quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Uma regra para entender os economistas

Para entender o que os economistas andam falando sigo uma regra muito simples: desconfio sempre quando eles vêm com uma conversa otimista e desconfio também quando a mensagem é pessimista.

No primeiro caso a mentira é sempre para cima e no segundo a mentira é para baixo. Diminua o primeiro e aumente o segundo, que é capaz de você chegar próximo do que pode ser a realidade.

Dá a impressão de que o economista nunca está interessado na substância que dá os números que estão sendo analisados. Suas projeções raramente observam esse dado simples. É claro que esse discurso insustentável contagiou a política e, por extensão, os dirigentes públicos.

Esta dificuldade em ver de forma simples as conseqüências de qualquer organização econômica pode ser sentida em várias propostas que contribuíram para tazer o país para essa desgraça econômica da qual dificilmente sairemos em pelo menos duas décadas, se depender dos resultados educacionais, industriais, da área de tecnologia, ou de qualquer outro tipo de ação prática relacionada à infra-estrutura.

Alguém se lembra da tal de “reengenharia”. Pois é, teve uma época no Brasil em que isso foi mais aclamado que o Chacrinha dado bacalhau para sua platéia. Ou, para usar um exemplo atual, o Silvio Santos ganhando um belo bacalhau do governo depois dele conseguir falir um banco neste país.

Quando os economistas vieram com aquela onda de otimismo da "reengenharia" (vamos manter as aspas nesta palavra especial), era muito triste, mas não por isso menos interessante, observar a satisfação das pessoas enquanto metódicamente eram destruídos recursos humanos que levaram muitos anos para serem criados.

Como eu sempre desconfiei de lições que não pregam o trabalho duro e o aprofundamento no estudo e na feitura das coisas e também como via à minha volta equipes sendo desmanteladas e profissionais da mais alta qualidade e experiência saindo de cena em várias atividades, senti logo que havia uma altíssima picaretagem em andamento.

Foi a época em que um "consultor" (cabe também aspasnesta outra palavra também muito especial) falando com um vocabulário de livro de auto-ajuda chegava numa firma e cortava do bom e do melhor de seus recursos humanos, debaixo do aplauso idiotizado de seus dirigentes, que muitas vezes eram os donos da empresa que estava sendo destruída, e muitas vezes parabenizados até pelos profissionais que caíam foram.

Foi uma época em que até uma das maiores desgraças para um trabalhador, que é a demissão, passou a ser vista como um benefício no mercado de trabalho. Com um adjetivo bacana, “demissão voluntária”, o processo era tentador. Você era demitido e podia construir seu próprio negócio e progredir muito, talvez até ficar rico. Quem podia resistir a uma proposta boa como essa?

Bem, uma das primeiras vezes em que ouvi de um empresário esta excelente receita, disse a ele que era provável que na sua empresa ele perdesse todos os bons profissionais — mais produtivos na empresa, mas que naturalmente aceitariam a demissão, pelo fato de serem pessoas mais destemidas — e ele ficasse com todos os profissionais acomodados e improdutivos.

O empresário me olhou de uma forma que pareceu entender a questão, mas logo seguiu com sue reengenharia. Desconfio até que ele suspeitou que eu estivesse me incluindo entre esses profissionais mais produtivos só para escapar da degola voluntária.

Naquela época, praticamente toda a imprensa passou a falar naquela linguagem de auto-ajuda. Um exemplo significativo do resultado desse ensandecimento coletivo foi a cobertura da revista Exame, especializada em economia. Durante um período de quase uma década esta revista deu várias capas sobre as maravilhas da "reengenharia", para depois fechar o assunto em uma matéria de capa memorável em que informava que só sobraram no mercado as empresas que não seguiram aquela receita.

Bem, salvaram-se exatamente os empresários que avaliaram para baixo o otimismo trazido pelos economistas com a tal de "reegenharia" e elevaram as precauções quanto aos riscos da excelente receita.

Mas o que os economistas andam dizendo agora que a marolinha do ex-presidente Lula ficou para trás na propaganda política e deu lugar à crise sistêmica para a qual nunca nos preparamos?

Hoje vi uma informação muito séria, vinda do banco JP Morgan. Para eles existe a probabilidade em 62% da repetição de uma crise com a mesma severidade do colapso do banco Lehman Brothers em 2008. O que a matéria que saiu na Folha não diz é que essa batida deve vir num mercado mundial já combalido inclusive psicologicamente, o que não ocorria em 2008.

Ou seja, para se preparar para o que pode vir por aí tem que ser aplicada a regra para mais nesta onda de pessimismo vinda dos economistas do banco JP Morgan, o que pode levar esses 62% bem pra perto do 100%.
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POR José Pires

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Conferindo a produção

Informação precisa do portal da revista Época: "Em três dias, Rock in Rio já produziu 50 toneladas de lixo".

Sem contar a música, não é mesmo?
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POR José Pires

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Coisa de louco

Tem umas coisas no Brasil que... só no Brasil mesmo. Não digo isso apenas por serem fatos absurdos, bem fora do comum, pois é próprio do ser humano cometer maluquices que só podem ser equilibradas com regras políticas, sociais e até mesmo jurídicas que por aqui são muito bambas.

Aqui o absurdo não só é contemplado socialmente como pode até passar a ser visto como uma normalidade. É o país em que o larápio político flagrado pela polícia se defende de imediato dizendo que "foi só um caixa dois". Estamos onde o louco que grita mais vira dirigente do hospício.

Já vimos isso no mensalão, um esquema que teria dado cadeia praticamente imediata se tivesse sido descoberto em um país decente, mas que aí está sendo levado com tanta lentidão que permite até que seja composto um tribunal que pode ser mais leniente com os larápios.

É fogo agüentar a imensa rede de corrupção que surge todos os dias de forma fantástica no noticiário, como fábulas políticas das quais o mensalão é um exemplo que até parece literatura fantástica, mas aqui não se pode dizer nunca que já se viu tudo. Não se deve nunca perguntar no Brasil aonde vamos parar. Nesta terra a construção de absurdos tem sempre um horizonte imenso pela frente.

Hoje apareceu a notícia de que os advogados da promotora Deborah Guerner, acusada de envolvimento no esquema de pagamento de propina no governo do Distrito Federal revelado em 2009, pediram à Justiça a restituição de R$ 280 mil que a Polícia Federal apreendeu na casa dela.

Até aí tudo bem. Com tanta ladroagem denunciada na política sem que o dinheiro roubado seja restituído aos cofres públicos, por que haveria algum espanto de haver uma devolução como esta?

Mas acontece que o dinheiro apreendido pela PF foi descoberto em um cofre que estava enterrado no quintal da casa de Debora Guerner. Isso mesmo, podem voltar ao início da frase conferir se leram direito, mas vou repetir: o dinheiro estava em um cofre enterrado em um cofre no quintal.

O advogado da acusada garante que o dinheiro tem origem lícita e servirá para pagar os custos do tratamento psiquiátrico de sua cliente.

O pedido já foi protocolado na semana passada e acho que ninguém deve se espantar se for mesmo devolvida a bufunfa que estava enterrada em um cofre no quintal. É melhor deixar isso pra lá e tentar se equilibrar psicologicamente. Não adianta pirar com tudo isso que vem acontecendo. Até porque, apesar de ser normal no Brasil guardar quase 300 mil reais enterrados num buraco, não temos tudo isso em nosso quintal para pagar custos de um tratamento para manter nossa saúde mental.
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POR José Pires

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Palanque armado nos bastidores para o TCU

A campanha que a deputada Ana Arraes (PSB-PE) vem fazendo pela vaga de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) tem servido para expor para a opinião pública como é feita a composição desse tribunal. Pelo sobrenome já se sabe que a deputada é membro de uma conhecida oligarquia política nordestina. É filha de Miguel Arraes e mãe do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Ao lado está o santinho da sua eleição para deputada. Pelo que se vê, em termos de conceito ela prefere não correr riscos.

Não vou me deter no mérito da capacidade da deputada para ocupar um cargo de controle de contas, porém é preciso dizer que apenas com essa disputa é que o Brasil ficou sabendo que Ana Arraes é deputada. Com todos esses escândalos de corrupção e de gastos indevidos que o Brasil vive nos últimos anos, não se sabe de palavra alguma de Ana sobre o tema, mesmo que fosse uma frase solta no noticiário.

Nesta semana se noticia que a conquista da vaga já tem o apoio de tucanos e petistas. Bem, novamente sem julgar a candidata, quando esses primos se juntam, para coisa boa não é.

Tanto no plano federal como no âmbito dos estados, os tribunais de contas são daquelas jabuticabas brasileiras que surgiram para ocupar os espaços da ineficiência de outras instituições, mas só contribuem para alargar estas imensas áreas de fiscalização e controle em que nada acontece no Brasil.

No plano federal, basta ver o imenso rol de obras superfaturadas e até que são pagas sem jamais serem concluídas, para avaliar que serventia tem o TCU. E nos estados, as contas de governadores com os mandatos mais desavergonhados são aprovadas sem nenhum pudor.

Os juízes dos TCEs são nomeados pelos governadores, com a aprovação dos deputados estaduais. Com a qualidade da representação política que temos hoje no país, é muito difícil que exista em algum estado um tribunal desses que cumpra de fato com sua função.

O jornal O Globo conta que parlamentares bem próximos de Lula já declaram simpatia à Ana. O deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) disse que ainda não recebeu pedido do ex-presidente para apoiar a candidata, mas pelo que se vê já está no caminho. E todos sabem qual é a visão de Lula sobre a fiscalização de contas públicas.



Indefectível em qualquer jogada política, o senador Aécio Neves (MG) se juntou a seu braço direito, o deputado Sérgio Guerra (PE), e os dois já deram as caras na negociação para o cargo do TCU. Neves, como se sabe, segue com sua campanha perpétua para a presidência da República. Os jornais revelam que Guerra procura estabelecer uma relação próxima com o filho da candidata, o governador Campos, para melhorar sua chance de voltar ao Senado em 2014, por Pernambuco.

Sérgio Guerra é o presidente do PSDB, cargo que ocupou também no ano passado quando o candidato de seu partido à presidência da República, José Serra, alcançou com um formidável espírito de luta quase 50% dos votos em todo o país. Serra perdeu em todos os municípios do estado que é base eleitoral de Guerra, que teve que fugir da reeleição para senador e se refugiar numa candidatura mais fácil para deputado federal.

O governador pernambucano Campos, filho da candidata ao TCU, tem sido o implacável destruidor da carreira política do deputado Guerra em seu estado Natal. E agora, Guerra, tendo ao lado o indefectível Aécio Neves, procura obter por meio de transação política de bastidores o que não teve capacidade de conquistar com qualificação política em eleições abertas.

A atitude desses políticos em relação à candidatura de Ana Arraes mostra de forma eficiente o sistema de composição do TCU e de tribunais estaduais do mesmo tipo. Mesmo se a invenção fosse boa, com essa forma de avaliação e apoio aos candidatos, não tem tribunal que dê certo.
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POR José Pires

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O outro lado do flagra em José Dirceu

Do flagrante que a revista Veja deu no ex-ministro e deputado cassado José Dirceu o mais divertido tem sido acompanhar o desenrolar nos blogs aparelhados pelos petistas. É um terreno da fantasia, cujo conteúdo vem da mesma fonte que os alimenta com anúncios, privilégios ou até com a simples satisfação de ostentar a aparência de estar em um grupo político. Este é o caso de uma parcela de blogueiros que fazem o papel de inocentes úteis, repetindo a argumentação que desce das chefias com uma inocência que até causa constrangimentos na hora de ler. E não duvido até que seja de boa fé que muitos façam o jogo dos maiorais, pois fanatismo tem dessas coisas.

É claro que os graúdos sabem muito bem o que estão fazendo. E são bem pagos para isso. Lá estão a rodar em seus blogs e sites os anúncios de estatais e do próprio governo para mostrar que a deformação da realidade é um meio de vida. Mas o mais interessante é observar aqueles que estão no assunto sem atentar para a manipulação.

Fico até impressionado que ninguém tenha estudado ainda este estranho ambiente. Nas seções de comentários é possível ver de perto o que o fanatismo faz com as pessoas. Depois que uma “verdade” é apontada do alto não tem como convencer do contrários os crentes. Nas seções de comentários qualquer um que procure debater de fato o assunto é logo tachado de “troll”.

Não me parece ser uma fórmula boa para chegar a um bom conteúdo numa discussão e muito menos acredito ser possível aprender qualquer coisa agindo com todo esse dogmatismo. E o conteúdo desses blogs, sites e até das revistas que seguem o mesmo comportamento, bem, o conteúdo de cada um comprova que a fórmula não serve para oferecer um bom produto ao leitor.

Este é um ponto importante dessa discussão, até porque o flagra em Dirceu feito pela Veja levou até o próprio partido a destacar o assunto em sua pauta. Será que a liderança petista não compreende que está emburrecendo seus próprios quadros com esta condução sectária e nada profunda do debate político? Pois não entendem. Daí essa falta de qualidade no governo e os produtos nada interessantes que eles trazem para a sociedade.

E notem os petistas que não estou falando sobre concordância política. No caso dos produtos, o ponto que me interessa é o da qualidade essencial para atrair a atenção das pessoas. E na questão da governabilidade o fato é que sempre fica mais difícil fazer um bom governo com uma massa partidária que vai gradativamente sendo emburrecida por espertalhões que nada sabem sobre qualquer necessidade técnica, além das mumunhas que os favorecem.

É também uma forma estranha de fazer política. Todos afirmam a mesma coisa e consentem sobre quem é o mocinho e o bandido da história. O mocinho sempre está do lado deles, é claro. Sim, porque aquela história dos dois lados numa notícia funciona muito para este pessoal. Tem o lado deles, que é o certo, e o dos outros, que sempre é o lado errado.
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POR José Pires

Os exageros na dor por um José Dirceu bem de vida

Um ponto que também é interessante no flagra da Veja em José Dirceu é sua reação. O ex-capitão de Lula sentiu o golpe. E não é pra menos. A matéria da revista teve um efeito terrível na sua imagem, que já não estava boa e ficou bem pior. Basta dar uma olhada nos cartazes publicitários da revista espalhados pelo país afora para saber o que Dirceu deve estar sentindo. Eu tirei a foto ao lado numa rodoviária. Nem é preciso imaginar o efeito disso nas pessoas, pois eu fiquei algum tempo observando enquanto elas olhavam a capa da revista.

O efeito é dos piores para Dirceu, mas também ele não ajuda. Ou melhor, ajuda muito quem pretende fazer da sua figura uma capa com ares de suspeição. A capa da Veja é perfeita nisso, mas cá entre nós, com uma figura como Dirceu não é preciso muito esforço do editor.

Para ao menos amenizar os danos a blogosfera petista se movimenta. O próprio deputado cassado deu o tom logo que a reportagem foi anunciada. Já com uma semana da edição da revista é possível ver que a reação comandada por Dirceu não saiu do círculo de interessados em sua defesa.

Entre os petistas, o que o caso trouxe foi uma enormidade de absurdos mascarados como se fossem análises lógicas do fato. Mas isso ocorre sempre neste meio. Os absurdos retóricos vêm dos graúdos e se espalham pela rede governista na internet. Muitos desses exageros são repetidos como verdades absolutas pela militância.

Não sou eu que vou me preocupar com a sobrevivência política de gente que adota essa conduta, mas costumo pensar se esses líderes não percebem que estão criando uma cultura de baixa qualidade entre os seus. As interpretações que espalham podem até trazer benefícios políticos práticos e de curto prazo, mas será isso compensa o estrago cultural e até mental que isso causa entre seus aliados?

Um desses absurdos que transita na internet veio de Ricardo Kotscho, que creio que todos conhecem. Foi assessor de imprensa de Lula na presidência, saiu de uma forma estranha de seu governo, porém depois se aquietou. Quando saiu do governo, aparentemente contrariado, anunciou que contaria coisas sobre o período em um livro. Mas acabou lançando um livro chocho.

A última manifestação sua que teve alguma repercussão foi quando ele defendeu a censura do filme Serbia Film, uma dessas besteiras que acaba atraindo a atenção mais pela discussão que provocam do que pela obra em si. Qualquer moleque podia baixar o filme na internet enquanto Kotscho pedia a censura. E o mais espantoso é que ele pedia a censura para um filme que não tinha visto. Esse é o Kotscho.


Crítica ou bajulação, dois
estilos que não combinam
em técnica jornalística
Kotscho foi até recentemente repórter da revista Brasileiros, um projeto editorial estranhíssimo que parece não ter emplacado. Numa de suas edições disponíveis na internet, Kotscho escreve um perfil de Lula durante seus últimos dias como presidente. Deve ser sua visão de como se faz jornalismo. Mas não é a minha e de muitos profissionais, todos eles coincidentemente fora dos círculos petistas.

Na defesa que faz de Dirceu em relação à matéria da Veja, num dado momento Kotscho afirma que escreve “para defender minha profissão”. Para ele, tem veículos e profissionais na praça que estão “dedicados ao vale-tudo de verdadeiras gincanas para destruir reputações e enfraquecer as instituições democráticas”.

É dessas coisas que falo quando digo que é divertido acompanhar a tentativa de rebote de petistas e agregados quando a imprensa descobre alguma falcatrua ou mesmo um imbróglio qualquer no governo.

Nisso está também a importância do debate sobre a profissão. Na minha visão errado é embarcar em textos como o que Kotscho fez para a Brasileiros na despedida de Lula. Acho que dá para adivinhar o conteúdo pela capa, que está ao lado. Na despedida, Lula embarca no avião, mas o texto escrito por Kotscho passa a impressão de que o ex-presidente poderia voar com as próprias asas se quisesse.

E nem discuto a sabujice jornalística, comportamento que um profissional não deve ter com político algum, mas qual é o valor editorial de algo assim. A não ser, é claro, como um valor para reforçar os laços com grupos políticos.

Mas que cada um escreva o que quiser. Essa é uma das regras que respeito. Millôr Fernandes dizia que imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados. Quem quiser abrir um armazém, que o faça.

O julgamento deve ser dos leitores e, nesta forma de apreciar o que é oferecido na praça, me parece que o estilo de Brasileiros acabou sendo visto como um armazém pelos leitores. E também acho muito duvidoso um grupo de jornalistas que busca um público que queira ler uma revista que bajula um presidente da República, seja Lula ou Fernando Henrique Cardoso, ou qualquer outro que veio antes dos dois.

Porém, Kotscho é um jornalista experiente e sabe muito bem que o jornalismo pode ser crítico ou de bajulação. Penso que o estilo crítico é de melhor proveito para a democracia. E parece que a história mostra também que é disso que o povo gosta.


Invertendo a lógica e a ética, o
acusado de ser chefe do mensalão
é que eles tratam como vítima
Bem, José Dirceu é o assunto da matéria em questão na outra revista, a Veja, na qual parece que Kotscho vê o risco de "enfraquecer as instituições democráticas". Dirceu responde a um processo no STF, ele e mais de três dezenas de companheiros, num inquérito no qual ele é chamado pelo procurador-geral da República de “chefe de quadrilha”.

O mensalão todos sabem o que é. É um esquema que pode ser definido com palavras objetivas: foram propinas para comprar votos no Congresso Nacional. Acho que poucas coisas trazem tanto o risco de “enfraquecer as instituições democráticas” como foi o caso do mensalão.

No entanto, Kotscho tenta fazer o leitor crer que é a Veja que faz isso quando coloca nas bancas, às claras, uma reportagem contra os interesses de um poderoso político.

Em outro trecho, Kotscho fala em “regras e limites” e que ele vê nesta situação um “bom momento para a sociedade brasileira debater o papel da nossa imprensa”. É evidente o exagero do jornalista. Regras e limites já existem, a partir do código penal, e têm sido usadas bastante pelos petistas pelo país afora.

O próprio anúncio feito por Dirceu de que pretende processar a revista pouco tem a ver com pressões sobre seus editores. Ele sabe que quando uma matéria dessas vai pra banca seus responsáveis não temem retaliações. A ameaça é feita mais como um recado aos blogueiros independentes que repercutem com independência fatos como esse. Pra quem escreve sem grana do Estado é duro suportar processo de alguém cercado de advogados muito bem pagos.

Aliás, não é nada prático esse pessoal se doer tanto por Dirceu. Um profissional com condições materiais para fazer negócios em um hotel com diária de mais de 500 reais por dia deveria saber se defender muito bem sozinho, não é mesmo?

Logo que soube que seus encontros estavam sendo revelados, Dirceu deu o tom do que viria a ser a reação da blogosfera amiga. Uma das lorotas foi a comparação dos métodos da revista com os do magnata Rupert Murdoch. Isso pegou entre os blogueiros e até Kotscho, que é uma das estrelas desse ramo, repete a inverdade.

O interessante é que Veja faz seu jornalismo dessa forma há muito tempo, até porque não existe outro jeito de descobrir fatos como esses. Ou será que além de serem avisados de ações da Polícia Federal os petistas também querem receber também pautas antecipadas da imprensa?

Quando a Veja agia de forma semelhante, mas fazia isso com adversários do PT, como o então presidente Collor, os petistas não viam a atitude como um risco para a democracia. Ao contrário, o então deputado José Dirceu até dava uma mãozinha.

Mas entre os exageros que estão sendo jogados de forma combinada na internet, Kotscho deu uma das mais infelizes contribuições. Para contestar o uso das imagens de Dirceu e seus convivas saindo do quarto do hotel, ele implica com o fato de não ter sido revelado como a revista conseguiu os vídeos. Como se isso tivesse importância no contexto.

E aí ele escreve, em forma daquelas perguntas embutidas como resposta: "Se foi o próprio repórter quem instalou as câmeras, isto não é um crime que lembra os métodos empregados pela Gestapo e pelo império midiático dos Murdoch?”.

Isso mesmo: ele escreveu Gestapo. Ninguém foi preso, porta alguma foi derrubada por botas, ninguém foi levado na madrugada para ser torturado e desaparecer, mas ele traz a Gestapo para simbolizar seu desagrado. É abusar bastante do uso inadequado de imagens. Espero que não seja por esta linha que venha a discussão neste “bom momento para a sociedade brasileira debater o papel da nossa imprensa”.
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POR José Pires

domingo, 4 de setembro de 2011

Liquidando tudo

Em Fraiburgo, Santa Catarina, uma dona de casa e sua filha de 13 anos encomendaram o assasinato do próprio pai, de 57 anos.

É um daqueles crimes que mostram o nível altíssimo de violência no Brasil, até porque a razão alegada para o crime é de que mãe e filha sofriam agressões físicas cometidas pelo homem assassinado. E também teve participação no crime o genro, de 16 anos. Ou seja, praticamente uma criança.

Se for o marido da criança de 13 anos envolvida no assassinato, é um casal de crianças, mas a nota que li na internet não explica o parentesco. Hoje em dia é assim: um crime impressionante desses vira uma nota de jornal. Mas a banalidade do tratamento jornalístico serve também como um sintoma da gravidade do problema.

Mas não é só isso que mostra que o país vive hoje uma situação dramática. A mulher contou à polícia que contratou o criminoso por R$ 1 mil. Isso mesmo: apenas mil reais. E para o criminoso fazer o serviço compraram uma arma por R$ 700. Menos de dois mil reais para a encomenda de um assassinato.

Matar uma pessoa no país hoje está uma pechincha. Barato mesmo, não? É aquele velho marketing do varejo, o dos "preços de ocasião". E a ocasião está mesmo de matar.
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POR José Pires

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

De pequenino é que se torce o pepino

Falando em piada pronta, nesta semana apareceu uma que é até melhor que a do casal fazendo trocadilho (ou um trocadalho do carilho, literalmente) em plena rua da cidade de Rolândia. É a matéria que o suplemento Folhateen, da Folha de S. Paulo, soltou com José Dirceu, o deputado cassado por falta de decoro e chefe do mensalão que virou consultor de sucesso.

Falando sobre sua meninice na seção "Quando Eu Tinha a Sua Idade", José Dirceu confessa: "Cheguei até a ser coroinha, mas me expulsaram − roubava hóstia para comer".

Isso só pode ser revanchismo. O ex-capitão do Lula quer matar de fome os humoristas do país.
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POR José Pires

Perdão, leitores

O caso de um casal que foi preso fazendo sexo no meio da rua numa cidade do Paraná é o maior sucesso no Twitter brasileiro. Está "bombando", como a moçada gosta de dizer.

E digo Twitter brasileiro porque o uso do microblog pelos brasileiros é um caso à parte, mas depois a gente fala disso.

O casal foi preso em flagrante pela Polícia Militar, quando os dois faziam sexo oral. O alarido é por causa da piada pronta: o nome da cidade é Rolândia.

É o fim do mundo! Fico imaginando o que não andam fazendo nas ruas de Curralinho. Francamente...

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POR José Pires

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sob nova direção

Hoje a presidente Dilma Roussef disse em sua coluna semanal que "dos 12 estádios que devem abrigar a Copa do Mundo de 2014, nove devem ser concluídos até o final do ano que vem". Ela nada fala sobre o bonde de Santa Teresa, mas tem que consertar o bonde também, não é mesmo? E aconselho a trocar por um arame novo aquele arame velho que segurava o freio do bonde.
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POR José Pires

O bonde do Brasil

Quem não viu ainda o vídeo do bonde de Santa Teresa trafegando na contramão tem que dar uma espiada neste retrato do momento que estamos vivendo no Brasil, onde até o risco de vida motiva piadas, galhofa e, claro, muita irresponsabilidade. Nada mais é levado a sério por aqui? Parece que não.

A cena aconteceu poucos dias antes do acidente com o mesmo veículo, quando morreram cinco pessoas e 57 ficaram feridas. Dez desses feridos em estado grave.

Um defeito nos trilhos leva o condutor do bonde a uma solução impressionante. Ele conduz o bonde pela contramão durante quatro minutos. O vídeo todo tem quase nove minutos e vale a pena vê-lo inteiro. Depois de o bonde voltar aos trilhos certos, ouve-se os comentários do motorneiro sobre a precariedade do serviço de transporte.

O que se percebe nos diálogos é aquela condição tão próxima de todos nós da dificuldade de encontrar soluções práticas de qualidade, quando a atividade envolve responsabilidades coletivas. Fico imaginando se o motorneiro chegasse na oficina dizendo à chefia sobre a necessidade de melhor manutenção no bonde. Iria ser motivo de riso. É mais ou menos parecido com a situação do passageiro que exige um colete salva-vidas para viajar em um barco. Em várias partes do país, as opções são apenas duas: embarcar sem colete ou ficar em terra.

A sensação que o vídeo passa é de muita de tensão. É um trem-fantasma, com a diferença que neste caso os fantasmas são os da vida real, de um país que transita sem rumo certo. Mas o pessoal que vai no bonde pela contramão vê tudo com muito humor. É aquele espírito do brasileiro de não encarar com rigor nem o que merece um pouco mais de atenção, como é o caso de um bonde descendo uma ladeira na contramão.

E alguém que experimente reclamar nessa hora e se negar a seguir numa viagem louca como esta. Com certeza será tachado de ranheta, mal-humorado, de não ter a ginga própria do brasileiro. Qualquer pessoa que busca ter um pouco mais de seriedade na vida já passou por este tipo de situação.

A cena que peguei para ilustrar o texto é do momento em que um ônibus vindo no lado correto tem que desviar do bonde pela contramão. O vídeo pode ser visto aqui. Bem, nem precisa dizer o que poderia acontecer se algum chato sem ginga viesse pela mão certa lá atrás do bonde.

Com o desastre com o bonde que matou e feriu tanta gente está todo mundo falando o óbvio: da Copa do Mundo que vem por aí. Mas a questão pra mim nem é apenas esta, mas de serviços desse tipo oferecidos à população. Todo mundo sabe que o bonde de Santa Teresa é só a caricatura simbólica das falhas estruturais que sofremos em várias áreas e em todo o país. O bonde não é só de Santa Teresa. É o bonde do Brasil.

E não dá para acreditar que haverá mudança nesse tipo de comportamento. Para isso teríamos de encarar uma séria tranformação cultural no país para a qual poucos parecem estar dispostos. E como não se começou nada nesse sentido, só que há de certo é que mais desastres virão por aí.

Devem colocar um bonde novo nos trilhos da Santa Teresa, com certeza bem vistoso. Afinal, com um desastre desses não há outra coisa a fazer. Se Lula fosse o presidente poderia até comentar, bem do seu jeitão, que "há males que vem pra bem". Mas o novo será só na aparência: na essência da coisa, aquele espírito que movimenta o país estará sempre remendado com um arame velho e enferrujado, feito o freio do bonde como se descobriu quando já era tarde demais.

Escapar da tragédia cotidiano brasileira, só por sorte. É preciso estar sempre cada vez mais precavido, mas a verdade é que hoje em dia voltar pra casa com a saúde intacta é também uma questão de sorte.

Que estamos caminhando para um risco sério com esta Copa do Mundo, acho que poucos brasileiros têm dúvida. Podem até acusar-me de falta de ginga, mas acho tão arriscado entrar em um desses estádios feitos a toque-de-caixa quanto descer de bonde pela ladeira na contramão.
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POR José Pires

Fala o faroleiro

Frase do senador Aécio Neves, como sempre se dando ares de grande coragem em situação na qual não corre risco algum: "Digo sempre: oposição ao governo, contem comigo, ao Brasil, jamais".

Para se submeter ao teste do bafômetro depois de parado pela polícia também não contem com ele.
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POR José Pires

Guerra Fria em tempo quente

Lá vem o PT desmoralizar mais um assunto importante da nossa atualidade, o da violência policial e do estabelecimento do poder de polícia como força intimidadora nas cidades brasileiras.

A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, foi a São Paulo participar de uma audiência pública na Assembléia Legislativa de São Paulo, onde fez várias cobranças ao governo do Estado. Lá, criticou o governo paulista por permitir no site da Rota um elogio ao golpe militar de 1964.

Li ontem a informação nos jornais e fui atrás do tal elogio. É coisa escabrosa mesmo, porém é algo muito pequeno dentro da questão problemática de tropas como a da Rota, que estão em todo o país com outros nomes . Agem como tropas militares. Parecem ser vistas pelas autoridades como uma elite policial que não se submete às leis normais.

Dificilmente iríamos saber do assunto trazido pela ministra, afinal, de tanta coisa para ler na internet, creio que os textos da Rota podem ficar para depois.

É provável até que um texto desses tenha passado pelo governador José Serra, pelo Alckmin e talvez até lá atrás pelo Covas, pela simples razão de que eles não sabiam disso.

Dentro do site da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo é uma complicação encontrar até a página da Rota. E não é pela intenção de esconder a tropa na internet, não. Parece ser incompetência mesmo de quem faz esses sites.

São cinco procedimentos para chegar até lá. E isso depois de você descobrir esses procedimentos. Mas finalmente aí está o texto que fala da história do batalhão, citando o sobre o golpe militar:

“Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, apoiando a sociedade e as Forças Armadas, dando início ao regime militar com o Presidente Castelo Branco”.

É claro que é uma barbaridade um texto desses num site oficial do Brasil, mas a discussão acabou sendo trazida de uma forma politiqueira, partidária mesmo, o que acaba contribuindo menos para resolver a tacanhice da Secretária de Segurança paulista e mais para acirrar um tipo de discussão ideológica que no contexto é de pouco valor.

De pouco valor para a resolução da questão em vista, é claro. Para a política Maria do Rosário foi um achado que pode garantir sua reeleição para deputada federal no Rio Grande do Sul. É capaz até de estimular ambições maiores suas naquele estado, afinal ela até já quis ser prefeita de Porto Alegre.

Resumindo, na sua pequena base eleitoral este é um grande feito. Para a discussão de um assunto que realmente é importante não servirá para muita coisa. Ou melhor, vai acabar beneficiando os piores desta questão.

A ministra trouxe o assunto com aquele clima de Guerra Fria, no qual tanto a esquerda quanto a direita parecem tão confortáveis.


Segurança pública
tratada como se fosse
coisa de faroeste

A Polícia Militar é subordinada ao governador, então nada mais prático que procurar o próprio governador Geraldo Alckmin e é provável que a questão fosse resolvida sem criar um debate ideológico que pode servir só para mascarar os verdadeiros problemas nos métodos da Rota.

A última da polícia militar paulista é fazer emboscada contra assaltante. É uma técnica policial em desuso desde Dodge City, lá pelo final do século dezoito e início do dezenove, não é mesmo? É muito faroeste para o século XXI.

Eu penso que uma base produtiva para a discussão da violência policial é sua ineficiência e a deformação de qualquer sentido prático de uma polícia. Não existe nenhum exemplo de polícia violenta e eficiente. Aliás, o exemplo não aparece nem nas guerras.

Este foco para a discussão pode favorecer inclusive os direitos humanos. É muito clara a ineficácia dos barbarismos que hoje dão uma falsa impressão de segurança. Nossa polícia se move demais pela crueldade e de menos pela técnica: esta é a questão central.

Duvido que alguém consiga comprovar de forma técnica qualquer qualidade para a segurança pública em fazer emboscada junto a caixas eletrônicos de grandes bancos. Pode até não ter sido o caso, mas dá mais a impressão de um ajuste de contas. Aliás, seria melhor que fosse ajuste entre iguais, pois é bem duro viver em um país em que a polícia acha que pode fazer um bom serviço esperando os assaltantes de trens na próxima curva depois do desfiladeiro.

Mas a ministra veio com essa forma enviesada de puxar um assunto que nada mais é que criar um espaço de crítica ao governo paulista dos tucanos, como se a questão da segurança pública no Brasil fosse restrita a este ou outro partido.


Sociedade civil só
vê o problema quando o
tiro não é só em pobre

A leniência oficial com a Rota de São Paulo e todas as outras polícias de choque pelo país afora á a extrema tolerância com todo tipo de violência da polícia é um problemas social brasileiro. Até a sociedade civil tem sua parcela de responsabilidade.

Empresários, profissionais liberais, advogados, todos se calam. E isso quando não aplaudem a violência da polícia. A verdade é que a sociedade só toma tento da gravidade de conceder poder de intimidar e matar para tropas especiais quando a violência sai do âmbito dos despojados de direitos, os jovens pobres da periferia. Quando a tropa erra de alvo e pega um jovem de uma classe social mais alta, aí vem a grita. Mas dura pouco, porque logo a tropa volta sua mira para os pobres.

O PT da ministra Rosário tem fortes bancadas parlamentares em São Paulo, tanto na Assembléia quanto na Câmara municipal da capital. Então de que forma eles tem atacado o assunto?

O mesmo se pode dizer no plano federal. No âmbito do Ministério da Justiça, o assunto mais relevante para esse pessoal nos últimos tempos foi o caso Batistti. Ah, tem também a distribuição farta de dinheiro para anistiados.

Como eu já disse aqui, passaram muito tempo ocupados com a reformulação da Justiça da Itália e deixaram de lado a tragédia da segurança pública brasileira.

É claro que o texto da Rota que elogia o golpe contra um presidente eleito tem que sair de lá. Nem deveria estar em um site oficial. Se a tropa quiser fazer algo parecido, pode usar suas associações independentes, publicar anúncio em jornal, qualquer outra coisa que não usar o Estado para isso.

Democracia tem dessas coisas. É preciso conceder liberdade até para os que querem se permanecer no clima da Guerra Fria. O problema é ter ministros de Estado que também não saem deste clima.
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POR José Pires

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Nem no PT agüentam mais Marta Suplicy

O Estadão publica hoje uma boa matéria sobre o isolamento de Marta Suplicy dentro do PT. Começa de forma correta lembrando ao leitor que a única vitória de Marta para a prefeitura de São Paulo, em 2000, se deveu em boa parte à ampla frente contra Paulo Maluf no segundo turno, na qual entraram inclusive tucanos. Quando tentou se reeleger, perdeu para José Serra.

Ninguém que saber de Marta no PT. Mas alguém quer ficar próxima dessa mulher em algum lugar. Em poucos meses no Senado, Marta já colecionou uma porção de episódios em que a falta de educação fica bem clara. Dos bate-bocas e desrespeitos com seus colegas senadores dá para tirar dois ou três vídeos que fazem um bom estrago em qualquer eleição.

O que é bem faz bastante tempo e que a matéria do Estadão levanta muito bem é que Marta não agrega. Ao contrário, com sua terrível personalidade terrível acaba afastando até os que, por uma razão ou outra, fazem política do seu lado.

Mas o que me atraiu a atenção mesmo na matéria sobre seu isolamento entre os petistas paulistas, foi uma clara contradição com o perfil feminista que lhe deu fama.

Entre os motivos da sua dificuldade partidária, uma razão das mais fortes segundo o Estadão, está em um homem. É seu namorado, empresário Márcio Toledo, presidente do Jockey Club. Muitas pessoas ouvidas pelo Estadão dizem que as intromissões de Toledo nos espaços políticos de Marta tiveram um peso danado nas inimizades políticas que ela tem agora no partido.

Tem que ser destacado que nas situações em que Toledo influiu em decisões políticas de Marta, me parece que ele estava bem certo. Contribuiu para evitar que ela caísse em armadilhas armada pelos próprios companheiros. Mas não é isso que está em questão. O que pesa mesmo é a cara-metade (ou o cara-metade, tanto faz) se metendo no trabalho do outro. Disso ninguém gosta.

E aí está a contradição com a alegada força feminista de Marta. Sempre tem algum parceiro amoroso metendo o bedelho em seu trabalho político. É bem conhecido o papel do franco-argentino Luís Favre na sua primeira candidatura à prefeitura. A relação com Favre, com quem ficou cada por cerca de cinco anos, foi a razão da separação do primeiro marido, o senador Eduardo Suplicy, de quem é indissociável até hoje. Carrega o sobrenome dele.

A dependência de sua imagem em relação ao ex-marido é tal que até o filho mais conhecido do casal, o Supla, fez um desabafo que ficou famoso acontecia a crise conjugal que deu depois na separação. Frase do próprio filho: “Minha mãe sempre foi uma patricinha que só chegou aonde está por causa do meu pai.

Feminismo estranho esse. Apesar de que temos exemplos históricos de mulheres que tiveram a determinação de conquistar seus próprios espaços políticos ou intelectuais, sem obter uma imagem histórica individual. Simone de Beauvoir, que foi amante de Jean-Paul Sartre — ou uma de suas amantes — está aí como prova disso.

Marta tem mais um homem se metendo em sua vida política, de tal forma que sua imagem já começa a ser associada a isso. Foi o mesmo que aconteceu com Favre, que ocupou o poder a seu lado de um modo tão desinibido que era chamado de “primeiro-damo”. Tem também maledicência muito engraçada que dizia que ele seria a nossa Evita se Marta um dia realizasse seu evidente sonho de ser presidente da República.

Mas isso tem conseqüência na carreira política de Marta? Claro que tem. E ela não vê isso porque é auto-centrada, não faz a mínima questão de analisar as razões do outro. Pode até ter uma fatia da opinião pública que não vê problema que suas relações amorosas aconteçam tão misturadas com seu trabalho político. Mas tenho a impressão que é bem maior o número de pessoas que não gostam disso, até porque na carreira de Marta essa misturada vem sempre com uma aparência de falta de equilíbrio.
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POR José Pires

domingo, 28 de agosto de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Revista exige resposta e ministro lança ensaio

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, deve estar com pouco serviço, pois parece que resolveu discutir os Princípios Editoriais das Organizações Globo. O ministro lançou uma nota agora no início da noite para refutar uma reportagem publicada pela revista Época. É bem grandinha para uma nota de esclarecimento e nela discute-se mais o código interno lançado pelas Organizações Globo do que o assunto em pauta.

Deve ser alguma novidade ao modo do estilo petista de governo esse ensaio sobre regras jornalísticas quando o que a revista pedia era só que o ministro respondesse se andou embarcando em avião particular.

O ministro das Comunicações está mal de comunicação e com isso abriu espaço para uma resposta da Época, que acabou sendo fortalecida em suas denúncias pela nota, ou melhor, pelo ensaio lançado em forma de nota pelo ministro.

Na reportagem publicada na edição desta semana, que pode ser lida aqui, a revista afirma que alguém testemunhou o ministro Bernardo andou embarcando em um jatinho particular. O avião em que ele teria viajado é de uma empreiteira, a construtora Sanches Tripoloni, responsável pela construção de um anel viário na cidade de Maringá, no Paraná.

O anel viário é uma daquelas obras públicas que aumentam de preço enquanto vão sendo construídas. Hoje já está com o dobro de seu preço original. Época diz na reportagem que o ministro teve uma atenção especial com a obra, que teve emendas ao Orçamento da União batalhadas por ele e até foi incluída no PAC numa condição especial que torna obrigatório o repasse de dinheiro público.

A construtora Sanches Tripoloni estava em situação bem difícil em 2006, quando chegaram a registrar redução de capital, mas hoje está numa boa: No ano passado, ela recebeu R$ 267 milhões do governo federal.

O Tribunal de Contas da União (TCU) descobriu superfaturamento de preços na obra em Maringá e chegou a declarar à empreiteira "inidônea" em 2009 por causa de outra obra também no Paraná, mas a Sanches Tripoloni não deixou de receber dinheiro público.

O ministro andou correndo da revista nos últimos quarenta dias. Época queria só saber se ele havia viajado em algum jatinho particular desde que entrou no governo, mas Bernardo resolveu ignorar a pergunta. E agora lança um ensaio que acaba esquentando o assunto. É difícil entender um negócio desses.

Bernardo tem sua base eleitoral na região que compreende Londrina e Maringá, as duas maiores cidades do interior, localizadas no norte do Estado. O plano do grupo que ele chefia é ganhar um dia o governo do estado com Gleisi Hoffmann que, como todos sabem, é sua mulher. A Sanches Tripoloni é grande doadora do PT paranaense, com doações inclusive para a campanha ao Senado de Gleisi Hoffmann, que também lançou uma nota igualmente esquisita em que refuta o que não está escrito na reportagem da Época.

Esse pessoal anda ruim de comunicação. Eu sei que o objetivo é mesmo o de enrolar a opinião pública, mas desse jeito acabam chamando mais atenção ao assunto. A nota de Bernardo, por exemplo, cita três outras reportagens da revista que desgostaram o ministro. Duas delas eu desconhecia e é claro que vou procurar ler. A dica é boa.
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POR José Pires



domingo, 21 de agosto de 2011

As faxinas que nunca são feitas

Os que acreditam que a presidente Dilma Rousseff está mesmo fazendo uma faxina ética deviam pedir que ela e a cúpula de seu partido não interfiram na faxina que está sendo muito bem feita em Campinas pelos vereadores da cidade. Ontem eles cassaram o prefeito Hélio Oliveira Santos (PDT), o Dr. Hélio.

O prefeito cassado foi eleito duas vezes com o apoio do ex- presidente Lula já instalado na presidência da República, ou seja, fazendo campanha do modo vergonhoso de sempre, com a faixa presidencial no peito ou "na barriga", no seu caso. Além de aliados os dois são amigos bem próximos, tão próximos que no escândalo de corrupção de Campinas surgiram até depoimentos vinculando Lula com a corrupção municipal.

Durante todo o período do escândalo de corrupção em Campinas Lula usou sua projeção nacional para falar do caso sempre em defesa do prefeito que foi afastado. Esse é o partido da presidente que tentam vender como faxineira ética.

A situação em Campinas é das mais graves. Parece tão séria que a defesa que Lula fez nacionalmente do prefeito cassado não convenceu nem os três vereadores que o PT tem na Câmara. A cassação do Dr. Hélio foi aprovada por 32 votos a um. Apenas um vereador do PCdoB foi contra a cassação.


Ameaçado de cassação,
o prefeito mandou recado
aos poderosos petistas

São muito fortes as relações do cassado Dr. Hélio com a alta cúpula do PT. Numa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em junho ele cita até a presidente Dilma Rousseff para mostrar que teria fortes apoios para escapar da crise em Campinas.

Segundo o Estadão, a entrevista foi feita com Dr. Hélio ladeado por advogados especialistas em causas criminais e direito eleitoral e administrativo. Um de seus defensores é José Roberto Batochio, que foi presidente da OAB entre 1993 a 1995. Batochio é advogado de Paulo Maluf e também do ex-ministro Antonio Palocci.

Na entrevista, feita para tentar se desvencilhar do escândalo que resultou em sua cassação, Dr. Hélio disse que Lula estava do seu lado. Sua fala ao jornal: "O presidente Lula está comigo, ele passou por situação assemelhada. A Dilma também está comigo. O Zé (José Dirceu) me telefonou”.

Como diz o jargão, para bom entendedor... Não é preciso pensar muito para ver que se trata de um recado. E dois dias depois o Dr. Hélio teve pronta resposta tanto de Lula quanto do poderoso chefe petista José Dirceu.

Num encontro nacional do partido ele foi defendido por Lula com um discurso inflamado em que acusava a oposição de “achincalhar” o PT e seus aliados. Dirceu também fez uma veemente defesa do prefeito cassado.


O misterioso e forte elo
de Lula com o prefeito
que acabou sendo cassado

O enrosco em Campinas é sério. Já falei que nem os vereadores do PT aceitaram a argumentação de Lula favorável ao prefeito. E o fato de o PT ter apenas três vereadores pode ser revelador da imagem do partido na cidade.

Mas por que então Lula defende com tanta ênfase o prefeito cassado? Por muito menos ele deixou na estrada companheiros históricos do PT. É estranho que agora não largue o Dr. Hélio, que nem petista é. O Ministério Público aponta a mulher do Dr. Hélio, Roseli Nassim dos Santos, é apontada como a cabeça da suposta organização criminosa desmantelada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) em Campinas. A ex-primeira-dama era também chefe de gabinete do prefeito e chegou a ter a prisão preventiva decretada.

Com a cassação do prefeito assume o vice, que é o petista Demétrio Vilagra. Ocorre que Vilagra também está encalacrado em denúncias de corrupção. Ele já foi até preso recentemente por isso. Na Câmara Municipal já tem um pedido da instalação de uma Comissão processante para cassar seu mandato.

Outra relação de Lula com
Campinas é no assassinato
não esclarecido do prefeito

Rolos do PT em Campinas não é coisa nova. Foi nesta cidade que foi morto um petista importante, o prefeito Toninho do PT, um dos crimes que desesperadamente o PT quer deixar para trás, mas não consegue.

O crime aconteceu em 2001, pouco antes de Lula obter sua primeira vitória para a presidência da República. Foi bem próximo também da morte de Celso Daniel, quando ele era prefeito de Santo André e acabou sendo seqüestrado, torturado e morto. Toninho foi assassinado em 10 de setembro de 2001 e Daniel em 20 de janeiro de 2002.

As duas mortes foram em contextos semelhantes envolvendo grossa corrupção. Os casos são parecidos principalmente pelo interesse do partido em encerrar ambos com a definição de crime comum. A conclusão da morte de Toninho do PT é praticamente inédita. Ele teria sido morto por “atrapalhar a fuga” de bandidos.

É de estranhar muito o esforço que vem sendo feito para fechar de qualquer jeito os dois casos, até porque um aprofundamento das investigações livraria o PT de ter esses crimes fixados em sua história, como agora acontece. São dois fantasmas perpétuos do partido. É estranho também que o deixa pra lá seja feito exatamente por amigos das vítimas, inclusive de Lula, que era amigo tanto de Daniel quanto de Toninho do PT.

Repetindo o hiperbólico presidente, nunca neste país um partido teve tantos rolos que envolvem até assassinatos. E nisso não dá para culpar heranças malditas, já que tudo é coisa exclusiva do PT.


Lula prometeu à viúva investigar
melhor o crime, mas depois de
eleito se negou a recebê-la

Lula chegou até a prometer aos familiares de Toninho do PT que tornaria federal a investigação do assassinato do prefeito de Campinas, mas não quis saber mais do caso depois de eleito. Recusou-se até a receber a viúva do companheiro do partido, que luta até hoje para ver esclarecida a morte do marido.

É uma estranha maneira de tratar a viúva de um companheiro morto, não é mesmo? Roseana Garcia, a viúva do prefeito assassinado hoje nem quer ouvir falar mais do PT. Em setembro de 2007, numa matéria do Estadão sobre os seis anos da morte de seu marido, ela desabafou: "Caso Antonio ainda estivesse vivo, teria 55 anos (...). Ele não teria compactuado jamais com as falcatruas que o PT vem fazendo. Como político, ele mesmo dizia que não tinha o rabo preso com ninguém".


Faxina tem que começar de
baixo ou a sujeira acumula
e toma conta de tudo

Mas o que esses crimes têm a ver com a cassação do Dr. Hélio e com a alegada faxina de Dilma Rousseff? Tem tudo a ver. Os dois crimes têm relação com corrupção nos municípios e uma provável ligação com o engordamento de caixas de campanha. Na morte de Celso Daniel sua família cita inclusive que o dinheiro estaria sendo entregue na época para pessoas bem próxima a Lula.

Outra questão é que se referem aos municípios brasileiros, onde se atam incontáveis nós que estruturam a pesada corrupção nacional. Não adianta fazer de conta que existe uma faxina só porque um ou outro ministro cai depois de denúncias da imprensa.
É preciso atacar a corrupção no cotidiano e sem um sério compromisso ético nos municípios não existe faxina que dê jeito nisso que está aí.

É onde entra Campinas. O assassinato de Toninho do PT teria tido relação à corrupção na prefeitura que ele estava lutando para interromper. Isso é o que diz a própria viúva do prefeito, que depois de eleito presidente Lula recusou-se a receber. A viúva também fala ago interessante na entrevista que citei acima, que é a possibilidade de Toninho do PT ter sido reeleito prefeito se não fosse morto. Bem, a quem interessaria um prefeito que, ao que parece, estava desmontando esquemas de corrupção?

A morte de Toninho do PT foi em setembro de 2001. No ano que mês vai completar dez anos. Desde então o PT tem impedido o aprofundamento da investigação. Na verdade nem quer saber do assunto. Se lá atrás o assunto fosse tratado com rigor, quem é que pode dizer que muita coisa de ruim não teria sido evitada para a cidade de Campinas?

Ainda hoje o crime é um trauma político na cidade. E é claro que a morte do prefeito foi um incentivo que os corruptos acolheram com imensa satisfação.

É essa forma de fazer política sem aprofundar assunto algum que faz crescer a corrupção no país. Especialmente quando é algum caso delicado que pode ter efeito negativo em carreiras políticas de chefões, os partidos buscam abafar os escândalos e evitar investigações sérias.

Foi isso o que aconteceu lá atrás em Campinas, uma das tantas cidades brasileiras que não pode prosseguir de forma equilibrada com sua vida política porque a corrupção impede. E agora, quando vereadores campineiros trabalhavam arduamente (a sessão de cassação durou 44 horas ininterruptas) para limpar sua cidade, o que o PT fazia? O de sempre: apoiava que era denunciado como corrupto.

O marketing tenta vender a imagem de Dilma como faxineira ética, mas o que seu partido e seus poderosos companheiros fazem é tentar esconder o lixo debaixo do tapete.

O partido vem acobertando a corrupção pelo país afora. Em muitas cidades brasileiras o que fazem é se aliar ao que tem de mais anacrônico na política, juntando-se inclusive ao que existe de pior em vários municípios brasileiros.

É o que o PT vem fazendo há muitos anos e repetiu agora no caso de Campinas. Faxina é lorota de marqueteiro: a história recente da nossa política comprova que o que esse pessoal vem produzindo de fato é lixo mesmo.
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POR José Pires

sábado, 20 de agosto de 2011

Recompensa

O brasileiro vive dizendo que em nosso país só vai para a cadeia ladrão que rouba pouco, os peixes pequenos da gatunagem. Não sei se foi com a intenção de ilustrar o justo pensamento popular, mas de qualquer forma o Congresso Nacional simbolizou de um modo perfeito esta situação com a escolha do presidente e relator da Comissão Especial da Câmara que discutirá e aprovará mudanças no Código de Processo Civil.

Dois deputados com problemas na Justiça vão comandar reformas que lidam diretamente com o acesso à Justiça, o funcionamento dos serviços do Poder Judiciário e a garantia dos direitos dos cidadãos. O presidente é o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), réu no processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal, e o relator é o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que responde a inquérito no STF.

Um desavisado pode até se espantar com a recompensa ao contrário que beneficia quem deveria ser o capturado, mas no Brasil é assim mesmo.

A peça simbólica mais expressiva é claro que é um dos quarenta denunciados pela participação no esquema de propinas a deputados que foi descoberto no governo Lula. O processo do mensalão está para ser decidido pelo STF. Aliás, já deveria ter sido julgado, mas como o povo diz com toda a razão, só ladrão que rouba pouco vai para a cadeia no Brasil. E quem rouba pouco também não pega cargos importantes na política.
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POR José Pires

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Dando uma mão na faxina

O senador Pedro Simon (PMDB-RS) está na praça com uma tal de frente suprapartidária de combate à corrupção. O movimento, que foi lançado na segunda-feira, tem uma concepção bem estranha. Segundo Simon, seria para dar apoio à presidente Dilma Roussef, ou, nas palavras dele, "estamos fazendo o movimento para que ela não seja isolada".

O senador é um dos que acham que a petista realmente está fazendo uma faxina em seu governo. Com sua retórica empolada, Simon faz um paralelo deste movimento que está lançando com o movimento das "Diretas Já". Além de um exagero histórico, é claro que não é possível estabelecer níveis para uma comparação como esta, mas o senador gaúcho é assim mesmo.

Simon é um dos poucos senadores brasileiros que tem uma carreira política honesta. Até as besteiras que faz, como recentemente quando requisitou a aposentadoria como governador, são movidas pela honestidade. Neste caso, ele precisava mesmo do dinheiro da aposentadoria. Mesmo tendo ocupado cargos importantes na vida política, hoje o senador é um dos raros políticos brasileiros que não enriqueceu com a política.

E deve ser também de boa fé que Simon teve a idéia deste movimento totalmente fora de contexto e com um foco nitidamente equivocado se o objetivo for mesmo o de uma faxina ética na política.

Neste aspecto, a visão de Simon é bem compartimentada. Ele acredita que Fernando Henrique e Lula não fizeram nada parecido com o que Dilma está fazendo. O senador é um exagerado. Vejam só o que ele diz: "A Dilma já demitiu de cara o maior amigo dela, o chefe da Casa Civil (Antonio Palocci). E já demitiu três ministros. Então, ela está tomando uma posição que os outros não fizeram em 16 anos". Na cabeça dele Dilma faz um governo novo e deslocado da série de governos petistas que começou com Lula.

Isso não faz sentido nem para quem gosta da Dilma. Aliás, o senador teria dificuldade de convencer disso a própria Dilma, mas para a exploração política externa está fazendo exatamente o jogo que o PT quer e para o qual convocaram inclusive marqueteiros. Mas os marqueteiros pelo menos ganham muito dinheiro para isso, o que não parece ser o caso de Simon.

Se pensa mesmo em dar uma mão para Dilma numa faxina ética a única posição que cabe ao senador é a de inocente útil.

Se o propósito é apoiar Dilma, pode acabar sendo um fortalecimento do poder petista. Seria também uma boa máscara para projetar em Dilma a imagem de reformadora, apagando sua face real, que é a de continuadora do projeto petista. Dessa forma a instrumentalização do Estado poderia continuar com muito mais eficiência do que está sendo feito pelos larápios que ela descarta de seu governo.

O movimento do senador Pedro Simon também desvia o foco da ação política mais importante neste momento, que é a instalação da CPI da Corrupção. Por que o senador não coloca seus esforços nesse sentido? Só o necessário desconto à sua honestidade é que livra Simon da suspeita de estar fazendo de forma voluntária o jogo que os petistas querem neste momento.

A briga do PT para evitar a CPI da Corrupção recebe um reforço com este movimento. Distrai a mídia do que está acontecendo com a coleta de assinaturas para a CPI no Senado e pode até dispersar a atenção da sociedade civil, de gente de bem que vai acabar desperdiçando esforço.

Repito que é preciso dar o desconto para a honestidade do senador, mas tem coisas que ela fala para defender seu movimento que exige um esforço bem grande para desconfiar de suas intenções. Sobre o risco de atrapalhar a instalação da CPI da Corrupção ele diz que a criação da CPI é "desgastar o governo, fazer oposição", já o movimento que ele lidera quer "entendimento para ter a possibilidade de iniciar o fim da impunidade".

Bem, só dá para relevar algo assim porque não existe o perigo do movimento dar certo. Basta ver a pauta do senador para prever o que vem por aí. Na primeira reunião, ele diz, será definido o convite para buscar a adesão da UNE.

Isso mesmo: ele pretende procurar a UNE para engrossar um movimento pela ética. A mesma UNE chapa-branca e dominada por um grupo partidário. A mesma UNE que desmobiliza os estudantes desde o início do governo Lula e impede qualquer ação política de cobrança ética ao governo do PT.

Às vezes dá a impressão de que o senador Pedro Simon se faz de bobo. E esse é mais um desconto que damos pra ele.
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POR José Pires

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Maluquice nada beleza

O Brasil inteiro anda tendo alguma séria psicose que faz todo mundo fazer de conta que não vê o que ocorre na frente dos nossos olhos. Como o Brasil anda amalucado demais, por aqui o equilíbrio ocupa sempre uma porcentagem menor. Quando alguém surge com um diagnóstico sobre algum problema brasileiro e vem com números díspares como 80% contra 20%, podem crer que o problema está na categoria dos 80%. A situação de normalidade quase sempre está na porção menor da avaliação.

E como os malucos do hospício têm sempre mais poder que o médico, todos fazem de conta que nada está acontecendo, mesmo nas situações mais graves e até bem perigosas.

É o que faz a gente ler bastante por aí sobre uma "faxina ética" da Dilma Rousseff. É o momento que o marketing dita o conteúdo das páginas políticas. Como é que alguém faz para escrever com camisa-de-força sobre as transformações éticas no terceiro governo petista, aí eu não sei.

Nos casos mais perigosos, como no recente assassinato da juíza em Niterói, fica ainda mais difícil agüentar o comportamento tresloucado em relação ao massacre sofrido por uma autoridade da Justiça. Reações sem sentido surgem inclusive da oposição. São sugestões da instituição de juízes sem rosto, julgamentos secretos, aumento de escoltas, uso de carros blindados.

Não é preciso fazer esforço algum para entender que o país não está com interesse algum em atacar o centro do problema, que é a tragédia da segurança pública no Brasil. Os planos são para conviver com o crime, apenas procurando ao menos evitar que se matem juízes, é isso?

Dá a impressão de que milhões de Norman Bates andam por aí com a peruca da mãe. Todo dia tem um deles dando entrevista à imprensa com alguma idéia que parece saída daquele motel sinistro do filme de Alfred Hitchcock. Dá pra ouvir até aquela famosa música de fundo na hora do banho.

É psicose pura. Em alguns casos a doença traz até sintomas claros de distúrbio, como o uso de fantasias. Andei falando sobre isso aqui quando o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, marchava pelo país afora fantasiado de militar. Como o antigo tucano não era nem cabo da reserva, seu comportamento parecia muito esquisito. Mas quem mostrava estranhamento com aquilo é que era olhado meio torto. O Brasil inteiro fazia de conta que estava tudo normal.

Se um cidadão coloca uma roupa branca, mete um estetoscópio no pescoço e sai por aí fingindo que é médico, acaba sendo preso por estelionato. Mas o ex-ministro Jobim se fantasiava de militar e ninguém apontava a maluquice e muito menos ele levava um teje preso.

Quantos anos ele não fez isso e nenhum jornalista chegou nele para perguntar por que é que ele se vestia de milico sem ser milico? Por muito menos que isso a gente tremia de medo do Norman Bates. E o maluco de Psicose só se fantasiava dentro da mansão da mãe ou nos banheiros do motel de sua propriedade. Norman Bates jamais foi visto dando entrevista coletiva vestido com a roupa da mãe ou discursando em rede nacional.

Faz mais de um ano que falei disso aqui no blog, mas é claro que não é a opinião abalizada pela experiência de caserna. Sou um neófito nessas coisas. Nunca me fantasiei de militar nem quando era criança.

Mas agora apareceu enfim uma opinião profissional para fechar essa maluquice histórica surgida no governo Lula. Foi em um artigo do general reformado Luiz Gonzaga Schroeder Lessa. No texto ele diz que o ex-ministro Jobim tinha "psicótica necessidade de se fantasiar de militar".

Finalmente a maluquice é apontada por uma voz da caserna. Já é bem tarde para isso, mas pelo menos encerra essa palhaçada que envolveu nossas Forças Armadas.
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POR José Pires


sábado, 13 de agosto de 2011

Os Bolsonaro dão seu recado de novo

A família Bolsonaro parece ter um grave problema de relações públicas. Os Bolsonaro são hoje uma linha de políticos, que vai do pai e chefe do clã, Jair Bolsonaro, aos dois filhos Jair e Carlos, respectivamente deputado estadual e vereador no Rio de Janeiro.

Há poucos meses o deputado federal Jair Bolsonaro (PP), meteu-se numa polêmica besta com a cantora Preta Gil, a partir de uma resposta enviesada e grosseira feita em sua participação num quadro do programa CQC.

O ligeiro bate-boca estava nos planos da edição do programa, que colhe sua audiência nos mal entendidos que às vezes provoca. Mas a polêmica que veio a seguir, com acusações de racismo, assustou o deputado de tal forma que ele buscou até se fazer de bobo na questão e recuar para evitar maiores danos a seu mandato.

Como faz todo político numa crise, o deputado federal submergiu politicamente. Mas agora a família reaparece de forma polêmica com as mensagens via Twitter do deputado estadual pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro (PP) sobre o assassinato da juíza Patrícia Acioli.

A juíza estava numa lista negra de criminosos e foi assassinada com 21 tiros na porta de sua casa. Ela foi responsável pela prisão de policiais acusados de integrar milícias de matadores no Rio. Mas, pelo que escreve no Twitter, o deputado estadual parece buscar levar a discussão do caso para um lado que não é bem a necessidade da defesa da integridade física de uma autoridade da Justiça, seja qual for o motivo da morte da juíza.

“Que Deus tenha essa juíza, mas a dforma absurda e gratuita com q ela humilhava Policiais nas sessões contribuiu p ter mts inimigos”, escreveu o deputado em sua página no Twitter, que pode ser vista na imagem acima.

Quando a polêmica se espalhou com a rapidez que hoje se dá na internet, o deputado procurou se explicar: "A patrulha do politicamente correto e os pré-conceituosos (sic) começam a botar palavras na minha boca sobre a morte da juíza... repudio a morte da juíza, apenas disse que ela teria muitos inimigos, não pelo exercício da profissão, mas por humilhar gratuitamente réus".

Se fosse num país sério é evidente que o deputado teria de explicar melhor esta intervenção num crime que, de tão sério, tem até a participação da Polícia Federal, que entrou nas investigações por intervenção direta do Ministério da Justiça. Ainda mais porque os Bolsonaro são de um partido da base aliada do governo.

Por meio de seus discursos e falas ocasionais, todo político procura estabelecer comunicação contínua com suas bases eleitorais. É uma forma de mandar recados constantes de que está sendo feita a representação que todo eleitor espera.

Resta saber para quem os Bolsonaro estão comunicando sua boa vontade política.
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POR José Pires

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Segurança pública: uma tragédia que parece não ter prazo para acabar

O assassinato da juíza Patrícia Acioli, ocorrido em Niterói, faz a gente lembrar-se das preocupações recentes das autoridades do governo Dilma Roussef no quesito segurança. Nos últimos dias a presidente da República e seu ministro da Justiça estavam preocupados com as algemas que a Polícia Federal botou nos bacanas presos pela Operação Voucher, que desmantelou um esquema de corrupção no Ministério do Turismo.

Parece também que Dilma se indignou mais pelo fato de não ter sido avisada das prisões pela PF do que com a corrupção que corrói seu governo.

Tarso Genro, que foi o ministro anterior e hoje é governador do Rio Grande do Sul, também tinha outras preocupações, muito mais elevadas que a segurança pública aqui no Brasil. Enquanto esteve à frente da pasta da Justiça, Genro se ocupou de problemas europeus. Foi um crítico feroz do sistema judiciário italiano e é possível que se não tivesse saído tão cedo do ministério até liderasse uma reforma na Justiça italiana.

Parece que estou fazendo piada, mas digo essas coisas para mostrar que não existe um foco preciso das nossas autoridades da área da segurança pública. E eles vão se ocupando de questões que, aí sim, são uma piada. Ou não é cômico que num país onde se mata com a maior facilidade em qualquer esquina a grande preocupação do ministro da Justiça seja um criminoso italiano? O crime só pode se fortalecer quando quem devia cuidar da Justiça está com os olhos em outro lugar.


A morte da juíza é
um aviso que devia ter
sido ouvido há tempos

A juíza sofreu uma emboscada e foi alvejada por 21 tiros. O tom é de ameaça aos que fazem justiça de fato no país. A suspeita é que o crime tenha sido ordenado por chefes de milícias.

O atentado fez surgir outros fatos. 87 juízes estão sob ameaça em todo o Brasil e a própria juíza assassinada estava em uma lista de doze pessoas marcadas para morrer.

Este é um roteiro já bem conhecido: sempre que ocorre um grande crime a imprensa vem e levanta vários dados, mostra sinais anteriores que prenunciavam a tragédia, ouvem especialistas, enfim faz o serviço jornalístico que tem que ser feito. E passado um tempo o assunto é esquecido, vai para as gavetas (hoje em dia pro computador) e lá permanece até que o problema volte posteriormente, sempre com mais gravidade.

Os problemas que foram levantados pelos jornalistas já estavam há bastante tempo. Neste ínterim o que fez o governo? Bem, a morte da juíza é uma boa resposta.

Faz tempo que se tem conhecimento de que problema que não é atacado em seu início acaba crescendo. Lao Tsé já dizia isso na antiga China. O poder das milícias vem crescendo de forma assustadora e não é de hoje. E isso vem acontecendo porque autoridades da área da segurança sempre fecharam os olhos para o problema. A bem da verdade, tanto no plano federal quanto nos estados nossas autoridades viam com bons olhos a sensação de segurança, falsa mas eficiente politicamente, que os matadores davam à população.

No ano passado o antropólogo Luiz Eduardo Soares deu várias entrevistas em razão do lançamento do filme Tropa de Elite 2, cujo roteiro saiu de um livro seu em parceria com três outros autores. Soares conhece bem segurança pública e até teve uma passagem rápida e conturbada por um cargo da área no primeiro governo Lula. Nas entrevistas do ano passado ele alertava sempre sobre a emergência das milícias no mundo do crime com uma força superior a do tráfico e uma capacidade maior para estabelecer um poder paralelo nas comunidades. Por isso mesmo este segundo filme gira em torno das milícias e não do tráfico.


De matadores de jovens
pobres a matadores de
autoridades da Justiça
As milícias surgiram da própria polícia e sempre contaram com a simpatia de parte da população, até mesmo de formadores de opinião e de dirigentes públicos. Os bandos armados davam uma sensação de proteção contra o crime. Hoje essas milícias se espalharam pelo país afora. Estão até em cidades de menor população, onde ainda não dominam comunidades inteiras, como ocorre no Rio de Janeiro, mas fazem um massacre cotidiano entre os jovens pobres das periferias. Nessas cidades invariavelmente contam no mínimo com a conivência da polícia.

Como os jovens mortos são de famílias pobres, a parcela da sociedade civil que poderia influir condenando a mortandade e procurando conter esta injustiça acaba se calando.

O problema é que o poder desses bandos armados vai crescendo e eles vão se organizando como máfias, buscando controlar negócios e auferir maiores lucros de sua atividade criminosa. Para isso contam inclusive com canais na polícia e entre os políticos. Ocorre que este controle evidentemente não reconhece barreiras legais e nem morais. Ao que parece, a mira desses bandidos já está indo além dos jovens pobres das periferias.

A tragédia da segurança pública é hoje um dos problemas brasileiros de maior gravidade e por isso merecia uma atenção que o governo do PT não tem dado. Mas é bem difícil que isso seja feito num governo sem nenhum respeito à moral e apoiado por uma base política composta em grande parte por larápios que não respeitam os cofres públicos.

E não podemos esquecer também que passamos os últimos anos com um presidente da República que reclamava o tempo todo de regras jurídicas e da própria lei. Lula tratava a Justiça até de forma jocosa. Desse modo é bem complicado manter o respeito moral nas camadas mais baixas do poder, ainda mais quando este é um poder armado.
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POR José Pires