quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O mundo fora da eleição brasileira

O fato do tema do terrorismo internacional ter vindo ao debate político por meio de um discurso demagógico da presidente Dilma Rousseff na ONU demonstra bem o nível de baixa qualidade desta eleição e a dificuldade da nossa classe política de se inserir no mundo. Na cena mundial, a política brasileira é provinciana. Tanto no governo quanto na oposição temos no comando um baixo clero de lideranças que não estão nem aí para as transformações terríveis que assolaram o mundo nos últimos tempos. Um país de tamanha dimensão geográfica e peso econômico não tem políticos à sua altura.

Essa despreocupação seria lamentável até num país pequeno como o Uruguai, onde um esquerdista provinciano como o presidente José Mujica pratica sua demagogia alternativa nos terrenos minados do tráfico internacional e do terrorismo islâmico — duas ideias geniais suas num país ainda pacato foram a de liberar a maconha e abrigar egressos da prisão americana de Guantánamo. Da segunda sacada política ele já desistiu e quanto à maconha, Mujica já acordou para o fato de que num país do tamanho do Brasil isso é um pouco mais complicado. Logo mais creio que ele vai se conscientizar de que, apesar de miúdo, seu país está numa delicada região fronteiriça.

Mas atravessemos pro nosso lado. É sintomático que esta importante questão internacional tenha vindo de forma eleitoreira pela boca da candidata petista à reeleição, Dilma Rousseff. Mas de que jeito Marina Silva e Aécio Neves entrariam num assunto que sempre esteve fora de suas pautas? Além de ter ficado oito anos no governo mineiro, Aécio esteve nos últimos quatro anos no Senado. Alguém sabe de uma opinião dele sobre este tema? E Marina é aquela ambientalista que fala pouco, um quase nada de geopolítica.

A fala de Dilma na ONU foi uma mera jogada eleitoreira. O discurso com tema doméstico fora do contexto e o risível apelo ao acordo pacífico com o grupo Estado Islâmico foi apenas para engambelar brasileiros desatentos aos terríveis perigos da atualidade no mundo. Foi aquele "falar grosso" com os Estados Unidos, conforme acredita o Chico Buarque. E como quase ninguém no Brasil tem interesse política internacional, a falsa imagem combativa pode até render uns votinhos.

Teve uma época em que um discurso desses serviria para rirmos bastante. Mas nos dias de hoje isso não está pra brincadeira. A fala de Dilma demonstra a irresponsabilidade do grupo político que está no poder em nosso país. Desse jeito vão nos colocar em fria, talvez até complicações externas muito piores do que aquelas que Dilma e seu grupelho de extrema-esquerda iria colocar o Brasil entre os anos 60 e 70, caso desse certo o projeto político que tentaram impor pelas armas a todos os brasileiros. O comando daquilo que eles faziam vinha de fora, por meio de financiamento, treinamento e doutrinamento ideológico. Na atualidade, vive-se o risco do país se alinhar a um mal muito mais difícil de escapar depois.

No vazamento recente de documentos secretos do governo americano feito pelo Wikileaks chamou pouco a atenção um relatório da embaixada americana no Brasil sobre risco como potencial foco de terroristas da região da tríplice fronteira, no sul do país. O ambiente é propício para arranjos perigosos, como a aliança entre terroristas, traficantes e contrabandistas. E isso numa região que permite operações financeiras de todos os lados sem qualquer controle. O Brasil tem muito com que se preocupar.

E devemos lembrar que o nosso continente já teve terrorismo grave ligado ao extremismo islâmico. Foi na Argentina, com o atentado racista na explosão de um carro-bomba no prédio da Associação Mutual Israelita, a Amia. O governo do Irã está envolvido neste assunto. Um dos acusados de organizar o ataque é Ahmad Vahidi, atual ministro iraniano da Defesa. O país se nega a extraditar acusados, que estão no Irã, fora do acesso da Justiça argentina. Foi o pior atentado terrorista ocorrido na América Latina e este ano completou 20 anos, ainda na impunidade. O número de vítimas é espantoso: 85 mortos. Mas não surpreende o acobertamento ocorrido num continente em que historicamente a esquerda vem se alinhando perigosamente com forças políticas perigosíssimas, antes com potências comunistas e agora numa relação estranhamente passiva ao terrorismo islâmico.
........................
POR José Pires

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Dilma na paz com o Estado Islâmico


Que Dilma Rousseff é uma presidente da República de dar vergonha alheia, isso já sabemos aqui no Brasil. Mas é duro de ter que suportar o vexame com o mundo de olho em nós. A presidente fez hoje o discurso que abre a Assembleia Geral das Nações Unidas. É uma tradição que vem desde década de 40 e começou com Oswaldo Aranha, mas é claro que os petistas vão tratar isso como se fosse um prestígio partidário. No discurso, Dilma fez campanha eleitoral, falando das conquistas de seu governo. Até casamento gay foi assunto, tudo naquela forma muito particular dela falar e, claro, usando dados que existem apenas na propaganda do governo. Na fala, ela foi até uma paladina no combate à corrupção e além disso "mostrou" que economia brasileira vai indo muito bem, obrigado.

Assuntos como esses em discurso na ONU é coisa de gente fora dos eixos. Mas sabemos muito bem qual é o jogo. A ONU foi apenas mais um palanque para falar com o eleitorado brasileiro. Com certeza vai sair no programa eleitoral do PT e na imprensa brasileira não fica muito claro que é um despropósito. É claro que tem o vexame internacional, mas a vergonha é compensada pelo ganho eleitoral. Já imaginaram os representantes dos outros países ouvindo Dilma falar de si mesma na abertura dos trabalhos? Pois é, o país paga esse pato. E ainda existe a possibilidade dessa figura lamentável ser reeleita presidente.

Porém, não é só pela vergonha que a fala de Dilma marca o nosso país internacionalmente. A presidente voltou ao argumento de que é preciso negociar com o grupo extremista Estado Islâmico, que já ocupa militarmente uma grande parcela de território na Síria e no Iraque. Em entrevista ontem ela já havia lamentado o ataque aéreo feito pelos Estados Unidos, quando defendeu o "diálogo" com os terroristas. Como sempre, o PT traz a piada pronta, desta vez internacional. Seria interessante ver uma comissão de petistas, com Dilma à frente, batendo um papinho com aquele terrorista que aparece em vídeos cortando a garganta de jornalistas. Uma pedida boa seria lançar os pacifistas petistas de paraquedas sobre o território ocupado pelas tropas terroristas.

Mas tirando a piada pronta, com essa conversa boboca o Brasil vai ficando isolado em relação a um assunto que tende a se complicar cada vez mais no mundo. O extremismo islâmico não é representado apenas pelo Estado Islâmico. Existem várias correntes terroristas espalhadas pelo mundo, como penetração inclusive na tríplice fronteira, no sul do Brasil. Com esse tipo de fala petista o nosso país se vê representado numa posição irresponsável e até boboca. Não é de hoje que o governo do PT se posiciona de forma ingênua frente ao terrorismo internacional. Falando hoje na ONU, o presidente americano Barack Obama deu o tom certo ao assunto. Ele disse que “a única língua que assassinos entendem é a força”. É difícil entender algo tão simples? Não para quem tem dignidade e bom senso. Mas se o partido for do tipo que sempre teve boas relações e uma compreensão até fraterna com ditaduras sanguinárias, então só vai entender também à força. Mas aí todos nós brasileiros estaremos estrepados.
........................
POR José Pires

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O selfie da submissão ao poder

O líder militante Pablo Capilé apareceu numa cena fazendo um selfie com o ex-presidente Lula. Ninja ma non troppo, alguém poderia apressadamente dizer, mas estaria errado. É ninja mesmo, porque historicamente o ninja sempre esteve a serviço de algum grande senhor no Japão feudal. Ao contrário do mito que faz muita gente acreditar que o ninja agia individualmente, apoiado numa ética pessoal, esses guerreiros na verdade eram mercenários que faziam o serviço sujo, sem nenhuma regra de respeito ao adversário. Agiam infiltrados, praticando espionagem e sabotagens e atuando como provocadores.

Logo que a chamada "imprensa ninja", liderada por Capilé, apareceu fazendo alarde nas manifestações de julho várias interpretações erradas criaram ilusões sobre esses bandos, a começar por uma suposta novidade criativa na forma deles produzirem seus vídeos. O que havia ali era apenas um serviço tosco, com edições malfeitas e uma dificuldade técnica muito grande com o texto jornalístico. A forma de filmagem, buscando apresentar cenas de rua mais espontâneas, dando um teor mais real ao assunto, isso já é muito velho. Já era feito há muitos anos no Brasil, quando só existia a televisão aberta. O recurso da "câmera na mão" já era utilizado no início da década de noventa, no programa jornalístico diário 'Aqui Agora". Enfim, não havia novidade e mesmo assim aquilo foi tratado como se fosse uma grande invenção dos tais "ninjas". Outro erro foi ver a "imprensa ninja" como atividade de pessoas completamente independentes. Logo foi revelado que Capilé tinha negócios com o governo, ganhando bastante dinheiro por meio da Ong que dirige. Eram chapas-brancas fingindo imparcialidade.

As sabotagens que eram feitas pelo ninjas do Japão feudal também aconteceram nas manifestações brasileiras. Foi exatamente esse o resultado da ação dos "ninjas" liderados por Capilé nos protestos de rua ocorridos há meses. Para esta desmobilização agiram em conjunto com os black blocs, que eram tratados como heróis em suas filmagens. Hostilizando a imprensa e dando um tom radical às manifestações, esses "ninjas" criaram um clima que impossibilitou totalmente as manifestações pacíficas que vinham crescendo e fatalmente iriam atingir o governo do PT e seus planos para a reeleição de Dilma Rousseff. O selfie feito com Lula, com quem Capilé demonstra até uma certa excitação emocional nesta foto, é apenas a imagem da subserviência do falso radical a um grande senhor.
........................
POR José Pires

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A era petista da desqualificação da opinião crítica

Algumas pessoas me perguntam se a condenação que tenho feito aos ataques do PT à candidata Marina Silva significam um apoio a ela. De forma alguma. Ultimamente tem sido comum o equívoco de interpretação de julgar que determinada opinião significa um apoio direto em relação ao tema central do assunto tratado. Nem sempre é assim e quem escreve bastante nem pode ter como meta um apoio direto a uma causa ou a uma pessoa. Isso prejudicaria até a escolha dos assuntos e a meu ver bitola o pensamento.

Nesta questão do clima conflituoso que o PT criou na política brasileira, eu sou da opinião de que o ponto essencial é a condenação desses métodos de demonização de qualquer um que pense diferente do que interessa ao poder vigente. Se atinge Marina Silva, Aécio Neves ou qualquer outro político, não importa. Até porque antes do que vem acontecendo agora com Marina Silva e Aécio Neves, eles cometiam grosserias parecidas com José Serra, Alckmin e outros políticos em tempos mais atrás. A calúnia e a difamação é usada por eles contra qualquer pessoa que ameace o poder petista. Estariam fazendo a mesma coisa com Eduardo Campos, se ele não tivesse morrido na queda do avião.

Não é o alvo do terrorismo eleitoral que importa. O problema é essa forma de atuar, buscando intimidar e desqualificar o outro. No governo federal, o PT criou uma máquina de destruição de reputações inspirada no que faziam na oposição. Hoje eles mantém uma estrutura de comunicação exclusivamente a serviço do interesse do partido, seja no ataque político ou para a defesa do governo e do projeto partidário de poder. Este partido é o primeiro partido brasileiro que mantém a cultura agressiva de palanque mesmo depois que vence a eleição. Não descansam as armas e nem buscam construir no poder uma relativa unidade com a sociedade civil.

Ao contrário, seja nos municípios, nos estados ou no governo federal, como o poder nas mãos eles passam usar também a máquina pública para causar o máximo de prejuízo a quem não faz parte da claque do agrado submisso de que eles tanto gostam. Na destruição do outro usam inclusive a tática de manipular ou simplesmente cortar o acesso ao trabalho profissional ou ao direito do suporte oficial do Estado ao empresário e às categorias profissionais. Fazem o mesmo com o direito assistência social, principalmente com os mais pobres.

Esta forma do PT fazer política, sempre manipulando e colocando uns contra o outros, precisa ser denunciada e combatida porque vem contaminando de um modo perigoso a relação entre os brasileiros. E não é pra menos, já vamos para um período de mais de uma década desta infernização política. Acho até que esta prática petista no poder é responsável em parte pela dificuldade que existe hoje em dia na internet e também noutras situações de fazer qualquer debate sem que haja no meio conflitos insuportáveis.

Hoje estão atacando Marina e isso é feito apenas em razão da ameaça que ela representa ao projeto de perenização no poder — meta inarredável do PT. Mas sei muito bem que o terrível arsenal que agora atinge a candidata do PSB está pronto para ser usado contra qualquer um, inclusive em indivíduos que têm seu pensamento movido apenas pelo interesse da discussão franca das questões referentes à nossa vida. Essa horrorosa forma de agir vem num crescendo alarmante e, como já disse, contamina perigosamente a cultura brasileira. As pessoas estão cada vez mais ressentidas e agressivas, com dificuldade de encarar qualquer assunto sem partir pra briga. É até um chavão antigo sobre a geração do poder estatal totalitário e invasor da liberdade humana, mas a melhor imagem para isso é a de que os ovos da serpente estão chocando no ninho.
........................
POR José Pires

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Leonardo Boff, o cabo eleitoral do PT no ataque a Marina Silva

O PT montou uma máquina de dar cacetadas nos outros que pode acabar levando o partido à situação de chegar um dia em que não terá mais com quem dialogar. A quantidade de vítimas já é demais. Os companheiros pegam pesado e não poupam nem quem já esteve bastante tempo ao lado do governo ou mesmo com um peso histórico na esquerda brasileira. Isso é o que vem acontecendo agora com a candidata Marina Silva, que teve presença destacada como ministra nos dois mandatos de Lula, sendo inclusive do círculo de amizades mais próximas do ex-presidente.

E nem com ela estão tendo contemplação. É até constrangedor esse hábito petista de lançar uns contra os outros. Hoje em dia vemos tratando Marina com um ódio impressionante muitos petistas que mostravam até carinho por ela. Uma dessas figuras lamentáveis é Leonardo Boff. Ele sempre pareceu amigo dela. O ex-frei teve até uma participação importante no início da carreira de Marina, quando no Acre dava cursos sobre política. Como religioso, Boff era partidário da Teologia da Libertação e junto com um irmão, o frei Clodovis, levava esse tipo de ensinamento à vários lugares.

Boff teve uma ligação pessoal com Marina também no governo Lula, quando ele se aproximou da luta ambientalista. Depois que saiu da igreja ele começou inclusive a fazer em seus artigos uma mistura da linguagem religiosa com a ecologia, criando imagens e metáforas espirituais sobre o meio ambiente. Na minha opinião, saiam uns textos ao estilo do samba do crioulo doido (neste caso, do frei doido), que soavam como forçação de barra na tentativa de criar um estilo próprio para falar de ecologia. Mas fiquemos na relação entre Boff e Marina, que depois dela tornar-se candidata virou um conflito criado exclusivamente por Boff.

Ele tem falado coisas sobre Marina cujo único sentido é o de atingir a imagem dela como candidata. É ataque eleitoral sem nenhum embasamento teórico e com muitas mentiras que nada tem a ver com o que realmente a candidata do PSB vem apresentando como projeto político. Dizer, por exemplo, que a candidata "acolheu plenamente o receituário neoliberal", é uma mentira que parece ter sido soprada por um marqueteiro. Muito do que ele vem falando vai ao encontro do que o PT já vem expondo agressivamente na internet e Boff sabe muito bem que seus ataques servem como reforço dessa munição indecente usada com o propósito de anular qualquer adversário, para que Dilma Rousseff se reeleja.

Numa das entrevistas que deu sobre este novo assunto que usa para suas prédicas pretensamente filosóficas ele disse o seguinte: "O Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus à qual Marina pertence, é o seu Papa. O Papa falou, ela, fundamentalisticamente obedece, pois vê nisso a vontade de Deus". Uma coisa dessas vinda de um homem que já foi frei é de uma indecência terrível, ainda mais porque todos sabem (e Boff também) que isso é apenas uma maldade a mais sobre a opção religiosa da candidata. Na verdade, em relação a equívocos de Marina quanto à religião a parcela de responsabilidade de Boff é sem dúvida muito maior que a de Malafaia.


O ex-frei vem dizendo uma porção de absurdos sobre Marina. São afirmações muito agressivas, que chocam ainda mais pelo fato de ele ter passado a fazer isso só depois que ela tornou-se uma ameaça eleitoral ao PT. Numa entrevista para um blog governista, Boff chegou a dizer que "os pobres perderam uma aliada e os opulentos ganharam uma legitimadora". É linguagem de marqueteiro sem vergonha, não é mesmo? E isso é ainda pior porque saiu da boca de um homem que vem usando há muitas décadas a religião a serviço de uma política esquerdista, ajudando a fortalecer o projeto de poder do PT, este sim ao lado dos opulentos. Boff finge que é filósofo, com sua retórica com ares de sermão religioso, mas nada mais é que um militante petista. Em toda eleição ele sai pelo país afora em campanha para o PT. E faz isso ao lado de companhias comprometedoras. Na imagem que publico ele faz campanha eleitoral para Dilma no Paraná, em 2010, tendo ao lado seu companheiro de então, o deputado André Vargas. A foto é de uma reunião de Boff feita exclusivamente com lideranças petistas no Paraná.
........................ 
POR José Pires

____________________
Imagem- Boff e o deputado André Vargas, numa foto que não é casual. Boff fazia então uma reunião no Paraná com lideranças petistas. Repare no botton de Dilma no lado direito do peito do ex-frei.

O MST no palanque do PT

João Pedro Stédile, da direção nacional do MST, revela cada vez mais seu papel como uma das figuras centrais do projeto de poder do PT. De uns tempos para cá, Stédile até vem abandonando as falsas aparências que o MST manteve sempre desde sua fundação. O chefão do movimento de ocupação de terras tem frequentado nesta eleição os palanques eleitorais do PT. Antes, o movimento atuava em separado, de forma que era encoberta a parceria com o esquema petista de poder nas ações contra os adversários, em movimentos de rua ou de ocupação de fazendas em momentos favoráveis a candidaturas petistas. A ligação partidária era às escondidas, mas agora o MST pulou de vez para o palanque.

Hoje Stédile ameaçou a candidata Marina Silva. Mas que ninguém veja nisso algo pessoal com a antiga companheira. O líder do MST está apenas fazendo seu serviço. Em maio, quando o alvo preferencial do PT era Aécio Neves ele atacava o candidato tucano. Na época, ele ameaçou, dizendo que se Aécio ganhasse "seria uma guerra". Agora o terrorismo é contra a candidata do PSB. Hoje num ato petista, em frente à sede da Petrobras, no Rio, ele disse que se Marina ganhar vai ter protestos diários do MST na frente da empresa.

Pois é, a Petrobras sofreu os diabos nos últimos tempos. O roubo foi pesado, com contratos superfaturados de altíssimo valor, dinheiro que jamais voltará aos cofres da empresa. Em delação premiada, o ex-diretor da empresa Paulo Roberto Costa, disse que deputados, senadores, ministros e governadores da base aliada do governo do PT recebiam propina de um caixa obrigatória de negócios da estatal contratados com empreiteiras. Toda essa roubalheira jogou a credibilidade da Petrobras nos mais baixos níveis de sua história. Ela levou um grande tombo inclusive em seu valor de mercado. De 12ª maior do planeta há cinco anos, acabou despencando para o 120º lugar.

E depois de tamanha demolição deste patrimônio nacional, vem o Stédile e ataca Marina Silva, depois de fazer a mesma coisa com Aécio Neves. O líder do MST joga tudo para ganhar esta eleição. Antes dissimulava e agora se expõe de forma vistosa no palanque. Se alguém ainda duvidava que com a eleição de Dilma o Brasil vai entrar em caminhos arriscadíssimos para a nossa democracia, aí temos o companheiro Stédile demonstrando claramente intenções que servem para reforçar o alerta.
........................
POR José Pires

sexta-feira, 12 de setembro de 2014


Os interesses nas pesquisas

E lá vem o Instituto Ibope com mais uma pesquisa que coloca a candidata petista à reeleição, Dilma Rousseff, numa posição confortável. A situação é boa para Dilma até pela adversária que pretendem levar ao segundo turno e pelo candidato que querem deixar para trás. Mas é só uma pesquisa, não é mesmo? Se a imprensa fizesse com correção cobertura de pesquisa eleitoral, tudo bem. Mas não é isso que acontece. Qualquer pesquisa é apenas um dado a mais em política e nunca é determinante da forma que a cobertura jornalística faz parecer. E mais, dependendo de onde vem a pesquisa seria um dever jornalístico acentuar a empresa ou instituição que contratou o instituto de pesquisa. E é claro que também seria um dever ético pontuar os interesses em cima do assunto.

Vou dar um exemplo prático. Se o Ibope aparece com uma pesquisa afirmando que a maioria dos brasileiros é contra o desarmamento, temos aí uma informação importante no debate sobre a violência. Porém, o assunto muda muito se esta pesquisa foi contratada por uma empresa do setor de armamentos. É preciso deixar claro para as pessoas os interesses em torno de uma notícia. Esta é uma regrinha básica para passar qualquer informação, mas infelizmente parece que não está mais em nenhum manual de redação.

Esta nova pesquisa coloca a candidata petista à reeleição Dilma Rousseff (PT) com 39% das intenções de voto. Marina Silva (PSB) tem 31% e Aécio Neves (PSDB) ficou em terceiro, com 15%. Reparem que na imagem deste post a manchete fala só do Ibope, no entanto a pesquisa foi encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Nesta matéria, que é do site da revista Veja, a informação até aparece no texto, mas em muitos sites e blogs isso nem é citado. E nas redes sociais o que rola é apenas que Dilma e Marina vão para o segundo turno. A identificação da pesquisa não deveria ser CNI/Ibope? Na minha opinião isso tinha até que ser obrigatório. E peguei como exemplo exatamente a revista Veja, porque não dá para suspeitar que ela tenta favorecer o PT. Por aí, dá para ver que já virou um hábito dar excessiva importância às pesquisas e também o de esquecer de situar bem os fatos para o leitor.

Mas eu estaria desconfiando da honestidade da CNI? Nada disso. Estou falando de interesses, que podem inclusive ser legítimos. Todo indivíduo é movido por interesses e numa associação de classe isso é ainda mais forte. Aliás, qualquer associação de classe só existe em razão de interesses da classe representada por ela. E não só em relação à CNI, como também em qualquer outra instituição, é preciso ver direitinho a biografia de seus componentes, principalmente dos que comandam. Novamente, seria uma desconfiança sobre essas pessoas? E de novo digo que não é este o ponto. Apesar de eu estar do outro lado político, aqui o raciocínio é sobre a necessidade de observar interesses, mesmo os legítimos e absolutamente dentro da lei.

Vou passar apenas informações factuais e vocês que façam um juízo de valor. A CNI vem contratando e divulgando pesquisas eleitorais em todas essas últimas eleições. O que isso tem a ver com os objetivos da indústria brasileira? Bem, cada um faz o que quer numa democracia como a nossa. Desde a eleição de Lula a CNI tinha na presidência Armando Monteiro Neto, que foi sucedido em 2011 por Robson Braga de Andrade e foi reeleito este ano, sempre por consenso. Foi no comando de Monteiro Neto que a CNI se notabilizou no patrocínio de pesquisa eleitoral. Atualmente Monteiro Neto é senador por Pernambuco, terra de Eduardo Campos, é bom lembrar. Seu mandato vai até 1919. Ele sempre esteve na política e foi deputado por três mandatos, sempre mudando de partido. Pela ordem, foi do PSDB, PMDB e PTB. Este ano ele é candidato a governador pelo PTB, tendo na sua aliança o PT. Lula o apoia com toda aquela emoção dele de palanque. Nesta campanha o ex-presidente já esteve em Pernambuco para atacar Campos, quando o candidato do PSB ainda estava vivo.

E tem o atual presidente da CNI, é claro. Como eu já disse, é Robson Braga de Andrade, presidente da Orteng. Ele é empresário do setor de equipamentos para as áreas de energia, petróleo, gás, mineração, siderurgia, saneamento, telecomunicações e (ufa!) transportes. Em 2009, a Orteng teve o faturamento de 600 milhões de reais. Em 2010, a empresa começou a atuar na manutenção de máquinas e plataformas na área de petróleo e gás e vai muito bem no ramo. No início deste ano fechou contrato de R$ 330 milhões junto à Petrobras.

........................
POR José Pires

quarta-feira, 10 de setembro de 2014


A desconstrução dos tucanos

Ainda tem algum chão até a eleição, por isso pode ainda ocorrer alguma surpresa favorável ao PSDB nesta eleição. Porém, independente das pesquisas, que são fajutas em sua maior parte, não é bom o clima para os tucanos. E isso não foi criado exclusivamente pela ação dos adversários, em especial o PT e sua agressiva e permanente campanha de ataques durante mais de uma década na presidência da República. O PT vem desconstruindo o PSDB desde a fundação dos dois partidos e inclusive deve boa parte de seu prodigioso crescimento à falsa dicotomia entre tucanos e petistas. Os tucanos até chegaram a gostar desta artificial divisão, pois também lucravam com este debate sem conteúdo. O conflito também ajudava os dois partidos a afastar a atenção dos eleitores de seus grandes defeitos. Dessa parte os tucanos gostavam. Porém, o que se vê agora é que apenas o PT ainda extrai força eleitoral dessa dualidade. E não é pra menos: a ideia da briga não só partiu do PT como também é deles o poder, o que lhes dá mais controle da situação.

Já para o PSDB essa inimizade histórica não rende. Aparentemente o eleitorado vê mais em Marina Silva a possibilidade de uma condução para fora dessa enrascada política e econômica na qual o PT jogou o Brasil. Aécio Neves bate no PT e o efeito benéfico é para Marina. O problema é difícil de ser resolvido, até porque o tempo fica cada vez mais curto. É muito complicado desfazer este efeito enviesado em política, quando uma boa campanha não dá resultado eleitoral para quem a faz. Na verdade, nunca vi nenhum candidato sair-se bem dessa enrascada. A única salvação para os tucanos seria a surpresa da candidata à reeleição, Dilma Roussef, ficar para trás de Aécio. Mas um partido com a máquina na mão e o profissionalismo do PT sabe como evitar esta boa notícia aos brasileiros.

Os tucanos estão à frente de uma situação trágica, na qual a possibilidade de derrota já no primeiro turno é apenas a parte visível de sua desgraça. Ninguém sabe ainda como ficará o partido nas disputas para os legislativos federal e estadual. Mas é sempre muito alto o grau de prejuízo de uma candidatura majoritária fracassada ao conjunto da eleição para um partido. Mas então o PT trabalhou bem na desconstrução tucana? Em parte. Porém, o serviço mais bem feito neste desmonte foi do próprio PSDB internamente. Já faz tempo que os tucanos vêm demolindo a imagem de um partido com perfil social-democrata e com um diferencial de qualidade política baseado na capacidade administrativa e no respeito à construção da democracia. Nos estados brasileiros, hoje em dia o PSDB é um partido dominado por caciques, muito longe do perfil de sua fundação, que era de um partido integrado nas forças produtivas do país e também nos meios formadores de opinião.

Nos estados em que detém o poder, o PSDB segue o modelo do PT no poder federal. Seus militantes ocupam os cargos nomeados e seguem a vida, profissionalizando-se na política e perdendo a relação com a sociedade civil. O partido tem até os mesmos vícios nepotistas de partidos historicamente lamentáveis da política brasileira, com caciques locais lançando seus próprios filhos em dobradinhas eleitorais — o pai para federal e o filhote para estadual. E este é apenas um exemplo de distorção moral. O PSDB se desmoronou por um movimento interno de má qualidade política. É só parar pra pensar: quem é que identificaria de forma espontânea os tucanos como renovação política, vivendo num lugar onde a maior liderança federal da região lança o filho para deputado numa dobradinha familiar? É difícil, não é mesmo? O eleitor brasileiro pode até estar cometendo um erro elegendo como via política a candidata Marina Silva, mas de forma alguma este eleitor pode ser acusado de estar errando em não identificar nos tucanos uma via melhor para conduzir o Brasil para fora desta triste era petista. O PSDB não soube se construir, daí sua desconstrução fatal.
........................
POR José Pires

O aviso vindo do Chile

O atentado terrorista ocorrido na última segunda-feira no Chile deveria ser um tema mais debatido aqui no Brasil. Uma bomba explodiu em uma estação de metrô em Santiago, ferindo 14 pessoas. Uma trabalhadora do setor de limpeza teve decepado um dos dedos da mão. A polícia suspeita de grupos de extrema esquerda, que já estiveram envolvidos em atos recentes de terrorismo.

Não é a primeira vez que acontece algo assim em Santiago. E só não soubemos antes desse tipo de coisa porque temos no Brasil uma imprensa com os olhos fechados ao nosso continente. Já falei aqui que para saber do que acontece nos países que fazem fronteira tenho que ler os jornais da Espanha. É assim com os jornalistas brasileiros, numa alienação que vem piorando bastante, agora com essa proliferação de informação inútil no estilo de variedades pitorescas.

Mas, voltando ao atentado no Chile, em 14 de julho uma bomba havia explodido em outra estação na mesma linha do metrô onde aconteceu agora este atentado. Foram registrados também casos de mochilas encontradas com bombas, felizmente desativadas antes da explosão. Investigações da polícia chegaram à conclusão de que os atentados são realizados por "grupos anarquistas insurrecionistas". As informações são do site chileno Emol.

Notaram a semelhança com coisas que aconteceram recentemente em nossas ruas? No palavrório dos grupos identificados pela polícia foram observados expressões como "solidariedade com pessoas sequestradas pelo estado", além de apelar para a realização de “ataques em suas diversas formas para manter vivo o fogo anárquico da revolta”. Qualquer black bloc brasileiro assinaria com orgulho embaixo desse discurso. As pessoas "sequestradas pelo estado" são evidentemente militantes presos por atos violentos. O Chile já percebe que o país pode ter chegado a uma era de terrorismo e por isso é preciso precaver-se.

A presidente Michelle Bachelet disse ao site El Nuevo Herald que os vazios legais relacionados ao terrorismo "muitas vezes dificultam uma resposta mais eficaz". O Congresso chileno está para votar uma lei antiterrorista. E depois do atentado, Bachelet anunciou mais reformas legais para fortalecer a luta contra o terrorismo. “Vamos aplicar todo o peso da lei contra os responsáveis, não vamos tremer a mão frente a ações como esta”, ela disse.

Neste idioma maravilhoso que é o espanhol, ela falou em "temblar las manos", que para eles é um termo mais expressivo. Mas cá no Brasil era preciso também começar a pensar em medidas mais duras contra grupos violentos que já mostraram do que são capazes se não forem contidos antes de aprontarem violências mais pesadas. Além de não "temblar las manos", por aqui em nosso país é preciso também parar de passar a mão na cabeça desses nossos potenciais terroristas como se eles não passassem de jovens sapecas. Um futuro mais seguro para todos os brasileiros depende de um sério corretivo pra já nos espíritos violentos.
........................
POR José Pires

segunda-feira, 8 de setembro de 2014


Entre amigos

Aleluia, o crescimento de Marina faz cada milagre. O Lula até começou a ler. A situação complicada criada para o PT fez ele pegar o programa de governo da candidata do PSB para dar uma olhada. Lula diz que vem lendo atentamente o texto. As palavras dele: "Estou destrinchando o programa da Marina, o programa econômico", ele disse e fez uma crítica pesada, com o estilo manjado de apontar nos outros defeitos que sempre são maiores nele: "Não sei se a companheira Marina leu o programa que fizeram para ela. Se ela leu, significa que não aprendeu nada nas discussões que fizemos quando ela estava no partido".

No meio disso, Lula disse também que "governar um país não é um clube de amigos, é a gente saber com quem vai governar e para quem, qual a orientação econômica deste país". A fala vem claramente de uma estratégia de desmonte da candidatura de Marina, colocando suspeitas sobre sua capacidade de formar um governo. O problema é que a retórica eleitoreira petista bate de frente com as novas denúncias que saíram do depoimento de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras que está preso e entrou no programa de delação premiada.

Segundo a revista Veja, Costa já entregou os nomes de três governadores, de um ministro de estado, de um ex-ministro, de seis senadores, de 25 deputados e de um secretário de finanças de um partido. Evidentemente são todos da base aliada do governo. Ele disse também que o ex-presidente sempre soube de tudo. A roubalheira denunciada pelo ex-diretor da Petrobras começou no governo de Lula. E cabe lembrar que durante seu governo a presidente Dilma Rousseff foi ministra de Minas e Energia e presidente do Conselho da Petrobras. Já naquela época, a estatal era de sua responsabilidade direta. Foi parte do esquema a compra por valores muito altos da Usina de Pasadena e desta maracutaia Dilma tentou se livrar dizendo que de nada sabia. Agora são tantos nomes envolvidos em tanta corrupção na estatal que só dá para acreditar na honestidade de Dilma se ela declarar publicamente que é idiota.

Lula e seus marqueteiros haviam preparado essa conversa de "destrinchar" programa econômico e com certeza criaram uma porção de frases de efeito para apontar uma incapacidade de governabilidade em Marina. A imagem do "clube de amigos" com certeza saiu de reuniões de campanha, isso se não foi dica de algum amigo dele, como o Collor, o Maluf ou o Sarney. Com a delação premiada de Paulo Roberto Costa esse papo virou lixo retórico que não convence. A fala devia ter sido descartada, mas não deve ter dado tempo. A sucessiva corrupção atropela a construção do discurso do chefão do PT. Junto com seus marqueteiros ele terá de encontrar novas enganações para substituir esta lorota derrubada por mais um escândalo.
........................
POR José Pires

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A governabilidade do PT

Justo quando a presidente Dilma Rousseff vem batendo em seu programa eleitoral que "para governar é preciso apoio no Congresso" aparece a notícia sobre os políticos delatados pelo ex-diretor de Abastecimento e Refino da Petrobras Paulo Roberto Costa à Polícia Federal. Ele disse que que três governadores, 12 senadores, um ministro de Estado e pelo menos 49 deputados federais levaram dinheiro dos cofres da estatal. É claro que são todos da base aliada do PT no Congresso.

É o apoio de Dilma para governar. O ex-diretor da Petrobras disse à polícia que as empreiteiras contratadas pela estatal eram obrigadas a contribuir para um caixa paralelo destinado a partidos e políticos da base aliada do governo petista. É essa bancada de ladrões, roubando a Petrobras debaixo dos olhos do governo, que Dilma tem para dar sustentação ao seu governo.
........................
POR José Pires

O eleitor brasileiro está tendo a chance de observar fenômenos muito interessantes nesta eleição. Primeiro, temos a aparição inacreditável de uma santa disputando a presidência da República. E depois, podemos observar outro fenômeno também curioso, que são os patifes exigindo da santa uma comprovação de sua santidade. É uma oportunidade rara: de uma tacada só o brasileiro pode desmascarar falsos profetas e também identificar os fariseus.
........................
POR José Pires

As pesquisas decidem a eleição

A intromissão dos institutos de pesquisa nas eleições brasileiras já está virando um problema bastante grave. Ainda temos um mês inteiro até a eleição e muita gente já raciocina como se a eleição estivesse decidida. Esta avaliação prematura começou logo que surgiu a candidatura de Marina Silva. O clima irreal foi bastante estimulado pela pesquisa feita pelo Datafolha, ainda em meio à comoção com a morte de Eduardo Campos. É óbvio que naquela situação não dava para fazer uma análise lógica do quadro eleitoral. Com aquele clima causado pela queda do avião ninguém estava com a cabeça fria para responder sobre preferência eleitoral. Mas aquela foi uma pesquisa que serviu para promover o Datafolha e atrair a atenção para o jornal Folha de S. Paulo, ambos de propriedade da mesma empresa. Não dava para não saber que o resultado colhido passaria muito longe de uma avaliação científica, mas dava para saber muito bem que uma pesquisa naquela situação iria influenciar bastante o eleitorado, o que de fato acabou ocorrendo.

E hoje fala-se até na vitória de Marina Silva no primeiro turno ou descarta-se de antemão o candidato Aécio Neves, de um partido que foi ao segundo turno nas últimas três eleições. O clima é da histeria de pesquisas e nada mais. Isso faz lembrar a primeira eleição vitoriosa de Lula, em 2002. Na mesma data em que Marina Silva deu o primeiro salto no Datafolha (ficou com 21%), o então candidato Ciro Gomes tinha exatamente 27% também por este instituto. Isso foi em 16 de agosto de 2002. Depois ele foi caindo, até ficar com 10% na última pesquisa e acabar com 11,97% nas urnas. Naquela eleição, Ciro Gomes era a estrela na imprensa. E um dos candidatos teve pouca atenção dos jornalistas, exatamente porque foi mal nas pesquisas o tempo todo. Era Anthony Garotinho, que estava com apenas 13% quando Ciro tinha 27%. E no final da campanha Garotinho tinha apenas 5%. Com as urnas abertas sua votação ficou em 17,86%, muito acima de Ciro e bem próximo de José Serra, que foi ao segundo turno com 23,19%. Lula teve 46,44%.

Agora, com esta pesquisa feita no clima da morte do candidato do PSB, faltou ao Datafolha responsabilidade política com o fato, mas está cada vez mais difícil hoje em dia achar alguém que atue com responsabilidade com a notícia. Atrair a atenção a todo custo é a meta. E com os institutos de pesquisa, em época de eleições o que vale é o show. Nesse período alguns trabalham inclusive com o propósito de influenciar o eleitor favorecendo determinados candidatos. Falta uma legislação mais séria e dificilmente isso será feito, pois ela teria de vir dos políticos. E todos querem tirar sua casquinha na bagunça que foi criada.

Atualmente a influência perniciosa dos institutos de pesquisas ficou mais clara porque temos uma eleição bastante singular. Além disso, o prejudicado pelo clima criado pelos números é o candidato do PSDB, um dos maiores partidos do país. Os partidos menores é que sofrem mais com o descaso da imprensa causado pela suposta falta de popularidade aferida nas pesquisas. É um erro editorial, mas a maioria dos jornalistas se pautam pelas pesquisas. As últimas manifestações de rua ocorridas no país servem para demonstrar este equívoco de interpretação da política. Nem sempre o partido mais votado ou os políticos mais populares são os que criam fatos determinantes. As manifestações que incendiaram recentemente o país tinham por detrás delas grupos minoritários e partidecos que são sempre obscurecidos nas eleições em razão das baixas porcentagens nas pesquisas. No entanto, acabaram tendo um papel essencial nos protestos de rua, que foram de grande importância política inclusive nessas eleições.

Esta eleição mostra que as pesquisas eleitorais não estão ajudando o eleitor. Ao contrário, criam um ambiente que desfavorece o debate político aprofundado que poderia dar mais qualidade na escolha dos nossos dirigentes. É um embaralhamento de números que não ficam próximos do resultado real nem no final da eleição. Na última eleição para presidente da República todos os institutos trouxeram números errados no final do primeiro turno e também no resultado do segundo turno. As pesquisas não têm servido como boa referência para uma melhor avaliação do voto. Esta interferência vem sendo sendo negativa para a qualidade da nossa democracia.
........................
POR José Pires

O PT cobrando o que nunca teve

Para a análise do comportamento petista não é possível usar aquele velho jargão do "a gente morre e não vê tudo". Quantas coisas espantosas apareceram nesses anos todos. O que será que falta ainda pra gente ver? Quando um dia o governo do PT for estudado nas escolas eu acho melhor esse tipo de aula de história ser permitido apenas no ensino superior. Tanta imoralidade pode fazer mal para as nossas crianças. Epa, teve até pedófilo em cargo de assessoria especial na sala ao lado do gabinete da presidente da República. E foi preso pela polícia.

Nesses 12 anos o PT aprontou demais no governo e fizeram também muita treta antes de ocuparem o Palácio do Planalto (num passado em que existe até suspeita de mortes entre os companheiros), de tal forma que com esse partido a gente já viu quase tudo. Será que existe alguma maracutaia com dinheiro público que não tenha sido feita pelos companheiros? Puxa vida, a Polícia Federal até flagrou amante do chefão e presidente de honra do partido praticando corrupção pesada num alto cargo do governo dado por ele. Em que governo teve isso no Brasil? Não me lembro de nenhum outro. É provável que seja inédito até no mundo todo.

A gente já viu quase tudo com essa gente, mas sempre pode aparecer alguma surpresa. Agora, por exemplo, temos essa inacreditável oportunidade de ver o PT cobrando coerência da Marina Silva. Tem sido muito engraçado. Aparecem cobranças de coerência todos os dias. Pois é, o partido que desonrou seus mais importantes compromissos históricos vem dando de dedo na candidata do PSB exigindo dela a coerência que nunca tiveram. Nenhum outro partido traiu tanto seu eleitorado quanto o PT. Em termos de incoerência o PT tem até documento público jogando no lixo seus compromissos. É a "Carta aos brasileiros", documento que fizeram em 2002 movidos pela ambição pelo poder.

Estamos vivendo sob a esperança de ver o PT ser corrido do governo. Seja com quem for que isso aconteça, essa expulsão pelo voto fará bem ao Brasil. No entanto, ainda falta quase um mês inteiro até a hora da abertura das urnas. Eu acho que até lá é capaz até de assistirmos o evento extraordinário do PT cobrando honestidade da Marina. Do Aécio Neves eles já cobraram e nem posso dizer que fizeram isso sem ficar vermelhos porque não dá para notar. Eles já são vermelhos. Eu acho que só falta o PT cobrar honestidade da Marina pra gente poder dizer que já viu de tudo vindo desse partido.
........................
POR José Pires

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O coordenador descoordenado

Com o coordenador que arrumou para sua campanha, Aécio Neves nem precisa de adversários. Os golpes vem de dentro. Numa entrevista à Agência Estado, o senador José Agripino Maia (DEM-RN) deu uma declaração que deve ficar para a histórias das eleições como uma das grandes bolas fora que já foram dadas na política brasileira.

Faltando ainda um mês inteiro para a eleição e o próprio coordenador da campanha de Aécio deu uma declaração que soa como uma desistência da candidatura tucana. Agripino disse o seguinte: "O sentimento que nos move – PSDB, DEM e Solidariedade – é garantir a ida de Aécio para o segundo turno. Se não for possível, avalizar a transição para o segundo turno. Ou seja, com uma aliança com Marina Silva, por exemplo. É tudo contra um mal maior, que é o PT".

É uma grande besteira, mas não é a primeira do senador Agripino Maia. É dele também uma famosa intervenção no Senado, em maio de 2008, quando citou uma entrevista em que a presidente Dilma Rousseff havia dito que mentira sob tortura, quando esteve presa durante a ditadura militar. As palavras de Agripino: "A senhora mentiu na ditadura, mentirá aqui?" A fala desastrada do senador acabou prejudicando a cobrança que a oposição pretendia fazer da responsabilidade de Dilma no vazamento de dados sigilosos sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua mulher, Ruth Cardoso, quando ele ocupou a presidência. Na época desse depoimento Dilma era ministra da Casa Civil, do governo Lula.

Nem cabe perguntar como é que vai parar na coordenação de uma campanha presidencial um parlamentar com tamanha dificuldade de estabelecer um debate que não abra um caminho tão fácil para um adversário escapar dos questionamentos, como ele fez com Dilma no Senado. Deve ser por força de acordo entre os partidos. Mas o resultado disso está aí, em mais essa intervenção desastrosa.

........................
POR José Pires

O ministro sem pasta de Aécio Neves

O tucano Aécio Neves deu um lance no jogo que me pareceu precipitado nesta eleição de três candidatos que não valem um. Foi a nomeação antecipada de Armínio Fraga para o ministério da Fazenda. Nunca aconteceu algo parecido e não teve nada disso até agora não porque tenha faltado aos candidatos de tantas eleições anteriores a sabedoria que sobra no candidato tucano. Eu acho é que os outros candidatos não eram doidos de fazer uma coisa dessas.

Nomeação de ministro antes de ganhar eleição soa como arrogância, por mais que o candidato faça as ressalvas óbvias sobre a necessidade do aval das urnas a esta intenção. Aécio vem fazendo isso toda vez que fala de seu ministro que ainda não tem pasta, o que fica até cômico. Mas este é um problema menor, frente aos outros questionamentos que podem vir à cabeça do eleitor.

O alinhamento de Armínio Fraga com os tucanos já é conhecido. Ele fez parte do governo Fernando Henrique, ocupando a presidência do Banco Central. Portanto, do ponto de vista político a presença confirmada dele como ministro da Fazenda nada acrescenta como convencimento junto ao eleitorado histórico dos tucanos. Porém, sua visão liberal da economia faz dele um bom alvo dos adversários e cria uma antipatia com o eleitorado de perfil econômico mais baixo. Na verdade, na atual situação de crise a presença de Fraga como poderoso ministro de um futuro governo acaba sendo um problema até no convencimento da classe média.

Esta estranha nomeação já fez dele uma pauta da imprensa, o que sempre pode resultar em desgastes. A menos que ele saia por aí falando como um político, mas então seria melhor dar-lhe outra pasta. Ainda que também imaginária, a Casa Civil talvez fosse mais adequada para fazer política na campanha. Uma fala dele que soou como um ataque aos aumentos do salário mínimo é um assunto que já tem rendido para os adversários. Na mesma entrevista, ele falou sobre "medidas impopulares", um excelente assunto em eleição. Mas para os adversários. Fraga falou como economista e deu opiniões intelectualmente respeitáveis. O chato é a eleição em andamento. Ser ministro da Fazenda de um país com tantos problemas como o Brasil nunca foi fácil, mas ser ministro ainda sem o poder torna as coisas mais difíceis.

Um problemão essa nomeação antecipada, não é mesmo? O ministro da Fazenda do Aécio nada acrescenta junto ao eleitorado que conhece bem o pensamento econômico dos tucanos. Tampouco tem peso eleitoral junto aos eleitores de perfil econômico mais baixo. Ao contrário, pode causar temor em quem precisa do amparo do Estado. Ora, então a nomeação do Armínio Fraga só aconteceu para garantir ao mercado e aos empresários a confiança na capacidade e responsabilidade de um futuro governo tucano. Mas espera aí, o Aécio Neves já não dava essa garantia? Abre-se um espaço para a gente achar que para isso o candidato a presidente da República não servia. Pois é, eu falei que essa nomeação prematura era um problemão para os tucanos.
........................
POR José Pires

Caetano explica Marina Silva


Estava demorando para Caetano Veloso entrar na campanha política. Nesta semana que passou ele chegou ao assunto na companhia de Gilberto Gil. Os dois voltaram a declarar apoio à candidatura de Marina Silva, desfazendo a confusão em torno de um vídeo de apoio que foi acusado de fraudulento. São depoimentos de vários artistas apoiando Marina na eleição passada. É provável que nenhum desses artistas tenha mudado de posição. E quanto a Caetano e Gil, penso até que a possibilidade de vitória da candidata do PSB estimula-os ainda mais neste apoio. Apesar de cultivarem uma imagem de independência, na prática eles sempre conviveram muito bem com o poder. Antigamente na Bahia era boa a relação de ambos com o grupo comandado por Antonio Carlos Magalhães, que dominou aquele estado desde a época da ditadura. Gil já esteve próximo do governo de Fernando Henrique Cardoso e foi ministro de Lula. Os dois aparecem como artistas aguerridos, mas a verdade é que jamais cortam em absoluto os laços com o poder.

Eles tiveram também um papel nada libertário na polêmica recente sobre a liberdade de publicação de biografias. Ambos eram pelo poder de censura de biografados e herdeiros. E quanto a seus interesses, Caetano e Gil sabem lidar muito bem também com os mecanismos governamentais de financiamento. Eles mantêm com habilidade a imagem de artistas com o pé na estrada, mas administram muito bem a sustentação econômica de suas carreiras pelos gabinetes oficiais.

E disso faz parte também uma certa teatralidade para lidar com a política. Agora, Caetano tinha que trazer ao debate uma opinião fora de propósito, daquele jeito dele, quando busca mais um tom autoral na análise, sem respeitar o contexto do fato. Gilberto Gil costuma ir também por esse caminho, mas desta vez ele ainda não deu ao fenômeno Marina nenhuma explicação no terreno da física quântica.

No último sábado, Caetano postou em sua página do Facebook um texto onde diz que a vitória de Marina representaria a "chegada de evidentes fenótipos negros no posto da Presidência da República". E ele ainda diz que a chegada dos tais fenótipos "não é pouco". É sua forma esquisita e já bastante manjada de encarar a política. No mesmo texto ele lembra que chorou na cabine eleitoral "no momento Lula". As aspas é porque esse "momento Lula" vem literalmente dele. É uma declaração que deixa claro que não se deve esperar do cantor uma visão equilibrada de política. Lá vem ele novamente forjando uma imagem. Chorar na cabine eleitoral na eleição de um presidente é coisa de tiete populista. E se ele chorou na hora do voto no Lula, quando apareceu o mensalão era para ter cortado os pulsos. Mas não espere coerência do Caetano.

E agora ele vem com essa de "fenótipos negros", trazendo traz um componente racial que não faz sentido na candidatura de Marina. Isso é coisa só da cabeça dele. Na sua manifestação de apoio ele cita também o fato da candidata ser mulher. Quando alguém vem com essa conversa de gênero como um grande diferencial na política, basta lembrar ao manipulador da existência de Margareth Thatcher. E também já tivemos esse papo por aqui. O PT fez uso disso na eleição passada. No caso de Dilma era uma fraude marqueteira e a carreira de Marina não tem sido impulsionada por ela ser mulher. Sua atuação como ambientalista foi que primeiro atraiu a atenção sobre o que ela tinha a dizer na política brasileira. Depois vieram outros elementos de sustentação de seu crescimento, todos relacionados muito mais à forma tradicional da política do que a viagens pseudo criativas de um artista. Marina ficou oito anos no governo Lula e antes disso foi senadora de um partido altamente profissionalizado. E depois de tudo isso, houve a interferência do destino, com a queda do avião que matou Eduardo Campos, o candidato de quem ela era vice-presidente. É forçação encaixar tanto questões de gênero quanto "fenótipos negros" nessa história.

Caetano Veloso sabe de tudo isso. São acontecimento bem recentes que todos nós acompanhamos. Nem é preciso ler nos textos de história, basta recorrer à lembrança. Mas isso não é do interesse do cantor, daí as lorotas, como esta de "fenótipos". Ele é desse jeito. Está sempre surfando numa onda. Antes foi com os black blocs, agora é com Marina. Em vez de contribuir com opiniões sensatas em um debate, numa época muito difícil do nosso país, interessa a Caetano criar lendas. A começar pela lenda dele, é claro.
........................
POR José Pires