sábado, 9 de abril de 2011

As sandices que Lula quer deixar pra trás

Que Muammar Kadhafi já está com o seu destino selado é muito óbvio. Porém, se alguém ainda tivesse alguma dúvida, logo se convenceria da desgraça do ditador líbio ao saber que o ex-presidente Lula já está renegando o velho amigo do peito.

Lula até perdeu a compostura quando a jornalista Denise Chrispin Marin, correspondente do Estadão em Washington, chamou a sua atenção para a fraterna amizade que sempre teve com Kadhafi. Lula estava bravateando sobre sua disposição para mediar o conflito na Líbia quando a jornalista lembrou que em dezembro de 2003, em visita oficial à Líbia, ele se referiu ao ditador como "companheiro e amigo".

Lula se irritou com a questão e disse para a jornalista: "Não fale uma sandice dessas. Conheço as pessoas e sei como me referi a elas”. Lembra bastante o velho Lula que em 2004 quis expulsar do país o correspondente do New York Times, Larry Rother. E o jornalista americano Rother nem havia publicado uma grande revelação sobre o governo petista. Ele apenas escreveu em um artigo que Lula bebia demais.

Na resposta à jornalista do Estadão, Lula ainda completou com uma afirmação clara de que Kadhafi é mais um amigo largado no caminho: "Eu jamais falaria isso por uma razão muito simples: porque eu tenho discordância política e ideológica".

A notória memória seletiva do Supremo Apedeuta continua tinindo. Ele só lembra o que interessa no momento e descarta até amigos próximos quando lhe convém. Kadhafi não deve se deixar abater. Há uma longa fileira de amigos que seu amigo Lula deixou pra trás.

Nada comove seu coração, nem situações trágicas, como a tortura e assassinato de gente próxima. A família do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, pelejou para que ele ajudasse no desvendamento da morte do amigo que era para ser seu braço-direito no governo, mas botou ele uma pá de cal sobre o assunto.

Lula também deixou para trás o ex-prefeito Toninho do PT, morto a tiros em Campinas, em setembro de 2001, quando era prefeito da cidade. Neste caso, Lula se negou a atender até aos apelos da viúva de Toninho do PT para que o crime fosse investigado com mais profundidade.

Portanto, o ditador da Líbia não é o primeiro e nem será o último chegado que Lula. E isso porque há cerca de um ano e meio, ele foi bem mais afetivo com o ditador líbio do que na situação anterior lembrada pela jornalista do Estadão.

Escrevi sobre isso aqui. Lula esteve novamente na Líbia e é possível ver nas fotos o encantamento de Lula pela figura do ditador. Mas não podemos esquecer que então Kadhafi parecia tão poderoso que ninguém conseguiu prever que em menos de dois anos ele estaria na situação periclitante de agora.

No encontro da Cúpula da União Africana, em julho de 2009, Lula chamou Kadhafi de "irmão, amigo e líder". Cercado de ditadores africanos, inclusive do anfitrião do encontro, que aconteceu na Líbia, Lula esteve presente como convidado de honra.

Na visita anterior, de 2003, o petista recebeu também a condecoração Al Fateh, a mais importante do governo líbio. O nome é uma homenagem ao movimento que levou Kadhafi ao poder em 1969. Seria interessante saber o que Lula pretende fazer agora com esta alta condecoração que sofre uma baixa histórica das mais pesadas. Não é material que Lula vá expor na sua fundação. A não ser que ele quisesse contar sua história de forma verdadeira. Mas isso ele já disse que acha uma sandice.
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POR José Pires

sexta-feira, 8 de abril de 2011

As chacinas do bom senso

A chacina na escola do Rio de Janeiro é um horror. Isso é um fato. Mas é bom lembrar que neste exato momento muitas crianças estão sendo feridas ou mortas neste país de 50 mil homicídios por ano. É um drama que raramente chega às manchetes, mas é persistente, um horror do dia-a-dia com inocentes sofrendo violência pelas mãos de bandidos, de milícias formadas por bandos paramilitares e também pela ação da polícia, em torturas e assassinatos cometidos às escondidas.

Por isso, quem não sofre de perto a dor vivida na escola do Rio onde aconteceu o ataque de Wellington Menezes de Oliveira deveria ter a consciência de não usar um acontecimento tão brutal para alavancar seus interesses.

Sempre que ocorre uma grande violência no Brasil, logo surgem os trucidadores do bom senso. Demagogos já puxam das gavetas campanhas que pouco ou nada têm a ver com esta matança. A volta da campanha pelo desarmamento é de um oportunismo que se destaca, mas tem muito mais. Já surgem até propostas de instalação de detectores de metais nas portas das escolas. Os vendedores desse tipo de equipamentos devem estar babando de contentamento e sempre vai ter um vereador disposto a fazer disso uma lei.

Foi também a pretexto de maior segurança que o Brasil foi tomado por câmeras de vídeo. E cada vez que ocorre um crime na frente de uma dessas maravilhas a gente vê que sua serventia não vai muito mais além do que encher o bolso de empresários do ramo.

Se dependesse das câmeras de segurança da escola onde ocorreu a chacina, não seria possível nem a identificação do assassino. As imagens não servem nem para aumentar a audiências das televisões. NO entanto, gasta-se com ilusões como esta um dinheiro que a Educação não tem para usos básicos.

Dá pra entender as lágrimas da presidente Dilma Rousseff. A tragédia emociona mesmo. Mas é de estranhar que tenha havido menos emoção com as mais de mil mortes na tragédia de Teresópolis. Muitos “brasileirinhos” morreram ali também. E Dilma deu apenas uma passada rápida por lá, antes de ir para a capital carioca posar segurando uma camisa do fluminense junto ao sorridente governador Sérgio Cabral.

O governo petista já tinha planos de voltar com o papo do desarmamento, mas a chacina acelerou a colocação em prática do projeto. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse hoje que uma nova campanha pelo desarmamento será lançada.

Este é um governo muito estranho, de um governo idem. Já se foram cem dias do primeiro ano do governo Dilma, que pode ser computado como o nono ano do PT no poder e o que sai do Ministério da Justiça é a volta da ladainha do recolhimento de armas.

Não há nenhum plano consistente de ataque da violência cotidiana que sofrem todos os brasileiros e que já toma até cidades menores e antes pacatas. Nenhuma medida contra as torturas e maus tratos nas prisões brasileiras, já comparadas por especialistas com a Idade Média, o que eu acho uma tremenda injustiça com a Idade Média. Também não se faz nada contra a violência policial contra os cidadãos e o domínio das milícias em parcelas cada vez maiores das nossas cidades, domínio paramilitar mantido com a conivência e muitas vezes até parceria da nossa polícia.

Em política fala-se muito do tal de fazer o “dever de casa”. No Ministério da Justiça isso não foi feito em nove anos de PT no poder. E o ministro Cardozo nem pode alegar que não teve tempo para se inteirar dos assuntos da pasta, já que foi deputado por mais de uma década antes de pegar o cargo.


Dever de casa é com o Departamento de Estado dos EUA
Mas se é por falta de tempo, o ministro podia começar com os problemas levantados pelo relatório do governo dos Estados Unidos sobre as violações de direitos humanos no Brasil. Foi divulgado hoje e grande parte do serviço por fazer está lá. É seu dever de casa.

O governo americano fala em violência por parte da polícia, falhas no julgamento de policiais corruptos e na proteção de testemunhas, tortura de detentos, condições "deploráveis" de prisões, discriminação contra mulheres, tráfico de pessoas, trabalho escravo e infantil e maus tratos de crianças.

O relatório cita vários casos de torturas feitas por policiais e obviamente descreve apenas os documentados, mas o ministro tem o conhecimento de como essas coisas são pouco documentadas por aqui. E também são cada vez menos denunciadas, pois o brasileiro sabe que raramente ocorre qualquer punição e que testemunhas e denunciantes terminam sempre indefesos.

E tem mais. Segundo os americanos, os violadores de direitos humanos no Brasil "gozam com freqüência de impunidade", com uma manifesta "relutância e ineficiência em processar funcionários do governo por corrupção, discriminação contra indígenas, mulheres e violência contra crianças, incluindo o abuso sexual".

É uma leitura boa para um final-de-semana. E na segunda-feira o trabalho pode começar com tudo. Se o ministro ainda não viu o relatório, está aqui.

O relatório do Departamento de Estado não fala da corrupção política. Não é seu tema. Mas isso não fará falta ao ministro, que até deixou de disputar a reeleição para deputado alegando que discordava completamente da forma que a política estava sendo feita no país.

O relatório tem como uma de suas fontes a Anistia Internacional, entidade que dispõe também de farto material de leitura para o nosso ministro. Enfim, serviço é o que não falta para o Ministério da Justiça. Nem é preciso usar a morte de crianças para trazer novamente temas superficiais sobre a violência no Brasil.

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POR José Pires

Tarefa maior

Com a matança das crianças dentro da escola no Rio de Janeiro, fala-se bastante como fazer das nossas escolas um lugar mais seguro para as nossas crianças. Na verdade a tarefa é tornar o entorno das escolas um lugar mais seguro. E esta área ao redor de onde estudam nossas crianças vai das fronteiras com a maioria dos países sul-americanos até o oceano Atlântico.
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POR José Pires

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Dilma dá carona em avião. E também disso ela de nada sabia

Durante a visita do presidente Barack Obama ao Brasil, vários ministros reclamaram do rigor da segurança americana. As autoridades brasileiras tomaram geral dos gringos. Além de todos serem revistados, foram escoltados pelos seguranças americanos até o local do evento com a presença de Obama.

Este falso orgulho dos nossos políticos não causa surpresa. Ninguém fica surpreso também que nenhuma deles vá além da queixa ao jornalista que está ao lado. Escrevendo sobre o assunto aqui, destaquei que isso mostrava que os americanos deviam saber muito bem com quem estavam lidando. Concordando que "não há outro jeito, senão revistar essa gente", comentei também no post que certamente os americanos conhecem bem o modo como se formam os governos no Brasil e, por isso mesmo, sabem que controle aqui é zero.

Pois hoje se noticia que andaram pegando carona no avião da Presidência da República sem o conhecimento da presidente Dilma Rousseff.

A notícia é do Estadão: “O comandante do avião da Presidência da República, coronel Geraldo Corrêa de Lyra Júnior, infiltrou uma amiga nos vôos de ida e volta que levaram Dilma Rousseff para descansar em Natal (RN) no carnaval. O episódio abriu uma crise no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), responsável pela segurança da presidente. O coronel botou no avião presidencial a professora de educação física Amanda Correa Patriarca, irmã de Angélica Patriarca, comissária da mesma aeronave”.

A situação é bem grave. O coronel Lyra Júnior comanda também a base aérea de Brasília. A passageira convidada do coronel viajou com Dilma, sem que a presidente soubesse de nada. Foi passar o Carnaval em Natal, onde ficou quatro dias.

Mas tem coisa pior ainda neste caso. O deslize cometido pelo comandante da Base Aérea de Brasília e do avião em que viajava a presidente da República só acabou sendo revelado porque funcionários contrariados com sua atitude despacharam a mala da oitava passageira diretamente para o gabinete da presidente da República, para que o caso fosse descoberto pelos assessores próximos à Dilma.

E se governo tomar alguma decisão neste assunto, será só porque a imprensa foi atrás da grave falha. No Brasil atualmente é assim: só a imprensa é que busca conferir como anda a administração pública. Nossos políticos sempre estão ocupados demais com outros assuntos. Atualmente a pauta é o bate-boca entre o deputado Bolsonaro e a Preta Gil.

Mas a repercussão do caso do coronel que deu carona à amiga no avião presidencial deve afetar não só a segurança da presidente brasileira. Nessa hora a informação sobre a facilidade de entrar em um avião presidencial no Brasil já deve ter caído em mesa muito mais importante que a da Dilma.

Além de comandar a Base Aérea de Brasília e o avião presidencial, o coronel Geraldo Corrêa de Lyra Júnior foi quem recebeu o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na base aérea de Brasília.
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POR José Pires

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Bolsonaro: assunto para fugir de outros assuntos

É espantosa a quantidade de heróis que surgiram na enxurrada de absurdos que vieram com o episódio do bate-boca entre o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) e a cantora Preta Gil no programa CQC.

O episódio tem servido muito bem para os petistas fugirem do assunto político que realmente importa no momento, que é o reforço do caso do mensalão do PT trazido pelo relatório da Polícia Federal. Já estava claro o risco que o mensalão trouxe para a democracia brasileira, mas este relatório final revelado pela revista Época destrói de vez lorotas como a de Lula ou de seu ex-capitão, o deputado cassado José Dirceu, que anunciaram juntos que o mensalão seria uma farsa.

É óbvio que já foi definida em alguma reunião de chefes petistas a tática de esquentar o assunto do CQC. O petista que ocupa o cargo de presidente da Câmara dos Deputados tem usado bastante essa via de escape. Marco Maia, este o nome do deputado gaúcho que até então era um desconhecido, deveria estar ocupado com colegas como o deputado Vicentinho, um dos acusados no relatório da PF, ou com outros petistas mensaleiros que estão se dando bem no Congresso. Mas não. Maia agora só fala no caso Bolsonaro, em homofobia e racismo.

O deputado cassado José Dirceu é outro que não pensa em outra coisa. Seu assunto é o Bolsonaro. É uma pena, pois como chefe da quadrilha do mensalão, como é descrito no inquérito do mensalão que está no STF, Dirceu tem muito mais a ver com o mensalão do que com o Bolsonaro ou a Preta Gil.

O deputado Bolsonaro já falou coisas muito piores do que as bobagens que soltou no CQC. Deveriam ter se ocupado há mais tempo dele quando suas falas estimulavam a violência, como aconteceu em várias entrevistas. Mas o momento agora é bem mais apropriado, não é mesmo? Mas é bom lembrar que, ao que se sabe, Bolsonaro ainda não se meteu em maracutaias com dinheiro público, como é o caso de tantos colegas de Maia, inclusive o ex-capitão do Lula. Por então o presidente da Câmara não cuida disso?

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POR José Pires

Até as cotas raciais no meio da fofoca

Na discussão pública que veio depois do qüiproquó na TV entre o deputado Bolsonaro e a Preta Gil o assunto é desviado também para o interesse de grupos de lobbies que se aproveitam da questão racial e também do homossexualismo.

A militância de movimentos negros alinhados ao governo está adorando o caso. E um episódio que é basicamente de fofocagem é colocado de forma artificial até no centro da discussão das cotas raciais. O debate sobre as cotas raciais deveria se concentrar em algo mais profundo que discutir se o piloto do avião foi aprovado pelo sistema de cotas, mas quem é que vai perder tempo aprofundando o tema com o Bolsonaro facilitando dessa forma a manipulação do debate?

Acompanho bem esta discussão e vejo que os que são contra as cotas raciais apresentam argumentação consistente, enquanto os defensores da cota procuram dar ao debate um clima emocional. Os adeptos das cotas estão também o tempo todo tentando demonizar os adversários. Já vi até argumentações absurdas falando de um “apartheid” nesta questão. Um tal de “privilégios dos brancos” já foi aventado como um dos demônios contrários aos direitos dos negros. Na verborragia absurda desses movimentos apareceu até uma “elite branca” no país. Vou falar mais dessas coisas depois.

Nada melhor que um Bolsonaro para uma militância grudada em cargos no governo federal e também nos estados e municípios ou em favores diversos. Colocar uma figura execrável como Bolsonaro entre os que são contra as cotas raciais facilita muito as coisas. É a figura ideal para que se cole o rótulo de racista aos que buscam esclarecer este sistema.

E eles sabem que Bolsonaro não tem nada a ver com esse assunto, mesmo agora com essa novidade de ter um cunhado negro. Mas quando é que vai aparecer outra chance dessas para eles tacharem de racistas os adversários?

Mas tem mais gente tirando sua casquinha, sem nenhuma diferença de cor. Branquelos e negrões, todo mundo quer um ganho. O pessoal do CQC está estourando de satisfação com o caso. Marcelo Tas até protagonizou um momento-verdade nessa semana, com a revelação de que sua filha é gay.

No país da piada pronta, nada como um momento-verdade num programa de humor. Só faltou uma música de fazer rolar lágrimas no fundo quando Tas contou aos telespectadores sobre sua filha.

Bem, mas se está aumentando a audiência do programa, então está valendo à pena. A propagação do vídeo na internet foi grande, o que garante um bom reforço na marca do programa. Daí para o selinho na Hebe é um pulo.

O momento-verdade pode servir também para buscar credibilidade para um programa que tem como base o constrangimento alheio e que ajuda a disseminar uma rede de fofocas sobre políticos, artistas e outras personalidades.

Nesta história o CQC como paladino da luta contra o preconceito é a única piada que conta. O que o programa mais faz é alimenta preconceitos. Além das situações agressivas que criam para as vítimas que caçam em festas, shows, lançamentos ou qualquer outra atividade que junte nomes famosos. A receita é irritar as pessoas até que elas tomem atitudes insensatas que sirvam para o programa fazer sucesso.

Recentemente o CQC fez humor atiçando a suposta rivalidade entre brasileiros e argentinos. Fizeram uma ligação com a visita de Barack Obama ao Brasil quando, segundo a peça de “humor”, Marcelo Tass teria recebido uma caixa do presidente americano. Quando apertam um botão na caixa surge uma jornalista apresentando um noticiário extra informando que aquilo havia disparado um míssil sobre Buenos Aires.

Se isso não é estimular preconceito, então não existem mais limites sobre a responsabilidade de quem usa um meio de comunicação tão influente. Quem é sério não trabalha sobre esses mitos de rivalidade coletiva. E, além disso, nem é engraçado. Assim como não é engraçado um bate-boca entre um deputado e uma cantora. E tem tanta gente assim que acha bacana ficar vendo pessoas sofrendo constrangimento?

Nem tanto. Com Bolsonaro ou sem Bolsonaro, o CQC fica sempre pela média de cinco pontos em São Paulo. No resto do país a TV Bandeirantes tem menos audiência ainda.

Com a tentativa de fazer graça, o CQC também fez desmoronar a credibilidade do jornalismo da emissora, que aceitou colocar um material no ar igualzinho às edições extras de sua programação jornalística.

É claro que não vou situar a má-qualidade da TV Bandeirantes apenas no que o CQC tem feito. Seria desmerecer o esforço de anos da direção dessa rede de emissoras para oferecer porcarias para seus telespectadores. Mas fazer piada com seu próprio jornalismo é um sinal de que também lá dentro não levam a emissora a sério.

É muito moderninho e faz bem para a fama de Marcelo Tas aparecer revelando ter uma filha lésbica. Também pode parecer que um gesto desses cria tremendos avanços sociais, mas a verdade é que o conjunto do programa que ele dirige é bem retrógrado, apesar de ter um verniz supostamente iconoclasta. Basicamente é a exploração do constrangimento alheio.

É uma ética bem estranha e tremendamente particular essa de ter um programa que no grosso busca audiência em cima do constrangimento e expondo as pessoas em bate-bocas grosseiros, mas que de vez em quando se dá ares de tribuna dos direitos civis.

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POR José Pires

O ex-BBB que virou deputado aumenta seus quinze minutos de fama

Outro político que apareceu para faturar com o enrosco em que o Bolsonaro se meteu foi o deputado Jean Wyllys. Não me lembrava dele, mas ele também nunca fez algo que mereça estar na memória.

Wyllys ganhou fama quando levou o prêmio de 1 milhão de reais no Big Brother Brasil. Naquele programa, o agora deputado se destacou usando sua condição homossexual. Os outros não tinha esse diferencial e foram dançando a cada programa, até o final em que Wyllys faturou o grande prêmio.

Não vou entrar no mérito sobre as atitudes do deputado no BBB e nem vou discutir o que aquilo significou para os direitos civis, mas o fato é que nada disso faria elevar o programa BBB do nível cultural de sarjeta em que ele sempre esteve. Aliás, uma sarjeta altamente lucrativa.

Jean Wyllys virou deputado só por conta do critério de proporcionalidade dos votos. Ele é deputado foi eleito pelo Psol do Rio de Janeiro, onde a sigla está nas mãos de Chico Alencar, que teve uma grande votação para deputado federal que acabou levando também Wyllys para a Câmara.

Alencar é um desse caciques de extrema-esquerda que tem o controle de um partideco, com isso conseguindo bastante um espaço praticamente exclusivo para trabalhar sua imagem. Em cada estado o Psol tem um dono. No Rio, o partido teve como atividades marcantes recentes a participação na campanha para que o italiano Cesare Battisti fique livre no Brasil e a manifestação contra Barack Obama, quando teve militantes presos.

A candidatura de Wyllys no Psol nasceu do mesmo jeito de tantas outras nos vários partidos picaretas que temos. O Psol segue seu rumo sem organicidade alguma, em linha parecida com a desses outros partidos. Daí a força de seus caciques de extrema-esquerda. Wyllys nunca teve vida partidária. Virou candidato a partir de um convite da ex-senadora Heloísa Helena, que tentou ser eleita por Alagoas. Ele até tem a chance de fazer algo que preste na Câmara, mas sua entrada na política não tem diferença com a de um Tiririca.

O que o Psol viu em Wyllys foi naturalmente a possibilidade do partido ter lucros eleitorais com sua fama, mas nem isso acabou acontecendo. Não dá para dizer nem que a votação de Jean Wyllys seja representativa de qualquer grupo social, nem sequer dos homossexuais. Sua pequena votação (foi o último entre os deputados eleitos pelo Rio, com 13.018 votos) seria pouco representativa até em colégios eleitorais menores que o do Rio, o terceiro colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais.

No entanto, ele tenta fixar em seu mandato um tom de luta pelos direitos dos homossexuais. Um pouco antes da treta entre Bolsonaro e Preta Gil vi o deputado Wyllys numa notícia em que ele se dizia ameaçado por causa de sua militância homossexual. Até me interessei pelo assunto, mas o que ele apresentava como provas eram e-mails com palavras ofensivas contra ele. Ora, como quem exerce uma atividade pública está sempre sujeito a isso, o deputado deveria ter buscado esclarecer o assunto de maneira discreta antes de vir a público dando esse tom de conspiração contra os direitos civis. Mas dessa forma mais equilibrada o deputado certamente não sairia na imprensa.

Com o caso Bolsonaro, seus quinze minutos de fama ganharam um bom acréscimo. Agora, na polêmica em torno do deputado Bolsonaro ele tem conquistado um espaço bom na cobertura caótica que a imprensa tem feito. Deu inclusive uma entrevista no programa em que Marcelo Tass apresentou aos telespectadores a filha gay (torço para que nenhum de seus repórteres enfie o microfone na cara da moça na saída de uma festa para fazer perguntas constrangedoras).

Todo mundo fatura com o cerco a Bolsonaro. E como o deputado é uma figura das mais execráveis, quase ninguém percebe que com a sua desgraça a liberdade de expressão pode também sofrer lamentáveis avarias.
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POR José Pires

terça-feira, 5 de abril de 2011

A máfia já não tem quem aceite suas flores

É do Maranhão que veio uma oportuna posição crítica sobre este costume de fazer da morte dos políticos um momento de hipocrisia, quando se busca lembrar qualidades que o falecido não fez questão alguma de cultivar enquanto esteve vivo. Falei disso aqui, comentando o quanto se mentiu sobre a vida do ex-vice do Lula, José Alencar.

Foi a família do ex-governador Jackson Lago que deu o bom exemplo. Logo que foi anunciada a morte de Lago, o senador José Sarney soltou uma nota cínica cheia de lamentos. Estava claramente tentando se aproveitar políticamente da comoção com a morte do adversário

Sarney caprichou na nota, mas levou um chega pra lá da família do morto. A atitude de Sarney me lembrou a do então presidente Lula no enterro de Ruth Cardoso. Com a diferença que a família dela aceitou que ele posasse para os fotógrafos com cara compungida ao lado do caixão da mulher de Fernando Henrique Cardoso. E isso foi poucos meses depois de seu governo acusar o casal de gastos excessivos quando FHC foi presidente.

Se deixassem, Sarney com certeza teria cara-de-pau até para segurar a alça do caixão de Jackson Lago. A nota é um dos cocumentos mais cínicos dessa República em que tantos documentos cínicos foram produzidos. Porém, mesmo com tanta hipocrisia dando lastro à política brasileira a nota do Sarney é uma peça tão rara que vale a pena ser transcrita na íntegra. Lá vai:

"A morte é um fenômeno transcendental que encerra todas as vicissitudes da vida. É com grande comoção que lamento o falecimento do Governador Jackson Lago, figura expressiva que dominou a política maranhense durante quase meio século. É com respeito que proclamo o seu caráter, a coerência na defesa de suas idéias e o idealismo com que exerceu os vários cargos que ocupou na vida pública. Ele deixa o exemplo de cidadão, de chefe de família, de homem público e o Maranhão tem a gratidão dos serviços que prestou à nossa terra.

Eu e Marly nos associamos à dor de sua esposa e de sua família, do povo maranhense e da classe política pela perda que acabamos de ter. Pedimos a Deus que nos conforte com a lembrança de sua vida e de tudo de bem que fez pela sociedade, pelo Estado e pelo País".


O beletrista que protagoniza o livro "Honoráveis Bandidos" deve ter pensado que o palavrório seria tocante. Sarney só não explica porque maquinou de todas as formas para tirar um homem tão bom do governo do Maranhão, o que acabou conseguindo fazer para botar a filha no governo maranhense que ela havia perdido nas urnas.

Mas os amigos e familiares de Jackson Lago não se deixaram enrolar num momento de tanta comoção. O ex-chefe da Casa Civil do Maranhão e ex-deputado estadual do PSDB, Aderson Lago, primo do ex-governador, foi no ponto ao repudiar a nota: "A máfia que mata é a mesma que manda flores, faz elogios e vai ao enterro".
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POR José Pires

sexta-feira, 1 de abril de 2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

O dia anterior


Foto ganhadora do prêmio Pictet, um concurso lançado em 2008 pelo banco suiço Pictet e promovida todo ano. A premiação é uma das mais altas do ramo da fotografia: 100 mil francos suíços ( R$ 175 mil).

As imagens finalistas foram escolhidas em novembro do ano passando e os vencedores anunciados agora em março. O tema é sempre ligado à questões sociais e ao meio ambiente. Este ano o assunto específico foi o crescimento.

Mitch Epstein foi o vencedor com esta cena fotografada no estado de Virgínia, nos Estados Unidos. A foto é de 2004. O lobby nuclear vai logo dizer: "Estão vendo? Não tem problema algum se forem tomados todos os cuidados". Pois é, mas parecerá sempre uma imagem do dia anterior.

Numa época em que o mundo está temeroso com as consequências do acidente na central nuclear de Takashima, no Japão, a imagem teve fortalecida seu clima de suspense, com as usinas nucleares criando uma sombra de tensão no fundo da paisagem bucólica.

É um lugar descolado para o pessoal da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) fazer uma colônia de férias.
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POR José Pires

De olho na imunidade dos outros

Já temos várias manifestações que mostram para o que serve um caso como o do deputado Bolsonaro (PP-RJ), que teve um bate-boca em um programa de televisão com a cantora Preta Gil. A Organização dos Advogados do Brasil (OAB) entrou com um pedido de cassação do mandato do deputado, o que traz mais uma piada pronta nesse país de tantas delas.

Não acho necessário me estender sobre o que eu acho de um deputado como Bolsonaro. Ele é um antípoda em tudo o que eu penso em termos de qualidade na política e até no sentido humano. Ele já mostrou várias vezes que não tem nem compaixão pelo sofrimento alheio. Com todo o respeito, Sua Excelência é um energúmeno.

Mas a OAB está com algum desvio de foco. Num Congresso onde tem de tudo, até mensaleiro em comissões importantes, vão entrar com uma representação tendo como causa um estranho bate-boca. Mas pra piada-pronta da OAB ficar completa só falta a Câmara cassar de fato o deputado Bolsonaro. E com votos dos deputados mensaleiros.

Jader Barbalho voltou há pouco para o Senado depois de passar um tempo impedido pela Lei da Ficha Limpa. Sarney ainda está lá depois de tantos escândalos. E tem deputado na Câmara que responde até por homicídio. Sinceramente tem coisa muito mais séria para despertar a indignação do que um bate-boca entre duas pessoas grosseiras, uma da política e outra da música.

Muita gente finge indignação, mas gosta bastante dos furdunços que o Bolsonaro arranja. Para o PT, por exemplo, Bolsonaro é um adversário que cai do céu. Marta Suplicy já andou tentando ter um lucro com o caso, ela que é a responsável por aquela peça de propaganda política que perguntava se o prefeito Gilberto Kassab era casado.

Agora é o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), que tenta se aproveitar da situação. Ele já apareceu afirmando que as regras da imunidade parlamentar devem ser rediscutidas. Podemos ajudar nisso: num caso desses, a solução pode ser uma emenda proibindo que deputado discuta com a Preta Gil.

Mas esse negócio de imunidade é mesmo com o PT. No partido o serviço é rápido. Que o digam os mensaleiros, que ainda nem responderam no STF pelos crimes de que são acusados e já foram absolvidos pelos companheiros. E nem foi preciso muita discussão para decidir pela volta do ex-tesoureiro Delúbio Soares ao partido. E com direito à aclamação.
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POR José Pires

País sem memória e com santos em excesso

O ex-vice-presidente José Alencar vai ser cremado hoje. Acompanhei esses dias de pranto, até porque o assunto está em todo lugar. Pela cobertura da imprensa dá a impressão de que morreu um santo que foi também um grande estadista.

Não reconheço esse José Alencar. Estive aqui nos momentos mais importantes da sua vida política, ele não é um personagem da História antiga, daí meu estranhamento com o que vejo. Até chargistas mandaram o homem pro Céu. Como diz a moçada, menos, colegas, menos... Este manjado recurso de caricaturar político no céu não foi válido nem com aquele outro mineiro, o Tancredo Neves. E mesmo Tancredo Neves tendo um papel de alta relevância na história brasileira.

Não tenho religião, mas não dispenso as simbologias, afinal o que somos sem elas, não é mesmo? Alencar é um milionário. Seu ar de songamonga sempre fez as pessoas esquecerem isso. Então, antes de colocar Alencar no Céu nossos chargistas teriam a obrigação de fazer um camelo passar por uma agulha.

Uma leitura do que foi escrito nesses três dias pode, do mesmo modo, fazer um distraído pensar que perdemos também um grande estadista. Dizem que o brasileiro tem memória fraca. Eu não acho isso. O que desgraça a vida do brasileiro é que aqui as lembranças servem apenas à oportunidade do momento.

Cheguei até a ler um artigo que falava do papel de José Alencar no fechamento do acordo feito em 2002 entre o PT e o PL, partido pelo qual ele era senador. Neste texto sua ação foi definida como "uma habilidade de político mineiro". É um bom argumento para a defesa dos réus no processo do mensalão, já que na reunião decisiva que selou o acordo Waldemar Costa Neto, presidente do PL, disse que seu partido recebeu um bom dinheiro para entrar na coligação que acabou elegendo Lula presidente. A elogiada "habilidade" de Alencar foi num dos lances iniciais do mensalão.

A reunião foi em um apartamento, com Lula e José Alencar presentes. Depois se espalhou a história de que os dois estavam num quarto, enquanto na sala Costa e José Dirceu fechavam a transação. Mas esta versão de que Alencar e Lula não participaram diretamente do negócio é de quem estava lá, todos implicados no esquema do mensalão.

A propósito, entre as carpideiras, um dos mais comovidos era o deputado cassado José Dirceu, que disse que Alencar estava "mais à esquerda do que muita gente do próprio PT" e que ele "era uma grande alma".

A história de José Alencar até ser vice de Lula não tem absolutamente nada que o destaque na vida política brasileira. Até ser vice de Lula, seu perfil é o de um político do baixo clero. Sua eleição para o Senado em 1998 foi em decorrência de uma campanha milionária e não dá para extrair nada de relevante de seu mandato. Antes, em 1994 pelo PMDB, perdeu a eleição para governador, quando teve uma votação ínfima, cerca de 600 mil votos, ficando com 10% da votação.

Só com a vitória de Lula os brasileiros perceberam que Alencar existia. No papel de vice também não exerceu de fato nenhuma posição determinante. O que houve foi aquela conhecida lamentação sobre os juros altos, porém sem nenhum aprofundamento sobre o efeito do modelo econômico petista sobre a indústria, a agricultura e o desenvolvimento de qualquer tecnologia ou infra-estrutura.

Sempre suspeitei que o comportamento de Alencar nesta ladainha dos juros foi uma jogada ensaiada, feita para manter esta crítica sobre os juros no âmbito do próprio governo e numa voz sem um real peso político nos rumos da economia.

Parecia até que a companheirada se reunia nos momentos de crise — "A imprensa está pegando demais no nosso pé, companheiros!" — e alguém decretava: "Manda o Zé Alencar dar umas entrevistas com aquele papo sobre os juros altos.

O fato é que seu papo sobre os juros nunca teve conseqüência alguma. Já em outros assuntos ele jamais tocou. A questão da ética, por exemplo, nunca recebeu qualquer observação feita por Alencar. Sobre esse tema ele atravessou os oito anos de mandato de Lula de boca calada. E isso sendo o vice-presidente do "governo mais corrupto da nossa história", segundo palavras de seu colega de governo Mangabeira Unger e com a comprovação de um vasto rol de denúncias, inclusive um inquérito da Procuradoria-Geral da República que está no STF com a denúncia de 40 réus, inclusive algumas das pessoas que estavam com ele naquele apartamento em que foi selada sua entrada como vice na chapa presidencial do PT.

Ah, mas o José Alencar foi muito humano. Pois é... Na opinião do José Dirceu, ele foi "uma grande alma", apesar de que um epitáfio escrito por alguém como o ex-capitão do Lula é mesmo pra acabar.

Este personagem encarnado por Alencar na política já é bastante manjado. Funcionou bem na carreira dele, não posso discordar disso, mas na sua vida pessoal ele próprio se encarregou de desmontar até esta característica que dava a impressão de um respeito humano que o diferenciaria da maioria dos políticos.

Foi na ação de paternidade movida por Rosemary de Moraes, que diz ser sua filha. Alencar teria tido esta filha, que acabou sendo criada apenas pela mãe, a enfermeira Francisca Nicolina de Morais. Durante toda a vida esta mulher nem procurou Alencar. Pouco tempo antes de morrer ela falou casualmente para a filha que Alencar era seu pai. Rosemary só soube disso aos 42 anos. Escrevi sobre isso aqui.

Com advogados bem pagos, Alencar conseguiu adiar qualquer decisão por mais de dez anos, protelando o caso de tal forma que o juiz José Antônio de Oliveira Cordeiro até acusou o então vice-presidente de litigância de má fé e qualificou suas atitudes como "desrespeitosas para com a Justiça".

Além de protelar o esclarecimento, Alencar foi grosseiro com Francisca Nicolina de Morais, a mãe da pessoa que afirma ser sua filha. Comentando o assunto em entrevista no programa do Jô Soares ele disse o seguinte: “Se fosse assim, todo mundo que foi à zona um dia pode ser pai. São milhões de casos de pessoas que foram à zona, só que grande parte desses casos não tenham sido objeto de interesse, nem político nem econômico”. Convém lembrar que Francisca morreu sem procurá-lo para que assumisse a paternidade.

A Justiça deu ganho de causa à Rosemary, porém os advogados de Alencar entraram com mais um recurso. Durante todo o andamento da ação, por mais de dez anos, ele se negou a fazer o exame de DNA, o que a lei entende como presunção de paternidade. Agora, com a morte de Alencar, poderia haver uma resposta definitiva com a determinação da Justiça de uma exumação para o exame de DNA. Mas, como eu escrevi no início, Alencar será cremado hoje. Foi o seu último pedido para a família.
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POR José Pires

Revanchismo

O governo português pedindo ajuda econômica para a presidente Dilma Rousseff e a Universidade de Coimbra concedendo título de Doutor Honoris Causa ao Lula. Creio que nunca uma ex-colônia se vingou de forma tão humilhante de um antigo império.
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POR José Pires

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Japão à espera da ajuda do Mercadante

Na segunda-feira o ministro da Ciência e Tecnologia desistiu da demissão da diretoria da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), apesar de todas as barbeiragens comandadas por Odair Dias Gonçalves. Barbeiragem no trânsito dá multa, mas barbeiragem em usina atômica dá em nada.

Até o irrevogável é revogável para Mercadante, então Gonçalves ficou na CNEN. Porém, agora ele tem a incumbência de elaborar um portal na internet e uma cartilha detalhada sobre os efeitos da radiação. É ordem do ministro para ajudar os 300 mil brasileiros que vivem no Japão.

De vez em quando gosto de dar uma força para o governo, por isso digo que o pessoal da CNEN tem que se apressar. A situação na central de Fukushima está longe de ser estabilizada. Já estão sendo detectados altos níveis de radiação à 40 quilômetros da usina, apesar do perímetro de segurança estabelecido pelo governo japonês ser de 20 quilômetros.

Mais pressa com esse portal, ministro! E acelera também a confecção da cartilha. No Japão devem estar numa ansiedade danada com a demora das informações. Os dekasseguis que vivem mais perto de Fukushima, então, não se aguentam mais de vontade de ver esse material para começarem a se precaver.
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POR José Pires

Preta Gil batendo boca com Bolsonaro e outros assuntos correlatos

Tem cada coisa pra gente se preocupar. Agora surge no país a briga entre o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) e a cantora Preta Gil. Bem, até apartar embates entre tipos assim é um perigo, pois existe o risco de ser confundido com um dos lados.

É assunto de má-qualidade, concordo, mas não dá para desconhecer que o debate (que surgiu numa dessas pseudo-entrevistas de TV que vivem de fofocas e escândalos meticulosamente ensaiados) tomou um rumo que vai além da imensa audiência dos trechos que acabam expostos com rapidez no Youtube e depois ficam lá como mera curiosidade.

E que ninguém estranhe o notório JR, do seriado Dallas, aqui ao lado. Além desse post publico abaixo outros três onde escrevo sobre o quiproquó entre Preta Gil e Bolsonaro e falo também de certa militância negra que vive e vive muito bem de alimentar o racismo. Lá embaixo, escrevo também sobre os direitos civis aqui e nos Estados Unidos. O JR, de Dallas, é para ilustrar o nível do debate entre Preta Gil e Bolsonaro.

Mas, o caso Preta Gil-Bolsonaro. O problema é que assuntos como este vão crescendo à força de métodos que se assemelham ao de marqueteiros envolvidos numa eleição. Preta Gil fez uma pergunta provocadora ao deputado Bolsonaro e levou uma resposta mal-educada, tudo isso em um programa que é só de provocações, o CQC. Todo mundo deve conhecer. Seu formato básico de “humor” (atenção nas aspas, hein?) é o constrangimento de artistas, políticos e outras personalidades.

O deputado Bolsonaro parece maluco — ou pelo menos usa essa personagem para manter-se na mídia. E certamente é mesmo maluco de participar de um programa desses. Mas foi o que ele fez. E recebeu evidentemente uma porção de perguntas tolas e até agressivas.

Para sentir o nível, Preta Gil perguntou o que o deputado acharia se um dos filhos dele casasse com uma mulher negra. Ou seja, envolveu de forma agressiva e jocosa a família do deputado num assunto que, se fosse mesmo o caso de entrar num debate desses, deveria ser tratado de outra forma.

O engraçado é que haveria um escândalo se alguém fizesse uma pergunta desse tipo ao Gilberto Gil, perguntando o que ele acharia se uma filha dele casasse com um branco. E acho que nunca alguém fez uma besteira dessas na televisão.

Teve perguntas também sobre cotas raciais, o que contribuiu para criar um falso ar de debate racial onde só teve perguntas estúpidas num clima de bate-boca. Alguém que leva um tema como cotas raciais a um debate com um político extremista como Bolsonaro não tem evidentemente a intenção de considerar nada com respeito e seriedade.

Mas o caso é que, a partir da pergunta absurda e provocadora de Preta Gil e de uma resposta atravessada do deputado, se faz um escarcéu dos diabos, com Preta Gil no papel de vítima e, pior ainda, agindo como se fosse uma paladina dos direitos civis.

Ela diz que foi atingida. Mas o fato é que agrediu primeiro. Mas o que importa a verdade, quando é do furdunço que toda uma cadeia de aproveitadores se alimenta? Muitos jornais e sites brasileiros buscam criar uma histeria coletiva onde só existe gente buscando notoriedade fácil, todos sem nenhuma razão.

Todo mundo sabe o que eu acho de políticos como o Bolsonaro, certo? Então posso dizer que basta dar uma olhada no trecho com sua resposta à Preta Gil para verificar que o deputado sai da pergunta provocadora da artista para agredir o que ele acredita ser uma postura promíscua dela. Não existe racismo na resposta.

E não estou dizendo que Bolsonaro não seja racista, apesar de achar que dificilmente ele seria eleito por um estado como o Rio de Janeiro se tivesse uma plataforma racista. Mas a verdade é que neste vídeo não há uma manifestação racista dele. É homofóbico, ataca de forma agressiva os gays, mas não pode se esperar outra coisa desse deputado.

Que o Bolsonaro é fogo, já é do conhecimento geral. Mas o outro lado também não é fácil. É a Preta Gil, que conheço só de publicações de fofocas. Sinceramente, não sei o que ela faz. Para eu e milhões de outras pessoas ela é mais uma dessas celebridades de quem ouvimos falar mais do que seria justo, mas não sabemos o que faz e muitas vezes até temos dificuldade de identificar a figura se não tiver uma legenda embaixo. E com o Photoshop correndo solto é ainda mais difícil. Numa pesquisa rápida encontrei até fotos em que a Preta Gil está parecida com a Beyoncé. E duvido que tenha sido sem querer. De certeza, só tenho a de que ela não é do BBB. Neste programa as celebridades mudam periodicamente e muitas duram só uma edição da revista Playboy.

Sei que ela canta e é filha do Gilberto Gil. Acabei de ver no Youtube alguma coisa. É o de sempre, música boboca sem valor algum na interpretação, mas com uma diferença notável no caso dela. Sua qualidade vocal fica abaixo da média até entre as porcarias que dominam esta área.
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POR José Pires

O espírito de Dallas no debate político brasileiro

Um deputado como Bolsonaro é tudo o que certa esquerda deseja no debate dos problemas nacionais. Vastos setores da militância negra que vivem pendurados em boquinhas governamentais à custa da exploração política do sofrimento de pobres certamente babam de satisfação quando assuntos raciais são tratados com o extremismo do deputado.

Com sua postura de ferrabrás, Bolsonaro não contribui para o aprofundamento de assunto algum. E como ele é confundido como parlamentar da oposição (mesmo sendo de um partido da base aliada), sua atuação sempre grosseria acaba servindo para o desvio de foco que interessa a tantos espertalhões e até para amenizar bastante as verdadeiras responsabilidades sobre a má situação dos negros no Brasil e o viés terrivelmente autoritário de uma militância que tem buscado criar problemas raciais onde eles não existem.

Não é de agora que essa gente tem uma posição autoritária. A diferença é que hoje estão no poder e ainda são favorecidos por irresponsabilidades várias. Sua visão é de curto prazo e na maioria das vezes só de cunho financeiro. Vivem do jabá da política prestando serviço para as estrelas.

Para garantir bocas no governo e o dinheiro que corre entre ONGs que se prestam a fins particulares vivem tachando de racista quem é contra, por exemplo, as cotas raciais, ou mesmo os que ainda não têm posição e por isso querem aprofundar a discussão. Nada de aprofundamento, companheiro. Tem que ser a favor e ponto final.

Um Bolsonaro atirando do lado supostamente oposto facilita bastante esse tipo de coisa. Ajuda até a esquecer coisas como o mensalão ou a mudança radical de posição política do PT e o envolvimento nas mais variadas corrupções. A truculência verbal do deputado colabora também para mascarar situações históricas, como o real propósito ditatorial da luta armada no Brasil, intenções que ainda não foram abandonadas por muitos que hoje estão no poder ou agregados a este governo de uma forma ou outra.

Bolsonaro tem na alma o que pode ser chamado “o espírito de Dallas”, um sentimento fundamentalista e agressivo parecido com aquele que tomou de Dallas de tal forma que fazia crianças de escola aplaudir em aula o assassinato do presidente John Kennedy — evidentemente elas eram instruídas pelos mestres.

Sobre esse período da história dos Estados Unidos fica sempre esquecido que a real divergência da direita americana com Kennedy estava no plano dos direitos civis. Aqui, temos algo parecido, já também os direitos civis é que estão em questão. Nisso, Bolsonaro tem um lado muito claro. E, na esperança de continuar levando vantagem, a esquerda tem o interesse de que este "espírito de Dallas prevaleça.

É claro que não estou dizendo que Bolsonaro seja a favor do assassinato de Kennedy (o pessoal anda com mania de processar; não quero passar o ridículo ser responsável por levar o caso Kennedy para os tribunais brasileiros; já chega o que sua memória sofreu nos Estados Unidos).

Também não faria a uma pergunta tola como essa para o Bolsonaro ou qualquer outra pessoa. Talvez Preta Gil achasse uma boa idéia, apesar de que um assunto desses só entraria na cabeça dela se fosse empurrado por alguém de fora que tivesse de Dallas mais que a lembrança daquele personagem novelesco, o JR.
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POR José Pires

Importa mais o disse me disse do que aquilo que realmente foi dito

Já ouvi o deputado falando espantosas barbaridades e também li muitas entrevistas suas onde ele exerce um papel tão agressivo que parece até paródia de político de direita. Nunca vi o deputado expressar qualquer coisa que não fosse de um ponto de vista onde parece que não se avista nenhuma solução prática com algum equilíbrio.

Ele é violento. A violência é verbal, que seja, mas de uma agressividade que parece por em risco até a integridade física das pessoas. Porém, nunca soube de qualquer manifestação de racismo da sua parte. E também não vejo isso nesse diálogo entre ele e Preta Gil, quando os dois foram grosseiros um com o outro. O vídeo prova que a discussão começa com uma pergunta provocativa da cantora, quando ela envolve a família do deputado numa amalucada hipótese de casamento interracial.

Estão querendo fazer uma campanha em torno de algo que não dá sustentação a resultado algum de qualidade. Muito ao contrário, dessa forma o que pode ser fortalecido é o racismo.

Mas alguém está interessado no fato em si? Falei acima que o vídeo com a entrevista com Bolsonaro prova que ele não deu nenhuma declaração racista. Apenas deu uma resposta ofensiva à Preta Gil, mas não sem que antes ela tenha feito algo parecido na sua pergunta.

Mas mesmo assim, sites e blogs afirmam que o deputado foi racista, alguns até postando abaixo o vídeo onde está a prova de que não há nada disso. E a Preta Gil faz a festa, é claro. Pelo índice Andy Warhol ela já está na vantagem: seus 15 minutos de fama se alongam.

Parece estar instituída no Brasil esta cultura de ataques em que não não se busca o sentido de provocar uma discussão esclarecedora sobre assunto algum. Podemos chamar isso de cultura de palanque. O que importa é o show. Ganha-se até eleição com isso, mas nunca se vê resultado prático de alguma qualidade. Basta ver o nível dos que são eleitos dessa forma ou daqueles que alcançam notoriedade com esse tipo de atitude.

Acusação de racismo deu em demissão de cartunista
Recentemente, numa situação completamente diferente e com uma pessoa que nada, mas absolutamente nada tem a ver com tipos como o deputado Bolsonaro, ocorreu uma campanha sórdida que acabou prejudicando o cartunista Solda. Ele foi acusado por Paulo Henrique Amorim de ter desenhado uma charge racista contra o presidente Barack Obama.

A charge traz um macaco dando uma banana para o governo americano. Isso é bem claro na legenda do desenho. Veja ao lado. Mas, talvez por algum problema particular, Amorim olhou o macaco e viu o Obama. Ora, tenha a paciência. Por que o Obama estaria dando uma banana para os Estados Unidos?

Mas Amorim mandou ver e publicou em destaque a acusação. Em razão disso, Solda acabou sendo demitido do site onde publicava e está até agora sendo obrigado a administrar o clima criado com esta acusação sempre absurda, mas ainda pior pelo fato da sua história pessoal e seu trabalho na imprensa ser há mais de três décadas de um teor altamente humanista.

A administração de um conflito artificial criado de maneira irresponsável, como foi feito por Amorim, pode complicar a vida de qualquer um. De imediato cria-se uma rede caluniosa. Começa na área de comentários dos blogs e segue pela internet afora, espalhando-se em blogs dominados por um clima conspiratório que faz de qualquer debate um assunto de sarjeta.

Num caso que atinge uma pessoa admirável como o Solda, é de uma safadeza absurdamente injusta. Seria com qualquer um, é claro. Mas sempre é pior com quem lutou para construir uma história valorosa. Já imaginaram um artista depois de uma longa jornada (não se ofenda, velho Solda), com uma carreira brilhante e sempre na luta pelos direitos civis, alguém tendo que explicar que não é racista? Ora, como diz a moçada, ninguém merece.
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POR José Pires

A raça humana é a soma de todas as cores

O Brasil nunca teve relações raciais em que a violência fosse predominante, como ocorreu com extrema violência no passado nos Estados Unidos. Também ao contrário do que houve entre os americanos, aqui nunca existiram políticas oficiais de segregação. Nos Estados Unidos eles tiveram numa época relativamente recente leis racistas que exigiram um grande esforço para serem abolidas, numa luta que juntou negros e brancos que abominavam o racismo. No Brasil nunca uma criança negra teve que ser escoltada por policiais federais para poder freqüentar uma escola mista. Aqui também jamais tivemos transporte público com lugares separados entre negros e brancos. E os horríveis linchamentos de negros, muito comuns em vários estados americanos, também não eram uma prática brasileira.

É um dado importante que no Brasil o preconceito contra o negro nunca tenha sido respaldado por uma política de Estado, como já aconteceu nos Estados Unidos e deu tanto trabalho e custou tantas vidas até que isso fosse abolido por lá.

Talvez até por esta facilidade natural criada por um ambiente mais tolerante, setores influentes do movimento negro arrogam uma coragem desnecessária, até porque aqui nunca houve clima para um conflito racial com níveis de violência física. E se isso ocorrer, criando uma exceção na convivência social pacífica existente entre negros e brancos, essa militância política sabe também que terão a solidariedade da quase totalidade dos brancos do país e até do que a esquerda agora começa a chamar de “elite branca”.

No sul dos Estados Unidos, conta James Lincoln Collier, na excelente biografia que escreveu de Louis Armstrong, podia ser motivo para surrar um negro o fato de algum branco julgar que ele estava “falando sem respeito”. Também no sul, um jornal podia estampar a manchete “Outro churrasco negro”, para noticiar o linchamento de um negro que tentou praticar o direito de voto. São acontecimentos que não estão muito longe no tempo.

É óbvio que num ambiente como este um branco liberal corria tanto risco quanto um negro. Talvez até mais. Em parte, é sobre isso que falam as pessoas que discordam da idéia de que exista um racismo estabelecido entre os brasileiros. É importante preservar a capacidade que negros e brancos tiveram no Brasil para conviver sem o uso da violência e sem uma separação racial restritiva como houve nos Estados Unidos. Estranhamente, parte substancial do movimento negro parece lamentar que o Brasil não tenha vivido esses conflitos. O discurso que prevalece é o da instigação e não o do entendimento. Em vez da harmonia, parece que desejam um futuro de muito sofrimento para o meu filho, que é branco, e para o filho do meu vizinho negro.

O fato é que, ao menos de fachada, grande parte dos auto-intitulados “movimentos negros” no Brasil assumem um caráter mais para Malcolm X que para um Duke Ellington. Os dois sofreram uma barbaridade com o clima racial nos Estados Unidos, mas tiveram respostas diferentes para isso. E acho que não preciso dizer qual deles contribuiu mais para a respeitabilidade dos negros americanos.

Um resultado direto do radicalismo violento de Malcolm X é o fundamentalismo islâmico de direita de Louis Farrakhan. E tem líderança de movimento negro brasileiro que ainda desejaria ter panteras negras nas nossas matas tropicais.

Duke Ellington costumava dizer que para ele não existiam raça branca e raça negra. Ele só via a raça humana. Sua obra de jazz é colocada por críticos no nível da mais moderna música clássica.

Com uma visão parecida, o artista do blues, B.B. King, deu também um toque técnico nesta questão quando, em entrevista ao crítico brasileiro Roberto Muggiati, ele disse que “a música não tem cores”. É uma opinião interessante de ser ouvida nesta época em que se vê “raiz étnica” em quase tudo. “O que chamam de blues para mim é música, apenas música”, dizia ele, “qualquer um pode tocar”. “Existe música feita por negros que não consigo ouvir, não me agrada. Não é o fato de ser negro que fará alguém um grande intérprete do blues”.
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POR José Pires

terça-feira, 29 de março de 2011

Como nenhum marqueteiro pensou nisso?

A chanceler alemã Angela Merkel perde poder com os resultados em um importante estado, que será governado por uma aliança entre verdes e social-democratas (SPD). Já são ecos de Takashima. Falei aqui que o mundo pode ser visto como antes e depois de Takashima. Pois será também neste aspecto: a discussão sobre a energia nuclear deve adquirir um peso que antes não tinha.

Mas não é disso que eu queria falar. O que me chamou a atenção nas notícias que trazem este assunto é uma das siglas da coalizão de centro-direita de apoio ao governo da chanceler Merkel. É um partido liberal, o FDP. Os políticos brasileiros sempre andam às voltas com esse problema de sigla. Ainda há pouco houve a criação do PSD, que teve outra sigla antes da escolha dessa. Era PDB, com o significado de Partido da Boquinha. Mudaram sei lá por que razão. O próprio DEM surgiu para eliminar a sigla anterior, PFL, na tentativa de escapar das nódoas (ou lama mesmo) da sua história.

Pois na Alemanha eles tem o FDP e o partido até se deu bem, pois foi governo por bastante tempo. Vejam ao lado uma propaganda, com a foto do maioral do partido. Mesmo sendo ágrafo na língua de Goethe, dá para perceber que o FDP está agradecendo por alguma coisa.

Enfim, achar a sigla certa é sempre uma dificuldade. Pois aí está uma boa sigla para um partido brasileiro: FDP. Porém, suas lideranças terão de tomar bastante cuidado para evitar um inchaço excessivo do partido. Agora, sem a Lei da Ficha Limpa, então, pode aparecer uma multidão de políticos querendo filiação.
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POR José Pires

Em tempo real

Soube pela manhã da depredação de dez ônibus da Viação Anapolina, empresa que faz o transporte de passageiros próximo de Brasília. Foi um fogaréu. Isso facilita bastante para o governo ver os problemas reais do país. É só ir até a janela do Palácio do Planalto e ver a fumaça do transporte que sai do transporte público brasileiro, uma questão da qual todo governo mantém distância.

Bem, mas quem vai se interessar por transporte público quando todos à sua volta (ministros, assessores, deputados, senadores, jornalista, etc, e põe etc nisso) andam de carro? E também não pode faltar dinheiro para nossas usinas atômicas, não é mesmo? Só o processo de retomada da Usina Nuclear Angra 3 atingiu o gasto de R$ 700 milhões no ano passado.

Mas, sabendo da raiva da população com os serviços da Viação Anapolina (que jeito de usar o SAC; essa empresa não tem guichê de reclamação ou e-mail para críticas?) corri para o site da empresa em busca de alguma explicação para a questão. Afinal, estamos num tempo de informação rápida, muitas vezes até em tempo real.

Com a internet, é possível se informar com rapidez e interargir de forma produtiva com o nosso empresariado. E como a WEB é poderosa, no intervalo dessas atividades corriqueiras, a gente aproveita para derrubar um ditador na Líbia. Ou na África, tanto faz.

Mas a visão dos ônibus incendiados fez eu largar por um momento o Kadhafi e correr pro site da Viação Anapolina. Pois lá me pareceu tudo normal, bastante tranquilo até. Dá até pra suspeitar que a depredação e o incêndio de ônibus possa ter sido coisa da oposição, talvez do PIG ou outro desses grupos de insatisfeitos.

Vejam lá em cima que beleza a imagem que peguei na página da empresa que teve os ônibus destruídos pela população. O ônibus todo iluminado passa vazio em frente à catedral de Brasília. Na manifestação uma reclamação das pessoas era a da falta de ônibus. Ora, mas por que não pegam esse ônibus que está no site?
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POR José Pires

Mais um

Todo mundo pergunta o que será o PSD do prefeito Gilberto Kassab, ex-DEM, ex-PL, ex-PFL e agora com partido próprio — esse moço vai longe.

Ontem o próprio Kassab deu a resposta: "Não será um partido nem de direita nem de esquerda nem de centro, mas a favor do Brasil".

Puxa vida , mais um partido a favor do Brasil. Será que o Brasil aguenta?
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POR José Pires

segunda-feira, 28 de março de 2011

Mercadante revoga demissão que parecia irrevogável e a CNEN vai ajudar o Japão pela internet

E não saiu a demissão do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves. Para mim não foi surpresa. A demissão era dada como certa, mas eu disse na nota abaixo que tínhamos que esperar para ver, pois o responsável por demiti-lo seria o ministro da Ciência e Tecnologia, Aluizio Mercadante, o político brasileiro que criou o conceito da revogação do irrevogável.

Mercadante disse que a CNEN vai passar por mudanças, mas a saída de Gonçalves acontecerá só depois da crise das usinas atômicas do Japão ser superada. Pelo visto o otimismo brasileiro com o acidente nuclear no Japão continua a toda. Se depender da superação daquela crise, então vai demorar para sair alguém da CNEN.

É tão difícil assim do governo do PT entender que energia nuclear no mundo se divide em antes de Fukushima e depois de Fukushima? O lobby nuclear deve atuar fortemente em todo o planeta, mas o acidente no Japão foi uma demonstração da inviabilidade do uso desse tipo de energia. No Brasil, o lobby parece ter um poder de convencimento extraordinário e é capaz do Programa Nuclear Brasileiro prosseguir. Se isso ocorrer, o que anda acontecendo na CNEN mostra que a única coisa que resta ao brasileiro é cruzar os dedos.

Segundo Mercadante, com a crise nuclear do Japão não dá para demitir o presidente da CNEN. Odair Dias Gonçalves já teria pedido demissão, mas o ministro pediu que ele ficasse no cargo. Mas vão mandar o coitado do Gonçalves a Fukushima para que ele esfrie os reatores? Ainda não, mas ele vai ajudar os 300 mil brasileiros que vivem no Japão.

Mercadante já deu a tarefa ao presidente do CNEN de elaborar um portal na internet para informar diariamente o que está acontecendo no Japão e, também, para fazer uma cartilha detalhada sobre os efeitos da radiação.

Bem, tomara que não esqueçam o Twitter e o Facebook, não é mesmo? Ah, sim... tem também o Orkut. Mas tem que correr com o serviço, senão a crise nuclear acaba sendo superada.
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POR José Pires

E não esqueçam

Enfim pode vir uma boa notícia do Programa Nuclear Brasileiro

Hoje pode haver uma decisão que deve ser vista como a única boa notícia sobre o Programa Nuclear Brasileiro desde que aconteceu o acidente nuclear no Japão. É a demissão do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves. Ele está à frente da CNEN desde o início do primeiro mandato do governo Lula. Com ele deve rodar toda a direção do órgão. É a primeira boa notícia em anos de programa nuclear. Na semana passada o jornal Correio Braziliense trouxe a descoberta de uma porção de trapalhadas cometida na CNEN, que contrastam bastante com a firme defesa da segurança do programa brasileiro feita por Gonçalves logo após o desastre nuclear japonês.

Logo depois do acidente nuclear em Fukushima, no Japão, escrevi aqui sobre a ágil movimentação feita no Brasil pelo lobby nuclear. O interesse dessa indústria é grande em nosso país. Para se ter uma idéia do volume de dinheiro que pode girar no Programa Nuclear Brasileiro, só na reativação de Angra 3 a previsão de gasto é de R$ 7 bilhões de reais.

Isso explica em boa parte a onda de otimismo que a tragédia no Japão trouxe para o Brasil. Dá até para entender que políticos como o ministro Edison Lobão tragam seu discurso demagógico para essa área de riscos, afinal, nesse assunto o que interessa a eles não é exatamente o enriquecimento do urânio. Porém, é duro ter que agüentar argumentos criados para confundir, quando esse tipo de tática diversionista vem da área acadêmica, de especialistas que devem respeito ao livre debate ou de instituições com a responsabilidade de zelar pelo aprofundamento da discussão de um assunto tão grave.

O Brasil não precisa de energia nuclear. Esse pessoal sabe que bons programas de uso dos sistemas hidrelétricos, eólicos e térmicos resolvem nossas necessidades de energia. Seria preciso também um bom planejamento para tirar o país fora desse modelo falido de civilização em que tudo é plugado numa tomada de energia, mas deixa esse assunto pra depois.

O que estranha é que autoridades da área tenham vindo de imediato abafar a necessária discussão sobre o plano nuclear do governo brasileiro. O ministro Lobão disse que "o programa brasileiro não vai mudar". E Aluizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia, afirmou que seria mantido o ritmo de construção de Angra 3 e os planos de expansão nuclear.

Outra voz plena de otimismo quanto à perfeita condição do Programa Nuclear Brasileiro foi a do presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves. Ele dizia que "as usinas de Angra estão preparadas para enchentes e longe de áreas vulneráveis a desabamentos. Situadas 6 metros acima do nível do mar, estariam imunes a inundações". Deve ser o estudo das marés pelos próximos mil anos (sic) de que falou o ministro Edison Lobão.

Segundo Gonçalves, as usinas “são projetadas para resistir a tornados e furacões e suportar terremotos de até 6,5 graus na escala Richter e ondas de até 7 metros". Esse tipo de conversa sempre me deixa desconfiado. Se até para atravessar uma rua é preciso tomar bastante cuidado, não dá mesmo para acreditar em tamanha segurança quanto aos riscos de um acidente nuclear, a não ser que o até agora presidente da CNEN seja o tipo de pessoa que atravessa a rua sem olhar para os dois lados. Talvez ele trouxesse mais confiança falando dos riscos das ondas de 7 metros e meio.

Mas a realidade trazida pelo Correio Braziliense é bem diferente da exposta por Gonçalves. O jornal da capital brasileira denunciou graves problemas que ocorrem na própria CNEN. Angra 2 funciona há dez anos sem autorização definitiva. Quatro reatores nucleares utilizados para pes­quisa funcionam sem licença em três campi universitários. E o Brasil tem grandes reservas de urânio, mas foi obrigado a comprar 220 toneladas no exterior, ao custo de R$ 4o milhões. A causa é falta de licença para a extração do minério, de responsabilidade da CNEN.

Tem também a denúncia de outras tretas, como o excesso de viagens internacionais e a nomeação de amigos para cargos de chefia, mas fiquemos apenas com o que toca diretamente a segurança do programa nuclear. Não faz parte das denúncias do Correio Braziliense, mas recentemente falei aqui sobre o tratamento de resíduos nucleares nas Usinas de Angra. Sempre é bom saber como nossas autoridades estão lidando com este, que é o grande problema do uso de energia nuclear. Pois nesse momento o lixo atômico de Angra está depositado em prateleiras de um galpão, como se fosse num supermercado.

A denúncia foi feita em seu Ex-blog pelo ex-prefeito do Rio, Cesar Maia. Contatada pelo jornal O Globo, a Eletronuclear confirmou a versão de Maia de como é feita a acomodação do lixo atômico no Brasil, mas garantiu que isso é provisório. Um funcionário informou que já existe um projeto de construção de um depósito subterrâneo para... (é sério mesmo, foi o que eles disseram!) ... 2018. Bem, que até lá não venha nenhuma onda de 7 metros.

A demissão do presidente da CNEN já é dada como certa. Mas vamos esperar para ver, afinal a decisão depende do ministro Mercadante, o político brasileiro que criou o conceito da revogação do irrevogável. E mesmo sendo de forte peso simbólico neste assunto arriscado que é o uso da energia nuclear, a demissão de Odair Dias Gonçalves está bem longe de trazer qualquer confiança no Programa Nuclear Brasileiro. Bem, tomara que essa experiência ajude o governo a tomar mais juízo, ao menos quando estiver lidando com projetos de maior risco para os brasileiros.

O ideal seria o Brasil iniciar o desligamento das usinas em funcionamento e nem pensar em construir outras, como é o projeto do governo do PT. Mas aí seria esperar equilíbrio, bom senso e respeito ao bem comum de gente que já mostrou que se guia por outros interesses.
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POR José Pires



sexta-feira, 25 de março de 2011

E o símbolo gráfico do logotipo de Milton Glaser virou verbo

Acho que todo mundo conhece a imagem ao lado. Hoje em dia até as crianças usam o coraçãozinho como verbo para expressar amor por alguma coisa. Pois de agora em diante o que já era usual passa a ter o reconhecimento oficial como verbo.

O Dicionário de Oxford incluiu o famoso símbolo gráfico do coração ("heart" em inglés) com o significado do verbo amar. Esta é uma das cerca de 45 mil novas palavras que entraram na última atualização do Dicionário de Oxford, com a revisão de 285.000 acepções de diferentes palavras que sofreram mudanças ao longo do tempo.

O símbolo incluído na língua inglesa pelo Dicionário de Oxford vem de um dos mais famosos logotipos do mundo e foi criado por Milton Glaser e Bobby Zaremn. O artista gráfico Glaser é um faz-tudo na área do desenho. É de uma criatividade e também de uma eficiência comercial que é a cara dos Estados Unidos. Ele tem um desenho belíssimo e é autor de capas de discos e cartazes muito marcantes, principalmente entre as décadas de 70 e 80. Um desses desenhos tornou-se um símbolo pop. É a imagem muito conhecida de Bob Dylan com o cabelo do cantor formado por arabescos coloridos. É outra imagem simples, mas aquela simplicidade com uma admirável força criativa. Isso é marcante no estilo de Glaser.

Ele tem também um extenso trabalho na publicidade. Entre os americanos, os ilustradores ocupam bastante espaço na propaganda, que usa cartuns, caricaturas e ilustrações de forma muito valorizada. É claro que isso acontece também na área editorial, muitas vezes como se fosse uma dobradinha, com as duas áreas explorando com criatividade a interação gráfica proporcionada pelos desenhistas.

Infelizmente esta foi uma das coisas boas que os brasileiros deixaram de copiar deles. O resultado dessa valorização das artes gráficas entre os americanos foi que os Estados Unidos tomaram conta visualmente do mundo, espalhando imagens e símbolos por tudo quanto é canto.

Foi o caso do logotipo para Nova York, que hoje é um dos símbolos mais conhecidos do planeta. Ele nasceu em 1977 de uma encomenda da prefeitura para promover a cidade, numa campanha de estímulo ao turismo em Nova York feita para durar apenas algumas semanas. Porém, fez tamanho sucesso que se espalhou pelo mundo, com o coraçãozinho servindo como verbo afetivo para muitas outras coisas além da cidade de Nova York. E até fez o coração virar verbo oficialmente. Veja ao lado na imagem retirada do Dicionário de Oxford na internet.
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POR José Pires