segunda-feira, 8 de setembro de 2014


Entre amigos

Aleluia, o crescimento de Marina faz cada milagre. O Lula até começou a ler. A situação complicada criada para o PT fez ele pegar o programa de governo da candidata do PSB para dar uma olhada. Lula diz que vem lendo atentamente o texto. As palavras dele: "Estou destrinchando o programa da Marina, o programa econômico", ele disse e fez uma crítica pesada, com o estilo manjado de apontar nos outros defeitos que sempre são maiores nele: "Não sei se a companheira Marina leu o programa que fizeram para ela. Se ela leu, significa que não aprendeu nada nas discussões que fizemos quando ela estava no partido".

No meio disso, Lula disse também que "governar um país não é um clube de amigos, é a gente saber com quem vai governar e para quem, qual a orientação econômica deste país". A fala vem claramente de uma estratégia de desmonte da candidatura de Marina, colocando suspeitas sobre sua capacidade de formar um governo. O problema é que a retórica eleitoreira petista bate de frente com as novas denúncias que saíram do depoimento de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras que está preso e entrou no programa de delação premiada.

Segundo a revista Veja, Costa já entregou os nomes de três governadores, de um ministro de estado, de um ex-ministro, de seis senadores, de 25 deputados e de um secretário de finanças de um partido. Evidentemente são todos da base aliada do governo. Ele disse também que o ex-presidente sempre soube de tudo. A roubalheira denunciada pelo ex-diretor da Petrobras começou no governo de Lula. E cabe lembrar que durante seu governo a presidente Dilma Rousseff foi ministra de Minas e Energia e presidente do Conselho da Petrobras. Já naquela época, a estatal era de sua responsabilidade direta. Foi parte do esquema a compra por valores muito altos da Usina de Pasadena e desta maracutaia Dilma tentou se livrar dizendo que de nada sabia. Agora são tantos nomes envolvidos em tanta corrupção na estatal que só dá para acreditar na honestidade de Dilma se ela declarar publicamente que é idiota.

Lula e seus marqueteiros haviam preparado essa conversa de "destrinchar" programa econômico e com certeza criaram uma porção de frases de efeito para apontar uma incapacidade de governabilidade em Marina. A imagem do "clube de amigos" com certeza saiu de reuniões de campanha, isso se não foi dica de algum amigo dele, como o Collor, o Maluf ou o Sarney. Com a delação premiada de Paulo Roberto Costa esse papo virou lixo retórico que não convence. A fala devia ter sido descartada, mas não deve ter dado tempo. A sucessiva corrupção atropela a construção do discurso do chefão do PT. Junto com seus marqueteiros ele terá de encontrar novas enganações para substituir esta lorota derrubada por mais um escândalo.
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POR José Pires

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A governabilidade do PT

Justo quando a presidente Dilma Rousseff vem batendo em seu programa eleitoral que "para governar é preciso apoio no Congresso" aparece a notícia sobre os políticos delatados pelo ex-diretor de Abastecimento e Refino da Petrobras Paulo Roberto Costa à Polícia Federal. Ele disse que que três governadores, 12 senadores, um ministro de Estado e pelo menos 49 deputados federais levaram dinheiro dos cofres da estatal. É claro que são todos da base aliada do PT no Congresso.

É o apoio de Dilma para governar. O ex-diretor da Petrobras disse à polícia que as empreiteiras contratadas pela estatal eram obrigadas a contribuir para um caixa paralelo destinado a partidos e políticos da base aliada do governo petista. É essa bancada de ladrões, roubando a Petrobras debaixo dos olhos do governo, que Dilma tem para dar sustentação ao seu governo.
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POR José Pires

O eleitor brasileiro está tendo a chance de observar fenômenos muito interessantes nesta eleição. Primeiro, temos a aparição inacreditável de uma santa disputando a presidência da República. E depois, podemos observar outro fenômeno também curioso, que são os patifes exigindo da santa uma comprovação de sua santidade. É uma oportunidade rara: de uma tacada só o brasileiro pode desmascarar falsos profetas e também identificar os fariseus.
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POR José Pires

As pesquisas decidem a eleição

A intromissão dos institutos de pesquisa nas eleições brasileiras já está virando um problema bastante grave. Ainda temos um mês inteiro até a eleição e muita gente já raciocina como se a eleição estivesse decidida. Esta avaliação prematura começou logo que surgiu a candidatura de Marina Silva. O clima irreal foi bastante estimulado pela pesquisa feita pelo Datafolha, ainda em meio à comoção com a morte de Eduardo Campos. É óbvio que naquela situação não dava para fazer uma análise lógica do quadro eleitoral. Com aquele clima causado pela queda do avião ninguém estava com a cabeça fria para responder sobre preferência eleitoral. Mas aquela foi uma pesquisa que serviu para promover o Datafolha e atrair a atenção para o jornal Folha de S. Paulo, ambos de propriedade da mesma empresa. Não dava para não saber que o resultado colhido passaria muito longe de uma avaliação científica, mas dava para saber muito bem que uma pesquisa naquela situação iria influenciar bastante o eleitorado, o que de fato acabou ocorrendo.

E hoje fala-se até na vitória de Marina Silva no primeiro turno ou descarta-se de antemão o candidato Aécio Neves, de um partido que foi ao segundo turno nas últimas três eleições. O clima é da histeria de pesquisas e nada mais. Isso faz lembrar a primeira eleição vitoriosa de Lula, em 2002. Na mesma data em que Marina Silva deu o primeiro salto no Datafolha (ficou com 21%), o então candidato Ciro Gomes tinha exatamente 27% também por este instituto. Isso foi em 16 de agosto de 2002. Depois ele foi caindo, até ficar com 10% na última pesquisa e acabar com 11,97% nas urnas. Naquela eleição, Ciro Gomes era a estrela na imprensa. E um dos candidatos teve pouca atenção dos jornalistas, exatamente porque foi mal nas pesquisas o tempo todo. Era Anthony Garotinho, que estava com apenas 13% quando Ciro tinha 27%. E no final da campanha Garotinho tinha apenas 5%. Com as urnas abertas sua votação ficou em 17,86%, muito acima de Ciro e bem próximo de José Serra, que foi ao segundo turno com 23,19%. Lula teve 46,44%.

Agora, com esta pesquisa feita no clima da morte do candidato do PSB, faltou ao Datafolha responsabilidade política com o fato, mas está cada vez mais difícil hoje em dia achar alguém que atue com responsabilidade com a notícia. Atrair a atenção a todo custo é a meta. E com os institutos de pesquisa, em época de eleições o que vale é o show. Nesse período alguns trabalham inclusive com o propósito de influenciar o eleitor favorecendo determinados candidatos. Falta uma legislação mais séria e dificilmente isso será feito, pois ela teria de vir dos políticos. E todos querem tirar sua casquinha na bagunça que foi criada.

Atualmente a influência perniciosa dos institutos de pesquisas ficou mais clara porque temos uma eleição bastante singular. Além disso, o prejudicado pelo clima criado pelos números é o candidato do PSDB, um dos maiores partidos do país. Os partidos menores é que sofrem mais com o descaso da imprensa causado pela suposta falta de popularidade aferida nas pesquisas. É um erro editorial, mas a maioria dos jornalistas se pautam pelas pesquisas. As últimas manifestações de rua ocorridas no país servem para demonstrar este equívoco de interpretação da política. Nem sempre o partido mais votado ou os políticos mais populares são os que criam fatos determinantes. As manifestações que incendiaram recentemente o país tinham por detrás delas grupos minoritários e partidecos que são sempre obscurecidos nas eleições em razão das baixas porcentagens nas pesquisas. No entanto, acabaram tendo um papel essencial nos protestos de rua, que foram de grande importância política inclusive nessas eleições.

Esta eleição mostra que as pesquisas eleitorais não estão ajudando o eleitor. Ao contrário, criam um ambiente que desfavorece o debate político aprofundado que poderia dar mais qualidade na escolha dos nossos dirigentes. É um embaralhamento de números que não ficam próximos do resultado real nem no final da eleição. Na última eleição para presidente da República todos os institutos trouxeram números errados no final do primeiro turno e também no resultado do segundo turno. As pesquisas não têm servido como boa referência para uma melhor avaliação do voto. Esta interferência vem sendo sendo negativa para a qualidade da nossa democracia.
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POR José Pires

O PT cobrando o que nunca teve

Para a análise do comportamento petista não é possível usar aquele velho jargão do "a gente morre e não vê tudo". Quantas coisas espantosas apareceram nesses anos todos. O que será que falta ainda pra gente ver? Quando um dia o governo do PT for estudado nas escolas eu acho melhor esse tipo de aula de história ser permitido apenas no ensino superior. Tanta imoralidade pode fazer mal para as nossas crianças. Epa, teve até pedófilo em cargo de assessoria especial na sala ao lado do gabinete da presidente da República. E foi preso pela polícia.

Nesses 12 anos o PT aprontou demais no governo e fizeram também muita treta antes de ocuparem o Palácio do Planalto (num passado em que existe até suspeita de mortes entre os companheiros), de tal forma que com esse partido a gente já viu quase tudo. Será que existe alguma maracutaia com dinheiro público que não tenha sido feita pelos companheiros? Puxa vida, a Polícia Federal até flagrou amante do chefão e presidente de honra do partido praticando corrupção pesada num alto cargo do governo dado por ele. Em que governo teve isso no Brasil? Não me lembro de nenhum outro. É provável que seja inédito até no mundo todo.

A gente já viu quase tudo com essa gente, mas sempre pode aparecer alguma surpresa. Agora, por exemplo, temos essa inacreditável oportunidade de ver o PT cobrando coerência da Marina Silva. Tem sido muito engraçado. Aparecem cobranças de coerência todos os dias. Pois é, o partido que desonrou seus mais importantes compromissos históricos vem dando de dedo na candidata do PSB exigindo dela a coerência que nunca tiveram. Nenhum outro partido traiu tanto seu eleitorado quanto o PT. Em termos de incoerência o PT tem até documento público jogando no lixo seus compromissos. É a "Carta aos brasileiros", documento que fizeram em 2002 movidos pela ambição pelo poder.

Estamos vivendo sob a esperança de ver o PT ser corrido do governo. Seja com quem for que isso aconteça, essa expulsão pelo voto fará bem ao Brasil. No entanto, ainda falta quase um mês inteiro até a hora da abertura das urnas. Eu acho que até lá é capaz até de assistirmos o evento extraordinário do PT cobrando honestidade da Marina. Do Aécio Neves eles já cobraram e nem posso dizer que fizeram isso sem ficar vermelhos porque não dá para notar. Eles já são vermelhos. Eu acho que só falta o PT cobrar honestidade da Marina pra gente poder dizer que já viu de tudo vindo desse partido.
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POR José Pires

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O coordenador descoordenado

Com o coordenador que arrumou para sua campanha, Aécio Neves nem precisa de adversários. Os golpes vem de dentro. Numa entrevista à Agência Estado, o senador José Agripino Maia (DEM-RN) deu uma declaração que deve ficar para a histórias das eleições como uma das grandes bolas fora que já foram dadas na política brasileira.

Faltando ainda um mês inteiro para a eleição e o próprio coordenador da campanha de Aécio deu uma declaração que soa como uma desistência da candidatura tucana. Agripino disse o seguinte: "O sentimento que nos move – PSDB, DEM e Solidariedade – é garantir a ida de Aécio para o segundo turno. Se não for possível, avalizar a transição para o segundo turno. Ou seja, com uma aliança com Marina Silva, por exemplo. É tudo contra um mal maior, que é o PT".

É uma grande besteira, mas não é a primeira do senador Agripino Maia. É dele também uma famosa intervenção no Senado, em maio de 2008, quando citou uma entrevista em que a presidente Dilma Rousseff havia dito que mentira sob tortura, quando esteve presa durante a ditadura militar. As palavras de Agripino: "A senhora mentiu na ditadura, mentirá aqui?" A fala desastrada do senador acabou prejudicando a cobrança que a oposição pretendia fazer da responsabilidade de Dilma no vazamento de dados sigilosos sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua mulher, Ruth Cardoso, quando ele ocupou a presidência. Na época desse depoimento Dilma era ministra da Casa Civil, do governo Lula.

Nem cabe perguntar como é que vai parar na coordenação de uma campanha presidencial um parlamentar com tamanha dificuldade de estabelecer um debate que não abra um caminho tão fácil para um adversário escapar dos questionamentos, como ele fez com Dilma no Senado. Deve ser por força de acordo entre os partidos. Mas o resultado disso está aí, em mais essa intervenção desastrosa.

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POR José Pires

O ministro sem pasta de Aécio Neves

O tucano Aécio Neves deu um lance no jogo que me pareceu precipitado nesta eleição de três candidatos que não valem um. Foi a nomeação antecipada de Armínio Fraga para o ministério da Fazenda. Nunca aconteceu algo parecido e não teve nada disso até agora não porque tenha faltado aos candidatos de tantas eleições anteriores a sabedoria que sobra no candidato tucano. Eu acho é que os outros candidatos não eram doidos de fazer uma coisa dessas.

Nomeação de ministro antes de ganhar eleição soa como arrogância, por mais que o candidato faça as ressalvas óbvias sobre a necessidade do aval das urnas a esta intenção. Aécio vem fazendo isso toda vez que fala de seu ministro que ainda não tem pasta, o que fica até cômico. Mas este é um problema menor, frente aos outros questionamentos que podem vir à cabeça do eleitor.

O alinhamento de Armínio Fraga com os tucanos já é conhecido. Ele fez parte do governo Fernando Henrique, ocupando a presidência do Banco Central. Portanto, do ponto de vista político a presença confirmada dele como ministro da Fazenda nada acrescenta como convencimento junto ao eleitorado histórico dos tucanos. Porém, sua visão liberal da economia faz dele um bom alvo dos adversários e cria uma antipatia com o eleitorado de perfil econômico mais baixo. Na verdade, na atual situação de crise a presença de Fraga como poderoso ministro de um futuro governo acaba sendo um problema até no convencimento da classe média.

Esta estranha nomeação já fez dele uma pauta da imprensa, o que sempre pode resultar em desgastes. A menos que ele saia por aí falando como um político, mas então seria melhor dar-lhe outra pasta. Ainda que também imaginária, a Casa Civil talvez fosse mais adequada para fazer política na campanha. Uma fala dele que soou como um ataque aos aumentos do salário mínimo é um assunto que já tem rendido para os adversários. Na mesma entrevista, ele falou sobre "medidas impopulares", um excelente assunto em eleição. Mas para os adversários. Fraga falou como economista e deu opiniões intelectualmente respeitáveis. O chato é a eleição em andamento. Ser ministro da Fazenda de um país com tantos problemas como o Brasil nunca foi fácil, mas ser ministro ainda sem o poder torna as coisas mais difíceis.

Um problemão essa nomeação antecipada, não é mesmo? O ministro da Fazenda do Aécio nada acrescenta junto ao eleitorado que conhece bem o pensamento econômico dos tucanos. Tampouco tem peso eleitoral junto aos eleitores de perfil econômico mais baixo. Ao contrário, pode causar temor em quem precisa do amparo do Estado. Ora, então a nomeação do Armínio Fraga só aconteceu para garantir ao mercado e aos empresários a confiança na capacidade e responsabilidade de um futuro governo tucano. Mas espera aí, o Aécio Neves já não dava essa garantia? Abre-se um espaço para a gente achar que para isso o candidato a presidente da República não servia. Pois é, eu falei que essa nomeação prematura era um problemão para os tucanos.
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POR José Pires

Caetano explica Marina Silva


Estava demorando para Caetano Veloso entrar na campanha política. Nesta semana que passou ele chegou ao assunto na companhia de Gilberto Gil. Os dois voltaram a declarar apoio à candidatura de Marina Silva, desfazendo a confusão em torno de um vídeo de apoio que foi acusado de fraudulento. São depoimentos de vários artistas apoiando Marina na eleição passada. É provável que nenhum desses artistas tenha mudado de posição. E quanto a Caetano e Gil, penso até que a possibilidade de vitória da candidata do PSB estimula-os ainda mais neste apoio. Apesar de cultivarem uma imagem de independência, na prática eles sempre conviveram muito bem com o poder. Antigamente na Bahia era boa a relação de ambos com o grupo comandado por Antonio Carlos Magalhães, que dominou aquele estado desde a época da ditadura. Gil já esteve próximo do governo de Fernando Henrique Cardoso e foi ministro de Lula. Os dois aparecem como artistas aguerridos, mas a verdade é que jamais cortam em absoluto os laços com o poder.

Eles tiveram também um papel nada libertário na polêmica recente sobre a liberdade de publicação de biografias. Ambos eram pelo poder de censura de biografados e herdeiros. E quanto a seus interesses, Caetano e Gil sabem lidar muito bem também com os mecanismos governamentais de financiamento. Eles mantêm com habilidade a imagem de artistas com o pé na estrada, mas administram muito bem a sustentação econômica de suas carreiras pelos gabinetes oficiais.

E disso faz parte também uma certa teatralidade para lidar com a política. Agora, Caetano tinha que trazer ao debate uma opinião fora de propósito, daquele jeito dele, quando busca mais um tom autoral na análise, sem respeitar o contexto do fato. Gilberto Gil costuma ir também por esse caminho, mas desta vez ele ainda não deu ao fenômeno Marina nenhuma explicação no terreno da física quântica.

No último sábado, Caetano postou em sua página do Facebook um texto onde diz que a vitória de Marina representaria a "chegada de evidentes fenótipos negros no posto da Presidência da República". E ele ainda diz que a chegada dos tais fenótipos "não é pouco". É sua forma esquisita e já bastante manjada de encarar a política. No mesmo texto ele lembra que chorou na cabine eleitoral "no momento Lula". As aspas é porque esse "momento Lula" vem literalmente dele. É uma declaração que deixa claro que não se deve esperar do cantor uma visão equilibrada de política. Lá vem ele novamente forjando uma imagem. Chorar na cabine eleitoral na eleição de um presidente é coisa de tiete populista. E se ele chorou na hora do voto no Lula, quando apareceu o mensalão era para ter cortado os pulsos. Mas não espere coerência do Caetano.

E agora ele vem com essa de "fenótipos negros", trazendo traz um componente racial que não faz sentido na candidatura de Marina. Isso é coisa só da cabeça dele. Na sua manifestação de apoio ele cita também o fato da candidata ser mulher. Quando alguém vem com essa conversa de gênero como um grande diferencial na política, basta lembrar ao manipulador da existência de Margareth Thatcher. E também já tivemos esse papo por aqui. O PT fez uso disso na eleição passada. No caso de Dilma era uma fraude marqueteira e a carreira de Marina não tem sido impulsionada por ela ser mulher. Sua atuação como ambientalista foi que primeiro atraiu a atenção sobre o que ela tinha a dizer na política brasileira. Depois vieram outros elementos de sustentação de seu crescimento, todos relacionados muito mais à forma tradicional da política do que a viagens pseudo criativas de um artista. Marina ficou oito anos no governo Lula e antes disso foi senadora de um partido altamente profissionalizado. E depois de tudo isso, houve a interferência do destino, com a queda do avião que matou Eduardo Campos, o candidato de quem ela era vice-presidente. É forçação encaixar tanto questões de gênero quanto "fenótipos negros" nessa história.

Caetano Veloso sabe de tudo isso. São acontecimento bem recentes que todos nós acompanhamos. Nem é preciso ler nos textos de história, basta recorrer à lembrança. Mas isso não é do interesse do cantor, daí as lorotas, como esta de "fenótipos". Ele é desse jeito. Está sempre surfando numa onda. Antes foi com os black blocs, agora é com Marina. Em vez de contribuir com opiniões sensatas em um debate, numa época muito difícil do nosso país, interessa a Caetano criar lendas. A começar pela lenda dele, é claro.
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POR José Pires

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O STF cuidando do que é só deles

Nesta semana teve mais uma baixaria no Supremo Tribunal Federal. Tudo bem que não houve bate boca no plenário, nenhum ministro deu de dedo no outro, ninguém saiu expulso da sala. Mas foi escandaloso. Os ministros do STF aprovaram nesta quinta-feira proposta de aumento dos próprios salários de R$ 29,4 mil para R$ 35,9 mil. É um aumento de 22%. Num país já com os dois pés na recessão econômica é esse tipo de exemplo que vem de cima.

A proposta irá para o Congresso Nacional e depois para a presidente Dilma Rousseff. São os passos para que o novo salário seja incluído no Orçamento de 2015. A formalidade é apenas um jogo de cena, é claro. Os ministros do STF poderiam passar a proposta de aumento diretamente para o caixa, pois o salário maior em 2015 já é coisa certa. Se fosse direto pro jamegão da Dilma sairia até mais barato para os brasileiros.

O texto será protocolado no Congresso Nacional e vai passar pelas comissões de Trabalho, Administração e Serviços e ainda pela de Finanças e Tributação, além da comissão de Constituição e Justiça. E ainda passa pelo plenário tanto da Câmara quanto do Senado. O teatro tem um certo custo.

Mas os gastos salariais não ficam restritos aos ministros do STF. Pela Constituição, salário do STF é a escala máxima do Poder Público, então já estará dada a justificativa para começar um festival de aumentos de salários. Para começar, este aumento já beneficia toda a classe da magistratura. Os salários de juízes até a segunda instância são definidos em percentuais relativos aos do STF.

Já está na boca do caixa. E duvido que num negócio desses os juízes do STF aceitem um embargo provisório.
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POR José Pires

Marina Silva se achando a melhor

Marina Silva é a candidata com o modelo de governo mais inovador que já apareceu neste país. Ela diz que vai fazer "um governo dos melhores". É o que o Brasil sempre precisou. Resolveria os nossos problemas de tal forma e a ideia é tão simples que é até espantoso que nenhum político tenha pensado nisso antes. O marqueteiro do Bill Clinton, que era um especialista em apontar obviedades, mas usando para isso um estilo único, seria ainda mais imperativo que a candidata do PSB: É o governo dos melhores, estúpido!

É lamentável que não tenhamos partidos melhores e ainda menos eleitores melhores, pois se fosse assim a candidata Marina Silva teria um espaço da atenção política dos brasileiros um pouco atrás da Luciana Genro, do Psol. Ideias como esta do "governo dos melhores" servem para demonstrar o nível baixo do debate político no Brasil, no qual a imprensa se conduz aceitando qualquer assunto que apareça para encher espaço. E Marina sabe manipular bem este clima, com sua retórica vazia de conteúdo, com as frases sem sentido que se entrechocam na própria gramática.

Mas o que é um governo dos melhores? Ora, é muito fácil, cara: é só juntar os melhores em cada área e montar um super governo. Ah, entendi. Então, no Brasil um dos melhores na economia é sem dúvida o ex-ministro Armínio Fraga. Ele tem inclusive uma boa experiência no mercado financeiro, sem o qual hoje em dia não se realiza nada na economia de um país. Ele estará no governo dos melhores? Eu sei que Aécio Neves já tem o plano de nomeá-lo ministro da Economia, mas creio que com Marina presidente o candidato tucano não se negará a cedê-lo para um governo dos melhores.

A não ser que a Marina ache o Fraga competente para um governo dos melhores, mas só se for do Aécio, não é mesmo? Ora, não existe esse negócio que a Marina inventou para chamar a atenção. O que existe é um governo composto a partir da capacidade na articulação e no convencimento da classe política e da sociedade civil. E no Brasil do desmantelamento social que aí está o poder dos primeiros é quase absoluto. A sociedade civil tem cada vez menos influência na formação de qualquer governo.

Então, qualquer um que vença esta eleição terá de entrar em acordo com os partidos para a formação de um governo. Existe outra maneira, mas isso já foi experimentado no Brasil e não deu certo. Em 1964 os militares se cansaram do caos político e deram um golpe para fazer um governo dos melhores, nomeando quem eles queriam e do jeito que eles queriam. Ou seja, na marra. Foi o método de onde surgiram administradores públicos como Paulo Maluf e José Sarney.

Será na negociação com os partidos que uma Marina eleita presidente terá de montar seu governo. Não se monta governo em país algum do mundo simplesmente buscando na sociedade seus melhores quadros. Isso é lorota que pode encantar grupelhos sem noção política, mas não tem resultado prático na hora de fazer a coisa. Numa democracia os partidos são a ligação entre a sociedade e o governo. E se não temos partidos decentes para isso, azar o do país. Qualquer presidente terá de se virar com esses que aí estão.

Antes de fazer um governo dos melhores, Marina poderia ajudar bastante o país finalizando outro serviço que não fez direito. Nossos partidos não são grande coisa, mas ela não tem nem o dela. Na sua carreira política, a candidata não conseguiu realizar nem o que já foi feito por Luciana Genro, o Pastor Everaldo e até mesmo o candidato Levy Fidelix, que é juntar assinaturas num papel, cumprindo um requisito básico para montar um partido, instituições essenciais em qualquer governo, principalmente se for dos melhores. A não ser que esta proposta da Marina seja tão revolucionária que ela esteja pensando em eliminar esta etapa.
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POR José Pires

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Suplicy, o demagogo do balde de gelo

Já faz tempo que o senador petista Eduardo Suplicy se faz de songamonga, mas ele é um dos políticos mais espertalhões do país. Se fazendo de bocó completa este ano 24 anos no Senado. E Suplicy também é um grande demagogo. Na semana passada ele entrou no tal do desafio do balde de gelo, que foi criado nos Estados Unidos para chamar a atenção para a a esclerose lateral amiotrófica e angariar fundos para pesquisas sobre esta grave doença. Sua campanha eleitoral postou vídeo na internet com ele tomando um banho de água gelada. Suplicy usou o desafio do gelo para promover sua candidatura à reeleição.

Porém, exercendo seu mandato de senador, Suplicy votou contra a destinação de pelo menos 10% do orçamento federal à Saúde. A emenda que garantia esta fatia do orçamento foi derrotada em dezembro de 2011. Com isso, só na variação de 2011 para 2012 a Saúde perdeu mais de 10,3 bilhões que a União teria de investir. A derrota da emenda foi a mando do Palácio do Planalto e Suplicy obedeceu sem discutir, votando contra os 10%. E agora vem com esta demagogia do balde de gelo, acompanhada de uma fala demagógica sobre o acesso da população à Saúde.
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POR José Pires

Gleisi Hoffmann dando uma força a Fernando Collor


A candidata petista Gleisi Hoffman vem fazendo campanha em dois estados nesta eleição. Gleisi é candidata ao governo do Paraná e cabo eleitoral em Alagoas, na campanha de Fernando Collor para senador. Collor vem trazendo em sua propaganda política na televisão um depoimento em sua defesa feito por Gleisi na tribuna do Senado. O vídeo já é um sucesso nas colunas políticas e nos blogs. Nele, a candidata ao governo paranaense cita a notória frase que Collor dizia na época em que teve que sair correndo do Palácio do Planalto por causa das sujeiras que levaram ao processo de cassação pelo Congresso Nacional. "O tempo é senhor da razão", era sua ladainha, que Gleisi repetiu em discurso no Senado. Collor gostou bastante, até porque a nova admiradora fez sua defesa de forma espontânea.

Gleisi Hoffmann tem uma grave dificuldade na escolha de companhias. Quando era ministra ela nomeou como assessor especial do gabinete da Casa Civil um político que foi preso sob a acusação de pedofilia. Ela levou o petista Eduardo Gaievski para trabalhar ao lado da sala da presidência da República. O assessor especial de Gleisi foi preso em agosto do ano passado depois de denunciado pelo abuso de meninas pobres na cidade onde ele foi prefeito eleito pelo PT. Ele continua na cadeia. Gleisi foi também parceira muito próxima de André Vargas, o deputado petista que caiu em desgraça depois da descoberta de suas relações com um doleiro preso pela Polícia Federal. Até ter de sair do PT, Vargas comandava a campanha de Gleisi para o governo do Paraná. O deputado paranaense, que teve sua cassação aprovada na última quarta-feira pelo Conselho de Ética da Câmara por onze votos a zero, é um legítimo produto político do grupo comandado pelo ministro Paulo Bernardo, marido da candidata. A política salvou o Paraná de um plano perigoso. O grupo petista pretendia eleger Vargas senador.

Gleisi Hoffmann precisa resolver esta dificuldade na escolha de parceiros. E se o eleitor paranaense tiver juízo, é melhor usar o voto para que ela vá fazer isso bem longe do governo do Paraná.
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POR José Pires


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Veja aqui Gleisi Hoffman defendendo Collor. A fala começa a partir de 3min.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Caminhando com Thoreau

Nessa época aparece gente demais querendo nos ajudar. É até cansativo tantos querendo o nosso bem. Período eleitoral é sempre assim. Isso me lembra Henry Thoreau, o naturalista e filósofo americano que dizia o seguinte:"Se eu soubesse com toda a certeza que um sujeito vinha em direção de minha casa no firme propósito de me fazer o bem, correria em disparada". Isso foi escrito em "Walden, a vida nos bosques", um belo livro. Outra obra sua importante é "A desobediência civil". Este é um ensaio curto, publicado numa edição que traz outros ensaios, entre eles um ótimo sobre o hábito de andar à pé. "Walden" e "A desobediência civil" são duas obras que trazem elementos essenciais que podem ajudar bastante na compreensão da crise que cresce em torno de nós, nos seus dois aspectos mais graves: o risco do domínio do Estado e até mesmo da sociedade sobre a liberdade do indivíduo e o esgotamento dos recursos humanos. A humanidade pode morrer desses dois males. E Thoreau tem remédio para isso. O filósofo escreveu outros livros, cerca de 20, mas em português são encontrados apenas esses dois. Dá para baixar fácil pela internet.

Muita gente faz confusão, pensando em Thoreau apenas como o naturalista que foi viver isolado no meio da floresta em um cabana de troncos feita por ele. A visão não deixa de ser verdadeira, mas pode fazer dele hoje em dia uma figura pitoresca. É um engano que perturba a compreensão do que ele diz para nós através dos tempos. Thoreau é um dos pensadores mais sofisticados que já existiu. É preciso ler Thoreau e pensar bastante sobre o que ele escreveu. Em suas palavras pode-se encontrar caminhos para o desastre social que aí está. Falei do esgotamento dos recursos naturais, que já começa a mostrar sinais de que a vida humana corre perigo. Pois Thoreau escreveu sobre isso quando ainda se pensava que a Terra era inesgotável. Viveu de 1817 a 1862, uma vida breve, mas com um aproveitamento admirável.

Thoreau é o filósofo da desobediência civil e da apologia do indivíduo. Pensou sobre isso muito antes do ser humano calçar botas e dar os terríveis passos totalitários do nazismo e do comunismo no século vinte. Ele é a reação contra isso. Existe uma confusão entre a desobediência civil e o apelo à violência. Quebrar coisas que a própria população usa não tem nada a ver com o que pensava Thoreau. A sua visão não é a da destruição do governo. É da melhoria. Essa canalha que sai quebrando tudo tem mais a ver com um leninismo tosco do que com a desobediência civil. No objetivo eles são leninistas, apesar de que na ação carregam vários defeitos que Lenin desprezava. Num país comunista seriam imediatamente presos e talvez mortos pelo poder leninista. Esses equivocados pensam também que são filhos de Bakunin, mas só se forem bastardos. Como não estudam nada, deixaram de fazer isso inclusive com as obras do anarquista. Além do que, o anarquismo de Bakunin foi ultrapassado pelo tempo.

Thoreau propunha uma resistência pacífica. Não à toa, o escritor russo Tolstoi e o líder político Gandhi tiraram de seus escritos parte essencial da vitalidade filosófica do que fizeram em vida. A ação violenta em nome de avanços sociais costuma trazer um efeito efeito reverso ao que pretensamente busca. A violência política dá unidade e organiza as piores forças dentro da sociedade e do Estado. Quando fez a cretinice de pegar em armas na década de 70, por exemplo, a presidente Dilma Rousseff deu um oportuno pretexto para a ditadura militar eliminar inclusive fisicamente quadros competentes da oposição democrática. Um militante negro que apela para a violência causa dificuldades sérias para um branco decente exercer influência entre sua comunidade contra os racistas. Malcom X fortalece posições do tipo da Ku Klux Klan e a violência entre os próprios negros. Martin Luther King faz a sociedade avançar em união com brancos contrários ao racismo.

Walden foi escrito a partir da experiência de Thoreau vivendo sozinho durante dois anos numa cabana na floresta. O ensaio sobre a desobediência civil veio da sua prisão por negar-se a pagar impostos. Este é um tema atualíssimo em todo o mundo e ainda mais num país como o Brasil, onde a maioria paga impostos para que o poder público beneficie os mais ricos. Além do roubo constante feito por políticos. Ele começa o ensaio sobre a desobediência civil com a famosa citação de Emerson, que diz que "o melhor governo é o que menos governa”. Porém, é preciso ter cuidado. A desobediência civil de Thoreau nada tem a ver com o equívoco dos violentos, mas também não é um ideário de liberais que acham que governar melhor é cortar imposto de rico e suprimir a educação gratuita, o acesso à saúde e o amparo aos idosos e pobres. As ideias de Thoreau merecem respeito. E precisam ser lidas também, é claro.
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POR José Pires

quinta-feira, 21 de agosto de 2014


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O currículo de Marina Silva

Para os que estão animados com a candidatura de Marina Silva aconselho mais equilíbrio porque ela pode ter entrado no páreo como um cavalo paraguaio. Em eleição no Brasil sempre tem um competidor desse tipo. Cavalo paraguaio é aquele time que começa muito bem um campeonato, mas no final acaba ficando para trás. Na política brasileira o mais vistoso deles vinha sendo Ciro Gomes, um cavalo paraguaio que Lula gostou de montar. Na eleição passada, Marina animou muita gente, porém foi de José Serra a passagem para o segundo turno. E 2010 foi um ano em que, disputando pelo Partido Verde, Marina não tinhas as responsabilidades e exigências que terá agora em campanha. Aliás, já que a situação se apresenta, devo dizer que naquela eleição ela ignorou o risco que era a eleição de Dilma. Na prática, Marina deu seu apoio à Dilma contra Serra. E não tenho nenhuma dúvida de que com Aécio Neves no segundo turno contra Dilma ela novamente apoiará a candidata do PT, sempre na forma disfarçada da liberação do voto de seus partidários.

Mas ela pode ganhar a eleição. E aí os problemas aumentam. A candidata do PSB tem um histórico muito fraco como administradora e uma dificuldade danada com alianças políticas. Teve uma grande chance de demonstrar capacidade porque foi dela durante quase oito anos um dos ministérios mais importantes da atualidade. No entanto, não mostrou habilidade e muito menos teve a técnica para dar um equilíbrio entre a necessidade da proteção ao meio ambiente e a dependência econômica do país com o sucesso da pecuária e da agricultura. O setor ainda é o grande peso em nossa balança comercial. Equilibrar a necessidade de ganhar dinheiro com o respeito ao meio ambiente ainda é o grande desafio brasileiro.

Nas vezes em que foi testada de forma prática na política Marina falhou. Nem vou falar do projeto político dela na sua base eleitoral. No seu Acre ela é um fiasco. E como eu disse, foi muito fraca no seu cargo mais importante, durante os dois mandatos de Lula, num dos piores governos da nossa história na questão do meio ambiente. Como presidente, Lula até fazia piadas desmoralizando as preocupações de ecologistas, zombava de regras de proteção ao meio ambiente e obviamente colocava em prática um modelo de governo sem nenhuma atenção ao desenvolvimento sustentável. É dele a lamentável frase de que entre um "cerradinho" e a soja, ficava com a soja. Como se fizesse sentido este raciocínio. Enquanto fazia isso, ele tinha Marina ao lado.

Marina saiu do governo do PT apenas no momento em que ficou muito claro que a sucessão de Lula seria com Dilma Rousseff. O que causou sua saída não foram conflitos de conceito de governo, como ela pretende justificar a transferência, primeiro para o Partido Verde e depois para montar seu próprio partido, o Rede Solidariedade. Nesta vida partidária pós-PT ela também falhou de forma grave. No PV não teve capacidade de convencimento na defesa de suas propostas. Historicamente nunca foi seu partido, porém ela queria apenas ser obedecida. Este é um defeito que várias pessoas próximas dela dizem ser muito forte na sua personalidade. E depois ela nem conseguiu legalizar seu Rede Solidariedade. A candidata de 20 milhões de votos não teve capacidade de juntar assinaturas suficientes para criar um partido.

A candidata do PSB manteve-se calada durante todos os escândalos de corrupção nos dois mandatos de Lula, até no mensalão, que levou a cúpula do PT à prisão. Fechou-se num silêncio cúmplice também sobre os equívocos do modelo econômico de Lula, inclusive no tocante ao aspecto predatório ao meio ambiente e a dificuldade de sustentação de longo prazo. Só deu o pé do governo quando viu que não era ela a escolhida do chefe. Dos três candidatos com mais chances de vitória, Marina é a única que só dá pra saber ao que veio depois de sua eleição. A democracia dá o direito de escolher. Mas na minha visão o país não tem fôlego para mais um erro nas urnas.
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POR José Pires

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Reclamação geral


Em entrevista com candidatos à presidência da República nesta eleição, até agora não há porque se queixar do Jornal Nacional. E exatamente porque as entrevistas vem sendo feitas corretamente é que todos os envolvidos na eleição estão se queixando. Primeiro foram os partidários de Aécio Neves que não gostaram da condução do programa feita por William Bonner e Patrícia Poeta. Depois os dois jornalistas foram odiados pelos partidários do candidato Eduardo Campos, morto na queda do avião em Santos, na última quarta-feira. E vejo que os petistas estão muito bravos com a entrevista desta segunda-feira com Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição.

Este é um problema que sempre ocorre quando se faz jornalismo com qualidade. Bonner e Patrícia Poeta fizeram seu serviço corretamente. E numa eleição o efeito do jornalismo bem feito é sempre o de desagradar a todos os lados. A próxima candidata que deve sentar-se à frente dos jornalistas da Rede Globo será Marina Silva. Se eu fosse partidário dela começaria a xingar o Jornal Nacional desde já.
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POR José Pires

Política em família

Já aparece a notícia de que Renata Campos, a viúva de Eduardo Campos, não quer ser vice-presidente na chapa de Marina Silva. É provável mesmo que não seja, até por efeito de conselhos de quem conhece mais o Brasil e sabe que mesmo nesta condição patética atual da política brasileira o sentimentalismo têm limites. O país vai muito mal na área política, mas o conjunto da população ainda não desceu tanto para aceitar práticas oligárquicas de forma passiva. E mesmo um marqueteiro pode demonstrar que a entrada da viúva na chapa da pessoa que assume o lugar do candidato morto seria um equívoco político que já de início poderia afastar muitas adesões que Marina precisa para crescer entre o eleitorado.

Um argumento prático também é o de que legalmente isso não seria possível. Renata é funcionária do TCE pernambucano, o que obriga ao afastamento por pelo menos 90 dias antes da eleição. Mas o que importa é a cogitação de seu nome. Isso já foi uma péssima demonstração do andar da política no Brasil e também da falta de senso crítico que domina a nossa imprensa. A notícia dela como vice foi recebida como se fosse um fato natural da política. Pouquíssimos jornalistas viram de forma crítica esta absurda especulação, entre eles o sempre atento Reinaldo Azevedo, que em seu blog no site da revista Veja analisa variados assuntos com uma alta qualidade de conteúdo, independente da sua posição política.

Com os acontecimentos em torno da morte do candidato do PSB eu ando tendo vergonha alheia numa amplidão que nem imaginava ser possível. Quando leio que Eduardo Campos foi um "político moderno" até temo ter de passar a alimentar uma úlcera com bocadinhos de leite, como fazia o grande Nelson Rodrigues. Eu já não tinha uma boa impressão do estado a que chegou o nosso país, mas os limites do bom senso vêm sendo rompidos de uma forma que dá vergonha alheia de multidões. O palanque eleitoral criado nas cerimônias fúnebres de Eduardo Campos foi até triste. E me recuso a ver aquilo como um hábito de determinada região. Nunca soube de nada igual ao velório eleitoral em nenhum outro lugar, mas o uso da demagogia e do falso sentimentalismo está por todo o país.

As oligarquias também espalham suas raízes em vários estados. Até o candidato tucano Aécio Neves tem na carreira traços oligárquicos, que não são mais marcantes na política mineira não por uma consciência própria do candidato, mas porque as condições de seu estado não permitem que Minas Gerais se torne terra apenas dos Neves. O favorecimento da própria família à custa dos cofres públicos é um hábito também do ex-presidente Lula, que para isso até mudou com sua assinatura como presidente uma lei de telecomunicações. E no Congresso Nacional são feitas triangulações em que parlamentares se ajudam mutuamente empregando parentes entre si.

Já faz tempo que a política vem tendo um amplo domínio dos laços familiares de políticos. E esta é uma descaracterização das mais graves, que acaba impedindo que a representação política sirva para cuidar do bem comum. A qualidade na administração pública é incompatível com o interesse de famílias. Hoje em dia já se sabe até dos efeitos negativos muito graves que a ingerência familiar pode provocar mesmo na iniciativa privada. Com os negócios públicos é pior. A proposta de ter a viúva de um candidato como vice numa chapa presidencial da importância da chapa do PSB mostra o risco que a deformação da política vem trazendo a nossa democracia. E o fato dessa ideia ter sido recebida de forma tão acrítica pela imprensa e a classe política mostra que o Brasil corre um perigo sério.
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POR José Pires

O parceiro de Marina Silva

Com a volta inesperada de Marina Silva à cena política como protagonista andam esquecendo de uma pessoa essencial em seu crescimento político em todos os níveis, inclusive numa ampliação do universo pessoal da candidata do PSB, que antes era mais restrito do que agora. Ninguém fala dele, mas isso eu até compreendo, dado o nível de pouco aprofundamento em que anda a nossa imprensa. Ele é Guilherme Leal, dono da fabricante de cosméticos Natura. Sua presença ao lado de Marina vem sendo para mim desde a eleição passada um ponto favorável à credibilidade da candidata.

Leal é um empreendedor que mostrou na prática a possibilidade da exploração da prodigiosa natureza brasileira de forma lucrativa e sem a mentalidade predatória que infelizmente prevalece em nosso país. A Natura tem também experiências administrativas de alta qualidade, que influenciam até a arquitetura e o ambiente externo de suas instalações, além do bem estar de seus funcionários. As lições da Natura podem ser muito importantes no conjunto da cultura empresarial brasileira, já que é uma empresa que cuida muito bem de seu produto, atuando com rigor na qualidade, desde o rótulo da embalagem até às mãos do consumidor. Enfim, é uma empresa que pode trazer bons referenciais em vários aspectos da economia.

O parágrafo acima pode até parecer propaganda gratuita da Natura, mas é de fato o que eu penso sobre o que eles vêm fazendo. A entrada de Leal na primeira candidatura de Marina foi até uma surpresa para mim, pois a política no Brasil costuma atrair entre o empresariado mais aqueles que tem apenas o interesse em lucrar com facilidades criadas pelo Estado. A atração de um empresário como Leal, portanto, pode ser visto como mérito político de Marina. E ele mostrou coragem. Todo mundo sabe que o PT não tem escrúpulo em fazer retaliações usando a máquina pública. E ele aceitou até ser vice-presidente na chapa do Partido Verde na eleição de 2010.

Fala-se demais na ascensão de Marina, como se isso tivesse acontecido como um passe de mágica. Mas não se deve esquecer que foi com ele como vice que ela teve os 20 milhões de votos. Naquela eleição, bastaria sua presença na chapa para atrair a credibilidade em setores em que Marina transitava ainda com mais dificuldade. Mas sabe-se que sua contribuição foi muito além disso. Antes de aparecer na eleição para presidente da República, Leal teve uma participação muito importante na política brasileira como um dos fundadores do Instituto Ethos, instituição privada que trouxe contribuições muito boas para o debate político logo após a redemocratização no Brasil.

Tenho dificuldade de confiança em Marina Silva, mas no plano pessoal não é muito diferente com Aécio Neves, assim como eu não via possibilidade de transformação de fato com o falecido Eduardo Campos. Até agora acho que a possibilidade real de desmonte do risco que o PT é para o futuro dos nossos filhos está na candidatura do PSDB, com todos os pesares deste partido e seu candidato. Marina não demonstra possibilidade de ruptura com os perigos que foram instalados no país pelo PT no poder. No entanto, penso que é bom analisar com profundidade todos os atores deste nosso drama. E o empresário Guilherme Leal é um que não pode ser esquecido.
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POR José Pires

sábado, 16 de agosto de 2014

Esperando o bom de voto

A política de um país vai muito mal se depende de forma tão absoluta de uma Marina Silva. E sua candidatura, vinda desse jeito, não trará qualidade a esta eleição. Já se nota uma certa magia no ar. Tem gente que até vê na na sua aparição a inevitabilidade de um segundo turno. É incrível como grande parte dos analistas se fia nos 20 milhões de votos de Marina na eleição anterior. Bem, por este raciocínio tem que se perguntar então onde foram parar os votos de José Serra, quase metade do eleitorado brasileiro na mesma eleição para presidente. Ora, na política não se transfere uma realidade para outra de forma automática. São situações com tantos componentes diferentes que é impossível que se ajustem ao que querem certos analistas políticos.

Mas o problema da definição de um segundo turno não está na presença de Marina Silva, assim como não estava na do falecido Eduardo Campos. A dificuldade da criação de um segundo turno sempre esteve em Aécio Neves. Com maior estrutura e um partido com um histórico de boa votação em eleições presidenciais, era do tucano a responsabilidade de um crescimento sólido nas pesquisas. Além disso, não era o Aécio o prodigioso tucano fazedor de votos que José Serra não deixava ser candidato?

O senador mineiro não vem demonstrando na prática sua propalada habilidade de convencimento. Ele, que vinha gozando esta fama desde a primeira eleição de Lula, quando começou a se espalhar pelo país que uma candidatura sua pelo PSDB seria invencível. É claro que o próprio Aécio contribuiu com bastante astúcia e pouca lealdade partidária para fortalecer este mito. Fez isso tanto na eleição em que Geraldo Alckmin foi candidato quanto na segunda, em que entrou José Serra. Na eleição passada todo mundo sabe que Dilma deve a sua vitória a Aécio. Ele elegeu-se senador no primeiro turno e fez também seu sucessor no governo mineiro. Porém, Serra não teve na sua campanha a força que precisava em Minas. Dilma conquistou no estado 1,8 milhão de votos a mais que o candidato tucano. Ela teve no estado 58% dos votos válidos no segundo turno.

Não é novidade alguma que Aécio abandonou Alckmin e Serra nas duas eleições. E havia ficado o mito de que com ele a possibilidade de vitória sobre o PT eram favas contadas que se perderam. Sobre Serra, que inclusive na primeira eleição obrigou um Lula muito forte a ter de ir pro segundo turno, ficou inclusive o estigma de que foi um erro sua candidatura. E ele teve 43% dos votos do país na última eleição para presidente. Pois bem, agora Aécio obteve a chance de mostrar sua lendária força. E numa eleição bem mais fácil do que tiveram que enfrentar os outros dois tucanos. O PT está desacreditado e a população já sente os efeitos da crise. Existe o forte desgaste da corrupção no governo. O tal do carisma de Lula também mostra perda de efeito. E a candidata, bem, a candidata é a Dilma, né? No entanto, Aécio vem penando para atingir 20% nas pesquisas. É visível sua dificuldade para ampliar nacionalmente o prestígio que conquistou em Minas Gerais. A situação com ele em primeiro plano é de tamanha dificuldade para seu partido que a presença de Marina Silva traz até o risco de não ser dos tucanos a maior porção de votos que levará a um segundo turno.
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POR José Pires