quinta-feira, 7 de março de 2013

O dia em que José Dirceu voltou no pinote de Caracas


José Dirceu não vai poder ir ao velório de Hugo Chávez. O presidente do STF, Joaquim Barbosa, recusou a licença que ele pediu ontem para fazer a viagem. O passaporte do ex-ministro de Lula está confiscado em razão da sua condenação à prisão no processo do mensalão.

A decisão de Barbosa não vai permitir que se esclareça uma dúvida que me ocorreu quando soube do pedido feito por Dirceu. Como seria a recepção a ele no velório de Chávez? O relacionamento entre os dois nunca foi próximo, mesmo quando ainda não havia sido revelado seu papel como chefe da quadrilha do mensalão. E Chávez certamente nunca levou à sério políticos de esquerda como Dirceu.

No único contato oficial entre os dois, Dirceu levou um carreirão de Chávez em Caracas e voltou bem rápido para o Brasil. Ninguém se lembrou desse episódio. A coisa não está nem no cocuruto do Google, como já verifiquei. Mas modestamente a nossa memória só perde pra elefante bom da cuca.

Foi uma viagem ligeira do José Dirceu para Caracas em 2005, quando o clima estava fervendo nas relações entre a Venezuela e os Estados Unidos. De um lado Chávez, que governava desde 1999, e do outro George W. Bush, que não precisa ser apresentado. Eram dois coisas ruins. E é preciso lembrar também que em abril de 2002 o presidente venezuelano quase foi tirado do poder por um golpe, que ele sempre atribuiu ao governo americano.

Chávez estava à toda na Venezuela. E por aqui, no Brasil, Lula e seu grupo governavam embaladíssimos no projeto de poder perpétuo para o PT. A denúncia do mensalão só viria três meses depois na famosa entrevista do então deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, ao jornal Folha de S. Paulo.

É claro que Lula e Dirceu embalavam também o sonho de ocupar a liderança da esquerda latino-americana. No plano local o domínio do Congresso Nacional já estava encaminhado por meio dos subornos do mensalão. Faltava só abarcar o continente no projeto partidário que, para os dois, era para muitas décadas de poder.

Mas nisso Chávez era uma barreira, pois além do peso da sua personalidade ele tinha também divergências com a visão ideológica dos líderes brasileiros, colocando isso em prática no governo da Venezuela. Seu projeto sempre foi pelo confronto direto com os Estados Unidos, bem diferente do que pensavam Lula e Dirceu, partidários de uma conciliação parecida com a que faziam no plano local e que até então estava dando certo.

Naquele mês de abril de 2005 a então secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, fez uma visita oficial importante ao Brasil. É possível até que fosse um dos lances de algum arranjo entre Lula e Bush, que já havia sido acertado nos bastidores. Porém, Chávez estava numa briga feia com os ianques. Foi aí que José Dirceu, que ocupava a chefia da Casa Civil, fez as malas e foi para a Venezuela conversar com o presidente venezuelano. A idéia era propor uma amenizada nas ações e discursos de Chávez.

Até hoje não se sabe como foi a conversa e seria muito interessante para a história política de Nuestra América que este colóquio entre os dois tenha tido alguma testemunha ou que esteja documentado. Seria bom demais saber o que é que Dirceu ouviu naquele dia, pois ficou muito evidente que ele mais ouviu do que falou. O que sabemos até agora da conversa é apenas sua conclusão. Dirceu voltou na mesma hora para o Brasil, bem rápido mesmo, sem falar nada sobre este dia em que ele e o Lula tentaram suavizar o Hugo Chávez.

E o Chávez continuou o mesmo, sempre à toda, até ser parado pelo câncer. Como se sabe, a liderança da esquerda no continente ficou entre seus braços e neste papel ele até influiu para vexames ao governo Lula, como foi o caso da encampação da Petrobrás pelo governo de seu pupilo boliviano, Evo Morales.
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POR José Pires

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A esquerda do cala-boca

Um ornitorrinco não é um pato só porque tem um bico. Mas quando um animal tem orelha de porco, focinho de porco, olhos de porco, pés de porco e até o rabinho retorcido de um porco, com certeza certeza o bicho é um porco. Sem a intenção de nenhum desmerecimento aos porcos, não há como se enganar sobre o conceito que está expresso nas ofensas que grupos de esquerda fizeram à blogueira cubana Yoani Sanchéz.

Já escrevi aqui sobre a nauseante nostalgia dos piquetes da esquerda contra a liberdade de expressão da jornalista cubana em visita ao Brasil e falei da sensação ruim que causa essa posição totalmente fora do tempo dessa militância azucrinadora que busca requentar a Guerra Fria tentando colocar nosso país numa dimensão de tempo desconectada com o que nós todos — de esquerda, direita, centro ou seja lá o que for — tivemos a oportunidade de aprender no desenvolvimento da nossa própria história, inclusive com lágrimas que mancham até hoje a memória brasileira.

O que vimos na Bahia no absurdo desrespeito à liberdade de expressão feito por grupos que conseguiram impedir inclusive a exibição de um documentário dirigido pelo cineasta brasileiro Duda Galvão é algo bastante conhecido de todos nos últimos anos aqui no Brasil. Na imagem, a cubana caminha escoltada pela polícia em proteção contra ataques da esquerda. Esta intimidação da crítica e do livre debate vem de longe e bem lá de cima. Qualquer um que busca expor seus pensamentos hoje em dia em nosso país conhece muito bem os métodos dessa esquerda brasileira ainda tão cega pelos erros que não consegue ver nem a possibilidade do uso dos acertos que ficam para trás.

O que aconteceu na Bahia nasceu evidentemente no Palácio do Planalto com a concepção histórica de poder do PT misturada à necessidades ditadas pela propaganda política governamental e o marketing eleitoral progressivo que é mantido até nos assuntos de Estado. É um conceito que tem sua origem neste centro de poder e também das sedes oficiosas dentro do partido, além de escritórios políticos espalhados por todo o país, muitas vezes mantidos com dinheiro público.

Sabe-se que o próprio PT tem uma política de comunicação que abrange até táticas de contra-informação, buscando inclusive profissionalizar com ares de militância os espaços de opinião de leitores nas publicações impressas e na internet. A falta de responsabilidade com o direito alheio pode fazer dirigentes políticos ávidos de poder se despreocuparem com o efeito social de ações desse tipo, mas nós temos que nos ocupar disso antes que a serpente se instale de vez.

Que ninguém se engane. A mão que tentou tapar a boca da blogueira cubana na Bahia precisa ser discutida, atacada e desmoralizada dentro dentro deste trabalho árduo da construção da democracia em nosso país. Se esta mão pesada não for enfraquecida ela pode acabar tapando também as nossas bocas.
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POR José Pires

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ecos de erros antigos

Quando finalmente for dado um fecho na Revolução Cubana e o grupo em volta dos irmãos Castro tiver que se mandar para um outro país o Brasil é um bom lugar. Quando soube das manifestações contra a blogueira cubana Yoani Sanchéz, que está em visita ao Brasil, tive a impressão de que temos aqui os últimos milicianos do regime de Fidel Castro. A selvageria e o despropósito das ações agressivas contra a moça me soou muito parecido com acontecimentos antigos ocorridos em Cuba. Mas isso há muito anos atrás, porque hoje em dia o desgaste que os cubanos sofrem no seu cotidiano não estimula um fanatismo de massa como já existiu antes dos anos oitenta.

Um grupelho bem restrito mesmo foi atazanar a visita de Yoani, conseguindo impedir até a exibição de um documentário sobre a liberdade de expressão feito pelo cineasta brasileiro Dado Galvão. A jornalista cubana é a figura central do filme. Ela ficou conhecida internacionalmente há poucos anos a partir de seu blog, onde trata de assuntos de seus país de forma crítica, na medida do possível em uma ditadura. O blog existe desde abril de 2007.

O bando que se articulou para ofender a blogueira tem por detrás o PCdoB, entre outros partidecos. Este partido foi o que lançou recentemente uma nota ridícula homenageando o falecido ditador da Coréia do Norte que deixou o filho para ocupar seu lugar no comando do país. O PCdoB está também sempre envolvido em escândalos de corrupção, uma rotina que levou até à demissão de um dos ministros da cota do partido no governo do PT.

Mas eu falava da nauseante nostalgia que vi nas manifestações contra a cubana Yoanni, em acontecimentos que lembram o que de pior já aconteceu em Cuba. Pois em um post publicado hoje em seu blog, ela escreve que ouviu durante as manifestações dos extremistas azucrinadores (o adjetivo é meu) lemas que não se escutam mais há anos nem em Cuba.

O texto publicado por ela é, de certo modo, uma resposta ao desrespeito que ela sofreu da parte dessa militância ridícula que tem logicamente mãos muito acima manipulando seus cordéis. Publico abaixo a tradução que fiz do post, pois vejo nele um documento interessante, quase um aviso de que podem estar sendo repetidos por aqui erros que fizeram muito mal ao país de onde a blogueira só conseguiu sair recentemente, pois em Cuba até pra viajar é preciso permissão do governo.

Só mais uma coisa, antes que a militância azucrinadora venha encher os meus piquás: não recebi nenhum tostão da CIA pela tradução.
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POR José Pires

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O TEXTO DE YOANI SANCHÉS:

“Talvez vocês não saibam – porque nem tudo se conta em um blog – mas o primeiro ato de repúdio que vi na minha vida foi quando eu tinha apenas cinco anos. A agitação no prédio chamou a atenção das duas crianças que éramos minha irmã e eu. Nos debruçamos sobre a grade do estreito corredor para olhar o que acontecia no andar de baixo. As pessoas gritavam e levantavam o punho ao redor da porta de uma vizinha. Eu era tão nova que não tinha a menor ideia do que ocorria. E mais, agora quando recordo aquilo tenho apenas uma lembrança do corrimão gelado entre meus dedos e um vislumbre brevíssimo dos que gritavam. Anos depois pude finalmente armar aquele caleidoscópio de recordações infantis e soube que havia sido testemunha da violência contras os cubanos que queriam sair do país pelo porto de Mariel (*).

Pois bem, desde aquele acontecimento vivi vários outros atos de repúdio. Seja como vítima, observadora ou jornalista... nunca – vale esclarecer – como vitimizadora. Recordo um especialmente violento que sofri junto às Damas de Branco [grupo de parentes de prisoneiros políticos de Cuba], quando os bandos da intolerância cuspiram em nós, nos empurraram e até puxaram os nossos cabelos. Mas o que aconteceu ontem à noite [no Brasil] foi inédito para mim. O piquete de extremistas que impediu a projeção do filme de dado Galvão em Feira de Santana [Bahia} era algo mais que uma porção de adeptos incondicionais do governo cubano. Todos tinham, por exemplo, o mesmo documento – impresso em cores – com uma série de mentiras sobre mim, tão maniqueístas como fáceis de rebater numa simples conversação. Repetiam uma cartilha idêntica e grosseira, sem ter a menor intenção de ouvir o que eu tinha para dizer. Gritavam, interrompiam, em um momento foram até violentos e de vez em quando gritavam um coro de lemas como esses que já não se diz nem em Cuba.

Entretanto, com a ajuda do senador Eduardo Suplicy e a calma diante das adversidades que me caracteriza, afinal conseguimos começar a falar. Resumo: só sabiam gritar e repetir as mesmas frases, como autômatos programados. E isso tornou a reunião ainda mais interessante! Eles tinham as veias do pescoço inchadas, eu esboçava um sorriso. Eles faziam ataques pessoais, eu levava a discussão para a situação de Cuba, que sempre será mais importante que esta humilde cidadã. Eles queriam linchar-me, eu conversar. Eles obedeciam à ordens, eu sou uma alma livre. No final da noite eu me sentia como depois de uma batalha contra os demônios do mesmo extremismo que atiçou os atos de repúdio daquele ano de oitenta em Cuba. A diferença é que desta vez eu conhecia o mecanismo que fomenta estas atitudes, eu podia ver o longo braço que os move desde a Praça da Revolução em Havana.”

(*) Aqui ela fala da saída em massa de cubanos do país ocorrida em dezembro de 1980, conhecido como "Fuga de Mariel". Um total de 125 mil pessoas deixou Cuba pelo porto de Mariel, com destino à Flórida.

domingo, 10 de fevereiro de 2013


sábado, 2 de fevereiro de 2013


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Zoeira midiática

A imprensa brasileira deixa os leitores brasileiros zonzos quando acontece algo muito forte como foi o incêndio da boate Kiss em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Alguns jornais sempre usaram este método de dar a notícia apressadamente e ir compondo o fato conforme vão aparecendo novidades. Na época do jornal impresso já não era fácil seguir com equilíbrio os acontecimentos, mas uma questão técnica impedia que a confusão fosse maior: saía apenas uma edição diária.

Hoje em dia, com a internet, a fragmentação que é feita de uma notícia torna difícil para o leitor juntar tudo que sai publicado para saber o que aconteceu de fato. Os jornais e revistas migraram para a internet e pegaram os defeitos da televisão. Parece briga por audiência. Até para quem é do ramo não é fácil seguir o ritmo que é imposto pelos sites e blogs. E para embaralhar ainda mais existem também as opiniões nas áreas de comentários e nas redes sociais.

Quando acontece algo importante no país, no final do dia o leitor tem que ter a habilidade de um editor (que até no jornalismo não é uma capacidade de todo profissional) para juntar tudo o que saiu na internet e ter uma visão do que se passou. E certos fatos importantes para esta conexão até desaparecem, apagados por descobertas sensacionais, alguma acusação nova mesmo que seja infundada ou até uma notícia falsa que demora às vezes para ser desmentida ou até permanece como verídica.

Além da desinformação que ocorre, um assunto difícil como este do incêndio de Santa Maria pode vitimar até pessoas que apesar de terem relação com a tragédia não são criminosas. E nem se tivessem alguma culpa grave seria justo que fossem expostas à raiva pública. Aliás, mesmo para quem tiver a culpa comprovada apenas a Justiça é que pode decidir qual será a pena e ainda assim só depois de um julgamento.

Costumo apontar como um defeito esta correria que foi criada na internet e que é muito forte entre nós, brasileiros. Isso já contaminou parte considerável dos leitores e hoje temos muita gente que não pensa duas vezes antes de acusar e até atacar os outros, na maioria das vezes sem nenhuma base de comprovação para sua opinião.

Essa pressa da imprensa tem afetado a todos. Mesmo autoridades que dominam áreas em que não é possível dar respostas rápidas passaram a agir e responder de forma artifical para atender ao desejo de notícias imediatas. É o que acontece com a polícia, que muitas vezes vaza opiniões antes até do início de qualquer investigação.

A menos que seja por prevenção urgente, como ter de correr de uma inundação ou fogo, ninguém precisa saber de imediato o que acontece. Por isso não é necessário dar a notícia rapidamente. Nem é preciso sair ligeiro opinando. O que as pessoas precisam é do fato bem fundamentado, com bases técnicas sólidas e apuração consistente. Essa falta de foco que resulta da fragmentação da informação acaba é criando uma confusão que no final ameniza culpas e principalmente as responsabilidades gerais sobre o fato. E é claro que a zorra dificulta e muitas vezes até impede irremediavelmente que sejam tomadas medidas para que o desastre não se repita.
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POR José Pires

sábado, 26 de janeiro de 2013

Saudades do Brasil do Tom

Nelson Pereira dos Santos e Tom Jobim juntos é um prazer estético e um encontro humano que toca meu coração. O cineasta é um dos meus preferidos. E o Tom Jobim para mim é a completude do artista, porque não é fácil juntar o erudito com o popular, como ele fez com aquela tremenda habilidade musical que torna tudo muito límpido, com fluidez de água e brilho de sol.

Existe um documentário feito pelo Nelson Pereira sobre o Tom que é muito bom, especialmente porque traz para o primeiro plano sua irmã, Helena Jobim, que foi uma pessoa muito importante na sua vida e por quem ele tinha muito carinho. O filme é “A música segundo Tom Jobim”. Helena escreveu um ótimo livro sobre o irmão. Ela escreve sobre suas lembranças com uma rara combinação entre a intimidade do amor fraterno e a necessária ligação com a trajetória artística desse grande, imenso compositor brasileiro.

O Tom é uma das figuras mais importantes na minha vida. Logo cedo, ali pelos 17 anos, me encantei com sua obra que falava de mato, passarinho, lama de beira de estrada. Todas essas coisas tratadas com uma alta qualidade artística deram respaldo à minha ligação com a natureza, que foi a base da minha infância. É claro que essa relação artística com minhas recordações de menino fortaleceu o entendimento em mim de como aprender e trabalhar com isso. Muitas pessoas que nem chegamos a conhecer pessoalmente nos dão tanta saudade como se fossem gente da família. E caso não tivessem aparecido em nossa vida é provável até que fossemos hoje muito diferente. O Tom é uma dessas figuras para mim. Vi o compositor só uma vez só no Rio, ele bebendo algo no antigo restaurante Plataforma e eu em outra mesa. Mas só o observei ligeiramente de longe. Eu não precisava conversar com ele porque já havia entendido tudo ouvindo suas músicas.

O livro de Helena Jobim eu comprei logo que saiu. Perdi um, que deve estar em boas mãos, mas logo comprei outro que é de releitura constante, tendo o cuidado de pular certas partes quando leio em viagem no ônibus, como é meu costume, senão os outros passageiros podem pensar que sou um doido derramando lágrimas em público. A longa descrição da sua doença e da morte repentina é muito triste. Morreu desesperado em 1994, com 67 anos, porque ainda não queria ir. E podia mesmo ter ficado mais um pouco, o que faria um bem danado para todos nós. Seu aniversário seria ontem, quando estaria com 85 anos.

Costuma sempre me vir à cabeça como seria bom saber do lançamento de um novo álbum seu ou ler uma entrevista nova, ele que era um ótimo conversador, de pensamento original e muito bem humorado, com suas divagações sobre urubu, planta, passarinho e tantas outras coisas boas de ouvir.

Ele e Nelson Pereira dos Santos, que ainda está aí com apenas um ano a menos do que o Tom teria hoje, são dois artistas essenciais para nós, brasileiros. Podíamos ter aproveitado muito mais do que eles fizeram, é claro, mas o que soubemos usar bem tem nos dado muita força.

Numa das cenas do documentário de que falei, sua irmã Helena lembra dele, tendo como cenário a Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Nelson Pereira explicou que seria impossível encontrar hoje no Rio de Janeiro um cenário de praia que lembrasse os tempos de sua juventude. Isso acaba reforçando o sentimento de que precisamos ter mais forte em nós o legado artístico e humano do Tom, até para talvez recuperarmos um dia aquele Brasil de suas canções.
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POR José Pires

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Barriga histórica

"Barriga" é um termo jornalístico brasileiro que significa dar uma notícia falsa. Não sei como é que se diz isso em espanhol, mas ontem o jornal El País cometeu uma barriga enorme e que deve marcar negativamente a história do jornal. Eles publicaram uma foto de um homem em uma cama de hospital como se fosse a imagem de Hugo Chávez hospitalizado em Cuba (veja na imagem).

A história desta tola publicação está toda mal contada, inclusive na nota publicada no site do jornal que a direção se apressou em postar logo que perceberam a besteira feita. O texto afirma que a imagem ficou apenas cerca de uma hora na internet e não foi para as ruas na edição impressa. Isso mesmo: chegaram a imprimir a foto com a notícia falsa, mas paralisaram logo a distribuição para substituir a edição.

A nota diz ainda que o diário “abriu uma investigação” para determinar como foi que isso aconteceu e os erros na identificação da fotografia. É nessa hora que a gente dizia nas antigas redações que ia sobrar para o office-boy. E também é aí que a história fica ainda mais estranha e nada exquisita (que é uma coisa “bonita”, em espanhol). A desculpa é feia. Quem conhece bem como funciona uma redação sabe que uma notícia dessas não vai para um site e muito menos para uma edição impressa sem o conhecimento dos que têm alto mando e responsabilidade sobre a publicação. É caso até para acordar o dono do jornal de madrugada. Além disso, o jornal informa que a foto veio da Gtres Online, uma agência desconhecida que tem um site na internet repleto de fofocas sobre celebridades.

É provável que a publicação da foto falsa seja resultado da pressa em dar primeiro uma notícia supostamente espetacular. Esta é uma atitude antiga da imprensa e que se agravou bastante com a invenção da internet. E digo “agravou” porque esta tola presunção de que é preciso saber rápido das coisas acaba dando ao leitor um monte de notícias fragmentadas, num conteúdo difícil de juntar para uma análise séria sobre o que acontece. Isso quando não resulta numa besteira como a publicação desta foto.

E o pior é que este fato mancha a história de um bom jornal, que faz uma ótima cobertura sobre a América Latina e tem noticiado de forma correta os acontecimentos na Venezuela desde antes da doença de Chávez. A notícia falsa deu também uma chance para os partidários do presidente venezuelano se vitimizarem, eles que comandam hoje um regime autoritário tão bem articulado que permite até que haja eleição para manter no poder sempre o mesmo ditador.
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POR José Pires

Prêmio merecido

Lula pode não ser candidato de novo à presidente em 2014, mas este ano ele já ganhou a primeira eleição importante: é o primeiro entre as personalidades mais corruptas de 2012. Ele ganhou de lavada o Troféu Algemas de Ouro. Lula ganhou com 65,69% dos 14.547 votos válidos. Em segundo lugar ficou o ex-senador Demóstenes Torres, seguido pelo governador Sérgio Cabral (PMDB).

A eleição de Lula se completou simbolicamente com uma tentativa de fraude detectada pelos organizadores da premiação. E os petistas nem vão poder dizer que foi coisa do PIG, da oposição, conspiração da imprensa, essas lorotas deles que surgem sempre que seus líderes são flagrados metidos em encrenca. Os organizadores detectaram a utilização de um programa de votação automática com perfis falsos do Facebook. A fraude direcionava votos para candidatos ligados so PSDB e ao DEM, o que faz a suspeita da maracutaia eleitoral recair novamente sobre vocês sabem quem.

A tentativa de fraude no Troféu Algemas de Ouro foi pesada. Os perfis falsos criados perfaziam 38% do total de votos (23.557), o que tiraria da parada de forma injusta o Lula. Sua eleição é praticamente uma homenagem merecida ao que ele vem fazendo há muito tempo, especialmente desde que pegou o governo federal pela primeira vez.

Portanto, algemas de ouro no companheiro, numa eleição do maior corrupto de 2012 que ficou perfeita com a tentativa de fraude feita evidentemente por eleitores que queriam tirar do chefão petista este justo reconhecimento político.
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POR José Pires

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Precisa-se de gerente

De alto a baixo o Brasil é um país travado na questão administrativa. O impávido colosso se imobiliza e não é só por falta de dinheiro. Os números do final da metade deste terceiro mandato do PT mostram essa dificuldade danada na realização do básico. E isso quando temos na presidência da República alguém que entrou lá no embalo de uma propaganda política que a vendeu ao eleitor como pessoa de alta capacidade gerencial.

São vários os exemplos desta incapacidade administrativa. Estão na segurança, na habitação, na saúde, enfim em tudo quando é necessidade direta da população. Mas fiquemos em apenas um, aquele que foi também uma forte peça de propaganda eleitoral repetida muito antes até da campanha eleitoral começar: a transposição do Rio São Francisco. Números do próprio governo mostram que até final do mês passado só haviam conseguido gastar apenas 18% do orçamento de 2012 à disposição para aquelas obras no Nordeste. E a única coisa que fizeram foi pagar restos dos anos anteriores.

A questão não é apenas a disponibilidade de caixa. Nossos dirigentes públicos não têm capacidade para transformar o orçamento em bens e serviços. Este problema é generalizado e não atinge apenas o governo federal. Municípios e estados sofrem desse mesmo mal. E claro que parte essencial desse drama é também de responsabilidade da iniciativa privada, que no geral atua mal e porcamente na área pública. E a dificuldade também não é restrita à incompetência administrativa do PT, que nisso já vem fazendo história não é de hoje.

Em São Paulo, o Museu de Arte Contemporânea da USP era pra ser instalado no prédio do antigo Detran, que fica ao lado do Parque do Ibirapuera. A notícia é da Folha de S. Paulo de hoje. A inauguração até já foi feita há um ano, mas até agora só o térreo está aberto ao público, com a exposição de umas poucas esculturas.

O museu tem uma coleção que chega perto de 10 mil obras, mas nada pode ser exposto porque o prédio não tem sistema de segurança e vigilância interna. Tudo está parado em razão das licitações nesta área não darem certo. Já foram feitas quatro tentativas, a última delas está sendo questionada na Justiça. O governo estadual não consegue resolver este problema, mas a USP também tem feito pouca coisa para facilitar o andamento administrativo para ocupar o prédio. A universidade nem começou as licitações que são de sua responsabilidade, como é o caso do restaurante e do café que devem ser instalados no museu..

Ora, os tucanos já estão no poder em São Paulo há pelo menos vinte anos e a USP logo mais irá fazer 80 anos. Mas os dois mastodontes empacam porque estão metidos no atoleiro que no final é de todos nós: a ineficiência na administração do bem comum. Como eu disse no início, isso acontece de alto a baixo em todo o Brasil. Se podemos falar hoje em dia de uma unidade brasileira, infelizmente vamos encontrá-la nesta incompetência que junta todos os partidos e instituições nacionais. E todo mundo faz de conta que não é bem assim. Mas este é o grande nó que trava o Brasil. Enquanto esta deficiência não for encarada de frente nem adianta ter orçamento bom. Mesmo tendo dinheiro, um país só pode ir pra frente se tiver também uma classe dirigente capaz de gastá-lo com eficiência.
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POR José Pires

sábado, 19 de janeiro de 2013

Amigo é pra essas coisas

Os petistas entraram numa onda de fazer jantar para arrecadar dinheiro para ajudar a cúpula do PT na devolução exigida pela Justiça com a condenação de uns tantos deles no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal. Além de ir pra cadeia, tem liderança petista que terá de devolver dinheiro. E não está fácil juntar gente de bom coração em torno dos quadrilheiros. O jantar promovido pela Juventude do PT em Brasília teve vendidos apenas 150 convites e mesmo assim só compareceram 70 convivas. Os outros 80 que amoitaram os convites comprados devem ser amigos secretos. Faz muito sentido.

Mas já que os petistas estão nesta onda de solidariedade com macaco velho que foi pego com a mão na cumbuca creio que é justo que comecem a passar o chapéu também para ajudar outro companheiro da base governista, o deputado Paulo Maluf (PP). Penso até que Maluf merece promoções especiais de apoio, já que é de tal importância para os petistas que até o ex-presidente Lula correu para beijar-lhe a mão em sua mansão em São Paulo.

Acabou de sair a conta final da grana que o deputado aliado terá de devolver aos cofres públicos. Sentença divulgada nesta sexta-feira da Corte de Jersey definiu o total que Maluf terá de devolver à Prefeitura de São Paulo por desvios praticados por ele entre 1997 e 1998, quando foi prefeito da cidade. O montante é de US$ 28.344.453,84, que equivale a R$ 57.822.685,83 na atual cotação do dólar comercial. Ele terá de pagar ainda US$ 4,5 milhões em custos de advogados.

Haja jantares para arrecadar tamanho numerário surrupiado. Mas para esta benemerência entre companheiros o PT já tem um bom lugar: pode ser na própria mansão do deputado condenado, onde petistas e malufistas se juntaram naquele reunião histórica do ano passado.
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POR José Pires

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Ética é coisa do passado

O ex-governador Olívio Dutra disse anteontem em entrevista à Rádio Guaíba que o mensaleiro José Genoíno não devia ter assumido o mandato de deputado e não demorou para vir um ataque pesado de dentro do próprio PT. Quem deu a bronca foi o deputado André Vargas, secretário de Comunicação do partido. O ataque foi feio e com certeza é coisa combinada com os de cima. A bordoada forte é para evitar que haja ecos internos no partido das críticas feitas por Dutra, que disse inclusive que sua saída do Ministério das Cidades ainda no primeiro mandato de Lula foi para o governo oferecer cargos em troca de apoio .

O deputado lembrou que Olívio Dutra recebeu o apoio dos companheiros de partido quando teve seu indiciamento pedido pelo Ministério Público, em 2002. Ele era então governador do Rio Grande do Sul e foi acusado de conivência com o jogo do bicho. O assunto foi tema de CPI na Assembléia estadual. E para deixar o recado ainda mais claro, Vargas ironizou a demissão dele do cargo de ministro. “Ele não superou a saída do Ministério das Cidades”, ele disse.

A fala do deputado André Vargas: “Quando ele passou pelos problemas da CPI do Jogo do Bicho, teve a compreensão de todo mundo. Para quem teve a compreensão do conjunto do partido em um momento difícil, ele está sendo pouco compreensivo. Ele já passou por muitos problemas, né?”

Olívio Dutra é figura histórica da maior importância no PT. Surgiu no sindicalismo gaúcho e foi o primeiro prefeito petista de Porto Alegre. É um dos primeiros fundadores do PT. Está nas fotos do dia da criação do partido, no Colégio Sion, em São Paulo. Aparece ao lado de Lula e do historiador Sérgio Buarque de Holanda. Em 1986 foi eleito deputado federal e dividiu apartamento em Brasília com o então colega constituinte Luiz Inácio Lula da Silva.

Estou situando o alvo do ataque do deputado petista para mostrar como estão as coisas no PT. Hoje é um outro tempo. Um partido que vive uma situação em que pode mover sua bancada de deputados para defender uma Rosemary Noronha (Rose, na intimidade) e chamar para isso até o ministro da Justiça não vai admitir de forma alguma que uma voz importante traga divergência ética e ainda mais pública sobre uma questão que parece até programática: a defesa incondicional da cúpula do partido condenada à prisão pelo Supremo Tribunal Federal.

Vargas pegou pesado com o companheiro Olívio Dutra, o que é bem seu estilo. Ele é homem de José Dirceu no partido. O deputado já andou fazendo ataques grosseiros à oposição e à imprensa e também aos ministros do Supremo. Atua firme na defesa da trinca de quadrilheiros condenada à prisão pelo STF: José Dirceu, Genoíno e Delúbio Soares.

Jamais tive simpatia política por Olívio Dutra. Porém, numa comparação de valor histórico e capacidade política o deputado que o atacou perde longe, bem longe. Se ele não tivesse a guarida política de camaradas graúdos como Dirceu nem estaríamos falando hoje em dia de alguém como André Vargas. Mesmo se fosse eleito deputado, seria um dos mais obscuros do time do baixo clero, aqueles que saem no noticiário nacional apenas quando estão envolvidos com ladroagem.

Mas é um fato que na atualidade o deputado é uma das figuras mais importantes do PT e isso diz muito sobre os caminhos tortos do partido onde Olívio Dutra brilhou e hoje é uma figura menor. Daquela memorável noite no Colégio Sion para cá o PT amassou muita lama e a origem ética é só um rastro quase apagado lá atrás. Se a cerimônia fosse hoje, com certeza o companheiro Lula preferiria ter ao seu lado não o bigodudo sindicalista gaúcho. Talvez até pedisse pro Olívio dar seu lugar para a Rose.
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POR José Pires
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Imagem - Hoje a história é diferente: "Ô Olívio, sai daí para dar lugar para a companheira Rose..."

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


Bala perdida e sistema de saúde idem

No início deste mês escrevi sobre a descambada que a política tem dado no Brasil em direção ao clientelismo eleitoral, de tal forma que certas ações políticas que antes causariam escândalo hoje em dia são feitas inclusive com propaganda. Falei então sobre a anúncio de que no Rio de Janeiro os imóveis do "Minha Casa, Minha Vida" serão entregues mobiliados e com eletrodomésticos da linha branca. Como todo mundo sabe, o estado é governado por Sérgio Cabral (PMDB) e a cidade tem como prefeito Eduardo Paes (PMDB), ambos aliados do governo federal e muito ligados ao ex-presidente Lula. O Rio é também o estado onde secretários de governo fazem festas em lugares caros de Paris acompanhados por empreiteiros. E com o governador Cabral junto.

Foi Eduardo Paes quem anunciou a novidade do "Minha Casa, Minha Vida" com tudo dentro das casas. Não é de hoje que o prefeito vem sendo o símbolo perfeito desta era clientelista que aí está instalada. Ele foi deputado do PSDB e no início do governo Lula era um dos críticos mais firmes do PT, o que fazia como líder da bancada tucana. Atacou Lula até quando parecia que isso resultaria em poder para seu partido. Mas logo que percebeu que a batalha era mais dura do que parecia abandonou os colegas tucanos e aliou-se a Lula na maior cara de pau. Dos dois, é claro.

Para ressaltar o que vejo como falta de atenção ao prioritário , lembrei que enquanto fazem propaganda de entrega de casas com móveis e eletrodomésticos, no Rio não se tem acesso aos direitos básicos da população que paga direitinho seus impostos. Como exemplo, falei que a cidade é uma das mais caras para se viver no mundo e lá se paga o salário de R$ 1.874 para médico com 20 anos de trabalho no estado.

Pois ontem saiu a notícia do recorte abaixo, publicada no jornal O Globo. Uma criança de dez anos atingida na cabeça por uma bala perdida morreu depois de esperar mais de oito horas por cirurgia. No hospital não havia neurocirurgião, que faltou ao trabalho. Há um mês o médico já não vinha fazendo os plantões, com a alegação de que não concordava com a escala feita pelo hospital. A informação foi dada pelo médico em depoimento à polícia depois da morte da criança. Ele era o único escalado naquele período quando, segundo o que disse, é uma determinação do Conselho Regional de Medicina que haja dois neurocirurgiões por plantão.

A menina foi vítima de dois grandes problemas brasileiros, ainda mais graves no Rio: segurança e a saúde. No primeiro caso, além do tiroteio cotidiano o Rio sofre hoje com o domínio de milícias paramilitares sobre grande parcela da população. Mas em parceria com o governo federal o governador Cabral vem ocultando o drama com uma política em que o efeito propagandístico da ocupação de favela desvia a atenção dos reais efeitos da violência. Não cabe especular sobre as chances cirúrgicas num caso deste, mas é um fato que atendimento de saúde desse jeito não permite uma boa recuperação de ninguém em situação alguma. A criança foi vítima da bala perdida e do sistema de saúde.
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POR José Pires

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012


sábado, 22 de dezembro de 2012


Militância da ignorância

Não se pode perder a atenção ao detalhe. Veja ao lado um corrimão do Kimbell Museu, belíssimo conjunto de prédios feitos pelo arquiteto Louis Kahn. O museu de arte fica no Texas e tem como base o acervo deixado pelo industrial Kay Kimbell, que durante anos juntou uma admirável coleção. Aqui o corrimão pode ser visto em dois planos. A peça foi prensada numa chapa inteiriça. O fino desenho moldou no metal a forma antiga de um corrimão.

A militância azucrinadora saiu tacando pedras em quem escreveu do jeito certo sobre a diferença entre as curvas modernas que sairam da prancheta do falecido arquiteto Oscar Niemeyer e a brutal ideologia que esteve sempre na sua cabeça, mas será que os companheiros da intimidação já ouviram falar de Louis Kahn? Duvido muito. E digo isso porque além das grosserias políticas e até pessoais, alguns se aventuraram no terreno dos elogios à obra arquitetônica do mestre stalinista. É improvável que a maioria desses malas governistas da internet saiba algo sobre os assuntos em que se metem com suas grosserias, agindo como paus-mandados no ataque a qualquer um que não esteja de acordo com as ordens que recebem de cima..

É o que dá passar a vida seguindo uma doutrina onde o conhecimento é o de menos. Quando o que importa é a conquista do poder a pessoa deixa de prestar atenção ao que o outro escreve ou fala. Sua mente sustenta-se apenas em slogans fáceis e frases colhidas apenas com o sentido de firmar uma posição política.

Na quinta-feira o Estadão publicou um bom texto do Demétrio Magnoli sobre Niemeyer. É devastador no aspecto político e adentra também na concepção da obra do arquiteto. Magnoli o situa como um “arquiteto da destruição”, numa linha que, sempre segundo ele, viria de Le Corbusier. Discordo em parte do texto. Gosto de Corbusier, que é um antecipador de Niemeyer e também de Kahn. Mas no artigo de Magnoli tudo é muito bem fundamentado, como é de costume no que ele faz.

O que não tem fundamento algum é a idolatria que apareceu agora com a morte de Niemeyer. É claro que o artigo de Magnoli vem sendo alvo do mesmo tipo de ataque que foi recebido por quem fez considerações críticas logo que Niemeyer morreu. E em caso algum os fãs póst-mortem do arquiteto trazem qualquer argumentação que tenha base ao menos na sensatez. Não trazem informação alguma, conhecimento menos ainda. É só grosseria política.

Sinceramente, eu não sabia que era uma questão programática a blindagem total de Niemeyer. Já era do nosso conhecimento que o ex-presidente Lula eles querem inimputável, mesmo que o Supremo Apedeuta se comporte como um coronel que até nomeia amante para cargo público. Foi uma grande novidade a entrada de Niemeyer no rol de ídolos que devem ser vistos como totens ideológicos. Só é permitido prostrar-se à sua frente e babar de admiração?

Mas felizmente tem muita gente que não segue ordens de cima e por isso ainda alcançamos alguma qualidade técnica no debate. É a atenção ao detalhe e a busca da informação e do conhecimento, essenciais para que haja discussão inteligente e não bate-boca. Até num velho stalinista como o arquiteto Niemeyer é preciso prestar atenção no peso da sua interferência enquanto esteve vivo. Mas isso tem sido feito apenas pelos que o criticam. Neste assunto repete-se o que ocorre sempre nas polêmicas em que aparecem os bandos de vozes comandadas para a difamação e o ataque político e pessoal. Mesmo quem gosta muito de Niemeyer só vai encontrar boa informação sobre o arquiteto no texto de quem faz com franqueza a crítica à sua detestável admiração por Stálin e o totalitarismo.

É o que vem acontecendo em muita coisa desde a ascenção do PT ao poder federal e sua contaminação negativa na nossa cultura. No futuro, quando alguém precisar de conteúdo de qualidade sobre o que aconteceu nesta época em que vivemos, só vai encontrá-lo nos textos de quem hoje está no lado oposto ao deste governo e seus lamentáveis seguidores.
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POR José Pires

Voando mais baixo

Escrevi aqui sobre o absurdo anúncio da presidente Dilma Rousseff de que seu governo iria construir 800 aeroportos regionais. Dilma disse isso há pouco mais de uma semana em viagem a Europa, numa reunião com empresários de lá, mas já mudou de idéia. Algum assessor mais esperto deve ter lembrado a ela que o número dava quase um aeroporto por dia até o final de seu governo.

Agora a conversa mudou. Não são mais 800 aeroportos construídos, mas 270 que serão reformados ou construídos pelo governo. Foi feito às pressas um pacote porque a presidente queria divulgar a novidade antes do Natal.

O que tem de mais certo é a privatização do Galeão (RJ) e de Confins (BH), depois dos leilões de Guarulhos, Viracopos e Brasília. No resto a lorota continua. É difícil acreditar que construam algum aeroporto regional. O provável é que façam remendos nos que já existem e toquem o barco, ou melhor, o avião pra frente. E se perceberem algum risco eleitoral nesta dificuldade em administrar o setor, aí não tem problema algum. Retomam na maior cara de pau a promessa da construção de 800 aeroportos.
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POR José Pires

terça-feira, 18 de dezembro de 2012