quinta-feira, 25 de junho de 2015

Na batida das patrulhas

Acho que estou mesmo ficando velho, porque venho sentindo que conceitos básicos vão ficando para trás, num desmonte moral, político e até mesmo de conhecimento prático da vida que já pareciam muito bem estabelecidos entre os brasileiros. Num antigamente que não está tão longe assim na rabeira do tempo, por exemplo, ninguém procurava dar outro significado às conversas informais que não fosse exatamente o da despretensão que permite inclusive a falação de bobagens, aceitáveis num contexto em que todos sabem qual é o sentido moral da existência de cada um que está na roda. Hoje em dia existe o perigo da desmoralização de toda a carreira de uma pessoa apenas com o uso de qualquer besteira falada num papo informal ou de um trecho de texto.
As militâncias, qualquer uma delas, costumam fazer bastante isso. Certos grupos de militantes negros, do feminismo, de trabalhadores ou de alguma dessas atividades que a esquerda inventa para evitar que se fale de seus próprios defeitos, andam sempre em busca de alguma picuinha para fazer um estrago na vida de quem eles julgam como adversário.
O aspecto mais triste dessa patrulhagem é que o resultado é sempre ruim para os segmentos sociais que esses cretinos dizem defender. Com o clima de intimidação que foi sendo criado, vimos nos últimos tempos um crescimento enorme de forças reacionárias, algumas delas baseadas em conceitos de seitas, com visão tão estreita que prejudica até o papel social das religiões. Os setores que de fato têm componentes discriminatórios e utilizam preconceitos como forma de se fortalecer politicamente e ganhar dinheiro só têm se beneficiado com a agressividade que esta militância impõem aos debates. Ocuparam um poder político que nunca se viu anteriormente, inclusive com o poder de influenciar decisivamente a proposição e mudança de leis no Congresso Nacional.
Numa ironia que não é nenhuma surpresa para quem tem experiência de vida, as agressões rotineiras desses bandos de militantes afetam apenas quem procura fazer política com bom senso, buscando extrair do debate nacional um equilíbrio de convivência e o conserto do que existe de ruim em nossa vida. É lógico que a feminista não tem a possibilidade de atingir com sua agressividade o machão. Sofrem, então, os homens de espírito aberto que elas podem alcançar com insultos. A mesma coisa ocorre com esta militância racialista que vem gradativamente criando uma divisão racial que o país nunca teve. O racista se fortalece e sofrem os brancos que não aceitam o preconceito e discriminação. É uma militância composta de gente besta, que sabe pouco até do real funcionamento do racismo. Nunca atinaram para o fato de que nos Estados Unidos a Ku-Klux-Klan tinha como meta pendurar em árvores também os brancos que contestassem seu projeto de poder.
Esse pessoal das militâncias azucrinadoras precisa conhecer um pouco mais das dificuldades de um Thomas Jefferson e de outros fundadores da república americana para estabelecer as raízes da democracia que se espalhou pelo mundo e que num país como o Brasil falta só um tantinho para ir à breca. Por aqui, falta-lhes ainda o conhecimento sobre personalidades como Joaquim Nabuco e tantos outros que buscaram fazer do Brasil uma nação decente. Podiam tentar saber também alguma coisa das lutas que tivemos entre anos 60 e 80 pelo direito das mulheres, negros, índios e também pelo direito nosso de viver sem patrulhas ideológicas.
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POR José Pires

quarta-feira, 24 de junho de 2015


Dando pau


O PT no Brasil parece vírus de computador. Ele se instala, ocupa todos os espaços e se mete em todos os seus programas, interfere nos seus trabalhos e também nas suas diversões, mas você vai convivendo com ele, apesar da chateação que vai aumentando e prejudicando gradativamente tudo o que você faz. Porém, mesmo com a atrapalhação você acaba se adaptando à presença do vírus, às vezes usando de algum jeitinho para contornar os problemas que aparecem, noutras situações procurando ignorar sua presença incômoda e com o tempo vai aceitando como normal a má qualidade generalizada que ele trouxe para a sua vida. Porém, chega um momento que é preciso tomar uma decisão: se o vírus não for eliminado, você perde o computador.
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POR José Pires

A vendedora de ilusões

Com o próprio PT atacando o governo Dilma, agora ficou muito claro que a candidata do Lula vendeu ilusões na campanha passada e obviamente não tem como entregar. Daí os ajustes que vem fazendo, que seriam exigidos de qualquer candidato vitorioso. O fato dela estar fazendo essas correções com um método que seu partido sempre atacou nos adversários tucanos já é problema unicamente do PT, um partido que já completou 35 anos e não tinha nenhuma proposta real para atacar esta crise e nenhuma outra. Pra fazer o serviço exigido tiveram que colocar no ministério da Fazenda um economista que até então servia a um dos maiores bancos do país, cujo chefe banqueiro, aliás, recusou o convite de Dilma para ser ministro.
O partido do "Brahma" caiu abaixo do volume morto sem ter apresentado na prática absolutamente nada de novo na política brasileira. Ficou tudo na conversa, leros petistas que em sua maioria serviam apenas para o jogo sujo eleitoral. É um partido que será lembrado em nossa história exclusivamente pela corrupção, na qual aplicou inclusive uma impressionante sistematização, embora igualmente nisso tenham falhado de forma espetacular. É de dar vergonha alheia. Como diz o povão, pior do que um partido roubar é não saber carregar. O PT não se salva nem pelo "rouba, mas faz". Nada fizeram.
Mas voltemos às ilusões vendidas na campanha pela presidente Dilma Rousseff. Ora, para que ela tivesse sucesso era preciso que aquele engodo fosse aceito por milhões de brasileiros. E muitos aceitaram a farsa, mesmo sabendo do perigo de dar continuidade a um ciclo de governos petistas comprovadamente incompetentes e gatunos. Não estou falando do eleitorado com menos acesso à informação e pouca possibilidade de compreensão dos alertas que muita gente gritava durante a campanha. Dilma só conseguiu se eleger porque empresários, sindicatos, intelectuais, jornalistas, o meio universitário e tantas outras pessoas capacitadas fizeram um trabalho lamentável de desmonte do discurso da oposição e fortaleceram o engodo da campanha petista, mesmo sabendo que aquelas promessas vazias não podiam ser sustentadas nem pela aritmética mais simples.
Não estou propondo nenhuma caças às bruxas e nem quero que o país se perca numa autocrítica coletiva que faria mais estragos entre os que não meteram a mão nos cofres públicos do que aos patifes que arruinaram o Brasil. No entanto, para o muito que é preciso fazer para o país se levantar, viria bem que os brasileiros dessem uma atenção aos defeitos do caráter nacional que criaram as condições para que o nosso país fosse dominado pelo que já houve de pior desde a redemocratização. Achar que a culpa é exclusivamente de Dilma Roussef e de seu partido servirá apenas para que tudo se mantenha na velha condução política que vem fazendo do nosso país um objeto que ao longo do tempo só muda os bandidos da vez.
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POR José Pires

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O laranja da pedalada fiscal

Todo mundo sabe que uma das grandes sacanagens da bandidagem é o uso de menores assumindo crimes como laranjas, para que os marmanjos possam se safar. Os quadrilheiros maiores é que matam, mas quando o crime é desvendado costuma aparecer um menor de idade assumindo a autoria. Pois está acontecendo algo parecido nessa história do ex-secretário do Tesouro Arno Augustin ter assumido sozinho toda a responsabilidade pelas pedaladas fiscais do governo de Dilma Rousseff. Ele chegou a afirmar isso em documento assinado a 30 de dezembro do ano passado, seu último dia de trabalho no governo, o que permite desconfiar que ele aceitou ser laranja de um crime premeditado. Eles sabiam que a enganação nas finanças públicas podia dar bolo. A pedalada fiscal é um crime de responsabilidade punido pela Lei 1.079 e previsto também no Código Penal.

Uma coisa dessas pode fazer um presidente da República perder o mandato, mas tem pouco significado para um sujeito de cargo nomeado e que nem está mais no governo. Daí o ex-secretário de Dilma ter assumido que foi ele e mais ninguém que enganou todos os brasileiros. Que feio! O Arno Augustin é o menor de idade da Dilma. E não estou querendo dizer que a presidente da República é chefe de quadrilha. Sei muito bem que o chefão é outra pessoa.
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POR José Pires

Ilustre desconhecido

O Brasil fechou 115.599 vagas formais de trabalho em maio, o mês no qual os trabalhadores comemoram seu dia. O número negativo marca outro tento do governo Dilma: é pior resultado para o mês desde o início deste indicador, em 1992. E é também a primeira vez que há corte de vagas no quinto mês do ano. O resultado é ainda mais grave, levando em conta que acumula perdas de postos de trabalho com o mês anterior, quando foram fechadas 97.827 vagas.

É interessante relacionar este mau resultado com uma pesquisa divulgada ontem pelo jornal Folha de S. Paulo, que mostra que 64% dos entrevistados não sabem quem é o ministro da Fazenda. A pesquisa foi feita pela Ideia Inteligência e teve grande abrangência. Foram ouvidas 20 mil pessoas em 69 municípios brasileiros. A confiança no trabalho de Joaquim Levy é mínima. Ninguém sabe que ele é o ministro que conduz a economia, além de quase todos não acreditarem que vá dar certo o que este desconhecido vem fazendo.

Além de 64% dos entrevistados não saberem quem é o atual ministro da Fazenda, tem ainda 15% que pensam que o ministro é Guido Mantega. Outro número mostra a desesperança da população: 78% dos entrevistados acreditam que o mercado de trabalho vai piorar nos próximos meses. E a gestão da economia é reprovada por 88% dos entrevistados, enquanto apenas 8% acham que o governo do PT está fazendo a coisa certa na gestão macroeconômica.
O brasileiro começa a tomar consciência da ruína econômica criada pelo governo do PT, porém este pé na realidade não vem acompanhado de nenhuma esperança de que a presidente Dilma Rousseff saiba como fazer para tirar o Brasil desta enrascada em que ela mesma e seus companheiro nos meteram. Desse jeito, a receita econômica do ministro Levy tem tudo para desandar. Os pacientes nem sabem quem é o médico. E quase todos já estão vendo o remédio como um placebo.
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POR José Pires

sábado, 13 de junho de 2015

Rindo da desgraça alheia

Nada me espanta vindo da figura do ex-presidente Lula e dos agregados políticos que tentavam até agora fazer deste grande patife uma figura mítica, no entanto sou obrigado a aceitar que mesmo dele pode vir alguma surpresa. No congresso nacional do PT, ocorrido nesta quinta-feira, teve até aplauso de pé da militância para João Vaccari Neto, o tesoureiro petista que foi preso na operação Lava Jato e está em cana até hoje, acusado de receber propina para o próprio partido. Contudo, apesar dessa barbaridade, foi do próprio Lula que partiu o maior absurdo do evento político partidário. O chefão petista comemorou as demissões de jornalistas que ocorrem em massa, com a ruína de empresas e o fechamento de revistas e jornais.

A situação é de uma tristeza angustiante. O tempo todo aparece a informação de grupos inteiros de bons profissionais sendo demitidos e de títulos que deixam de circular, alguns de publicações que já eram de tradicional influência na vida brasileira. Imagine a tragédia que é isso para profissionais, como eu, que estão ao largo dos esquemas políticos que abrem espaços em boquinhas pagas com o dinheiro público. E é claro que a gravidade da questão vai além desta angústia pessoal, em razão dessa quebradeira ser terrivelmente prejudicial ao conjunto da cultura do país, com efeitos nocivos inclusive na política e na economia. A imprensa construiu através dos tempos um papel essencial como intermediária nas relações sociais, com um papel também proativo no estímulo e aferição de qualidades em todas as atividades. É isso que está se perdendo, sendo que, na minha visão, a deterioração desta área do pensamento brasileiro é uma das causas da tragédia nacional de um país cada vez mais abilolado, que vem se matando numa autofagia de palavras e gestos.

Mas lá vem o Lula, sempre ele, aplaudindo as demissões, com aquela visão tacanha muito dele de que o fechamento de publicações serviria somente para o enfraquecimento de seus adversários. E ele sabe o que está fazendo, pois tudo isso que eu falei acima sobre a função da imprensa, quando é bem feito impede que figuras nefastas da sua laia venham a ter o poder que ele tem. Na alegria do ex-presidente com as demissões encaixa-se de forma muito apropriada aquele seu jargão do "nunca se viu neste país" porque, de fato, não se sabe de outro sindicalista brasileiro que tenha aplaudido um dia a demissão em massas de trabalhadores. E o pior é que esse papo não é novo. Tem acontecido bastante e muitas vezes vêm de jornalistas (é claro que de esquerda) tirando sarro e aplaudindo com entusiasmo a falência de empresas de comunicação e até o fechamento de publicações, com a demissão de colegas. Vejo isso até aqui nas redes sociais, da parte inclusive de pessoas com as quais sempre tive divergências políticas, mas de quem eu não esperava tanta baixeza. Mas é assim mesmo, alguns traidores a gente só reconhece depois que eles nos entregam aos inimigos.
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POR José Pires

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Biografias liberadas e com adendos

A polêmica em torno das biografias teve seu ponto final batido pelo Supremo Tribunal Federal e a conclusão foi boa, embora todo o enredo tenha sido de qualidade discutível. Agora as biografias não precisam ser autorizadas. Esse assunto é uma daquelas chateações que aparecem o tempo todo no Brasil e nos impede de nos concentramos no que realmente importa. É mais ou menos como debater de forma acirrada se homossexual deve ou não se casar na igreja, enquanto o país vai sendo destruído em seus aspectos mais básicos. Na violência, na falta de qualidade administrativa e na corrupção, no cinismo político e até na falta de trabalho decente para grande parte dos brasileiros. Mas falemos das biografias, antes que algum chato (heterossexual ou homossexual) venha tentar travar meu post fixando-se com comentários neste papo.

O interessante neste assunto das biografias é que havia até um certo descuido da opinião pública com o sério problema da censura sobre o trabalho dos biógrafos. Este é mesmo o país das atrapalhações. Já não bastando a dificuldade que temos de saber o que somos de fato, ainda vem herdeiros e pessoas famosas tentar censurar quem procura informar e trazer conhecimento a um país cada vez mais carente de identidade. Havia um impedimento jurídico de se escrever com liberdade e essa trava era exercida nos bastidores por estrelas que posavam de libertários em público. Com uma imprensa cada vez mais tonta, a coisa só veio à tona por força do abuso em arrogância de alguns ídolos. Principalmente Caetano Veloso, Chico Buarque e Roberto Carlos fizeram papel muito feio. O debate serviu para um desmascaramento e até da revelação do mau-caratismo encoberto por mitos de bom mocismo. Chico Buarque, por exemplo, tentou acabar com a credibilidade do biógrafo de Roberto Carlos, mentindo sobre uma entrevista dada por ele. O biógrafo estria destruído, se não tivesse filmado a entrevista, que Chico Buarque havia negado. E Caetano Veloso ficou na moita, enquanto a ex-mulher brigava (e como!) por ele.

Roberto Carlos foi quem se revelou de forma mais clara, ele que já tinha censurado o livro "Roberto Carlos em detalhes", de Paulo Cesar de Araújo, uma biografia que não traz nenhuma inverdade e também nada de espetacular. Ficaria restrita a um círculo limitado de leitores se o cantor não tivesse processado o autor e apreendido toda a edição. Esse tipo de censura acontecia na ditadura militar, período aliás que facilitou a vida do auto-intitulado "Rei da Jovem Guarda". Na época, com o porrete dos milicos caindo na cabeça de artistas de verdade a coisa ficou mais fácil para cantores como ele. Roberto Carlos é sem dúvida um grande cantor popular, sendo um dos poucos da área comercial que realmente sabe compor e cantar. No entanto, não tem obra que justifique o realce que a mídia dá a ele na música brasileira. Seu alto prestígio foi conquistado às custas de caros esquemas comerciais chefiados por ele com grande habilidade.

Porém, sua reação autoritária teve um efeito contrário ao pretendido. O assunto trouxe para a pauta da imprensa muitas das maquinações de sua carreira, que em grande parte foi toda construída de forma ardilosa e artificial. Nem preciso falar muito da sua parceria financeira com o poder de comunicação da Rede Globo. Mas vieram então histórias sobre sua arrogância, até com revelações das suas interferências inclusive na área de promoção das gravadoras para prejudicar o trabalho de artistas que, na sua visão, trariam concorrência ao seu sucesso. O desgaste foi tanto que, no julgamento desta quarta-feira que liberou a feitura de biografias, seu advogado já estava do lado da liberação.

Algumas censuras enfrentadas por livros que já estavam impressos e impedidos de circular são típicas de um país com o pensamento submetido a regras jurídicas provincianas. Herdeiros tinham impedido de circular livros sobre Lampião, Guimarães Rosa, Noel Rosa, Paulo Leminski e Garrincha. A biografia de Garrincha sofreu censura de sobrinhas do grande jogador da Seleção Brasileira, por causa de uma questão, digamos assim, menor na história da vida dele, escrita de forma admirável e com um baita esforço pessoal de Ruy Castro, que ocupou-se num longo tempo em trabalhosas pesquisas, bancadas financeiramente pelo próprio biógrafo e a editora. Os parentes de Garrincha se encresparam com a menção ao tamanho do pênis do jogador, uma das tantas histórias pitorescas dele e que por isso mesmo tinha que estar na obra. O livro estava impedido pelos herdeiros de ser vendido e a editora também teve problemas anteriores com parentes, questão que foi resolvida depois de um substancial pagamento. E só estou falando deste assunto íntimo por causa da censura. Além da qualidade de estilo e da pesquisa séria, o livro de Ruy Castro teve o papel de resgatar um ídolo esportivo de extrema importância na identidade nacional e que já estava sendo esquecido. E o que os herdeiros faziam antes disso pela imagem de Garrincha? Nada.

Agora, com mais de uma década com o pé no Terceiro Milênio, até parece um grito surrealista, mas acabou a censura. Quando a vida e a obra são públicas, o melhor que se faz é liberar a interpretação que se faz delas. E os herdeiros que arranjem outra forma de arrancar dinheiro do próximo. No geral, o interesse de biografados e seu pessoal entorno sempre foi com grana. As censuras se revestiam de hipócritas teorias em torno do respeito ao caráter privado de suas vidas, porém o objetivo era o de levar grana ou resguardar-se de revelações que afetassem negócios comerciais. Era com o caixa a preocupação das personalidades públicas que queriam manter as biografias sob a censura da exigência de autorização pessoal. Nada havia da busca verdadeira de uma interpretação sobre suas vidas. E, no final, com essa briga por poder e dinheiro o que cada um acrescentou à sua biografia foram algumas páginas lamentáveis.
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POR José Pires

Indignação estadual

Todo mundo sabe que o PT é novidadeiro em política, pois eles estão agora com uma indignação seletiva que é só deles: é a indignação estadual. O funcionamento é muito simples e evidentemente exige que haja um governador que não seja do PT. Em estados como São Paulo e Paraná os petistas estão tinindo com a "indignação estadual", com mais animação no Paraná, onde o governador Beto Richa tem aberto amplos espaços para sindicatos atrelados ao partido do Lula pintar e bordar com suas manipulações. Talvez por experiência política ou mesmo pela personalidade mais definida, o tucano Geraldo Alckmin sabe lidar melhor com o PT.

Mas se há uma balbúrdia vermelha entre os paranaenses e paulistas, o mesmo não acontece em Minas Gerais. Lá não tem "indignação estadual". E não é porque o mineiro, como diz a lenda, é um povo quieto. Esses porqueiras petistas são barulhentos em qualquer lugar. É que o governador de Minas é do PT. Vocês já pensaram como é que os petistas mineiros estariam se um governador tucano tivesse uma primeira-dama com o talento financeiro de Carolina Oliveira, mulher de Pimentel? Pois é, mas ao contrário de São Paulo e Paraná, em Minas Gerais nem parece que existe petista. Lá não tem a azucrinação que paulistas e paraenses são obrigados a aturar. Tô até pensando em me mudar pro Facebook de Minas pra descansar um pouco de tanta zoeira boba.
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POR José Pires

quinta-feira, 4 de junho de 2015


Dupla dinâmica


A inversão de valores no Brasil ficou tão comum que somos apanhados o tempo todo em situações surrealistas, como acontece agora com essa história dos presidentes da Câmara e do Senado empenhados em moralizar a administração das estatais brasileiras. Renan Calheiros, o moralizador do Senado, já esteve numa outra vez na presidência da Casa e de lá teve que sair às pressas para evitar a cassação de seu mandato. Nossa imprensa anda desacostumada de fazer seu serviço direito e por isso certos fatos acabam esquecidos. A bem da verdade, se fosse para moralizar mesmo o Brasil, políticos como Renan Calheiros deviam estar há muito tempo em outros lugares, aqueles com janelas e portas gradeadas e fechadas por fora.

Eu bem me lembro que na época desta treta do senador Calheiros, quando ele foi acusado de receber propina de empreiteiras, havia também uma amante dele, de nome Mônica Veloso, com quem ele tem uma filha. O aluguel do apartamento dessa amante e a pensão alimentícia da filha dos dois seria paga por essas construtoras, esta era a denúncia. Ali deveria ter sido interrompida a carreira política de Renan Calheiros e não que houvesse faltado motivo para que isso tivesse sido feito antes. Mas naquela vez havia um conjunto de provas de que, definitivamente, ele é uma figura nefasta da política brasileira. Tanto é assim que, em vez de mostrar sua inocência ele preferiu renunciar à presidência e acertar as coisas no silêncio dos bastidores.

E aí está hoje o senador bolando lei para moralizar nossa estatais. O projeto tem até carimbo de marqueteiro, no batismo pretensioso de "Lei de Responsabilidade das Estatais". E Renan Calheiros tem como parceiro desta cruzada moral administrativa o deputado Eduardo Costa, atualmente ocupando a presidência da Câmara Federal, o que faz jus ao caráter desta Casa e por isso mesmo configura também um símbolo da deterioração política do nosso país. Costa é velho conhecido de quem acompanha mais de perto a política brasileira, desde os tempos em que sua parceria era com tipos notórios como Anthony Garotinho. As denúncias que pesam contra ele em sua carreira já bastavam para que sua posição estivesse restrita no máximo ao obscurecido "baixo clero" do Congresso Nacional, mas aí está ele, em destaque na política nacional e formando dupla bastante apropriada com Renan Calheiros em prol do bem comum.

A parceria dos dois é até bastante estranha e não só pelo inusitado tema da moralização pública, escolhido para o trabalho em conjunto, mas também porque nunca se viu antes em público os dois atuando juntos. Não sei se a Polícia Federal escondeu algo de nós no passado sobre esta sintonia, mas até agora esta dupla dinâmica era desconhecida em atividade aos olhos da opinião pública. No entanto, a PF trouxe recentemente algo que os liga estreitamente. Foi a denúncia sobre a suspeita deles terem participado da corrupção na Petrobras. E exatamente esta estatal saqueada é que vem sendo usada como o motivo deste surto moralizador. Alguém pode até dizer que é muito cinismo do senador e do deputado, mas eu prefiro ver isso da forma que Shakespeare escreveu em Hamlet: tem lógica nessa loucura. Mas quanto aos crimes de que eles são acusados, o Supremo Tribunal Federal já abriu inquérito contra os dois, o que devia ter sido motivo da renúncia imediata de cada um, ao menos da presidência da Câmara e do Senado. Mas é claro que aí não daria para vê-los juntando armas nesta cruzada moralista, o que faria do Brasil um país banal, desses que vivem na realidade, bem longe do impressionante realismo mágico que tomou conta da vida brasileira.
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POR José Pires

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Justiça d'além fronteiras

A prisão do cartola brasileiro José Maria Marin, na Suiça, mostra que punição para corrupto brasileiro é coisa de estrangeiro. Só acontece se o patife nacional faz das suas em países onde existe lei, como nos Estados Unidos e na Europa. Um exemplo disso é a situação do notório Paulo Maluf, que faz das suas no Brasil e por aqui as suas safadezas ficam por isso mesmo. Os processos contra ele rolam lentamente na leseira dos trâmites jurídicos brasileiros e passa tanto tempo que ele até acaba absolvido pela idade. A lei aqui tem inclusive essa facilitação. Corrupto se safa da punição com o avançar da idade.

Maluf, por sinal, teve Marin como vice-governador nos anos 70, quando ambos foram nomeados para o governo de São Paulo pela ditadura militar. Desde aquela época que Maluf está na boa por aqui, mas não pode viajar para o exterior senão será preso. A Interpol tem um mandato contra ele, então acabaram-se as viagens para Miami e outros paraísos, inclusive os fiscais. Visitas à Suiça, então, nem pensar. E a encrenca dele é exatamente com os Estados Unidos, onde já esteve até preso. Marin devia ter aprendido com seu antigo mentor a ficar quietinho aprontando apenas no Brasil, mas foi fazer das suas em lugares sérios e deu no que deu.  As penas nos Estados Unidos para os crimes que levaram à sua prisão podem chegar a 20 anos de cadeia.

Essa justiça que se faz no exterior contra corrupto verde-amarelo pode trazer outras boas notícias sobre um evento esportivo muito suspeito que tivemos por aqui recentemente. O Departamento de Justiça americano informou que a Copa do Mundo de 2014 também está sob investigação. A gente lembra muito bem a maquinação política que foi feita por Lula, ainda como presidente da República, para trazer esta Copa para o Brasil. O evento foi parte de um esquema pesado para desviar a atenção da opinião pública dos problemas administrativos e a corrupção, que já estavam bastante embalados em seu governo. A Copa foi também uma peça de propaganda importante na eleição de Dilma Rousseff. A maquinação foi tão safada que marcaram a entrega da taça num dia 13, o número do PT. O problema foi aquele triste 7 a 1 tomado da Alemanha, que comprovou a conhecida fama de pé-frio do Lula.

E agora a torcida brasileira pode enfim ver esclarecidas as suspeitas que ficaram daquela Copa do Mundo. Com os americanos na investigação, com certeza o resultado não será como aqui, onde temos uma Justiça tão cega que não consegue ver nem elefantes brancos superfaturados.
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POR José Pires


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Imagem- Lula com seu amigo Marin, festejando a vinda da Copa do Mundo para o Brasil. Repare no número da camisa da Seleção Brasileira que os dois seguram. Parece que o Marin não teve muita sorte com isso.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Radicalizando

Já no início da revolução comunista na Rússia, seu líder Vladmir Lenin identificou um tipo de ação política que ele viu como um perigo para a estratégia internacional do comunismo e sobre isso escreveu um de seus livros mais conhecidos, ao qual deu um nome que tornou-se a denominação dessa atitude que ele condenava como um grave desvio ideológico: "Esquerdismo, doença infantil do comunismo". Esse problema vinha dos setores mais radicais do movimento comunista internacional, que logo passaram a ser vistos em todo o mundo dessa forma negativa, como Lenin queria. Com o tempo, o termo "doença infantil do comunismo" virou um chavão na condenação de quem saia da linha do partido.

A "doença" foi até pretexto para expurgos e execuções, tanto em países de regimes comunistas, como também entre a esquerda de lugares onde o comunismo nunca vingou. Porém, não é só o comunismo que sofre com uma doença infantil que atrapalha estratégias e até acaba favorecendo o adversário. No conservadorismo também tem disso, como já deu pra notar nos movimentos de massa que foram às ruas pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O governo do PT deve agradecimento ao que foi feito por uma parcela dessa militância conservadora que tem uma complicação parecida com aquela diagnosticada por Lenin, só que neste caso com sintomas à direita. Dá pra chamar o problema de "Direitismo, doença infantil do conservadorismo". Quando dá febre no doente, ele até grita pela volta do regime militar.

Essa doença vem se manifestando de forma agressiva no Movimento Brasil Livre, que está fazendo uma marcha pelo impeachment até Brasília, com a chegada prevista para esta quarta-feira. Até agora não entendi o sentido dessa caminhada. Um pouco mais de uma dezena de jovens estão andando pelo acostamento de rodovias, sem sequer uma pauta política consistente que tenha relação com as cidades que estão pelo caminho. Na página de Facebook do grupo não se viu nenhum post que trouxesse boas informações sobre o que eles estão fazendo e também no site deles nada apareceu de qualidade sobre essa longa passeata. O que surgiu nos últimos dias foram ataques pesados ao senador Aécio Neves, depois que o PSDB resolveu optar por uma ação penal contra Dilma em vez do pedido de impeachment.

A resolução desagradou ao Movimento Brasil Livre, que partiu para o ataque ao candidato tucano que disputou o segundo turno com a candidata do PT. De tão pesados, os ataques chegam a lembrar os dos petistas, quando a militância governista apelava até para acusações de uso de cocaína. É interessante, porque os jovens conservadores que seguem agora contrariados para Brasília estão fazendo à direita a mesma coisa que Lenin condenava em alguns camaradas do seu lado. Com esse tipo de ataque, o Movimento Brasil Livre mostra inclusive que não tem estratégia alguma nem para estruturar suas pretensões. Onde pensam chegar com essa conversa de "Aécio traiu o Brasil"? Não é possível que pensem em derrubar Dilma só com o deputado Bolsonaro e o senador Ronaldo Caiado. Não será batendo na oposição desse jeito que sairá um impeachment, já que para isso é indispensável o entendimento não só com o PSDB de Aécio Neves como também com os demais partidos que compõem a oposição e que certamente não se arriscarão a apoiar molecagens. Essa contradição muito simples já serve para mostrar o sintoma de doença infantil desse grupo sem estratégia alguma, a não ser a de bater o pé quando contrariados. Mas pelo menos agora sabemos qual é a grande argumentação deles para a interrupção do governo de Dilma. Eles querem o impeachment porque querem, ora bolas.
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POR José Pires

sábado, 23 de maio de 2015

Visita do FMI

Cadê os companheiros do PT e suas faixas de protesto? A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, está no Brasil e até agora a militância não deu as caras para protestar contra esta intromissão em nossa economia. Fazia tempo que o pessoal do banco não aparecia por aqui, não é mesmo? A chefe do FMI está no Brasil desde quarta-feira e vem dando vivas ao ajuste fiscal. Ninguém a vaiou por isso até agora. Um dos lugares que ela escolheu para falar do assunto foi o Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. E não apareceu por lá nenhuma grande manifestação, nenhum black bloc e muito menos o Stédile com o "exército"do MST. Tudo está bastante calmo e deve ficar assim até a senhora Lagarde ir embora. Mas já pensaram se a visita da dirigente do FMI ocorresse com o Aécio Neves como presidente da República ou mesmo a Marina? Bem, aí apareceria para protestar até aquele velhote ensandecido vestido com uniforme da Petrobras, o Lula.

Pois é, a indignação da esquerda é seletiva até nos aspectos mais simbólicos das suas batalhas históricas. Nem o FMI cria indignação nos companheiros, quando ficar quietinho é do interesse do projeto de poder deles. E mesmo numa situação dessas, em que parece já estar sendo armado um clima para um pedido de ajuda ao FMI. Reparem na fotografia da reunião de Lagarde e Joaquim Levy, em Brasília, como o nosso ministro está com uma cara de que precisa de algo. Não vou me surpreender se esta visita for apenas preparatória para relações mais estreitas do governo do PT com o FMI. Que os companheiros deixaram o Brasil na lona, nós todos já estamos sentindo no nosso dia a dia. Falta grana para tudo. Pode até ser que logo eles estejam cantando o "Ei, você aí, me dá um dinheiro aí" para o FMI. E se isso acontecer, garanto que a militância ficará caladinha. Ou melhor, o mais provável é que entre para ajudar no coro.
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POR José Pires

sexta-feira, 15 de maio de 2015

B.B. King e um genial parceiro

Quando se fala de B.B. King, que morreu nesta quinta-feira, sempre me lembro de Eric Clapton e do grande álbum dos dois, lançado em 2000. Foi um encontro musical memorável entre esses grandes artistas, ainda que esteja muito claro que na dupla o mestre era B.B. King. Clapton falou várias vezes que foi com os ouvidos atentos aos discos de vinil de King que ele aprendeu a tocar. O guitarrista britânico divulgou um vídeo em que fala com emoção sobre o colega que se foi e indica para quem quer conhecer sua obra o álbum álbum "B.B. King Live at the Regal", de 1964. Ele diz que foi com esse disco que "tudo realmente começou" para ele como guitarrista. No ano do lançamento Clapton tinha apenas 19 anos.


Outro álbum excelente para conhecer B.B. King é este do qual estou falando, "Riding with the King". Dá para ouvi-lo com facilidade na internet. Na minha opinião, o álbum tem também uma da melhores capas já feitas na história da música. O fotógrafo Robert Sebree lembra que quando ligaram para ele perguntando se topava fotografar Clapton e King para a capa do álbum deu vontade de dizer "Sim, por favor", mas segurou-se e falou apenas um "O. K.". Segundo ele, a ideia da foto foi de Clapton. Acabaram criando a reverência mais bem humorada da história da música, comparável ao gesto de Paul Gauguin homenageando o mestre Gustave Courbet na bela tela "Bonjour, Monsieur Gauguin".
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POR José Pires

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Queimando o próprio filme

Seja qual for o resultado da votação pelo Senado na semana que vem do nome de Luiz Edson Fachin como novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), a indicação feita pela presidente Dilma Rousseff já fez uma vítima política importante: o senador Álvaro Dias, do PSDB. O senador paranaense é o relator da indicação de Fachin, de quem vem fazendo uma defesa que está além de seu papel oficial no exame do candidato à vaga de Joaquim Barbosa. A presença de Dias nesta função já é bastante estranha, além de ser extremamente inoportuna para a situação atual de seu partido, que precisa se firmar politicamente frente a um eleitorado cada vez mais indignado com o governo do PT. Nunca se viu um relator da oposição para um serviço como este. E a credibilidade do senador tucano acaba sendo ainda mais afetada pelo fato dessa indicação ser definidora na ampliação do domínio do PT sobre a mais alta corte do país.

Não será um Fachin que dará menos credibilidade a um tribunal que já tem como ministro um Dias Toffoli, advogado tão próximo do esquema de poder petista que já havia até dividido apartamento com o mensaleiro José Dirceu, além de ter sido empregado do partido. Mas esta indicação de agora parece ter simbolizado a consagração do mando petista sobre o STF. É isso pelo menos o que pensa uma parcela expressiva da opinião pública, composta por gente bastante preparada e muito ligada ao debate político nacional. É um vigoroso setor da oposição, com bastante influência inclusive na internet e de atividade intensa nas redes sociais. Aliás, foi essa resistência cotidiana de milhares de pessoas à frente da tela do computador que abriu espaço para a credibilidade e o prestígio de políticos como Alvaro Dias.

Pois é exatamente contra essas pessoas que o senador tucano vem atuando agora, com essa estranha relatoria de uma indicação da qual ele virou até cabo eleitoral. Em discurso na abertura da sabatina desta terça-feira, o senador tucano situou os críticos de Fachin no campo da "irracionalidade, ignorância, vaidade, ódio, esquizofrenia política" além de dizer que eles estão distantes "do bom senso, do discernimento e da ponderação". É muita coisa, não é mesmo? E a ironia histórica é que enquanto disparava tanto insulto contra pessoas a quem deve muito politicamente, tinha ao seu lado tipos como seu arqui-inimigo Roberto Requião (PMDB) e Gleisi Hoffmann, senadora petista que sofre pesadas acusações de corrupção na operação Lava Jato.

Esse Fachin deve ser muito precioso, não é mesmo? Essa posição do senador que já foi um ativo oposicionista irá obrigá-lo a encarar uma realidade muito diferente diante de seus antigos admiradores. Sua imagem já foi pro buraco e certamente acabou para ele o trânsito fácil entre os internautas, que facilitava tanto sua carreira política. Os efeitos já podem ser sentidos. Já ficou muito difícil sua aceitação dentre esta parcela da opinião pública que atualmente é bastante ativa na oposição ao governo do PT. Isso já dá para ver na página de Facebook do senador, que foi tomada por milhares de comentários atacando sua posição. Além da indignação que é exposta em posts com qualquer assunto, está havendo também uma evasão impressionante na página. De terça-feira para cá (quando marquei o número de curtidas na página), Álvaro Dias perdeu 4 mil seguidores. E mais do que a perda do grande número de curtidas, ele tem motivos para temer o que esses internautas farão de agora em diante com sua imagem política.
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POR José Pires

terça-feira, 12 de maio de 2015

Muito além da ficção


O PT tem aprontado tanto nesses quase 13 anos de poder que um escritor de livros de crime e mistério teria evitado contar histórias que envolvessem um partido em tantas encrencas e com enredos tão difíceis de acreditar. Até na ficção seria difícil aceitar tamanho drama. Tanto é assim, que os brasileiros demoraram um bom tempo para perceber que o país  estava envolvido pelos tentáculos de uma organização política dominada pela cobiça e tomada pela ambição por dinheiro e poder, com uma cúpula política ávida pelo ganho fácil e o poder permanente e absoluto. Não dava mesmo para crer que estava acontecendo na vida real, até porque, como eu já disse, era algo de difícil convencimento mesmo em livros de crime e mistério, no estilo dos "pulp fiction" inventados pelos americanos.


O esquema criado por aqui extrapola até os limites maleáveis desse tipo de ficção. Não seria verossímil. No enredo dramático desse partido tem de tudo, até cadáveres de políticos graúdos da cúpula, em crimes suspeitíssimos que nunca foram elucidados. Não faltou nem criminoso fugindo com identidade falsa, passando por várias fronteiras para fugir da condenação pela mais alta corte do país. Tem também ligações com ditadores estrangeiros, com passagens inclusive por países exóticos. E a trama traz em papel de destaque um vilão perfeito, encarnado por uma figura mascarada por traços humanistícos, mas que é capaz das maiores maldades, inclusive com seus companheiros.


Parece história do Sombra, lembram dele? Outro dia fuçando dentre coisas antigas da internet, para estudar capas de livros de pulp fiction que trazem sempre ilustrações muito interessantes, encontrei esta capa do Sombra. É de 1934 e não se trata de montagem. A arte é original, assim como a história. É impressionante, não é mesmo? Pois é, o Sombra sabe mesmo.


Os enredos criados pelo PT parecem mesmo coisa para o Sombra. Mesmo quem não é do tempo em que o personagem fez  sucesso — que é o caso da maioria das pessoas de hoje em dia — deve lembrar de seu refrão, que ainda é muito citado na atualidade, quando é descoberta alguma grande trama criminosa: "O Sombra sabe". A afimação era a resposta para a pergunta "Quem pode saber que males oculta o coração dos homens?", que pegou ainda mais força com o tempo. E o Sombra sempre sabe.


O Sombra foi criado em 1930, num seriado radiofônico que logo tornou-se um sucesso nos Estados Unidos e veio em seguida para o Brasil, onde foi também muito popular, com transmissão pela antiga Rádio Nacional, emissora que ainda existe. O rádio é que dominava as comunicações nessa época. Mesmo nos Estados Unidos a popularidade da televisão só começaria a partir de 1945. A voz que deu vida ao Sombra foi a de Orson Welles, que começou sua fama no rádio, antes de dirigir “Cidadão Kane” (de 1941) e com ele fazer uma revolução no cinema.


Apesar do mito de que a criação da personagem e os roteiros eram do cineasta, Welles apenas emprestou sua voz à série. Era o artista que dizia a conhecida frase e dava a famosa gargalhada que passou a ser repetida “por todos os garotos da América”, como ele conta em um livro maravilhoso de entrevista, feito pelo colega cineasta Peter Bogdanovich. Welles fazia a locução do programa junto com vários outros no rádio, numa ocupação que dava bastante dinheiro na época. Ele lembra até quanto ganhava com o Sombra: 185 dólares por semana. Era uma correria entre os estúdios. “Eu nem sabia o que ia acontecer comigo enquanto estava fazendo os capítulos. Quando o Sombra era atirado dentro do poço ou em algum ninho infecto de serpentes, eu nunca sabia como ia sair”.
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POR José Pires


Diversidade bem diversa

O humorista Stanislaw Ponte Preta tem uma frase, da década de 70, que dizia o seguinte: "Pelo jeito que a coisa vai, em breve o terceiro sexo estará em segundo". A frase mostra de forma genial um espírito de época, num tempo em que o Brasil começava a despertar para as grandes transformações de comportamento que aconteciam nos Estados Unidos e na Europa. Porém, o grande Stanislaw não sabia das encrencas que ainda estavam por vir em matéria de sexualidade.

O jornalista Ancelmo Gois publicou neste domingo em sua coluna de "O Globo" uma nota que mostra como anda a coisa no terreno da diversidade. Acompanhem na íntegra o que ele escreveu:

“Cléo Oliveira, estudante da PUC-RJ autorizada a usar seu nome social na faculdade, como saiu aqui ontem, explica que, na verdade, é transexual e heterossexual. Não é gay.
Ah, bom!”

O colunista do jornal carioca termina a nota com uma expressão que é uma marca estilística dele ("Ah, bom!"), que costuma usar quando um esclarecimento acaba trazendo ainda mais confusão. E não é pra menos. O que vem acontecendo em matéria de sexo atualmente acabou tornando suave a piada de Stanislaw Ponte Preta, que era bastante audaciosa na época em que saiu publicada.

Ultimamente aparece tanta novidade sexual, que alguém que for explicar direitinho essa história pode acabar trocando as bolas (epa!), igualzinho aquele personagem também do Stanislaw, que pirou de vez na hora de compor um samba enredo e juntou Xica da Silva com Tiradentes, além de outras bizarrices históricas. Que Freud explica, qual nada. Alguém precisa chamar o Crioulo Doido para explicar esse negócio pra nós.
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POR José Pires

domingo, 10 de maio de 2015


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Réu confesso

Se alguém ainda não tinha a certeza de que o ex-presidente Lula sabia muito bem que corria o mensalão durante sua presidência, agora pode deixar pra lá suas dúvidas porque apareceu uma confirmação insuspeita de que as propinas a parlamentares eram feitas com seu pleno conhecimento. Em "Una Oveja Negra al Poder", sua biografia recém-lançada, o ex-presidente uruguaio José Mujica revela que Lula confessou para ele que sabia de tudo. Mujica disse que em uma reunião entre eles o chefão petista justificou o mensalão como a "única forma de governar o Brasil”.

As palavras de Lula, segundo Mujica: "Neste mundo tive que lidar com muitas coisas imorais, chantagens. Essa era a única forma de governar o Brasil". A confissão de Lula é inédita e pena que o julgamento do mensalão já tenha acabado. Aquele que sempre foi tido como o chefe do esquema infelizmente torna-se réu confesso um pouco tarde.

O envolvimento de Lula no mensalão foi sempre evidente. O esquema corrupto teve início na formação de sua chapa ainda na primeira disputa da presidência da República, quando ficou acertado mediante um pagamento milionário a entrada de José Alencar como vice. Faltava, no entanto, uma declaração pessoal de culpa. Só se ele fosse um idiota seria possível o mensalão ter sido criado e desenvolvido nas suas barbas. E de bobo Lula não tem nada. Ao contrário, é um espertalhão que vem enganando os brasileiros há décadas e conseguiu com essa esperteza inclusive safar-se de ser julgado no Supremo Tribunal Federal por um crimes mais detestáveis contra a democracia brasileira.

Mas, enfim, aí está sua confissão, que até veio mais cedo do que parecia ser possível. E para os petistas será difícil atacar a credibilidade da fonte que trouxe esta informação quente. É muito bom que a revelação tenha vindo do ex-presidente uruguaio. Há algum tempo Mujica vem sendo um refúgio psicológico da esquerda brasileira, na tentativa de amenizar seus tormentos causados por tanta roubalheira e a incompetência impressionante para fazer mudanças mínimas na condução dos governos que pega para tocar. Nem o mais fanático militante, do tipo mais petralha, poderá dizer que haja maldade e muito menos colocar em dúvida a indiscreta divulgação da declaração de Lula. A fonte é do lado deles. E além disso a conversa centre Lula e Mujica teve como testemunha o ex-vice-presidente uruguaio Danilo Astori, que ouviu a confissão do chefão petista. E vejam a coisa do lado bom, companheiros. Pode ser que o humilde companheiro uruguaio esteja apenas querendo ajudá-los na expiação de tantas culpas acumuladas.
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POR José Pires

quarta-feira, 6 de maio de 2015


sábado, 2 de maio de 2015


quinta-feira, 30 de abril de 2015

As vozes da experiência e da capacidade

No final da tarde dessa quinta-feira o jornalista Reinaldo Azevedo havia prometido grandes revelações sobre a repressão policial de ontem contra manifestantes em Curitiba, no entanto agora de noite o que foi publicado por ele não traz nada de especial. O texto está disponível em seu blog, no site da revista "Veja", com os vídeos que para ele "deixam claro que a polícia do Paraná reagiu ao ataque de vândalos". É a opinião dele, da qual discordo. Francamente, se a sua tese dispõe apenas disso como base, acho até que ele está pondo em risco sua credibilidade profissional, que até aqui é respeitável.


Tenho bastante divergência com o PT e com o sindicato dos professores estaduais do Paraná, a APP, que é um sindicato manipulador e partidário há bastante tempo. Também é evidente que interessava ao PT a criaçao de uma grande confusão, não só para atingir o governo tucano, mas também para desviar a atenção da opinião pública das sujeiras petistas. No entanto, não vejo em nenhum dos vídeos apresentados comprovação alguma no tom que o blogueiro da “Veja” coloca. São cenas de provocações comuns em manifestações. E para mim são até bem leves, próximo do que já vimos em outras situações. Uma das cenas dá até vergonha alheia do tom grandiloquente de denúncia usado por Azevedo, pois mostra apenas um idiota atirando pedras com um estilingue contra a polícia. Pois é, esta é uma das provas do "crime".


Não tenho dúvida de que tem gente graúda por detrás dessas manifestações, lideranças para as quais interessa criar dificuldades sérias para o governo de Beto Richa, mesmo que isso acarrete violências graves. É aquela velha tática de criar tensão para o adversário. Mas enquanto não aparecerem provas robustas sobre um crime orquestrado eu acho que não dá para apontar grandes conspirações onde só existe o velho jogo da radicalização política. Para um governador que já entrou no ano exibindo suas inabilidades, esse tipo de argumento é ainda mais desmerecedor.


Não é de hoje que a provocação como arma política é usada pelo petistas. Cabe ao governante equilibrado agir com rigor, denunciando, prendendo e até reprimindo com a polícia quando existe risco à segurança pública, mas procurando evitar uma ampliação da violência e sem abrir espaço para a manipulação política desse partido irresponsável que é o PT e do sindicalismo atrelado a um projeto partidário de poder.
Os petistas podem ser lembrados por badernas históricas, que colocaram em perigo a própria democracia brasileira. Uma delas foi a derrubada da cerca do Palácio dos Bandeirantes, em 1983, logo depois da primeira eleição direta para os governos estaduais. O PT era então um partido pequeno e cheio de ardor revolucionário. Tinha todo o interesse em acuar o governador, que era Franco Montoro, eleito pelo PMDB e que depois fundaria o PSDB. O ex-governador morreu em 1999.


A irresponsabilidade petista foi grande. Vivíamos num período político muito complicado. Estávamos ainda na ditadura militar, numa situação em que uma briga interna do regime entre a corrente moderada e a de extrema-direita tornava o clima ainda mais difícil e não dava garantia da abertura democrática, que avançava lentamente. Na capital paulista teve depredações e saques e uma passeata chegou até o Palácio dos Bandeirantes, onde a cerca foi derrubada. Porém, mesmo com esta incitação à violência, Montoro administrou o grave problema com competência, impedindo uma crise política que poderia ter favorecido a direita contrária à redemocratização do país. Naquele palácio de governo havia de fato um líder político.


Seria muito aproveitável para o país que exemplos como o de Montoro tivessem mais influência sobre dirigentes políticos que revelam imaturidade política como o governador Beto Richa — num grau de insensatez surpreendente pelo tanto de cargos que já ocupou. Para se informar mais e aprender com isso existe o recurso da conversa com colegas mais experimentados ou até mesmo do processo usual da leitura e do estudo. O governador paraense nem precisa ir muito longe para aprender um pouco mais. No seu próprio partido ele ainda pode encontrar pessoas que testemunharam histórias reais bem mais difíceis do que essas enfrentadas de forma desastrada por ele.
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POR José Pires