terça-feira, 23 de abril de 2013

Educação lucrativa

A rede de ensino privado Kroton Educacional anunciou um acordo para incorporar a Anhanguera Educacional. A fusão das duas maiores companhias de ensino privado do país é avaliada em R$ 5 bilhões e vai criar um gigante com valor de mercado de R$ 12 bilhões. É claro que isso é mais uma jogada no lance dos negócios na Bolsa de Valores e maior lucratividade. Ou alguém acredita que o gigantismo comercial é capaz de promover uma boa educação? Obviamente isto não virá, no entanto as ações já disparam.


A fusão formará o maior grupo privado de educação do mundo e as duas empresas anunciam isso como uma grande vantagem para um país que tem um sistema educacional que permite uma coisa dessas. Em teleconferência, o presidente da Kroton, Rodrigo Galindo, disse com orgulho que o peso financeiro da empresa que terá ele como presidente-executivo será “o dobro do valor da segunda maior companhia do mundo, a New Oriental”. Este é o momento em que o brasileiro sensato deveria perguntar por que em vários países muito melhores em educação não existe este interesse em ter a “primeira” companhia de educação privada do mundo. O negócio ainda precisa ser aprovado pelo CADE, mas quando colocam algo assim em andamento é sinal de que tem malhas abertas naquele órgão.


O foco de uma associação dessas é a rentabilidade e não o aprimoramento da educação. O mercado de ações é um excelente balcão de negócios. Hoje o site da revista Exame publica um gráfico interessante das duas empresas. Vejam na imagem. Antes do acordo, as ações da Anhanguera vinham numa queda impressionante e no dia 1º de abril, no que até parece até uma ironia, começou uma notável recuperação. Até que em 8 de abril as ações deram um vigoroso e llucrativo salto.


Por este gráfico a gente vê como é importante aprender algumas lições no lugar certo. Se no final de março eu tivesse a informação sobre esta fusão eu poderia ter ganhado um dinheirinho ao menos para comprar em sebos uns livros usados para aprimorar a minha educação.
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POR José Pires

domingo, 21 de abril de 2013


A volta da amiga íntima do Lula

A semana começa com um assunto que incomoda muito a harmonia familiar no mais conhecido apartamento de cobertura de São Bernardo do Campo. Rosemary Noronha, a Rose, volta às páginas da imprensa e logo na Veja. A revista traz uma reportagem de capa retomando o escândalo que tem à frente a amiga íntima que o ex-presidente Lula mandou a presidente Dilma Rousseff nomear como chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo. Como o Brasil inteiro já sabe, ela aprontava por lá o que queria, amparada pela amizade poderosa.

A revista teve acesso ao relatório final feito por técnicos do Palácio do Planalto, com o resultado da investigação sobre o que Rose andou fazendo na chefia do escritório do governo até ser demitida do cargo. A amiga de Lula gozava de tanto poder no governo do PT que foi até recebida com honras de chefe de estado na embaixada brasileira em Roma. Ela teve motorista oficial da embaixada à sua disposição e foi convidada pelo embaixador José Viegas a ficar hospedada no luxuoso Palazzo Pampini. O quarto oferecido tem um detalhe muito interessante. Rose ficou com o marido no "quarto vermelho". A identificação desta forma é do próprio embaixador, que também desejou "benvenuti!" à ela em mensagem pessoal. Como este tipo de denominação é desconhecido no Itamaraty, a revista sugere que pode ser algo como "telefone vermelho", menção a um privilégio concedido apenas ao chefe.

O relatório levou à instalação de um processo administrativo contra Rose, com a recomendação de que ela seja investigada por enriquecimento ilícito. O processo já foi aberto na Controladoria Geral da União. A investigação que levou ao relatório foi feita pela Casa Civil da Presidência, de uma forma que segundo Veja " destoa da tradição dos governos petistas de amenizar os pecados de companheiros pilhados em falcatruas". Sentindo-se abadonada e vendo que pode acabar pagando sozinha pelos malfeitos, Rose também estaria manobrando para mostrar ao parceiros que pode revidar causando um prejuízo geral.

Um sinal disso é que ela trocou de advogados. Abandonou os advogados escolhidos pelo PT e contratou um escritório conhecido por representar maiorais do PSDB. Seus novos advogados já fizeram a defesa até em processos enfrentados pela ex-governadora gaúcha Yeda Crusius. Rose tem razão de estar ressabiada. Como gozou da intimidade de Lula deve saber muito bem que ele não tem nenhum escrúpulo em abandonar companheiros pelo caminho para se safar de responsabilidades.

Outro aviso que Rose pode estar mandando estaria na escolha das suas testemunhas no processo administrativo. Gilberto Carvalho e Erenice Guerra são dois nomes de peso relacionados por ela. Carvalho é secretário-geral da Presidência e ex-chefe de gabinete de Lula, além de ser amigo dele de longa data, frequentando até as exclusivas festas juninas organizadas pela ex-primeira dama, dona Marisa. E Erenice Guerra foi o braço direito de Dilma Rousseff, até ser demitida do governo por causa do envolvimento em um escândalo de corrupção.

Uma das das reclamações dos novos defensores de Rose é pelo vazamento de informações “de dentro do próprio do governo federal”. Esta liberação de informações para a imprensa, que eles consideram "distorcidas", seria para "agredir a imagem de Rosemary". Ou seja, os indicativos são de que Rose está mesmo sendo descartada politicamente e não contará mais com os mecanismos de defesa não só do partido como também do poderoso que foi seu amigo íntimo. Ao contrário disso, a movimentação que vem de dentro do próprio Palácio do Planalto mostra com clareza que está armada uma artilharia pesada contra ela.
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POR José Pires

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Mal na foto

Por conta das maracutaias em que se mete, o ex-presidente Lula acumula um desgaste imenso em sua imagem. Tem muita coisa: a mudança da lei de telecomunicações feita por ele para beneficiar uma transação entre grandes empresas telefônicas, numa triangulação que acabou beneficiando seu filho em um negócio de milhões; aconteceu o julgamento do mensalão, com a condenação de seus amigos que acertavam os subornos a parlamentares na sala ao lado da sua no Palácio do Planalto; a lista de malfeitos (como eles dizem para amenizar) é bem grande; é uma longa esteira de corrupção, que veio até ao governo da sucessora que ele fez com um dedaço; por causa de corrupção, ela teve que demitir uma porção de ministros indicados diretamente pelo ex-presidente; o golpe mais recente no governo Dilma foi o da amiga íntima Rosemary Noronha, nomeada a mando dele para o escritório da Presidência da República, onde ela e um bando com cargos nomeados negociavam atestados falsos; foi neste caso que ficou muito claro publicamente que Lula envolve seu poder político até nas "amizades íntimas"; em Brasília já se comentava há muitos anos que os dois eram amantes.

O acúmulo de lama respingou bem alto na semana que passou, com o pedido feito à Polícia Federal pela Procuradoria da República do Distrito Federal para a apuração do envolvimento de Lula no esquema do mensalão, que fez cair toda a cúpula do PT, envolvida em suborno de parlamentares

Tanto desgaste exige que marqueteiros se virem para ao menos amenizar a sujeira grossa. Daí o monte de encontros de Lula com personalidades variadas, especialmente do mundo artístico. Ele teve reunião recente com Bono, do U2, um cantor que felizmente nunca foi do meu gosto musical. Bono é um tipo de artista que fatura bastante em auto-promoção fazendo o papel de salvador dos pobres. Mesmo se não houvesse má fé de sua parte, de qualquer forma o resultado não é nada digno.

Já nesta semana o material de limpeza de imagem para se plantar na mídia foi produzido em exposição do fotógrafo Sebastião Salgado, uma retrospectiva de sua obra em Londres. Lula esteve lá e claro que o foco dos jornalistas teve que ser o recente pedido para que a polícia dê uma guaribada no que ele andou fazendo na época do mensalão. Ele se negou a responder sobre o mensalão. E ainda bem que nada falou sobre fotografia, um dos inumeráveis assuntos de que não entende nada.

Lula foi à abertura da exposição à convite do próprio fotógrafo. Foi esta a versão oficial para sua a presença, que acho lamentável. Sempre gostei das fotos de Sebastião Salgado. Vejo nele uma alta qualidade técnica e uma admirável disciplina profissional, algo sempre essencial em qualquer arte e de muito peso na fotografia. A presença do ex-presidente na exposição não é lamentável por ser o Lula. Podia ser o Fernando Henrique Cardoso e ainda assim haveria um equívoco de Salgado. Mas é claro que a forma que Lula foi encaixado no evento torna a coisa bem pior. É evidente a intenção de destacar uma ligação política entre o político e o artista, num período de sério desgaste de Lula. E na minha visão é necessário uma separação nítida entre o compromisso político e a arte.

Mas não é por isso que vou fazer como a militância azucrinadora e começar a falar mal das fotografias de Salgado. Continuam boas, mas na carreira do fotógrafo permanecerá esta nódoa. Ele ficou parecido com marqueteiro. Em qualquer obra isso deixa sempre uma mancha negativa.
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POR José Pires

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Imagem: Lula e Sebastião Salgado posam para o fotógrafo oficial do ex-presidente, em imagem distribuída pelo Instituto Lula.

segunda-feira, 8 de abril de 2013


Alegria fúnebre

Duas mortes de personalidades de destaque na política mundial servem como referência para uma questão importante no debate público: qual é o tom aceitável de crítica diante da morte? Na morte do venezuelano Hugo Chávez aconteceram alguns excessos, na confusão que alguns fazem entre a análise da ação política do dirigente político e o ódio pessoal que pode ser gerado pelo que ele fez. Agora, na morte da ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, o clima ficou bem mais pesado. A esquerda parece ter menos capacidade de conter os mais abusados ou talvez não queira que haja moderação nem nas ocasiões fúnebres.

Nas redes sociais a militância azucrinadora vibra com a morte como se fosse uma queda política de Tatcher e não sua ida pelo caminho que todos deveremos seguir um dia. Da Inglaterra vieram fotos de ingleses comemorando com champanhe. Repete-se uma grotesca euforia que vimos também na morte de Chávez. Foi em dose muito menor, como eu já disse. Não teve nem champanhe.

Mas seja da direita ou da esquerda, são equivocos com o mesmo teor espantoso de desumanidade e também do mesmo peso em ignorância política. Mira-se na pessoa e não no que ela fez ou nos conceitos políticos e morais que deixou como legado.

Comemorar a morte de Chávez, de Thatcher ou de qualquer outro político não faz sentido algum, antes de tudo pela desumanidade do gesto. E quanto aos dois citados, suas obras estão completadas e isso é o que interessa. Sobre a morte de Chávez é preciso até lamentar que ele tenha ido embora sem arcar com as conseqüências do desastroso regime imposto na Venezuela. E quanto à Margareth Thatcher, só alguém muito tolo pode comemorar sua morte. Esta completou de fato sua obra, que acredito que até o esquerdista mais ferrenho terá a obrigação de concordar que é imensamente maior que a do venezuelano.

Concordando ou não com o que Tatcher fez, seu legado transformou o mundo de uma forma que nenhum outro governante realizou no final do século passado. Comparável com as mudanças promovidas por ela só tem o que foi feito na década de 80 por Mikhail Gorbachev, que resultou no desmantelamento do comunismo na União Soviética. Não só por coincidência, foi em período semelhante ao de Tatcher como primeira-ministra britânica. A derrocada do comunismo deve-se também ao papel dela no mundo e essa é uma das coisas que a esquerda não perdoará jamais. Outro que deu uma mãozona para a direitização do mundo neste período foi o americano Ronald Reagan, mas a marca liberal na economia mundial ficou mesmo por conta de Thatcher.

Ela viveu bastante para ver sua obra em andamento e influenciando a economia do mundo. Foi tão sortuda que ainda teve a satisfação de ver interpretando seu papel num filme de Holywood a grande atriz Meryl Streep, que até ganhou um Oscar por isso. Quem abre champanhe para celebrar a morte de Thatcher, na verdade está comemorando a própria derrota.
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POR José Pires

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Imagem: Margareth Thatcher em caricatura das mais ácidas feitas pelo grande desenhista inglês Gerald Scarfe. Ela devora um adversário político, o que foi usual durante seus anos de poder. Nem é preciso dizer o que desenhista achava dela, não é mesmo? Scarfe é também autor dos admiráveis desenhos que marcam o filme "The Wall", que Alan Parker fez em 1982 com a banda inglesa Pink Floyd.

segunda-feira, 25 de março de 2013


Recorde bilionário

Eu acho que é um caso para comemoração nacional, com banquete oficial, desfile, exposição, lançamento de selo, esse tipo de coisa que se costuma fazer quando o país alcança um patamar formidável em algum setor. O gasto anual com deputados no Brasil já vai alcançar 1 bilhão de reais. Falta pouco. O gasto atual está em R$ 928 milhões. Uma pequena emenda já poderia num salto levar para este 1 bilhão o orçamento desta casta política. Dava pra fazer já a comemoração do dispêndio desta fortuna. Mas logo mais chegaremos lá.

Devemos sempre lembrar sempre que os nossos políticos, tanto os senadores quando os deputados, custam mais ao contribuinte do que os políticos de democracias muito bem estabilizadas de países de maior poder econômico que o Brasil. Recentemente a ONG Transparência Brasil fez um estudo sobre gastos individuauis de representação, viagens e contratação de assessores e comparou com os mesmos custos em países estrangeiros. No Brasil o valor superava R$ 1 milhão ao ano. Em três países ricos estava assim: Alemanha - R$ 860 mil, França, R$ 770 mil, Inglaterra - R$ 760 mil.

A ONU divulgou no mês passado um estudo que mostra que em custo total o congressista brasileiro é 2º mais caro em um universo de 110 países. Cada um dos nossos parlamentares custa US$ 7,4 milhões por ano. Os Estados Unidos é único país que gasta mais: US$ 9,6 milhões anuais. Mas é preciso dizer que esta é uma comparação integral entre cada gasto, sem nenhuma outra referência. Se for levado em conta a renda per capita de brasileiros e americanos, aí o gasto brasileiro salta lá em cima, fazendo dos nossos políticos uma casta paga de uma forma que talvez não exista em lugar nenhum do mundo.

Outra questão óbvia, mas que é preciso ressaltar porque temos no país patrulhas vigilantes de ataque ao pensamento crítico, é que na maioria destes países as democracias vão muito bem com seus parlamentares sendo pagos com o devido equilíbrio. Eu penso até que essas democracias vão bem também por isso. O que desmoraliza a democracia é esta rapina dos cofres públicos que deputados e senadores vêm fazendo com aumentos contínuos determinados por eles mesmos.

Então, não há nenhum ataque à democracia ou ao papel essencial do Congresso Nacional quando são trazidos estes números escandalosos. É preciso mesmo sentar a lenha nesta elite gastadora e trazer todos os gastos com parlamentares a um nível próximo ao que ganham os demais brasileiros que não fazem parte desta casta. Isso só vai fortalecer nossa democracia.
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POR José Pires

sábado, 16 de março de 2013

A difamação que vem da Argentina

Deixa ver se eu entendi: a esquerda quer derrubar o papa, é isso? É o que dá a entender a corrente de difamação que desenvolveram contra o papa Francisco, a partir de acusações que se baseiam na sua atividade como bispo, na Argentina. As fontes carecem e muito de credibilidade. Existe uma acusação muito pesada, de que dois jesuítas teriam sido delatados às forças da repressão na época da ditadura militar. Isto veio do jornalista Horácio Verbitsky, fundador do Página 12, jornal que atua na defesa do governo de Cristina Kirchner. Verbitsky é tido na Argentina como influente mentor político do "kirchnerismo". Sua relação pra lá de estreita com os Kirchner vem desde o governo anterior de Néstor Kirchner, o falecido marido da atual presidente, que a fez como sucessora.

Verbitsky tem uma história política com vínculos com o autoritarismo. Fez parte do extremismo que tivemos na América do Sul entre as décadas de 60 e 80, quando grupos políticos violentos tentaram substituir ditaduras de direita por ditaduras de esquerda. E existem suspeitas muito sérias sobre este seu passado. Ele foi da organização política Montoneros, grupo armado dos mais agressivos da América Latina, que praticava até terrorismo. O jornalista que acusa o papa Francisco fazia parte da área de inteligência dos Montoneros, que tinha entre outras funções a de apontar bons alvos físicos para sequestros e chantagens para arrancar dinheiro para a organização. Um dos sequestros mais rentáveis deles foi o duas pessoas da família que controla a Bunge e Born. O ex-montonero é acusado de ter ajudado a desviar para Cuba US$ 60 milhões vindos deste sequestro. Ele nega e diz que é tudo invenção de adversários para destruí-lo.

A acusação contra o papa Francisco está em "El silencio", livro escrito por Verbitsky onde ele expõe sua visão sobre o papel da igreja durante o regime militar na Argentina. Para ele a igreja católica colaborou com a sucessão de ditadores, de 1976 até 1983. Foi um período violentíssimo. Quem reclama com mau humor dos que falam que em "ditabranda" no Brasil está fechando os olhos ao que ocorreu na Argentina. Calcula-se em cerca de 30 mil o número de mortos e o de desaparecidos é de 10 mil. Colocar a igreja católica entre os colaboradores de um regime de terror desses é uma acusação da maior gravidade. Na Argentina não tem coisa pior. E o do Página 12 sabe disso. Ele me parece uma dessas pessoas que se nega a rever seus erros do passado. Está preso aos rancores do passado. É costume dessa gente fazer a difamação histórica de qualquer um que não esteve com eles nas aventuras do passado. No Brasil também temos este tipo de problema, até na situação muito cômica de gente que defende erros graves do passado sem sequer ter participado deles. O ex-montonero argentino mantém-se aferrado a uma vendeta particular com igreja. Ele queria que, quando foi bispo na Argentina, o papa Francisco tivesse prestado apoio incondicional às suas ações criminosas.

Mesmo atuando hoje junto a um governo que já está no quarto mandato consecutivo, Verbitsky parece não compreender que a ampliação dos horizontes políticos que houve no mundo exige análise e argumentação muito diferente daquela feita na obscuridade da militância clandestina. Daí a minha questão inicial, perguntando se a esquerda quer derrubar o papa. E quando embarca nesta rede da difamação que saiu da Argentina, a esquerda brasilera se situa de forma ainda mais tola. Essa azucrinadora militância puxou para cá o antagonismo violento da esquerda argentina, que talvez seja a mais maluca do continente. Com isso, assumem um confronto desnecessário com todos os católicos.

Será que é preciso dizer pra esta gente que na relação com uma instituição do peso moral da igreja católica é preciso agir com equilíbrio e razão? Especialmente na hora de expor supostas faltas graves desta intituição não é nem um pouco inteligente agir de forma difamatória, com argumentos sem nenhuma base de sustentação. Será que até algo simples assim eles precisam ouvir? É claro que precisam. E se tiver alguém temendo que uma dica dessas possa fortalecê-los, não há porque se estressar com uma preocupação dessas. Esse pessoal não se emenda de jeito nenhum.
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POR José Pires

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Imagem: Juntos numa ocasião pública, Verbitsky e Cristina Kirchner revelam de forma muito expressiva a sintonia entre o jornalista e a presidente; à frente, capa de "El silencio".

quarta-feira, 13 de março de 2013


quinta-feira, 7 de março de 2013

O dia em que José Dirceu voltou no pinote de Caracas


José Dirceu não vai poder ir ao velório de Hugo Chávez. O presidente do STF, Joaquim Barbosa, recusou a licença que ele pediu ontem para fazer a viagem. O passaporte do ex-ministro de Lula está confiscado em razão da sua condenação à prisão no processo do mensalão.

A decisão de Barbosa não vai permitir que se esclareça uma dúvida que me ocorreu quando soube do pedido feito por Dirceu. Como seria a recepção a ele no velório de Chávez? O relacionamento entre os dois nunca foi próximo, mesmo quando ainda não havia sido revelado seu papel como chefe da quadrilha do mensalão. E Chávez certamente nunca levou à sério políticos de esquerda como Dirceu.

No único contato oficial entre os dois, Dirceu levou um carreirão de Chávez em Caracas e voltou bem rápido para o Brasil. Ninguém se lembrou desse episódio. A coisa não está nem no cocuruto do Google, como já verifiquei. Mas modestamente a nossa memória só perde pra elefante bom da cuca.

Foi uma viagem ligeira do José Dirceu para Caracas em 2005, quando o clima estava fervendo nas relações entre a Venezuela e os Estados Unidos. De um lado Chávez, que governava desde 1999, e do outro George W. Bush, que não precisa ser apresentado. Eram dois coisas ruins. E é preciso lembrar também que em abril de 2002 o presidente venezuelano quase foi tirado do poder por um golpe, que ele sempre atribuiu ao governo americano.

Chávez estava à toda na Venezuela. E por aqui, no Brasil, Lula e seu grupo governavam embaladíssimos no projeto de poder perpétuo para o PT. A denúncia do mensalão só viria três meses depois na famosa entrevista do então deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, ao jornal Folha de S. Paulo.

É claro que Lula e Dirceu embalavam também o sonho de ocupar a liderança da esquerda latino-americana. No plano local o domínio do Congresso Nacional já estava encaminhado por meio dos subornos do mensalão. Faltava só abarcar o continente no projeto partidário que, para os dois, era para muitas décadas de poder.

Mas nisso Chávez era uma barreira, pois além do peso da sua personalidade ele tinha também divergências com a visão ideológica dos líderes brasileiros, colocando isso em prática no governo da Venezuela. Seu projeto sempre foi pelo confronto direto com os Estados Unidos, bem diferente do que pensavam Lula e Dirceu, partidários de uma conciliação parecida com a que faziam no plano local e que até então estava dando certo.

Naquele mês de abril de 2005 a então secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, fez uma visita oficial importante ao Brasil. É possível até que fosse um dos lances de algum arranjo entre Lula e Bush, que já havia sido acertado nos bastidores. Porém, Chávez estava numa briga feia com os ianques. Foi aí que José Dirceu, que ocupava a chefia da Casa Civil, fez as malas e foi para a Venezuela conversar com o presidente venezuelano. A idéia era propor uma amenizada nas ações e discursos de Chávez.

Até hoje não se sabe como foi a conversa e seria muito interessante para a história política de Nuestra América que este colóquio entre os dois tenha tido alguma testemunha ou que esteja documentado. Seria bom demais saber o que é que Dirceu ouviu naquele dia, pois ficou muito evidente que ele mais ouviu do que falou. O que sabemos até agora da conversa é apenas sua conclusão. Dirceu voltou na mesma hora para o Brasil, bem rápido mesmo, sem falar nada sobre este dia em que ele e o Lula tentaram suavizar o Hugo Chávez.

E o Chávez continuou o mesmo, sempre à toda, até ser parado pelo câncer. Como se sabe, a liderança da esquerda no continente ficou entre seus braços e neste papel ele até influiu para vexames ao governo Lula, como foi o caso da encampação da Petrobrás pelo governo de seu pupilo boliviano, Evo Morales.
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POR José Pires

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A esquerda do cala-boca

Um ornitorrinco não é um pato só porque tem um bico. Mas quando um animal tem orelha de porco, focinho de porco, olhos de porco, pés de porco e até o rabinho retorcido de um porco, com certeza certeza o bicho é um porco. Sem a intenção de nenhum desmerecimento aos porcos, não há como se enganar sobre o conceito que está expresso nas ofensas que grupos de esquerda fizeram à blogueira cubana Yoani Sanchéz.

Já escrevi aqui sobre a nauseante nostalgia dos piquetes da esquerda contra a liberdade de expressão da jornalista cubana em visita ao Brasil e falei da sensação ruim que causa essa posição totalmente fora do tempo dessa militância azucrinadora que busca requentar a Guerra Fria tentando colocar nosso país numa dimensão de tempo desconectada com o que nós todos — de esquerda, direita, centro ou seja lá o que for — tivemos a oportunidade de aprender no desenvolvimento da nossa própria história, inclusive com lágrimas que mancham até hoje a memória brasileira.

O que vimos na Bahia no absurdo desrespeito à liberdade de expressão feito por grupos que conseguiram impedir inclusive a exibição de um documentário dirigido pelo cineasta brasileiro Duda Galvão é algo bastante conhecido de todos nos últimos anos aqui no Brasil. Na imagem, a cubana caminha escoltada pela polícia em proteção contra ataques da esquerda. Esta intimidação da crítica e do livre debate vem de longe e bem lá de cima. Qualquer um que busca expor seus pensamentos hoje em dia em nosso país conhece muito bem os métodos dessa esquerda brasileira ainda tão cega pelos erros que não consegue ver nem a possibilidade do uso dos acertos que ficam para trás.

O que aconteceu na Bahia nasceu evidentemente no Palácio do Planalto com a concepção histórica de poder do PT misturada à necessidades ditadas pela propaganda política governamental e o marketing eleitoral progressivo que é mantido até nos assuntos de Estado. É um conceito que tem sua origem neste centro de poder e também das sedes oficiosas dentro do partido, além de escritórios políticos espalhados por todo o país, muitas vezes mantidos com dinheiro público.

Sabe-se que o próprio PT tem uma política de comunicação que abrange até táticas de contra-informação, buscando inclusive profissionalizar com ares de militância os espaços de opinião de leitores nas publicações impressas e na internet. A falta de responsabilidade com o direito alheio pode fazer dirigentes políticos ávidos de poder se despreocuparem com o efeito social de ações desse tipo, mas nós temos que nos ocupar disso antes que a serpente se instale de vez.

Que ninguém se engane. A mão que tentou tapar a boca da blogueira cubana na Bahia precisa ser discutida, atacada e desmoralizada dentro dentro deste trabalho árduo da construção da democracia em nosso país. Se esta mão pesada não for enfraquecida ela pode acabar tapando também as nossas bocas.
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POR José Pires

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ecos de erros antigos

Quando finalmente for dado um fecho na Revolução Cubana e o grupo em volta dos irmãos Castro tiver que se mandar para um outro país o Brasil é um bom lugar. Quando soube das manifestações contra a blogueira cubana Yoani Sanchéz, que está em visita ao Brasil, tive a impressão de que temos aqui os últimos milicianos do regime de Fidel Castro. A selvageria e o despropósito das ações agressivas contra a moça me soou muito parecido com acontecimentos antigos ocorridos em Cuba. Mas isso há muito anos atrás, porque hoje em dia o desgaste que os cubanos sofrem no seu cotidiano não estimula um fanatismo de massa como já existiu antes dos anos oitenta.

Um grupelho bem restrito mesmo foi atazanar a visita de Yoani, conseguindo impedir até a exibição de um documentário sobre a liberdade de expressão feito pelo cineasta brasileiro Dado Galvão. A jornalista cubana é a figura central do filme. Ela ficou conhecida internacionalmente há poucos anos a partir de seu blog, onde trata de assuntos de seus país de forma crítica, na medida do possível em uma ditadura. O blog existe desde abril de 2007.

O bando que se articulou para ofender a blogueira tem por detrás o PCdoB, entre outros partidecos. Este partido foi o que lançou recentemente uma nota ridícula homenageando o falecido ditador da Coréia do Norte que deixou o filho para ocupar seu lugar no comando do país. O PCdoB está também sempre envolvido em escândalos de corrupção, uma rotina que levou até à demissão de um dos ministros da cota do partido no governo do PT.

Mas eu falava da nauseante nostalgia que vi nas manifestações contra a cubana Yoanni, em acontecimentos que lembram o que de pior já aconteceu em Cuba. Pois em um post publicado hoje em seu blog, ela escreve que ouviu durante as manifestações dos extremistas azucrinadores (o adjetivo é meu) lemas que não se escutam mais há anos nem em Cuba.

O texto publicado por ela é, de certo modo, uma resposta ao desrespeito que ela sofreu da parte dessa militância ridícula que tem logicamente mãos muito acima manipulando seus cordéis. Publico abaixo a tradução que fiz do post, pois vejo nele um documento interessante, quase um aviso de que podem estar sendo repetidos por aqui erros que fizeram muito mal ao país de onde a blogueira só conseguiu sair recentemente, pois em Cuba até pra viajar é preciso permissão do governo.

Só mais uma coisa, antes que a militância azucrinadora venha encher os meus piquás: não recebi nenhum tostão da CIA pela tradução.
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POR José Pires

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O TEXTO DE YOANI SANCHÉS:

“Talvez vocês não saibam – porque nem tudo se conta em um blog – mas o primeiro ato de repúdio que vi na minha vida foi quando eu tinha apenas cinco anos. A agitação no prédio chamou a atenção das duas crianças que éramos minha irmã e eu. Nos debruçamos sobre a grade do estreito corredor para olhar o que acontecia no andar de baixo. As pessoas gritavam e levantavam o punho ao redor da porta de uma vizinha. Eu era tão nova que não tinha a menor ideia do que ocorria. E mais, agora quando recordo aquilo tenho apenas uma lembrança do corrimão gelado entre meus dedos e um vislumbre brevíssimo dos que gritavam. Anos depois pude finalmente armar aquele caleidoscópio de recordações infantis e soube que havia sido testemunha da violência contras os cubanos que queriam sair do país pelo porto de Mariel (*).

Pois bem, desde aquele acontecimento vivi vários outros atos de repúdio. Seja como vítima, observadora ou jornalista... nunca – vale esclarecer – como vitimizadora. Recordo um especialmente violento que sofri junto às Damas de Branco [grupo de parentes de prisoneiros políticos de Cuba], quando os bandos da intolerância cuspiram em nós, nos empurraram e até puxaram os nossos cabelos. Mas o que aconteceu ontem à noite [no Brasil] foi inédito para mim. O piquete de extremistas que impediu a projeção do filme de dado Galvão em Feira de Santana [Bahia} era algo mais que uma porção de adeptos incondicionais do governo cubano. Todos tinham, por exemplo, o mesmo documento – impresso em cores – com uma série de mentiras sobre mim, tão maniqueístas como fáceis de rebater numa simples conversação. Repetiam uma cartilha idêntica e grosseira, sem ter a menor intenção de ouvir o que eu tinha para dizer. Gritavam, interrompiam, em um momento foram até violentos e de vez em quando gritavam um coro de lemas como esses que já não se diz nem em Cuba.

Entretanto, com a ajuda do senador Eduardo Suplicy e a calma diante das adversidades que me caracteriza, afinal conseguimos começar a falar. Resumo: só sabiam gritar e repetir as mesmas frases, como autômatos programados. E isso tornou a reunião ainda mais interessante! Eles tinham as veias do pescoço inchadas, eu esboçava um sorriso. Eles faziam ataques pessoais, eu levava a discussão para a situação de Cuba, que sempre será mais importante que esta humilde cidadã. Eles queriam linchar-me, eu conversar. Eles obedeciam à ordens, eu sou uma alma livre. No final da noite eu me sentia como depois de uma batalha contra os demônios do mesmo extremismo que atiçou os atos de repúdio daquele ano de oitenta em Cuba. A diferença é que desta vez eu conhecia o mecanismo que fomenta estas atitudes, eu podia ver o longo braço que os move desde a Praça da Revolução em Havana.”

(*) Aqui ela fala da saída em massa de cubanos do país ocorrida em dezembro de 1980, conhecido como "Fuga de Mariel". Um total de 125 mil pessoas deixou Cuba pelo porto de Mariel, com destino à Flórida.

domingo, 10 de fevereiro de 2013


sábado, 2 de fevereiro de 2013


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Zoeira midiática

A imprensa brasileira deixa os leitores brasileiros zonzos quando acontece algo muito forte como foi o incêndio da boate Kiss em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Alguns jornais sempre usaram este método de dar a notícia apressadamente e ir compondo o fato conforme vão aparecendo novidades. Na época do jornal impresso já não era fácil seguir com equilíbrio os acontecimentos, mas uma questão técnica impedia que a confusão fosse maior: saía apenas uma edição diária.

Hoje em dia, com a internet, a fragmentação que é feita de uma notícia torna difícil para o leitor juntar tudo que sai publicado para saber o que aconteceu de fato. Os jornais e revistas migraram para a internet e pegaram os defeitos da televisão. Parece briga por audiência. Até para quem é do ramo não é fácil seguir o ritmo que é imposto pelos sites e blogs. E para embaralhar ainda mais existem também as opiniões nas áreas de comentários e nas redes sociais.

Quando acontece algo importante no país, no final do dia o leitor tem que ter a habilidade de um editor (que até no jornalismo não é uma capacidade de todo profissional) para juntar tudo o que saiu na internet e ter uma visão do que se passou. E certos fatos importantes para esta conexão até desaparecem, apagados por descobertas sensacionais, alguma acusação nova mesmo que seja infundada ou até uma notícia falsa que demora às vezes para ser desmentida ou até permanece como verídica.

Além da desinformação que ocorre, um assunto difícil como este do incêndio de Santa Maria pode vitimar até pessoas que apesar de terem relação com a tragédia não são criminosas. E nem se tivessem alguma culpa grave seria justo que fossem expostas à raiva pública. Aliás, mesmo para quem tiver a culpa comprovada apenas a Justiça é que pode decidir qual será a pena e ainda assim só depois de um julgamento.

Costumo apontar como um defeito esta correria que foi criada na internet e que é muito forte entre nós, brasileiros. Isso já contaminou parte considerável dos leitores e hoje temos muita gente que não pensa duas vezes antes de acusar e até atacar os outros, na maioria das vezes sem nenhuma base de comprovação para sua opinião.

Essa pressa da imprensa tem afetado a todos. Mesmo autoridades que dominam áreas em que não é possível dar respostas rápidas passaram a agir e responder de forma artifical para atender ao desejo de notícias imediatas. É o que acontece com a polícia, que muitas vezes vaza opiniões antes até do início de qualquer investigação.

A menos que seja por prevenção urgente, como ter de correr de uma inundação ou fogo, ninguém precisa saber de imediato o que acontece. Por isso não é necessário dar a notícia rapidamente. Nem é preciso sair ligeiro opinando. O que as pessoas precisam é do fato bem fundamentado, com bases técnicas sólidas e apuração consistente. Essa falta de foco que resulta da fragmentação da informação acaba é criando uma confusão que no final ameniza culpas e principalmente as responsabilidades gerais sobre o fato. E é claro que a zorra dificulta e muitas vezes até impede irremediavelmente que sejam tomadas medidas para que o desastre não se repita.
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POR José Pires

sábado, 26 de janeiro de 2013

Saudades do Brasil do Tom

Nelson Pereira dos Santos e Tom Jobim juntos é um prazer estético e um encontro humano que toca meu coração. O cineasta é um dos meus preferidos. E o Tom Jobim para mim é a completude do artista, porque não é fácil juntar o erudito com o popular, como ele fez com aquela tremenda habilidade musical que torna tudo muito límpido, com fluidez de água e brilho de sol.

Existe um documentário feito pelo Nelson Pereira sobre o Tom que é muito bom, especialmente porque traz para o primeiro plano sua irmã, Helena Jobim, que foi uma pessoa muito importante na sua vida e por quem ele tinha muito carinho. O filme é “A música segundo Tom Jobim”. Helena escreveu um ótimo livro sobre o irmão. Ela escreve sobre suas lembranças com uma rara combinação entre a intimidade do amor fraterno e a necessária ligação com a trajetória artística desse grande, imenso compositor brasileiro.

O Tom é uma das figuras mais importantes na minha vida. Logo cedo, ali pelos 17 anos, me encantei com sua obra que falava de mato, passarinho, lama de beira de estrada. Todas essas coisas tratadas com uma alta qualidade artística deram respaldo à minha ligação com a natureza, que foi a base da minha infância. É claro que essa relação artística com minhas recordações de menino fortaleceu o entendimento em mim de como aprender e trabalhar com isso. Muitas pessoas que nem chegamos a conhecer pessoalmente nos dão tanta saudade como se fossem gente da família. E caso não tivessem aparecido em nossa vida é provável até que fossemos hoje muito diferente. O Tom é uma dessas figuras para mim. Vi o compositor só uma vez só no Rio, ele bebendo algo no antigo restaurante Plataforma e eu em outra mesa. Mas só o observei ligeiramente de longe. Eu não precisava conversar com ele porque já havia entendido tudo ouvindo suas músicas.

O livro de Helena Jobim eu comprei logo que saiu. Perdi um, que deve estar em boas mãos, mas logo comprei outro que é de releitura constante, tendo o cuidado de pular certas partes quando leio em viagem no ônibus, como é meu costume, senão os outros passageiros podem pensar que sou um doido derramando lágrimas em público. A longa descrição da sua doença e da morte repentina é muito triste. Morreu desesperado em 1994, com 67 anos, porque ainda não queria ir. E podia mesmo ter ficado mais um pouco, o que faria um bem danado para todos nós. Seu aniversário seria ontem, quando estaria com 85 anos.

Costuma sempre me vir à cabeça como seria bom saber do lançamento de um novo álbum seu ou ler uma entrevista nova, ele que era um ótimo conversador, de pensamento original e muito bem humorado, com suas divagações sobre urubu, planta, passarinho e tantas outras coisas boas de ouvir.

Ele e Nelson Pereira dos Santos, que ainda está aí com apenas um ano a menos do que o Tom teria hoje, são dois artistas essenciais para nós, brasileiros. Podíamos ter aproveitado muito mais do que eles fizeram, é claro, mas o que soubemos usar bem tem nos dado muita força.

Numa das cenas do documentário de que falei, sua irmã Helena lembra dele, tendo como cenário a Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Nelson Pereira explicou que seria impossível encontrar hoje no Rio de Janeiro um cenário de praia que lembrasse os tempos de sua juventude. Isso acaba reforçando o sentimento de que precisamos ter mais forte em nós o legado artístico e humano do Tom, até para talvez recuperarmos um dia aquele Brasil de suas canções.
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POR José Pires

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Barriga histórica

"Barriga" é um termo jornalístico brasileiro que significa dar uma notícia falsa. Não sei como é que se diz isso em espanhol, mas ontem o jornal El País cometeu uma barriga enorme e que deve marcar negativamente a história do jornal. Eles publicaram uma foto de um homem em uma cama de hospital como se fosse a imagem de Hugo Chávez hospitalizado em Cuba (veja na imagem).

A história desta tola publicação está toda mal contada, inclusive na nota publicada no site do jornal que a direção se apressou em postar logo que perceberam a besteira feita. O texto afirma que a imagem ficou apenas cerca de uma hora na internet e não foi para as ruas na edição impressa. Isso mesmo: chegaram a imprimir a foto com a notícia falsa, mas paralisaram logo a distribuição para substituir a edição.

A nota diz ainda que o diário “abriu uma investigação” para determinar como foi que isso aconteceu e os erros na identificação da fotografia. É nessa hora que a gente dizia nas antigas redações que ia sobrar para o office-boy. E também é aí que a história fica ainda mais estranha e nada exquisita (que é uma coisa “bonita”, em espanhol). A desculpa é feia. Quem conhece bem como funciona uma redação sabe que uma notícia dessas não vai para um site e muito menos para uma edição impressa sem o conhecimento dos que têm alto mando e responsabilidade sobre a publicação. É caso até para acordar o dono do jornal de madrugada. Além disso, o jornal informa que a foto veio da Gtres Online, uma agência desconhecida que tem um site na internet repleto de fofocas sobre celebridades.

É provável que a publicação da foto falsa seja resultado da pressa em dar primeiro uma notícia supostamente espetacular. Esta é uma atitude antiga da imprensa e que se agravou bastante com a invenção da internet. E digo “agravou” porque esta tola presunção de que é preciso saber rápido das coisas acaba dando ao leitor um monte de notícias fragmentadas, num conteúdo difícil de juntar para uma análise séria sobre o que acontece. Isso quando não resulta numa besteira como a publicação desta foto.

E o pior é que este fato mancha a história de um bom jornal, que faz uma ótima cobertura sobre a América Latina e tem noticiado de forma correta os acontecimentos na Venezuela desde antes da doença de Chávez. A notícia falsa deu também uma chance para os partidários do presidente venezuelano se vitimizarem, eles que comandam hoje um regime autoritário tão bem articulado que permite até que haja eleição para manter no poder sempre o mesmo ditador.
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POR José Pires