quarta-feira, 22 de agosto de 2012


Vida nas cidades

O que você acha da sua cidade para viver? A revista britânica The Economist fez um estudo sobre 140 cidades no mundo e elegeu as 10 melhores a partir de conceitos como saúde, violência, educação, infraestrutura e, por fim, meio ambiente e lazer. São do Canadá e da Austrália a maioria das dez melhores.

Nenhuma grande cidade das mais conhecidas do mundo entrou no ranking. Paris (16), Tóquio (18), Berlim (21) e Roma (49) ainda ficaram entres as 50 melhores, mas Nova York e Londres nem isso. Entre as 50 melhores também não há nenhuma cidade da América Latina. O Rio de Janeiro ficou junto com São Paulo no 92ª lugar.

Hoje em dia existe uma proliferação de listas na internet. Tem ranking pra tudo, o que acaba desacreditando este tipo de avaliação. Mas o estudo da The Economist é respeitado e vem sendo feito todos os anos. E também não é preciso lista alguma para sabermos como está difícil viver nas cidades brasileiras.

É muita a especulação imobiliária, violência, carência de transporte público, descuido com o meio ambiente e uma tamanha falta de serviços básicos que atinge até a própria mantutenção do que já havia de bom há anos atrás em muitas cidades. O brasileiro não tem sequer calçadas decentes para andar. Até municípios médios já sofrem uma deterioração da qualidade de vida, com problemas como poluição, crescimento desordenado e violência, que antes só existiam nas grandes cidades. O mesmo ocorre em cidades pequenas localizadas em áreas metropolitanas.
Veja ao lado a lista das dez melhores cidades e leia aqui a reportagem da revista britânica. Repare na foto que tirei do site da The Economist (que é de Vancouver, no Canadá) as bicicletas rodando tranquilas. Este é um requisito básico para viver bem que as cidades brasileiras não cuidam.
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POR José Pires

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Nota baixa na economia

O governo do PT acaba de ganhar mais uma nota internacional. É na área da economia. O pais tem levado bomba em tudo quanto é indicador social, mas como o governo vinha bombando artificialmente a economia, pelo menos nesta área eram colhidos elogios. Agora a coisa mudou. O Brasil levou um B do editor para a América Latina do Financial Times, John Paul Rathbone.

"Apenas dois anos atrás, o Brasil tirava nota A, com uma taxa de crescimento de 7,5%”, ele escreveu em seu blog. Fez isso sem destacar que tínhamos então uma eleição que Dilma precisava ganhar a qualquer custo.

O jornalista também coloca em dúvida a eficácia do pacote econômico lançado esta semana. “Quanto do novo pacote será realmente novo?”, ele pergunta, para em seguida lembrar que é preciso reformas mais profundas, como a tributária. Mas aí o Rathbone forçou. Se o governo fizer a reforma tributária de onde vão tirar grana para contentar suas bases políticas?

O pacote de Dilma tem umas privatizações envergonhadas. É o tipo de medida que já vem tarde, mas como acontece sempre com coisas do PT, o governo fica se explicando o tempo todo. Não querem assumir de forma alguma a faceta privatista.

Em economia fala-se bastante em plano B. Pois eles já têm uma nota B. E isso porque o editor do Financial Times ficou só na análise do pacote. Temos ainda outros estorvos sérios numa economia que terá de se esfalfar para alcançar 2% de crescimento. Estão aí a desindustrialização e a falta de mão de obra qualificada em todas as áreas, esta última decorrente da falência da educação em todos níveis. São problemas cujos consertos levam gerações. E é claro que antes é preciso começar
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POR José Pires

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Futuro em risco

Todos os estudos e pesquisas sobre a educação no Brasil deixam muito claro que não é possível ter esperança de curto prazo na construção de uma nação de verdade. Na minha opinião, nem no médio prazo. Recentemente, o Instituto Paulo Monteneg ro e a organização não-governamental Ação Educativa divulgaram uma pesquisa com a conclusão de que apenas 35% das pessoas com ensino médio completo podem ser consideradas plenamente alfabetizadas.

Isso significa que dois terços das pessoas que frequentaram a escola saíram de lá sem aprender nada. Está todo mundo fingindo. Os que ensinam, quem aprende, e, por cima de tudo isso, toda a estrutura de governo em todas as esferas, além das instituições responsáveis por fiscalizar e cobrar que ao menos não se desenvolva a farsa coletiva em que o país se envolveu.

Outro dado terrível da pesquisa é sobre o ensino superior. Nele está o sintoma mais claro de que a situação fugiu do controle: 38% dos estudantes concluem o ensino superior sem serem plenamente alfabetizados. Mais espantoso do que saber que pessoas formadas estão assim é tomar o conhecimento de que elas conseguiram entrar na universidade.
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POR José Pires

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Joe Kubert, o mestre da síntese

Joe Kubert morreu neste domingo nos Estados Unidos, aos 85 anos. Era uma das figuras lendárias dos quadrinhos americanos. Escrevi sobre ele há cerca de três meses. Republico no post abaixo o texto que leva a um link muito legal onde dá para vê-lo desenhado junto com Neal Adams e o grande Moebius.

Kubert nasceu na Polônia e sua família foi para os Estados Unidos quando ele tinha ainda dois meses de idade. É um dos muitos imigrantes que construíram aquela terra. Sempre foi um dos desenhistas de que mais gostei. Tem o traço sintético, com uma liberdade de mão que até foge dos padrões dos quadrinhos americanos. Seu desenho é mais próximo dos quadrinhos europeus, na linha de artistas como Moebius e Hugo Pratt.

O desenhista começou a carreira no estúdio de Will Eisner, onde foi contratado pelo criador do Spirit para “varrer o chão, apagar os restos de lápis, retocar e limpar trabalhos”, como ele mesmo diz numa ótima conversa entre os dois publicada em um livro de Eisner com a edição de várias entrevistas feitas de forma informal. São ótimas conversas sobre a técnica dos quadrinhos e a vida dos artistas. Neste livro, Eisner conversa com com vários desenhistas de quadrinhos, entre eles Jack Kirby, Neal Adams, Milton Cannif, Jack Davis e Harvey Kurtzman. Descobri na internet uma boa tradução em português da entrevista com Kubert, uma das melhores do livro. Depois publico o link.

Na minha opinião, Kubert fez o melhor Tarzan. E falo isso sobre um personagem que foi desenhado também por Hal Foster e Burne Hogarth. Ele é genial nas sequências de ação, na forma como sintetiza as figuras e as cenas. É por meio de um desenho muito simples, que conduz a história com intensidade. Quem conhece o riscado sabe que esta simplicidade não é fácil de alcançar. Sua capacidade de sugestão me lembra sempre aquela lição técnica do escritor Ernest Hemingway, quando ele ensina a importância de mostrar apenas a ponta do iceberg.

Na conversa publicada no livro de Will Eisner, ele define bem essa liberdade no desenho. Entre os quadrinhistas da sua geração era uma prática ter um esboço preliminar bem definido antes de desenhar a arte final com tinta, usando a pena e o pincel. Mas Kubert já fazia direto a partir de um rápido esquema feito à lápis. Para Eisner, ele explicou que evitava o uso de esboços detalhados porque isso acabava limitando o trabalho, com a “sensação de que tudo se torna rígido”. Nesta conversa entre dois grandes mestres, ele disse: “Toda vez que refaço um desenho, ele se torna menos espontâneo”.

Kubert desenhou vários heróis, inclusive Super-Homem e Batman, mas ficou muito conhecido como o autor do Sargento Rock, histórias de guerra que criou com o roteirista Robert Kanigher. A história se passa na Segunda Guerra Mundial, o que exigia desenhar toda aquela parafernália militar da época. É admirável sua habilidade ao passar ao leitor num traço sintético todo o clima da tensão e risco vivido nas lutas contra os nazistas.

Neal Adams, Moebius e Joe Kubert, ainda bem jovens num encontro que ocorreu em 1972. O desenhista francês Moebius, que morreu em março deste ano aos 74 anos, tinha então 34 anos.

Neal Adams é um dos grande renovadores dos quadrinhos tradicionais da DC Comics, dos Estados Unidos. A partir da década de 70 ele deu uma grande mexida no universo de heróis como Batman e Super-Homem. O Batman feito por ele se tornou mais sombrio e realista. Seu trabalho é mais próximo da linha tradicional dos quadrinhos americanos, mas é muito bom.

Joe Kubert também é americano e sua carreira é igualmente ligada à produção editorial americana. É autor de Sargento Rock, história que se passa na Segunda Guerra Mundial, e também desenhou vários heróis conhecidos, inclusive os já citados Super-Homem e Batman. Ele veio do que há de melhor nos quadrinhos: foi assistente de Will Eisner no começo da profissão. Suas histórias do Tarzan são as melhores do famoso herói das selvas africanas. Tem um desenho sintético, absolutamente limpo e muito livre no traço. Kubert é tão hábil neste ofício que fez ficar bom até o banal herói do faroeste Tex, para o qual desenhou uma longa história.

E Moebius é o fantástico desenhista que primeiro ficou famoso com as histórias do Tenente Blueberry, passadas no velho oeste americano, mas com suas revistas editadas na França. Estas ele assinava como Jean Giraud, ou Gir. Do velho oeste ele saltou para histórias de ficção científica ou situadas em mundos tão estranho que parecem estar mais no círculo de sonhos jamais imaginados. Foi quando virou Moebius e com esta assinatura elevou os quadrinhos a um patamar artístico de grande beleza e criatividade.

A cena mostra os três logo depois de eles terminarem o desenho que está atrás e cuja feitura foi toda filmada. Para ver o vídeo, clique aqui.

(Publicação original no dia 27 de maio de 2012)
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POR José Pires

sábado, 11 de agosto de 2012


As cotas do poder


Uma imagem que ilustra muito bem o sistema de cotas no Brasil é a foto distribuída pelo próprio Senado, onde seu presidente, José Sarney, recebe conselheiros nacionais de Políticas de Igualdade Racial da Presidência da República (veja abaix o). Ora, os defensores das políticas de cotas afirmam que elas devem ser instituídas como reparação aos negros e aos estudantes de escolas públicas. Na tese desses militantes cotistas elas viriam para estabelecer uma igualdade social.

O senador José Sarney é um apoiador do projeto de cotas e não é difícil entender sua entusiasmada adesão ao projeto. As cotas acabam dando um fecho perfeito ao projeto desenvolvido em uma carreira política de mais de meio século.

O presidente do Senado é o chefe de uma oligarquia política que há pelo menos 50 anos domina o Maranhão, atualmente governado por sua filha. O estado tem um alto percentual de negros entre sua população, estimados em cerca de 70% no último censo. Em qualquer índice social o Maranhão aparece sempre nos níveis mais baixos. Em pobreza só é suplantado pelo Piauí. Saúde e educação no estado são péssimas.

E não existe hoje nenhum brasileiro que tenha tido tanto poder quanto Sarney para mudar este dramático quadro social não só do Maranhão como também também do Brasil por inteiro. Desde a ditadura militar o senador frequenta o poder em nosso país e mesmo hoje, no governo Dilma, ele é uma das figuras mais determinantes, com uma capacidade de mando que exerceu também nos dois governos de Lula e também anteriormente nos dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Além disso, Sarney foi presidente da República por cinco anos, antes das eleições diretas.

Ele teve a chance por esse anos todos de mudar o quadro de miserabilidade que aí está e que atinge indistintamente a negros e pobres. Nas suas mãos estiveram também os instrumentos para melhorar a educação pública, de forma que todo estudante pudesse concorrer em igualdade de condições a uma vaga no ensino superior.

Mas Sarney fez exatamente o contrário disso, num processo que não partiu de nenhuma dificuldade pessoal para encaminhar ao menos a criação de um sistema educacional de qualidade e uma realidade com maior justiça social. Sarney não errou de forma alguma. Foi um projeto muito bem executado. A pobreza acompanhada da falta de educação e de cultura são essenciais para manter um eleitorado dócil ao interesse da oligarquia representada por ele.

O fecho que as cotas dão a este projeto político de submissão de todo um povo é o de trazer uma suposta solução para males que Sarney e seus colegas vêm desenvolvendo há tantos anos. É o crime perfeito, de um político que se gaba de um remédio para a doença que ele mesmo criou.
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POR José Pires

quarta-feira, 8 de agosto de 2012


Insulto racialista

Esta militância cínica e azucrinadora que gosta de se fazer de indignada com certos fatos apenas quando convêm aos interesses governistas deve ter suas orelhas puxadas por não se manifestar quando o país é insultado de fato em falas como a do senador Paulo Paim (PT-RS), ao comemorar a aprovação das cotas raciais pelo Senado.

Veja o que o senador disse: “É uma reparação de anos e anos de exclusão racial e social. Não é justo que o preto e pobre trabalhe de dia para pagar a universidade e estudar à noite enquanto o branco descansa o dia todo”.

É impressionante, mas não é espantoso, pois a militância racialista que defende as cotas tem seguido um discurso parecido, numa linha de confrontação com os brancos. Mas eu quero perguntar aos brancos do PT ou às pessoas que costumam defender este governo se quando fizeram a universidade descansavam o dia todo. Eu não conheço branco nenhum que tenha descansado à larga, como diz o senador petista. E olhem que tenho relações pessoais com muita gente que fez o ensino superior.

O que sei é de muito brancos que tiveram de se esforçar muito para fazer um curso superior, muitos deles tendo que trabalhar enquanto estudavam e a maioria se mantendo com dificuldade com o pouco que a família podia dispor. E todos, com certeza, com os custos da sua preparação em escolas privadas sendo pagos com o maior esforço por seus pais, depois que estes perderam a confiança numa educação pública abandonada pelos dirigentes deste país.
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POR José Pires

Mensalão e outras palavras

Os advogados do PT vieram com a proposta de censurar a palavra “mensalão” do noticiário da imprensa. É difícil que eles descubram um meio de fazer isso sem que seja baixando uma ditadura no país, uma ideia que até é tentadora para vários dirigentes petistas, mas que felizmente encontra forte oposição na sociedade civil.

Aliás, a própria criação do... mensalão foi exatamente para encaminhar este projeto de submissão do país a um único partido. A perenização do PT no poder ter ia uma base na compra dos votos de parlamentares de outros partidos. O mensalão foi um dos ataques mais graves já feitos à democracia no Brasil acabou sendo descoberto apenas porque houve um desacordo na partilha com o PTB de Roberto Jefferson.

A idéia da censura ao uso da palavra “mensalão” é tão estúpida que até virou piada, mas que ninguém duvide que os petistas ainda a levem adiante. Não seria a primeira vez que eles assumiriam com fanatismo uma proposta idiota. Mas caso os advogados petistas resolvam encaminhar uma ação jurídica para censurar a palavra “mensalão” seria muito mais prático juntar uma porção de palavras incômodas ao PT.

A lista é muito grande, já que as tretas são tantas que este partido pode estrelar uma vasta enciclopédia de escândalos de corrrupção e outros delitos. Como uma modesta contribuição damos aqui uma pequena lista do que pode ser proibido junto com a palavra... mensalão.

CASO LUBECA TONINHO DO PT, DOSSIÊ VEDOIN, CASO CELSO DANIEL, ALOPRADOS, BURATTI, LEÃO LEÃO, DINHEIRO DE CUBA NA CAMPANHA, DÓLARES NA CUECA, BINGOS, FARC, FORO DE SÃO PAULO, DELTA, CASEIRO FRANCENILDO, SANGUESSUGAS, RENANGATE, DOSSIÊ FALSO CONTRA RUTH CARDOSO, COMPADRE DO LULA, CASO DOS CARTÕES CORPORATIVOS, OKAMOTTO E A DÍVIDA DO PT, TAPIOCA, PROPINA NO MINISTÉRIO DO TRABALHO, BANCOOP, SATIAGRAHA, GAMECORP, LULINHA, CORREIOS, CPI DAS ONGS, BANCO PANAMERICANO, CASO ERENICE GUERRA.
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POR José Pires

terça-feira, 7 de agosto de 2012


Coloque outra ficha

A operadora TIM foi acusada pelo Ministério Público do Paraná de derrubar ligações de usuários do plano Infinity para forçá-los a fazer uma segunda ligação. Pagando por isso, é claro. Um estudo da Anatel já aponta que existem desligamentos demais do Infinity e disso o usuário paranaense sabe muito bem. As ligações vivem caindo e para ligar novamente é preciso pagar uma nova tarifa. A empresa conquista o consumidor com a facilidade de pagar apenas uma tarifa para falar e depois usa o recurso criminoso de derrubar a linha.

Se fosse pobre roubando xampu em supermercado o xilindró já estaria com a porta trancada, mas neste caso o processo ainda vai longe até determinar uma possível penalização da TIM. Se é que vai acontecer alguma coisa, pois todas as operadoras vêm aprontando há bastante tempo com o consumidor e a Anatel só deu as caras neste período eleitoral. É duvidoso que o governo mantenha esta presteza após as eleições.

O governo do PT já vai completar dez anos. A privatização das teles é de antes de Lula botar a faixa na barriga. Mas só em novembro a Anatel pretende começar uma fiscalização para acompanhar os problemas nos planos de internet fixa e móvel. Se é que vai começar mesmo, pois, repito, em menos de três meses não será mais preciso caitituar o voto do eleitor.

A avaliação feita pela Anatel sobre as quedas nas ligações do plano Infinity mostra que o lucro é grande. Em um único dia (8 de março deste ano) a grana embolsada pela empresa com as interrupções chega a R$ 4,3 milhões. Segundo os sites que deram a notícia, a TIM foi procurada mas não se manifestou sobre a ação. E se o usuário quiser ligar para saber de alguma coisa, com certeza vai ficar ouvindo aquele lero-lero gravado que todas as operadoras colocam para forçar o consumidor a desistir de qualquer queixa.
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POR José Pires

sábado, 4 de agosto de 2012

Unidade tardia

Leio na internet uma entrevista com o ex-presidente paraguaio Fernando Lugo onde ele se mostra animado. "A esquerda paraguaia nunca esteve num melhor momento", ele diz. Lugo foi cassado pelo Senado há pouco tempo, como todo mundo sabe.

Mas o que chama a atenção mesmo é quando o ex-presidente paraguaio diz que eles estão se reunindo todos os dias para discutir um projeto nacional, lembrando que "nunca antes 12 partidos e oito movimentos sentaram juntos".

Na época da ditadura no Brasil falava-se muito que a esquerda só se unia na cadeia e isso era um fato. Todos esses movimentos de esquerda, incluindo os grupos armados, sofriam rachas o tempo todo. Chega a ser estúpida a ideia de um grupo reduzido de pessoas que ao mesmo tempo em que são acossadas por uma polícia cruel brigam entre si e criam dissidências. Mas a esquerda armada era capaz disso.

Mesmo o projeto de uma ampla frente democrática contra a ditadura militar sofria o tempo todo ataques desses setores políticos. Em vários momentos essa esquerda que depois criou o PT batia mais nos democratas do que na ditadura. Enfim, o pessoal não se unia mesmo a não ser na cadeia.

Mas está aí uma novidade vinda do Paraguai. A esquerda se une também quando é chutada do poder.
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POR José Pires

quarta-feira, 1 de agosto de 2012


Futilidade fora de hora

Parte da imprensa brasileira tem seu lado cafajeste que se destaca toda vez que aparece em qualquer assunto uma mulher bonita (ou mais vistosa, digamos assim, já que pro meu gosto...). O monte de tolices que esse pessoal publica acaba até prejudicando muitos assuntos importantes. Esse tipo de jornalismo rastaquera e fora do contexto cria uma zoeira que atrapalha o conteúdo dos que estão trabalhando direito. Isso tem acontecido em vários casos políticos, mesmo que não haja nada de importante na aparição da figura embonecada que logo é chamada de “musa” ou algo parecido e muitas vezes até vira a estrela onde não passa de adorno.

Foi o que aconteceu nesses dias com Andressa Mendonça, mulher do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Hoje ela pagou R$ 100 mil para evitar ser presa, mas antes disso ela vinha sendo tratada por muitos como se fosse uma doce criatura desvinculada de Cachoeira e sua ilegalidades. Era a bela apaixonada que derramava lágrimas pelo m arido.

Como sempre a idiotia foi às alturas. O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) chegou a elogiar o que ela disse sobre o marido numa entrevista. As palavras de Miro Teixeira: “A senhora do Cachoeira [ela mesma, Andressa Mendonça] foi muito feliz ao dizer, em uma entrevista, que a vida ia muito bem quando ele só mexia com bingos. Que quando começou a se meter com políticos corruptos, ele começou a se dar muito mal”.

Coitado do Cachoeira, não é mesmo? Levava uma vida pacata com seus bingos até que teve o caminho desvirtuado por maus políticos. E isso saiu da boca de um dos deputados mais antigos do Congresso. Puta velha, como se diz em vários lugares, inclusive em Brasília. Sorte que Andressa Mendonça quase foi presa depois de acusada de chantagem ao juiz, senão o deputado poderia ser capaz até de chamar a “senhora do Cachoeira” para ajudar nos trabalhos da CPI.

A chantagem ao juiz fez da aparição de Andressa Mendonça um jogo rápido. Neste caso, a “musa” escancarou logo ao que veio, mas se não tivesse acontecido uma coisa dessas ainda teríamos que aguentar muito besteirol em torno dela. Talvez pintasse até um bom convite da Playboy para (com todo o respeito) a “senhora da Cachoeira”.
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POR José Pires


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Imagem: Andressa Mendonça, a "musa" que virou abóbora muito cedo, num recorte do site do jornal "Extra" nos poucos dias em que encantou um certo tipo de jornalismo.


terça-feira, 31 de julho de 2012

Caindo fora

O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos anunciou na manhã de hoje que sai da defesa de Carlinhos Cachoeira. Seu escritório já deu várias versões sobre o abandono da defesa do bicheiro, alegando inclusive o desgaste na relação com o cliente, mas não deixa de ser o tipo de saída que é tão suspeita quanto a entrada.

E não é o único caso jurídico em que a presença de Thomaz Bastos parece que foi bem desgastante para a sua imagem. É óbvio que ele deve ganhar bastante dinheiro com isso, mas será que o custo-benefício compensa? O ex-ministro alcançou uma condição em que sua presença num tribunal sempre chama mais atenção que a do réu que defende. É claro que sendo assim, dependendo do caso é impossível distanciá-lo das implicações políticas do crime de que seu cliente é acusado.

Além da defesa de Cachoeira o ex-ministro também participa do julgamento do mensalão. Defende um dos peixes menores do cardume de tubarões ligados ao PT, o ex-diretor do Banco Rural José Roberto Salgado. Mas até isso torna sua presença no caso mais suspeita.

O caso do bicheiro Cachoeira interessa tanto ao ex-presidente Lula — seu chefe quando ele era ministro da Justiça — que até resultou numa CPI que o PT pretendia usar para atingir os adversários. E o mensalão guarda relações estreitíssimas com Thomaz Bastos. O caso estourou quando ele comandava a pasta da Justiça, mas no entanto, sua atuação foi no sentido de apoiar as autoridades e dirigentes políticos acusados do crime, atuando até no papel de conselheiro jurídico e político de mensaleiros e também de Lula.

Sei que no Brasil pode até parecer purismo, mas ainda acredito que o dever de um ministro da Justiça numa situação daquelas tinha que ser o de agir com rigor e buscar o esclarecimento, até porque aquele esquema pretendia golpear a próprio funcionamento do Estado.

Mas o fato é que quando foi ministro ele atuou políticamente de forma intensa durante as crises do governo Lula e depois veio pegar esses dois casos cabeludíssimos e de tantas relações com o interesse de Lula e seus companheiros. A saída do caso Cachoeira só ameniza o pesado desgaste de ter entrado. E no mensalão ele não tem outro jeito senão de ir até o fim.

Independente do que aconteça daqui pra frente, politicamente Thomaz Bastos já foi derrotado nos dois casos, pois foi atingido de forma inapelável na sua imagem. É impressionante ver alguém tão experiente cometer desse jeito um erro após o outro. Me parece que faltou ao ex-ministro a assessoria de um Márcio Thomaz Bastos.
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POR José Pires


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Imagem: O então ministro Márcio Thomaz Bastos em reunião com o chefe e o então colega José Dirceu, citado pela PGR como o "chefe da quadrilha" do mensalão.



Pagando sempre mais caro

Saiu mais um índice Big Mac da revista The Economist, ainda com o famoso sanduíche custando mais caro no Brasil do que nos Estados Unidos. O Brasil tem o quarto Big Mac mais caro do mundo: nos Estados Unidos o lanche custa U$ 4,33 dólares e aqui pagamos U$ 4,94 dólares.

Mas o índice da The Economist não é para comer Big Mac. A comparação é feita para medir poder de compra. Em tese, sendo um produto padronizado e existente em todo mundo, o preço do Big Mac daria uma ideia da economia em diversos países e permitiria uma comparação do poder de compra. Na interpretação de economistas o índice divulgado hoje aponta uma sobrevalorização do real em mais de 10% em relação ao dólar.

Pode até valer esta porcentagem na comparação entre as moedas, mas é claro que na vida prática o índice Big Mac mostra que a vida pesa no Brasil bem mais do que estes 10%. Mesmo se pensarmos apenas no sanduíche, na comparação do preço do lanche teria de haver também a relaçao entre a média salarial de americanos e brasileiros. E além disso, a receita teria de conter os demais custos de cada povo em seu país. É muito mais fácil para um americano juntar as crianças e ir comer Big Mac na lanchonete, já que nos Estados Unidos ele não tem de arcar com outros custos cotidianos que pesam muito no bolso do brasileiro.

Além do índice Big Mac, temos no Brasil o “Índice Telefonia”, “Índice Habitação”, “Índice Internet”, "Índice Informática", “Índice Transporte”, “Índice Educação”, “Índice Segurança”, além de outros índices que incluem uma variedade de produtos e serviços que no Brasil sempre pesam muito mais para o consumidor. Aqui temos até o “Índice Juros” e também o “Índice Serviços Bancários”. E nem vou me aprofundar na comparação entre a qualidade do que somos obrigados a comprar aqui e aquilo que o consumidor americano tem à sua disposição. Os Big Macs podem ser até parecidos, mas o resto do que se compra no Brasil é sempre inferior ao que se tem lá fora. E o brasileiro vai engolindo.

Evidentemente estou citando os americanos em razão do nome que esta porcaria de sanduíche deu ao índice, mas vários preços no Brasil são muito altos em comparação com muitos países de população com poder aquisitivo bem maior do que o nosso. É mais barato comer em restaurantes de bom nível em Paris do que em restaurantes de cidades como São Paulo ou Rio de janeiro

E além do preço do Big Mac o brasileiro paga também por meio de altos impostos por muita coisa que nem consegue receber. Como exemplo de um só ítem, na Noruega o Big Mac custa mais caro do que aqui, mas o norueguês paga só pelo que comer. Não precisa contratar segurança monitorada para sua casa, aumentar o muro, colocar cerca elétrica, pagar caro por seguro contra roubo ou então morar em condomínio ou apartamento com custos semelhantes. E nem corre o risco de ser roubado ou assassinado quando volta para casa do McDonald's.
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POR José Pires

sábado, 28 de julho de 2012


Recesso eleitoral

Advogados do PT pediram o adiamento do julgamento do mensalão. A tese é revolucionária: eles acham que a lisura do julgamento fica comprometida por causa da coincidência com as eleições municipais. O pedido de adiamento foi feito em ofício à ministra Carmen Lúcia, presidente do TSE e membro do STF.

Está aí uma contribuição (revolucionária, repito) do PT para uma reforma judiciária. Políticos só poderiam ser julgados ano sim e ano não, já que nos anos pares temos eleição no Brasil. Com certeza a ideia teria uma acolhida favorável e entusiasmada no Congresso Nacional. E já que o protelamento de julgamento é praticamente uma especialização da advocacia no Brasil, os advogados iriam empurrando os processos para anos eleitorais.

Uma novidade dessas evitaria de vez qualquer julgamento de político corrupto, o que, por sua vez, também livraria nossos tribunais do trabalho de inocentá-los, que é o que acaba acontecendo na maioria das vezes.
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POR José Pires

Verdade nua

A honestidade anda tão em falta no mercado que fiquei impressionado com a sinceridade de uma atriz da Globo que vai posar nua para a revista Playboy. Nathália Rodrigues é o nome da moça, outra global famosa que eu desconhecia, mas só por uma questão muito pessoal: não vejo TV. E como não tenho serviçais, não dá para dar uma sapeada nem quando passo pelo quarto de empregada.

Nathália trabalha na minissérie Gabriela. E quase escrevo “atua na novela Gabriela”, mas mudei rápido o verbo porque poucos estão atuando de fato nessa novela. E não sei como está a Nathália, que faz uma das prostitutas do bordel Bataclan. Na imagem, vejam ela em cena.

Vi dois capítulos espaçados de Gabriela e mesmo para os padrões artísticos sempre muito baixos das novelas da Globo achei um desastre a performance de quase todos os atores. O problema é de direção, por isso salvam-se uns maiorais que sabem fazer o serviço sozinhos. Mas o resultado do conjunto chega ser constrangedor. Tem ator fazendo caricatura de personagem. Em várias cenas parece que estão ensaiando falas em início de peça teatral. Mas o trabalho já foi pro no ar, não é mesmo?

Juliana Paes também foi uma escolha errada para o papel central. A moça é boazuda, mas não é sensual. Há muito tempo que na TV brasileira é feita essa confusão com a sensualidade. Na telinha acham também que sensualidade tem a ver apenas com a beleza, o que também não é o caso. Só como exemplo, uma das atrizes brasileiras mais sensuais que temos nem pode pode ser colocada entre as belas de momento algum da televisão brasileira, ao menos nos padrões em voga: é Marília Pera. E uma pessoa pode ser até feia para o gosto comum e nem por isso deixar de ser sensual. O contrário também acontece. Mas vale dizer novamente que no palco ou na tela mesmo a sensualidade natural precisa de um bom diretor para que isso seja uma expressão marcante da personagem.

Mas eu falava sobre a honestidade da Nathália Rodrigues. Novela tem disso: um assunto vai puxando o outro e pode-se até esquecer do começo da conversa. Nathália vai posar nua para a Playboy e foi honesta ao falar sobre isso. Não veio com aquela conversa de nu artístico ou qualquer outra justificativa suspeita. Ela disse que é mesmo por dinheiro que vai tirar a roupa para os leitores.

Vejam o que ela falou: “Aceitei posar nua porque foi uma proposta irrecusável. Prefiro não citar valores, mas posso dizer que dá para mudar um pouco a minha vida e conseguir um apartamento próprio”.

Bacana, não? É de gente honesta assim que o Brasil está precisando. E neste caso especificamente a franqueza facilita até a vida dos marmanjos que vão comprar a Playboy para ver a moça pelada. Ninguém vai precisar usar a desculpa de que está comprando a revista por causa de alguma reportagem ou da entrevista do mês que está muito boa.
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POR José Pires

quinta-feira, 19 de julho de 2012


Juventude com o pé na cova

A presidente Dilma Roussef anda querendo abandonar o PIB como indicador de desenvolvimento e prosperidade. Então que tal a segurança pública? Saiu um estudo novo que coloca o Brasil entre os quatro países com maiores taxas de homicídio de jovens. Não que seja novidade que policiais, mílicias e traficantes estão matando nossos jovens e até crianças. Já sabemos disso. Basta abrir um jornal ou ligar a internet para ver todos os dias a matança.

Mas agora saiu a nova edição do Mapa da Violência, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e o Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos (Cebela). De 92 países do mundo apenas El Salvador, Venezuela e Guatemala apresentam taxas de homicídio maiores que a do Brasil, que está com 44,2 casos em 100 mil jovens de 15 a 19 anos.

Entre os dados deste estudo está um que bate com um grave sintoma da violência revelado recentemente pela Anistia Internacional. É uma “epidemia de indiferença” por parte de grande parcela da sociedade com o assassinato cotidiano da juventude mais pobre. O que deveria ser tratado como calamidade é recebido como se fosse um fato natural incorporado à vida nacional.

Esta acomodação dos brasileiros à má qualidade de vida pode ser percebida em relação aos mais variados assuntos, mas no caso da violência a situação é absurda demais. Nem nas cidades menores do país existe mais espanto com os frequentes assassinatos. E até no interior já é recebido como uma normalidade o fato de não ser mais possível andar com segurança nas ruas depois do pôr-do-sol.
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POR José Pires

Gestão com nota baixa

Entre os indicativos sociais negativos que aparecem o tempo todo o mais preocupante é o da educação. Já virou lugar-comum falar sobre a importãncia da educação, mas isso tem mesmo que ser dito sempre. Sem uma educação de qualidade é impossível fazer qualquer coisa.

Saiu nesses dias uma pesquisa sobre este assunto que coloca o Brasil mais uma vez numa situação extremamente negativa. Apenas 35% das pessoas com ensino médio completo podem ser consideradas plenamente alfabetizadas. A pesquisa é do Instituto Paulo Montenegro e a organização não governamental Ação Educativa.

Outra informação impressionante da pesquisa é que 38% dos brasileiros com formação superior têm nível insuficiente em leitura e escrita. Isso é que é o mais preocupante, afinal são essas pessoas que deveriam estar sendo preparadas para elevar o nível educacional e cultural do país. E já é absurdo que um número tão alto de ignorantes tenha entrado na universidade, já que o ensino superior não existe para ensinar a ler. Mas, de qualquer forma, saiam da universidade com alguma formação.

Mas é preciso tomar cuidado com este tipo de encaminhamento porque ele nunca resulta em aumento de verbas na educação e tem servido também para evitar a discussão sobre o que está sendo feito com o dinheiro que já existe nesta área.

Perde-se muito dinheiro com a má gestão dos recursos da educação e parte considerável também se vai com a corrupção. Um estudo recente da Federação do Estado de São Paulo (Fiesp) informou que o Brasil perde R$ 56 bilhões por ano com a má gestão do dinheiro público investido nesta área. Divulgado em novembro de 2010, o estudo é muito interessante quando faz comparativos entre o Brasil e os outros países da América Latina.

Com um percentual de gastos acima do conjunto do continente (4,3% do PIB contra 4% dos demais países) o Brasil teve resultados sempre piores. A taxa brasileira de analfabetismo ficava em 11,3% e os demais em 8%. A repetência nos quatro primeros anos era de 21,4% enquanto nos outros era 5,8%. Há menos de dois anos Uruguai e Chile gastavam o mesmo que o Brasil e conseguiam resultados muito melhores.

O estudo trata apenas dos aspectos administrativos do uso dessas verbas. Não tocou na questão da corrupção, que também é outra barreira séria para uma boa gestão na educação não só pelo dinheiro que é surrupiado mas também pelos maus hábitos que a roubalheira acaba criando.

É claro que é preciso valorizar a educação e sem dúvida alguma é necessário investir em infraestrutura e bons salários para os professores. Mas se não tivermos uma melhoria bem grande da gestão pode ser que o aumento de verbas não traga a melhoria de qualidade que o Brasil precisa.
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POR José Pires

quarta-feira, 18 de julho de 2012


Buscando indicativos que dão voto

Já sabendo que seu governo terá de conviver com um PIB bem pequeno, a presidente Dilma Rousseff busca encaixar um discurso político desqualificando seu uso como indicador de desenvolvimento. Ela está atrasadinha neste assunto e só por conveniência é que agora entra nele. Há muitos anos anos que o modelo do PIB vem sofrendo fortes críticas e na minha opinião muito bem colocadas.

É claro que estou falando de gente séria. A retórica de Dilma é sem vergonha. O PIB é um indicador que, como qualquer outro, pode ajudar a administrar melhor. Se ela tem alguma dificuldade com ele, basta sentar ao lado de um bom economista que ele vai extrair o que pode ser nocivo para a compreensão dos problemas que o país enfrenta.

E Dilma teve sua própria vitória eleitoral conquistada em grande parte com o uso do PIB como material de propaganda. Quem não se lembra? O PIB era um conceito tão forte para eles que o então presidente Lula até manipulou de forma arbitrária os dados econômicos para propagandear no ano da eleição um crescimento no PIB e previsões formidáveis de desenvolvimento futuro, sempre baseadas neste modelo.

Porém, mesmo tirando os números do PIB fora da discussão econômica a realidade brasileira bate forte revelando a baixíssima competência deste governo em qualquer setor. E como é um governo já no terceiro mandato (uma década de poder!) fica muito difícil vir com a safada tática de colocar a culpa no governo anterior, um discurso desonesto e de baixa qualidade técnica que coloca a eterna e saudável disputa entre os partidos acima da responsabilidade na condução do Estado.

Qualquer método que possa medir a qualidade de vida no país e os resultados de um modelo econômico vai sempre colocar este governo em seu devido lugar: um zero. À esquerda ou isolado, mas sempre um zero. Por isso, eu penso que seria melhor para o país que tivéssemos governantes implicando mais com a receita do que com a forma de medir os resultados.

Mesmo com o desmerecimento do uso do PIB será difícil para Dilma arrumar outro indicador para extrair os dados positivos que seu governo tanto precisa. Ela e seu partido podem até aumentar a propaganda e a manipulação política que já é de uso comum e com este artifício conquistar boas vitórias eleitorais. Mas isso não vai alterar a péssima realidade que faz infeliz esse nosso Brasil.
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POR José Pires


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Imagem: Depois de seu governo criar um PIBinho, Dilma não gosta mais do indicador.


Enciclopédia militante

A polêmica em torno da reclamação que o ministro Gilmar Mendes, do STF, vem fazendo sobre o site Wikipédia bem que podia servir para um debate sobre a precariedade da internet brasileira na qualidade de seu conteúdo. Mendes ficou muito bravo com sua biografia publicada no Wikipédia. E com toda a razão. O texto que pretensamente apresenta a vida do ministro é um amontoado de críticas políticas e de ataques à sua atuação como juiz. O texto firma posição contra o ministro ainda antes de sua posse, em 2002, nomeado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.

O que deveria ser um verbete informativo é na verdade um longo artigo de opinião. O Wikipédia se apresenta como uma enciclopédia, mas no caso da biografia de Mendes e em tantas outras que o site publica não é tecnicamente esse o produto que apresentam.

A partir da reclamação do ministro do STF à direção do Wikipédia foi revelado em parte como é feita a edição de perfis no site. Na publicação em português são cerca de 1.500 editores ativos e entre eles os que eles chamam de “eliminadores”, além de um “conselho de arbitragem” que analisa conflitos entre os usuários.

Quando Gilmar Mendes procurou publicar em seu perfil informações com uma visão diferente do amontoado de críticas que lá estavam um dos “eliminadores” acabou sendo identificado. É Chico Venâncio, que se opôs aos textos que o ministro tentou incorporar à sua biografia publicada.

Venâncio tem um blog na internet onde à primeira vista já é possível identificar uma posição governista. Na leitura de seus textos também fica logo clara uma grande dificuldade pessoal com a escrita. Mas a gramática não é o ponto mais problemático das suas intervenções no Wikipédia, apesar de não haver confiabilidade no site também neste aspecto.

O problema são os ataques à uma personalidade pública, o que não é, repito, papel de um site que se apresenta como “enciclopédia”. Acontece isso no perfil de Mendes, onde se vê um amontoado de críticas em tom panfletário, com a mesma parcialidade podendo ser vista nos perfis de outras figuras de destaque da oposição.

Me parece óbvio que o Wikipédia foi aparelhado por uma militância partidária que vem sendo organizada e orientada para ocupar de todas as formas a internet. Muitos fazem essa militãncia como profissionais, inclusive recebendo salário para isso.

O modelo do Wikipédia apresenta brechas perfeitas para esta ocupação. Como o site é aberto para voluntários, no Brasil dificilmente o site alcançaria uma boa qualidade de conteúdo, mesmo que não estivesse em prática esta estratégia de domínio político. Qual é o profissional profissional ou intelectual que pode dispor de tempo para colaborar de graça com um site como este? Escrever com seriedade e ainda mais numa “enciclopédia” é algo custoso. Mas isso não é problema para uma militância que bate cartão para fazer política partidária o tempo todo e não vê no conteúdo da internet nada mais que uma ferramenta para manter o poder em posse de um partido.
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POR José Pires


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Imagem: O Wikipédia vira instrumento da militância partidária.