sexta-feira, 11 de julho de 2014

O deserto cultural de Cuba

Um pianista cubano, Leonel Morales, apresenta-se em Londrina, no Paraná. Vai tocar Rachmaninoff. Fiquei surpreso: ora, um pianista cubano de nível internacional em Cuba? Eis aí algo difícil de existir em um país subdesenvolvido onde não existe liberdade de ir e vir. Fora a questão política básica, do respeito a este direito humano, a falta de liberdade destrói a capacidade técnica em todas as áreas. O aproveitamento do conhecimento é sempre muito limitado num país fechado por um regime político. E já vai para mais de meio século que Cuba está assim. Porém, o pianista Morales é um dos tantos cubanos que tiveram que fugir do país para exercer com qualidade seu ofício e viver com dignidade.

Cuba teve sua cultura aniquilada pela ditadura de Fidel Castro. É complicado fazer arte num país onde uma simples viagem ao exterior exige uma permissão direta do gabinete do ditador. O pais não tem imprensa livre, a internet é controlada e a indústria editorial idem. Televisão e rádio também são estatais. Dessa forma, os canais de informação ficam nas mãos de burocratas da cultura. Imagine a casta medíocre que se formou na área cultural, em décadas de um governo que não admite de forma alguma o pensamento crítico.

Esta é uma boa situação para a meditação de brasileiros da área da cultura que ainda têm alguma ilusão sobre o que acontece em Cuba ou em qualquer país submetido ao comunismo. Quando se vive numa terra com liberdade política e de informação é muito fácil se encantar com a efigie gráfica de um Che Guevara ou fazer propaganda vazia de médico cubano em posto de saúde brasileiro. Em Cuba é diferente. Antes de Fidel Castro, o país tinha uma cultura de qualidade, que foi gradativamente sendo esvaziada a partir do início da década de 60. Em poucos anos tudo foi dominado por um dirigismo ideológico que matou o que havia de bom. Revistas literárias foram fechando ou tornando-se redações de burocratas e a indústria editorial virou fábrica de panfletos ridículos. Jornalistas e escritores foram sendo sufocados ou tendo que sair do país, como aconteceu com o grande Guilherme Cabrera Infante, que foi um revolucionário e depois teve que fugir da ilha.

Quem se encantou com a qualidade dos velhos músicos do Buena Vista Social Club, com artistas populares de alto nível como Omara Portuondo, Ruben González, Compay Segundo, Eliades Ochoa e Ibrahím Ferrer, pode ter uma ideia da destruição cultural feita pelo regime castrista. Estes excelentes artistas só ressurgiram quando o músico americano Ry Cooder os descobriu. Todos estavam afastados desde a revolução, em 1959, e viviam precariamente até o final da década de 90, quando Cooder soube deles.

Mas, voltando ao pianista que está em Londrina, Leonel Morales falou rapidamente de política. Sua saída de Cuba foi "por motivos políticos, profissionais, de todo o tipo”, ele disse, explicando de forma muito objetiva as razões que o obrigaram a abandonar sua terra natal: "Como Cuba era um país onde não havia a possibilidade de sair e entrar, então troquei de país". Hoje ele vive na Espanha.

O escritor polonês Tad Szulc escreveu uma excelente biografia de Fidel Castro.Para isso teve permissão do ditador para pesquisar na própria ilha, onde entrevistou muitas pessoas e, claro, o próprio Castro. Teve uma série de encontros com ele. Ficou meses na ilha, trabalhando na biografia. O livro é excelente e evidentemente Szulc, que morreu em 2001, só aceitou fazê-la tendo relativa liberdade para pesquisar em Cuba, além do que, quando começou a escrever a obra já tinha muito trânsito na política internacional. O biógrafo chegou a ser recebido por John Kennedy, na Casa Branca. É dele também uma biografia do papa João Paulo II. Seus livros tiveram edição brasileira, a biografia de Fidel Castro saiu aqui em 1986.

É de Szulc uma das melhor definições sobre a situação de Cuba, onde ele diz que foi instalado um "deserto cultural". O biógrafo de Castro diz que o clima intelectual e literário da ilha é uma mistura de Cervantes, Kafka e Orwell. Cervantes ele credita ao uso constante pelo ditador da língua do autor de Dom Quixote nas suas famosas, intermináveis e também habilidosas arengas para multidões de cubanos. Kafka é pelo pesadelo na vida intelectual cubana. E Orwell — escritor inglês, autor de “1984”, obra que até já virou símbolo da crítica ao totalitarismo — é pela "aterrorizante eficiência do Estado todo-poderoso e de seu grande líder". Szulc diz que a cultura é obrigada a ter permissão do Estado para existir em Cuba.
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POR José Pires

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Imagem- O ditador e o artista: Fidel Castro e o pianista Leonel Morales, que teve que fugir de Cuba para exercer melhor sua arte

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Seleção rebaixada

Dois jornais europeus de um país muito ligado em futebol demonstram nas capas de suas edições de hoje o desastre do futebol brasileiro. São jornais espanhóis, um deles o famoso diário esportivo Marca. Na passagem da seleção da Argentina para a partida final da Copa do Mundo o destaque é para a rivalidade histórica entre Brasil e Argentina, no que eles estão certos. Esta não é apenas uma rivalidade regional. O confronto entre Brasil e Argentina, com sua influência sobre a cultura dos dois países, adquiriu uma simbologia muito forte no futebol mundial e tem servido inclusive como um chamariz eficiente para as duas seleções. Essa rivalidade acaba favorecendo a uma e outra, chamando a atenção para os dois países no futebol mundial. É o que se vê aqui nessas capas, mas desta vez a forma de tratar o assunto deveria servir para que os brasileiros prestassem um pouco mais de atenção ao sinal vermelho que avisa de um grave perigo: a decadência do futebol brasileiro está num ponto crucial, pondo em risco uma marca cultural importante do nosso país, de grande valor inclusive comercial.

A manchete do El Periodico é fatal. "Argentina no es Brasil", eles dizem, fazendo aqui uma inversão de conceito. Antes era o Brasil que se sobressaia na comparação. Com o sete a um tomado da Alemanha muita coisa mudou. Por mais talentoso que seja o futebol argentino, o Brasil mantinha-se na frente em avaliações mundiais. Tínhamos todo um capital futebolístico criado por gerações anteriores. Nem vou citar nomes, pois são tantas figuras geniais que o post se alongaria bem lá para baixo. Já o diário esportivo Marca dá uma manchete com o aniquilamento do nosso futebol. "Argentina, remata o Brasil", diz a chamada. Na nossa língua também temos o verbo "remata", que possui sentido parecido. No entanto, essa palavra é pouco usada aqui da forma que faz o jornal espanhol. O significado é de dar fim a algo. O jornal fala da condenação dos brasileiros em ver o rival histórico na disputa final em pleno Maracanã. Caso a Argentina seja campeã temos o jargão popular: será "de matar".

A cobertura da imprensa mundial tem sido nesta mesma linha dos jornais espanhóis. É o fim de um ciclo de prosperidade e de grande prestígio do futebol brasileiro. Nesse sentido, o sete a um pode ser visto como um daqueles males que podem ter vindo para o bem. Isso se servir como alerta do perigo. Tem que haver uma consciência dos brasileiros sobre a necessidade de tirar do poder a cúpula de dirigentes que vem gradativamente destruindo o futebol, com altas doses de corrupção e uma aniquiladora incompetência. Entretanto, já armam uma manipulação para tirar o foco da real origem do problema. Fala-se em mudança de técnico, avaliam este ou aquela jogador. Mas o desastre em campo é apenas o sintoma de uma falência generalizada criada pelos péssimos dirigentes do futebol.

No Brasil, esta trágica situação da classe dirigente não é um problema relativo apenas ao mundo esportivo. Na política também vivemos esta terrível situação, sendo que a decadência do nosso futebol tem relação direta com a corrupção e as graves deficiências administrativas do poder público. Uma coisa leva a outra, nas duas mãos dessa patifaria conjunta. O Brasil tem que acordar para esses problemas. Estamos perdendo muito da riqueza construída por várias gerações em nosso país. Agora, pelo que se vê, até o futebol está se tornando uma qualidade do passado.
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POR José Pires

Dilma no padrão Felipão


E eis que surge mais uma daquelas notícias que parecem até inventadas, por isso fomos verificar. E está confirmado. A presidente Dilma Rousseff realmente falou esta besteira. E ela nem tem como dar desculpa alguma sobre a infeliz declaração. A matéria é do jornal O Globo, de junho do ano passado, sendo que muito antes disso já se sabia que o técnico Luiz Felipe Scolari era um blefe. Mas estamos tratando aqui da brilhante analista de futebol que poucas horas antes da catástrofe do Mineirão estava distribuindo fotos dela fazendo o "Ó tois", do Neymar, e combinando com Lula a entrega da taça para a Seleção Brasileira no dia 13 de julho, coincidência incrível com o número do PT.

Na época em que falou isso, Dilma estava vendo sua popularidade cair e pegou o técnico da seleção brasileira como eficiência. "Meu governo é padrão Felipão", ela disse. E não deixa de ter razão nisso. Como o brasileiro sabe muito bem, seu governo vem tomando goleada atrás de goleada. Veja a notícia aqui.
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POR José Pires

quarta-feira, 9 de julho de 2014


Azarando o escrete verde-amarelo

REPUBLICO ABAIXO UM POST DO ÚLTIMO DIA 9 DE JUNHO, ANTES DO PRIMEIRO JOGO DESTA COPA DO MUNDO, QUANDO ALERTEI SOBRE UM PERIGO PARA A SELEÇÃO BRASILEIRA. POIS É, A TORCIDA FICOU PREOCUPADA COM O O MICK JAGGER, MAS O PÉ-FRIO É OUTRO.



Não é de hoje que o ex-presidente Lula carrega a fama de ser um terrível pé-frio no esporte. Já escrevi sobre o assunto outras vezes e até publiquei uma lista impressionante de atletas e clubes que sofreram sérios revertérios depois de um encontro ou alguma manifestação pessoal da parte dele. Mesmo quem é cético neste tipo de coisa acaba se convencendo que o cara é mesmo um seca-pimenteira dos mais perigosos. Para comprovar já publiquei neste blog a lista dos desafortunados que se danaram.

Agora vejam para quem o azarento foi levar a camisa da seleção brasileira. Pois é, numa viagem dele recente para Cuba a camisa do nosso escrete foi parar nas mãos do ditador Fidel Castro. Haja coração, torcida brasileira! A situação dessa Copa do Mundo já não é boa e o Lula ainda arranja mais essa. Mesmo jogando em casa, agora o Brasil vai precisar de sorte dupla para não se estrepar.
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POR José Pires

Incompatibilidades


O desastre da Seleção Brasileira tinha que ter um fecho bastante significativo no dia da derrota de sete a um para a Alemanha: o cartola José Maria Marin expulsou o campeão Cafu dos vestiários do time que ele comanda. Ou melhor, onde ele é o chefão. Cafu foi tentar dar um apoio aos jogadores depois do jogo. A arrogância de Marin não é surpreendente dentro da estrutura da CBD. É esta forma grosseira de lidar com a vida que criou o clima para a humilhação mundial sofrida pelo futebol brasileiro.

A carantonha do cartola não tem mesmo como combinar com a simpatia do Cafu. E este mau humor contagia. Já vejo na internet tentativas de desqualificar as críticas que vieram de tantos brasileiro depois dessa vergonha. Em parte, é a reação de governistas e sua desprezível militância, numa manobra para livrar o governo do PT da terrível enrascada que eles mesmos arrumaram para si. Misturaram política com futebol de tal jeito, que até maquinaram junto com a Fifa para a decisão acontecer no espantoso dia 13, o número do PT. E tomaram na cara. Imposições politiqueiras como esta foram também responsáveis em parte por esta humilhação histórica. São intromissões que fortalecem uma política corrupta e incompetente dentro da CBD e da Fifa. Dessa politicagem resultou o desastre dentro de campo.

E aí vem esta patrulha tentar desqualificar o humor, que deveria ser parte integrante do futebol na hora do jogo. Pior ainda, a patrulha tenta manipular o sentido dessas críticas, como se na gozação os internautas estivessem apontando exclusivamente para o nosso time. É a mesma safadeza do governo do PT, que tentava fugir de sua responsabilidade na desorganização desta Copa do Mundo atacando quem pede respeito e melhor uso do dinheiro público. Nós éramos chamados de "catastrofistas", até que veio esta catástrofe.

As piadas (aliás, muito boas) são contra esta cúpula arrogante e medíocre que está destruindo uma marca importante do nosso país, o futebol. O humor é contra este conluio de cartolas do esporte e cartolas da política, que estão esmagando tanta coisa boa feita no passado e eliminando até nossa capacidade de reação. Precisamos de um resgate do humor, da satisfação e da alegria de fazer as coisas bem feitas e também — viu, patrulheiros? — de um país onde o outro tenha liberdade de crítica e até de fazer a piada que quiser. Queremos um futebol com as portas abertas para gente como o Cafu e onde sejam barrados políticos nefastos como o cartola Marin e seus companheiros.
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POR José Pires

Goleada histórica

Independente do nome que se dê ao sete a um que o Brasil levou da Alemanha, a humilhação do futebol brasileiro é histórica. Na sua edição de hoje, o diário espanhol Sport cunhou um nome novo, "Fracasazo", lembrando a derrota de 1950 no Maracanã, apelidada de "Maracanaço". Repito o que eu escrevi ao final do jogo. Infelizmente tenho que dar razão ao PT. É mesmo a Copa das Copas: o brasileiro jamais irá esquecê-la.

Já existe uma movimentação politiqueira na tentativa de amenizar a avaliação do desastre e fazem isso para evitar que a crítica rigorosa abra caminhos para limpar o futebol brasileiro da incompetência dos cartolas. A manipulação tenta seduzir as pessoas, apostando no antigo hábito brasileiro de refutar verdades amargas e aceitar mentiras que consolam.

E a maquinação não é só da politicagem futebolística. Os cartolas trocam passes com o governo do PT, outro antro de incompetentes que faz o Brasil levar muito mais que sete a um na área da economia, da educação, da saúde, da segurança, da indústria, do trabalho, do meio ambiente e tantos outros setores em que o país perde de goleada. É o governo que conduz o nosso país a uma condição em que profissionais com diploma universitário não sabem ler e engenheiros projetam viadutos que caem em cima das pessoas antes de serem inaugurados.

Encarar este sete a um como um acaso da vida só vai ajudar esta liderança fracassada a se manter no poder. O único jeito de virar este jogo é aceitar a realidade deste desastre e construir uma realidade nova sem estes incompetentes mandando no futebol e no país.
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POR José Pires

terça-feira, 8 de julho de 2014

Vale tudo

Ah, esses petistas. Essa gente é capaz de qualquer coisa para ganhar eleição. Não é só de ser feliz que eles não têm medo algum. Eles não têm medo nem do ridículo. Hoje apareceu uma foto da presidente Dilma Rousseff posando fazendo um "t" com os braços. É claro que é coisa de marqueteiro. Eu soube depois de ver a imagem que o gesto é relacionado a um modismo que Neymar fez pegar entre seus fãs. É um tal de "é tois", que significa simplesmente "é nóis" ou serve como afirmativa para a tchurma, entende? Pois é, são aquelas coisas de moleque que hoje em dia infelizmente contaminam em excesso a cultura brasileira.

E Dilma embarcou na onda tentando pegar carona na popularidade de Neymar. De olho na sua reeleição, ela mandou ver num "é tois", espalhando a foto em que imita o gesto do jogador que, soube também agora, é um sucesso nas redes sociais.

É como eu disse: essa gente é capaz de tudo. Faz algum sentido uma senhora que até agora procurava passar a imagem de pessoa da maior seriedade entrar numa onda dessas? Isso é coisa que não cairia bem nem para o candidato Aécio Neves. E olha que o tucano tem uma imagem muito mais desinibida que a Dilma. Mas a presidente entra em qualquer uma que assoprem em seus ouvidos. Não tem personalidade alguma. Qual é a diferença entre Dilma fazendo o tal do "é tois" e rezando numa missa, como ela fez na eleição passada? Nenhuma. Para ela o sinal da cruz é a mesma coisa que o do "é tois". O negócio é se enturmar, entende?

E é claro que nos dois casos ela também não sabe o que está fazendo. Assim como não tem idade e muito menos personalidade para um "é tois", nunca foi novidade que Dilma jamais foi religiosa. No entanto, na eleição de 2010 lá estava ela numa missa. Tanto não era seu lugar de costume que ela acabou fazendo errado o sinal da cruz e ainda por cima no momento errado. Até agora a presidente ainda não fez foto em nenhuma igreja, mas acho bom sua assessoria tomar cuidado. É capaz dela fazer o "é tois" no lugar errado.
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POR José Pires

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Imagem- Dilma faz o "é tois" e perde o momento de fazer o sinal da cruz numa missa: para ela é tudo a mesma coisa.

segunda-feira, 7 de julho de 2014


O PT quer a taça só pra ele

O final da Copa do Mundo é no dia 13 de julho. Interessante o número do dia que escolheram para o jogo que vai definir o campeão, não é mesmo? Tive a minha atenção chamada para isso numa fala do ex-presidente Lula, em um daqueles discursos bem safados que ele costuma fazer. Foi na última quinta-feira, numa plenária do PT no Paraná. Depois de atacar bastante os que não fazem parte da claque governista, ele disse o seguinte: "Para a desgraça deles, o Brasil vai ser campeão do mundo no dia 13”. Ele estava falando de “pessimistas”, que é a definição que arrumaram para qualquer um que exerça o pensamento crítico neste país. É óbvio que isso é uma determinação do marketing da campanha para a reeleição de Dilma Roussef. A jogada é tachar a oposição de pessimista, rotulando de inimigo da pátria quem critica a incompetência e a roubalheira do governo do PT.

Eu acho até que Lula falou demais. No plano do marketing, que já começou na marotagem da definição junto com a Fifa de um dia com este número, é mais provável que o planejamento previa esperar o que vai dar neste dia 13 e só então colocar nas ruas o material de campanha ligando a vitória da Seleção Brasileira ao PT. Antecipar algo assim é expor-se a um risco. O problema é que Lula não se aguenta e mais uma vez deu com sua língua presa nos dentes.

Mas se acontecer mesmo do Brasil ser campeão — que vai depender mais do acaso do que de futebol — a maquinação sórdida poderá dar um resultado favorável não só à candidatura de Dilma, como também servirá para abafar as críticas ao governo, especialmente na questão da desorganização e o faturamento escandaloso de empreiteiras com as obras da Copa. Com o time brasileiro vitorioso ficará difícil apontar os problemas deste evento e seus custos financeiros enormes, que terão desdobramentos negativos futuros na nossa economia. Depois dessa Copa não será preciso correr atrás do prejuízo, ele que virá ao nosso encontro. No entanto, a algazarra popular de uma vitória da Seleção Brasileira impedirá que se fale de outra coisa que não seja futebol. E a manipulação dessa euforia pode durar muito tempo, chegando até bem perto da eleição.

Imaginem a escandalosa agitação que não fariam os petistas se num governo do PSDB a Copa do Mundo tivesse um momento muito forte relacionado ao número 45. Essa militância ridícula vê conspiração até em nome de novela. E azucrinaram para forçar o TSE a implicar com a TV Globo no aniversário de 45 anos da emissora. É claro que fariam um escarcéu com algo assim na Copa.

Pois Lula armou essa junto com a Fifa. A partida decisiva será exatamente no dia do número de seu partido. A festa petista da manipulação já deve estar toda pronta, com camisas da seleção com o número 13, cartazes, folhetos, encenações de rua e tantas outras agitações populares inventadas para serem filmadas e usadas na campanha eleitoral. Caso o Brasil seja campeão vão tentar caracterizar isso como obra do governo. O PT preparou uma engambelação política mais sórdida do que a feita pelo governo Médici, na ditadura militar. Mas falta algo neste plano e é aquilo lembrado pelo grande Garrincha, depois de uma preleção em que o técnico disse tudo o que eles iam fazer contra a Rússia, em 1958. Só que desta vez não tem que combinar com os russos. O PT precisa combinar com os alemães e depois com o outro time que estará na final.
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POR José Pires


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Imagem- A candidata do PT, Dilma Rousseff, e Joseph Blatter, presidente da Fifa.

sábado, 5 de julho de 2014

A ditadura do futebol e o abafamento da realidade

Não é difícil entender a razão de milhões de brasileiros se ocuparem com um incidente ocorrido em um campo de futebol — de uma forma muito parecida com tantas outras agressões habituais dessa atividade — e pouco se importarem com outro acontecimento muito mais grave e também relacionado a esta Copa do Mundo: a queda do viaduto em Belo Horizonte, que matou duas pessoas e feriu dezenove.

No Brasil, vivemos numa ditadura comercial do futebol. É uma ditadura tão absoluta que até abafa os outros esportes. Eu já falei outras vezes dessa máquina que está em andamento e que força a deixar pra lá tantos assuntos mais importantes, entre eles a morte de pessoas comuns, ocorrida em uma situação muito mais relacionada com a segurança pessoal de todos nós do que um embate entre milionários de calção. Afinal, todo mundo passa embaixo de viadutos, não é mesmo? Inclusive atletas ricos e famosos. Já uma dividida na grama é opção pessoal. E quem está nisso profissionalmente sabe que não é no campo do respeito humano que rola a bola.

O que ocorreu entre Zuñiga e Neymar é obviamente lamentável, mas não está fora do padrão do futebol. A diferença entre esta agressão e tantas outras foi a consequência, que parece ter sido muito mais grave do que costuma acontecer na rotina de deslealdade e violência entre os jogadores. Se Neymar tivesse saído apenas levemente contundido a reação da torcida viria só na forma de piadas. Mas, afinal, moralmente é ou não a intenção que vale?

Outra diferença é o grau de indignação, que é sempre relativo ao time em que o agressor e o agredido jogam. Esta diferença é que determina se um jogador violento será definido como brigador, combativo, aquele que realmente veste a camisa ou será xingado de macaco e de outros insultos.

Hoje em dia o futebol profissional nem pode ser tido como um esporte. É uma atividade meramente comercial em que se vê em campo os piores exemplos humanos. Onde deveria existir a camaradagem e a construção de um espetáculo promovido em conjunto, por dois times e duas torcidas, na verdade acaba sendo explorado um antagonismo agressivo. Na maioria das vezes é uma guerra, que costuma inclusive ser transferida para as ruas nos quebra-quebras de torcedores. Não é à toa que já se tornou uma convenção mesmo entre torcedores pacatos o tratamento mútuo por meio de pejorativos. Também é parte disso o fato da corrupção no meio futebolístico ser tolerada e até tratada de forma pitoresca e também o engodo durante o jogo ser visto com simpatia.

Rodeiam o futebol más influências para a consciência humana e os mais destrutivos produtos industriais. É uma atividade centrada na ambição da acumulação rápida de fortunas, sem nenhuma responsabilidade sobre o que isso vai ocasionar na vida dos outros. O que vale é o interesse pessoal. Até gestos de solidariedade fazem parte de projetos de marketing. Bananas atiradas em campo, que parecem ser contra o preconceito, são na verdade para alimentar a vaidade de um ídolo. Os produtos vendidos por jogadores e apoiados nas marcas de times são em sua maioria uma desgraça para a saúde, em séria contradição aos objetivos de qualquer esporte. No geral, são porcarias que nada acrescentam de bom à economia do país e muito menos para a vida das pessoas.

Pouquíssima coisa que presta sai da mão desses mercadores, mas tem até a desgraça do consumo excessivo de bebida alcoólica, agora com um reforço nesta Copa do Mundo, depois que a Fifa derrubou a lei que impedia a venda de cerveja nos estádios. Se for feita a conta do estrago causado por todos esses estímulos a uma vaidade tola, à ambição desmedida pelo dinheiro e a venda incessante de porcarias, o resultado será certamente um grande prejuízo para o Brasil. Mas pode ser ainda pior. Existe sempre o risco de um viaduto desses cair perto demais da vida da gente.

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POR José Pires

Os profissionais da indignação seletiva

A revista Forum é uma das publicações que servem ao governo desde que o PT alcançou o poder. Neste número que está nas bancas é possível ver como funciona a indignação seletiva desses meios de comunicação governista para mascarar objetivos que tem mais a ver com propaganda política do que com jornalismo. Nesta edição, eles publicam uma matéria sobre a anunciada aposentadoria política do senador José Sarney que, como todos sabem, é aliado do governo do PT desde a campanha eleitoral de Lula de 2002. Sarney foi um dos políticos que mais ajudou Lula a vencer sua primeira eleição e também deu apoio na reeleição e depois na eleição de Dilma Rousseff, não sem garantir nesses 12 anos uma valiosa cota de cargos no governo, entre eles o precioso Ministério da Energia, que sempre foi dele.

A revista governista mostra nessa matéria sobre Sarney uma interessante variação da indignação seletiva, que não se restringe a atacar ou não um político. Nesta indignação controlada também existem graus que influem no contexto de uma denúncia. Dessa forma, eles até falam na matéria sobre o férreo controle político do clã Sarney há décadas no Maranhão. Citam inclusive a dinheirama que a Polícia Federal encontrou em março de 2002 em um escritório de Roseana Sarney e seu marido, Jorge Murad. Na época, descobriram R$ 1,3 milhão em notas de cinquenta reais, o que destruiu as pretensões presidenciais de Roseana, que estava à frente nas pesquisas eleitorais.

A matéria da Forum faz um retrospecto da carreira política de Sarney e seu imenso poder, que vem desde sua colaboração com a ditadura militar. É um político que sempre esteve escorado em algum governo e fazendo uso dos cofres públicos. Porém, a revista governista não traz a informação essencial sobre a sustentação deste poder, que é a estreita relação política do senador nesses últimos 12 anos com o governo do PT. Qualquer texto sobre a carreira política de José Sarney tem que ter como base a sustentação mútua entre ele e o PT, sem a qual provavelmente ele seria hoje um político do baixo clero e talvez tivesse até sido preso.

A ligação dele com o governo petista é ainda mais importante como informação numa matéria desta porque é preciso levar em conta que o ataque ao poder político de Sarney sempre foi um elemento essencial na pauta do PT antes da primeira eleição de Lula. A denúncia de oligarquias como a do cacique político maranhense teve um peso eleitoral no crescimento do PT, contribuindo afinal na vitória de Lula para presidente da República. Foi com este discurso que os petistas ganharam a confiança de uma ampla parcela do eleitorado que desejava ver o país livre do domínio nefasto desse tipo de político.

No entanto, na matéria da Forum não entrou a relação muito próxima — até fraterna — entre Lula e Sarney, com a poderosa participação de seu grupo político no governo do PT. É a demonstração prática da técnica da indignação seletiva, uma manipulação que até em matérias de denúncia exige uma seleção no conteúdo do texto, com o corte criterioso de qualquer fato que possa afetar o governo, mesmo que a informação eliminada seja essencial na compreensão histórica do assunto. Nesse tipo de jornalismo a submissão ao poder está sempre acima do respeito ao leitor.

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POR José Pires

Na internet costumam aparecer uns rastros estranhos. Fiz o texto acima sobre a matéria da revista governista Forum sobre o senador José Sarney, um material manipulado que evita qualquer menção à parceria dele com o governo do PT. É claro que o texto da Forum deve ter sido bastante discutido por altas esferas antes da publicação. Pois vejam o que notei no endereço da reportagem na internet. Está mais para um aviso do que identificação de matéria. Vejam na imagem e no link que publico novamente. O texto é este: http://www.revistaforum.com.br/digital/153/degringolada-imperio-sarney23-nao-editar-ainda/. Muito interessante este "nao-editar-ainda". É de suspeitar que a redação estava à espera da aprovação de alguém muito poderoso.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Um dia qualquer num ônibus do Alabama

Neste 2 de julho é comemorado nos Estados Unidos o dia da instituição da Lei de Direitos Civis, que pôs fim à discriminação racial. A lei completa 50 anos. Ela foi assinada em 1964 por Lyndon B. Johnson, mas o trabalho para que fosse alcançada começou muito antes e teve um impulso importante na atitude de uma mulher, em 1955, no Alabama, um dos estados americanos mais racistas naquele tempo. Foi algo que hoje pode ser visto como muito simples, mas que era de uma complicação danada naquela época: um negro recusar-se a dar seu assento a um passageiro branco. Este era o costume. Estando ocupados nos ônibus todo os bancos reservados aos brancos, os negros deviam ceder o lugar. No dia 1 de dezembro de 1955, em Montgomery, Rosa Parks (1913-2005) recusou-se a fazer isso. Junto com o marido, Raymond Parks, ela já era membro da Associação Nacional Para o Desenvolvimento das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês). A associação existia desde 1909. Foi depois de participar de um seminário da associação que ela tomou esta atitude histórica.


O gesto corajoso desencadeou todo um processo de luta, mas é preciso ter em conta que foi necessário muito empenho e organização para que disso resultasse uma das leis mais importantes da democracia americana, além de um marco universal dos direitos humanos. O avanço desta ideia exigiu lideranças capazes, entre elas a de Martin Luther King (1929-1968), personalidade que se sobressaiu nesta luta. Foi preciso também a habilidade que ele teve de evitar que correntes radicais do movimento negro apelassem para uma violência que só agravaria o problema racial.

Faço essa ressalva sobre a necessidade da aplicação de inteligência e suor em uma ação política porque sei muito bem que existe uma tendência de se acreditar que transformações políticas são geradas naturalmente, a partir de acontecimentos banais. Com a internet e as redes sociais aumentou ainda mais essa visão ingênua de que a realidade pode ser mudada a partir de um estalo (ou um clique).

E nunca foi assim, muito menos na reação à severa segregação racial imposta nos Estados Unidos, desde que o primeiro negro pôs os pés naquele país na condição de escravo. Tampouco foi uma luta unilateral, com negros bonzinhos contra brancos maus — ou a "elite branca", na cretina definição da esquerda brasileira, numa realidade de tolerância social, como a nossa,  que devia ser vista como virtude nacional. Entre os negros americanos, como eu já disse, havia até uma posição de reação pela violência, que felizmente foi anulada. A transformação de qualidade na democracia americana se deve à atuação de brancos e negros, gente de espírito livre e de boa vontade, sem as quais mudança alguma acontece.

Antes do admirável gesto de Rosa Parks, por exemplo, já havia sido estabelecida uma lei para as Forças Armadas que definia um tratamento igual para todos naquela instituição, independente de religião, nacionalidade, raça ou a cor da pele. A Suprema Corte também já decidira por unanimidade pela inconstitucionalidade da segregação nas escolas públicas. Mesmo no conjunto da nação americana existiam fortes diferenças em cada estado no tratamento aos negros. A Lei dos Direitos Civis foi uma solução federal, pondo fim aos sistemas legais e costumes segregacionistas em qualquer estado americano.

E aqui trago uma questão, antes que ela apareça na forma de azucrinação militante: estaria eu tentando diminuir o papel do movimento negro e de seus líderes no fim da segregação racial e o surgimento da Lei de Direito Civis? É óbvio que não. Procuro apenas apontar a unidade humana em qualquer ação de qualidade nas relações entre as pessoas. Até porque naquele estado americano em que Rosa Parks negou-se a dar seu lugar a um passageiro branco, com certeza também não deve ter sido nada fácil a vida de um branco sem preconceito racial. E eles estavam lá, alguns até nos assentos reservados aos brancos. 
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POR José Pires

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Imagem- Rosa Parks, que tomou a atitude que deu início a um movimento de transformação social, tendo ao fundo o homem que assumiu a liderança deste processo: Martin Luther King.

terça-feira, 1 de julho de 2014

O mito em xeque

No último dia para a oficialização das alianças dessas eleições, Paulo Maluf abandonou a candidatura do petista Alexandre Padilha ao governo de São Paulo e se bandeou para a de Paulo Skaf. Ele desmanchou uma aliança que já havia sido fechada, até com pose dos dois para fotos da imprensa. O problema do ex-ministro da Saúde é que sua candidatura não decola de jeito nenhum. Mas com esta derrocada prematura é de se fazer um questionamento: e o tão falado carisma de Lula? O que se diz sempre é que ele tem o dom pessoal de resolver qualquer parada eleitoral.

O desmascaramento dessa lorota vem num péssimo momento para o PT. A presença de Lula em palanque sempre é brandida como um remédio mágico em qualquer dificuldade eleitoral. É quase uma ameaça, como vem acontecendo em relação à queda de popularidade de Dilma Rousseff. Com o esvaziamento da sua reeleição, a entrada de Lula resolveria a parada de imediato. Esta é a tese petista. Furada, como se vê nesta complicação que ocorre no próprio estado de Lula, onde nasceu seu partido e ele começou a carreira política.

O tão falado carisma de Lula não resiste a uma comparação entre ele e seus adversários, nas disputas eleitorais importantes em sua carreira. Pode-se começar com sua derrota na primeira eleição direta que tivemos para presidente, quando foi eleito Fernando Collor. Ora, o que não se duvida de forma alguma é que naquela eleição o político mais carismático era Leonel Brizola. Basta ver os vídeos da época para constatar isso ainda hoje. Acontece que, apesar de ser uma boa referência em política, carisma não é definidor único de eleição e na maioria das vezes nem é o requisito principal. Foi o que aconteceu com falecido político gaúcho. Os petistas adoram falar numa suposta maquinação que tirou a vitória de Lula nesta primeira eleição, mas a única maquinação sobre a qual não resta nenhuma dúvida foi a que tirou Brizola do segundo turno e colocou Lula como adversário mais fácil para Collor.

Ninguém pode negar capacidade política a Lula e nem a força eleitoral de sua personalidade, principalmente depois da guaribada que o marqueteiro Duda Mendonça deu nele em 2002. Porém, a construção do mito Lula exigiu muito mais do a sua suposta simpatia. A cúpula do PT criou uma máquina de ganhar eleição, para isso passando por cima inclusive de petistas que pretendiam construir um partido com um diferencial político. Depois de esmagada a democracia interna, o partido se soprepôs ao que houve de pior na política brasileira em matéria de uso da máquina pública. E alcançando o poder instrumentalizou o Estado em função dos objetivos do partido.

E o carisma? Se formos ver isso como decisivo em política, então o político mais carismático dos últimos tempos deve ser Fernando Henrique Cardoso. Ele ganhou duas eleições do próprio Lula no primeiro turno. Já o petista só se elegeu presidente em segundo turno e sempre em campanhas muito caras. E ele teve à frente adversários tidos como políticos de pouquíssimo carisma, José Serra e Geraldo Alckmin. Eleição se ganha com organização partidária, infraestrutura e dinheiro. E Lula teve tudo isso de sobra nas duas vezes em que foi eleito. Carisma algum resolveu a a eleição, muito menos no primeiro turno. E nas duas vezes ele disputou com larga vantagem desde o início.

Em 2002, Lula vinha da mais longa exposição de imagem já explorada por um candidato em eleição presidencial. Teve tempo de sobra para ficar conhecido no país todo. Foi mais de uma década com o PT trabalhando exclusivamente seu nome. Pois mesmo assim foi obrigado a ir para o segundo turno, forçado por José Serra, na época com um perfil político visto como pouco popular. Mas o pior teste do tal carisma de Lula foi na eleição seguinte. Novamente ele foi para um segundo turno, desta vez levado por Alckmin, um adversário tão frio que até recebeu o apelido de “picolé de chuchu”. E Lula estava no poder, fazendo uso da máquina pública com a desfaçatez bem própria dele. E nesta eleição ele ainda foi favorecido por uma campanha muito mais rica que a do adversário. Isso nunca é lembrado. Em 2006, a campanha de Alckmin custou R$ 45,78 milhões. E Lula teve muito mais grana para gastar: R$ 75 milhões. Carisma, é? Ora, o PT vai ter que arrumar outra lorota.
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POR José Pires

segunda-feira, 30 de junho de 2014


Regime de camisa de força

O tal do bolivarianismo que tomou conta pela força da Venezuela é mesmo um mundo à parte, que não respeita nem regras do bom senso. Na verdade, nem o senso do ridículo consegue penetrar na fechada corte política que hoje controla o país. O presidente Nicolás Maduro dizia que fez contato com o falecido Hugo Chávez por meio de um passarinho e é provável que ele acredite mesmo que teve esse tipo de comunicação com o chefe. O bolivarianismo não cabe numa ideologia. É coisa de hospício.

Neste sábado tivemos mais uma demonstração do grau de doidice daquele governo. Foi celebrado por lá o Dia do Jornalista, quando concederam vários prêmios. A premiação foi feita por um tal de Movimento Jornalismo Necessário, que parece ter uma semelhança de propósito com jornalistas governistas brasileiros que pregam o controle da informação. Os sites e blogs sujos que servem ao governo do PT iriam se dar muito bem no regime chavista.

Na premiação, até o presidente Nicolás Maduro foi contemplado com uma menção especial "por seu destacado trabalho no Twitter". Mas o prêmio mais significativo foi do ministro do Interior, general Miguel Rodríguez Torres, a autoridade do governo bolivariano encarregada de reprimir os protestos que já duram três meses naquele país. Já aconteceram prisões seguidas de maus tratos e torturas, além de mortes de manifestantes. A repressão é violenta, inclusive com ativistas da oposição sendo alvo de espancamentos e tiros disparados por agentes do governo e militantes governistas.

Pois Rodríguez Torres recebeu o prêmio de "comunicador do ano". E a justificativa para a bizarra homenagem ao general? Foi por ele “informar de forma oportuna e verdadeira sobre os acontecimentos violentos". É do mais pesado humor negro, mas não tem como não rir. Como é que se diz "piada pronta" em espanhol? Mas o grotesco ficou ainda mais, digamos assim, apurado, com a revelação feita pelo militar das fontes filosóficas que segue para dizer sempre a verdade: "Os dez mandamentos, as palavras de minha mamãe e o código de honra do cadete". São palavras literais do premiado. Eu bem disse pra vocês: é difícil identificar a ideologia de um governo tão amalucado.
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POR José Pires

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Imagem- No recorte do jornal espanhol "El Mundo", Nicolás Maduro e o ministro do Interior, general Miguel Rodríguez Torres, o “comunicador do ano” da Venezuela.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Piração no Paraná

Já falei aqui da surpresa do PMDB ter decidido pela candidatura de Roberto Requião ao governo do Paraná. O partido já era tido como aliado garantido de Beto Richa para sua reeleição. A decisão é uma interessante reviravolta política, mas tem um problema: o próprio Roberto Requião. Os paranaenses de bom senso sentem até arrepios em pensar na volta ao governo de um dos políticos mais abilolados e autoritários deste país. Requião parece o maluco do Suárez. Na política é igualmente um craque, mas o problema é que ele também morde.

A personalidade complicada de Requião já alcançou fama nacional, com situações pitorescas, como o dia em que o presidente Lula mostrou-lhe uma cumbuca com sementes de mamona. Sem pensar, ele meteu um punhado na boca e mastigou como se fosse um petisco. Teve que cuspir de imediato a semente tóxica. E ele tem também seu lado autoritário, que mostrou muitas vezes, uma delas nos corredores do Congresso Nacional, quando roubou o gravador de um repórter depois de se incomodar com um questionamento.

Daí o frio na espinha que causa a possibilidade da sua volta. Antes do governo atual, Requião teve dois mandatos como governador. Foram anos conturbados no Paraná, um longo período de conflitos e trapalhadas, com ele se metendo em tudo, de forma agressiva e abusando de seu poder. Muito mandão, ele desautoriza secretários, desmerece o trabalho do funcionalismo público e até humilha subordinados e pessoas humildes publicamente. Durante seu governo ele inventou uma reunião semanal em um auditório com secretários e funcionários graduados. O evento era motivo de chacota e era chamado pelos paranaenses de "Escolinha do Professor Raimundo". Tem esse lado jocoso, mas era também um ritual de humilhação, com Requião dando de dedo em secretários e fazendo piadas grosseiras, com tudo isso sendo filmado e transmitido pela emissora estatal de TV.

Foi um tempo de eterno quiproquó no Paraná, com o governador sempre criando encrencas com alguma área do funcionalismo ou da iniciativa privada. Nesses oito anos de conflitos sobrou pancada até para as universidades públicas. O Paraná tem universidades estaduais de bom nível, como a UEM, de Maringá, e a UEL, de Londrina. No plano nacional, Requião busca compor uma imagem progressista de defensor da Educação, mas com ele as universidades sofreram muito. O que professores e servidores recebiam do governador eram insultos. Requião chegou a brigar com comissões de professores que buscavam diálogo para resolver problemas salariais e de manutenção do ensino superior. De estilo extremamente centralizador, no final de seu governo até autorização de viagem de professores para estudos e pesquisas ele puxou diretamente para si. E é claro que não decidia nada.

Suas confusões com os professores universitários foram parecidas com as que teve com funcionários públicos de outros setores, além das encrencas com empresários, prefeitos e qualquer um que não baixasse a cabeça. Sua forma de governo era um caos administrativo e político, com ele no centro colocando nos outros a culpa de problemas que eram de sua responsabilidade. Sua candidatura traz a possibilidade da volta dessa desagradável confusão. A Copa do Mundo já ficou livre do maluco do Suárez. Agora é o Paraná que corre o risco de levar umas mordidas.
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POR José Pires

terça-feira, 24 de junho de 2014

Já vai tarde

O senador José Sarney é um histórico estraga-prazeres. Quando o Brasil saia da ditadura militar, em 1985, esperava-se com a eleição de Tancredo Neves um reordenamento da vida política brasileira. Mas aí aconteceu com a saúde dele aquilo que todo mundo sabe. Para um país que tinha esperança de começar a traçar um caminho mais decente foram dois choques: a morte de quem encarnava esta esperança e aparição súbita de um político desprezível, que estava como vice de Tancredo exatamente pela deslealdade que tivera com os militares que deram sustentação à sua carreira política e até ali davam o reforço das armas para seu domínio sobre o estado do Maranhão.

O estraga-prazeres era José Sarney, que acabou assumindo a presidência. O país ainda vivia o temor de um retrocesso político e por isso não conseguiu tomar a medida mais certa, que era chutar Sarney para o lixo da História, dar a posse ao presidente da Câmara dos Deputados e seguir os trâmites legais da redemocratização. Bem, quem estava lá naquela época sabe que essa medida que hoje parece tão simples era de uma complicação sem tamanho para aquele Brasil ainda com os coturnos às suas costas. Com Sarney, em vez de um reordenamento de qualidade armou-se no governo a máquina da corrupção e da incompetência que aí está até hoje.

Nesta segunda-feira, Sarney anunciou que não vai tentar a reeleição ao Senado. É mesmo um estraga-prazeres. Vai tirar o gostinho dos eleitores do Amapá de chutar-lhe o traseiro pelo voto, dando também ao país a satisfação de uma limpeza de forma objetiva, sem a chance dessa fuga de uma derrota certa desta vez. Sua eleição ao Senado em 2006 já foi por pouco. Por pouco não foi derrotado pela então desconhecida Cristina Almeida, do PSB. Mas o jogo foi pesado. Sarney fazia dobradinha com Lula, com quem depois deu seguimento ao usufruto do poder sem nenhum escrúpulo, um projeto de vida que se deu muito bem com a forma do PT fazer política.

A própria situação de Sarney como senador do Amapá é uma demonstração do estado de decadência ética da política brasileira e até da falta de respeito à regras básicas, tal como o político residir de fato no seu assim chamado "domicílio eleitoral". Sarney nem aparece no Amapá, estado onde ele já ganhou três mandatos. Em 2013 esteve apenas duas vezes na capital, Macapá. A casa onde legalmente é seu domícilio eleitoral está fechada. Nesta última segunda-feira ele esteve no estado e foi bastante vaiado numa cerimônia, ao lado da presidente Dilma Rousseff. O anúncio da sua desistência veio logo depois da notícias das vaias. É uma saída melancólica da política, mas não deixa de ser também melancólica para o Brasil, um país que não teve meios para impedir pelas vias legais e pelo voto uma carreira política tão nefasta.
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POR José Pires

Quiproquó na direita

No Facebook costuma acontecer muita confusão, mas eu nunca tinha visto um arranca-rabo como o que vem ocorrendo entre Olavo de Carvalho e parte de um pessoal em torno dele. Sua página vive lotada, no limite dos cinco mil e ele tem 65 mil seguidores. Mas sempre está abrindo alguma vaga, pois um questionamento pode levar o professor de filosofia a excluir o petulante. Esta eliminação pode ser precedida de uma bronca feia, inclusive com xingamentos.

Assim vem sendo neste novo atrito, de maior volume que os anteriores porque vem juntando gente em torno da polêmica, com um dos lados fazendo um retrospecto da tirania do mestre sobre os que o cercam. Os alvos dos ataques de Carvalho são Francisco Razzo e Gustavo Nogy, dois jovens expoentes do pensamento de direita.

O aborrecimento de Carvalho começou com uma entrevista de Razzo ao site “O Camponês”, onde se falou sobre a ampliação do espaço intelectual da direita no Brasil. Razzo citou então vários pensadores e acabou deixando de lado o nome de Olavo de Carvalho. Esta omissão causou um descontentamento entre seus admiradores, alguns deles alunos que o seguem com fanatismo. A fúria do professor veio com um post publicado por Razzo, procurando esclarecer o que disse na entrevista. O post foi linkado com entrada na página de Carvalho e daí veio todo o quiproquó.

Gustavo Nogy entrou na história apenas por ter escrito um breve post solidarizando-se com Razzo e fazendo uma rápida análise, quando afirmou que também para ele Olavo de Carvalho não era uma influência determinante. Fez isso com o maior respeito e vem afirmando sucessivamente sua grande consideração pelo papel político e intelectual de Carvalho. Mas só vem recebendo pauladas.

Olavo de Carvalho não deixa de ter razão em se aborrecer com dois jovens que fazem uma leitura equivocada até das suas próprias situações pessoais na atualidade. Razzo e Nogy estão para lançar seus primeiros livros, após um relativo sucesso na internet. Sem dúvida, não teriam esta projeção hoje em dia para expressar suas ideias se não tivesse existido o longo trabalho anterior de Carvalho na criação do espaço que se abriu para o pensamento de direita. Sua atuação foi de início numa dureza total e um isolamento intelectual suportados com uma fibra admirável. Nada contra que um jovem direitista aponte um Leo Strauss, um Allan Bloom ou até mesmo um Aristóteles como essenciais na sua formação pessoal, mas é óbvio que não foi deles e nem de quaisquer outros a conquista direta do espaço que o pensamento de direita tem atualmente no país.

Isso se deve em grande parte a Olavo de Carvalho, que apesar da ranzinzice insuperável é um dos textos de maior qualidade que já se teve no país e um pensador que trouxe questionamentos essenciais à esquerda no poder. De insuperável também são minhas divergências com suas posições políticas em muitos aspectos, a começar pelo religioso, mas na minha visão o país tem a ganhar com um espaço intelectual aberto para o pensamento de direita. O debate nacional precisa de conservadores que pensem com razoável qualidade.

O problema de Carvalho nesta polêmica foi a desproporção de sua reação em relação aos fatos. Apesar de sofrer ataques grosseiros, Nogy vem respondendo de forma rigorosa e com boa educação aos questionamentos que surgem em sua página. O professor de filosofia mantém até agora a mão pesada nos seus posts. No final, foi feito um furdunço de uma questão que poderia ser desenvolvida em um debate equilibrado. Bem, mas aí o Olavo de Carvalho não seria o Olavo de Carvalho. No entanto, o resultado disso pode ser muito ruim para seu próprio trabalho, que até aqui vem prosperando de tal forma que afeta até o poder da esquerda. Ele mesmo pode ter criado dentro da ala mais inteligente da direita brasileira um racha que nem seus adversários sonhavam.
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POR José Pires