terça-feira, 9 de outubro de 2012

Aliança com o PT faz mal para malufista

O vereador Wadih Mutran (PP) pode ter sido vítima do acordo entre Paulo Maluf e Lula em torno da candidatura de Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo. Mutran é um aliado histórico de Maluf e um veterano ganhador de eleição para vereador. Está há 29 anos na Câmara, mas exatamente neste ano em que o PP de Maluf e o PT de Lula se juntaram ele acabou não sendo eleito.

Pode-se até pensar em coincidência, mas acontece que o próprio Mutran parece ter detectado de imediato a rejeição que poderia haver em seu eleitorado ao acordo com o partido que antes do beija-mão de Lula com Maluf tratava os malufistas de ladrão pra baixo. Logo que foram divulgadas as fotos que mostravam malufistas e petistas festejando a aliança no jardim da mansão de Maluf, o vereador distribuiu uma nota alegando que a coligação era uma decisão de seu líder Paulo Maluf e que “como vereador e membro do partido há tantos anos” cabia a ele acatar. A nota foi publicada também em seu site político. Veja na imagem.

É claro que Wadih Mutran percebeu o risco que sua carreira corria com a possível rejeição de seus eleitores ao acordo feito entre Lula e Maluf, mas não adiantou a explicação que deu depois que saiu nas fotos junto com os petistas. Ele perdeu a eleição. Até para seus eleitores malufistas a coligação com o PT foi além do limite da imoralidade.
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POR José Pires

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O mito Lula se desfaz


Os petistas tentarão amenizar as perdas eleitorais que sofreram em todo o país e para isso vão usar a vasta rede de que dispõem na internet, mas as derrotas do partido têm um grave peso simbólico que deve afetar a imagem que eles vêm tentando impor até agora. O partido perdeu em locais onde foi forte o dedaço dos caciques chefiados pelo ex-presidente Lula. O que aconteceu nestas eleições de primeiro turno já exercem um peso definitivo na quebra de um mito no qual os petistas se escoram até agora: o mito da figura do ex-presidente Lula como influência decisiva junto ao eleitorado.

Em lugares onde Lula meteu seu dedaço inclusive passando por cima de lideranças políticas essenciais na formação do PT o resultado foi um fiasco. E é claro que em cada lugar que as pesquisas deram o prenúncio do desastre que viria nas urnas Lula se comportou como sempre, abandonado ligeiro os companheiros. Foi o que fez com Humberto Costa, em Recife. O senador petista virou candidato do partido por imposição de uma birra de Lula, que expulsou da disputa o atual prefeito recifense petista. E o PT perdeu no primeiro turno.

O chefão do PT teve a mesma atitude com seu amigo Patrus Ananias, abandonado logo que começou a cair nas pesquisas e que acabou sofrendo derrota acachapante na disputa da prefeitura de Belo Horizonte.

Na própria São Paulo, onde Lula fez acordo até com Paulo Maluf e chutou a candidata natural Marta Suplicy para colocar Fernando Haddad em seu lugar, a batalha contra José Serra vai ser dura. Mesmo usando a máquina do Governo Federal para rearrumar a seu gosto o quadro eleitoral paulistano e comandando uma das mais caras campanhas municipais da nossa história política, o petista viu seu candidato ir para o segundo turno atrás do tucano. E agora na capital paulista, numa mera eleição municipal, Lula corre o risco de perder de vez todo seu cacife de líder político que chega e resolve tudo.

Mas neste domingo Lula e seus companheiros tiveram pelo menos uma boa notícia: na Venezuela o PT ganhou a eleição.
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POR José Pires

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um estilo que o PT não esperava


Um dia ainda vamos saber a causa de ter dado errado o plano do PT em relação ao julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal. Os petistas vinham tranquilos até meses atrás quando afinal os juízes do STF resolveram encarar o processo. O melhor termômetro para notar que algo estava sendo arranjado para que pelo menos os maiorais não fossem condenados era o comportamento do ex-presidente Lula. Ele não demonstrava nenhuma preocupação. E o Lula só fica desse jeito quando o mundo está girando a seu favor. Do contrário ele fica azedo, deixa de falar com a imprensa, some do noticiário por semanas. E dizem que faz o cotidiano de seus subalternos virar um inferno, já que na intimidade ele não é essa doçura da propaganda. E Lula estava animado até os juízes começarem a se debruçar sobre o processo. Era todo prosa até mesmo quando um jornalista trazia o mensalão para a conversa.

Outro que demonstrou que os petistas tinham razões de sobra para serem otimistas quanto ao andamento do processo foi Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT. No final de 2005 ele chegou a dizer que o caso acabaria virando “piada de salão”. Apesar de transitar entre os graúdos do partido e ter um papel expressivo no esquema, Delúbio não faz parte da chefia. A razão de sua tranquilidade só podia ter por base o que ele deve ter ouvido nas altas rodas do partido e do governo.

Mas no STF o mensalão não está com cara de piada de salão. Então vem batendo o desespero nos petistas. Hoje Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência e que estava ao lado de Lula e José Dirceu quando o esquema foi descoberto, confessou que está de coração partido. Ao pedido dos jornalistas para que comentasse a situação complicada de José Dirceu ele respondeu: “A dor me impede de falar, neste momento, desta questão”.

Carvalho estava na abertura da exposição das obras do italiano Michelangelo Merisi Caravaggio, em Brasília. Caravaggio é um pintor do século XVI e início do XVII que ficou conhecido por colocar a verdade acima da beleza e foi bastante criticado pelos acadêmicos da época por procurar incorporar o gesto verdadeiro na pintura, em oposição às encenações que eram mais bem vistas pelas autoridades religiosas. Foi até censurado por isso, mas no final seu pensamento acabou prevalecendo e até contribuindo para a formação do que hoje é a Igreja Católica.

É claro que aqui já estou indo para uma interpretação pessoal. Não tenho dados para saber se Gilberto Carvalho conhece algo de Caravaggio. Ele podia estar na inauguração da exposição por mera formalidade. E apesar de ser um ex-seminarista, pode ser que ele não tenha prestado maior atenção a este grande pintor religioso. E Carvalho também não me parece um sujeito a quem a verdade emocione de maneira honesta.

Mas podemos relacionar a dor que ele sente à obra deste pintor do qual se conta que era um grande atrevido também em sua vida pessoal. Os petistas esperavam um STF que viesse com um formalismo que disfarça com rituais e maneirismos a falta de vigor para encarar a vida de forma realística e trazendo o mesmo padrão clássico que nunca toca com vigor verdadeiro nos atos humanos. O PT não estava preparado para uma Corte que neste julgamento do mensalão está mais para um Caravaggio.
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POR José Pires


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Imagem: Na impressionante tela de Caravaggio (pintada em 1600), São Tomé mete o dedo nas chagas de Cristo para crer que ele de fato ressuscitou.


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Mensaleiro pra debaixo do tapete

Depois do julgamento no Supremo Tribunal Federal, o deputado João Paulo Cunha tem que ser mantido escondido. Com a condenação por corrupção e peculato no processo do mensalão, Cunha teve que renunciar à candidatura de prefeito de Osasco e nem pode ser citado na campanha. Para o PT ele não existe mais. Ontem em comício na cidade Lula e altos dirigentes do PT nacional não falaram nem sequer uma vez o nome do companheiro que caiu em desgraça. E isso quando Lula fez o discurso mais longo em comícios até agora. Isso é coisa que se faz com um companheiro como o mensaleiro, que antes era comparado geneticamente até ao Che Guevara?

Isso mesmo: Che Guevara. Uma propaganda no site de campanha para prefeito de Osasco antes de Cunha renunciar afirmava que os dois tinham o mesmo dna político. É claro que já tiraram todo o material, mas como andei acompanhando a campanha em Osasco antes do resultado do julgamento, fiz uma limpa no site e guardei as propagandas. Mostrarei depois o “Che” do PT que agora tem que ficar quietinho no porão.

Tenho também esta propaganda com Lula e Dilma mandando o osasquense votar em João Paulo Cunha, o candidato que ia “fazer mais por você”. Hoje desmoralizado e a um passo do xilindró, o ex-candidato Cunha nem pode ser citado em palanque. Vejam só o que Lula ia fazer por Osasco.
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POR José Pires


A doce recompensa de Reinaldo Azevedo



A vida de quem passa bastante tempo lidando criticamente com as tretas petistas também pode ter seu lado doce. Os belos cupcakes da imagem foram o presente de uma leitora ao jornalista Reinaldo Azevedo, que lançou ontem em São Paulo o livro “O País dos Petralhas II – O inimigo agora é o mesmo”. A notícia é amarga para os petistas, mas o livro está vendendo que nem pão quente. Mais de 500 pessoas passaram pela livraria Cultura, localizada na Avenida Paulista. A fila de leitores buscando um autógrafo era de dar a volta no quarteirão. O livro já está na lista dos mais vendidos de várias publicações.

O sucesso de Reinaldo Azevedo é merecido, sendo fruto de trabalho feito com empenho e inteligência. Pode-se até não gostar de sua opinião, mas é impossível desconsiderar a qualidade do que ele faz. Isso nem os petistas conseguem, mesmo com toda a conhecida má-fé que eles costumam usar no ataque aos adversários. Foram os petistas, por sinal, que deram origem ao neologismo do título do livro, que Reinaldo também usa o tempo todo para se referir a eles. Foi de outra quadrilha de safados, a dos Irmãos Metralhas, de Walt Disney, que o jornalista tirou a palavra “petralha”, que para desespero dos petistas já está incorporada à nossa fala cotidiana.

O delicado agrado da leitora que mandou para a livraria os docinhos feitos à semelhança da capa do livro do Reinaldo é também sintomático do respeito que hoje ele tem junto a um público que é atraído por suas análises inteligentes, feitas num texto muito bem estruturado e que permite uma leitura fluente. Resumindo: o cara escreve bem paca, na linha dos grandes textos do jornalismo brasileiro que comunicam de forma clara, porém sem abdicar da qualidade da análise e do conteúdo.

O jornalista vem fazendo o blog de maior sucesso da internet brasileira, com uma audiência imensa e qualificada. Hoje seu blog, que é publicado no site da revista Veja, tornou-se uma referência no debate sobre uma variedade de assuntos importantes da atualidade. E não é só de petralhas que ele fala. É espantosa sua capacidade de escrever sobre uma porção de assuntos, sempre com inteligência, originalidade e trazendo muita informação.

Sua capacidade de produção é admirável. Ele renova o conteúdo durante todo o dia, depois de oferecer ao leitor um monte de textos na madrugada. Um inimigo poderia dizer até que ele só faz isso, mas de vez em quando aparecem no blog suas 'Reinaldas", para mostrar que Reinaldo também tira um tempo para se dedicar ao mulherio que tem na família. Mesmo que forçado, de vez em quando um intelectual tem que ir à praia.

Reinaldo escreve bastante e faz isso muito bem. Com isso, virou o centro das atenções tanto da oposição ao governo quanto da militância petista, principalmente os que são pagos para falar bem de tudo que o PT faz e atacar todos que buscam exercer um ponto de vista crítico sobre o que acontece no país e no mundo. São os petralhas, que fazem parte desse seu segundo livro com a compilação do melhor que escreveu nos últimos meses. E melhor, no caso do Reinaldo Azevedo, é porque é bom mesmo.
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POR José Pires

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Humor explosivo

A capa do semanário de humor francês Charlie Hebdo que criou preocupação no governo pela possibilidade de represália de grupos fundamentalistas islâmicos. Embaixadas francesas estão sob alerta e algumas delas estão fechadas em países onde é maior o risco de terrrorismo. A edição vem a propósito do escândalo forjado em torno de "A inocência dos muçulmanos", um filme que passaria desapercebido se não tivesse sido usado como pretexto de grupos fundamentalistas islâmicos para fazer terrorismo.

Sobre isso o editor-chefe da publicação, Gérard Biard, deu uma boa definição em entrevista para a imprensa após a polêmica. Ele respondeu a um jornalista que questionou se a publicação do material sobre Maomé era para exercer  a liberdade de expressão ou provocar: “Nos situamos no âmbito do nosso trabalho e da liberdade de expressão. No caso de notícias com um potencial tão conflituoso, a saber, um filme imbecil que gerou tumulto em quase todas as partes do mundo e que resultou em mortos e embaixadas queimadas: se nós, jornalistas, comentaristas da atualidade, não devemos comentar isso, o que então? Eu rejeito o termo "provocação". Não se trata de jeito nenhum de provocação, se trata de fazer nosso trabalho de jornalistas, de comentaristas da atualidade”.

O jornalista trouxe também uma outra questão muito importante em relação ao clima de chantagem que o extremismo islâmico vem criando no mundo: "Se começamos a questionar o direito de caricaturar ou não Maomé, se é perigoso ou não fazê-lo, a questão seguinte será se poderemos representar os muçulmanos no jornal. Depois vamos perguntar se podemos mostrar seres humanos, etc, etc. E no final não mostraremos mais nada. Neste caso, a minoria de extremistas que agitam o mundo e a França terão ganhado".
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POR José Pires

quarta-feira, 19 de setembro de 2012


Refúgio seguro

Começou o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do núcleo político do mensalão. No inquérito do ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza o mensalão é dividido em núcleos, sendo o núcleo político a peça principal do esquema criminoso. Segundo o documento, “o núcleo principal da quadrilha” era composto por José Dirceu, Delúbio Soares, Sílvio Pereira, e José Genoíno, todos dirigentes mais importantes do PT na época. Dirceu é identificado como “chefe da
quadrilha”.

Dirceu diz hoje em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo que não vai fugir do Brasil se for decretada sua prisão. Sua condenação pelo STF parece inevitável, mas ele tem razão de não se preocupar. São mínimas as chances dele ir para a cadeia mesmo que haja a condenação. E alguém vai para a cadeia no Brasil quando seu crime envolve uma cadeia de interesses de setores poderosos da política?

Na verdade o Brasil vive há tempos a situação de refúgio de criminosos ou de pessoas condenadas em outros países. Nisso a nossa fama é internacional. Temos inclusive o caso do terrorista Cesare Battisti, defendido e acolhido aqui por Dirceu, Lula e seus companheiros para não ir para a cadeia na Itália. A fama de terra sem lei até virou chavão de filme americano. Sempre tem um mafioso ou qualquer outro tipo de criminoso em filmes ou séries de TV que planeja sua fuga para a impunidade garantida nessa terra tropical.

A situação é explorada até em histórias em quadrinhos. O desenho da imagem é de uma ótima série de quadrinhos criada pelo desenhista Jordi Bernet e o roteirista Antonio Segura. Os dois são espanhóis. A Espanha tem ainda hoje um bom mercado de história em quadrinhos, com excelentes desenhistas. No país criou-se até esta indispensável parceria entre desenhista e roteirista, sendo Segura um dos mais criativos. Algumas de suas histórias se nivelam por cima com grandes filmes de aventura. Infelizmente, Segura morreu em janeiro deste ano, mas Bernet continua em forma. Tem um desenho simplificado, de alto poder de envolvimento do leitor.

O quadro destacado na imagem é de Kraken, série que se passa nos esgotos de uma grande cidade, onde vive um ser monstruoso que jamais aparece. E nem precisa, como sabe qualquer um que viva numa cidade com seus Krakens. O esgoto é patrulhado por um grupo de militares comandado pelo tenente Dante. Claro que o nome não é por acaso. O criminoso que planeja fugir para o Brasil é um embaixador envolvido com tráfico de drogas que forja o próprio sequestro. No final, o tenente resolve o problema de forma, digamos assim, pragmática. Ele elimina os bandidos todos e sabe que o embaixador pode ficar livre usando seus laços políticos. Então dá um tiro mortal no embaixador, que já começava com ironias. Desse problema pelo menos o tenente Dante livrou o Brasil.
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POR José Pires
 


— Então o Brasil tem que fugir do José Dirceu...

domingo, 16 de setembro de 2012

O banco dos mensaleiros


O mensalão foi muito mais do que um simples suborno de deputados do Congresso Nacional. O esquema articulado no início do primeiro mandato de Lula por altas lideranças do PT foi um crime contra a democracia brasileira. Para mim sempre foi óbvio que Lula, como presidente, tomou conhecimento de tudo. Era o chefe de todos os implicados na sujeira. Só pode tê-los comandado também na articulação da trama.

No inquérito do mensalão, o então procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza é muito claro sobre o que pretendia a cúpula petista, na época composta por José Dirceu, Delúbio Soares, Sílvio Pereira e José Genoíno. A compra do apoio dos deputados para o governo tinha como objetivo a perpetuação do PT no poder.

Os crimes levantados pelo procurador-geral da República já eram de arrepiar os cabelos, mas o espanto vai aumentando cada vez mais com o que vem sendo descoberto depois do início do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal.

Além da matéria que mostra a responsabilidade de Lula no mensalão, a Veja desta semana traz uma entrevista com Lucas da Silva Roque, que foi superintendente do Banco Rural em Brasília. E ali temos uma outra informação chocante sobre a ousadia do bando que pretendia tomar de assalto a República. O ex-superintendete revela que havia um plano do grupo do mensalão de montar um banco popular que juntaria o Rural e o BMG com a CUT, a central sindical petista. O esquema financeiro só não foi adiante porque aconteceu a denúncia do mensalão. Com o escândalo, abortaram o plano.

A CUT participaria direcionando beneficiários do INSS para tomar empréstimos consignados na instituição que seria formada. O projeto teria capital inicial de R$ 1 bilhão. A central sindical governista foi entusiasta da criação dessa modalidade de crédito pelo presidente Lula. O empréstimo realizado por aposentados e pensionistas do INSS é uma minha de ouro da qual participam os sindicatos: no ano passado o volume de crédito foi quase R$ 30 bilhões.

Dá para imaginar o estrago para a nossa democracia se o grupo tivesse concretizado o plano do banco popular. Além do domínio político do Congresso, a canalha contaria com muito dinheiro para o financiamento.de seus planos. Além, é claro, das fortunas que teriam certamente separado para o enriquecimento pessoal de cada um.
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POR José Pires

sexta-feira, 14 de setembro de 2012


segunda-feira, 10 de setembro de 2012


segunda-feira, 3 de setembro de 2012


Ferreira Gullar num lado estranho

Nas primeiras eleições diretas para governador, em 1982, a disputa mais acirrada foi no Rio de Janeiro. Lá aconteceu até uma tentativa de fraude contra Leonel Brizola, que foi valente na denúncia e reação ao golpe, afinal elegendo-se governador pelo PDT, que ele acabara de fundar. Naquele época ainda havia política vibrante no Rio, ao contrário de hoje em dia, quando o quadro eleitoral é de uma artificialidade que chega a ser cômica.

Naquela eleição o candidato favorito era Miro Teixeira, pelo PMDB, que era o herdeiro do chaguismo, estrutura corrupta comandada pelo governador indireto Chagas Freitas, que mandava no estado desde o golpe militar de 1964. A disputa dividiu os artistas, a intelectualidade e os jornalistas. O destino do semanário "O Pasquim" foi decidido ali pelo Ziraldo e o Jaguar. O primeiro estava com Miro Teixeira e o segundo apoiava Brizola. O dois decidiram que o jornal de humor ficaria com aquele que estivesse com o candidato ganhador. Parece piada, mas foi realmente isso que eles fizeram.

Outra personalidade muito importante que também apoiava publicamente Miro Teixeira para governador era o poeta Ferreira Gullar. Como contribuição para a campanha de seu candidato, Gullar resolveu fazer um poema. Isso mesmo, ele fez um poema para o Miro Teixeira. Mas com apenas uma observação Jaguar matou o poema de propaganda. Ele escreveu em "O Pasquim" que o poema de Ferreira Gullar para Miro Teixeira era o Poema Sujo Nº 2.

Me lembrei disso hoje sapeando no site do candidato à reeleição para prefeito do Rio, Eduardo Paes. Surpreendentemente para mim, Gullar está apoiando Paes e até gravou um vídeo que deve estar passando na televisão. Meu estranhamento é que o prefeito do Rio faz parte de um esquema político nacional sobre o qual Gullar tem escrito artigos bastante críticos.

O vídeo de Gullar está ao lado do vídeo do Lula falando muito bem de Paes. Ao menos nisso os dois concordam, mas da parte do poeta não vejo coerência no apoio . Ele não chegou a fazer um poema para o candidato (aí seria o Poema Sujo Nº 3), mas diz que o prefeito é um político ético. É muito discutível uma afirmação dessas sobre alguém que como deputado federal do PSDB fazia oposição ferrenha a Lula e depois mudou de lado da forma que ele mudou.

Não sei a razão para Ferreira Gullar nesta altura da vida se meter numa eleição como esta e ainda mais do lado de um prefeito que faz parte do grupo do governador Sérgio Cabral e seus secretários cabeça de guardanapo com suas festas com empreiteiros em Paris. É um esquema em que está até o Lula, sempre tão criticado pelo poeta.

Mas independente do apoio errado, eu penso que alguém na posição de Gullar na cultura brasileira deveria evitar a atividade política direta, atuando do modo que ele vem fazendo muito bem em seus artigos e entrevistas na imprensa. O país precisa muito de artistas e intelectuais que tenham compromisso com a discussão crítica e criativa da realidade brasileira, sem o envolvimento com correntes políticas e muito menos com qualquer candidato.
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POR José Pires
 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


Roda Viva tira pouco de Diogo Mainardi

Afinal vi a entrevista de Diogo Mainardi no programa Roda Viva, da TV Cultura. Prefiro assistir assim, no site da emissora, onde o ritmo fica sob minha direção, inclusive com a possibilidade de rever de imediato o que mais gostei ou não compreendi direito.

Andei acompanhando antes a militância petista praticando seu esporte preferido, que é odiar Diogo Mainardi (me parece que o jornalista Reinaldo Azevedo vem em segundo nesta estranha relação). Esses petistas não entendem nem de seus inimigos. A militância mira em um Diogo Mainardi que não existe mais. O ex-colunista da Veja está em transformação. Vai ficando no passado aquela fera que fazia mal ao governo Lula toda semana com sua coluna na revista Veja.

Há dois anos Mainardi mudou-se para Veneza com a família. Passou por aqui apenas para caitituar o livro “A queda”, escrito sobre seu filho de dez anos. O menino nasceu com paralisia cerebral, causada por um erro grosseiro no parto em um hospital veneziano.

A mudança de Mainardi para Veneza teve a ver com também com isso. Passados oito anos, a família ganhou um processo contra o hospital. Como os oito milhões de reais da indenização asseguram o futuro do filho, Mainardi resolveu ficar “sem fazer nada”, como ele diz fazendo graça durante a entrevista.

Sempre é interessante ouvir Diogo Mainardi, mas o programa desperdiçou um bom entrevistado. O que rendeu de melhor foi por conta dele, que em determinados momentos puxava um bom assunto. Mas nem assim os entrevistadores se tocavam do tema que aparecia espontaneamente.

Em razão da sua forma de escrever, enquanto esteve no Brasil Mainardi acabou encarnando um personagem brigador e irônico. Neste novo livro ele se expõe de forma diferente, mais humano, ocupado em viver profundamente o drama do filho. Havia uma chance do Roda Viva ter mais a ver com isso, trazendo para nós o ser humano que nunca apareceu na coluna da Veja. Mas não apareceram perguntas para desentocar este novo Mainardi. Teve apenas uma ou outra rápida excessão, como no momento da lembrança do amigo Ivan Lessa, que ele classifica como a pessoa mais importante na sua formação intelectual.

Outra coisa que me chamou a atenção no programa e que também não despertou interesse algum nos entrevistadores foi a menção de Mainardi ao altíssimo custo de vida em São Paulo. Foi no primeiro bloco do programa, mas nenhum dos presentes parece ter percebido. Ele disse que estava “escandalizado” com os preços e que hoje não conseguiria viver “nem 12 dias” com o que ganhava há dois anos atrás.

Não é diferente do que acontece em outras cidades brasileiras, cada qual evidentemente em seu padrão econômico. O amalucado Brasil é um país onde também os preços enlouqueceram. Mas parece que o brasileiro gosta. Dilma está aí com alta popularidade e o Lula, que Diogo Mainardi até achava que iria cair, também continua a falar suas baboseiras com o mesmo ar de mestre de antes.
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POR José Pires

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Parceiros de criação

Na década de 80 havia em Curitiba uma ebulição criativa num grupo que reunia uma porção de pessoas entre as quais destaco o Paulo Leminski e o Solda. Eles trabalhavam em publicidade, mas para a nossa sorte viviam com a cabeça em outro lugar. Por isso temos hoje a poesia de Leminski e os desenhos ótimos do Solda, além de seus textos de humor de alta qualidade e também sua poesia feita de habilidosos jogos de palavra, com as quais ele provoca melancolia e risadas, às vezes ao mesmo tempo.

Conheci mais o Solda, não tanto quanto eu gostaria, mas o suficiente para perceber como é verdadeira aquela definição de quem tem gente que é genial no que faz, mas é muito mais ainda na conversação. Já disse que o Solda é bamba em variadas artes, mas conversando é um espetáculo. O Leminski, com quem tive pouco contato, também tem fama de ter sido um ótimo papo. Imagino como foi bom os dois fazendo dupla de criação numa agência, passando o dia e muitas vezes também parte da noite trocando idéias e provocações.

É claro que a relação intensa entre eles teria de criar influências mútuas e até resultar em alguma confusão de autoria. Essa imagem que publico, por exemplo, eu sempre julguei que fosse uma criação do Leminski. Faz tempo que acho a sacada muito boa, mas pensei que fosse um auto-retrato. Achava que o Leminski tivesse apenas pedido pro pro Solda fazer com sua letra ótima de cartunista a legenda bem sacada embaixo da montagem fotográfica também muito boa.

Mas a história não foi assim. A criação é do Solda. Mas deixa ele contar como foi a coisa. Leiam este texto que tirei agora há pouco do blog dele:

"Trabalhávamos na Múltipla Propaganda, anos 80. Leminski falava o tempo todo que estava aprendendo japonês, para melhor entender a poesia japonesa. Sem nada para fazer, xeroquei a cara do Polaco e coloquei sobre uma gueixa. Tirei uma quantidade enorme de xerox e espalhei pela agência. E a minha brincadeira 'kami quase' saiu no primeiro livro de Leminski, virou nome de site e, tempos depois, ele, o Bandido que Sabia Latim, contou-me que Haroldo de Campos havia considerado a montagem 'uma descoberta genial'. Solda"
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POR José Pires

quinta-feira, 23 de agosto de 2012


Gilberto Gil acorda para a ameaça ao Xingu

Vá entender um sujeito como o Gilberto Gil. O músico cedeu sua música “Um sonho” para a campanha Xingu +23. Como dá para ver pelo nome, é um movimento em defesa da preservação do Rio Xingu, tendo como centro a oposição à construção da Usina de Belo Monte. A música, que é de 1992, foi uma escolha perfeita e deu um ótimo vídeo. Abaixo passo o link.

Gil conseguiu dar forma poética à discussão sobre a necessidade da sintonia entre desenvolvimento e respeito ao meio ambiente. O tema é cabuloso e poderia resultar num panfleto musical, mas ele fez uma das mais belas canções brasileiras.

Porém, toda a destruição que ocorre hoje em torno do Rio Xingu foi em grande parte tramada e levada à frente pelo governo Lula. A própria construção de Belo Monte é uma de suas idéias fixas. O projeto foi peça de propaganda importante na eleição de Dilma Rousseff. No meio ambiente Lula deixa um legado catastrófico, até com o reforço de um discurso político de desprezo pela ecologia. O ex-presidente petista foi ativo no desmonte das leis ambientais, desmerecendo de forma jocosa a fiscalização e a aplicação das regras legais de defesa ecológica.

E enquanto Lula fazia isso, Gilberto Gil participava de seu governo como ministro da Cultura, com o papel óbvio de contribuir para agregar ao mito do petista a imagem de político aberto e avançado. Exaltava Lula enquanto o então presidente soltava seus papos de que entre uma lavoura de soja e uma perereca ficava com a soja.

E agora Gil põe sua música “Um sonho” numa campanha ecológica. E a coisa acabou ficando boa. Gil é um dos artistas brasilleiros mais antenados. É difícil achar alguém com sua sensibilidade para perceber transformações sociais com antecipação. “Um sonho” é do álbum “Parabolicamará”, de 1992, ainda em vinil. É uma surpreendente antevisão desse mundo que estamos vivendo agora. E ele já vinha falando de várias transformações anos antes, como fez em "Dia Dorim Noite Neon", que é de 1985. A internet começou no Brasil em 1988 e é claro que no período em que o músico acionava sua parabolicamará poucos podiam prever o que viria.

Em 1997 no álbum “Quanta” ele lançou a música “Pela internet” onde falava em "gigabytes" e em “Criar meu web site, fazer minha home-page”. Falava também de "hacker", "promover debate via internet" e em "hot-link". Para dar uma referência de sua antena aguçada, o primeiro provedor brasileiro, que é o UOL, foi colocado no ar em abril de 1996.

Agora ele se junta à luta pelo Rio Xingu. Está com a antena fraca. A preocupação vem com atraso. Pode ser até que não dê mais tempo para salvar integralmente o rio e a vida em volta dele. As plantações de soja de que Lula tanto gosta já avançam sobre o Parque do Xingu. Mas, de qualquer forma, este é o tipo de luta mais importante hoje em dia. Se um rio como o Xingu acabar degradado será um sinal de que terá sobrado pouca coisa para se lutar neste país.
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POR José Pires

quarta-feira, 22 de agosto de 2012


Mortos sem justiça

Um dos assassinos da freira Dorothy Mae Stang recebeu habeas corpus ontem do Supremo Tribunal Federal (STF). A liberdade do criminoso saiu das mãos do ministro Marco Aurélio Mello e colocou nas ruas o fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, condenado a 30 anos por mandar matar Dorothy, no Pará.

Esse tipo de notícia tem a saudável utilidade de lembrar ao brasileiro como anda a justiça em sua terra. Mostra que passados sete anos um crime bárbaro ainda não teve conclusão jurídica. O fazendeiro ainda estava em prisão preventiva, com seus advogados fazendo aquele jogo que todo mundo conhece. E mesmo para nós que vivemos longe da região onde se deu o crime não é difícil de compreender as razões do juiz que mandou trancafiar o mandante agora solto pelo STF.

Quando não existe punição a um mandante é evidente que não se rompe a cadeia de crimes. E isso é o que permite aos violentos e poderosos instituirem leis próprias sobre os cidadãos de regiões rurais do país e até nas grandes cidades, onde os métodos da pistolagem se impõem por meio de milícias paramilitares.

O assassinato da missionária teve repercussão mundial, além de ter sido um crime extremamente cruel e com o objetivo claro de eliminar uma pessoa que era um empecilho ao roubo de terras do Estado. É bom lembrar aqui algo que poucos destacam quando falam desse crime. Dorothy defendia trabalhadores rurais daquela região em conflitos de terra, mas este assunto não tinha nada a ver com a ocupação de propriedades privadas. O que estava em disputa eram terras públicas tomadas por fazendeiros.

Voltemos ao crime. Os bandidos mataram uma senhora miúda que estava sozinha e era tão pacífica quanto impedida fisicamente de qualquer reação. Não tentou nem gritar por socorro. Contam que procurou convencer seus assassinos e teria até rezado no momento dos tiros. Dizem ainda que estava com uma Bíblia, que mostrou quando perguntaram se estava armada. “Esta é a minha arma”, teria falado aos criminosos.

O assassinato foi classificado como “crime hediondo”, mais esta nossa jabuticaba. E digo jabuticaba pois temos mais um produto extraordinário, típico da incapacidade do Estado brasileiro em resolver problemas pela via normal.

Para mim, se não for em legítima defesa qualquer assassinato tem que ter tratamento rigoroso. Em caso de condenação, jogue-se fora a chave da cela até o cumprimento total da pena. Mas isso é uma opinião pessoal, é claro. E em pleno desacordo com o que temos no país.

E eu estou longe de terras dominadas por pistoleiros. Mas dá para compreender como andam as coisas no Pará e em outros estados da região com extensas áreas em processo de colonização. Mesmo com a ampla divulgação da morte da freira a ação da justiça ainda está neste andamento. Ora, isso facilita aos poderosos a pressão cotidiana sobre a vida das pessoas, com os espancamentos, torturas e assassinatos.

Trabalhadores rurais e índios sofrem nas mãos dessa canalha. No ano em que a freira Dorothy foi morta foram assassinados no campo outros 37 trabalhadores. Os dados são da Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão ligado à Igreja Católica. Nunca soubemos os nomes desses mortos. E nem dos que os mandaram matar.
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POR José Pires


Vida nas cidades

O que você acha da sua cidade para viver? A revista britânica The Economist fez um estudo sobre 140 cidades no mundo e elegeu as 10 melhores a partir de conceitos como saúde, violência, educação, infraestrutura e, por fim, meio ambiente e lazer. São do Canadá e da Austrália a maioria das dez melhores.

Nenhuma grande cidade das mais conhecidas do mundo entrou no ranking. Paris (16), Tóquio (18), Berlim (21) e Roma (49) ainda ficaram entres as 50 melhores, mas Nova York e Londres nem isso. Entre as 50 melhores também não há nenhuma cidade da América Latina. O Rio de Janeiro ficou junto com São Paulo no 92ª lugar.

Hoje em dia existe uma proliferação de listas na internet. Tem ranking pra tudo, o que acaba desacreditando este tipo de avaliação. Mas o estudo da The Economist é respeitado e vem sendo feito todos os anos. E também não é preciso lista alguma para sabermos como está difícil viver nas cidades brasileiras.

É muita a especulação imobiliária, violência, carência de transporte público, descuido com o meio ambiente e uma tamanha falta de serviços básicos que atinge até a própria mantutenção do que já havia de bom há anos atrás em muitas cidades. O brasileiro não tem sequer calçadas decentes para andar. Até municípios médios já sofrem uma deterioração da qualidade de vida, com problemas como poluição, crescimento desordenado e violência, que antes só existiam nas grandes cidades. O mesmo ocorre em cidades pequenas localizadas em áreas metropolitanas.
Veja ao lado a lista das dez melhores cidades e leia aqui a reportagem da revista britânica. Repare na foto que tirei do site da The Economist (que é de Vancouver, no Canadá) as bicicletas rodando tranquilas. Este é um requisito básico para viver bem que as cidades brasileiras não cuidam.
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POR José Pires

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Nota baixa na economia

O governo do PT acaba de ganhar mais uma nota internacional. É na área da economia. O pais tem levado bomba em tudo quanto é indicador social, mas como o governo vinha bombando artificialmente a economia, pelo menos nesta área eram colhidos elogios. Agora a coisa mudou. O Brasil levou um B do editor para a América Latina do Financial Times, John Paul Rathbone.

"Apenas dois anos atrás, o Brasil tirava nota A, com uma taxa de crescimento de 7,5%”, ele escreveu em seu blog. Fez isso sem destacar que tínhamos então uma eleição que Dilma precisava ganhar a qualquer custo.

O jornalista também coloca em dúvida a eficácia do pacote econômico lançado esta semana. “Quanto do novo pacote será realmente novo?”, ele pergunta, para em seguida lembrar que é preciso reformas mais profundas, como a tributária. Mas aí o Rathbone forçou. Se o governo fizer a reforma tributária de onde vão tirar grana para contentar suas bases políticas?

O pacote de Dilma tem umas privatizações envergonhadas. É o tipo de medida que já vem tarde, mas como acontece sempre com coisas do PT, o governo fica se explicando o tempo todo. Não querem assumir de forma alguma a faceta privatista.

Em economia fala-se bastante em plano B. Pois eles já têm uma nota B. E isso porque o editor do Financial Times ficou só na análise do pacote. Temos ainda outros estorvos sérios numa economia que terá de se esfalfar para alcançar 2% de crescimento. Estão aí a desindustrialização e a falta de mão de obra qualificada em todas as áreas, esta última decorrente da falência da educação em todos níveis. São problemas cujos consertos levam gerações. E é claro que antes é preciso começar
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POR José Pires

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Futuro em risco

Todos os estudos e pesquisas sobre a educação no Brasil deixam muito claro que não é possível ter esperança de curto prazo na construção de uma nação de verdade. Na minha opinião, nem no médio prazo. Recentemente, o Instituto Paulo Monteneg ro e a organização não-governamental Ação Educativa divulgaram uma pesquisa com a conclusão de que apenas 35% das pessoas com ensino médio completo podem ser consideradas plenamente alfabetizadas.

Isso significa que dois terços das pessoas que frequentaram a escola saíram de lá sem aprender nada. Está todo mundo fingindo. Os que ensinam, quem aprende, e, por cima de tudo isso, toda a estrutura de governo em todas as esferas, além das instituições responsáveis por fiscalizar e cobrar que ao menos não se desenvolva a farsa coletiva em que o país se envolveu.

Outro dado terrível da pesquisa é sobre o ensino superior. Nele está o sintoma mais claro de que a situação fugiu do controle: 38% dos estudantes concluem o ensino superior sem serem plenamente alfabetizados. Mais espantoso do que saber que pessoas formadas estão assim é tomar o conhecimento de que elas conseguiram entrar na universidade.
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POR José Pires

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Joe Kubert, o mestre da síntese

Joe Kubert morreu neste domingo nos Estados Unidos, aos 85 anos. Era uma das figuras lendárias dos quadrinhos americanos. Escrevi sobre ele há cerca de três meses. Republico no post abaixo o texto que leva a um link muito legal onde dá para vê-lo desenhado junto com Neal Adams e o grande Moebius.

Kubert nasceu na Polônia e sua família foi para os Estados Unidos quando ele tinha ainda dois meses de idade. É um dos muitos imigrantes que construíram aquela terra. Sempre foi um dos desenhistas de que mais gostei. Tem o traço sintético, com uma liberdade de mão que até foge dos padrões dos quadrinhos americanos. Seu desenho é mais próximo dos quadrinhos europeus, na linha de artistas como Moebius e Hugo Pratt.

O desenhista começou a carreira no estúdio de Will Eisner, onde foi contratado pelo criador do Spirit para “varrer o chão, apagar os restos de lápis, retocar e limpar trabalhos”, como ele mesmo diz numa ótima conversa entre os dois publicada em um livro de Eisner com a edição de várias entrevistas feitas de forma informal. São ótimas conversas sobre a técnica dos quadrinhos e a vida dos artistas. Neste livro, Eisner conversa com com vários desenhistas de quadrinhos, entre eles Jack Kirby, Neal Adams, Milton Cannif, Jack Davis e Harvey Kurtzman. Descobri na internet uma boa tradução em português da entrevista com Kubert, uma das melhores do livro. Depois publico o link.

Na minha opinião, Kubert fez o melhor Tarzan. E falo isso sobre um personagem que foi desenhado também por Hal Foster e Burne Hogarth. Ele é genial nas sequências de ação, na forma como sintetiza as figuras e as cenas. É por meio de um desenho muito simples, que conduz a história com intensidade. Quem conhece o riscado sabe que esta simplicidade não é fácil de alcançar. Sua capacidade de sugestão me lembra sempre aquela lição técnica do escritor Ernest Hemingway, quando ele ensina a importância de mostrar apenas a ponta do iceberg.

Na conversa publicada no livro de Will Eisner, ele define bem essa liberdade no desenho. Entre os quadrinhistas da sua geração era uma prática ter um esboço preliminar bem definido antes de desenhar a arte final com tinta, usando a pena e o pincel. Mas Kubert já fazia direto a partir de um rápido esquema feito à lápis. Para Eisner, ele explicou que evitava o uso de esboços detalhados porque isso acabava limitando o trabalho, com a “sensação de que tudo se torna rígido”. Nesta conversa entre dois grandes mestres, ele disse: “Toda vez que refaço um desenho, ele se torna menos espontâneo”.

Kubert desenhou vários heróis, inclusive Super-Homem e Batman, mas ficou muito conhecido como o autor do Sargento Rock, histórias de guerra que criou com o roteirista Robert Kanigher. A história se passa na Segunda Guerra Mundial, o que exigia desenhar toda aquela parafernália militar da época. É admirável sua habilidade ao passar ao leitor num traço sintético todo o clima da tensão e risco vivido nas lutas contra os nazistas.

Neal Adams, Moebius e Joe Kubert, ainda bem jovens num encontro que ocorreu em 1972. O desenhista francês Moebius, que morreu em março deste ano aos 74 anos, tinha então 34 anos.

Neal Adams é um dos grande renovadores dos quadrinhos tradicionais da DC Comics, dos Estados Unidos. A partir da década de 70 ele deu uma grande mexida no universo de heróis como Batman e Super-Homem. O Batman feito por ele se tornou mais sombrio e realista. Seu trabalho é mais próximo da linha tradicional dos quadrinhos americanos, mas é muito bom.

Joe Kubert também é americano e sua carreira é igualmente ligada à produção editorial americana. É autor de Sargento Rock, história que se passa na Segunda Guerra Mundial, e também desenhou vários heróis conhecidos, inclusive os já citados Super-Homem e Batman. Ele veio do que há de melhor nos quadrinhos: foi assistente de Will Eisner no começo da profissão. Suas histórias do Tarzan são as melhores do famoso herói das selvas africanas. Tem um desenho sintético, absolutamente limpo e muito livre no traço. Kubert é tão hábil neste ofício que fez ficar bom até o banal herói do faroeste Tex, para o qual desenhou uma longa história.

E Moebius é o fantástico desenhista que primeiro ficou famoso com as histórias do Tenente Blueberry, passadas no velho oeste americano, mas com suas revistas editadas na França. Estas ele assinava como Jean Giraud, ou Gir. Do velho oeste ele saltou para histórias de ficção científica ou situadas em mundos tão estranho que parecem estar mais no círculo de sonhos jamais imaginados. Foi quando virou Moebius e com esta assinatura elevou os quadrinhos a um patamar artístico de grande beleza e criatividade.

A cena mostra os três logo depois de eles terminarem o desenho que está atrás e cuja feitura foi toda filmada. Para ver o vídeo, clique aqui.

(Publicação original no dia 27 de maio de 2012)
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POR José Pires

sábado, 11 de agosto de 2012