quinta-feira, 8 de março de 2012

Buscando aquele livro

Ter uma biblioteca desorganizada é sempre um problema, principalmente pela perda de tempo na localização de referências essenciais para o trabalho ou até para completar alguma leitura. Mas a desordem tem sua compensação. No meio da livraiada algumas vezes surge a alegria de reencontrar uma obra que a gente nem se lembrava de possuir e aí temos então mais um bom livro para reler.

E de vez em quando encontro até dois títulos iguais, cuja explicação muito fácil é a da compra em duplicidade ter sido provocada não só pela desordem da biblioteca, mas também pela dificuldade de lembrar de tantos livros que vamos juntando pela vida afora. Só depois de ter adquirido o livro em um sebo (com grande contentamento pela descoberta) é que fui ver que já tinha o mesmo título na biblioteca. Mas essa descoberta é quase sempre feita quando estou buscando outra coisa. Bem, mas o livro sendo bom é sempre melhor ter dois volumes da mesma obra do que não ter nenhum.
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POR José Pires


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Imagem: Livro de madeira desenhado e feito à mão pelo grande Saul Steinberg (1914–1999). E o autor do livro também é muito bom.

terça-feira, 6 de março de 2012

Defendendo o que é nosso

Agora vai. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, está esperando o "ok" da presidente Dilma Rousseff para perdoar o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke. Ele pediu desculpas por ter dito que o governo brasileiro precisa de um pé na bunda para começar a trabalhar direito na organização da Copa de 2014.

Valcke alegou que teria havido um erro na tradução para o português do que ele falou em francês. É claro que ninguém acredita numa lorota dessas, mas Valcke até tem que agradecer da sua declaração não ter sido traduzida por um poeta.

Tem gente que garante que o secretário-geral disse mesmo "se donner un coup de pied au cul". Um poeta teria de respeitar o ritmo e a rima da frase e aí a coisa ficaria bem mais complicada para o lado do bocudo do da Fifa.

Mas na minha visão acho que a decisão de perdoar ou não Valcke não deveria ficar só com a Dilma. O que aconteceu é coisa muito séria. Como a bunda da pátria foi ofendida, acho que é caso para plebiscito nacional.
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POR José Pires

Acelerando com o pé

Nesta patética polêmica sobre o secretário-geral da Fifa e sua declaração sobre as dificuldades de tocar as obras da Copa de 2014, se existe dúvida é só mesmo de tradução. O correto é chute na bunda ou no traseiro? Mas de qualquer forma o resultado é o mesmo.

E até quem acha que foi grosseria do dirigente da FIFA não pode negar o mérito de suas críticas. Falta empenho, não existe projeto e no meio temos como sempre o domínio da corrupção. Penso até que o Brasil não tinha a necessidade de fazer essa Copa e no momento nem tem a capacidade para isso. Este é o tipo de jogo em que o empate já estaria muito bom, mas o mais provável é que venha uma goleada feia contra o país. Mas fazer o quê? Lula precisava emplacar sua candidata Dilma Rousseff na presidência da República, então temos aí uma Copa para fazer.

E todo mundo vê que a coisa não anda e também percebe que aquilo que está sendo feito não fica próximo nem de um nível de qualidade apenas aceitável. As pessoas sabem também que agindo dessa dessa forma, o governo do PT está colocando o país em um risco tremendo de acontecer até alguma tragédia durante a realização deste torneio de futebol, se é que ele vai ocorrer mesmo. Todos sabem, mas como acontece o tempo todo por aqui, são poucos os que tem peito de tocar no assunto.

Chute no traseiro ou chute na bunda, não importa. Mas se tivesse o efeito de fazer este governo acordar para a necessidade de trabalhar com seriedade até que um pé certeiro desses viria bem.
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POR José Pires

domingo, 4 de março de 2012

A bicicleta como alvo


A morte da ciclista Juliana Ingrid Dias, atropelada por um ônibus na Avenida Paulista, é um retrato da difícil convivência entre os carros e as bicicletas nas cidades brasileiras. Quem anda de bicicleta sofre muito com a falta de respeito de quem está atrás de um volante. E eu sei disso muito bem, pois sou ciclista.

No geral, há pouco respeito pelo ciclista e existe também aquele motorista que adota um comportamento criminoso quando vê alguém de bicicleta à sua frente. Conforme testemunhas do acidente em São Paulo, foi o que aconteceu com a ciclista Juliana. Ela foi fechada por um ônibus e quando discutia com o motorista perdeu o equilíbrio e caiu, quando veio um outro ônibus e a matou.

Segundo a polícia, o motorista que causou o acidente será indiciado por homicídio culposo. Ele foi preso em flagrante, mas foi solto depois de pagar fiança. E é improvável que a justiça seja feita num caso como este. Do jeito que está o país a tendência é que este caso siga os descaminhos de tantos outros, que seguem por anos sem chegar a nenhum resultado justo.

Juliana morreu na sexta-feira e foi enterrada ontem. Era bióloga e trabalhava no Hospital Albert Einstein. Ela usava a bicicleta diariamente para ir de casa ao hospital e foi exatamente neste percurso que acabou sendo atropelada.

A repercussão da sua morte se deve à rápida mobilização de amigos ciclistas, que são bastante organizados na capital paulista. São muito unidos e ocupam a cidade com suas magrelas que cada vez mais se tornam uma opção de transporte bastante usada, principalmente pelos jovens. Ela própria era uma militante pelo uso da bicicleta, além de fazer parte de um grupo que plantava árvores pela cidade.

Ainda no sábado, logo depois do atropelamento, os amigos de Juliana foram chegando à Avenida Paulista e se deitaram no chão em sinal de protesto, parando a Avenida Paulista. Outras manifestações foram se seguindo, inclusive a colocação de uma bicicleta pintada de branco (chamada por eles de “ghost bike”; veja abaixo) simbolizando a ciclista morta. Eles também plantaram cerejeiras numa praça. A árvore era a preferida de Juliana.

As manifestações serviram para chamar a atenção para o uso da bicicleta na capital paulista, destacando a falta de respeito dos motoristas com quem anda de bicicleta e a ausência de fiscalização e punição sobre os que não cumprem leis que protegem o ciclista. No caso de Juliana, sua morte não teria ocorrido se o motorista do ônibus cumprisse uma lei simples que proíbe qualquer veículo de ultrapassar ciclistas se estiver a menos de 1,5 metro de sua lateral. É também muito claro pelos testemunhos que ele pressionou a ciclista e causou a desatenção que levou á sua morte.

Mas o descumprimento de uma lei tão óbvia como esta não é a única forma de desrespeito com o ciclista. Uma série de riscos poderia ser evitada se quem está por detrás de um volante usasse o bom senso, a começar pela compreensão de que uma pequena batida pode resultar na queda do ciclista. Carro com carro causa um leve risco na lataria. Já com a bicicleta isso pode causar morte.

E cair da bicicleta pode ser muito grave, mesmo que ela esteja em pouca velocidade. Isso é uma coisa que aprendi por experiência própria e numa situação que sem o uso do capacete eu poderia ter morrido. Ou coisa pior.

Outra questão muito simples é o respeito a um direito óbvio do ciclista, que é o de trafegar pelas ruas. Parece piada falar isso, mas muitos motoristas agem com o ciclista como se ele fosse um intruso trafegando ilegalmente pelas ruas.

Carros forçam a passagem e passam tirando fina das bicicletas, dão buzinadas para pressionar e alguns ainda aceleram de forma ameaçadora, afligindo o ciclista com freadas bruscas às suas costas e forçando passagem com fechadas. Quase todos que fazem essas barbaridades também acham sempre que estão com a razão e dizem isso xingando a vítima que vai sobre duas rodas.

Em alguns motoristas a visão de um ciclista parece despertar instintos bárbaros de ocupação do espaço das ruas pela violência. E quando isso acontece, perde sempre quem está na bicicleta, como aconteceu em São Paulo com a Juliana e acontece com tantos ciclistas neste Brasil que valoriza de forma estúpida o carro e não vê que na verdade o veículo do futuro é a bicicleta.
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POR José Pires

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Imagem: A bicicleta pintada de branco lembra a morte de mais um ciclista. Juliana Ingrid Dias, uma garota bacana que amava o ciclismo e plantava árvores pela cidade morreu em São Paulo por causa da estupidez de um motorista de ônibus. A foto é do blog Corredor Disciplinado.

sábado, 3 de março de 2012

Time unido

O Blog do Menon deu uma informação importante nesta quinta-feira sobre a resistência de Ricardo Teixeira na presidência da CBF. Teixeira dava sinais de que ia renunciar, mas no último momento desistiu. O Blog do Menon conta que ele se convenceu a ficar na presidência depois de um telefonema do ex-presidente Lula.

Quem pediu ao Lula para ele ligar para Teixeira foram o ex- jogador Ronaldo, que virou cartola da CBF, e Andrés Sanchez, que foi presidente do Corinthians e atualmente é diretor de seleções da CBF. No telefonema, Lula falou a mesma coisa que os dois vinham dizendo sem conseguir convencer o presidente da CBF: para eles, renunciar seria como uma confissão de culpa.

Lula repetiu o argumento e Teixeira desistiu da renúncia. Até quando, ninguém sabe. Mas o apoiamento entre Ronaldo, Sanchez e mais o Lula e o Ricardo Teixeira só vem confirmar aquele velho ditado gaúcho que diz que “os gambás se cheiram”. E como se cheiram, tchê.
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POR José Pires

quinta-feira, 1 de março de 2012

De olho nos peixes

O senador Marcelo Crivella foi nomeado para o Ministério da Pesca, a incrível pasta criada pelo PT. É um ministério insignificante, mas de qualquer forma lida com um assunto específico com o qual o escolhido não havia mostrado até hoje nenhuma proximidade. Crivella é um assim chamado “bispo” da Igreja Universal do Reino de Deus. Mais que isso, é sobrinho do dono da igreja, o auto-intitulado bispo Edir Macedo. É seu predileto e certamente seu herdeiro.

A nomeação do bispo da Igreja Universal para o Ministério da Pesca dá espaço para a piada fácil sobre a multiplicação dos peixes. Mas essa gente não é de multiplicar peixe algum. O negócio deles é tomar o peixe dos pobres. Já se veicula que o verdadeiro motivo da nomeação de Crivella seria aplacar a ira dos evangélicos com as encrencas armadas pelo governo petista e sua militância. Outra razão seria fortalecer a candidatura de Fernando Haddad a prefeitura paulistana. A eleição em São Paulo virou uma guerra santa para PT, que está fazendo tudo para emplacar o candidato nomeado por Lula — a coisa está assim: agora no PT tem nomeação até de candidato.

No meio de tudo isso nós temos a rede de comunicação da Igreja Universal, concentrada na Rede Record e que tem jornais, rádio e a própria televisão cobrindo o país todo. E alguém pode achar que o bispo Macedo está sozinho nessa?

Uma coincidência que dá firmeza a suspeita de que esta empreitada vem sendo fortalecida também de fora da Igreja Universal é que lá na TV Record vão parar todos os jornalistas que prestam um bom serviço na internet de defesa do governo e ataque cerrado contra a oposição. Os cargos são sempre muito bem pagos, é claro.

A rede de comunicações da Igreja Universal junta controle da informação, religião fundamentalista e políticos com poder direto sobre a comunicação, além de ter como base a manipulação de sentimentos religiosos, de onde inclusive veio de início o dinheiro para a montagem da forte estrutura desta igreja que se sustenta da exploração da crença religiosa principalmente dos mais pobres.

São ingredientes péssimos para a democracia de qualquer país, mas especialmente perigosos para um sistema político como a nosso, que até hoje não se acertou. Enquanto as militâncias incitam a ira contra a TV Globo, Folha de S. Paulo, revista Veja e outras publicações, vão chocando o ovo desta que é a verdadeira serpente.
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POR José Pires

A grande causa de tudo

Estava demorando, mas os petistas descobriram afinal a causa da administração do país na mão deles ser tão precária, repleta de trapalhadas e projetos que não andam de jeito nenhum: o problema é que o Brasil é muito grande.

Parece até marcação, coisa dessa raridade brasileira que é gente que faz oposição, mas foi exatamente isso que o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, disse em audiência no Senado, onde esteve dando respostas à Comissão de Educação.

Explicando os seguidos problemas do Enem, com vazamentos de dados e extravio de provas, Mercadante disse o seguinte: “O MEC não tem culpa de o Brasil ser tão grande e diverso. São 140 mil salas, 400 mil pessoas fiscalizando. E tem de ter um sigilo absoluto. O risco logístico sempre haverá”.

Então ficamos assim: o Haiti é aqui porque o Brasil não é do tamanho do Haiti.
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POR José Pires

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Desleixo também no gelo

Quem está fazendo falta neste caso da destruição da base militar e científica do Brasil na Antártida é o ex-presidente Lula. Era interessante observar suas tiradas quando aconteciam coisas parecidas em seu governo.

Lula só não poderia repetir o que falou em agosto de 2003 quando aconteceu a tragédia em Alcântara, no Maranhão com a explosão do foguete causando a morte de 21 pessoas. Lula disse então que “há males que vem para bem”. Naquela época o Supremo Apedeuta se colocava no papel do governante que chegava para consertar o Brasil.

A frase idiota que desconsiderava o tamanho da tragédia era só o começo. Tantas outras viriam depois, mas, dando um desconto à sua conhecida coleção de bobagens expressadas como se fossem pérolas de sabedoria, é provável que ele estivesse tentando dizer que a partir do conhecimento do erro seria possível consertá-lo e até melhorar a condução a partir dali.

Mas a história é bem diferente neste incêndio que destruiu a base brasileira da Antártida, onde também morreram dois oficiais do Exército. Na época da tragédia de Alcântara o PT estava em início de governo e havia até algum sentido que viessem com a conversa da “herança maldita”, como de fato vieram e não só neste assunto como também em tantos outros. Mas agora, no caso da Antártida, já vamos para dez anos de governos ininterruptos do PT. Não dá para culpar tucanos. E nem os pobres dos pingüins.

Mas a cobrança de resultados nesta área deixa os governos do PT numa situação muito ruim. Bastaria dizer que o ministério que cuida do assunto, o da Ciência e Tecnologia, é uma das pastas menos valorizadas deste governo. E isso quando já avançamos uma década do século 21, numa situação mundial em que a ciência e a tecnologia são cada vez mais indispensáveis até para a prevenção dos inevitáveis danos que já aparecem no horizonte. E a Antártida é um dos terrenos essenciais para a compreensão do que vem ocorrendo com o planeta, além de ser um ponto estratégico também essencial.

Pois o ministério que cuida disso é tão de segunda linha que o ministro anterior, o revogável Aloizio Mercadante, teve uma promoção para o ministério da Educação antes de mostrar qualquer serviço. O nome do ministro atual não interessa, mas alguém sabe de algo que Mercadante fez no ministério da Ciência e Tecnologia para merecer a promoção de cargo?

O descaso deste governo com o conhecimento científico pode ser mostrado nos números relacionados à base da Antártida que se foi com o incêndio. Em 2011 a Missão Antártida tinha para investimento em infraestrutura R$ 16,5 milhões. Em 2012 o orçamento é de R$ 9,78 milhões, uma queda de 41%. Até parlamentares do governo dizem que um orçamento desta ordem não permite que a estrutura física e de logística ofereça sustentação às pesquisas.

O metereologista Rubens Junqueira Villela foi o primeiro brasileiro a chegar ao polo sul, em novembro de 1961. Conhece bem a situação das pesquisas na Antártida. O site do Estadão ouviu dele que a situação já estava complicada antes do acidente. "A distribuição de verba era muito irregular, ano tinha, ano não tinha. Isso acaba prejudicando as pesquisas", ele disse.

A recuperação da estação brasileira no continente gelado vai levar pelo menos dois anos e sua destruição pelo fogo foi um fiasco internacional para o Brasil. O governo federal terá também de retirar a embarcação brasileira que afundou por lá em dezembro de 2011, com 10 mil litros de óleo combustível. Nos dias anteriores ao incêndio na estação a preocupação do governo Dilma era a de abafar o naufrágio.

Em razão dos problemas do desmatamento que pode levar à destruição da Amazônia, o Brasil já sofre com um descrédito internacional bem forte sobre sua capacidade para cuidar do próprio quintal. É preciso tomar mais cuidado para o país não criar fama de incompetência também em terrenos mais distantes.
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POR José Pires

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Imagem: Na falta de tucano para botar culpa pode sobrar para o pingüim.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


Partido dos sem-votos

O jornal O Estado de S. Paulo publica hoje uma excelente matéria sobre política onde revela números que mostram a falência do sistema político brasileiro. Sem ter disputado nenhuma eleição, o recém-criado PSD já chega à Câmara Federal com 47 deputados.

Isto já é um fato que demonstra o absurdo deste sistema, mas o negócio é ainda pior: dos 47 deputados do PSD apenas 1 teve votos suficientes para se eleger por conta própria. Todos os outros 46 foram eleitos graças à soma da votação de seus antigos partidos. Ou seja, o PSD é formado na verdade por políticos que foram favorecidos pelo quociente eleitoral, outra medida muito discutível do sistema eleitoral brasileiro.

Este antigo problema da troca de partidos parecia ter sido resolvido por uma lei da própria Câmara, mas como os políticos brasileiros costumam fazer, seja por má-fé ou por serem mesmo maus legisladores, a lei podia ser burlada de uma forma que foi aproveitada pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, na criação de seu partido.

Por lei, com a mudança de partido o deputado perde o mandato, mas uma pequena cláusula permite a mudança se for para a criação de um novo partido. Foi aí que o prefeito Kassab lembrou que até pode ter crescido na política sob a proteção do tucano José Serra, mas foi feito mesmo é de barro malufista. Ou lama malufista, termo mais apropriado.

É também particularmente revelador da situação grave a que chegamos o fato da desmoralização do processo político vir do grande aliado de um político como Serra que — ao menos em teoria — como líder da oposição estaria aí para aprimorar a democracia.

Atualmente o PSD sofre alguma conseqüência de ser um partido nascido de um jeito que o faz parecer uma fraude. Recebe menos de 0,2% do Fundo Partidário porque é tratado como partido nanico pela Justiça Eleitoral, o que está muito certo: o financiamento público dos partidos é feito de acordo como o número de votos para a Câmara dos Deputados e o PSD não participou de nenhuma eleição. Sob o mesmo raciocínio, a bancada do partido não serve como base para o rateio da propaganda eleitoral gratuita. Pode ser que Kassab tenha que gritar muito rápido na TV: “Meu nome é Kassab!”.

Mas como vivemos no Brasil, estamos ainda no “pode ser”. Kassab e seus correligionários já entraram com uma ação que pede a redivisão do Fundo Partidário para o PSD abocanhar uma parte bem maior do que está previsto. Se o TSE acolher a ação de Kassab que favorece seu partido, então estará completada a avacalhação do sistema partidário brasileiro.
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POR José Pires

Leis em cima de leis

A Câmara Municipal de São Paulo pretende estender a Lei da Ficha Limpa a todas as nomeações da prefeitura da capital paulista. E o governo paulista também prepara um decreto para barrar nomeações de condenados pela Justiça.

Parece notícia boa, mas é apenas a exposição de um quadro muito ruim: até agora qualquer larápio pode ser nomeado. E, cá entre nós, num país que precisa de uma lei específica para barrar bandido é bem provável que isso não funcione.
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POR José Pires

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Paulo Henrique Amorim, racismo e acusações

Paulo Henrique Amorim perdeu uma ação judicial feita contra ele pelo jornalista Heraldo Pereira, repórter e integrante da bancada do Jornal Nacional, da Rede Globo. Amorim terá de pagar R$ 30 mil a uma instituição de caridade indicada por Pereira, publicar uma retratação nos jornais Folha de S. Paulo e Correio Braziliense e também retirar de seu blog “Conversa Afiada” os textos que motivaram a ação.

E os ataques foram muito pesados. Nada surpreendente se visto no conjunto de obra de Amorim, que costuma bater com vigor em adversários do governo do PT, mas de qualquer forma o que ele escreveu sobre Heraldo Pereira teria mesmo de ser levado à Justiça.

E a vitória do jornalista da TV Globo é muito bem-vinda até pelos efeitos digamos assim, didáticos, que pode ter sobre seguidores do estilo de Amorim que saem pelas páginas das redes sociais postando comentários grosseiros e insultuosos. É até profilático o efeito de um processo desses, pois pode servir como um aviso e evitar muita sujeira que este pessoal apronta.

Amorim terá de se retratar inclusive de uma declaração racista. Ele chamou o jornalista da Globo de “negro de alma branca”, além de afirmar que ele “faz apenas bico na Globo” e seria “empregado de Gilmar Mendes”. O processo de Heraldo Pereira teve este desfecho na área cível, mas sobre este mesmo fato Amorim ainda responde a um processo na área criminal com denúncia feita pelo Ministério Público Federal. A acusação é por crime de injúria racial e racismo e já foi aceita pela Justiça.

Esta condenação de Amorim e o processo do MP me faz lembrar as injustas acusações feitas por ele recentemente contra o cartunista Solda. Foi no mesmo blog “Conversa Afiada” — onde saiu publicado o ataque contra Heraldo Pereira — que Amorim pegou uma charge do Barack Obama feita pelo Solda e acusou-o de ter sido racista com o presidente americano. O desenho, como pode ser visto na imagem, mostra um macaco dando “uma banana” para Obama. No entanto, Amorim parece ter visto outra coisa.

O texto publicado por Amorim em seu blog acabou levando à demissão de Solda do site do jornal O Estado do Paraná, cuja direção parece ter se apavorado com a repercussão que a rede de apoio ao PT criou na internet depois da acusação de racismo contra o cartunista.

Nem vou entrar no mérito da acusação contra o Solda, pois além do cartunista estar há mais de 30 anos desenhando contra qualquer tipo de desrespeito aos direitos e a liberdade do ser humano, na verdade a charge em foco foi apenas um pretexto para Amorim criar mais um conteúdo favorável à eleição de Dilma Roussef. O caso ocorreu em março do ano passado. Estávamos no período pré-eleitoral e Amorim apenas fazia o serviço de criar fatos para embalar a rede de apoio ao PT na internet e de ataques à oposição ou qualquer pessoa que buscasse fazer críticas ao então presidente Lula e à candidatura de Dilma.

Mas acontece que o Solda deu o azar de estar trabalhando em uma publicação com uma diretoria que não teve coragem para enfrentar a injusta acusação. E por isso perdeu o emprego.

Mas agora, com a retratação pública de Amorim e o processo do Ministério Público com a denúncia de injúria racial e racismo, pode-se dizer que o cartunista acabou rindo por último.
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POR José Pires

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A indignação seletiva no silencioso

Não se vê nenhuma comoção nas redes sociais, nenhum abaixo-assinado rolando pela internet, vídeos no Youtube, nada mesmo. Mas na noite desta terça-feira policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) atacaram manifestantes ferindo mulheres e crianças com balas de borracha.

A frieza da militância com um caso desses se deve evidentemente ao fato da repressão ter acontecido no Acre, que é governado pelo PT. A indignação seletiva se mantém inativa em casos assim.

Os manifestantes dispersados pela polícia com violência tinham fechado o acesso a uma ponte da capital, Rio Branco. Na ação da polícia teve disparos de balas de borracha, gás de pimenta e bombas de efeito moral. Os manifestantes fizeram um cordão de isolamento com crianças e mulheres, mas nem isso evitou que a polícia usasse a força.

O Acre é governado hoje pelo petista Tião Viana, que iniciou sua carreira política com o seringalista Chico Mendes e a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Como tantos políticos brasileiros, Viana começou na política bem pobre — dizem que tinha apenas um fusquinha, que usava para fazer campanha no estado. E também a exemplo de tantos políticos, Viana é hoje um homem rico, ele e o irmão Jorge Viana, que foi governador por duas vezes e hoje é senador pelo PT. Os dois são muito próximos de altos dirigentes do PT nacional, inclusive de Lula, e tocam a política no Acre como se fosse um negócio familiar.

Os manifestantes que apanharam da polícia são desabrigados de um bairro de Rio Branco. O protesto era por causa do corte de energia nas áreas atingidas pelas águas do rio Acre, que inundou uma grande parte da capital.
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POR José Pires

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Quem quiser saber mais, clique aqui

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O freguês nunca tem razão

O jornal O Globo mandou analisar em um laboratório a água de chuveiros colocados nas praias do Leblon, do Flamendo, do Arpoador, de Copacabana, do Leme e de Ipanema. Estes chuveiros são o único jeito do banhista tomar uma ducha nessas praias. Em todas as amostras apareceram indício de contaminação por esgoto. Em nenhuma apareceu a presença de cloro, o que deixa claro que todos são de água não tratada.

Nas análises foram encontradas até coliformes fecais. E vejam que o problema ocorre inclusive em Ipanema, o que traz até um toque poético ao assunto e deixa a garota de Ipanema numa má situação.

Pobre garota. Mas, os riscos para quem joga uma água no corpo são de contágio por vírus como o da hepatite A, rotavírus e salmonela. E segundo a microbiologista responsável pelas análises, quem estiver com o sistema imunológico menos eficiente pode se dar muito mal. Pior ainda, a reportagem de O Globo conta que num dos locais com o maior índice de contaminação os barraqueiros usam a água que sai dos chuveiros para encher piscinas de plásticos alugadas para o uso de crianças. O nome do lugar: Baixo Bebê.

O jornal procurou diversas instituições ligadas ao tema, mas todas — do Cedae ao Comitê Orla do Rio — se esquivaram. E no geral os banhistas também não se ligam muito no problema, mas neste caso estamos falando das vítimas, um papel no qual todos nós todos acabamos nos encaixando em um caso ou outro.

É importante falar de um problema desses ocorrendo no Rio, pois como a cidade é vendida ao mundo como um paraíso turístico é óbvio que ali teria de haver uma estrutura na qual um chuveirinho de praia é um detalhe minúsculo que não devería preocupar ninguém. Mas não existe este cuidado e descasos semelhantes ou até piores se espalham pelo país afora.

A única compensação que o brasileiro acaba tendo é o fato de sermos um país muito religioso. Porque como já se quebraram praticamente todas as relações de confiança em qualquer tipo de atividade em que nos metemos nesta terra, o único jeito é usar a fé e esperar que a sorte nos livre de males piores.

E é bobagem culpar só os poderes públicos por este problema. Existe hoje uma irresponsabilidade coletiva que se espalha por todas as atividades, de forma que mesmo numa relação clara entre cliente e empresa, nunca o comprador pode ter a certeza de que terá o serviço ou o produto pelo qual está pagando.

Hoje em dia, a única garantia que do brasileiro em qualquer coisa em que se meta, seja pública ou privada, é muito parecida com o diálogo entre um barraqueiro da Praia do Arpoador e uma banhista preocupada com a origem da água do chuveiro. “Pode ficar despreocupada, freguesa, é de um poço bem limpinho”, ele dizia para acalmar a banhista, relatou O Globo.

O problema é que algo parecido deve ter sido dito por quem derrubou as paredes de um andar no prédio que acabou desabando recentemente no Rio e levando outros dois na queda, pelo construtor da casa em cima do morro que acabou sendo arrasada por deslizamentos, pelo comandante do barco antes do naufrágio, e por aí vai, numa infindável onda de desastres que evidentemente não se restringe ao paraíso do Rio de Janeiro.
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POR José Pires

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Twitter em primeira mão

Vejam o que o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra, publicou no Twitter próximo das 19 horas. Mas antes já vou avisando não fiquei maluco para ficar republicando aqui frase de político do Twitter, muito menos vinda de um deputado como Guerra, que nada tem a dizer que mereça ser visto com seriedade.

Mas leiam a frase e já explico: “O presidente do PT Rui Falcão perdeu uma boa oportunidade de... ficar calado. Seu partido vive de retórica, de factóides e de mentiras..."

Bem, é que dando uma olhada geral nas notícias agora há pouco, topei com uma nota publicada na coluna do jornalista Lauro Jardim, do site da revista Veja, onde ele informava todo animadão, como se estivesse dando um furo de reportagem, sobre frases de Sérgio Guerra que seriam publicadas no Twitter.

A nota de Jardim foi publicada às 18 horas e nela ele dava em primeira mão as tais frases, todas com o mesmo teor banal dessa aí de cima. É claro que fui conferir no Twitter de Sérgio Guerra. E um pouco mais de uma hora depois estavam lá todas as frases publicadas na coluna do site da Veja.
Justificar
Haja paciência do internauta, não é mesmo? Como os leitores não agüentam mais jornalista querendo transformar em notícia o que fulano ou sicrano publicou em seu Twitter, Jardim resolveu revolucionar a matéria: agora vão publicar antes de sair no Twitter.
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POR José Pires

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012



Dilma no país das maravilhas abandonadas

Ontem o governo petista teve de desmontar às pressas uma festa política planejada para ser feita num trecho da ferrovia Transnordestina, uma das peças da campanha eleitoral que levou o PT à presidência da República pela terceira vez consecutiva.

Grades de proteção, toldos e um palanque foram retirados bem depressa e Dilma Rousseff desistiu de ir ao local, que fica na divisa do Ceará com Pernambuc...o. Acontece que a obra está abandonada. O Planalto abortou o evento festivo para evitar um vexame.

O abandono da Transnordestina é parecido com o da transposição do rio São Francisco, outra promessa de campanha que ficou só no marketing. O Estadão fez uma boa cobertura, tanto das obras paradas do São Francisco, quanto do abandono da Transnordestina.

O jornal conta em seu site que dos 813 funcionários que trabalhavam em dezembro nos três trechos da Transnordestina hoje só 190 estão empregados. Na transposição do São Francisco, no Ceará, dos 1.525 trabalhadores registrados em novembro foram mantidos apenas 299 em um município que Dilma visitou ontem.

Com tanta obra abandonada fica difícil inaugurar qualquer coisa. Mas não existe problema sem solução para um partido revolucionário. O PT está perdendo a chance de trazer mais uma novidade para a política brasileira.

E já explico. Uma questão parecida com esta já foi resolvida há muito tempo numa história da Alice, a menina daquele outro país das maravilhas. Para Alice (enquanto mulher e personagem de Lewis Carroll, diria uma feminista petista) não faltava festa. Quando não tinha algo substancial para festejar, ela comemorava “desaniversário”, que nada mais é que os dias em que não fazemos aniversário.

Pois aí está outra colaboração minha para o PT: já que está tudo parado, então que a presidente Dilma comece a fazer” desinauguração” de obras.
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POR José Pires

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Imagem: No desenho de John Tenniel feito para uma edição de 1865 do livro de Lewis Carroll, Alice toma chá com dois malucos daquele outro país das maravilhas

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012



Um bom tema para a indignação da militância

Está aí um bom tema para a indignação da militância governista na blogosfera e nas redes sociais: o lucro do banco Itaú é o maior da história dos bancos no país. E aqui vale aquele jargão muito repetido por Lula quando ele era presidente: nunca na história deste país os bancos lucraram tanto.

O lucro líquido do Itaú em 2011 foi de R$ 14,62 bilhões, com uma alta de 9,7% em relação ao ano anterior,... quando lucrou R$ 13,32 bilhões. O Itaú estourou a boca do balão, como se diz, mas os outros bancos não ficaram muito atrás. Para se ter uma idéia, o Bradesco ficou na quarta colocação em lucro líquido, com uma alta de 10% em relação ao ano anterior: lucrou R$ 11,028 em 2011.

Está aí um tema para exercer a indignação. Acho difícil que algum revolucionário de internet consiga demonstrar que esses lucros não representem muito mais injustiça que uma desocupação em Pinheirinho.

Esses altos lucros são ainda mais danosos à nossa economia porque foram conquistados em um ano de crescimento baixíssimo, quase nulo. É óbvio que essa dinheirama está sendo transferida dos setores produtivos para os cofres do banqueiros. Não quero deixar a militância governista muito tensa, mas imaginem os problemas sociais que não estão sendo embalados nesta ciranda que só dá alegria aos bancos. Pode botar muitos Pinheirinhos nesta conta.

E isso sem falar que, para mim, esses altos lucros vêm também de bolhas variadas que estão sendo infladas na economia brasileira, com a ajuda inclusive do forte sopro do governo. Acho que também não é preciso dizer para quem vai ficar a conta quando essas bolhas estourarem, não é mesmo?

É preciso se indignar, pessoal da militância governista, e fazer um ataque duro a esses lucros abusivos dos banqueiros. E como estou aqui pra ajudar, vou até dar uma dica para vocês se sentirem estimulados na crítica a este modelo que privilegia os bancos: façam de conta que a culpa é do governo FHC. Ou do Serra.
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POR José Pires

A moça que é contra a revolução de Fernando Morais

Fernando Morais anda fazendo humor. O jornalista, que é conhecido como autor do livro “A Ilha”, uma obra muito favorável ao regime implantado por Fidel Castro em Cuba, disse que ajudar a blogueira Yoani Sánchez é ficar contra a “revolução”. Ele quer mesmo fazer a gente rir. Outra coisa que ele disse foi que "não pode ajudar uma moça que é contra a revolução".

Essa “revolução” de que fala o jornalista brasileiro deve ser bem fraquinha para se abalar com a viagem de uma blogueira ao Brasil. Yoany já recebeu o visto para entrar em nosso país, mas o governo cubano negou a autorização para que ela sair de Cuba.

Mas, de qualquer forma, é interessante ouvir da própria boca de Morais o que vários críticos de seu trabalho vem dizendo há muito tempo: desde a publicação de 'A Ilha" ele pratica um jornalismo parcial e submisso aos interesses da ditadura dinástica dos irmãos Castro.

A piada feita por Fernando Morais é ainda melhor se lembrarmos que nem a ditadura militar brasileira impediu que ele saísse do Brasil na década de 70 para ir a Cuba escrever seu livro. Morais só não pôde ir direto do Brasil para Cuba, pois as duas ditaduras não tinham relações. Mas viajou por outro caminho, viu o que julgou que devia ver e escreveu o livro para ser publicado no Brasil.

O livro foi publicado no Brasil em plena ditadura. E está aí até hoje, sendo editado livremente. Imaginem uma situação ao contrário, de um livro falando bem do golpe de 64 e sendo impresso e vendido em Cuba. Será que os irmãos Castro permitiriam?

Não, ninguém está aqui falando de ditaduras e ditabrandas. A comparação é só para expressar novamente meu estranhamento com gente que se dizia contra a ditadura que dominou o Brasil de 64 até a década de 80, mas hoje vive de braços dados com outras ditaduras.
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POR José Pires

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Imagem: A blogueira Yoani Sánchez é oprimida pela ditadura cubana, mas para alguns brasileiros o que ontem não era bom para o Brasil hoje é bom para Cuba.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012



Ditadura não deixa a blogueira Yoani sair de Cuba

O governo cubano negou autorização para a blogueira Yoani Sánchez viajar para o Brasil. Segundo ela informou pelo Twitter, é a 19ª vez que a ditadura de Cuba impede sua saída. Yoani foi convidada para participar do lançamento de um documentário sobre liberdade de imprensa em que ela é entrevistada. A cubana já havia recebido o visto brasileiro.

No twitter da imagem abaixo, a blogueira faz uma ironia com o porto de Mariel. “De que vale que tenhamos um porto tão grande e moderno como Mariel se não podemos sair por ele?”, ela escreve. O porto de Mariel foi o ponto alto da recente visita da presidente Dilma Rousseff a Cuba. É a principal obra de infraestrutura hoje em Cuba e nela o Brasil colocou um financiamento de US$ 683 milhões, correspondente a 85% do valor total.

Levando em conta a ruína econômica em que se encontra o regime dinástico dos irmãos Castro, a pergunta que vem logo à cabeça é se algum dia esse empréstimo será pago. Durante anos a ditadura cubana foi sustentada pela União Soviética. Com o final do comunismo dos russos, secou a fonte. Espera-se que não sobre para nós o papel de financiar uma economia dirigida de forma autoritária e incompetente. Já chega a grana que perdemos com os incompetentes daqui.

Em Cuba, Dilma se comportou como se o governo cubano tivesse o comando da pauta da sua visita. Não fez nenhum comentário sobre o desrespeito aos direitos humanos que vigora na ilha. Sua subserviência foi tanta que deu até declarações em defesa do que vem sendo feito em Cuba, com a alegação absurda de que desrespeito aos direitos humanos tem no mundo todo.

A autorização de saída negada a Yoani Sánchez mostra que os irmãos Castro não estão nem um pouco interessados em aliviar a barra da companheira brasileira, que certamente terá este episódio como uma marca bem pesada na sua imagem. Custava liberar a viagem da blogueira nem que fosse para dar uma força para a companheira brasileira? É claro que não, mas dá a impressão de que a intransigência é para mostrar quem é que manda de fato. Ah, os segredos das relações.

Mas arrumaram um problema para a imagem de Dilma. A propaganda em torno da petista tem buscado ressaltar com insistência — como uma marca histórica em seu currículo — a imagem de mulher e combatente política foi pressionada por uma ditadura.

Pois é exatamente isto que acontece agora com Yoani Sánchez. Mas o fato traz um tema muito interessante para cobrar a blogosfera petista e a militância governista que infesta as redes sociais: vai sair abaixo-assinado, vídeos no Youtube, comentários raivosos, textos irados, ou qualquer outra manifestação sensacionalista que essa gente costuma fazer com questões bem menores?

É claro que não. A indignação deles é seletiva. Yoani Sánchez é mulher, combatente e vítima de uma ditadura. Mas não é companheira de poder.
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POR José Pires

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012



Agora vai

Além do Brasil ser o país da piada pronta, temos uma porção de marxistas no governo, então só pode dar em piada do Groucho Marx. Em um de seus filmes, este grande humorista americano faz uma piada muito engraçada em um momento em que precisa enfrentar um problema. “Mas isso qualquer criança de seis anos sabe fazer”, ele diz com aquela empostação engraçada e sempre com um charuto na mão, para emendar em seguida: “Tragam uma criança de seis anos”.

Pois ontem em um voo de Brasília a Campinas um menino descobriu um vazamento de combustível em um avião da GOL. Ao entrar com o pai na aeronave a criança disse: “papai, esse avião não vai voar”. Um senhor sentado ao lado dos dois olhou pra fora e viu que o que incomodava o menino era um vazamento na asa do avião.

Os 120 passageiros tiveram que trocar de avião ainda em Brasília para que a empresa cuidasse do vazamento de combustível.

Deve ter sido uma experiência muito traumática para todos. Mas, de qualquer forma, finalmente encontramos uma solução para o caos dos nossos aeroportos e a precariedade da aviação civil brasileira.

— Tragam uma criança de seis anos!
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POR José Pires

Uma viagem bem longe dos direitos humanos

A blogueira cubana Yoani Sánchez deu uma entrevista (à imprensa brasileira, é claro) dizendo que está "decepcionada" com a atitude da presidente Dilma Rousseff de evitar o debate sobre os direitos humanos na sua viagem a Cuba.

A decepção certamente não é só da blogueira, que faz um blog de oposição em Cuba. Existe hoje na ilha muita insatisfação com o regime, vinda principalmente de jovens como Yoani, que nasceram muito depois da revolução e vivem hoje sem oportunidades em um país fechado e tomado pela burocracia comunista em todas as áreas. Em Cuba, o governo se mete até na vida privada das pessoas.

Qual é o jovem que não se oporia a uma situação dessas? Só se for uma pessoa com o cérebro tomado pelo governo depois de uma eficiente lavagem. Mas a ilusão com Cuba existe até entre brasileiros, que vão levar na cabeça quando for levantado o que foi feito pelo comunismo na ilha nesses anos todos.

Eu penso que tem que ser muito cabeça dura para não perceber que existe algo de muito errado num comunismo que se apresenta de forma dinástica, cujo poder passa de irmão para irmão — ou de Castro para Castro. E pior: os dois com mais de 80 anos. Nâo gosto de exclamação, mas isso pede: mais de 80 anos!

Mas a insatisfação não é só dos jovens. Vem também de cubanos que apoiaram o regime desde que ele foi implantado. É o caso de Pablo Milánes, um cantor e compositor muito bom e que fez até uma canção exaltando Fidel Castro. Em entrevista recente, Milánes se queixou de que a abertura política anunciada pelo regime não foi adiante.

É preciso lembrar também que Dilma deu suas declarações de apoio aos Castro menos de um mês após a morte por greve de fome de um oposicionista. Em 19 de janeiro deste ano o cubano Wilman Villar Mendoza morreu dessa forma. Então, a petista não precisava procurar desrespeito aos direitos humanos pelo mundo todo. Bastaria olhar à sua frente em Cuba.
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POR José Pires

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Imagem: A abertura do blog de Yaoni Sánchez, com sua foto em destaque. Mesmo quem não gosta do que pensa essa moça não tem como duvidar da sua coragem.
Para ver seu blog: http://www.desdecuba.com/generaciony/

De olho em Cuba pelo Granmma

Como a internet permite e aqui ela é livre, tenho acompanhado pelo Granmma a visita da presidente Dilma Rousseff a Cuba. E nem vou chamá-lo de órgão oficial do governo cubano, pois lá toda a imprensa é órgão oficial. O Granma é o sonho de consumo do poder petista: controle de mídia é isso. No site não sai nem uma palavra que não seja do interesse do governo.

É claro que isso cria problemas graves na qualidade jornalística. Veja na imagem a chamada da primeira página, que vou repetir aqui. Vai em espanhol mesmo: “El General de Ejército Raúl Castro Ruz, Presidente de los Consejos de Estado y de Ministros, recibió en la mañana de este martes a la excelentísima señora Dilma Rousseff, Presidenta de la República Federativa del Brasil, quien realiza una visita oficial a Cuba”.

Com a breca: uma autoridade em visita é chamada de "excelentíssima senhora". Em texto este formalismo não é usado hoje em dia nem em repartições públicas e muito menos por qualquer publicação, mesmo que seja oficial. No Brasil, os jornais tratavam autoridade como excelência apenas dos anos 50 para trás. Ou seja: na primeira metade do século passado. O Granmma foi fundado en 1965, mas ainda hoje segue a forma dos jornais sul-americanos dos anos 50. O site vai na mesma linha.

A revolução cubana é de 1959. Por um breve período, jornalistas e intelectuais mas criativos foram sendo afastados de qualquer atividade ligada à comunicação. E estou falando de gente que participou da revolução. Quem não concordava com o estilo de linguagem do poder caía fora. E depois disso nenhuma inovação de linguagem penetrou em qualquer publicação cubana. Na ilha tudo o que é impresso é do governo. Rádio e televisão também são estatais e a internet é controlada.

Isso deu a ilha uma comunicação de péssima qualidade, na qual o Granmma é um exemplo de produto mal feito desde antes da internet. Me lembro que uma das minhas primeiras decepções com o regime cubano foi quando peguei pela primeira vez nas mãos uma exemplar do Granmma. E era um perigo naqueles anos 70 ser visto lendo o jornal cubano.

Me espantei como o jornal era mal escrito e graficamente horrível. Estávamos numa ditadura no Brasil, mas tínhamos acesso a bons autores e já criávamos por aqui uma boa qualidade gráfica em revistas e jornais. Na literatura, excluindo os nossos, entre os latinos americanos tínhamos Juan Rulfo, Julio Cortázar, Vargas Llosa, Manuel Scorza, e tantos outros, bastante mesmo, incluindo escritores amigos de Fidel Castro, como o colombiano Gabriel García Márquez.

Então como era possível um país revolucionário fazer um treco feio como o Granmma? Devo ter brincado com a situação: mas foi para isso que fizemos a revolução? Hoje na internet o Granma continua muito ruim. O texto é uma tristeza de tão mal escrito, a qualidade gráfica do site fica lá embaixo e não se percebe nenhum interesse em procurar usar a criatividade para dar algo melhor ao leitor.

Mesmo quem não tem o interesse em se aprofundar na discussão ideológica da questão cubana pode fazer a comparação disso com o que vem sendo produzido em todo o mundo com a tecnologia gerada pela internet. Vai perceber que Cuba está atrasada em inovação. E a criatividade é zero.

E nem dá para botar a culpa em embargo ou usar qualquer outra desculpa que sempre aparece para tentar amenizar os atrasos da ilha e até o desrespeito aos direitos humanos. O que embota a criatividade em Cuba é um veneno interno que impede a liberdade. E sem liberdade é impossível o ser humano fazer qualquer coisa de qualidade.
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POR José Pires

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Imagem: o site do Granmma revela um defeito grave do socialismo cubano: falta de inovação e qualidade.
Para acessar: http://www.granma.cu/