionado deu a notícia de que a radiação se espalhou por quatro dos seis reatores da usina Fukushima. Até ontem 200 mil pessoas haviam sido retiradas da região. Yukio Edano, secretário do gabinete do primeiro-ministro, também admitiu que a radiação atingiu um nível que pode prejudicar a saúde. O governo japonês também ordenou que 140 mil pessoas evitem contato com o ar contaminado de material radioativo.

A agência de notícias Kyodo informou que já foram detectadas pequenas quantidades de radiação em Tókio. A embaixada da França no Japão recomendou a seus compatriotas que vivem na capital japonesa que evitem sair às ruas.

A França expressa claramente que considera o acidente em Fukushima pior do que dizem as autoridades japonesas. E como sabemos como se estabelece as relações entre nações poderosas, dá para suspeitar que os franceses mantêm em protocolar segredo tudo o que sabem, mas não podem conter-se de todo para não serem acusados futuramente por alguma conivência. Esta é uma visão pessoal, é claro. E espero sinceramente estar errado.

Outro sintoma de que o problema é bem maior do que as autoridades japonesas tentam fazer parecer é a opinião dos lobbies de defesa do uso da energia nuclear. Apesar de se manterem na defesa do uso dessa perigosa energia, nem eles se arriscam a expor otimismo com o que acontece no Japão.

Maria Teresa Domínguez, presidente do Foro Nuclear, um organismo que exerce lobby para as seis usinas nucelares da Espanha, mostra preocupação. Para ela, “o uso de água do mar demonstra o desespero da situação”.

A bem da verdade, a cena de dezenas de japoneses jogando desesperadamente água do mar para desaquecer o reator nuclear desmistifica de forma patética todo o conjunto de sofisticação tecnológica e responsabilidade criado em torno deste assunto. O lobby nuclear age desse modo para evitar que as pessoas vejam a questão dentro do contexto humano, onde o acaso e a falha fazem morada permanente.

Em um terremoto, num tsunami, um incêndio florestal, nos mais variados problemas que afetam nossa vida erro pode ser contornado ou até sanado. Em casos assim, pode-se até consumir muitos anos para que os danos sejam minimizados, mas com o tempo é possível consertar a vida. Com a energia atômica não dá para errar.

Daí o esforço do lobby nuclear para tirar o tema do meio das demais considerações técnicas que envolvem todas as atividades humanas. No entanto, os japoneses desesperados jogando água em um reator nuclear tiram o debate do nível de propaganda desejado pelo lobby para que o problema seja encarado no nível humano.

Concorre também para abalar o mito de que é possível o controle da energia atômica o fato do acidente nuclear ter acontecido no Japão, um país que além do altíssimo poder econômico e tecnológico também conta com a fama de ter um povo extremamente disciplinado e de altíssima responsabilidade.

Porém, também neste caso a realidade impõe-se a verdade inamovível de que, no final, estamos todos presos à escala do humano, com o potencial de falhas e deslizes de que todos somos capazes.

Uma notícia que, para mim, contribui mais um pouco para humanizar nossos irmãos amarelos surgiu há pouco. O primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, ficou bastante bravo com a Tokyo Electric Power Co. (Tepco), empresa que administra a central nuclear. Ele demorou muito para ser informado da última explosão de Fukushima I, a terceira explosão desde o início do acidente.

Segundo a agência Kyodo, o primeiro-ministro perguntou aos responsáveis pela central nuclear o seguinte: “Que diabos está se passando? A televisão informou sobre uma explosão, mas durante uma hora nada foi informado ao gabinete”.
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POR José Pires

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tem gato japonês nesse telhado

O comportamento do governo japonês neste acidente nuclear em Fukushima está parecendo desde o início com aquela história do gato que subiu no telhado. A piada é com os portugueses, mas parece que está acontecendo agora com os japoneses e num assunto muito sério.

As autoridades japonesas não tem um histórico confiável de transparência em relação aos problemas com seu programa nuclear. Não foram honestos sobre incidentes no passado. Logo que ocorreu o acidente, o site da BBC lembrava essa falta de transparência para pontuar que dificilmente as pessoas se convenceriam com as explicações que vinham sendo dadas e que minimizavam as consequências do acidente.

Logo que aconteceu o terremoto e o tsunami, com as explosões na central nuclear, as autoridades japonesas davam a impressão de que estava tudo sob controle. Porém, os fatos vão revelando gradativamente que sempre houve mais perigo na central nuclear do que os japoneses queriam admitir. É como na história do gato.

Agora há pouco o jornal espanhol El País noticiou que o presidente da agência de segurança nuclear da França, André-Claude Lacoste, afrmou que o acidente pode ser caracterizado como mais grave que o de Three Miles Island. As palavras dele: "Mais além de Three Miles Island, sem chegar a Chernobyl".

Esta aproximação com Chernobyl, usina da Ucrânia onde aconteceu o pior acidente nuclear do mundo, deixa a gente preso à história do gato. Fica bem claro que ele já está no telhado, porque ficar mais próximo de Chernobyl não é nada bom.

Desde a primeira explosão na central nuclear as autoridades japonesas garantem que o acidente foi de nível 4 (acidente com consequências de alcance local). Agora a agência nuclear francesa crê que o acidente alcançou o nível 5 (acidente com consequências de maior alcance).

O problema em Fukushima era de menor gravidade que os acidentes nucleares de Three Miles Island e Chernobyl. A França já diz que o acidente já está além do de Three Miles Island. Não será supresa para mim se esse gato cair do telhado.
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POR José Pires


Países bem mais ricos que o Brasil, como Suiça e Alemanha, já revisam sua política nuclear. E nós, quando vamos fechar as usinas de Angra?

O governo petista e seus ministérios da piada pronta

Para que criar piada se o governo petista já entrega pronta? Esta semana temos a do Ministério da Pesca, um ministério que já é a própria piada, mas que trouxe algo ainda mais engraçado que sua própria existência.

O Ministério da Pesca serve basicamente para dar uma boca no governo a quem não sabe pescar, em todos os sentidos. Nele está Ideli Salvatti que, sabendo que não se reelegeria senadora, optou pela derrota para o governo de Santa Catarina. Ficaria mais feio para ela não se reeleger para o Senado.

É o mesmo que fez o Aloizio Mercadante. Como não se reelegeria senador por São Paulo forma alguma, optou pela derrota mais, digamos assim, honrosa, para governador. Uma candidatura que também serviu para ele fazer um servicinho que rendesse um cargo no governo de Dilma Rousseff, onde foi para o ministério... ah, um desses tantos.

Para acomodar tanta gente que não pesca votos, tem que ter muita boca. O governo petista tem 37 ministérios. Não foi herança dos tucanos. FHC entregou o governo com 26 pastas. Lula entregou o governo para Dilma Roussef com 37 ministérios e ela ainda tem planos de fazer mais dois.

Numa matéria sobre a elevação de gastos com os novos ministérios inventados por Lula (só em aluguéis o gasto é de R$ 100 milhões por ano) o Estadão de hoje cita a situação do Ministério da Pesca. O ministério da Ideli Salvatti foi instalado num prédio de 14 andares alugado por R$ 7 milhões ao ano, onde ficam 374 servidores. A própria ministra não fica por lá. Ela e 67 assessores dão expediente na Esplanada

O Estadão destaca o caso do Ministério da Pesca como um exemplo do descompasso entre altos gastos e irrelevância política e econômica das pastas. O jornal informa que nos oito anos dos dois mandatos de Lula, os recursos da Pesca aumentaram mais de 70 vezes, de R$ 11 milhões para R$ 803 milhões. Já a produção nacional de pescado continuou em 990 mil toneladas.

Este é só um caso. O Estadão cita outros e a matéria cuida somente da situação dos novos ministérios que passaram a ser chamados de “Esplanada oculta”. Se for estudar seriamente todos os ministérios do governo petista, duvido que sobre algum numa análise de custo e benefício. E é claro que estou falando do custo para nós e do benefício para o Brasil, porque para os petistas é ótimo do jeito que está. Para eles, o benefício é sem nenhum custo.
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POR José Pires

Para que energia atômica? Vamos ficar só com os problemas que já temos

Não é preciso acontecer no Brasil nada parecido com a tragédia que abalou o Japão para que tenhamos a experiência de ver o atrapalho das nossas autoridades em qualquer situação de emergência. As explosões na central nuclear de Fukushima já está fazendo países ricos como a Suuição e Alemanha repensarem sua política nuclear. E nós, com as centrais de Angra e o histórico brasileiro de incapacidade de lidar com os problema que já temos? Bem, como já disse aqui, e nossas autoridades já são incompetentes no ordinário, que dirá no extraordinário...

Nem precisamos de problemas com usinas atômicas para saber o que é uma tragédia. Mas temos usinas atômicas também. Seria melhor tentarmos para os problemas que já são nossos e pensar seriamente em evitar novas complicações muito mais difíceis de resolver.

Basta uma chuva para o mundo cair por aqui. Agora mesmo, no Paraná, a cidade de Morretes está totalmente alagada, com oito mil pessoas expulsas de sua casa pela fúria da natureza. É mais da metade da população, hoje de 15 mil habitantes. É a natureza, mas com uma fúria que contou com a ajuda de políticos, de empreiteiros e do descaso com a prevenção. E Morretes fica praticamente ao lado da capital paranaense, que foi até alguns anos atrás um símbolo brasileiro de qualidade de vida.

Numa matéria do site G1 saiu uma interessante explicação do Capitão da Defesa Civil do Paraná sobre o que representa o estado de calamidade pública decretado em Morretes: “impossibilidade de o município reorganizar e administrar sozinho as estruturas” da cidade atingida por algum desastre. “É como um pedido de ajuda ao Estado”.

É claro que o Estado deveria ajudar antes, ou melhor, cumprir com suas obrigações para evitar o desastre, não é mesmo? Mas quem está a salvo hoje com os administradores públicos que temos? Até recentemente, o pessoal mais privilegiado, que observa as ruas de dentro de carros refrigerados e com vidro fumê, pensava que o drama não era com eles. Mas a tragédia recente no Rio não selecionou apenas os pobres que moram sempre mal. Condomínios e casas de alto luxo foram atingidos. Famílias muito ricas sofreram perdas terríveis.

Parece um recado dos céus, um grito até, avisando que somos todos iguais. Mas quem ouve uma coisa dessas no Brasil? Deveriamos ver também que não existe capacidade de se isolar dos problemas que afetam o bem comum. A tragédia no Rio ou em Morretes, ou qualquer outro lugar, pode ter sua causa fora das imediações. Um rio que avança sobre casas pode ter tido seu curso deformado muito longe. Em muitos casos o problema começa às margens do Lago Paranoá, em Brasília.

As cidades brasileiras podem até aparentar uma situação de anormalidade, se ficarmos apenas com a visão superficial das aparências, dos melhores lugares dos municípios, que pode ser até o nosso bairro. Que bacana a Avenida Paulista, em São Paulo, ou mesmo a Faria Lima, quanto poder e elegância, não é mesmo, ô meu? Porém, numa chuva dessas, numa passada em um bairro da periferia é que dá para ver a situação real das cidades brasileiras. Basta um chuvisco para a vida virar um inferno, a começar do transporte público.

As enchentes e deslizamentos ocorridos no Rio de Janeiro em fevereiro mostraram bem o que pode se esperar de governos do município, do estado ou do federal. A presidente Dilma Rousseff passou pela região atingida, onde morreram mais de mil pessoas, sem falar nos feridos, e depois foi de helicóptero para a capital posar sorrindo ao lado do governador segurando uma camisa do Fluminense.

É um símbolo da atuação casada dos nossos políticos. Mas como é que estão as pessoas atingidas hoje? Duvido que esteja havendo algum atendimento sério às suas dificuldades e duvido mais ainda que estejam sendo colocadas em prática para evitar adiante o mesmo problema. E nunca vamos saber como estão as coisas por lá, pelo menos até que outro desastre aconteça. Nossa imprensa também atua de forma circunstancial.

Mas os problemas vão pipocando, daqui pra lá, mudando apenas de lugar no conjunto desse grande drama das cidades brasileiras.
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POR José Pires

sábado, 12 de março de 2011

Energia atômica: um risco ainda mais claro com os acontecimentos no Japão

O Japão vive o pior acidente nuclear desde Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, e Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979. O acidente provocado pelo terremoto em Fukushima foi classificado como de nível 4 na Escala Internacional de Sucessos Nucleares.

E, como sempre, com a má-notícia surgem informações que poucos sabiam. As usinas japonesas foram construídas com segurança, mas para um terremoto de 7,5 graus. E o terremoto foi de magnitude 8,9.

O governo japonês procura acalmar a população, enquanto toma medidas para evitar uma tragédia nuclear. 45 mil pessoas estão sendo evacuadas de um perímetro de 20 quilômetros em torno da central nuclear Fukushima I e de 10 quilômetros de Fukushima Daini, também com problemas. O governo também começa a distribuir iodo, elemento para prevenir o câncer de tireóides.

Um porta-voz da Organização Mundial da Saúde disse que o risco do escapamento de radiação para a saúde é baixo, mas a afirmação foi feita a partir de dados passados pelas autoridades japonesas. E muitas pessoas evacuadas tiveram que passar por controles de radiação antes de abandonar a área.

O acidente em Fukushima não nos atinge diretamente, mas os efeitos do que acontece no Japão sobre o uso da energia nuclear fatalmente serão sentidos em todo o planeta e até para nós aqui. Afinal temos aqui as usinas nucleares de Angra.

O acidente traz ao debate sobre os riscos da energia nuclear o efeito de eventos imponderáveis, como foi o terremoto que provocou os danos na central nuclear. O terremoto de ontem foi o maior em 150 anos, de uma magnitude que foi impossível prever.

Aparentemente, o governo japonês está no controle da situação. É claro que para isso deve ajudar muito a famosa disciplina dos japoneses. A capacidade de reação dos japoneses é ainda mais admirável quando se vê as imagens do terremoto e do tsunami, com os terríveis estragos causados. 50 mil militares controlam a situação em torno das centrais nucleares e a evacuação e atendimento às vítimas se faz sem a confusão que costuma ocorrer em situações parecidas.

Algo parecido acontecendo em países como o Brasil seria para nós como o fim do mundo. Mas a dificuldade para lidar com catástrofes de tal magnitude não é só dos povos de países com menor desenvolvimento, como é o nosso caso. Pois até no país mais rico do mundo teve aquela confusão durante o governo Bush, em 2005, na enchente em Nova Orleans.

Mas é evidente que para nós as dificuldades seriam bem maiores. Já nos complicamos com que nem de longe podem ser comparados ao que ocorre agora no Japão. Qualquer chuva um pouco mais forte serve para demonstrar que nossas autoridades públicas são incapazes para enfrentar situações de emergência, o que não é nenhuma surpresa já que prefeitos, governadores e autoridades federais são ruins até no que é ordinário.

Durante os deslizamentos e enchentes ocorridos há cerca de dois meses no Rio de Janeiro deu para ver o desgoverno que temos no país, em todos os planos. Mais de mil pessoas morreram e até agora os problemas persistem na região, sem nenhuma indicação de que haverá uma melhor condução política e administrativa para evitar problemas semelhantes no futuro.

Dessa forma, dá até medo de pensar em algum evento climático ou geológico que possa afetar as usinas de Angra, situadas próximas a cidades com quase 200 mil habitantes, como é o caso de Angra dos Reis e à cerca de 160 km da capital do estado.

Sempre terá alguém para dizer que vivemos em uma terra livre de eventos terríveis, como os terremotos. Mas temos também que ver que mesmo no Japão não houve jeito deles se prevenirem para um terremoto de tal dimensão. E os japoneses convivem há séculos com terremotos.

E é preciso compreender também que o ambiente do planeta vem mudando bastante nos últimos anos, na maioria dos casos para pior, e que nenhuma região deixará de ser afetada.

Em razão da ação humana, hoje o planeta sofre transformações que tornam impossível prever em absoluto como serão afetados os mais variados empreendimentos humanos. Mas entre as atividades de risco do ser humano, a mais perigosa sem dúvida é a energia atômica.

Sei que o ser humano tem uma dificuldade danada em usar a experiência, mesmo aquelas com grandes tragédias, para dar continuidade a vida com menores riscos. Esse não é um problema só do brasileiro. Mas como seria bom se o que aconteceu de ruim no Japão servisse de lição para que o mundo abandonasse o uso da energia atômica.
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POR José Pires

Navegando pelo terremoto do Japão e de olho na internet

Se você busca imagens que revelem como ficou o Japão depois da catástrofe, não ficará satisfeito na internet brasileira. Em outros assuntos também é assim, mas num caso desses a ineficiência pesa mais. Nossos sites costumam trabalhar pouco com fotografia. E penso até que, quando são forçados a publicar mais imagens, este recurso não é aproveitado de forma eficiente.

E isso com a maioria desses sites sendo tocados por empresas com origem no jornalismo impresso. Ou talvez seja por isso mesmo. Os jornais brasileiros colocam na internet a culpa por seus dissabores econômicos, mas a verdade é que a decadência vem de antes da existência dessa nova tecnologia.

Vem de longe a queda em número de leitores, mas principalmente de qualidade e prestígio. E nisso influíram muito os interesses internos das empresas, que esqueceram ou até desprezaram o essencial investimento em recursos humanos para fazer bons jornais, revistas e, como ocorre agora, os sites. Para fazer qualquer coisa boa é preciso ousadia e criatividade, mas hoje se permite liberdade profissional nas redações brasileiras? Não parece.

Como eu disse, já era assim nas redações dos jornais impressos. E isso passou para a internet. Daí o panorama atual da internet brasileira, na qual falta profundidade, e onde raramente surge uma boa surpresa editorial. Raramente? Eu tenho a impressão de que nunca tem. Há quanto tempo você não se depara com algo realmente bom na internet brasileira?

Cuidado. Internet virou rotina. E, pior ainda, uma rotina de superficialidade, de coisas que parecem ter sido feitas na correria. Quando a revista Caras surgiu no Brasil, ela era uma publicação ridicularizada nas redações. Hoje, o estilo se impôs. A fofoca e a superficialidade dão o tom e o banal é apresentado como se fosse especial. O defeito virou prática.

Então, quando acontece algo como o terremoto do Japão, ai do internauta brasileiro se ele quiser ver fotos de qualidade feitas no local. E acontecimentos desse tipo exigem boas fotografias, um recurso de tal forma revelador que pode até liberar as redações para seguir caminhos editoriais mais criativos. Ah, mas tem que contratar fotógrafo, é isso? E teria de ser bons fotógrafos e não qualquer boboca com equipamento digital na mão atuando como paparazzo? É, parece complicado.


Com o papiro de volta
Mas voltando à superficialidade disseminada na internet brasileira, aqui temos também um problema de técnica editorial, uma concepção equivocada de que as pessoas querem ver algo parecido com televisão na tela do computador. Bem, posso até estar em minoria nessa discussão, mas para mim a internet tem mais a ver com a página impressa do que com imagens animadas.

E os tais dos "infográficos"? Esta é uma boa intenção que deveria estar no inferno. Teve uma vez que corri para um site para ver a lista dos réus do mensalão. Ora, é bem fácil. É só colocar um patife atrás do outro que o internauta pode ir descendo a página e se informando. Mas não fizeram isso. Bati a cara num infográfico onde deveria clicar em um réu de cada vez. E como os pilantras são quarenta... Nossos sites confundem ler com LER.

Costumo dizer até que a técnica de visualização da internet é pré-Gutenberg, porque o que temos à nossa frente é um papiro que vai se desenrolando. E não há nenhum mal nisso. Eu acho até bom. E é muito mais prático que ficar esperando fotos pequenininhas acenderem na tela. Ou clicar em quarenta vezes em meliantes disfarçados de políticos.

Os sites brasileiros um dia chegam lá. Mas é preciso antes reaprender com as técnicas do jornalismo impresso, todas prontas para botar na internet. O papiro é de um pouco antes.

Na apresentação de imagens, vários sites brasileiros optam pela apresentação de slides, com fotos pequeninas que muitas vezes exigem que o leitor clique uma por uma. Ora, temos aí algo que já era chato muito antes da internet, porque encher a paciência das pessoas com slides já é coisa antiga.

Mas, para não dizerem que só critico essa brava gente brasileira, temos aqui no Brasil o site do Estadão como uma boa exceção. Para imagens usam o velho papiro. Já a equipe novidadeira da Folha de S. Paulo vai de slide. Praticamente todos os sites brasileiros seguem esta forma.

Mas vamos ver imagens boas dos acontecimentos no Japão. Selecionei dois lugares estrangeiros muito bons para isso. O Denverpost, onde você entra por aqui. E o The Atlantic, para se vai por aqui. A imagem acima é de lá. Ah, e tem também o brasileiro Estadão, que é por aqui. Você vai desenrolando o papiro e se informando.

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POR José Pires

sexta-feira, 11 de março de 2011

A ética fora da normalidade

O Brasil é um país de espantar. Mas cada vez me espanto mais é com o espanto dos outros. Não deixa de ser correto se indignar com fatos como a recente nomeação do ex-deputado Genoníno Neto para assessor do ministro da Defesa, Nelson Jobim. Mas na situação em que chegou o Brasil, convém ter um certo cuidado para não causar estranhamento.

Não é em qualquer país que um réu em processo no Supremo Tribunal Federal, acusado em um caso grave como o do mensalão petista, acaba ficando na sala ao lado do ministro de uma pasta de tanta importância. É preciso que uma nação tenha descido bastante na escala ética para acontecer algo assim.

Porém, uma decisão como esta tem que ser vista também dentro do contexto de um país que tem José Sarney na presidência do Senado, o PT presidindo a Câmara, e também com a presença de ilustres mensaleiros como o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) na presidência da Comissão de Constituição de Justiça.

Genoíno no ministério da Defesa é também o desenvolvimento lógico da presença na comissão da reforma política de Paulo Maluf (PP-SP), que nem pode viajar para fora do país porque é procurado pela Interpol, Valdemar da Costa Neto (PR-SP), também réu no mensalão, e Eduardo Azeredo (PSDB-MG), o criador do mensalão mineiro.

É preciso ter cuidado. Num quadro desses, qualquer indignação ética pode muito bem ser vista como uma manifestação de grave anormalidade.
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POR José Pires

A cabeça-de-ponte dos EUA

Hoje foi divulgada um ranking com as melhores universidades em reputação no mundo. O trabalho é da organização Times Higher Education. A pesquisa é muito séria. O resultado saiu de consulta somente para convidados, com mais de 13 mil professores de 131 países do mundo.

O Brasil não tem nenhuma instituição entre as primeiras. A Universidade de São Paulo, a USP, sempre ela, é que está na melhor colocação: 232ª. É a única universidade da América do Sul na lista.

O ranking pode ser visto aqui, no site da Times Higher Education, e dele dá para extrair uma informação muito interessante e demolidora do mito esquerdista que afirma que os americanos têm muito poder só porque possuem os melhores canhões.

Os Estados Unidos estão com sete universidades entre os dez primeiros colocados e 45 delas na lista de 100 melhores.

  • No título, não resisti ao jogo de palavras com a linguagem militar. Cabeça-de-ponte é a posição ocupada por uma tropa de vanguarda para assegurar o espaço para o prosseguimento da operação de conquista.
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POR José Pires

quinta-feira, 10 de março de 2011

Um governo de distraídos

Aquela famosa lista do Tim Maia cada vez aumenta mais. Está certo. Como bem dizia o cantor, no Brasil é assim: aqui prostituta se apaixona, traficante se vicia e cafetão se apaixona... e ministro de Comunicação Social não tem controle nem sobre o que escreve em seu Twitter pessoal.

É a história de Helena Chagas, que substituiu Franklin Martins no ministério da propaganda do governo petista. No domingo passado ela repassou (ou retuitou, como dizem) no Twitter uma mensagem atacando Lula, o chefão de sempre. A mensagem:

"Ganhar menos que esta raça devoradora, políticos, como Sarney, Mubarak, Kadaf, Bush, Lula, Dirceu, Genoino, me envergonham, que nojo. Xau”."

Segundo a própria ministra afirma, ela demorou quatro dias para se dar conta que havia avalizado um ataque a toda a base do governo a que serve, inclusive ao amigo e irmão de Lula, o ditador Kadhafi. É uma distraída. E que gafe, não? É pior que xingar a imã do Chico Buarque.

Não tem outro jeito de explicar uma patetice como essa, senão com o dito do Tim Maia. Helena Chagas tem outras histórias de difícil explicação. A mais importante delas foi a história do caseiro Francenildo Costa, quando ela era chefe da sucursal de O Globo, em Brasília. Foi quando repassou (como repassa essa jornalista!) ao então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, a suspeita sobre a conta do caseiro Frana Caixa Econômica Federal.

Daí houve a quebra de sigilo do caseiro e toda a trama que se seguiu. Tudo se ajeitou, só Francenildo ficou no prejuízo. E a ética, é claro. Mas no Brasil essa sempre perde.

Todos estão muito bem colocados. Palocci foi para a Casa Civil. Helena Chagas virou ministra no lugar de Franklin Martins. E até o então gerente da Caixa responsável pela quebra do sigilo acabou levando vantagem. Jeter Ribeiro de Souza, foi nomeado assessor de Dilma, numa função de confiança que é uma piada pronta: Informações em Apoio à Decisão da Presidente.

E na relação entre Helena Chagas e Palocci sobrou a dúvida sobre quem quem é o mentiroso. Ele disse em depoimento à Polícia Federal que foi a jornalista que repassou a suspeita sobre o caseiro. E também em depoimento à PF a jornalista afirmou que não foi ela. Tem mentira aí.

Ou uma distração, que foi como ela justificou a bobeada no Twitter.
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POR José Pires

quarta-feira, 9 de março de 2011

Carnaval da mortandade nas estradas e as montadoras de cofres cheios

No Brasil, todo período prolongado de feriado traz más notícias no final. O carnaval não tem só o resultado da competição das escolas de samba no Rio: tem também o horrível rescaldo, sempre com muitos mortos e feridos, principalmente em acidentes de trânsito nesta terra da dobradinha terrível do automóvel particular e a irresponsabilidade, tanto de quem está dentro dos carros quanto de quem tem a responsabilidade de zelar pela segurança nas estradas brasileiras.

Este ano o saldo foi bem pesado. O carnaval de 2011 foi o mais violento da história. O aumento do número de mortos e feridos chegou a ser quase 50% maior que no ano passado.

Foram registrados 4.165 acidentes (28,7%), deixando 2.441 feridos (27,4%) e 213 mortos (47,9%). No ano passado, o balanço foi de 143 mortos em 3.233 acidentes. 1.912 ficaram pessoas ficaram feridas.

Se fosse no governo Lula, o Supremo Apedeuta poderia vir a público declarar que nunca neste país morreu tanta gente num carnaval. Mas a tragédia vem do governo dele que, como todos sabem, tem seu seguimento no governo Dilma. Como será que se define uma herança como esta, maldita ou bendita?

Na palestra que fez na semana passada na coreana LG Eletronics, o ex-presidente embutiu na exaltação a seu governo algo que ele considera como um admirável feito: o estímulo ao consumo.

Agindo como garoto-propaganda da LG, ele não poderia mesmo numa palestra dessas fazer uma análise crítica da economia, situando inclusive a necessidade de controle e planejamento do consumo de produtos industrializados. O negócio ali era vender, assim como foi feito principalmente durante os últimos dois anos, o período utilizado para construir uma plataforma eficiente para a eleição da sua candidata.

A plataforma era falsa, como agora se vê com o desmoronamento de todo o otimismo construído no ano passado. Para viabilizar a eleição de Dilma Rousseff foi instituído um vale-tudo na economia, inclusive com a maquiagem da situação fiscal brasileira.

Um dos artifícios para evitar a crise mundial e forjar uma situação de tranqüilidade foi injetar muito dinheiro na indústria automobilística, recursos que depois foram enviados pelas empresas para o exterior na forma de lucros. Segundo um estudo dos professores Fernando Sarti e Célio Hiratuka, do Instituto de Economia da Unicamp, no período 2008-2010 o governo Lula repassou por meio do BNDES financiamentos na ordem de US$ 8,7 bilhões. Durante o período 2008-2010 as remessas de lucros e dividendos foram 12,4 bilhões de dólares. E os investimentos externos de apenas 3,6 bilhões de dólares. O saldo negativo (para nós, é claro) foi de 8,8 bilhões de dólares.

O ano passado foi excelente para eles. Em 2010 o setor automotivo mandou de lucro para o exterior US$ 4 bilhões. Segundo os professores da Unicamp, no mesmo ano este setor, que engloba montadoras e autopeças, investiu aqui 450 milhões de dólares. É dez vezes menos que os lucros que foram daqui para o estrangeiro.

E além da grana oficial, as montadoras tem também as facilidades dos incentivos fiscais nos estados. É muito dinheiro para um setor que traz muitos problemas e tem um horizonte curto. Hoje, o estímulo ao consumo de automóveis é um dos mais delicados em qualquer país do mundo. No Brasil, com sua carência história de infra-estrutura rodoviária e o esgotamento do espaço para os carros nas cidades, forçar uma alta no setor é ainda mais arriscado.

Além do mais, não há futuro para o carro individual. Ninguém poder acreditar que a dinheirama investida pelo governo no setor vá dar algum lucro social. Mesmo que aparente dar muitos empregos e aquecer a economia, este tipo de investimento tem uma eficácia ilusória. Não sei se já fizeram as contas, mas acredito que se alguém colocar na ponta do lápis o custo de tudo quando é coisa ruim causada pela proliferação do automóvel, no final vai chegar à conclusão que as montadoras só dão prejuízo ao país.

E a questão fica ainda mais grave, pois enquanto o uso do automóvel é estimulado, pouca coisa é feita em contrapartida em termos de segurança, cuidado com o meio ambiente e até sobre a maior responsabilização dos crimes ao volante.

Mas deu pra dar uma incrementada na economia mesmo que a custa de caros subsídios. E as montadoras são inclusive moeda de troca na política. Por causa desta última eleição, por exemplo, Minas Gerais foi punida pelo governo Lula com a ida da Fiat para Pernambuco, onde Dilma não só ganhou de lavada a eleição mas também teve o apoio extremo do governador Eduardo Campos (PSB), que impediu que seu partido lançasse a candidatura de Ciro Gomes.

O governo petista tem uma estranha maneira de lidar com os carros. No mundo todo o automóvel particular é uma praga, do mesmo jeito que é no Brasil. Nossas cidades não têm mais espaço para os carros. Além dos acidentes, a poluição é outro grande problema. Mas, no entanto, por aqui existe um estranho orgulho das montadoras de automóveis, uma indústria que nem é brasileira de fato.

Números que deveriam ser vistos com preocupação acabam sendo saudados de forma positiva. Neste carnaval o recorde foi de mortos nas estradas, mas no mês passado outra façanha envolveu o automóvel.

A produção de veículos do Brasil em fevereiro cresceu 18,7 por cento sobre janeiro, atingindo o recorde para o mês de 310,7 mil unidades. Os números foram divulgados pela associação das montadoras, a Anfavea.

É claro que a mídia comemorou. Não teve nenhuma palavra crítica, mesmo que fosse só perguntar onde é que vamos botar mais esses carros. Mas é muito fácil saber porque este assunto nunca é discutido com profundidade. Basta folhear revistas e jornais, abrir um site ou ligar a televisão para ver que a quantidade de propaganda de carro é outro número espetacular dessa indústria.
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POR José Pires

Garoto-propaganda funciona: governo compra televisores da LG

Nessa última quarta -feira foi a estréia do ex-presidente Lula como palestrante num evento promovido pela empresa coreana da área de eletrônicos LG Eletronics do Brasil. O petista fez o de sempre. Lula parece uma escola de samba com enredo único: ele mesmo.

Na palestra para a empresa estrangeira o petista foi também garoto-propaganda da LG. Pareceria piada se não fosse com o Lula, mas ele fez uma palestra motivacional, no estilo dos picaretas da auto-ajuda. Elogiou a LG, repetiu slogans publicitários da empresa e fez uma relação no estilo lulista entre os projetos de seu governo e a venda de produtos da empresa. A receita é simples: o governo leva eletricidade para um miserável e ele compra um televisor da LG.

Não é bem assim, mas que Lula pode ajudar bastante a LG, isso pode. A empresa tem interesses em várias áreas onde a decisão do governo é que conta. Um exemplo é a licitação do trem-bala, que interessa muito aos coreanos.

A dobradinha Lula e LG parece forte. Neste carnaval a imprensa divulgou outra notícia que junta o governo do garoto-propaganda e a empresa. A equipe da Presidência da República vai comprar 30 televisores que vão custar quase 55 mil reais. Adivinhem de que marca.

É claro que não acho que uma relação tão interessante se restrinja a vender aparelhos eletrônicos para o governo, apesar de que um comerciante nunca vai deixar pra lá um comptrador tão bom, ainda mais se o cliente for amaciado por um garoto-propaganda como o Lula, mas a palestra seguida do negócio mostra que a Era Lula escancarou mesmo a falta de limites éticos na relação entre negócios públicos e negócios privados.
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POR José Pires

segunda-feira, 7 de março de 2011


Ou Obama é o jogador mais esperto do jogo e vai mostrar força no momento certo ou Kadhafi vence na Líbia. E aí Obama perde nos EUA.