quinta-feira, 30 de junho de 2011

A filha do Che Guevara e suas conversas à sombra do muro de Berlim

A imprensa brasileira publica umas coisas que não tem cabimento. A Folha de S. Paulo publica hoje uma entrevista com Aleida Guevara, uma matéria longa que o jornal disponibiliza na internet. Aleida Guevara é um daqueles fenômenos estranhos da mídia. Se formos matutar quem é essa senhora, não dá para sair do fato dela ser filha de Ernesto Che Guevara, mas lá vai a Folha publicar uma entrevista imensa com alguém que não tem absolutamente nada a dizer sobre Cuba, a não ser chavões que estão ultrapassados até na retórica de Fidel Castro.

A entrevista é um amontoado de lugares-comuns sobre o falido comunismo da ilha cubana, com bobagens que eu não lia há algum tempo, um discurso que está ultrapassado até em Cuba. Artistas de lá que sempre defenderam a revolução cubana, hoje já fazem críticas ao modelo e até se queixam da morosidade da abertura política prometida pelos dirigentes. O cantor Pablo Milanés é um desses cubanos que percebem que o modelo pifou.

Já Aleida Guevara ainda traz a velha fachada stalinista que, pelo jeito, ainda se mantém de pé em Cuba. Nisso puxou ao pai. Pessoas que se encantam com o mito do guerrilheiro romântico e até doce que muitos vêem no Che se horrorizariam se soubessem como ele era na verdade. Guevara sempre foi mais duro que Castro. No plano internacional, Fidel Castro teve maleabilidade para perceber o ponto em que findava o papel de Cuba como exportadora de revolução pelo mundo. Guevara não tinha esse discernimento e provavelmente este foi um elemento forte na sua saída de Cuba para a Bolívia, o que na prática acabou sendo um afastamento político dos novos rumos que tomava a revolução cubana.

Che Guevara é um dos mitos mais equivocados do século 20. Nada do que ele fez deu certo. Até seu papel na revolução cubana é superestimado, mas, de qualquer forma, o que ele fez depois como dirigente foi um desastre. Em 1967, quando soube onde Guevara estava, o escritor Mario Vargas Llosa, que vivera muitos anos na Bolívia, comentou sobre os problemas que o guerrilheiro encontrara no espaço geográfico que escolhera para lutar: "Não há alternativa, ou ele se deixa capturar ou morre. Está sem saída. O que ele fez é suicídio". E era um amigo que dava essa opinião. Vargas Llosa só iria romper com Cuba em 1971.

Mas falávamos da entrevista da filha do guerrilheiro. Bem, numa conversa com Aleida Guevara não dá para extrair nem o testemunho familiar sobre o pai. Ela não conviveu com ele. Fala do pai como qualquer outra pessoa encantada pelo mito estampado em camisetas.

No meio da entrevista a jornalista tentou desencavar alguma novidade sobre a estada do venezuelano Hugo Chávez em Cuba para o já se previa ser um sério tratamento de saúde, talvez de um câncer, mas nem aí foi possível dar uma levantada na conversa com Aleida Guevara. O que saiu sobre Chávez foi uma das mentiradas, entre o que ela contou sobre o processo político em Cuba — que é claro que na sua opinião é o mais democrático do mundo.

O presidente venezuelano foi para Cuba fazer uma operação de joelho, ela garantiu. E ainda aproveitou para comentar a necessidade de tempo para a recuperação de uma operação como esta. "Necessita de tempo para recuperar-se. Tem o peso do corpo...", ela disse. E a filha de Guevara ainda se apresenta como médica. Mas faltou combinar o logro com o doente.

Nem deu tempo da entrevista virar jornal de ontem. Hoje mesmo Hugo Chávez foi para a TV cubana e assumiu que está com câncer. Mais um pouco e é capaz da filha de Guevara ficar sabendo que o muro de Berlim já caiu.

Mas uma informação interessante é a razão da estada de Aleida Guevara no Brasil. Ela veio para um evento ecológico em Londrina, no Paraná. Isso eu já sabia e já andava bem temeroso que a notícia se espalhasse. Foi um evento do MST e da Via Campesina, abrigado numa universidade pública estadual.

Só faltava essa. A esquerda brasileira tem desmoralizado tantas causas importantes para a humanidade, mas até agora andava distante da ecologia, até porque o governo petista não tem nenhum compromisso real com a defesa do meio ambiente. Muito ao contrário, é um governo que se arroga um desenvolvimentismo dos mais tolos, tão indecente que acabamos não tendo de fato nem o desenvolvimento. Mas a lorota tem servido como justificativa para a destruição do meio ambiente brasileiro.

Mas como essa esquerda é uma praga, não duvido que desmoralizem também a luta ecológica. Já estão trazendo companheiros de Cuba para ajudar.
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POR José Pires

terça-feira, 21 de junho de 2011

Progressistas do bem-bom

Eu sou de uma época em que ser progressista exigia mais esforço do que acontece hoje em dia. Fazer imprensa alternativa na época da ditadura militar, por exemplo, dava um trabalhão danado, além naturalmente dos riscos inerentes ao ofício de combater o governo. Esses jornais eram chamados também de imprensa progressista ou imprensa nanica, mas tanto faz o rótulo. O produto dava sempre muito trabalho.

No geral ganhava-se pouco e em algumas publicações era preciso até botar dinheiro do bolso. Hoje em dia podem até dar boas histórias aquelas madrugadas passadas em redação de jornal alternativo, mas não era nada divertido. É o caso do semanário Movimento, cuja censura-prévia exigia a feitura de duas ou três edições inteiras por semana para que fosse possível escapar uma das mãos dos censores. Daí então havia todo o trabalho da edição, até o jornal seguir para a impressão e daí para os leitores.

É bom lembrar a rapaziada progressista que nesta época os jornais eram produzidos com máquina de escrever e os desenhos, apesar da ditadura, eram feitos à mão livre. A diagramação e arte final dos jornais também só eram possíveis de se fazer do mesmo jeito. E o único modo de alguma coisa chegar a Brasília, onde era feita a censura, era dentro de um pacote enviado por avião.

Tinha também os riscos para a integridade física. Hoje dá para ver como era a coisa. Até bem próximo do final do regime, eles ainda estavam matando. As mortes de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho mostram com exatidão o risco de lutar pela liberdade de expressão naqueles tempos.

Hoje, ser progressista está bem mais fácil. Nesta semana fizeram em Brasília 2º Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas. Para ser mais exato, auto-denominados blogueiros progressistas. Também são chamados de blogueiros sujos, o que ficou bem marcado principalmente na última eleição, mas desse nome eles não gostam. Por isso usam aquela velha tática de assumir o apelido para amenizar o estrago, mas não parece estar dando certo.

A bem da verdade, o encontro foi feito com dinheiro público, o que não combina com o adjetivo "progressista". Aliás, se o sujeito for mesmo progressista até vai concordar que o blogueiro que faz algo assim é mesmo um blogueiro sujo.

O ex-presidente Lula esteve lá, dando seu plá aos "brogueiros", como ele chama esta nova categoria de companheiros. O deputado cassado José Dirceu também compareceu. Ambos desceram a lenha na imprensa, é claro, que mais poderiam fazer num encontro de "brogueiros" progressistas?

Dirceu estava impossível. Lembrava seus tempos de dirigente estudantil, mas só no discurso, evidentemente. E, felizmente para todos, vivemos numa época em que, como já disse, está uma baba ser progressista. Fosse noutros tempos e sob uma ditadura, o companheiro Dirceu já se deslocaria até a padaria da esquina para encomendar 1800 pães, 7 quilos de queijo fatiado (fatias finas, por favor, ô português!) e 9 quilos de mortadela também fatiada, para alimentar os participantes do encontro clandestino. E aí o comandante Dirceu melava o encontro dos blogueiros progressistas, como ele fez em Ibiúna na década de 60.

Mas hoje, felizmente, existe liberdade até para criar fantasmas para dar um clima combativo num encontro de blogueiros governistas muito bem apoiados em verbas do Estado. Dirceu aventou a hipótese de um combate violento pela liberdade de expressão. A fala do ex-capitão do Lula que praticamente saiu chutado do governo sob o escândalo de corrupção do mensalão: "Se não travarmos essa batalha, ela não será travada. É hora de dar um grande salto, partir pra mobilização. Estou disposto a travar essa luta junto com vocês”.

É tudo conversa. Os blogueiros governistas são, em sua maioria, ligados de uma forma ou outra aos benefícios de governos petistas variados, inclusive o federal, e de sindicatos. Muitos recebem em seus blogs anúncios pagos de estatais. Outras facilidades financeiras também acontecem, até mesmo empréstimos tão facilitados quanto dinheiro do Banco do Brasil na mão de fazendeiro com boas relações com a bancada ruralista.

E todos agem como peixes-pilotos seguindo tubarões como Dirceu, que indicam pautas e apontam o conteúdo que cada um deve publicar. É um esquema muito bem controlado e que segue o tom que os chefões ordenam. Dá até para visualizar o organograma do esquema quando surge um assunto do interesse dos que mandam hoje no PT e no governo.

A mamata, porém, precisa ter ares de grande batalha progressista para que a tigrada se anime e também não perca a auto-estima, afinal não é nada meritório ser capacho de governo algum.
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POR José Pires

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O STF no país das maravilhas

Um estrangeiro que tenha notícias do Brasil lá em sua terra deve pensar que vivemos por aqui no melhor dos mundos. Um europeu deve ter até vontade de se mudar correndo para cá, pois país liberal como o nosso, com tantos direitos assegurados, ah, país assim não existe nem nas Oropas.

Pois o nosso Supremo Tribunal Federal (STF) passou uma tarde inteira julgando a marcha da maconha. Engraçado é que sempre que aparece alguma notícia sobre a lerdeza dos ministros para julgar processos importantes, vem a história de que todos estão assoberbados de trabalho.

Agora passaram a tarde discursando sobre a liberdade de expressão para sair na rua marchando em favor da liberação da maconha. Tem gente que perde a tarde fumando maconha, vá lá, mas o nosso STF pode passar a tarde discutindo marcha da maconha? Parece coisa de um STF que não tem nada pra fazer.

Os juízes não economizaram na empolação. "A liberdade é mais criativa que qualquer grilhão, que qualquer algema que possa se colocar no povo", disse Carmen Lúcia, que, como se vê, nesta questão da liberdade ainda está nos tempos dos grilhões. Ora, mas se é para falar em "grilhão", então podiam passar a tarde discutindo o trabalho escravo.

E o ministro Marco Aurélio Mello mandou ver: "Mesmo quando a adesão coletiva se revela improvável, a simples possibilidade de proclamar publicamente certas ideias corresponde ao ideal de realização pessoal e de demarcação do campo da individualidade”.

De onde um ministro desses do STF está falando? Quando vejo uma coisa dessas fico sempre esperando aparecer saltando no plenário do STF um coelho apressado com um relógio na mão, uma lebre maluca, um chapeleiro louco e a Alice correndo para lá e para cá sem entender nada.

Não é para um europeu ficar doido de vontade de morar num lugar desses? Mas o lado cômico é que, mesmo isolados do Brasil lá no planalto e falando para aparecer na imprensa, nossos togados paladinos da liberdade de expressão, terão depois que sair do STF muito bem escoltados. E devem morar em fortalezas muito bem seguras, é claro.

Fora do país das maravilhas do STF não temos um cotidiano com liberdades básicas asseguradas. A bem da verdade, aqui não se tem o direito nem de receber um serviço que foi pago. Marcha da maconha está liberado, mas não se pode querer tudo, certo? Alguém sensato deveria ter um pouco de pudor ao manejar discursos. E neste caso esta tarde no STF tem mesmo a ver com o assunto tratado. Parece papo de maconheiro. São apenas palavras vazias, palavrório que não se aplica. Foi só lero lero esta tarde da maconha no STF.

Eu poderia puxar várias frases do que se falou nesta tarde no STF, mas vamos ficar apenas com essas duas, já que os discursos acompanharam esse tom. Os ministros foram fundo trololó liberal. E o resultado do julgamento todo mundo já conhece: por oito a zero pode-se sair nas ruas defendendo o uso da maconha.

E isso num país em que tem gente pacífica sendo morta por defender o meio ambiente, como acontece nas regiões em que se pensa numa anistia para desmatadores que são também implacáveis matadores. Porque não anistiar logo as duas práticas? Ou então aplicar lá na Amazônia o palavrório do STF. Como é mesmo o negócio aquele negócio "realização pessoal e de demarcação do campo da individualidade". Pô, bróder com essa o Aurélio Mello matou a charada... ou será xarada? Sei lá, mano, passa o bagulho aí.

Distante desse país das maravilhas temos também o país real em que comunidades inteiras vivem sob o domínio de milícias, em comum acordo inclusive com setores da polícia. A decisão do STF, embasada em palavrório tão pomposo, vai valer também para esses cidadãos desesperados ou esse negócio de acabar com "grilhão" é só para marcha da maconha?

Digo sempre que essa piada que fizeram com o Brasil só não é engraçado porque moramos na piada. Com a decisão do STF em alguns lugares o maconheiro terá todo o direito de expressar a tal “liberdade mais criativa que qualquer grilhão”, mas não tem direito algum sobre sua vida cotidiana.

Pode ir tranqüilo para a marcha da maconha, mas nos outros assuntos tem que prestar contas pra milícia ou para o traficante. E desse respeito imposto pela força depende sua integridade física. As palavras do STF não significam nada fora do país das maravilhas dos togados.

Marcha da maconha, tudo bem. Mas tem que pagar pedágio para o bandido, a taxa do gás e da TV a cabo para a milícia e, no caso de quem vive numa condição livre de problemas desse tipo, tem que pagar o imposto para o vereador gatuno, para o prefeito ladrão, o governador corrupto e... bem, tem que pagar o imposto para o governo federal do PT.

Nem vou entrar no mérito dessa decisão do STF. Mas temos que ver o lado cômico desse país de fantasia que é apresentado todos os dias por nossas autoridades de qualquer área, pois realismo não é o forte em setor algum hoje em dia. O Brasil é um país em que não existe diferença alguma entre articulação política e pescaria.

Mas, fora desse país das maravilhas do STF, a realidade é outra: a corrupção domina a política, corroendo as estruturas do país e desmoralizando a administração pública; o crime campeia pelo país afora e a violência se instalou em nossas cidades impondo um cotidiano triste, com mortos e feridos no trânsito, em assaltos, em ataques sexuais, na eliminação física de adversários políticos, e até na destruição física pelos motivos mais banais.

A lista de barbaridades é grande, poderíamos falar de questões ambientais, da infra-estrutura do país demolida, das dificuldades na educação. Os problemas são dos mais variados. Daria bastante assunto para esta tarde no STF. Se eles não estivessem ocupados com a marcha da maconha, é claro.
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POR José Pires

Perguntar não ofende, mano

Mas que com a decisão do STF tem uma pergunta que não quer calar, ah, isso tem. Agora que está liberado, o Fernando Henrique Cardoso vai na marcha da maconha?
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POR José Pires

sábado, 11 de junho de 2011

Promoção

A transferência da ex-senadora petista Ideli Salvatti do ministério da Pesca (esse merece um sic: sic) para o ministério das Relações Institucionais (mais um sic: sic) é um ótimo objeto para a análise sobre a falta de quadros que sofre o PT. Ideli Salvatti subindo de posto num governo já diz tudo.
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POR José Pires

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Devagar com as tendências, companheiros

Artigo de José Dirceu espalhado pela internet avisa: "Vitória de Humala confirma tendência na América Latina". A tendência de que fala o deputado cassado por falta de decoro é de — todo mundo sentado, que é para não cair com o espanto — "transformações históricas na América do Sul". A maluquice de botar América Latina no título e falar da América do Sul no texto é por conta dele. Devem pensar que é a mesma coisa, mas é melhor para o México que seja América do Sul, pois assim eles ficam livres dos vaticínios do chefe do mensalão.

Mas petista tem dessas coisas. Tudo para eles é "tendência", como se a roda da história girasse impulsionada por seus maus textos. O pior é quando metem o país em discussões que na verdade nada tem de importante. Lembram do homem do chapéu de Honduras? Pois é, quanto tempo perdido com aquela conversa.

É tendência para isso, tendência para aquilo, sempre que um cupincha ideológico deles vence alguma eleição eles vêm com essa lorota de "tendência".

E falando no assunto específico do ex-capitão do Lula que saiu chutado para fora do campo, por pouco Keiko Jujimori não leva a faixa no Peru. Se isso acontecesse a "tendência" seria qual? Bem, aí Dirceu amoitaria esse negócio de "tendência".

Outro que era uma "tendência" de transformação aqui pra baixo era o presidente da Bolívia, Evo Morales, mas parece que o cocalero se aquietou. Resolveu diversificar: agora não é só coca. Entrou no ramo de carros roubados. Anteontem ele promulgou uma lei que legaliza cerca de 200 mil carros contrabandeados para a Bolívia, a maioria roubados no Chile e no Brasil.

Morales diz que fez a lei para os pobres. Sempre é assim. Não é difícil que ainda ouçamos um dia um mensaleiro dizer que aquela grana toda era em favor dos pobres. "Todos temos direito de ter nosso carro", disse o presidente boliviano ao promulgar a lei. É a mesma conversa de qualquer ladrão de carro.

Bem, se até agora 200 mil carros roubados rodavam tranquilos por lá era porque o governo boliviano fechava os olhos para a ladroagem. Será que isso também é uma "tendência" desses governos transformadores?
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POR José Pires

Afinal surge a Dilma da Dilma

Tenho a certeza de que muitas pessoas sensatas devem ter a mesma impressão que eu tenho e se perguntarem se o que ouvem é mesmo verdade, que vão convidar a ex-senadora Ideli Salvatti para o ministério das Relações Institucionais, uma pasta essencial para a articulação com a classe política e também com os partidos.

Mas parece ser isso mesmo. Na internet até já se lê a justificativa da presidente Dilma Rousseff: "Ela [Ideli] tem personalidade, tem autoridade, é firme". Parece mesmo uma avaliação da Dilma, que tem o estilo brucutu de elogiar indivíduos de uma forma que parece estar dando um pito na equipe toda. Se para nomear a Ideli Salvatti para o ministério contam essas qualidades básicas de qualquer dirigente, então parece que Dilma está dizendo que o resto da sua equipe carece dessas coisas.

Como todos sabem, gosto de ajudar o governo, por isso já voi dizendo que a idéia é uma besteira sem tamanho, ainda mas que a Ideli Salvatti está tão bem no ministério da Pesca. Já explico: lá na Pesca ninguém ouve falar dela e o melhor para o governo é que alguém como a ex-senadora desapareça de vista.

Bem, eu sou contra só porque não tenho interesse direto na questão, mas quem sabe que pode colher muita coisa no maremoto que virá se Ideli Salvatti trocar as pescarias pelo ministério das Relações Institucionais até tem que se segurar para não aplaudir aos berros.

O vice-presidente Michel Temer já deu seu apoio. "Presidente, o PMDB lhe deixa à vontade. Quem a senhora escolher terá nosso apoio", ele disse. Bem, Temer aplaudiria até se a Dilma escolhesse o Delúbio Soares. Já faz décadas que o vice-presidente, ele e seu PMDB, estão trabalhando com as circunstâncias críticas dos governos para irem se fortalecendo. Em alguns casos até empurram governantes para decisões insensatas que aumentarão o poder deles mais adiante.

E o Temer, não sei não, nada a ver com essa troca de ministros, mas dá a impressão de que ele sabe de algo mais, talvez relativo à saúde de alguém, que o tem deixado bastante tranquilo quanto a seu futuro.

Mas, voltando à Ideli Salvatti e já que falam tanto na tal "Dilma da Dilma", ela é a tal da "Dilma da Dilma", pelo menos na grosseria pessoal e numa incapacidade pessoal que brota pelos poros, o que talvez seja de fato a força de atração que junta as duas.
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POR José Pires

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A gestão do toma lá, dá cá

A leitura de sites e jornais dá na gente a impressão de que os jornalistas descrevem um mundo virtual quando falam do governo de Dilma Rousseff. E a cobertura da queda de Palocci, com a surpreendente nomeação da Senadora Gleisi Hoffmann, tem sido uma parte das mais delirantes nesta de ficção.

Acabamos tendo de ler em toda a parte algo parecido com aquela lorota do ex-presidente Lula sobre a "Dilma da Dilma", quando ele comentava sobre Dilma ter cuidado da gestão na Casa Civil enquanto ele fazia política. Bem, já dói bastante essa patada na lógica de que Dilma cuidou da gestão, ou de que Dilma cuidou de alguma coisa, quando todo mundo sabe que menos de seis meses depois dela ter passado a Casa Civil para a amiga Erenice, o então presidente Lula teve que demitir Erenice para abafar um escândalo. E o desastre que foi aquela "gestão" está aí à frente de todos, até com a volta da inflação. Nem Dilma parece estar gostando do que a "Dilma do Lula" deixou para ela.

Se alguém tivesse cuidado da gestão no governo Lula é certo que o Brasil não estaria desse jeito. E nem adianta vir com outras virtualidades, se ufanando de coisas que deviam nos envergonhar, do tipo definir como classe média uma família com renda de um pouco mais de mil reais ou dizer que alguém saiu da pobreza por ter 70 reais mensais no bolso.

Como se já não bastasse essa conversa fiada da "Dilma da Dilma" a gente ainda tem que ler sobre a "experiência em gestão" de Gleisi Hoffmann, a nova ministra da Casa Civil. Quem escreve uma coisa dessas está pensando na pujança do estado do Mato Grosso do Sul ou nas fantásticas inovações administrativas feitas em Londrina?

Londrina é hoje um desastre administrativo, em grande parte pelos caos que o PT deixou em duas administrações consecutivas. E no Mato Grossso do Sul a única novidade administrativa que chamou a atenção no plano nacional foi a aposentadoria vitalícia que o então chefe de Gleisi Hoffmann, o governador Zeca do PR, criou para ele mesmo. Essa herança da gestão do PT no Mato Grosso do Sul felizmente foi anulada pelo STF.

O governo do PT planta uma cortina da fumaça para encobrir a incompetência de uma presidente da República que não consegue nem começar o governo e a imprensa ainda ajuda escrevendo ficções que nada tem a ver com o que está à nossa frente.

O governo de Dilma ou do Lula, qualquer governo nessa triste saga que o PT vem conduzindo de maneira atabalhoada e incompetente, funciona de uma forma que é muito bem explicada na nomeação feita hoje do ex-vice-governador paranaense Orlando Pessuti para o Conselho de Administração do BNDES.

Até agora eles vinham enrolando o ex-governador porque o pobre do Pessuti é pouca coisa politicamente até no Paraná. Mas acontece que é do PMDB o suplente de Gleisi Hoffmann no Senado. E Sérgio Souza, o senador que entra no lugar da ministra, é muito próximo de Pessuti. Foi inclusive indicado por ele para ser o suplente.

É assim que funciona a Casa Civil do governo Dilma e do mesmo modo são conduzidos todos os procedimentos do governo. Esse negócio de gestão só acontece no mundo virtual descrito pela imprensa.
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POR José Pires

PT, um partido muito rico em dinheiro e bastante pobre em inteligência

Falei no post abaixo sobre o empobrecimento dos quadros do PT, do qual a ascenção da senadora paranaense Gleisi Hoffmann é um exemplo prático. Empobrecimento em qualidade humana, é bom ressaltar, porque grana esse pessoal tem muita. O fato é que a turma sobe rápido e por um caminho que não favorece quem gosta mesmo de trabalhar. Até mesmo a ligeira carreira do ministro das Comunicações é uma consequência da eliminação de gente competente dos quadros do partido.

E a nova ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, cresceu à sombra de Bernardo, que é seu marido, sendo que ambos viveram nos últimos 20 ou 30 anos amparados na proteção material que, no Brasil, um partido político proporciona. Estou falando do PT, mas em outros partidos não é diferente. O PSDB e o DEM, o antigo PFL, até são exemplos mais longevos dessa depauperação de quadros.

Acontece que enquanto o PT foi subindo, passando por câmaras municipais, prefeituras e estados até alcançar o governo federal, foi também elevando esta relação de dependência material entre o indivíduo e o partido, até chegar a um nível que é de dar inveja até às nomenklaturas comunistas que dominaram vários países durante anos.

Este é um processo eficiente no fortalecimento de um partido em um certo período, mas com o tempo começa a apresentar graves problemas na qualidade em recursos humanos necessários para tocar os governos. É o que já estamos vendo acontecer com o Brasil, num processo que vem antes do PT.

Mas no PT a coisa é bem grave. Neste partido geralmente o sujeito começa a vida política sob a proteção de grupos em sindicatos, ali já começa bem cedo a abandonar qualquer aperfeiçoamento na profissão. Depois do sindicato, o militante vive sempre amparado materialmente pelo partido, que o socorre com verbas eleitorais e até bocas em governos ou estatais em caso de alguma derrota política. Nessa toada, quando chega a um cargo de destaque é sempre por meio da força política proporcionada exclusivamente pela atividade partidária. Bem, com uma trajetórias dessas é difícil que alguém alcance algum objetivo sabendo fazer algo que não seja política.

O problema é que o país é que sofre as consequências dessa falta de qualidade humana entre os escolhidos como dirigentes. E não se pense que isso só está acontecendo em atividades regidas diretamente pela política. Hoje o método de se elevar não pelo mérito mas pela prática da militância atinge variadas instituições como as universidades, escolas, já é comum entre o funcionalismo concursado e contamina até empresas privadas.

E falando em precariedade de recursos humanos, dentre as manifestações sobre a queda do multiplicador da própria fortuna, Antonio Palocci, destacou-se uma opinião que também revela o nível a que chegou o PT.

Falando sobre a demissão de Palocci, o líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP), soltou esta: "Em time que está ganhando, não se mexe".

Este é outro problema quando um partido começa a ter quadros cada vez mais desqualificados. Suas altas lideranças começam a fazer como os políticos do PT, que agora seguem pensadores da estirpe do histórico dirigente esportivo Vicente Matheus, aquele que dizia que "quem sai na chuva é para se queimar".
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POR José Pires

terça-feira, 7 de junho de 2011

Cai Palocci, o multiplicador de riqueza, e entra na Casa Civil uma senadora com uma rica carreira

Como já prevíamos aqui no blog, não vão tornar inimputável Antonio Palocci. Ainda não será desta vez que o já ex-ministro da Casa Civil poderá andar pelado na praça. Agora poderá se dedicar exclusivamente à sua consultoria, mas tenho a impressão de que a clientela vai minguar.

A queda do ministro trouxe a surpresa da nomeação da senadora paranaense Gleisi Hoffmann, mulher do ministro das Comunicações Paulo Bernardo. A nova ministra já começou o serviço com aquela velha lorota de que a presidente quer isso ou quer aquilo. No caso, a ministra disse que a presidente Dilma encomendou a ela "um trabalho de gestão".

Bem, primeiro é de se perguntar então quem é que vai fazer política, porque isso sabe-se de montão que Dilma não tem competência para fazer. E depois, quem foi que disse que Gleisi Hoffmann tem capacidade para o tal "trabalho de gestão"? A senadora tem tanta experiência em gestão quanto em política, ou seja, nadica nas duas. Em gestão, ela fez carreira à sombra do poder do marido. E na política fez carreira montada em muita grana.

A bem da verdade, o casal foi imensamente favorecido pela dilapidação dos quadros do PT, tanto pelas quedas causadas por escândalos de corrupção quanto na expulsão ou debandada de gente mais competente que não teve estômago para suportar a decaída do partido. E a subida de Gleisi Hoffmann agora a um posto tão alto mostra que nem raspando o tacho o PT encontra algum quadro administrativo com um mínimo de capacidade.

Mas Gleisi Hoffmann se elegeu senadora pelo Paraná e até foi bem votada, não é mesmo? Pois eu já disse aqui no blog como é que isso aconteceu. A nova ministra é aquele tipo de político que passa todo o tempo fazendo campanha. Seu grupo domina o PT no estado. Até chegar a eleição a petista fez tanta campanha fora do período eleitoral que o TRE até foi obrigado a alertar o partido para não colocar mais outdoor com a cara dela por todo o estado, como os petistas vinham fazendo.

A vitória de Gleisi Hoffmann ao Senado foi caríssima. Segundo o TSE a petista gastou só um pouco menos que o senador paulista Aloysio Nunes, o mais votado do país e que disputou a eleição em um estado com cerca de 28 milhões de eleitores, mais de três vezes superior ao do Paraná, que hoje está próximo de 7 milhões e meio.

Sua campanha arrecadou R$ 7.979.322,30, enquanto a do senador Aloysio Nunes alcançou R$ 9.193.018,50. A petista foi a oitava maior em arrecadação no Brasil. O dinheiro veio principalmente de grandes empreiteiras. Para se ter uma idéia da bufunfa que alavancou sua carreira, vale comparar com a situação econômica das campanhas dos senadores eleitos pelo Rio Grande do Sul, um estado ligeiramente acima do Paraná em número de eleitores. Ana Amélia Lemos, do PP, arrecadou R$ 2.938.952,02. O petista Paulo Paim arrecadou R$ 1.985.855,78.

Já o outro senador eleito pelo Paraná, o ex-governador Roberto Requião, arrecadou bem abaixo da metade da fortuna colhida pela mulher do ministro Paulo Bernardo. Requião ficou com R$ 3.098.943,36. A nova ministra da Casa Civil é uma mulher de sucesso, sem dúvida, mas é um sucesso estruturado em muita grana. E sempre foi assim. Na eleição para a prefeitura de Curitiba em 2008, quando teve só 30% dos votos, perdendo no primeiro turno para o atual governador Beto Richa, Gleisi Hoffmann gastou R$ 6,4 milhões.

Bem, esta é a carreira política, muito bem cevada em campanhas milionárias, mas e a gestão? Ela foi secretária extraordinária de Reestruturação Administrativa no primeiro mandato de Zeca do PT, no governo de Mato Grosso do Sul, em 1999, e depois foi secretária de Gestão Pública na administração petista da Prefeitura de Londrina, em 2001. Os cargos foram obtidos sempre na cola do marido Paulo Bernardo, que sempre teve base eleitoral em Londrina, até adquirir poder e mudar de domicílio eleitoral definitivamente.

As duas experiências petistas, em Londrina e no Mato Grosso do Sul, foram imensos desastres. Em Londrina o PT teve dois mandatos que arrasaram a infra-estrutura da cidade e deixaram um rastro de corrupção que afeta até hoje o município. É claro que a responsabilidade não é só de Gleisi Hoffmann, mas, de qualquer forma, tudo isso faz parte de seu currículo.
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POR José Pires

sábado, 4 de junho de 2011

Dando uma mãozinha para o governo do PT

Os leitores mais assíduos deste blog sabem que sempre estou pronto para colaborar com o governo do PT. Se é para o bem do Brasil, não tem problema dar uma ajudazinha, não é mesmo? Ontem mesmo passei a receita de um remédio para esta crise que esgota a saúde do governo Dilma Rousseff, com o escandaloso enriquecimento do ministro Antonio Pallocci. Bastar tornar o Palocci legalmente inimputável. Ele ainda não tem idade para ser inimputável, mas por meio de uma lei o Congresso Nacional pode fazer do ministro-consultor o nosso índio branco.

Vai ser fácil para o governo petista aprovar uma lei dessas. Tirando questões como anistia a desmatadores, eles fazem passar o que querem no Congresso. Além do mais, como o Palocci é um intermediário querido por todos, é provável que até os tucanos dêem uma mãozinha para que o ministro-multiplicador-de-dinheiro possa andar pelado na praça sem sofrer acusações.

Não tem problema de ajudar o governo do PT, repito, apesar de que a falta de contato impede que a gente contribua de forma mais eficaz para que eles não façam besteira. Também sou um bom consultor, apesar de ter apenas minhas dificuldades multiplicadas por 20 nos últimos quatro anos.

Se o Palocci me telefonasse antes de comprar este apartamentaço, por exemplo, nossa conversa seria bem rápida.
— Quer dizer que você pretende comprar um apartamento de seis milhões de reais próximo do pessoal da Folha, da Veja e do Estadão, exatamente na cidade onde esses caras tomam suas biritas e ficam xeretando na vidas das pessoas, é isso, companheiro Palocci?

Certamente Palocci pegaria de pronto o sentido desta dica numa consulta rápida e gratuita, sem a necessidade inclusive de qualquer consulta às comissões de ética ou procuradores-gerais.

Mas vamos ajudar mais. Ontem vi o Palocci no Jornal Nacional. Que a entrevista foi um desastre para ele, isto é uma constatação da qual só os companheiros petistas forçosamente discordam. Não vou dizer que Palocci está destruído por causa de uma aparição patética como foi a de ontem, afinal mais patética ainda foi aquela entrevista do então presidente Lula feita de forma amadora na França, quando ele estava para cair em razão das maracutaias do mensalão.

Mas os tucanos estão até hoje esperando ele sangrar em público. O governo do PT conta com uma oposição covarde e incompetente, como demonstra até aquela manifestação do líder tucano José Serra, ainda no início deste escândalo, naquela estranha fala sobre “variação patrimonial” e sobre ser “normal que uma pessoa tenha rendimentos quando não está no governo”. Sobre a grana alta que Palocci faturou no período em que já detinha altos segredos do governo, Serra disse também que “ele já deu as explicações e saberá dar outras”.

É desta dificuldade que seus adversários têm para fazer oposição que o PT extrai parte considerável de sua força e isso poderá se repetir neste escândalo do ministro que põe o rei Midas no chinelo.

Mas a exclusiva de ontem do Palocci ao Jornal Nacional me deu uma idéia nova. Acho que deviam fechar o Congresso Nacional. Deputados e senadores poderiam ir para casa, o que daria uma economia formidável aos cofres públicos, mas não é por isso que trago essa proposta.

É que como autoridades do governo do PT não aceitam dar satisfação sobre seus atos no Congresso Nacional, que é o foro apropriado para isso, num desrespeito flagrante aos brasileiros, e sempre saem com estas maroteiras entrevistas exclusivas para a Rede Globo, então acho que seria mais prático fechar o Congresso e ficar só com a Globo.
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POR José Pires

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Para Palocci ficar no governo, só se ele for considerado legalmente inimputável

Só tem um jeito de o ministro Antonio Palocci continuar no governo: a base aliada de Dilma tem que torná-lo inimputável. É provável até que os tucanos dêem uma força para isso. Como ele foi sempre o petista mais querido de tantos oposicionistas, um esforçozinho desses não deve pesar para ninguém.

Palocci vai ser o nosso índio branco no Planalto. Poderá despachar pelado na Casa Civil. Receberá políticos da base aliada peladão em seu gabinete. O ex- ministro Sergio Motta (o falecido trator Serjão dos tucanos, lembram dele?) dizia que, por precaução, certos políticos deviam ser recebidos numa sauna onde todos estivessem pelados. O inimputável Palocci vai poder fazer isso no próprio gabinete.

Apesar de que, pelas histórias que se conta da famosa República de Ribeirão Preto, a da mansão em Brasília onde tinha um caseiro honesto xeretando, ali em algumas ocasiões o ministro devia receber os convidados bem à vontade, não é mesmo? Mas deixa pra lá, o fato é que se tornando legalmente inimputável, Palocci vai poder passear sossegado por Brasília, pelado e com 20 milhões no bolso. Sem caseiro e nem imprensa xeretando sua vida.

Não sei se Dilma vai deixá-lo participar pelado de reuniões com ela, mas tudo se resolve. Até os índios em determinadas ocasiões largam o hábito de andar pelados. Vestem um calção de futebol e está resolvido. Isso resolve bem a situação: a reuniões com a presidente Palocci pode comparecer vestido com um calção do Ronaldo, que é mais ou menos o tamanho dele.

Então esse é o mais esperto dos articuladores do PT? O homem cheio de manha, o intermediário habilidoso foi comprar um apartamento de seis milhões de reais em São Paulo e na véspera da posse da candidata que ele assessorou desde o primeiro momento?

E foi comprar o apartamentão logo do lado da Folha de S. Paulo. Isso é que dá político se acostumar com o caráter passivo da imprensa do interior. Com o tempo acaba descuidando.

Com a saída de Palocci do governo cai mais um mito da nossa política. O quase ex-ministro-chefe da Casa Civil nunca foi mais que um intermediário ao gosto do grande capital. Fora isso, nunca passou de um político provinciano que, se nossas câmaras municipais funcionassem de fato e se existisse uma imprensa decente nas cidades do interior, o larápio teria sido brecado já em Ribeirão Preto em razão das tantas ilegalidades que praticou como prefeito daquela cidade.

Não é a primeira vez que Palocci apronta, isso o Brasil inteiro sabe. E em todas as vezes que fez isso demonstrou o espírito pequeno de um homem exageradamente valorizado só pelos serviços que presta para quem tem dinheiro. Foi por fazer a ponte entre os interesses de grandes grupos e de grandes fortunas com os esquemas governamentais do PT, com tucanos e outros oposicionistas tabelando pelo meio, que Palocci conquistou o carinho extremado de tantos. Não foi por alguma qualidade política especial, mas apenas porque faz sem nenhum pudor o serviço sujo.

Palocci servia até ao interesse dos adversários, neste eterno acochambramento que há no Brasil entre os negócios de Estado e os negócios particulares. Sabe-se lá porque, a ponte perfeita que sempre juntou tucanos e petistas foi um homem desses que era da farra orgiástica quando ocupava o cargo de ministro da Fazenda e depois foi comprar apartamento milionário na véspera de assumir a Casa Civil. Que gênio da política, não?

Quando era ministro da Fazenda de Lula, Palocci tinha a frente de si a possibilidade de realizações imensas, e nem estou falando em gestão ética e produtiva, mas de realizações dentro do jogo sem ética que se desenvolve em Brasília.

Mas o que fazia Palocci? Em vez de tocar o trabalho e ganhar o mundo com competência, o ministro levava a vida em orgias na notória mansão da República de Ribeirão Preto, onde rolavam orgias e sabe-se lá o que mais. Eu não estava lá para ver, mas em ambientes do tipo rolam drogas e fetiches dos mais variados. É provável até que por ali ele já despachasse pelado, mas tornando-se inimputável ele poderá fazer isso sem temer o falatório dos vizinhos.

Mas espera lá, sabemos que essa era a vida de Palocci, porque aconteceram coisas que levaram à revelação de tais segredos que se manteriam na sombra se não aparecesse pelos jardins da mansão das orgias um caseiro honesto chamado Francenildo.

E quantos petistas poderosos não levam uma vida parecida à de Palocci em Brasília sem que tenha aparecido nas suas vidas nem um caseiro nem nada que contasse para o Brasil que as coisas não são tão normais como todo mundo pensa?

E quantos também não acumularam fortunas parecidas com a de Palocci, uns mais, outros menos, sem marcar bobeira comprando apartamento de seis milhões de reais em ocasião inoportuna? Muitos deles, disso podemos ter certeza mesmo não tendo à mão nenhuma comprovação.

Um desses pode até ocupar o lugar de Palocci, que pode se manter mais um fim-de-semana no poder, mas vai acordar na segunda-feira contando os minutos que ainda pode suportar de pressão.

Até porque não tem condição de tornar inimputável o levado ministro. Se Palocci apronta desse jeito vestido de paletó e gravata, pode ser bem arriscado permitir que ele ande pelado por aí.
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POR José Pires

quarta-feira, 1 de junho de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sarney agora quer trapacear a História

Então o senador José Sarney resolveu reescrever mais um capítulo da história do Brasil. Agora deu pra dizer que Collor não devia ter sofrido o impeachment. E digo reescrever mais um capítulo, pois já faz tempo que eles estão reescrevendo toda a nossa História. Lula é bastante criticado quando vem com aquela conversa mole de situar os bons acontecimentos a partir de sua subida ao poder, mas é um fato que nem isso começou com o PT e ele não é o único a tentar mudar a leitura histórica a seu favor. Toda essa politicalhada em todo o país vem já há algum tempo dando um feitio à memória brasileira que nada tem a ver com o que realmente aconteceu nesses anos todos.

Em cada cidade ou estado, dão nomes dos comparsas aos lugares públicos, comparsas atuais e comparsas que fizeram no passado algo parecido com o que eles fazem agora. Só para dar um exemplo, no Maranhão tem uma cidade chamada Presidente Sarney. Como diz a moçada: é mole? Não é não. Tem até universidade Dona Lindu, aquela pobre senhora que o filho disse ter nascida analfabeta, não tem? Pois é.

A esquerda também faz a sua parte neste embaralhamento da memória. Só para citar um caso, o mensaleiro José Genoino pode acabar passando para a História como um homem de bem amedalhado em nome do Exército Brasileiro pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim. E para merecer ser execrado Genoíno nem precisaria ter se metido na patifaria que foi o mensalão. Bem antes disso ele estava na Amazônia com um bando que pretendia transformar este país numa ditadura ao estilo maoísta, ou da Albânia, dependendo da ideologia da vez, cada uma pior que a outra.

Mas hoje o Sarney apareceu dizendo que o impeachment do ex-presidente Fernando Collor foi excluído da galeria de imagens da Casa. Nem é preciso perguntar de onde partiu a ordem para livrar a barra do agora companheiro de tretas senatoriais, não é mesmo?

A justificativa de Sarney para tirar esse que é um dos fatos mais importantes da nossa história recente é que é interessante. Primeiro ele disse que o impeachment de Collor “não é tão marcante”, o que é uma das avaliações mais estúpidas sobre este fato, e depois disse que “talvez fosse um acidente que não devia ter acontecido na história do Brasil".

Vamos à fala na íntegra: "Não posso censurar os historiadores que foram encarregados de fazer a história. Agora, eu acho que talvez esse episódio seja apenas um acidente e não devia ter acontecido na história do Brasil. Não é tão marcante como foram os fatos que aqui estão contados, que construíram a história e não os que de certo modo não deviam ter acontecido”.

O site da Folha de S. Paulo publica uma foto em que Sarney está mostrando a galeria para estudantes em visita ao Senado. Pobres estudantes brasileiros. Neste rumo, logo estarão condenando Tiradentes como um maluco que não devia ter acontecido e exaltando Silvério dos Reis como um valoroso construtor da história.

Estará ficando gagá o velho Sarney? O senador já está com 81 anos e não parece nada bem. Tudo bem, a velhice é algo natural, mas um velho velhaco é bem lamentável. E essa defesa não só do Collor, mas da eliminação de um dos nossos processos políticos mais memoráveis, nada é mais que uma velhacaria.

Ele já se saiu melhor do que isso, mesmo para defender seu grupo ou até um recém-chegado aos negócios escusos senatoriais, como é o caso do Collor. Bem, indo pelo raciocínio de que o impeachment do Collor foi um erro chegaremos à certeza de que o que o levou à presidência estava certo. E ele chegou à presidência da República xingando Sarney em praça pública.

Fugiu do eleitor
maranhense e quase
perdeu no Amapá
Sarney é uma piada. É o senador maranhense eleito pelo Amapá. Para se eleger teve que mudar o domicílio eleitoral para o Amapá, pois mesmo com o Maranhão fortemente atado ao cabresto ele não podia ter a certeza da vitória. E mesmo no Amapá, com todo o apoio do governo Lula e gastando uma dinheirama por pouco não perde a vaga para uma desconhecida.

Por isso digo sempre que não se caia na balela de que esse Congresso é representativo do que é o Brasil. Isso não é verdade. Só seria representativo se tivéssemos uma Justiça atuante, regras eleitorais que os políticos fossem obrigados a respeitar. Para que o Congresso fosse representativo do que somos teríamos também de ter partidos de verdade. E nada disso temos.

E é exatamente pela falta dessas coisas é que surgem os Sarneys. Com a política do compadrio conseguiu um bocado de coisas. E como todo bom vampiro, extrai sua força da desgraça desta pobre Nação. Falta também ao brasileiro a coragem de usar a estaca que Paulo Francis já falou há décadas. Tudo indica que Sarney será mais um ser indecente da política que só vai deixar de sugar o Brasil depois de morto.

Um escritor que está para
a literatura assim como
um Sarney está para a ética
Mas Sarney já fez coisas tão ruins quanto tentar reescrever a História. Ele escreveu livros. Só produziu literatices, mas com seu poder de fogo acabou sendo publicado por editoras de peso no mercado. Por coincidência, na semana passada eu folheava num sebo uma edição de Marimbondos de Fogo, naquela leitura crítica de alguns minutos, que ninguém é de ferro para encarar um livro de José Sarney. É da editora Siciliano, que fez uma capa com uma obra de Joan Miró. E como tudo que tem um Miró acaba ficando com um ar de sofisticação o livro ficou bonito, vistoso até. É o que se pode chamar de leviandade editorial.

Em Marimbondos de Fogo Sarney tentou fazer poesia. Uma passada de olhos no que ele escreveu dá na gente aquela vergonha pelo fiasco de alguém no palco. Num poema bem conhecido, Carlos Drummond de Andrade escreveu que enquanto o poeta municipal disputa com o poeta estadual, o poeta federal (que seria Manuel Bandeira, a quem ele dedica o texto) tira ouro do nariz. O que será que Sarney tira do nariz enquanto devaneia à espera da inspiração? Nem vou falar.

Sarney cometeu também um romance que acabou gerando uma das críticas mais formidáveis da história da nossa literatura, uma análise feita pelo Millôr Fernandes para a qual ele usou uma calculadora. Ou fez as contas no lápis, pois o bom e velho Millôr tem o jeito de saber fazer essas coisas.

Escrevi sobre isso aqui no blog em julho de 2002 num texto com o título "Brejal dos Guajas: um clássico... da crítica". Lá eu dou o link para o texto do Millôr em que ele prova na ponta do lápis que Sarney bestamente colocar mais de dez mil pessoas em duas ruas de 120 casas. Tive que copiar o texto de um livro do Millôr que tenho há bastante tempo, datilografia braba, mas vocês valem todo o esforço.

Mas por que estou falando em Marimbondos de Fogo, Brejal dos Guajas, essas coisas, se o que o Sarney fez foi teorizar sobre a reavaliação para melhor do que foi Collor para o país? Bem, tudo isso é má literatura que as editoras só publicaram pelo que Sarney representa como lobista eficiente. Foi só uma coincidência que a Siciliano tenha sido uma dessas editoras, mas é tuto cosa di buona gente, capisce? E publicar má literatura é algo tão indecente quanto defender o Collor. Sarney fica bem nos dois papéis.
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Por José Pires

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Lula azarando o próximo e lucrando com o azar alheio

O ex-presidente Lula (que se conserve assim, ó céus!) tem um tipo de sorte que só a metafísica explica. Ou seja, não se explica. Todos sabem que o chefe petista dá um azar danado aos que se aproximam dele. Na área esportiva a lista é imensa e está aí o Corinthians para comprovar que é bom ficar longe dele.

Na política, Lula também coleciona desastres à sua volta e os 40 quadrilheiros do mensalão sabem bem disso, inclusive o ex-capitão de seu time, o deputado cassado por falta de decoro José Dirceu, classificado no inquérito de mensalão que está no STF como "chefe de quadrilha".

Dirceu pode estar ganhando bastante dinheiro e ainda ter poder político, mas nos finais de tarde, talvez com um copo de um bom uísque na mão para relaxar, além da noite que cai sobre todos deve descer sobre ele o desencanto de uma vida política perdida, pois é praticamente impossível que ele suba aos cumes que estavam previstos para sua carreira política. Independente do que decidir o STF, seu destino é vagar pela planície com o estigma da corrupção grudado na sua face política.

Assim como tantos outros companheiros de Lula, Dirceu poderia ser bem mais do que é hoje. E ele sabe disso. Mas, também, muito bem feito. Quem mandou grudar no Lula. O efeito do chefão entre os petistas foi geral, da extrema-esquerda aos aproveitadores que, no final, tomaram conta do partido. Pelo país afora, são incontáveis os talentos políticos e até técnicos que foram destruídos pela proximidade com ele. Pessoas que já estavam encaminhadas para serem bons administradores públicos, vereadores, deputados, acabaram virando um nada na política ou se corrompendo de forma irremediável, muitas vezes só por pequenos cargos.

Há alguns anos, muitos anos, vá lá, ainda na época da primeira tentativa de eleição de Lula para presidente, em 1989, fiquei bastante espantado com um acontecimento numa de suas caminhadas numa cidade do interior do país. Numa carreata aconteceu um engavetamento no trânsito e alguns militantes, inclusive pessoas bem próximas de Lula, ficaram presas dentro de um carro que pegou fogo. Morreram todos numa situação de terrível desespero, inclusive com uma dessas pessoas pedindo para cuidarem de seus filhos. É de fazer um toc, toc, toc na madeira. Nunca soube de nada parecido em campanha alguma.

É claro que dei o toque na madeira e também senti um alívio por estar longe de alguém assim. Não acredito nessas coisas, mas como não dá para se apoiar em negativas científicas para um troço desses é bom seguir o conselho espanhol: pero, que las hay, hay. Carl Sagan escreveu um livro muito bom sobre esse assunto, com aquela ótima visão científica que ele expunha de forma tão clara. Mas ele sempre destacava o fato que, certeza absoluta mesmo não dava para ter. Mas, voltando ao seca-pimenteira, a única vez que apoiei o Lula foi contra Collor, naquele segundo conhecido turno, e foi um erro conforme o próprio Lula afirmou recentemente.

Minha aversão não é só pelo azar que ele espalha, é claro. Ele mesmo disse que não estava preparado na época, mas é bem mais que isso. Já naquele notório último debate, quando o vi acovardado na frente de Collor percebi que tinha errado em apoiá-lo até ali. Depois, ele próprio estimulou a mentira de que perdera a eleição por causa da manipulação da divulgação desse debate. Lorota pura. Perdeu porque foi covarde. E o pior é que parece ter se acovardado só por causa de uma pulada de cerca. O medo do rolo de macarrão da Marisa em casa pôs tudo a perder naquela noite. Não votei nele nem no segundo turno, mas isso é outra história.

Mas, voltando ao azar que ele passa aos outros na política. Dêem só uma olhada em torno dele o que sobrou. Até seu partido foi descaracterizado por completo e transformado em um PMDB de esquerda. Mas ainda lá atrás dá para citar nomes dos que se azararam de forma irremediável com a proximidade do chefe. O ex-prefeito Celso Daniel é um exemplo forte, não é mesmo? Isso sem falar no prefeito de Campinas, Toninho do PT.

No aspecto apenas político, até Leonel Brizola cometeu o erro de ficar perto demais. Em 1989, ele foi vice na chapa de Lula para presidente, na dobradinha mais tola que já se fez numa eleição brasileira. Isso foi demonstrado pelas urnas. Perderam feio no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso. Depois disso, Brizola não foi mais nada até sua morte em 2004. Com o descuido político impressionante ao aceitar aquele posto de vice deixou de deixou de ser uma figura central da nossa política e perdeu autoridade até em seu partido.

Até recentemente o espalha-azar pegou vítimas graúdas na sua teia de má energia. Algumas delas caíram ainda nesses dias. O Kadhafi não era amigo, irmão e líder dele? Pois é. E ainda mais recentemente e também no plano internacional, na semana passada outro desavisado naufragou depois de se lastrear com as pesadas energias do chefe petista.

No dia 16 do mês passado o chefe do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, recebeu Lula no palácio La Moncloa, sede oficial da presidência do governo espanhol. Posaram para fotos e fizeram uma reunião sei lá para tratar que tipo de assunto. Não importa, os vinhos espanhóis são realmente muito bons, apesar de que a cara inchada do ex-presidente brasileiro na foto revela o traço dos que não sabem beber. No encontro, os dois disseram que iriam manter relações de amizade "fortes e frutíferas". Ay, ay, ay, caramba... E Zapatero sendo espanhol não conhece o ditado sobre las brujas e que já citei, o que diz que las hay, hay?

Pois há três dias o PSOE de Zapatero sofreu uma derrota história. Essa amizade entre ele e o Lula pode até se manter, mas da próxima vez Zapatero terá de receber o ex-presidente brasileiro em casa e de pijama. Brincadeira, ele não precisa se preocupar. Lula vai se esquecer dele logo, já que ficar ao seu lado não dará mais fotos na imprensa internacional.

Lula é fogo. Se lesse meu blog, Zapatero jamais ficaria do lado dele, ainda mais depois do político espanhol ter aprontado na Espanha algo parecido com o que Lula fez com os compromissos históricos do PT. Ou será que é exatamente por isso que são tão próximos? Zapatero se ajustou ao figurino conservador, que obviamente não deu resultado positivo na economia espanhola. E como o eleitor espanhol não é bobo igual a certo povo de um grande país sul-americano...


Ganhando forças
com o azar que tirou
adversários de seu caminho

Lula espalha essa terrível energia negativa. Os fatos demonstram isso, seja no esporte ou na política. Porém, esse fenômeno estranho que emana do chefe petista traz junto uma interessante característica: ele tem sorte com o azar alheio. Sei que isso é muito esotérico, mas vamos aos fatos.

Na carreira de Lula, seu sucesso veio sempre de desgraças que aconteceram na política brasileira. E não estou falando das derrotas dele sobre adversários. São acontecimentos que nada tem a ver com suas ações, mas que acabou favorecendo, e muito, sua sede de poder.

Nem vou falar do que aconteceu na política brasileira com o advento ditadura militar em 64. Foi um período de chão arrasado na política, entre o empresariado e entre os formadores de opinião. Mortes, exílio, pressões de toda ordem, com todo tipo de ação repressora a ditadura brasileira acabou com a qualidade política. É certo que se não houvesse esse violento corte de cabeças seria impossível que uma mediocridade pessoal como Lula ascenderia tão alto. Até para fazer seu papel de songamonga havia muita gente mais habilidosa antes da ditadura chegar.

Vamos deixar de lado também o estrago interno no PT. Ou dá para acreditar que se José Dirceu não tivesse sido triturado Lula teria toda essa força?

Mas depois da ditadura e ao lado do crescimento de Lula - e não só por coincidência - muitos acontecimentos foram contribuindo para que ele acabasse tendo essa importância que assumiu na política brasileira.

Alguém acredita que Lula se elegeria depois do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, em 2002, se em vez de enfrentar José Serra disputasse a eleição com Mario Covas, que viria de dois mandatos no governo de São Paulo com altíssima popularidade? Pois Covas morreu em março de 2001.

Lula e seu PT estariam também muito complicados se Ulysses Guimarães não tivesse morrido num acidente de helicóptero em outubro de 1992. Estava com 76 anos e gozando de boa saúde. Nada indica que o histórico líder do PMDB deixaria Lula reinar da forma que fez nos dois mandatos. Ulysses dominou até um tipo como Sarney, um político matreiro que aliás foi determinante nos dois mandatos de Lula e manda até hoje em setores muito importantes do governo do PT.

O próprio Brizola, já citado, morreu em junho de 2004. Nos últimos anos de vida o líder pedetista já estava desgostoso com Lula. Não queria nada com ele. Se estivesse vivo, dificilmente o PDT seria transformado em suco na aliança inescrupulosa que fortalece Lula e o PT até hoje.

Tem muito mais figuras centrais que desapareceram, criando espaços que favoreceram o petista. Não é muita sorte com o azar alheio? Vou citar só mais duas, mas sem esquecer o ex-prefeito Celso Daniel, que caso não fosse morto também é possível que não facilitasse a atuação de quadrilhas em torno de Lula. Não esqueçamos que tudo indica que ele foi eliminado exatamente por isso.

Mas entre as figuras que não estavam exatamente no centro da nossa política, mas que são de expressiva força, inclusive de personalidade, temos a ex-primeira-dama Ruth Cardoso e Zilda Arns. Ambas poderiam ser um estorvo e tanto para o PT tomar conta da questão do conceito de assistência social, um fator que foi essencial para a vitória de Dilma. Pois Ruth Cardoso morreu antes da eleição, de problemas de coração. Zilda Arns morreu no terremoto do Haiti, a menos de um ano da eleição.

Sei que já é o bastante para embasar esta tese que, ainda que esotérica, me parece ter condições práticas para sua aceitação. Mas agora, há dois dias tivemos uma má-notícia que certamente é excelente para Lula e seu PT. O Congresso Nacional está precisando como nunca de gente honesta, mas, mais que isso, de políticos que atuem de forma objetiva para ao menos conter a bandidagem que toma conta da República. Um que tem feito esse papel de forma admirável e em poucos meses de mandato é o ex-presidente e atual senador Itamar Franco, cuja eleição por Minas Gerais tirou inclusive um petista graúdo do Senado.

Pois Itamar, que já tem 81 anos, foi internado no último sábado com leucemia. Que Deus nos ajude — vá lá, aproveitando que estamos mesmo esotéricos — para que esse não seja mais um azar que favoreça Lula e seu PT.
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POR José Pires

terça-feira, 24 de maio de 2011

O Brasil precisa de mais "Amandas" falando com toda a sinceridade o que sentem

A partir de um de um discurso relativamente curto e com um conteúdo simples e objetivo, a professora Amanda Gurgel transformou-se em um fenômeno popular no Brasil. A fala da professora ocorreu na semana passada numa audiência pública da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte sobre a crise na educação que acontece no estado, onde os professores estão em greve por questões salariais.

O trecho gravado em que Amanda usa a palavra foi colocado na internet e daí foi para blogs e sites, transformando a professora num acontecimento de mídia.

Atualmente no Youtube estão postados mais de 700 vídeos com ela, alguns até feitos com celular no acompanhamento de entrevistas dadas a emissoras de televisão. Uma contagem rápida apenas na primeira página do site, com apenas 25 desses vídeos, já dá para verificar mais de 500 mil visualizações.

Neste domingo, Amanda apareceu no Faustão, um programa que é, de certa forma, o ápice desses fenômenos. No Faustão ela ficou 23 minutos no ar, o que significa que sua presença agradou. A audiência de programas como o dele é monitorada de segundo a segundo e quem não agrada recebe nos primeiros minutos.

A popularidade instantânea de Amanda pode ter vários motivos, entre eles o fato dela ter uma fala fluente, mas com certeza o que as pessoas devem estar gostando é da chamada de atenção (ou “pito” mesmo) que ela deu em políticos e autoridades, entre essas a secretaria de Educação do Rio Grande do Norte.

Um trecho da fala da professora certamente vive engasgado na garganta da maioria dos brasileiros: “Eu perguntaria a todos aqui, mas só respondam se não ficarem constrangidos, se vocês conseguiriam sobreviver ou manter o padrão de vida que vocês mantêm, com esse salário [R$ 995 é o salário de um professor potiguar]. Certamente não conseguiriam”.

Sobre isso, ela emenda com a explicação de que "não há como ter qualidade em educação com professores trabalhando em três turnos seguidos, multiplicando seus salários: R$ 930 de manhã, R$ 930 de tarde, R$ 930 de noite para poder sobreviver", para depois esclarecer ironicamente que esse salário "não é para andar com bolsa de marca nem para usar perfume francês".

Num país em que um político como Antonio Palocci em um período de apenas dois meses, entre a eleição de Dilma Rousseff e sua nomeação para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil, ganhou 10 milhões (sic!) de reais em “consultorias” o nível salarial dos brasileiros de todas as profissões chega a ser tragicômico. Não é à toa que Dilma faz um esforço danado (infelizmente ajudada pela imprensa) para situar o nível de miséria no Brasil abaixo apenas de R$ 70 reais por mês. Ou seja, se o brasileiro ganha R$ 71 reais mensais já está fora da linha da miséria. É piada pronta. E de mau gosto.

A fala da professora vem em boa hora até para desconcertar um pouco este clima estranho criado no Brasil principalmente nos últimos anos de fazer de conta que a situação está andando bem para, gradativamente, irmos recebendo más notícias sobre a piora de problemas que deixam de ser enfrentados.

Em seu discurso, Amanda liga essa terrível e absurda situação dos nossos recursos humanos à dificuldade de executar qualquer plano de trabalho, seja na educação ou em qualquer outro setor (ela fala da educação, é claro), e critica a forma hipócrita dos políticos brasileiros e autoridades de várias áreas da administração pública de empurrar questões nacionais importantes com a barriga, fingindo que estão trabalhando pela solução dos problemas que encontram.

Independente de Amanda ter compromisso político com um sindicato ou mesmo algum partido, sua fala toca nos brasileiros pelo que tem de simples, que é a necessidade de uma formação política e econômica mais igualitária entre os brasileiros e também os brasileiros começarem a encarar os problemas com realismo. O toque que seu parco salário não é para comprar perfume francês e nem bolsa de grife sintetiza isso de forma clara.

O discurso que ficou famoso também agrada pelo tom de cobrança imediata para que cesse neste país a hipocrisia que os políticos implantaram na administração pública como um método. O brasileiro está cansado de lero-lero, por isso que alguém que vai direto ao ponto como Amanda acaba fazendo esse sucesso todo.

Precisamos de mais “Amandas” e para logo, pois dá a impressão de que o colapso está bem próximo no Brasil. E é claro que já temos muitas delas. Mas é preciso que soltem a voz como a Amanda potiguar, pois sem isso não dá para fazer uma Nação, não. E os nossos políticos, bem, os nossos políticos são "consultores" dos que só querem sugar o país.

Para ver a professora Amanda em vídeo, clique aqui. Se quiser ler a fala na íntegra, clique aqui. E para vê-la no programa do Faustão, mais bem cuidada e com um penteado feito para a ocasião (deve ter até botado um perfuminho especial, é claro), clique aqui.

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POR José Pires

terça-feira, 17 de maio de 2011

Nada de novo nas histórias de Palocci, a não ser certos defensores dele

Não fiquei surpreso com a multiplicação por 20 do patrimônio de Antonio Palocci, o sempre ministro dos governos petistas, antes ministro da Fazenda de Lula, cargo do qual teve que sair correndo por causa da quebra criminosa do sigilo bancário do caseiro Francenildo, e agora ministro da Casa Civil de Dilma. A conta feita pela Folha de S. Paulo se refere a quatro anos, desde 2006, quando Palocci teve que declarar seu patrimônio para a Justiça Eleitoral.

Quando se elegeu deputado, coitado, ele um patrimônio estimado em R$ 375 mil. Um pouco antes de assumir a Casa Civil no governo Dilma Rousseff, o ministro comprou um apartamento em São Paulo por R$ 6,6 milhões. Um ano antes, já havia comprado um escritório também em São Paulo por R$ 882 mil.

Acho pequenos os valores, tanto os da primeira declaração quanto os dessa última. Palocci vale muito mais. Porém, de qualquer forma, pelo que foi declarado de fato é um portentoso crescimento de patrimônio. Mas, repito, não é nada espantoso vindo dessa gente. Em nenhum outro governo ganhou-se tanto dinheiro quanto nos dois mandatos de Lula. E neste governo da Dilma Rousseff, pelo que se vê só das contas de Palocci, a coisa também promete ser braba. Dentro de poucos anos o cofre do Adhemar vai ser fichinha para a História.

Mas se escarafunchar os números relativos aos ganhos do ministro Palocci pode-se achar muito mais. Tem que se achar. Um ministro desse porte não pode ser diminuído dessa maneira. O ministro foi sempre muito poderoso no PT e nos três governos do PT, de Lula a Dilma. E antes disso também já havia sido prefeito de uma grande cidade paulista, Ribeirão Preto, onde, aliás, também foi várias vezes acusado por corrupção.

Na administração de Palocci naquela prefeitura até se inventou um alimento especial para a merenda escolar: molho de tomate com ervilha. Não adianta procurar no supermercado, pois você não vai encontrar. É coisa especial, só da administração Palocci. Falei sobre este assunto aqui no blog em fevereiro de 2008. A latinha da ilustração criei nessa época.

Em 2006, quando apresentou esse patrimônio de R$ 375 mil, havia passado 4 anos como poderoso ministro de Lula. Parece meio mixuruca num governo em que até o filho do presidente, o gênio dos games, Lulinha, ganhou numa só tacada R$ 5 milhões da Oi, que era então a Telemar.

A conta não bate nem nos R$ 7 milhões de patrimônio que Palocci tem agora oficialmente, se compararmos com os milhões do empresário de sucesso da família Lula da Silva. Está certo que o garoto é um gênio, mas o Palocci... bem, o Palocci é o Palocci, não é mesmo?

Não fiquei nem um pouco surpreso com a história desse aumento de patrimônio. O que é espantoso mesmo é o José Serra sair na defesa de Palocci no mesmo dia da denúncia feita pela Folha. Não esperou nem um aprofundamento do fato.

Serra falou na saída de um encontro com o presidente do PT, Rui Falcão, uma reunião já bem estranha, mas que ficou menor em razão do que o tucano falou sobre o caso Palocci. “Acho normal que uma pessoa tenha rendimentos quando não está no governo e que esses rendimentos promovam uma variação patrimonial”, ele disse.

Nem um petista faria melhor. Ao contrário, alguns petistas até estão exigindo que Palocci explique mais essa fantástica multiplicação. Mas o Serra, não. Ele já absolveu o ministro por antecipação.

Serra ainda vai acabar criando uma nova situação eleitoral, oposta àquela do eleitor que lamenta um voto errado no político que ganhou e governou mal. É a do eleitor que, algum tempo depois de votar, fica aliviado porque seu candidato perdeu.
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POR José Pires

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Alckmin se afina com Maluf

Já expressei aqui o meu espanto pela capacidade que o PSDB está mostrando na destruição do potencial político que o eleitorado jogou no colo deles com os quase 50% dos votos para o candidato José Serra. Sei, está bom, eu sei que entre os bípedes implumes o tucano é um dos mais atoleimados, mas é que o aparvalhamento tem sido tanto que justifica esse meu espanto.

Os tucanos estão construindo um extraordinário case de marketing. Mas é do tipo não faça o que eu faço. Até em São Paulo, onde eles tiveram vitórias esplêndidas como a ida para o governo já no primeiro turno, senador muito bem votado, além de terem a prefeitura em aliança com o prefeito Kassab e também uma boa bancada de vereadores, pois até em São Paulo estão botando tudo a perder.

Os lances são surpreendentes. Quando a gente pensa que já acabou, com o fenomenal case de marketing já pronto para ser lançado, vem uma liderança tucana e apronta mais uma. Hoje o governador Geraldo Alckmin engordou bastante o case com apenas uma jogada política de mestre. Mestre do não faça o que eu faço, repito.

Ainda é cedo para dizer que para o ano que vem a prefeitura da capital está perdida para tucano, mas com essa o Alckmin (ou Geraldo, como ele gosta de ser chamado, mas só em propaganda eleitoral) se esforçou pra chuchu (perdão, não resisti).

O governador paulista entregou a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) para o partido de Paulo Maluf. Alckmin ligou pessoalmente para o Maluf para convidá-lo a participar do governo.

Acho que saquei a jogada. É na área da simbologia, de que eu gosto tanto. Os tucanos andam com muitos problemas de imagem. Tem os pedágios, as privatizações, o elitismo, a indecisão, mas a pecha de ladrão ainda não tinham. Por este lado, foi mesmo uma jogada de mestre.

E claro que Maluf vai participar da equipe alckmista. Com muito gosto, não é mesmo? Os malufistas já estão bem animados. E como são profissionais, já explicaram como vai ser a participação no governo de São Paulo. O secretário-geral do partido malufista adiantou para a imprensa que no governo paulista vão trabalhar afinados com o Ministério das Cidades, que também é do PP.

"Dá para fazer um trabalho articulado entre as duas pastas”, ele disse. Claro que dá. E esse "trabalho articulado" é que nos preocupa bastante.
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POR José Pires

Aviso aos navegantes: a barbeiragem foi do Blogger

Um problema no serviço de blogs do Google, o Blogger, havia apagado posts desde a terça-feira. O bug aconteceu durante manutenção do serviço, de quarta para quinta-feira. Ontem foi impossível postar ou fazer qualquer outra coisa no blog.

É uma chateação, mas serve de aviso, pois é uma antecipação de muitos problemas que devem começar a ocorrer na internet, um meio que já está bem sobrecarregado. É muita coisa mesmo. E pensar que há poucos anos, ainda nos anos 70, tinha cabeludo que parava na frente de uma ensolarada banca de revistas exibindo cinco ou seis mirrados jornais e perguntava: "quem lê tanta notícia?"

Um bug como este também deveria servir de aviso para tipos como eu, que costumo escrever meus textos diretamente no blog, como faço este agora, sem a preocupação de guardar cópias. Isso apesar de já ter sido alertado por amigos (não é mesmo, Moratto?) para fazer de outro jeito, no word, até para poder usar a ferramenta de correção e pegar pelo menos os erros de digitação.

Mas, felizmente o problema foi resolvido. Os posts voltaram depois de cerca de 24 horas apagados aqui do blog. Isso evita muitos dissabores, até porque nós blogueiros teríamos que ficar só na raiva. Eu já estava até analisando a dificuldade que seria encontrar um advogado para processar o Blogger por perdas e danos, sendo a hospedagem deles totalmente gratuita e com um serviço que até deu uma melhorada nos últimos meses.

Sendo assim, não temos mais motivos para nos apoquentarmos. Até fizemos uma limonada deste limão. O tilt deu assunto. Avante, então, neste vento a favor. Mesmo sem saber aonde vamos parar, navegar é preciso.
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POR José Pires

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Os deputados e senadores e as nossas cuecas e calcinhas

Não adianta achar que o Brasil já está ridículo o suficiente, pois sempre tem um deputado para trazer uma surpresa neste assunto. Já está na reta para ser aprovado definitivamente um projeto que obriga fabricantes de calcinhas, cuecas e sutiãs a afixarem nas peças produzidas e comercializadas no Brasil uma etiqueta com advertência sobre a importância de exames preventivos de câncer de colo de útero, de próstata e de mama. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara já deu o ok nesta terça-feira.

O projeto é de 1999 e é de um desses deputados que ninguém sabe quem é. Não importa o nome, pois nem se elegeu mais. E uma idiotice dessas poderia vir de muitos dos que lá estão.

Na origem o projeto era bem simples. Dizia só que as etiquetas de peças íntimas deveriam conter alertas para que homens e mulheres fizessem exames preventivos. Mas os senadores resolveram esmerilar a coisa e decidiram inclusive que nas cuecas do tamanho adulto a etiqueta deve conter a advertência sobre o exame de detecção precoce do câncer de próstata para homens com mais de 40 anos.

E a da meninada terá o quê? Conselhos sobre masturbação, talvez? E tem também as calcinhas e sutiãs. Os senadores foram criativos. Nos sutiãs a mensagem é sobre câncer de mama. São coisas assim que eles ficam bolando por lá. É o que dá morar num país maravilhoso como o nosso, não é mesmo? Os senadores passam a tarde debatendo sobre cueca e calcinha.

Nem sei como a bancada evangélica não aproveitou para botar pelo menos numa porcentagem das calcinhas e cuecas uma mensagem contra o aborto. Seria um pau nessa licenciosidade, irmãos.

Se a presidente Dilma Rousseff não tiver o bom senso (olha o estado a que chegamos: na dependência do bom senso da Dilma) de vetar essa porcaria, o Brasil terá mais uma jabuticaba, pois duvido que nalgum outro país tenha aparecido uma proposta tão idiota. E se acaso apareceu, por certo não conseguiu como aqui apoio suficiente para seguir adiante.

Mas, supondo que não haja bom senso da parte da Dilma e o projeto vire lei, teremos então que providenciar fiscalizadores de cueca e calcinha. De que órgão (como dizia O Pasquim, epa!) sairá esta nova categoria? Não importa, o governo vai precisar de muita gente para o serviço de ficar de olho em calcinhas e cuecas. Quantas bocas, hein? Ih, já estou vendo a bancada do PT pressionando a Dilma para ela assinar a lei.
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POR José Pires

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A morte do facínora pelo gringo que não parece bandido

Está divertido acompanhar os defensores dos direitos humanos de Osama Bin Laden. Já vi artigos em que se fala até no direito que o terrorista deveria ter a um julgamento numa corte internacional, com todos os ritos processuais. Bem, mas Bin Laden não compareceria a uma corte dessas de forma voluntária.

De qualquer forma alguém teria de pegá-lo no Paquistão, não é mesmo? A menos que se acredite que ele poderia ser chamado na sua fortaleza de Abbottabad para prestar contas à Justiça. Teria de ser por carta, pois na mansão não havia telefone ou computador.

Melhor que isso só o texto de Fidel Castro lamentando que Bin Laden tenha sido morto na frente das esposas e dos filhos. Vindo de alguém que matou tanta gente e das formas mais diversas só pode ser piada pronta.

O jornalista Robert Fisk é outro que dispara muitos textos tentando diminuir o feito de Barack Obama. Li alguns no jornal mexicano La Jornada, disponível na internet. Fisk dá a impressão de uma mágoa profunda de ter sido furado por Barack Obama. Enquanto procurava Bin Laden em tantos cantos, Obama e seus Seals conseguiram uma exclusiva com o chefe da Al Qaeda.

Sempre tomando cuidado para lembrar que também não gosta de Bin Laden, Fisk vai no mesmo tom de uma parcela da esquerda brasileira, tanto que seus artigos são republicados com muito gosto por sites e blogs alinhados ao lulo-petismo.

O problema dessa gente com Obama é muito simples. Ele não serve para espantalho. Obama não entra de jeito nenhum na personagem do ianque imperialista que facilita tanto para a esquerda, até para aplacar suas disputas internas. Para isso é melhor um Republicano. Bush era perfeito no papel. Daí a torcida despudorada pelos republicanos e as imprecações contra Obama.

Nunca é fácil enfrentar um gringo. E quando ele não parece bandido, aí é que fica mesmo muito difícil.

E mesmo que haja certas incorreções na ação contra Bin Laden e talvez até a quebra de regras internacionais é muito difícil lamentar a morte de um homem que cometeu tantas barbaridades como ele fez em vida. Bin Laden não inspira sequer compaixão. Fidel Castro pode até lamentar que a morte tenha ocorrido na frente da família, mas aí pode ter falado mais alto a experiência de um ditador que tirava os dissidentes da frente de suas famílias para depois matá-los.

A esquerda está desgostosa com a morte do chefe terrorista, não só por ele, é claro, mas muito mais pelo belo empurrão que a reeleição de Obama recebeu com os balaços lá no Paquistão. Maior desgosto só o dos líderes do partido Republicano, com o chefe George W. Bush à frente com sua imagem de aturdido ainda mais destacada.

A cena mais marcante do 11 de setembro, depois daquelas dos aviões arremetendo contra as torres, é a de Bush recebendo a notícia numa escola da Flórida. De qualquer forma a derrubada das torres seria um baque para seu governo. Porém, a cena do presidente americano sendo pego de surpresa e com uma flagrante dificuldade de reação fixou nele a imagem da derrota para o terror.

Bush não aceitou o convite de Obama para participar das cerimônias no local onde era o World Trade Center. Ele não podia mesmo estar lá hoje. O que iria fazer? Levantar um braço de Obama para demonstrar seu nocaute?

O derrotado e o vingador. Depois da morte de Bin Laden este é o paralelo de Obama com Bush e, por extensão, com o que significa o partido Republicano. Desde que Obama assumiu, os republicanos vêm insistindo na tese de um presidente fraco em assuntos internacionais e até leniente com o terrorismo. Pois a tese foi abatida a tiros no Paquistão.

Era uma tese com um formato eleitoreiro, é claro, mas não deixava de representar um sério perigo para a reeleição de Obama no ano que vem. E ele sabia disso. Tanto que veio demolindo gradativamente nos últimos meses esta ameaça à sua imagem, com um ponto alto no ataque frontal ao ditador líbio Kadhafi e o ápice nesta ação militar contra Bin Laden. Foi um ataque com todo jeito de vingança e até nisso simbolicamente há um grande acerto político, quer aceitemos ou não o fato.



Alguém como Bin Laden tinha mesmo que se ver cercado de tanta mistificação, mas quase tudo que se lê desde sua morte tem tanta importância quanto as variadas lendas urbanas que rolam pela internet. A figura de um mártir elevado às alturas no mundo islâmico só pode sair da cabeça de quem desconhece muita coisa sobre quem foi o criador da Al Qaeda ou de quem age com má-fé para faturar algo neste clima.

Sobre Bin Laden tem muitos livros que desmontam o mito do filósofo islâmico, o árabe escorado por uma cultura milenar em luta contra a imoralidade ocidental. Esta é uma farsa que pegou especialmente no Brasil. Um livro muito especial é “O vulto das torres”, de Lawrence Wright. Apenas por esta obra já dá para extrair conteúdo suficiente para entender o falecido.

Quando à Obama, também exise uma variedade de livros, inclusive os dele, aliás bem escritos. Não bate bem da cabeça ou usa mesmo de má fé quem tenta desmerecer um político como ele. Mesmo que ele não pegasse Bin Laden, a eleição do ano que vem não seria um passeio para os Republicanos. Agora a caminhada republicana será ainda mais dura.

Eu gosto de simbologias. Quem passa por aqui com mais freqüência sabe disso. Os “Seals”, o grupo que em cerca de 40 minutos matou o inimigo número 1 dos Estados Unidos, unidade de forças especiais da Marinha dos Estados Unidos. Ambos têm lemas interessantes. O do Seals é “O único dia agradável foi o de ontem”. O da Marinha é “O vento não sopra a favor dos que não sabem aonde vão”.

Este último lema, da Marinha, é uma beleza de frase. Desde que chegou ao governo Obama não pegou vento nenhum a favor. Ao contrário, vem tentando domar as tempestades criadas pelo governo anterior, de Bush, em todos os setores, da economia às relações internacionais. Nesta labuta danada ele parece ter se guiado pelo lema dos Seals. Deu duro sempre. E como sabe aonde vai, com certeza deve aproveitar bem esse vento a favor dos últimos dias.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Senhores, o meio ambiente merece mais respeito

Pelo nível de seriedade da argumentação dos debatedores de uma questão é possível constatar num tempo relativamente curto as intenções deste ou daquele lado e descartar logo gente que pouco está interessada em aprofundar o assunto. Esta discussão sobre o Código Florestal mostra isso de forma exemplar.

Agora entrou na conversa a inflação, trazida pela CNA, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. Na voz da senadora Kátia Abreu, sua presidente, ecoa na imprensa impressa e na internet a argumentação de que a não-aprovação do Código nos termos que interessam aos ruralistas vai fazer recrudescer a inflação revivida nas gestões continuadas do PT.

É lamentável que uma lição de economia tão fantástica tenha vindo tão tarde para resolver uma questão que perturbou durante anos os mais variados governos. José Sarney teria se salvado para a História com algo assim, ele fracassou de forma espetacular em vários planos contra a inflação. E o ex-presidente Collor achava que iria derrotá-la com um tiro. Pois a coisa era mais fácil do que ele pensava: bastava dar um teco no Código Florestal.

Uma organização de classe importante como a CNA deveria trazer subsídios mais sérios para um debate desses. Os fazendeiros, grandes empresários do campo e a indústria que gravita em torno do ramo podiam, por exemplo, explicar como um país como o Brasil, que nem de longe é a maior economia do mundo e muito menos o maior produtor agrícola é hoje o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Podiam também contar a razão de adotarem procedimentos na criação e engorda de animais que não são prejudiciais para a saúde humana apenas depois de forçados (e muito forçados) por países estrangeiros.

Apesar de eu ter um lado claro nesta questão, sou da opinião de que a votação da matéria no Congresso devia ter sido feita de forma mais aprofundada, buscando abrir um debate enriquecedor sobre o assunto, que, evidentemente, não termina agora na votação, seja qual for o resultado a que cheguem os parlamentares brasileiros.

Uma das falhas do processo vem do próprio relator da matéria, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB), que está num lado oposto ao que eu penso, o que me deixa bastante satisfeito, pois não há nada pior do que estar do mesmo lado de políticos como este líder comunista. Não esqueçamos que pouco tempo atrás, o projeto da vida de Rebelo era transformar o Brasil numa China ou mesmo numa Albânia, conforme ele e seus correligionários foram mudando de "farol", um termo que décadas atrás os comunistas gostavam muito para identificar a centro ideológico que os atraíam feito mariposas.

Outra falha muito grave foi a condução da parte da chamada classe produtora do campo, especialmente dos grandes proprietários representados pela CNA, que perderam a oportunidade de comparecer com equilíbrio a um debate de altíssima importância em nossa atualidade e também para um futuro com horizontes nada tranqüilos.

No encaminhamento do Código Florestal, Rebelo seguiu uma linha rígida demais. Fugiu ao papel de relator, colocando-se de pronto ao lado das forças econômicas de ruralistas e corporações e indústrias sem o interesse na preservação ambiental e, penso eu, com uma visão atrasada sobre o papel da agricultura numa Nação.

Não à toa, o comunista Rebelo e a senadora e fazendeira Kátia Abreu se encantaram um com o outro, o que não surpreende quem conhece a história do marxismo e, principalmente, sua aplicação em vários países, no chamado "socialismo real". O marxismo foi tão estúpido quanto o capitalismo na questão do meio ambiente nas décadas passadas, com a diferença que o capitalismo se renovou bastante nesta questão. É a impressionante capacidade de assimilação do capitalismo e a quase nenhuma do comunismo, uma razão essencial da sua derrocada.

Rebelo é o comunista que ainda não aprendeu que é preciso no mínimo amenizar o modelo sugador de recursos naturais que destruiu tantos países no e que foi especialmente danoso na esfera comunista. Kátia Abreu é uma liderança pré-capitalista. Tem dificuldade em aceitar até a implantação de regras trabalhistas decentemente razoáveis para os trabalhadores do campo.

Kátia Abreu e seus liderados querem o de sempre: afrouxamento de regras e anistias por terem desrespeitado leis ou até por dinheiro emprestado de bancos públicos e jamais pagos. Na defesa de seus interesses buscam fazer valer até o encabrestamento da opinião pública, sem nenhuma preocupação em atuar politicamente para uma melhor compreensão dos brasileiros sobre esta matéria tão séria e que deveria ser um ponto essencial nas suas atividades de agricultores e pecuaristas: o meio ambiente.

Ouve-se falar muito da falta de vocação agrícola por parte do Movimento dos Sem Terra, o MST, que por isso seria uma organização com um espectro basicamente revolucionário que apenas usa a questão da terra para a concretização de seus planos políticos. Concordo em boa parte sobre isso, mas o que falar do outro lado, dos ruralistas? Do mesmo modo é composto por gente que não mete as mãos na terra e pouco compreendem dos riscos dessa exploração excessiva do nosso chão, até mesmo para a sustentabilidade de seu próprio negócio.
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POR José Pires

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A rede social


Hoje em dia fala-se bastante em redes sociais que mobilizam militâncias, armam protestos de rua, condenam governos e até derrubam ditadores, mas a verdade mesmo é que um empurrãozinho de internautas como os da foto — que no momento assistem em tempo real à caçada e morte de Osama Bin Laden — também ajuda bastante.
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POR José Pires