quarta-feira, 30 de março de 2011

Importa mais o disse me disse do que aquilo que realmente foi dito

Já ouvi o deputado falando espantosas barbaridades e também li muitas entrevistas suas onde ele exerce um papel tão agressivo que parece até paródia de político de direita. Nunca vi o deputado expressar qualquer coisa que não fosse de um ponto de vista onde parece que não se avista nenhuma solução prática com algum equilíbrio.

Ele é violento. A violência é verbal, que seja, mas de uma agressividade que parece por em risco até a integridade física das pessoas. Porém, nunca soube de qualquer manifestação de racismo da sua parte. E também não vejo isso nesse diálogo entre ele e Preta Gil, quando os dois foram grosseiros um com o outro. O vídeo prova que a discussão começa com uma pergunta provocativa da cantora, quando ela envolve a família do deputado numa amalucada hipótese de casamento interracial.

Estão querendo fazer uma campanha em torno de algo que não dá sustentação a resultado algum de qualidade. Muito ao contrário, dessa forma o que pode ser fortalecido é o racismo.

Mas alguém está interessado no fato em si? Falei acima que o vídeo com a entrevista com Bolsonaro prova que ele não deu nenhuma declaração racista. Apenas deu uma resposta ofensiva à Preta Gil, mas não sem que antes ela tenha feito algo parecido na sua pergunta.

Mas mesmo assim, sites e blogs afirmam que o deputado foi racista, alguns até postando abaixo o vídeo onde está a prova de que não há nada disso. E a Preta Gil faz a festa, é claro. Pelo índice Andy Warhol ela já está na vantagem: seus 15 minutos de fama se alongam.

Parece estar instituída no Brasil esta cultura de ataques em que não não se busca o sentido de provocar uma discussão esclarecedora sobre assunto algum. Podemos chamar isso de cultura de palanque. O que importa é o show. Ganha-se até eleição com isso, mas nunca se vê resultado prático de alguma qualidade. Basta ver o nível dos que são eleitos dessa forma ou daqueles que alcançam notoriedade com esse tipo de atitude.

Acusação de racismo deu em demissão de cartunista
Recentemente, numa situação completamente diferente e com uma pessoa que nada, mas absolutamente nada tem a ver com tipos como o deputado Bolsonaro, ocorreu uma campanha sórdida que acabou prejudicando o cartunista Solda. Ele foi acusado por Paulo Henrique Amorim de ter desenhado uma charge racista contra o presidente Barack Obama.

A charge traz um macaco dando uma banana para o governo americano. Isso é bem claro na legenda do desenho. Veja ao lado. Mas, talvez por algum problema particular, Amorim olhou o macaco e viu o Obama. Ora, tenha a paciência. Por que o Obama estaria dando uma banana para os Estados Unidos?

Mas Amorim mandou ver e publicou em destaque a acusação. Em razão disso, Solda acabou sendo demitido do site onde publicava e está até agora sendo obrigado a administrar o clima criado com esta acusação sempre absurda, mas ainda pior pelo fato da sua história pessoal e seu trabalho na imprensa ser há mais de três décadas de um teor altamente humanista.

A administração de um conflito artificial criado de maneira irresponsável, como foi feito por Amorim, pode complicar a vida de qualquer um. De imediato cria-se uma rede caluniosa. Começa na área de comentários dos blogs e segue pela internet afora, espalhando-se em blogs dominados por um clima conspiratório que faz de qualquer debate um assunto de sarjeta.

Num caso que atinge uma pessoa admirável como o Solda, é de uma safadeza absurdamente injusta. Seria com qualquer um, é claro. Mas sempre é pior com quem lutou para construir uma história valorosa. Já imaginaram um artista depois de uma longa jornada (não se ofenda, velho Solda), com uma carreira brilhante e sempre na luta pelos direitos civis, alguém tendo que explicar que não é racista? Ora, como diz a moçada, ninguém merece.
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POR José Pires

A raça humana é a soma de todas as cores

O Brasil nunca teve relações raciais em que a violência fosse predominante, como ocorreu com extrema violência no passado nos Estados Unidos. Também ao contrário do que houve entre os americanos, aqui nunca existiram políticas oficiais de segregação. Nos Estados Unidos eles tiveram numa época relativamente recente leis racistas que exigiram um grande esforço para serem abolidas, numa luta que juntou negros e brancos que abominavam o racismo. No Brasil nunca uma criança negra teve que ser escoltada por policiais federais para poder freqüentar uma escola mista. Aqui também jamais tivemos transporte público com lugares separados entre negros e brancos. E os horríveis linchamentos de negros, muito comuns em vários estados americanos, também não eram uma prática brasileira.

É um dado importante que no Brasil o preconceito contra o negro nunca tenha sido respaldado por uma política de Estado, como já aconteceu nos Estados Unidos e deu tanto trabalho e custou tantas vidas até que isso fosse abolido por lá.

Talvez até por esta facilidade natural criada por um ambiente mais tolerante, setores influentes do movimento negro arrogam uma coragem desnecessária, até porque aqui nunca houve clima para um conflito racial com níveis de violência física. E se isso ocorrer, criando uma exceção na convivência social pacífica existente entre negros e brancos, essa militância política sabe também que terão a solidariedade da quase totalidade dos brancos do país e até do que a esquerda agora começa a chamar de “elite branca”.

No sul dos Estados Unidos, conta James Lincoln Collier, na excelente biografia que escreveu de Louis Armstrong, podia ser motivo para surrar um negro o fato de algum branco julgar que ele estava “falando sem respeito”. Também no sul, um jornal podia estampar a manchete “Outro churrasco negro”, para noticiar o linchamento de um negro que tentou praticar o direito de voto. São acontecimentos que não estão muito longe no tempo.

É óbvio que num ambiente como este um branco liberal corria tanto risco quanto um negro. Talvez até mais. Em parte, é sobre isso que falam as pessoas que discordam da idéia de que exista um racismo estabelecido entre os brasileiros. É importante preservar a capacidade que negros e brancos tiveram no Brasil para conviver sem o uso da violência e sem uma separação racial restritiva como houve nos Estados Unidos. Estranhamente, parte substancial do movimento negro parece lamentar que o Brasil não tenha vivido esses conflitos. O discurso que prevalece é o da instigação e não o do entendimento. Em vez da harmonia, parece que desejam um futuro de muito sofrimento para o meu filho, que é branco, e para o filho do meu vizinho negro.

O fato é que, ao menos de fachada, grande parte dos auto-intitulados “movimentos negros” no Brasil assumem um caráter mais para Malcolm X que para um Duke Ellington. Os dois sofreram uma barbaridade com o clima racial nos Estados Unidos, mas tiveram respostas diferentes para isso. E acho que não preciso dizer qual deles contribuiu mais para a respeitabilidade dos negros americanos.

Um resultado direto do radicalismo violento de Malcolm X é o fundamentalismo islâmico de direita de Louis Farrakhan. E tem líderança de movimento negro brasileiro que ainda desejaria ter panteras negras nas nossas matas tropicais.

Duke Ellington costumava dizer que para ele não existiam raça branca e raça negra. Ele só via a raça humana. Sua obra de jazz é colocada por críticos no nível da mais moderna música clássica.

Com uma visão parecida, o artista do blues, B.B. King, deu também um toque técnico nesta questão quando, em entrevista ao crítico brasileiro Roberto Muggiati, ele disse que “a música não tem cores”. É uma opinião interessante de ser ouvida nesta época em que se vê “raiz étnica” em quase tudo. “O que chamam de blues para mim é música, apenas música”, dizia ele, “qualquer um pode tocar”. “Existe música feita por negros que não consigo ouvir, não me agrada. Não é o fato de ser negro que fará alguém um grande intérprete do blues”.
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POR José Pires

terça-feira, 29 de março de 2011

Como nenhum marqueteiro pensou nisso?

A chanceler alemã Angela Merkel perde poder com os resultados em um importante estado, que será governado por uma aliança entre verdes e social-democratas (SPD). Já são ecos de Takashima. Falei aqui que o mundo pode ser visto como antes e depois de Takashima. Pois será também neste aspecto: a discussão sobre a energia nuclear deve adquirir um peso que antes não tinha.

Mas não é disso que eu queria falar. O que me chamou a atenção nas notícias que trazem este assunto é uma das siglas da coalizão de centro-direita de apoio ao governo da chanceler Merkel. É um partido liberal, o FDP. Os políticos brasileiros sempre andam às voltas com esse problema de sigla. Ainda há pouco houve a criação do PSD, que teve outra sigla antes da escolha dessa. Era PDB, com o significado de Partido da Boquinha. Mudaram sei lá por que razão. O próprio DEM surgiu para eliminar a sigla anterior, PFL, na tentativa de escapar das nódoas (ou lama mesmo) da sua história.

Pois na Alemanha eles tem o FDP e o partido até se deu bem, pois foi governo por bastante tempo. Vejam ao lado uma propaganda, com a foto do maioral do partido. Mesmo sendo ágrafo na língua de Goethe, dá para perceber que o FDP está agradecendo por alguma coisa.

Enfim, achar a sigla certa é sempre uma dificuldade. Pois aí está uma boa sigla para um partido brasileiro: FDP. Porém, suas lideranças terão de tomar bastante cuidado para evitar um inchaço excessivo do partido. Agora, sem a Lei da Ficha Limpa, então, pode aparecer uma multidão de políticos querendo filiação.
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POR José Pires

Em tempo real

Soube pela manhã da depredação de dez ônibus da Viação Anapolina, empresa que faz o transporte de passageiros próximo de Brasília. Foi um fogaréu. Isso facilita bastante para o governo ver os problemas reais do país. É só ir até a janela do Palácio do Planalto e ver a fumaça do transporte que sai do transporte público brasileiro, uma questão da qual todo governo mantém distância.

Bem, mas quem vai se interessar por transporte público quando todos à sua volta (ministros, assessores, deputados, senadores, jornalista, etc, e põe etc nisso) andam de carro? E também não pode faltar dinheiro para nossas usinas atômicas, não é mesmo? Só o processo de retomada da Usina Nuclear Angra 3 atingiu o gasto de R$ 700 milhões no ano passado.

Mas, sabendo da raiva da população com os serviços da Viação Anapolina (que jeito de usar o SAC; essa empresa não tem guichê de reclamação ou e-mail para críticas?) corri para o site da empresa em busca de alguma explicação para a questão. Afinal, estamos num tempo de informação rápida, muitas vezes até em tempo real.

Com a internet, é possível se informar com rapidez e interargir de forma produtiva com o nosso empresariado. E como a WEB é poderosa, no intervalo dessas atividades corriqueiras, a gente aproveita para derrubar um ditador na Líbia. Ou na África, tanto faz.

Mas a visão dos ônibus incendiados fez eu largar por um momento o Kadhafi e correr pro site da Viação Anapolina. Pois lá me pareceu tudo normal, bastante tranquilo até. Dá até pra suspeitar que a depredação e o incêndio de ônibus possa ter sido coisa da oposição, talvez do PIG ou outro desses grupos de insatisfeitos.

Vejam lá em cima que beleza a imagem que peguei na página da empresa que teve os ônibus destruídos pela população. O ônibus todo iluminado passa vazio em frente à catedral de Brasília. Na manifestação uma reclamação das pessoas era a da falta de ônibus. Ora, mas por que não pegam esse ônibus que está no site?
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POR José Pires

Mais um

Todo mundo pergunta o que será o PSD do prefeito Gilberto Kassab, ex-DEM, ex-PL, ex-PFL e agora com partido próprio — esse moço vai longe.

Ontem o próprio Kassab deu a resposta: "Não será um partido nem de direita nem de esquerda nem de centro, mas a favor do Brasil".

Puxa vida , mais um partido a favor do Brasil. Será que o Brasil aguenta?
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POR José Pires

segunda-feira, 28 de março de 2011

Mercadante revoga demissão que parecia irrevogável e a CNEN vai ajudar o Japão pela internet

E não saiu a demissão do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves. Para mim não foi surpresa. A demissão era dada como certa, mas eu disse na nota abaixo que tínhamos que esperar para ver, pois o responsável por demiti-lo seria o ministro da Ciência e Tecnologia, Aluizio Mercadante, o político brasileiro que criou o conceito da revogação do irrevogável.

Mercadante disse que a CNEN vai passar por mudanças, mas a saída de Gonçalves acontecerá só depois da crise das usinas atômicas do Japão ser superada. Pelo visto o otimismo brasileiro com o acidente nuclear no Japão continua a toda. Se depender da superação daquela crise, então vai demorar para sair alguém da CNEN.

É tão difícil assim do governo do PT entender que energia nuclear no mundo se divide em antes de Fukushima e depois de Fukushima? O lobby nuclear deve atuar fortemente em todo o planeta, mas o acidente no Japão foi uma demonstração da inviabilidade do uso desse tipo de energia. No Brasil, o lobby parece ter um poder de convencimento extraordinário e é capaz do Programa Nuclear Brasileiro prosseguir. Se isso ocorrer, o que anda acontecendo na CNEN mostra que a única coisa que resta ao brasileiro é cruzar os dedos.

Segundo Mercadante, com a crise nuclear do Japão não dá para demitir o presidente da CNEN. Odair Dias Gonçalves já teria pedido demissão, mas o ministro pediu que ele ficasse no cargo. Mas vão mandar o coitado do Gonçalves a Fukushima para que ele esfrie os reatores? Ainda não, mas ele vai ajudar os 300 mil brasileiros que vivem no Japão.

Mercadante já deu a tarefa ao presidente do CNEN de elaborar um portal na internet para informar diariamente o que está acontecendo no Japão e, também, para fazer uma cartilha detalhada sobre os efeitos da radiação.

Bem, tomara que não esqueçam o Twitter e o Facebook, não é mesmo? Ah, sim... tem também o Orkut. Mas tem que correr com o serviço, senão a crise nuclear acaba sendo superada.
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POR José Pires

E não esqueçam

Enfim pode vir uma boa notícia do Programa Nuclear Brasileiro

Hoje pode haver uma decisão que deve ser vista como a única boa notícia sobre o Programa Nuclear Brasileiro desde que aconteceu o acidente nuclear no Japão. É a demissão do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves. Ele está à frente da CNEN desde o início do primeiro mandato do governo Lula. Com ele deve rodar toda a direção do órgão. É a primeira boa notícia em anos de programa nuclear. Na semana passada o jornal Correio Braziliense trouxe a descoberta de uma porção de trapalhadas cometida na CNEN, que contrastam bastante com a firme defesa da segurança do programa brasileiro feita por Gonçalves logo após o desastre nuclear japonês.

Logo depois do acidente nuclear em Fukushima, no Japão, escrevi aqui sobre a ágil movimentação feita no Brasil pelo lobby nuclear. O interesse dessa indústria é grande em nosso país. Para se ter uma idéia do volume de dinheiro que pode girar no Programa Nuclear Brasileiro, só na reativação de Angra 3 a previsão de gasto é de R$ 7 bilhões de reais.

Isso explica em boa parte a onda de otimismo que a tragédia no Japão trouxe para o Brasil. Dá até para entender que políticos como o ministro Edison Lobão tragam seu discurso demagógico para essa área de riscos, afinal, nesse assunto o que interessa a eles não é exatamente o enriquecimento do urânio. Porém, é duro ter que agüentar argumentos criados para confundir, quando esse tipo de tática diversionista vem da área acadêmica, de especialistas que devem respeito ao livre debate ou de instituições com a responsabilidade de zelar pelo aprofundamento da discussão de um assunto tão grave.

O Brasil não precisa de energia nuclear. Esse pessoal sabe que bons programas de uso dos sistemas hidrelétricos, eólicos e térmicos resolvem nossas necessidades de energia. Seria preciso também um bom planejamento para tirar o país fora desse modelo falido de civilização em que tudo é plugado numa tomada de energia, mas deixa esse assunto pra depois.

O que estranha é que autoridades da área tenham vindo de imediato abafar a necessária discussão sobre o plano nuclear do governo brasileiro. O ministro Lobão disse que "o programa brasileiro não vai mudar". E Aluizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia, afirmou que seria mantido o ritmo de construção de Angra 3 e os planos de expansão nuclear.

Outra voz plena de otimismo quanto à perfeita condição do Programa Nuclear Brasileiro foi a do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves. Ele dizia que "as usinas de Angra estão preparadas para enchentes e longe de áreas vulneráveis a desabamentos. Situadas 6 metros acima do nível do mar, estariam imunes a inundações". Deve ser o estudo das marés pelos próximos mil anos (sic) de que falou o ministro Edison Lobão.

Segundo Gonçalves, as usinas “são projetadas para resistir a tornados e furacões e suportar terremotos de até 6,5 graus na escala Richter e ondas de até 7 metros". Esse tipo de conversa sempre me deixa desconfiado. Se até para atravessar uma rua é preciso tomar bastante cuidado, não dá mesmo para acreditar em tamanha segurança quanto aos riscos de um acidente nuclear, a não ser que o até agora presidente da CNEN seja o tipo de pessoa que atravessa a rua sem olhar para os dois lados. Talvez ele trouxesse mais confiança falando dos riscos das ondas de 7 metros e meio.

Mas a realidade trazida pelo Correio Braziliense é bem diferente da exposta por Gonçalves. O jornal da capital brasileira denunciou graves problemas que ocorrem na própria CNEN. Angra 2 funciona há dez anos sem autorização definitiva. Quatro reatores nucleares utilizados para pes­quisa funcionam sem licença em três campi universitários. E o Brasil tem grandes reservas de urânio, mas foi obrigado a comprar 220 toneladas no exterior, ao custo de R$ 4o milhões. A causa é falta de licença para a extração do minério, de responsabilidade da CNEN.

Tem também a denúncia de outras tretas, como o excesso de viagens internacionais e a nomeação de amigos para cargos de chefia, mas fiquemos apenas com o que toca diretamente a segurança do programa nuclear. Não faz parte das denúncias do Correio Braziliense, mas recentemente falei aqui sobre o tratamento de resíduos nucleares nas Usinas de Angra. Sempre é bom saber como nossas autoridades estão lidando com este, que é o grande problema do uso de energia nuclear. Pois nesse momento o lixo atômico de Angra está depositado em prateleiras de um galpão, como se fosse num supermercado.

A denúncia foi feita em seu Ex-blog pelo ex-prefeito do Rio, Cesar Maia. Contatada pelo jornal O Globo, a Eletronuclear confirmou a versão de Maia de como é feita a acomodação do lixo atômico no Brasil, mas garantiu que isso é provisório. Um funcionário informou que já existe um projeto de construção de um depósito subterrâneo para... (é sério mesmo, foi o que eles disseram!) ... 2018. Bem, que até lá não venha nenhuma onda de 7 metros.

A demissão do presidente da CNEN já é dada como certa. Mas vamos esperar para ver, afinal a decisão depende do ministro Mercadante, o político brasileiro que criou o conceito da revogação do irrevogável. E mesmo sendo de forte peso simbólico neste assunto arriscado que é o uso da energia nuclear, a demissão de Odair Dias Gonçalves está bem longe de trazer qualquer confiança no Programa Nuclear Brasileiro. Bem, tomara que essa experiência ajude o governo a tomar mais juízo, ao menos quando estiver lidando com projetos de maior risco para os brasileiros.

O ideal seria o Brasil iniciar o desligamento das usinas em funcionamento e nem pensar em construir outras, como é o projeto do governo do PT. Mas aí seria esperar equilíbrio, bom senso e respeito ao bem comum de gente que já mostrou que se guia por outros interesses.
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POR José Pires



sexta-feira, 25 de março de 2011

E o símbolo gráfico do logotipo de Milton Glaser virou verbo

Acho que todo mundo conhece a imagem ao lado. Hoje em dia até as crianças usam o coraçãozinho como verbo para expressar amor por alguma coisa. Pois de agora em diante o que já era usual passa a ter o reconhecimento oficial como verbo.

O Dicionário de Oxford incluiu o famoso símbolo gráfico do coração ("heart" em inglés) com o significado do verbo amar. Esta é uma das cerca de 45 mil novas palavras que entraram na última atualização do Dicionário de Oxford, com a revisão de 285.000 acepções de diferentes palavras que sofreram mudanças ao longo do tempo.

O símbolo incluído na língua inglesa pelo Dicionário de Oxford vem de um dos mais famosos logotipos do mundo e foi criado por Milton Glaser e Bobby Zaremn. O artista gráfico Glaser é um faz-tudo na área do desenho. É de uma criatividade e também de uma eficiência comercial que é a cara dos Estados Unidos. Ele tem um desenho belíssimo e é autor de capas de discos e cartazes muito marcantes, principalmente entre as décadas de 70 e 80. Um desses desenhos tornou-se um símbolo pop. É a imagem muito conhecida de Bob Dylan com o cabelo do cantor formado por arabescos coloridos. É outra imagem simples, mas aquela simplicidade com uma admirável força criativa. Isso é marcante no estilo de Glaser.

Ele tem também um extenso trabalho na publicidade. Entre os americanos, os ilustradores ocupam bastante espaço na propaganda, que usa cartuns, caricaturas e ilustrações de forma muito valorizada. É claro que isso acontece também na área editorial, muitas vezes como se fosse uma dobradinha, com as duas áreas explorando com criatividade a interação gráfica proporcionada pelos desenhistas.

Infelizmente esta foi uma das coisas boas que os brasileiros deixaram de copiar deles. O resultado dessa valorização das artes gráficas entre os americanos foi que os Estados Unidos tomaram conta visualmente do mundo, espalhando imagens e símbolos por tudo quanto é canto.

Foi o caso do logotipo para Nova York, que hoje é um dos símbolos mais conhecidos do planeta. Ele nasceu em 1977 de uma encomenda da prefeitura para promover a cidade, numa campanha de estímulo ao turismo em Nova York feita para durar apenas algumas semanas. Porém, fez tamanho sucesso que se espalhou pelo mundo, com o coraçãozinho servindo como verbo afetivo para muitas outras coisas além da cidade de Nova York. E até fez o coração virar verbo oficialmente. Veja ao lado na imagem retirada do Dicionário de Oxford na internet.
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POR José Pires

quinta-feira, 24 de março de 2011

A Lei da Ficha Limpa entra na dança

Ontem o Supremo Tribunal Federal praticamente anulou a Lei da Ficha Limpa. Por um placar apertado, de 5 a 6, ficou decidido que a lei não valeu para as eleições de 2010, mas é possível que não tenha Ficha Limpa nem para as próximas eleições.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já disse que a votação do STF não garante que a lei seja válida para 2012. Ou seja, fica tudo em suspenso e em suspense na política brasileira.

Dessa forma, parece que deve acabar uma lei que certamente evitou que muito patife desistisse de tentar ser candidato a qualquer coisa. Vai-se uma lei que servia para uma primeira peneirada eleitoral. É função dos partidos evitar que quem tem contas a prestar com a Justiça saia candidato, mas isso os partidos não fazem. Em muitos partidos parece que a prática é até o contrário: barram os honestos. Então, a Ficha Limpa servia ao menos para isso.

Foi uma boa solução encontrada pela própria sociedade civil e contava com imenso apoio entre a população. O STF está anulando uma lei de iniciativa popular que foi discutida amplamente e passou pela aprovação do Congresso Nacional. Mesmo no Brasil, bagunça política e jurídica maior que essa é bem difícil.

Por coincidência, a votação do STF anulando a Lei da Ficha Limpa aconteceu na mesma semana do aniversário da Dança da Pizza, da então deputada Ângela Guadagnin (PT-SP), hoje vereadora em São José dos Campos pelo mesmo PT. Há cinco anos ela dançava em comemoração à absolvição pela Câmara de um colega petista acusado de ser mensaleiro.

Lei da Ficha Limpa anulada pelo STF e aniversário da Dança da Pizza. Não parece ser coisa combinada, mas combina bem.
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POR José Pires

A charge que deu demissão por acusação de racismo feita por Paulo Henrique Amorim


Esta semana o cartunista Solda foi demitido de seu trabalho no site de O Estado do Paraná, jornal que deixou de ser impresso recentemente (ou melhor: fechou mesmo) para existir apenas na internet.

Demissões acontecem e podem até ser justas e muitas vezes é o próprio demitido quem pede o boné, o que, a propósito, sempre aconteceu bastante entre humoristas. Mas vivemos em uma época que não têm graça alguma, mesmo que a propaganda esteja o tempo todo exibindo largos sorrisos. De modo que hoje em dia tem muito palhaço que só janta se sobrar algo do almoço do leão.

Acontece que a demissão do Solda não é uma questão trabalhista comum e também não é uma conclusão editorial corriqueira. O cartunista foi demitido depois do jornalista Paulo Henrique Amorim acusá-lo por racismo a partir de uma interpretação apressada e superficial de uma charge sua publicada no site de O Estado do Paraná. Veja ela lá em cima. Amorim publicou o desenho com um título seu aplicado em cima: "Não, nós não somos racistas".

A charge alusiva à visita do presidente Barack Obama ao Brasil traz um macaco fazendo o famoso gesto de banana. E Amorim viu no desenho do macaco a caricatura de Obama, que é claro que todo mundo deve saber que é o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

A demissão veio dessa conclusão apressada, que saiu, a meu ver, da necessidade do jornalista em seguir com estratégia de demonização dos adversários, algo que vem ainda da eleição passada e que virou um cacoete estilístico seu. Se por uma questão de ética um jornalista jamais deve subir em palanque, o que dizer dos que nunca descem dele? É óbvio que Amorim não consegue ver mais nada de forma equilibrada, daí acabou errando desgraçadamente no ataque à charge do Solda.

Algum leitor poderia até alegar alguma ambigüidade no desenho, mas só um leitor leigo no assunto seria perdoado por uma conclusão tão precipitada. Um profissional não poderia de forma alguma cometer um equívoco dessa natureza. Isto evidentemente se o profissional for de fato um conhecedor das diversas linguagens jornalísticas e não apenas um alfinetador, o que parece ser a especialidade única do Amorim e sua idéia fixa.

E acusação de racismo também é algo muito grave. Hoje é um crime previsto no código penal e, além disso, é um ataque que tem sido usado de forma até histérica pelos petistas para fugir do debate real dos problemas brasileiros e principalmente das falcatruas do governo que está no poder.

Então, para dizer que alguém é racista exige-se que o acusador ao menos faça uma pesquisa decente sobre a história profissional do acusado, o que hoje com a internet é muito fácil e, no caso do Solda é ainda mais facilitado. Além de bastante conhecido, o cartunista tem um blog já bem longevo na internet. Se não fosse um mero alfinetador, Amorim poderia ter visto numa rápida visita que em seu trabalho o Solda tem até uma diferença profissional que o destaca, que é uma preocupação humanista nos textos e nos desenhos.

Gosto também de humor sarcástico e até do panfletário. Deve existir espaço pra tudo. Mas no trabalho do Solda não existe o sarcasmo, nem o ataque vigoroso à imagem de ninguém. Nesse negócio de macaco, acho que o Solda não desenhou nem ditador como gorila, como tantos fizeram. Seu humor busca uma compreensão e não a demolição.

Mas quando é que o Amorim iria tentar entender algo assim, se está sempre buscando apenas a chance de exercer seu papel de alfinetador? Sua interpretação imediata foi a de que o macaco seria o Obama — o que parece um preconceito da cabeça dele — e ele seguiu adiante porque o objetivo nem era a charge em si, mas dar o seguimento à estratégia de demonizar os adversários, o que fica claro no pequeno texto que inseriu abaixo do desenho, que é exatamente o seguinte: “Em tempo: este post é uma singela homenagem ao Ali Kamel".

O jornalista Ali Kamel é editor de O Globo e uma voz crítica às variadas idéias do interesse do projeto de poder do PT. Ele é de tal forma eficiente que os blogs e sites a serviço do governo vêm, desde o mandato de Lula, tentando demonizá-lo em caráter pessoal. Algo que desagradou demais ao governo petista e seus acólitos e agregados ao poder foi a posição de Kamel contrária à política oficial de cotas raciais, com bons textos que desmontam de forma inteligente este artifício assistencial e eleitoreiro. O jornalista acabou publicando um livro de sucesso sobre o tema, de nome "Não somos racistas".

Depois de certa experiência na profissão a gente sabe o que esperar de cada colega. Por isso, não me espanta que Amorim tenha feito o que fez. Eu cairia da cadeira se fosse avisado de alguma análise aprofundada feita por ele. Algo que não fosse apenas uma frase irônica e atrelada a algum interesse ocasional seria mesmo de espantar.

Não vou me estender sobre o perfil de Amorim, que tem um site, o "Conversa Afiada", onde o que ele faz lembra sempre o adjetivo que dá origem ao trocadilho.

Coerência também não é seu forte. Ele já foi contra o Lula e simpático a Fernando Henrique Cardoso e vice-versa, com seus sentimentos conduzidos na razão do poder de cada um. Quando Lula e o PT não pareciam ter chances de obter o poder e gramavam na oposição, o chefe petista foi chamado de desonesto por Amorim. Por isso, Lula processou a TV Bandeirantes, onde o jornalista tinha um programa. Hoje, Amorim está com Lula e seus companheiros.

Não há nada de surpreendente nisso que ele fez. O que surpreende é a direção um site jornalístico tomar uma decisão apoiada numa opinião de Amorim, ainda mais a decisão drástica da demissão de um de seus colaboradores mais importantes. Estou tentando resistir a um trocadilho com o nome do grande cartunista, mas uma bola dessas quicando na área tem que ir pro gol: para o site, a demissão do Solda não tem conserto.

Se a direção de O Estado do Paraná não teve capacidade profissional de ver o desgaste que uma demissão dessas causaria na imagem de um site tão novo, devia ao menos ter consultado o departamento de marketing.

Solda é um ótimo cartunista e de uma habilidade tão original no desenho que tem até a admiração de seus pares, o que entre desenhistas é algo muito raro. Afinal, quem tem uma visão profissional bem elaborada acaba desenvolvendo critérios mais rígidos de apreciação na sua área de atuação.

Amorim mostrou que é um fracasso para analisar uma charge. É um homem sem visão profissional, o que só se pode perdoar, repito, em um leigo. De charge o obcecado alfinetador também não entende.

É impossível ver o Obama na charge do Solda, a começar pelo conceito defendido nela: a insatisfação do governo brasileiro com os Estados Unidos. O texto da charge é claro nisso. Então, como é que o Obama iria dar uma banana para ele mesmo?

O que também deixa muito clara a intenção do Solda é o desenho da cabeça do macaco. O cabelo do presidente americano tem uma linha horizontal bem reta, o que não é o caso do macaco desenhado pelo cartunista, que tem uma linha curva que invade a testa. Observem os exemplos na imagem famosa da propaganda eleitoral de Obama e no seu retrato oficial, que coloquei ao lado do desenho do macaco onde o Amorim quer ver o Obama.

Levado pela necessidade de mostrar serviço em seu papel de alfinetador, Amorim não olhou com atenção o desenho. Mas aí também a experiência não permite que a gente se decepcione. Isso seria possível apenas se algum dia o Amorim tivesse olhado algo de forma atenta e profissional.

Porém, já sendo um ato consumado, a demissão do Solda pode servir ao menos para nos precavermos contra um clima muito perigoso que já se instala no país e que começa a por em risco a liberdade de expressão.

É a demonização do exercício do senso crítico, algo que vem sendo feito já há algum tempo pelo PT e seu governo e está nas vozes de várias lideranças e dos que escrevem de forma favorável ao poder. O que foi uma arma eleitoral e de propaganda hoje é usado de forma perigosa no debate de todas as questões, prejudicando o diálogo inteligente e a compreensão de qualquer problema ou atitude, inclusive as bananas que todo brasileiro tem o direito de dar.
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POR José Pires

domingo, 20 de março de 2011

As palavras e o gesto

Não houve nada de mais caloroso no discurso de Barack Obama e não poderia ser de outra forma. Acho difícil alguma ação dele para diminuir o déficit comercial brasileiro com os Estados Unidos. Dilma pedir isso no encontro também é coisa feia. O marqueteiro errou quando disse a ela que isso poderia ser visto de forma positiva pela opinião pública.

Obama não veio para comprar nada. Seu negócio como presidente é vender e ele já disse isso antes de vir ao Brasil. E seria estranho que saísse para fazer compras pelo mundo afora, quando os Estados Unidos vivem o maior aperto de sua história recente.

O único efeito dele voltar à sua terra com a notícia da queda do nosso déficit seria azeitar a candidatura dos adversários do partido Republicano para daqui a dois anos.

Obama não trouxe apoio ao desejo do governo do PT em ter assento no Conselho de Segurança da ONU, mas no meio do encontro com Dilma Rousseff fez algo que, se não for interpretado como recado, só poderia ser visto como uma grande gafe, algo que dificilmente ele faria. Obama falou de corda em casa de enforcado. Comento isso na nota abaixo.

Os jornais e sites brasileiros andam, como sempre, caçando alguma situação para dar um pouco de ufanismo aos seus leitores, como se alguém estivesse querendo isso. O leitor quer informação. Mas alguns jornalistas andaram escrevendo que Obama mostrou interesse no pré-sal brasileiro.

Isso não é novidade. Não só os Estados Unidos, mas muitos outros países devem ter todo o interesse no petróleo do pré-sal se ele estiver de fato lá embaixo. Contudo, mesmo que o pré-sal dê mesmo petróleo, isso é para daqui há muitos anos, quando todos os países estarão raspando o tacho, já com uma bruta escassez no mundo todo não só do petróleo mas de outros recursos naturais essenciais para tocar o mundo com essa gastança ambiental que vivemos. E sendo assim, nada garante que eles virão buscar o petróleo do pré-sal na condição de clientes, como disse Obama, talvez por delicadeza.

Outra coisa que me chamou a atenção no discurso do presidente americano foi um trecho em que ele diz o seguinte: "Graças ao sacrifício de pessoas como a presidente Dilma Roussef, o Brasil saiu da ditadura para a democracia."

É uma confusão de Obama, mas dá para entender que ele não se aprofunde na história do Brasil. É provável que seja mais uma delizadeza sua. Mas, se dependesse de pessoas como a presidente Dilma Rousseff o Brasil sairia de uma ditadura para outra ditadura, doo tipo comunista, que era o objetivo de Dilma e seus companheiros.
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POR José Pires

Quem fala o que quer... acaba ouvindo do Obama o que não quer

No encontro no Palácio do Planalto a presidente Dilma Rousseff teve assistir o presidente Barack Obamade autorizando a um assessor o início do ataque contra a Líbia. Já li na internet jornalista falando em coincidência, mas a única coincidência que vejo nisso é o conflito com o ditador Muammar Kadhafi. A ordem do presidente americano em plena reunião na casa da anfitriã não me parece coincidência. Tem mais jeito de ser um recado.

Qualquer um sabe que mesmo numa visita sem muita importância, quem é de fora costuma pesar muito bem as palavras. Ou encontra um jeito dizer o que acha que o anfitrião — no caso, anfitriã — tem que ouvir.

O governo petista não pode se queixar de falta de acenos da parte de Obama para uma aproximação. Ele até foi bastante caloroso em público com o ex-presidente Lula, mas o governo insistiu na tal diplomacia diferenciada, de um antiamericanismo em que a cereja do bolo era o iraniano Ahmadinejad.

É difícil ver apenas uma coincidência na ordem de Obama para atacar Kadhafi, dada a um assessor que interrompeu o encontro com Dilma.

Há menos de dois anos o então presidente Lula chamou o ditador Kadhafi de “amigo, irmão e líder”. E não foi numa ocasião sem importância. Os dois estavam na Líbia, na Cúpula da União Africana, encontro armado para fixar posições muito claras em geopolítica. Cerca de dois meses depois, outro encontro juntou Lula e Kadhafi na América do Sul, quando novamente os dois expressaram de forma muito explícita suas posições conjuntas no plano internacional.

O governo do PT precisa decidir o que é sério de fato e o que é só da boca do Lula pra fora. Ou do gogó de qualquer outro dirigente partidário ou do governo.

A relação com Kadhafi e até com Ahmadinejad, diziam eles, era parte de uma estratégia internacional importante para o Brasil. Bem, então no mínimo que a presidente Dilma deveria fazer era uma condenação de que joguem bombas na cabeça do “amigo, irmão e líder” de seu padrinho e um governante essencial na pauta da diplomacia petista.

Um recado de Obama muito claro é que o posicionamento em questões internacionais exige responsabilidades. Seria muito bom que o governo do PT pensasse nisso antes de vir com novas bravatas sobre a nova e revolucionária inserção do Brasil na geopolítica internacional.

Diplomacia obrigatoriamente deve vir acompanhada de ação. É duro ganhar pela retórica o que, na maioria das vezes, é solucionado na marra. Relações internacionais não é como negociar com o baixo clero do Congresso. Afagar ditadores pelo mundo afora tem seu preço, que pode até ser muito alto. Certas palavras podem exigir a confirmação por meio de tropas militares, bombardeios, etc. E põe etc. nisso
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POR José Pires

Ministros de Dilma tomam geral de seguranças de Obama

Os americanos parecem saber com quem estão lidando. Na visita do presidente Barack Obama o esquema de segurança não poupou nem as autoridades basileiras. E por que teria de ter poupado?

Cinco ministros de Dilma Rousseff reclamaram do esquema de segurança a que foram submetidos: Guido Mantega (Fazenda), Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia), Alexandre Tombini (Banco Central) e Edison Lobão (Minas e Energia).

Todos foram escoltados por agentes americanos em um ônibus e depois revistados no local do evento. Tomaram uma geral dos seguranças americanos. Um dos ministros que falou com o jornal Folha de S. Paulo disse que o esquema fez com que se sentissem esquema fez com que se sentissem como “colegiais” ou suspeitos tentando entrar nos Estados Unidos.

Bem, pela aparência de todos os ministros desse governo com certeza nenhum deles pode ser confundido com colegial.

A cena de ministro tomando uma geral da segurança do Obama alvoroçou até neolulistas como o ex-ministro Geddel Vieira Lima. Da Bahia, onde está à espera de uma boca no segundo escalão, ele comentou: "Ministro passando por revista pra ver Obama falar? Tá de sacanagem! Ah, o Geddel andava sumido. O ex-presidente Itamar Franco o chamava de percevejo de gabinete. Seria interessante ver se o Geddel não ficaria detido para averiguações numa geral dessas.

Mas do que afinal, os ministros estão reclamando? Obama é com certeza o presidente mais visado pelo terrorismo internacional. Só o internacional, não. Até dentro dos Estados Unidos deve ter muita gente que adoraria que seu destino fosse o mesmo do ex-presidente John Kennedy. Sem trocadilho, nem lá nos EUA o Obama tem colher de chá.

Ademais, como eu disse no início do texto, os americanos devem saber com quem estão lidando. Conhecem bem o modo como se formam os governos no Brasil e sabem também que controle aqui é zero. Então não há outro jeito, senão revistar essa gente.

E, falando nisso, não foi o que a própria presidente Dilma fez com sua gente quando passou descansou no carnaval na Barreira do Inferno. Pois é, nem com celular ela deixou o pessoal entrar.

Outra dos americanos que revela seu profundo conhecimento sobre as coisas aqui da terrinha, foi o veto à presença do governador Sergio Cabral e do prefeito Eduardo Paes na visita que ele ao Cristo Redentor.

Obama já deve ter lido a ficha de todo mundo que aparecerá na sua frente no Brasil. Imagino como deve ser a ficha do governador Sérgio Cabral. Os documentos do Wikileaks serviram para mostrar como os americanos são extremamente sinceros em suas comunicações internas. Se Sérgio Cabral lesse o que escreveram dele poderia se sentir muito mal, não é mesmo? Ou não, bobagem minha, ele age com tanta animação que é provável até que ele ache que seu jeito de ser é que é o correto.

Ao Cristo Redentor só vai Obama e a família, no que ele está muito certo. Não há nenhum risco de Malia e Sasha usarem as imagens com Obama para fazer propaganda em eleição para a prefeitura do Rio ou qualquer outro cargo.

Cabral e Paes também não podem caminhar ao lado de Obama durante a visita que ele fará à Cidade de Deus. E para participar do evento, o prefeito e o governador terão que ficar sentados dentro da sede da Central Única de Favelas, a Cufa, esperando para ouvir o prounciamento de Obama.

Obama já teve uma boa experiência com os políticos brasileiros, a começar pelo ex-presidente Lula. Ou será que esse pessoal não sabe que ele entendeu muito bem que Dilma Rousseff só foi levada para apertar a mão dele em Washington para que a imagem fosse usada depois na campanha eleitoral? E não foi Lula quem divulgou uma correspondência pessoal entre os dois, tentando envolver Obama no olho-no-olho entre ele e Ahmadinejad.

É, com gente assim não dá para facilitar. Os americanos sabem que não estão lidando com colegiais.
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POR José Pires

Não esqueçam

Cruz errada

Estão usando tudo para justificar a volta do mensaleiro Delúbio Soares ao PT. Agora foi o deputado Jilmar Tatto (PT-SP) que usou Cristo como dsculpa: "O PT tem um lado forte cristão e sabe perdoar. Por isso, mais de 70% são pela volta do Delúbio".

Ora, pois para mim o lado que pesa mais no PT é o lado Barrabás. E os petistas podem até ver isso como uma coisa boa, afinal esse ladrão também acabou ficando solto.
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POR José Pires

Trocando de nome

Os correligionários do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, estão dando uma bola fora atrás da outra em termos de marketing com seu novo partido. O primeiro nome que arranjaram foi Partido da Democracia Brasileira, que dava na sigla PDB. Logo alguém ligou a sigla a outro nome, "Partido da Boquinha", e matou o nome antes do partido ser oficializado.

Os kassabistas logo desitiram do PDB e arrumaram outro nome: Partido Social Democrático. Querem fazer lembrar o antigo partido que foi de Juscelino Kubitscheck — JK é o Bombril da política brsileira: serve pra qualquer coisa.

Mas hoje em dia a sigla pode fazer referência a outro partido também de grande importância na política brasileira. Parece coisa de inimigo. A sigla PSD numa rápida mexida dá PDS, o partido da ditadura.
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POR José Pires

sábado, 19 de março de 2011

Kadhafi, mais um ex-amigo dos Estados Unidos que se vai

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, está em Paris para a reunião de chefes de estado que trata da intervenção na Líbia. Já foi dado o sinal verde para os ataques contra o ditador Muammar Kadhafi. O governo da França informou que seus caças já estão em ação na Líbia. Agora a única dúvida é quanto tempo dura o regime de Kadhafi.

Hillary Clinton está hoje numa reunião contra o ditador, mas há menos de dois anos recebia na Casa Branca o filho dele, Mutassim Kadhafi, representando o governo Líbio. Os Estados Unidos então estreitavam relações com a Líbia, após anos de afastamento.

O encontro com o filho de Kadhafi ocorreu no dia 21 de abril de 2009 e existe até um vídeo muito interessante que mostra a secretária de Estado apresentando Mutassim de forma simpática aos jornalistas credenciados na Casa Branca. Suas amáveis palavras podem ser lidas aqui, no site do Departamento de Estado americano. Foi na mesma ocasião da foto acima. No canto esquerdo as bandeiras dos dois países estão lado-a-lado, grudadinhas, numa simbologia muito bacana. Não há porque estranhar o terno de Mutassim, uma roupa que brilha como se fosse feita de seda e que também parece ter sofrido um encolhimento nalguma lavada. Mutassim é conhecido entre os líbios como um playboy que gasta dinheiro do país em farras no estrangeiro.

Porém, mesmo torrando dinheiro público em Paris, pelo visto nunca deixou de ser um playboy líbio. É provável que na Líbia um terno como este seja visto como elegante.

Mutassim não é pouca coisa. Ser filho de Kadhafi já significa muito na Líbia, mas além de pertencer à poderosa família, ele é conselheiro de segurança nacional. Ocupa um espaço político importante naquele país. Até já tentou demitir o próprio pai, em 1999, enquanto Kadhafi estava fora da Líbia.

Hillary Clinton recebeu o filho do ditador líbio na Casa Branca há menos de dois anos e hoje os Estados Unidos estão prontos para jogar bombas na cabeça de toda a família Kadhafi. Não vou lamentar o final de uma ditadura como a que existe hoje na Líbia, mesmo que o Kadhafi saia do poder apenas em razão de uma mudança ocasional na política das grandes potências, especialmente dos Estados Unidos.

Kadhafi personaliza de tal forma a desgraça que domina os líbios há mais de 40 anos, que não importa como ele vai sair do poder. O importante é que saia. Hoje este país é um estado privado nas mãos de uma família de bandidos. Um dos filhos do ditador, chamado Khames Kadhafi, tem até uma milícia própria, conhecida como Milícia Khames. Dá pra imaginar os crimes cometidos por um governo estabelecido desse jeito. De qualquer forma que seja a derrota de Kadhafi, a Líbia só tem a ganhar.

Mas essas posições tão díspares da política externa dos Estados Unidos mostram que tem algum desconcerto grave neste governo. O Mutassim Kadhafi que pode levar bombas na cabeça a partir de hoje é o mesmo bandido que foi recebido com honras na Casa Branca, mas não é disso que estou falando. Não sou ingênuo para esperar coerência dos Estados Unidos, mas acho que não é demais exigir competência, não é mesmo?

Parece faltar percepção geopolítica num governo que age dessa forma, como se tivesse sido pego de surpresa pelos acontecimentos. Não sou eu que vou me decepcionar com governos americanos recebendo bandidos com pompa e honra, mas a gente fica desconfiada quando a amizade se deteriora assim, em tão pouco tempo.


Serviços de inteligência, esta é a questão
Os americanos têm um sério problema num setor essencial para uma nação que detém tamanho poder. Os serviços de inteligência do governo dos Estados Unidos estão esfrangalhados. Parece que o sistema se fechou numa espécie de nomenklatura que exerce seu papel com incompetência, mas também tem um poder corporativo imenso que dificulta qualquer revisão, mesmo que o reordenamento seja do interesse do homem que está na sala mais importante da Casa Branca.

A culpa por esta terrível falha evidentemente não é de Barack Obama, nem de outro presidente americano em especial. Erram até os que culpam George W. Bush ou os que veem o problema como decorrência de política dos republicanos. Aliás, neste ciclo de decadência dos serviços de inteligência dos Estados Unidos tem até um outro Clinton, o marido da secretária de Estado, o Bill, um presidente que se ocupava dos boquetes de Monica Lewinski, enquanto um homem chamado Osama bin Laden tornava-se uma lenda no Oriente Médio.

É posssível acompanhar a decadência desse servço tão essencial (o da inteligência e não o da senhorita Lewinski) em várias obras, do início do problema que é possível perceber em livros da década de 60, com os de John Keneth Galbraith, até obras recentes que tratam desse assunto. Esse pessoal da Casa Branca precsa ler mais.

Em "De Beirute a Jerusalém", de Thomas L. Friedman, os sevicos de inteligência dos Estados Unidos também não saem bem. O livro de Friedman é uma obra essencial para entender o terrorismo internacional. O único problema da edição brasileira é que a Bertrand Brasil, que se diz editora, mas parece ser apenas impressora, fez aqui uma edição sem índice remissivo.

Existe um livro muito bom sobre a Al-Qaeda escrito por Lawrence Wright, "O Vulto das Torres", em que esta falência dos serviços de inteligência dos Estados Unidos fica muito bem clara. No livro de Wright esta deficiência fica destacada na dificuldade do governo americano para compreender transformações em assuntos de seu interesse. Em "O Vulto da Torres" sabe-se que a incompetência nessa área permitiu o crescimento de Osama bin Laden e sua Al-Qaeda e não permitiu nenhuma defesa e muito menos a previsão sobre o fortalecimento do terror que acabou resultando no fantástico ataque de 11 de setembro.

Bem, se eles não conseguiram perceber nem o Bin Laden fica bem difícil qualquer previsão acertada sobre um país como a Líbia.

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POR José Pires

sexta-feira, 18 de março de 2011

O lobby nuclear partindo pra cima

Em meio à crise nuclear japonesa provocada pelo acidente na usina de Fukushima o lobby nuclear se movimenta inclusive no Brasil. E como rola muito dinheiro nessa área os interesses são muito fortes. O governo do PT reativou as usinas nucleares de Angra dos Reis depois delas ficarem paradas durante 23 anos. E já está em andamento a construção de mais quatro usinas em diferentes estados.

Com o acidente em Fukushima, em países onde a população tem mais poder de influência sobre suas lideranças a tendência é que os projetos nucleares sejam repensados, até com possível desistência da construção de novas usinas.

O acidente nuclear no Japão também já começa a mudar bastante as preocupações com segurança nos países com usinas em funcionamento. Em qualquer lugar em que a opinião pública exerce forte pressão sobre seus dirigentes a relação com a energia nuclear não será a mesma de antes de Fukushima, principalmente no tocante à segurança.
A coisa é tão grave que até políticos como a chanceler alemã Angela Merkel, que de verde não tem nada, mas nada mesmo, estão agindo com mais rigor neste assunto. Merkel suspendeu o plano que estendia o prazo de vida de usinas nucleares no país. E esta extensão era uma decisão de seu próprio partido.

A China suspendeu a aprovação de todos os projetos de usinas nucleares, mesmo os que já estavam nos estágios iniciais. Todas vão passar por uma revisão dos padrões de segurança. Também passará a haver a exigência de segurança em todas as usinas já existentes.

Este maior cuidado com os programas de energia nuclear necessariamente vai implicar em maiores custos, o que pode afetar os lucros da empresas do setor, todas multinacionais e de grande poder econômico.

Uma conseqüência imediata será a busca dessas empresas por mercados mais maleáveis. Isso já acontecia antes de Fukushima, com os fortes lobbies atuando para abrir espaços em países onde a classe dirigente permita maiores lucros com menores exigências.

Para se instalar com menos incomodações, as empresas do setor são capazes de pagar cientistas e estudiosos de várias áreas para emitirem opinião favorável ao uso de energia nuclear. É verdade que alguns acadêmicos e intelectuais fazem isso de graça e até com certa ingenuidade, como se o debate de um tema como esse estivesse sendo estabelecido da forma mais democrática.

As empresas não podem se arriscar com esse tipo de coisa. Então, o debate é muito bem azeitado por elas com especialistas que até interpretam um papel de independência para dar mais credibilidade ao uso da energia nuclear.

Compram-se também os políticos, é claro. E, nesse caso, aqui no Brasil o lobby nuclear não terá dificuldade alguma. Aliás, pelo que se vê parece que já não está tendo.

Político brasileiro se presta a todo tipo de serviço. Se o pagamento for bom, tem gente no nosso Congresso que é capaz até de ter atitudes patrióticas. E no caso da corrupção brasileira isso pode ser até uma elevação de categoria. O patife pode passar da atividade ordinária de roubar dinheiro da saúde pública e elevar de status como corrupto nuclear.
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POR José Pires

Aguenta, Brasil: vem aí a corrupção atômica

O governo do PT reativou o Programa Nuclear Brasileiro, que já estava há mais de duas décadas parado, e pretende ampliar perigosamente o número de usinas. Mas o que fez esse pessoal que era adepto de soluções mais naturais para os problemas brasileiros ficar com essa animação com a energia nuclear? Bem, uma pista é a previsão de gastos apenas em Angra 3: 7 bilhões de reais. Imagine o que não vai render as próximas quatro.

O problema é que tipo de usina nuclear o Brasil terá com o baixo nível de exigência que o governo petista já mostrou em outras ocasiões, inclusive abolindo leis reguladoras para favorecer grandes empresas, como Lula fez na compra da Brasil Telecom pela Oi. Com a capacidade que essa gente já mostrou para tocar obras muito menos arriscadas, tem que ter má-fé ou ser maluco para expressas otimismo com o que pode vir por aí.

E nunca é demais destacar a partir de que tipo de liderança que um programa desses existe. Quem comanda o ministério de Minas e Energias é Edison (Yo soy la garantia!) Lobão, do grupo de José Sarney, o homem que há oito anos detém o poder na área da energia. Sarney é quem manda num ministério de tamanha importância.

E nem acho que a dificuldade do Brasil em lidar com algo tão perigoso como a energia nuclear seja em razão do governo ser do PT ou de ter Lobão comandando todo o processo. O Lobão logo mais sairá do cargo e o PT também não é eterno, mesmo que eles queiram tanto que até fizeram um mensalão para isso.

Nosso problema é o conjunto das forças políticas, deteriorado a tal ponto que hoje em dia não se cumpre nem certas formalidades para ao menos disfarçar o fato do país estar entregue a uma corja de patifes. Pode-se constatar nas atitudes mais variadas do nosso Congresso, a começar pela permanência de Sarney à frente do Senado depois da comprovada corrupção que é base de sua carreira política.

Cito o senador do Maranhão eleito pelo Amapá apenas como um exemplo de forte carga simbólica do estado a que chegamos, mas basta dar uma olhada em todo o Congresso para ver que sobram poucos ali que prestam e mesmo estes não seriam confiáveis para lidar com áreas de muito risco.

Sinceramente, o que nós não precisamos de forma alguma é que essa gente passe também a fazer suas velhacarias e trapalhadas com energia atômica.
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POR José Pires

Yes, nós já temos lixo atômico

Sobre a segurança do Programa Nuclear Brasileiro tem algumas histórias que não trazem nenhuma confiança no que temos aí, a começar por uma primeira delas, ainda no início da construção da Usina de Angra dos Reis, em 1978. Vivíamos na ditadura militar, num clima em que a segurança era algo muito especial para os militares.

Foi uma reportagem da extinta revista Repórter Três (excelente, mas que teve apenas uma edição) que mostrou que no Brasil era muito difícil ter barreiras de sigilo, mesmo num projeto cercado de mistérios como foi o Programa Nuclear.

O jornalista Caco Barcelos, começando na carreira, entrou na Usina de Angra da forma mais simples: pegou um emprego como operário da mais baixa categoria na obra e passou dias vendo e anotando tudo que havia no projeto mais secreto da ditadura militar. A ótima chamada de capa da revista (veja acima) mostrava o que seria possível acontecer se o Caco Barcelos não estivesse na obra só para fazer uma reportagem: "Sabotamos a Central Nuclear".

A energia nuclear é algo caro e extremamente perigoso, como foi possível ver em Fukushima, mas o risco já é do conhecimento mundo há pelo menos três décadas. Este não é o primeiro acidente nuclear grave e é impossível qualquer governo garantir que seja o último.

O que há de mais preocupante na energia nuclear não é só o risco de acidente numa usina, mas também a geração de lixo atômico dentro do processo normal de funcionamento de uma usina.

Ninguém sabe como resolver este grande problema da energia nuclear. O lixo radiativo permanece perigoso por centenas de milhares de anos.

No que diz respeito ao destino do lixo atômico, há anos que o Greenpeace vem alertando que o Programa Nuclear Brasileiro trata o assunto de forma provisória. Nesta semana, surgiu uma revelação gravíssima sobre o lixo atômico da Usina de Angra dos Reis e que infelizmente não vem recebendo o merecido destaque na imprensa.

Em seu Ex-blog, distribuído pela internet, o ex-prefeito do Rio, Cesar Maia denunciou que nas Usinas Nucleares de Angra o lixo atômico fica em caixas de chumbo depositadas em prateleiras de um galpão como num supermercado.

Para mostrar a gravidade do problema, Maia narra a visita anterior feita por um grupo de brasileiros às Usinas Nucleares da Alemanha, da Siemens. E faz a comparação com o método do governo brasileiro.

Na usina alemã os brasileiros só entraram com identificação um a um, feita fora da usina. Foram feitas fotos de todo mundo, houve um encontro em uma sala reservada com o oferecimento de informações. Entraram todos com os uniformes de segurança, que terminada a visita foram incinerados.

Mesmo com o rigor que foi visto pelos brasileiros, na época dessa visita a forma de armazenamento feito pela usina ainda não havia sido aceita pela corte suprema alemã.

O lixo atômico alemão fica numa antiga mina de sal. O grupo desceu de elevador por 800 metros.

Lá embaixo, caixas de chumbo lacradas são colocadas no meio do sal, que se fecha em torno das caixas como pedras, obstruindo qualquer risco de contato com o ar. E repito que o processo ainda estava sob a avaliação da corte suprema, mesmo com toda essa segurança.

De volta da viagem, o grupo foi visitar as Usinas Usinas Nucleares de Angra dos Reis, quando viram o lixo atômico depositado em prateleiras.

O acesso foi feito sem cuidados especiais coma identificação. Na mesma sala de recepção foram dadas as informações e vestidos os uniformes.

As tais prateleiras com o lixo atômico estão num galpão a 200 metros do prédio da Usina. Conta o ex-prefeito Maia o que viram lá: “Mas o susto maior veio quando foi pedido para se conhecer a área de depósito de resíduos nucleares. São caixas de chumbo como na Alemanha, mas depositadas em prateleiras de um galpão como num supermercado”.

No texto em seu Ex-Blog, Maia ainda sugere que, “no mínimo, caberia ao Congresso Nacional constituir, urgente, uma comissão especial e visitar esse depósito, ou outro local de depósito das caixas de chumbo dos resíduos nucleares”, mas aí voltamos à questão da baixa qualidade política a que chegamos.

E o fato é que se tivéssemos um Congresso decente o tratamento do lixo atômico numa usina brasileira não estaria sendo feito dessa forma. Bem, com políticos decentes talvez nem tivéssemos usinas nucleares.

E se for para fazer uma visita como essa alguém duvida que o governo do PT não vá mexer os pauzinhos para criar uma comissão que mantenha tudo como está? Claro que vai. Não é difícil até que peguem uns mensaleiros para fazer o serviço.
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POR José Pires

quinta-feira, 17 de março de 2011

Agora vai

Em razão da crise nuclear japonesa, com o acidente em Fukushima, já devem estar surgindo na internet propostas de campanha contra o Programa Nuclear Brasileiro. Mas já vou avisando: esse negócio de rede social, twitaços, movimentações no Facebook, no Orkut, essas coisas todas, tudo isso é muito bacana. Porém, não se deve esquecer que sem tropas amigas para neutralizar pelo menos a aviação do adversário, nada feito.

Mas, voltando à idéia da campanha contra o Programa Nuclear Brasileiro, como sou do contra acabei de bolar uma campanha a favor. Está aí ao lado. Vamos à luta, pelo Programa Nuclear Brasileiro
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POR José Pires

Já tem serviço pro Lupinho vindo do Japão

O governo mostra preocupação com a falta de peças e partes de eletroeletrônicos comprados do Japão. Segundo informação do Ministério do Desenvolvimento, empresas da Zona Franca de Manaus manifestaram preocupação com um possível desabastecimento nas próximas semanas.

Francamente, não faz sentido que esse tipo de preocupação seja trazido para a opinião pública, quando dentro do próprio governo está um especialista sobre as consequências da tragédia no Japão, que junta terremoto, tsunami e acidente nuclear, além de um inverno rigoroso.

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi (o Lupinho da Dilma), pode muito bem dar um jeito nesse desabastecimento e em outros problemas que vierem pela frente. E ele garante que o Brasil vai ganhar com o que aconteceu no Japão. Vão lá, pô! É o Lupinho que tem o mapa da mina.
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POR José Pires

Japão: o medo da radiação e a coragem de quem ainda está na usina de Fukushima

O acidente nuclear no Japão está por um fio de uma tragédia nuclear. As autoridades japonesas tentam aparentar um controle da situação, mas vários países muito interessados no assunto porque podem sofrer conseqüências do que acontecer no Japão já deixam claro que é difícil retomar o controle sobre os reatores.

O governo dos Estados Unidos já havia recomendado pela embaixada em Tóquio que os cidadãos americanos guardem uma distância de 80 quilômetros do epicentro do complexo de Fukushima. Autoridades americanas também já disseram que ante uma situação semelhante os Estados Unidos agiriam como maior precaução que os japoneses e estabeleciariam uma zona de evacuação bem maior que o raio de 20 km, depois ampliado para 30 km.

França, Alemanha, Inglaterra, Colômbia, México e Índia também recomendam a seus cidadãos que saiam de Tóquio. Esses países já tem prontos aviões para retirar seus cidadão por causa do risco nuclear.

Em Fukushima a luta é desesperada na tentativa de evitar a fusão dos reatores. As operações consistem em jogar água com caminhões cisterna e também usando helicópteros. O trabalho para evitar a tragédia na central já faz vítimas entre os trabalhadores. 19 trabalhadores foram feridos e 20 foram expostos à radiação. Dois estariam desaparecidos. Ficar exposto na situação exigida pelo trabalho dos responsáveis pelo esfriamento do reator dificilmente deixa de ser mortal.

Ontem o diretor da principal reguladora nuclear dos Estados Unidos dizia durante audiência do Subcomitê de Comércio e Energia da Câmara dos Deputados que os níveis de radiação ao redor da usina nuclear japonesa ameaçavam de forma letal os agentes de emergência.

Segundo Gregory Jaczko, da Comissão Reguladora Nuclear, haveria dificuldade de chegar perto dos reatores por causa desse alto nível de radiação. As doses a que os agentes de emergência poderiam ser submetidos “seriam potencialmente letais num curto período de tempo".

Para se ter uma idéia do risco, nenhum dos homens que há 25 anos trabalharam na emergência do acidente nuclear de Chernobyl está vivo. O grupo de emergência que trabalha na usina atômica japonesa já é comparado aos 47 samurais (os rônins), lenda histórica do Japão. Estes seriam “ronins” modernos.

Não discuto sobre a coragem necessária para fazer um serviço desses, mas existe um risco danado nesta visão romântica sobre homens que provavelmente estão ali apenas por uma imposição profissional. O senso de dever evidentemente é admirável, mas uma história de heróis nesse momento pode vir para ajudar os lobbystas nucleares e dirigentes japoneses fugirem às suas responsabilidades.
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POR José Pires

Bem longe de Fukushima, o lobby nuclear está com toda a energia

Enquanto os japoneses enfrentam a crise nuclear, aqui, bem longe de qualquer risco, o lobby nuclear age para evitar o aprofundamento de um debate entre os brasileiros sobre os riscos do projeto nuclear brasileiro. É possível obter energia a partir de fontes limpas e, claro, também sem o risco letal da energia nuclear, que não está apenas nos problemas que podem ocorrer em uma usina, mas também na difícil destinação do lixo atômico e também na mineração para obter o urânio. É todo um ciclo perigoso, do início ao fim, mesmo que não aconteça um desastre como o de Fukushima.

O governo do PT retomou o projeto nucelar depois de 24 anos parado. O nível de eficiência foi elevado às alturas anteontem pelo ministro Edison Lobão, do ministério de Minas e Energias. Segundo ele foram feitos até estudos sobre o comportamento das marés na região por um período de mil anos. Vou repetir, é isso mesmo: mil anos. Eita nóis! É a única usina atômica do mundo com mil anos de garantia.

Hoje quem apareceu para defender o uso de energia atômica foi Aloizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia. Para ele, as usinas brasileiras “foram bem construídas” no cenário de riscos do Brasil. “Nossa engenharia é a mais segura”, ele disse. Ou seja, estamos muito melhores que o Japão em energia nuclear.

Bem, para confiar no que diz Mercadante, teríamos que acreditar que os nossos japoneses são mesmo melhores que os deles, o que é só peça de propaganda. A energia atômica é ingovernável. Esta é uma lição do acidente em Fukushima e uma repetição de outros acidentes do passado, inclusive problemas menores com usinas atômicas no próprio Japão que foram escondidos pelas autoridades. E com um desastre nuclear não dá para revogar o irrevogável, como já fez Mercadante com a própria palavra e numa situação de menor — mas infinitamente menor — risco.

O lobby nuclear é forte e com uma capacidade muito grande de ocupação da mídia. Já li muita argumentação leviana sobre o assunto, sempre partindo de uma inverdade no caso brasileiro: de que em nosso país é indispensável o uso da energia nuclear.

São muito interessantes as frases de efeitos que surgem, com comparativos que são engraçados mesmo numa situação trágica dessas. Numa matéria publicada logo depois do acidente, um defensor da energia nuclear disse que os trens na região de Nakashima foram destruídos pelo terremoto, mas não seria por isso que as ferrovias deveriam ser abolidas.

Bem, se um acidente com trens tivesse como conseqüência a contaminação por radiação atômica de vasta região, certamente o uso de ferrovias seria inviabilizado como meio de transporte.

Outra comparação engraçado foi feita por um cientista do Instituto de Engenharia Nuclear da CNEN. Não vou dar o nome, até porque para o azar dele sua declaração saiu no pé da matéria em que o ministro Lobão defende o projeto nuclear brasileiro com um ardor semelhante às defesas da honra do seu padrinho José Sarney.

O cientista, que é também é vice-coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Reatores Nucleares Avançados... ah, então vou dar o nome: Paulo Augusto Berquó de Sampaio comparou o desastre nuclear de Fukushima com algo parecido acontecendo com a usina de Itaipu.

Ele disse o seguinte: “A energia nuclear tem contribuído muito, inclusive para reduzir emissões de gases do efeito estufa e vejo, apressadamente, surgirem argumentações injustas. Já imaginou o que aconteceria com Itaipu diante de um terremoto de 9 graus? Seria uma catástrofe”.

Vejam que ele usa na argumentação um terremoto bem grande na região de Itaipu. Deve ser para ampliar o efeito retórico. O do Japão, que é um lugar de muitos terremotos, foi um pouco menor que isso. E mesmo assim foi o maior já visto por lá.

Mas vamos ficar com esse terremoto de 9 graus em Itaipu. Bem, se for essa mesma Itaipu que temos aí, concordo que seria uma catástrofe. Mas haveria como remediar os danos, mesmo que levasse muito tempo.

Porém, se o terremoto de 9 graus ocorresse numa Itaipu nuclear, bem, aí talvez o lobby viesse com um outro desses argumentos de peso. Talvez o dos trens da região de Fukushima.
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POR José Pires