quarta-feira, 23 de novembro de 2011

sábado, 19 de novembro de 2011

O futuro chegou vazando óleo

O vazamento de petróleo na bacia de Campos deve ser visto como um alerta sobre a exploração deste recurso natural nas costas brasileiras, especialmente dos campos de pré-sal, que são motivo de propaganda eufórica do governo federal, sem nenhuma atenção para as questões ambientais que envolvem um assunto de tamanho risco.

O descoberta de petróleo nas camadas do chamado pré-sal foi uma grande moeda eleitoral do PT na última eleição para presidente. Naquela campanha e num período anterior de pelo menos um ano o governo Lula fez uma maciça propaganda da nova descoberta, aclamada como uma redenção econômica do país.

A conhecida irresponsabilidade deste governo em assuntos que exigem um debate mais aprofundado e a abertura para visões críticas bateu forte também neste debate. Também na questão do pré-sal o governo do PT estabeleceu um discurso apologético e agiu para desqualificar as pessoas e instituições que alertavam para as dificuldades da extração deste petróleo e de seus riscos ambientais. A tônica do discurso oficial era que o futuro do país estava assegurado com a descoberta do pré-sal. O então presidente Lula chegou a dizer que o Brasil entraria para a OPEP, a organização mundial dos grandes produtores de petróleo.

De forma injusta e desrespeitosa, quem levantava uma crítica podia ser tachado de pessimista e inimigo do país.

O vazamento de petróleo ocorre no campo de exploração da Chevron, na bacia de Campos, no litoral norte do Rio de Janeiro. A Chevron está na quarta colocação no ranking mundial dos produtores de petróleo e gás. Esta empresa, que já era grande, cresceu ainda mais a partir de 2002 com a megafusão com a Texaco. Estas fusões apertam ainda mais o controle sobre este combustível gradativamente escasso. As antigas “sete irmãs” do petróleo agora são cinco. O poder se concentra ainda mais.

Uma megacorporação é sempre negativa para o livre comércio e até para o interesse da humanidade. No campo do petróleo é um pouco pior, pois estabelece regras próprias em uma área de altíssimo risco e força o consumo de um recurso natural que deveria ser consumido de forma equilibrada.

A Chevron afirma que a mancha de petróleo localizada a 120 quilômetros da costa brasileira se desloca na direção sudeste. Vai para a África, o que deve amenizar a discussão sobre o problema aqui no país. Não deveria ser assim. Já é muito grave o que aconteceu no poço da Chevron, mas o desastre é só um aviso de que algo muito pior pode ocorrer.

A sujeira do vazamento estaria indo em direção contrária à costa brasileira. A Chevron naturalmente estima para baixo o volume de óleo vazado. A empresa petrolífera afirma que o volume é de 330 barris por dia, ou 52.465 litros, um número dez vezes mais baixo do que o apurado pela ONG SkyTruth, especializada em interpretação de fotos de satélites com fins ambientais.

A Sky Truth informou que a taxa de vazamento é de 3.738 barris por dia, ou 594.294 litros. A ONG chegou a esta conclusão a partir da análise de imagens da Nasa, de 12 de novembro, As imagens mostram que a mancha de óleo se estende por 2.379 quilômetros quadrados

Pelo cálculo da ONG o vazamento do poço no Campo Frade já derramou no mar cerca de 15 mil barris de óleo — 2.384.809 litros.

O vazamento foi uma grande surpresa para todo mundo e inclusive para as instituições do governo que, em tese, deviam estar fiscalizando o cotidiano da extração do petróleo no Brasil. Tradicionalmente regulamentos não costumam ser levados a sério no Brasil. Este é um traço muito ruim das nossas instituições e de um peso negativo já bem antigo, mas que foi bastante aprofundado por este governo, que teve por oito anos um presidente ironizando regras e leis das mais variadas e procurando desmontar tentativas de fiscalização sérias com a argumentação de que regras e leis impedem o progresso.

É preciso mudar este pensamento. Com o que se prevê em esgotamento de recursos naturais e problemas ambientais para um futuro próximo, a necessidade de aplicação em fiscalização e controle passam a ser uma questão de vida ou morte. A imensa destruição provocada pela Chevron bem próximo das costas do nosso país deve ser vista como um sinal de que no meio ambiente não temos mais problemas para o futuro. Eles já estão aí.

Questões como a da exploração do pré-sal, da pecuária, da agricultura e de tantos empreendimentos econômicos necessários ao país exigem um debate democrático que conclua não só pelos ganhos imediatos, financeiros ou eleitorais. É preciso buscar o equilíbrio entre a necessidade econômica e o respeito à vida.

É preciso atentar que o lucro imediato terá sempre adiante um custo bem alto, que na maioria das vezes não compensa o ganho anterior. No Brasil esta conta foi sempre creditada ao futuro, mas o problema é que agora este futuro já está à vista dos nossos olhos.
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POR José Pires

quinta-feira, 17 de novembro de 2011



Menos por mais

Apresento uma relíquia do mercado de consumo brasileiro: o copinho de iogurte de 200 ml. Aproveite enquanto é tempo. A Vigor é a última indústria que ainda não aderiu à norma geral de se aproveitar da desatenção do brasileiro para ganhar mais com menos conteúdo. O empresariado brasileiro vem fazendo isso em vários setores, diminuindo progressivamente a quantidade em produtos que tradicionalmente apresentavam determinado conteúdo.

A forma de engabelar o consumidor é vergonhosa. Primeiro apresentam um produto de fantasia relacionado à marca de sempre, porém com o conteúdo bem menor. Por exemplo, oferecem um iogurte com algum apetrecho ou suposta vitamina da mesma marca do produto tradicional. O conteúdo é menor. E logo depois diminuem também o conteúdo do produto tradicional. O método de enganar é perfeito, até porque as embalagens nada mudam.

E criou-se também nos copinhos esta inversão de valores tão brasileira, que torna extraordinário o que já foi regular. Hoje quem destaca o conteúdo são os que ainda mantém o tradicional copinho de 200 ml. Quem diminuiu o conteúdo tornou também bem menores as letrinhas que identificam a quantidade.

Hoje no mercado é muito difícil distinguir o conteúdo deste iogurte da Vigor das outras marcas (Nestlé, Batavo, etc.), todas elas com bem menos conteúdo, mas todas também com o preço parecido. Foi assim com papel higiênico e toalhas de papel, que foram perdendo metragem. Tem sido do mesmo jeito com tantos outros produtos brasileiros.

Dessa forma, o empresariado vai destruindo relações com o consumidor que levaram décadas para serem estabelecidas. E com essa atitude criam a exigência da intervenção do Estado onde já havia um processo natural muito bem definido. Se o livre mercado não tem bom senso para impedir esse tipo de corrupção moral, que venha o Estado.

Mas, por enquanto o governo só assiste ao engodo, sem normatizar de fato o que é oferecido ao consumidor. Não me espantaria se logo aparecer o litro de leite de 800 ml.

E um ou outro leitor pode falar também da dúzia de ovos de dez, mas aí infelizmente a brincadeira vem com atraso. No mercado brasileiro, já existe a dúzia de dez. E como nós aqui falamos e logo provamos, daqui a pouco eu mostro a foto.
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POR José Pires

quarta-feira, 16 de novembro de 2011




De olho em Manet

"Flores em um vaso de cristal", pintado por Edouard Manet em 1882. Não se fixe no título do quadro. Não são poucas as obras de arte que receberam títulos muitos anos depois de pintadas e são na maioria dos casos apenas uma forma de catalogação, indispensável na identificação, até para que possamos encontrar essas pinturas inclusive em nossa memória. Mas a maioria dos títulos diz tanto quanto eu me chamar José e não outro nome qualquer.

Clique na imagem para vê-la aumentada. Antes, veja o detalhe dela lá embaixo. Observe bem como as formas são construídas com pinceladas firmes e muito hábeis que pedem uma concentração na pintura e não no objeto.

Isto não é um vaso de cristal com flores. Isto é uma pintura.
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POR José Pires

Questão de justiça

Um rapaz de 29 anos foi condenado em São Paulo à pena de um ano e seis meses de prisão por chegar atrasado a uma audiência. O rapaz é acusado de tentar furtar quatro latas de atum e uma lata de óleo. É de R$ 20,69 o total do roubo que nem foi concretizado.

A prisão foi decretada pela juíza Patrícia Alvares Cruz. A Defensoria Pública chegou a explicar para a juíza que o rapaz é pobre, mora na Zon...a Leste de São Paulo e por depender de transporte público demorou três horas para chegar ao Fórum da Barra Funda. Mas não teve jeito. A juíza manteve a prisão W. C. — as iniciais do rapaz preso por tentar roubar as quatro latas de atum e uma de óleo.

E também não adiantaria W. C. declarar amor à presidente Dilma Rousseff ou alegar perseguição da imprensa. Até agora a militância petista não começou nenhuma manifestação nas redes sociais em defesa do rapaz.
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POR José Pires

domingo, 13 de novembro de 2011



sábado, 12 de novembro de 2011

Um amor de governo

Está acontecendo algo muito sério com o governo de Dilma Rousseff. Com cinco ministros saindo correndo do governo por causa de denúncia de corrupção e o sexto já para cair na caçapa, desfaz-se o mito da gerentona que a propaganda tentou colar em Dilma Rousseff.

Ela pode sempre apelar para o que seu mestre fazia e dizer que não viu nada. Mas não viu cinco, seis vezes? Aí vai se se encaixas no perfil dos idiotas a que se referiu o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim. Mas se não se escudar numa asnice como justificativa Dilma acaba sendo suspeita de ser conivente com a ladroagem ou, pior ainda, fazer parte dos bandos.

Entre a descoberta da gatunagem e a saída do governo tem sempre um período de desculpas esfarradas em que a imagem de Dilma cai no ridículo. Dos cinco ministros anteriores não teve um que soubesse cair com, digamos assim, alguma dignidade, pelo menos livrando a chefa de ser prejudicada com o desenrolar das denúncias de maracutaias.

Todos os ministros de Dilma fizeram o favor para a imprensa de alongar a ridícula queda, com alguns até mesmo com o ex-presidente Lula a tiracolo para ajudar na besteirada. Quem não se lembra do Lula telefonando aos companheiros do PCdoB para estimular que eles resistissem bastante para não entregar o ex-ministro do Esporte?

Este governo tem sido patético desde o começo, mas o ministro do Trabalho, Alberto Lupi, superou bastante os colegas em patetice com a declaração pública de amor à Dilma, que soa até desrespeitosa, pois afinal além de se referir à presidente da República, o ministro está falando de uma senhora. E uma senhora descasada. Estará gozando a companheira Dilma?

Com um absurdo desses, dá para pensar muitas coisas enquanto a gente ri. Mas o espetáculo fica ainda mais cômico quando, em vez de integrantes do governo pelo menos abafarem a besteira, vem o ministro Paulo Bernardo e diz: "Quem não fica contente com uma declaração de amor?"

São coisas assim que mostram que o ex-ministro Nelson Jobim sabia muito bem do que estava falando quando fez aquela queixa sobre estar num governo cheio de idiotas.
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POR José Pires

Bem, cá estamos no dia 12 de novembro de 2011.

O mundo não acabou em 11.11.11, mas o ser humano continua fazendo o maior esforço para que isso aconteça logo.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011




Dois coelhos numa cajadada

Entre os leitores que postam comentários em meu blog, quem costuma comparecer com certa frequência são os petistas, com comentários que muitas vezes tenho que deletar, pois os companheiros gostam de insultar com palavrões.

Nada contra a crítica, mesmo que venha com argumentação contrária à totalidade do que escrevo, mas não é possível manter comentário com palavrão.

Quando eu toco em assunto do interesse da militância do PT um ou outro companheiro acaba aparecendo (algumas vezes meses depois da publicação) para tacar sua pedra já que, como todos sabem, de tão perfeitos, os petistas não carregam nem o pecado original.

Publico abaixo um comentário que acabou de aparecer num texto em que falo de Paulo Coelho e Lula. Nem preciso dizer que naquele texto faço críticas aos dois, aproveitando para mostrar o rídiculo de um na política e do outro na literatura.

Pois hoje apareceu o comentário abaixo em um post de agosto do ano passado. Não dá pra saber do que o leitor anônimo não gostou e muito menos qual é sua opinião sobre o assunto. Muitos comentários são desse jeito, inclusive na síntese. Só que são palavrões bem cabeludos que deleto lá no blog e evidentemente não republicaria aqui.

Neste comentário também não é possível saber nem se o leitor é um fã de carteirinha do Lula ou do Paulo Coelho. Mas é provável que seja fã dos dois, o que me deixa duplamente orgulhoso do que escrevi.
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POR José Pires

segunda-feira, 7 de novembro de 2011




Fora do sentido

Dizem que o papel aceita tudo e isso é uma verdade. E depois do papel aceitar o texto, ainda é possível manipular seu conceito destacando este ou aquele trecho e às vezes mudando totalmente seu sentido real. É possível tirar de seu contexto um livro inteiro. É por isso que tem os que se matam pelo Alcorão e também pela Bíblia.

Muitas vezes basta isolar um pequeno trecho para se obter o resultado ...inverso do que seus autores pretendiam. Querem ver como é? Vamos lá. Leiam o texto abaixo:

“A burguesia, graças ao rápido aperfeiçoamento de todos os instrumentos de produção, pelos imensamente facilitados meios de comunicação, arrasta todas as nações, até as mais bárbaras, para a civilização.”

Quem foi que escreveu esta deslavada apologia da burguesia?

A) Adam Smith
B) Milton Friedman
C) Isso é coisa do Serra
D) Alguém da Veja, é claro
E) Um banqueiro neoliberal
F) Isso é coisa do Serra
G) É o Jota inventando coisas
H) Nenhuma das respostas acima

Pois o correto é a opção H: nenhuma das respostas acima.

O que está acima foi escrito por Friedrich Engels e Karl Marx e é um trecho do famoso “Manifesto comunista”. Viram como é fácil? Quando vierem com a conversa de que está havendo um ataque ao SUS, que vão privatizar a Petrobrás ou de que querem vender o Banco Central junto com a Amazônia para o Obama, lembre-se disso.
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POR José Pires

Agora vai

Passe esta pro seu colega da fila: Esse assunto da campanha para o Lula tratar sua doença pelo SUS continua rendendo. Agora já tem uma porção de gente defendendo a "excelência" do atendimento pelo SUS.

Bem, pensando por este lado, então temos aí finalmente os petistas falando numa herança bendita do governo FHC. E o pior é que estão falando bem do Serra. Afinal, não foi lá com os tucanos que começaram a prestar mais atenção ao SUS?

Vou esperar a fila de assuntos do meu blog andar. Mas, estou me coçando de vontade de escrever sobre isso.
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POR José Pires

domingo, 6 de novembro de 2011





O Brasil no rumo do México

A nossa violência diária afinal fez uma vítima entre profissionais da imprensa. No Rio de Janeiro morreu um cinegrafista da TV Bandeirantes, atingido por um tiro durante operação da Polícia Militar. Fala-se em confronto entre traficantes e em nota o Grupo Bandeirantes informa que o cinegrafista foi atingido "por um tiro de fuzil, provavelmente disparado por um traficante". O grifo é meu e é para destacar que a Bandeirantes poderia ter evitado este “provavelmente” e não só esperar investigações sérias sobre a morte como também exigir que isso aconteça.

O problema da violência é generalizado no país e esta mortandade nacional exige bem mais do que saber de que lado veio o tiro neste ou naquele tiroteio.

Quem acompanha este blog sabe que tenho escrito bastante sobre a violência que toma conta do país e apontado os riscos disso até para a nossa própria democracia. Neste caso específico ocorreram mais quatro mortes, além do cinegrafista assassinado. E tem sido desse jeito o tempo todo, com as mortes violentas já ocupando o cotidiano do brasileiro de tal forma que o país parece acomodado à convivência o horror.

Essa acomodação a problemas brasileiros gravíssimos é uma coisa muito séria. Já se vive no país de uma forma que dificuldades graves passam a ser incorporadas no dia-a-dia, como se não houvesse outra opção senão o convívio com fatos trágicos e degradantes. Mesmo em cidades médias a contagem de um morto ou mais por dia em situação violenta já é tratada como nota corriqueira pelos jornais.

Bem, existem setores da esquerda que até parecem acreditar que devemos agradecer ao governo por sua incompetência ao encarar várias questões, inclusive essa matança que toma conta das cidades brasileiras.

O tiro mortal neste cinegrafista da Tv Bandeirantes me parece ser o primeiro em campo aberto. Já aconteceu o horror com o jornalista Tim Lopes, em 2002. Há pouco tempo jornalistas do jornal O Dia foram seqüestrados e vivem ameaçados até hoje. Existe também a gradativa ocupação das milícias paramilitares em vários cantos do país, alcançando o domínio de bairros inteiros, onde ditam leis e aterrorizam, torturam e matam, além de extorquir a população para o uso de serviços básicos. Essas milícias agem com a conivência da polícia e são compostas até por policiais da ativa.

Recentemente tivemos a notícia de que o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) terá de sair do país por causa de ameaças das milícias. Antes disso, a corajosa juíza Patrícial Acioli foi assassinada. Notem como as coisas estão andando: se um deputado é obrigado a fugir e uma juíza é morta na porta de casa, o que os bandidos não podem começar a fazer com a imprensa?

E o problema pode se agravar de forma muito violenta bem quando essas quadrilhas começarem a agir para ter o controle da informação, pressionando a imprensa e impedindo notícias contrárias a seus crimes. Podem até justiçar quem escreve contra seus crimes. Só a acomodação de que falei impede que se veja que estamos muito perto de viver o que acontece atualmente no México, um país que em vários aspectos negativos parece ser o retrato do Brasil de amanhã.

sábado, 5 de novembro de 2011

Saudades mesmo do Henfil

De vez em quando fico aqui imaginando o que certas pessoas de que gostei bastante fariam se tivessem vivido para desfrutar da internet. Isso dá uma lista legal: Tarso de Castro, Fortuna, João Antonio, Glauber Rocha, Paulo Francis, Hilda Hilst, o Telmo Martino (Nossa! O Telmo Martino iria arrasar com aquela notas curtas), enfim, tanta gente legal, mesmo para quem segue o padrão boboca atual de classificar com planilhas de supostas diferenças políticas.

Não falei do Henfil porque sei, tenho certeza, garanto até que ele iria estar aprontando horrores na internet, com seu traço rápido e sua capacidade para criar de forma absolutamente livre.

Conheci o Tuneba na década de 80 em São Paulo, quando ele se mudou para um apartamento grande em Higienópolis, meteu a prancheta numa sala em que dava pra andar de bicicleta e passou a trabalhar lá com um monte de moleques cartunistas encarapitados às suas costas vendo o ídolo desenhar. Fazia uma página genial na revista Isto É, que logo depois deu problema com a censura interna da revista, e publicava em vários lugares, inclusive em O Pasquim, que ainda existia. Em São Paulo fez uma peça de sucesso com a Ruth Escobar, um longa-metragem, o programa “TV Homem” na Globo. O cara era fogo.

Não me perguntem a razão do apelido Tuneba, pois temos crianças e garotas no Facebook. Mas o caso é que o Henfil tinha esse hábito de ir para uma cidade e se fixar lá com a intenção de mudar os costumes locais. O Tuneba era fogo, estava em São Paulo com a pretensão de mexer com a cidade. E não teve tempo para provar que faria mesmo: morreu logo depois.

Henfil era daquele tipo de gente generosa que hoje está em falta, especialmente na imprensa. O que há? É o meio ambiente? Sei lá porque, mas esse tipo está em extinção. Podia-se chegar na sua casa, abrir a geladeira, se servir, essas coisas. “O Nilson deixou aí essas claras de ovo; o safado só come a gema; vamos ter que fazer suspiro”, ele dizia. O Nilson era o cartunista mineiro — bem jovem, mas já bom de traço — que morava com ele.

Nessa época o gentil Glauco também morava com o Henfil como agregado. Éramos bem moleques na época, alguns, como eu e o Glauco, recém-chegados do interior e jacus de tudo. Me lembro que o Glauco me contou que tinha vergonha até de dar a descarga depois de fazer o número dois. O jacu aqui também teria, é claro. Mas não disse pra ele e me fiz de superior. “Ora, que bobagem, meu amigo...”

Mas em São Paulo Henfil meteu-se no que na época eu já via como uma roubada. Com seu caráter generoso e ligado o tempo todo nos direitos civis, o cartunista passou a chefiar um grupo de cartunistas para executar trabalhos para sindicatos. A ação era ligada ao sindicato mais forte do país, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, cujo dirigente era o falecido Joaquinzão. O sindicato era pelego da ditadura militar, palavra que caiu em desuso agora que os pelegos são maioria e inclusive tem governo próprio.

Mas o Joaquinzão tinha bom faro e já sentia o cheiro da decomposição da ditadura. Daí a abertura para esse trabalho que o Henfil encarou na maior animação, como fazia em tudo em que entrava. Bem no início fiz parte do grupo, no qual estavam Glauco, Angeli, o cartunista mineiro Nilson, e o Laerte, na época um cuecão do Partidão. Hoje o Laerte anda com essa estranhice de se vestir de mulher.

Saí desse grupo de cartunistas, porque ainda era novo mas não era besta: vi logo que aquela relação com a pelegada não era pra mim e que isso ia fazer mal para a liberdade do nosso trabalho, além de nos comprometer com política de péssima qualidade. Tive uma conversa em particular com o Henfil sobre isso. Ele entendeu, apesar de não concordar comigo, mas tudo ficou bem. Sem rusgas.

Depois nos perdemos de vista, até a notícia de que ele tinha a AIDS contraída numa das transfusões de sangue que ele fazia regularmente por ser hemofílico, quando até pensei em visitá-lo quando certa vez passei por São Paulo, ou ainda morava lá, tenho que conferir... mas o fato é que — covardão — não tive a coragem.

E me arrependi de não ter tido pelo menos um último papo e receber o tapão carinhoso que ele gostava de dar nas costas dos amigos. Gostava dele, uma dessas pessoas que passaram em nossa vida e que até faz a gente chorar de vez em quando, quando a lembrança vem. Chorar escondido, né Glauco?

É... o Henfil iria ser um arraso na internet!
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POR José Pires

Saudade do Henfil...

Corrupção agora já vem com piada pronta

Como antecipamos ontem à noite aqui no blog (bacana não? Estamos saidinhos igual Repórter Esso) tem nova denúncia de maracutaia atingindo ministro graúdo do governo Dilma Rousseff. Os blogueiros oficiais e sites governistas vão espernear, acusar a “imprensa golpista”, dizer que é coisa do Serra, essas coisas que são bem deles e não fazem mais do que cumprir uma obrigação, já que vários são muito bem pagos para isso e a maioria recebe bons benefícios para defender o governo.

Mas desta vez podem falar em herança maldita. O ministério em que a revista Veja encontrou corrupção é comandado por Carlos Alberto Lupi (PDT), ministro colocado lá por Lula e mantido por Dilma.

A denúncia de corrupção vem até com piada pronta já devidamente elaborada pelos próprios envolvidos nas irregularidades. Eu vivo falando que esse governo quer matar de fome os humoristas deste país. Como dizia o Stanislaw Ponte Preta ou qualquer outro bamba do riso, querem tirar o uisquinho dos nossos filhos.

Segundo a Veja, assessores do ministro Lupi criaram um esquema de extorsão dentro do ministério, que impedia que ONGs não comprometidas em corrupção prestassem serviço para o governo.

Uma dessas ONGs sofreu fiscalização do ministério que indicou irregularidades e, por isso foram sustados os repasses de pagamentos. Logo depois os dirigentes da ONG receberam um recado de que tudo poderia ser resolvido se pagassem uma propina.

E vejam só o nome da ONG que sofreu a extorsão: Instituto Êpa.
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POR José Pires

sexta-feira, 4 de novembro de 2011



Ministro na mira

O pessoal da Veja já avisa que neste sábado vem reportagem-bomba com força suficiente para derrubar mais um ministro, o sexto da presidente Dilma Rousseff.

Até agora, em menos de dez meses de governo, já caíram 5 ministros metidos em maracutaias: Antonio Palocci, Alfredo Nascimento, Wagner Rossi, Pedro Novais e Orlando Silva.

Que Lula, qual nada, que tem mostrado poder no governo Dilma é a revista Veja.
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POR José Pires

quinta-feira, 3 de novembro de 2011





A doença de Lula e a tentativa de fugir do debate que interessa: a falência da saúde pública

Anteontem Lula divulgou um vídeo em que fala pela primeira sobre o câncer que teve diagnosticado na laringe e nesta gravação curta acabou puxando sua doença para o lado político. Falou muito pouco de forma pessoal e logo passou a agir como o militante político que sempre foi em toda sua vida. Bem antes desse vídeo, seus partidários já vinham politizando a doença, apostando em um vitimismo que no final tem sempre objetivo eleitoral e de fortalecimento do governo. E também de botar contra a parede quem acredita que é da opinião crítica que pode sair alguma qualidade na condução dos nossos governos.

Esses críticos das manifestações da opinião pública indicam que só estariam satisfeitos se houvessem apenas gestos de apoio e carinho em relação ao ex-presidente. Alguns — e não são poucos — insinuam até a necessidade de censura no debate que se seguiu ao anúncio da doença e que tem como centro a má condição da saúde pública no Brasil.

Reparem que os que estão nesta linha de ataque à opinião de quem é crítico ao governo estão sempre buscando os exageros naturais que ocorrem em casos assim. Desencavam algumas grosserias que saem nas áreas de comentários de sites e blogs ou que passam pelas redes sociais e fazem disso uma generalização que não é justa com o debate que se faz sobre a dificuldade dos tratamentos de saúde no Brasil para quem não tem dinheiro e poder político.

E acho natural que seja por aí a discussão, afinal Lula ficou doente. Se o ex-presidente tivesse sofrido um acidente de carro, certamente pessoas de bom senso e que não estão atreladas ao governo poderiam apontar as péssimas políticas de seu governo que favorecem as montadoras de automóveis e não dão atenção alguma ao transporte público, além da má administração das áreas responsáveis pelo trânsito no Brasil, afetadas inclusive pela corrupção que recentemente fez cair o ministro dos Transportes.

É preciso notar também que, nas críticas que estão sendo feitas às manifestações de parte considerável da opinião pública, as pessoas que saem numa suposta defesa de Lula nunca se referem ao mau estado do SUS e a falta de qualidade em qualquer atendimento de saúde no Brasil, assuntos que vieram com força com o aparecimento da doença de Lula.

Nada disso é mencionado simplesmente porque querem fazer parecer que só existem grosserias quando, na verdade, as grosserias que eles buscam destacar são exceções dentro de uma discussão que é muito bem-vinda e que só poderiam mesmo acontecer desse jeito.

O que está acontecendo é muito simples e quem não está querendo esta discussão sabe muito bem disso, até porque isso foi feito bastante quando o PT estava na oposição e não no governo. De um assunto se faz o ponto de apoio para a discussão de questões do interesse coletivo.

Esta sempre foi uma forma para a criação de um debate, fazendo de um assunto de destaque a motivação para a discussão de assuntos que tocam na vida de todas as pessoas. É um jeito de trazer coisas sérias para a discussão, especialmente num país em que partidos, sindicatos e tantas outras instituições fogem atualmente às suas responsabilidades de exercer o acompanhamento sério das medidas do governo (de qualquer partido) e a vigilância e crítica permanente ao Estado.

O que tem sido feito por muitas pessoas é pegar o assunto da doença de Lula para mostrar que é preciso corrigir erros graves na saúde pública, apontando também erros de conduta do ex-presidente neste setor enquanto esteve no poder durante oitos anos, erros que persistem neste terceiro governo petista.

E como o problema de Lula é de saúde e não acidente de carro ou queda da escada de seu apartamento de cobertura em São Bernardo do Campo, quem tem bom senso e independência aproveita para lembrar que o ex-presidente disse muitas inverdades sobre a saúde quando dirigia o país, algumas até muito cínicas, como quando inaugurou no sofrido Nordeste uma unidade do SUS dizendo que ela era tão excelente que dava “até vontade de ficar doente para ser atendido”. E teve uma crise de hipertensão horas depois e foi buscar correndo a internação num hospital privado.

Lula soltou muito mais falas em que acabou desrespeitando gente que sofre sem poder obter um bom atendimento médico e até familiares de pacientes que morreram basicamente por falta de dinheiro para custear tratamentos muito caros, mas fechemos com aquela em que ele diz que iria "aconselhar o presidente Obama a criar um SUS" nos Estados Unidos.

Obama evidentemente não fez um SUS, até porque Lula só falou isso para nós no Brasil. Agora, quando o ex-presidente tem esta doença muito séria eu penso que é muito justo sim que todos esses assuntos venham para a discussão. Acredito também que os que estão no ataque às manifestações críticas estão agindo até com hipocrisia tentando vitimizar um político que, junto com seus seguidores, nunca foi respeitoso em debate algum. Até porque Lula estava até poucos dias atrás esbanjando saúde em algo que sempre faz desde que entrou na política há muitos e muitos anos atrás: bater em seus adversários.
POR José Pires

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Questão de justiça

Se Orlando Silva, ex-ministro do Esporte, é mesmo uma pessoa tão especial como disse o novo ministro Aldo Rebelo durante a transmissão do cargo, então Rebelo é um usurpador. Devolva o cargo, ministro Aldo Rebelo.
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POR José Pires

terça-feira, 1 de novembro de 2011






Um cartum em preto e branco. Quem se lembra quando nos jornais só dava pra publicar desenho desse jeito, sem cor alguma? Era época da ditadura militar. E nós tínhamos mais liberdade de espírito do que estão querendo permitir agora.

O Brasil no caminho do domínio pelo mêdo

Uma coisa que me comove e que também dá medo pelo que significa para todos os brasileiros é a notícia de que o deputado estadual Marcelo Freixo vai deixar o Brasil em razão de uma série de ameaças de morte. Ele é deputado no Rio de Janeiro pelo PSOL. O PSOL é um partido de malucos, mas Freixo mostrou presidindo a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio que é um parlamentar sério e muito competente.

Exatamente por esta competência é que o deputado sofre as ameaças. A CPI que ele presidiu indiciou mais de 200 pessoas, muitos dos acusados de crimes são peixes graúdos da política e da polícia. Freixo sai do país aconselhado pela Anistia Internacional e a convite da organização, de uma forma que pode ser chamada de exílio.

Já é o segundo caso de exílio no governo petista, não é mesmo? O primeiro foi da família do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, que saiu corrida do país por ameaças de morte depois que o irmão do prefeito petista assassinado insistiu na retomada da investigação e acusou um abafamento das razões do crime, que ele julga que teve causas políticas.

Marcelo Freixo vai embora pelo fato do assassinato da juíza Patricia Acioli ter mostrado que o governo brasileiro não tem condições de garantir segurança para quem combate de forma conseqüente o crime organizado, especialmente as milícias armadas que gradativamente vão tomando conta de todos os estados brasileiros.

A juíza foi morta, o combativo deputado vai embora, mas, e nós, como ficamos? Esses casos alertam sobre a necessidade de medidas de precaução cada vez mais urgentes que deveriam hoje ser uma preocupação nacional. O poder das milícias vai ficando cada vez mais difícil de combater. Isso e não o câncer do Lula devia ser o assunto quente nas redes sociais.

A desgraça desses grupos paramilitares lembra muito uma poesia bastante conhecida que teve até durante muito tempo sua autoria creditada ao poeta russo Maiakóvski, confusão criada talvez pelo título do poema, que é “No caminho com Maiakóvski”. Mas o texto é na verdade do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa. O trecho é assim:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

No caso dos bandos de criminosos paramilitares que vão tomando conta do Brasil, eles já estão bem próximos de nos roubarem a luz.
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POR José Pires