terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Olho vivo

Piada pronta não falta no Brasil. Agora apareceu mais uma com a abertura pelo Ministério da Justiça de processo administrativo para apurar denúncia de irregularidades na compra de câmeras e microfones e outros equipamentos de vigilância.

O material seria de péssima qualidade, informa um relatório reservado onde se diz que câmeras não estão em funcionamento e as que estão instaladas são de péssima qualidade. Suspeita-se também da compra de produtos contrabandeados do Paraguai para o Brasil e sem comprovação de origem. Ou seja, podem ser produtos piratas.

Bem, até aí tudo normal, em conformidade com os métodos das demais licitações públicas feitas no país. Então cadê a piada pronta? É que os equipamentos foram adquiridos para os presídios federais de segurança máxima de Catanduvas, no Paraná, e de Campo Grande, no Mato Grosso.

São coisas assim que fazem a gente se perguntar quem é que afinal está vigiando os ladrões.
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POR José Pires

Senso crítico desabilitado

É lamentável a forma que parte da imprensa tem usado para cobrir as aulas que o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, passou a fazer para recuperar a carteira de motorista que perdeu por infrações graves no trânsito. O ministro, que é um dos chefões do PT nacional e cacique poderoso do partido no Paraná, faz aulas de reciclagem na Escola de Educação de Trânsito de Brasília.

Em grande parte das matérias que saíram sobre o assunto os jornalistas tentam fazer humor, quando a situação, a meu ver, deveria ser tratada com seriedade e bastante rigor.

Brinca-se com o fato do ministro ter perdido a carteira, quando o que devia estar sendo dito de um modo claro é que Bernardo é um irresponsável por ter descumprido leis sobre as quais devia demonstrar até mais respeito que o cidadão comum, já que é uma figura destacada do governo federal. O ministro ocupa cargos no governo do PT desde o primeiro mandato de Lula e com isso alcançou fama nacional. Daí sua obrigação de dar exemplo de correção e cumprimento das leis. Mas fez o contrário.

Alguém acredita que num país sério uma autoridade federal seria mantida no cargo depois de perder a carteira de motorista e, além disso, sua falta de respeito à leis extremamente importantes ainda seria tratada de forma pitoresca em matérias jornalísticas?

Acidente de trânsito é algo tão grave no Brasil que, na minha visão, uma autoridade que perde a carteira deveria perder também o cargo. É uma questão de respeito ao motorista que respeita a lei. E também o respeito devido aos milhares de brasileiros mortos e feridos no trânsito, aos que ficaram incapacitados fisicamente e aos familiares que irão sofrer por toda a vida os efeitos da tragédia que é nosso trânsito.

O Brasil é campeão mundial em acidentes de trânsito, em sua maioria causados por excesso de velocidade, uma das causas do ministro ter acumulado pontos negativos suficientes para perder a habilitação.

Ninguém tem dúvida de que uma causa importante dos acidentes de trânsito no país é exatamente a falta de seriedade para encarar este assunto, inclusive com as leis excessivamente brandas que deixam impunes até motoristas que agem de forma criminosa.

Eu penso que parar de tratar um assunto tão sério de forma pitoresca pode ajudar bastante a conscientizar os motoristas dos terríveis riscos à vida provocados pelo mau comportamento na direção, que foi o que levou Paulo Bernardo a perder a carteira.
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POR José Pires

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012



Dos diários de Edmund Wilson

"Os movimentos são dominados por slogans e jargões, os quais poupam seus seguidores do trabalho de pensar."

A frase é de Edmund Wilson (1895-1972), o grande crítico literário americano. Ele escreveu isso em seus diários dos anos 20, publicados depois de sua morte. Esses anos 20 são os do século passado, é claro, o que mostra que vem de longe a existência de rebanhos da militância.

Seus diários Wilson foram publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras, que infelizmente seguiu a receita cretina de abolir o índice onomástico, o que cria um trabalhão danado na hora de consultar. A editora fez o mesmo com os outros livro do crítico. Mas este dos diários traz uma ótima introdução feita por Leon Edel, o editor de seus textos póstumos.

Wilson é um antecipador de muita coisa de qualidade que surgiu na literatura ocidental, desde que começou a escrever em publicações importantes dos Estados Unidos. Só para se ter uma idéia, ele mostrou a importância de Ulisses logo que James Joyce conseguiu lançar o livro, em 1922. Quando Wilson escreveu sobre Ulisses, a obra ainda era tratada como pornografia e havia sido impressa apenas na França pela lendária Sakespeare and Company, de Silvia Beach.

Outros livros dele editados no Brasil são "Os manuscritos do Mar Morto", "11 ensaios" e "O Castelo de Axel", sendo este o seu livro mais conhecido, uma edição pioneira onde revela um olhar admirável e muita audácia para defender novidades literárias que ninguém queria aceitar naquela época.

"O Castelo de Axel" é traduzido por José Paulo Paes. "11 ensaios" tem seleção e prefácio de Paulo Francis, por sinal um belo prefácio. A tradução também é de Paes. Lá e cá, na escrita foi respeitada a qualidade.
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POR José Pires

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

De espírito novo

Já falei aqui sobre a novidade petista dos primeiros 100 dias de governo no segundo mandato. É o tal do estilo petista de governo: se não deu no primeiro ano, fica para o segundo. Neste mês de janeiro a presidente Dilma Rousseff tem a chance de finalmente começar seu governo. O primeiro ano deixa pra lá.

Ela pode começar inclusive anunciando medidas de impacto para os desabrigados pelas chuvas de...ste ano. Pode vir até com as mesmas promessas do ano passado, as mesmas que fez e não cumpriu. Os 100 dias começam agora.

E para não dizerem que só penso em fazer oposição ao PT, dou de graça um slogan mais apropriado para este recomeço. É um aproveitamento do logotipo do governo do ano passado — o que não está mais valendo. Como sei que vem crise braba por aí, não vou ser eu a criar gastos novos.

É a nossa esperança de que seja um governo de espírito novo, bem diferente do espírito cultivado nos nove anos anteriores.
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POR José Pires

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012



De forma lamentável, o Brasil já ultrapassou a fase da necessidade de separar o joio do trigo. Agora o que tem que ser separado é o trigo do joio.




Está mais do que comprovado que dinheiro não traz felicidade, mas quem é que não quer uma chance de provar o contrário?


Dividindo os lucros

Stanislaw Ponte Preta tinha uma boa frase sobre a eterna crise moral que assola o Brasil: “Restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. A frase é da década de 70, mas infelizmente ainda vale para hoje. E duvido muito que ela fique desatualizada algum dia neste país.

Que a corrupção sempre existiu, isso é algo sobre o qual ninguém diverge. É mesmo uma herança maldita, que vem sendo passada... de governo a governo desde muito tempo. Mas parece que com essa herança maldita o PT não tem nenhum problema.

Eles gostam muito dessa herança, tanto que aperfeiçoaram a rapina dos cofres públicos, que hoje é sistematizada de forma a contemplar uma porção maior de pessoas. Democratizaram a corrupção entre a companheirada, tornando popular o hábito de passar a mão no dinheiro do contribuinte. Não nos locupletamos todos, mas em tempo algum a corrupção atingiu tanta gente.
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POR José Pires

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011



quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O controle do Estado, dos porões ao cotidiano do cidadão

Debaixo de um cartum publicado na quinta-feira passada Newton Moratto publicou um comentário onde analisa de forma bastante acertada o tema em questão, que é o do controle que vai se ampliando sobre a vida dos brasileiros. Vou republicá-lo aqui:


"Jota, este cartum é uma síntese da realidade atual inserida nos porões (ou banheiros) dos aparelhos estatais, não só policiais.

Interessante que serve também como metáfora para situações semelhantes, mas que não necessariamente a tortura ocorre fisicamente.

A principal tortura, hoje, é a da chantagem, contudo a brutalidade é a mesma. Se chantageia para contar, não contar, e para parar de contar. Ainda bem que é difícil achar a medida exata. É nesta falta de precisão que se escapa uma ou outra informação, que ao vir à tona se avoluma com outras tantas, que às vezes sequer faziam sentido.

Isto é o que permite haver algum - pequeno é verdade - controle sobre a máquina governamental.

É provável que ninguém tenha presenciado um diálogo deste teor. Porém, alguma dúvida que ele tenha ocorrido de uma forma ou de outra, explicita ou implicitamente? É uma realidade por detrás de outra realidade.

As questões atinentes a corrupção, sobretudo aquelas recentes, pode-se fazer deduções muito parecidas, e ninguém se arriscaria a dizer que a ilação é ilegítima.

Penso que é possível escrever muitas laudas sobre as sensações e as reflexões que o desenho e o texto causa. Sem contar aquelas que brotam de uma intuição, sem esforço, que não se exprime por palavras.

É melhor curtir do que descrever..."

Newton Moratto

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011



Sujando boas causas

Quem conta é o poeta Carlos Drummond de Andrade, no ótimo e pouco lido "O observador no escritório", livro onde ele escreve em forma de diário sobre coisas que viveu de 1943 a 1977.

"Julho, 17 — Aurélio Buarque de Holanda, conversando comigo, refere-se a um de nossos intelectuais: "Assim como há o inglês e o francês básicos, há também, para ele, um vocabulário português semi-básico."

Drummond data essa conversa de 1958, um ano antes de eu nascer, mas esta espécie de intelectual prolifera hoje no país, especialmente entre a esquerda. Maltratam de forma dolorida até assuntos que exigiriam no mínimo algum cuidado com a escrita. Com a deformação profissional aprendida nas universidades (onde alguns até repassam tudo o que não sabem) eles trazem naturais e consideráveis falhas de caráter.

Depois da desmoralização feita em temas brasileiros essenciais, agora este pessoal do português semi-básico (vai mesmo na ortografia antiga) adentra a área da ecologia, trazendo o risco de que suas linhas traiçoeiras joguem também a ecologia na sarjeta encardida onde foi parar uma porção de assuntos que precisavam de discussão de qualidade.

Coisas assim até despertam a suspeita de que a oportuna dedicação à ecologia pode ser do agrado dos interesses poderosos que avançam sobre o meio ambiente com seus tratores. Nada melhor para demolir a respeitabilidade da ecologia do que os textos (a favor) feitos por estes agregados do poder. E se não estiverem sendo pagos pelo serviço é até uma injustiça, já que o resultado do que fazem é sempre a desmoralização de idéias.

Foi o que fizeram com a discussão da ética no país, um assunto que ao passar por suas linhas rotas virou obra de penico. Ah, mas para isso já está bem comprovado que foram pagos pelos esquemas corruptos.
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POR José Pires

Claudio Kambé: um artista de alma sincera

O Cláudio Kambé foi uma das primeiras pessoas em que percebi aquela chama interna que avisa: eu sou um artista. Isso foi há bastante tempo, mais de trinta anos, quando começamos a trabalhar juntos no jornal Panorama, em Londrina, no norte do Paraná.

A experiência no jornal durou pouco, os cerca de seis meses da existência do projeto. Os jornalistas que tinham vindo de São Paulo para fazer a publicação diária tiveram um sério desentendimento com Paulo Pimentel, que era o dono da empresa, e todos voltaram para a capital paulista. Eu fui logo atrás, um mês ou dois meses depois, e o Kambé apareceu mais tarde na redação da Folha de S.Paulo, onde começou a desenhar, ele que é um daqueles raros desenhistas de imprensa que vai bem além de qualquer técnica de comunicação de massa. Ele traz em seu trabalho a tal chama do artista e isso dá uma diferença de qualidade para qualquer publicação.

Na Folha fez belas ilustrações, além de capas memoráveis para o antigo Folhetim, editado pelo Tarso de Castro, que logo que viu o Kambé teve a maior empatia com ele. Tarso tinha uma qualidade que me parece em falta hoje em dia nas redações (isso para ficar só na imprensa), que era a de ver no outro muito mais do que a relação profissional cotidiana. Alguns podem atacar de imediato como se isso fosse uma tola menção romântica, mas o efeito técnico de grande qualidade desse tipo de avaliação está comprovado nas publicações que o Tarso fez.

Essa visão humanística foi com certeza uma ferramenta essencial para o sucesso das publicações em que ele teve forte peso criativo, como O Pasquim, onde foi essencial, e em outras revoluções da nossa imprensa que saíram exclusivamente dele, como o Folhetim e a renovação da Folha Ilustrada, ambos da Folha de S. Paulo, quando este jornal brasileiro dava passos decisivos para sua modernização.

Nessa época Kambé ainda era o “Cambé”, o nome que tirou da cidade paranaense onde passou uma parte importante de sua vida. Foi só depois que trocou a consoante, sem que eu saiba o motivo.

Nessa época que vivemos com proximidade experiências profissionais em São Paulo, as relações políticas e profissionais no Brasil se estabeleciam de forma muito humana, com doses de respeito e generosidade que amenizavam o peso amargo da ditadura militar sobre o nosso cotidiano. A imprensa alternativa vivia sob censura e mesmo em redações como a da Folha a pressão interna era muito forte, com pessoas da própria empresa encarregadas de fazer a vigilância sobre o que se pretendia publicar.

Mas havia um ambiente humano de muita qualidade criado entre nós. E dava a impressão de que isso poderia florescer com a abertura democrática, mas infelizmente não foi o que aconteceu. Não tenho dúvida de que tínhamos ali um modelo de convivência e uma forma de produzir que poderia servir bastante ao país, mas me parece que não foi adiante.

Eu vivia em São Paulo aquele tempo, nunca morei no Rio, mas numa música do Dory Caimmy feita com o Paulo César Pinheiro eu ouço um eco daquilo que vi e gostei em São Paulo. É também um lamento pelo que se perdeu. Diz assim: “E o Rio com o passar do tempo/ de tanto sofrimento/ perdeu aquele jeito carinhoso de viver”.

Estou falando isso porque me chamou a atenção hoje uma declaração do Kambé ao Jornal de Londrina, que fez com ele uma reportagem. Lá, ele comenta sobre o ambiente que encontrou quando voltou à Folha de S.Paulo, ainda no início da década de 80. “Mas aí era outro conceito de trabalho e de amizade. Não quis ficar”, ele disse.

É muito parecido com a sensação que foi fazendo eu me afastar daquilo tudo, o que fiz muito mais tarde. O Kambé foi fazer suas pinturas, procurando morar em lugares afastados onde encontrasse a natureza e calor humano, numa busca de certa forma parecida com a do pintor francês Paul Gauguin. Eu permaneço próximo à imprensa e ao debate político, mas confesso que não faz bem para o estômago e nem à cabeça.

Esta fala do Kambé é importante também porque me liga ao que eu senti há mais de três décadas lá atrás, quando vi este amigo pela primeira vez. Foi este espírito humanístico, ainda bruto naqueles tempos, mas já com o amor pelo ser humano e também a dor com o tanto que fazem de mal com as pessoas neste país. E isto está presente em seus trabalhos de imprensa e também nas obras de arte que já fazia naqueles tempos e que hoje é sua atividade principal.

Para entender o Kambé pense no grande Van Gogh, mas não no sentido do estilo ou da forma, nada com a influência da pintura daquele mestre. O que se vê no Kambé é o espírito intenso do Van Gogh, que inspira amor pelo que somos e muita dor com o tanto que destruímos. É daí que sai a sua arte.
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POR José Pires

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Para ler a matéria do JL com o Claudio Kambé, clique aqui.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011




Serviço ao contrário

Quem conta é o poeta Carlos Drummond de Andrade, no ótimo e pouco lido "O observador no escritório", livro onde ele escreve em forma de diário sobre coisas que viveu de 1943 a 1977.

"Julho, 17 — Aurélio Buarque de Holanda, conversando comigo, refere-se a um de nossos intelectuais: "Assim como há o inglês e o francês básicos, há também, para ele, um vocabulário português semi-básico."

Drummond da......ta essa conversa de 1958, um ano antes de eu nascer, mas esta espécie de intelectual prolifera hoje no país, especialmente entre a esquerda. Maltratam de forma dolorida até assuntos que exigiriam no mínimo algum cuidado com a escrita. Com a deformação profissional aprendida nas universidades (onde alguns até repassam tudo o que não sabem) eles trazem naturais e consideráveis falhas de caráter.

Depois da desmoralização feita em temas brasileiros essenciais, agora este pessoal do português semi-básico (vai mesmo na ortografia antiga) adentra a área da ecologia, trazendo o risco de que suas linhas traiçoeiras joguem também a ecologia na sarjeta encardida onde foi parar uma porção de assuntos que precisavam de discussão de qualidade.

Coisas assim até despertam a suspeita de que a oportuna dedicação à ecologia pode ser do agrado dos interesses poderosos que avançam sobre o meio ambiente com seus tratores. Nada melhor para demolir a respeitabilidade da ecologia do que os textos (a favor) feitos por estes agregados do poder. E se não estiverem sendo pagos pelo serviço é até uma injustiça, já que o resultado do que fazem é sempre a desmoralização de idéias.

Foi o que fizeram com a discussão da ética no país, um assunto que ao passar por suas linhas rotas virou obra de penico. Ah, mas para isso já está bem comprovado que foram pagos pelos esquemas corruptos.
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POR José Pires



Cá entre nós, nesses tempos em que vivemos Judas ia ser passado para trás fácil, fácil: Tem muita gente aí que faria o serviço por bem menos que 30 dinheiros.




"Leis são como salsichas. É melhor não ver como elas são feitas." A frase é de Bismarck. E ele não conhecia o nosso Legislativo.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011





Espírito de Natal é uma coisa bacana. Mas tem que tomar cuidado para que no restante do ano não prevaleça o espírito de porco.




"O Estado Novo é o estado a que chegamos."

A frase é de Apparicio Torelly Apporelly (1895-1971), o Barão de Itararé, e é evidentemente sobre o Estado Novo de Getúlio Vargas, que foi de 1937 a 1945.

O grande Barão não viveu pra ver o estado a que chegamos com o PT no poder.





Acho que os padres devem casar. Depois de tanto tempo fazendo o casamento dos outros acho muito justo que tenham uma dose do seu próprio remédio.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Maconha: que papo é esse?

A maconha é estranhamente um assunto de primeiro plano no Brasil, ficando a frente de temas que são até cruciais e, às vezes, até entrando em questões que nada tem a ver com este assunto, como foi o caso do entrevero entre PMs com alguns maconheiros na USP, que foi usado depois até para a discussão de conceitos bem mais elevados, como a autonomia universitária.

Muita gente entra de inocente na leva que acaba sendo criada em torno do hábito de puxar um fuminho, que inclusive não leva ninguém à prisão hoje em dia. No caso do entrevero na USP havia a acusação de tráfico

Mas eu quero mesmo é puxar a atenção para uma matéria publicada hoje em vários sites, com a informação sobre a proibição na Holanda de que turistas freqüentem cofeeshops para fumar maconha.

Essa droga é legalizada na Holanda desde 1976 e a proibição entra em vigor a partir de janeiro do ano que vem. Esta informação vinda da Holanda pode servir para o debate sobre a legalização da maconha que alguns pretendem implantar no Brasil. A Holanda é um bom laboratório para esta idéia, já que lá eles vem fazendo há bastante tempo o que pretendem colocar em prática aqui em nosso país.

A proibição atual na Holanda vem a propósito do estímulo que os jovens acabaram tendo para consumir maconha e pelo aumento da potência desta droga. Este fato não é novo. Já faz tempo que estudiosos vem alertando que esta maconha que vem sendo consumida atualmente nada tem a ver com a droga que era cercada de romantismo quando seu consumo foi propagado a partir de experiências alternativas. A maconha de hoje é uma droga mais pesada, que foi aditivada bastante nos últimos anos pelos poderosos do tráfico internacional.

Segundo a notícia da Holanda, devido à manipulação genética, a maconha já contém mais de 15% de THC, o princípio ativo, o que aumenta os efeitos sobre o cérebro. Isso faz dela um perigo para os jovens e adolescentes, os usuários mais vulneráveis.

Essa informação vem ao encontro de algo que já falei muitas vezes, inclusive com amigos que consomem a droga e embalam a língua nas críticas às muitas outras barbaridades que tem respaldo legal. Comparação com cigarro e álcool não colam comigo, pois nunca fumei e bebo sem prejudicar minha saúde, trabalho e nem a feitura de coisas bacanas da vida, como desenhar, escrever, ler e, é claro, dar uns amassos legais.

A maioria das críticas dos maconheiros realmente procede. A grande indústria é de pouco escrúpulo, mas ninguém pode negar que elas acabam tendo que cumprir regras que aí estão. Ou pelo menos estes mecanismos de fiscalização e punição existem, com algum resultado de proteção ao consumidor. Até a poderosa industria do cigarro vive tendo que dar satisfação sobre suas falcatruas e tem sido até punida nos últimos anos.

E é aí que eu fecho com uma questão sem resposta: como é que espíritos tão críticos ao mercado de consumo aceitam expor seu corpo à drogas que estão sob o poder apenas de criminosos, desde a plantação, passando por todos os processos e chegando até à comercialização?

Fica a interrogação.
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POR José Pires



Fala-se muito de ética, escrevem sobre ética, fazem debates sobre ética e até existe propaganda da ética. Mas quando é que vão lançar este produto no mercado nacional?


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Mensalão: será que agora vai?

Está concluído o exame do processo do mensalão, feito pelo ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro entregou seu relatório, um resumo da investigação em 122 páginas. Todo o processo foi enviado junto com o relatório para o ministro Ricardo Lewandowski, revisor do caso. Barbosa também concluiu boa parte do voto e resta ao revisor elaborar seu próprio relatório e voto. Depois, caberá ao presidente do STF marcar a data do julgamento dos 38 réus no plenário. A previsão é que o julgamento seja feito em maio.

A conclusão do exame do processo, anunciada ontem pelo STF, traz um certo alívio aos brasileiros que, na semana passada, receberam a notícia de que as penas poderiam ser prescritas antes da conclusão do julgamento. O alerta havia sido feito pelo ministro Ricardo Lewandowski, do STF, que insinuou que a prescrição teria como causa a demora do relator Joaquim Barbosa, que ficou 4 anos examinando o caso. Na entrevista, ele disse que teria de começar “do zero” o exame do processo.

Na mesma semana em que Lewandowski deu entrevista sobre este assunto de forma alarmante, ele já havia sido desmentido por colegas que se manifestaram em caráter privado para colunistas da imprensa. Ministros do STF perguntaram “a quem ele serve”, em referência às queixas dele de que teria de partir “do zero” para produzir o voto de revisão paralelo ao de Barbosa.

Os colegas de Lewandowski informaram que o exame feito por ele não teria de forma alguma que começar “do zero”. A colunista Renata Lo Prete escreveu na Folha de S. Paulo que um ministro disse a ela que “os autos estão digitalizados e que nada impediria o colega de se debruçar sobre o trabalho”.

No relatório divulgado ontem pelo STF, Joaquim Barbosa também fala da acusação de demora e sobre a insinuação de que o atraso e conseqüente prescrição seriam por sua causa. O relator destaca que a partir de proposta sua desde maio de 2006 estão digitalizadas todas as peças da investigação, para que os ministros e os advogados dos acusados pudessem consultar os autos, mediante uma senha fornecida pelo tribunal.

"Os autos, há mais de quatro anos, estão integralmente digitalizados e disponíveis eletronicamente na base de dados do Supremo Tribunal Federal, cuja senha de acesso é fornecida diretamente pelo secretário de Tecnologia da Informação, autoridade subordinada ao presidente da Corte, mediante simples requerimento", ele escreve no relatório.

Barbosa também se referiu ao peso diferente do processo do mensalão em relação ao que chega normalmente ao STF. “Estamos diante de uma ação de natureza penal de dimensões inéditas na História desta Corte", ele escreveu.

O relator ainda argumentou sobre as manobras feitas pela defesa para alongar o andamento do processo, lembrando que a ação contém 49.914 páginas, divididas em 233 volumes e 495 apensos. Ele ressaltou ainda que a instrução processual foi "complicadíssima", lembrando que os réus indicaram cerca de 650 testemunhas de defesa, "espalhadas por mais de 40 municípios situados em 18 estados e também em Portugal".

Um trecho do relatório que esclarece muito bem o pesado esquema jurídico que gravitou em torno do processo: "Com efeito, cuidava-se inicialmente de 40 acusados de alta qualificação sob o prisma social, econômico e político, defendidos pelos mais importantes criminalistas do país, alguns deles ostentando em seus currículos a condição de ex-ocupantes de cargos de altíssimo relevo na estrutura do Estado brasileiro, e com amplo acesso à alta direção dos meios de comunicação".

Ele fez ainda uma comparação com processos muito menos complicados que estão em andamento no STF há bem mais tempo que o processo do mensalão. Segundo seu relatório, algumas ações penais do STF iniciadas na mesma época, com "dois ou três réus", ainda não foram concluídas.
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POR José Pires