quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Um alerta que vale para o Brasil

O que aconteceu nesta semana na China deveria servir como um alerta aos brasileiros sobre o modelo de desenvolvimento que vem sendo aplicado por décadas em nosso país, sem nenhuma preocupação com a sustentabilidade. Pela primeira vez na história, Pequim declarou alerta vermelho por contaminação. Desde o início da terça-feira (segunda-feira no Brasil) foram suspensas na cidade obras em construção, escolas suspenderam aulas e o tráfego de veículos sofre severas restrições. A contaminação chegou a 275 microgramas por metro cúbico de ar, dez vezes a mais que o máximo considerado tolerável pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Se o nosso país não adotar logo um modelo equilibrado de desenvolvimento, problemas como este vivido hoje na China podem se tornar rotina também por aqui, onde mesmo com índices baixos de crescimento já temos graves problemas de meio ambiente.
Até agora, os altos índices do crescimento chinês — com seus impressionantes saltos do PIB — são noticiados sem nenhum senso crítico, faltando sempre esclarecimento sobre as consequências desastrosas deste sucesso, alcançado a um custo altíssimo em danos ao meio ambiente e à saúde humana. Várias cidades chinesas já convivem há anos com excessiva poluição atmosférica, a contaminação da água e a destruição do solo. Parcelas imensas do território chinês tiveram o solo esgotado por uma agricultura sem o respeito ao limite do uso de agrotóxico, a necessidade de regeneração da terra e também com a extinção de recursos hídricos por causa do uso ilimitado e a falta de cuidados ambientais. Áreas extensas tornaram-se desérticas de forma irremediável. São conhecidas as cenas de tempestades de areia em algumas cidades chinesas, com as poucas pessoas que ousam sair às ruas tendo que usar máscaras.
O alerta vermelho de Pequim tinha que ser usado como um alerta à consciência dos brasileiros, até pelo fato do crescimento econômico chinês servir sempre como um exemplo positivo em análises que o comparam às nossas dificuldades econômicas. Em economia, a China não serve de modo algum como um bom exemplo. O país vive sob políticas destrutivas à natureza, que alavancam o crescimento com o prejuízo da qualidade de vida de populações inteiras. É um modelo predatório, que usa sem nenhum cuidado os recursos naturais, sem levar em consideração a necessidade do respeito ao meio ambiente como um elemento básico na condução do desenvolvimento, de forma sustentada. E costumam ser muito graves os efeitos dos planos de governo nesta estranha sociedade que combina capitalismo selvagem e um comunismo altamente restritivo aos direitos humanos e à liberdade de expressão. A falta de liberdade de expressão, por sinal, é uma das razões que permite aos burocratas poderosos implantar sem nenhum questionamento seus planos destrutivos. Outra questão para o Brasil prestar mais atenção ao desastre no meio ambiente chinês é o interesse deles em terras brasileiras para a agricultura e pecuária. O governo chinês vem comprando vastas extensões de terras em nosso país e também tem adquirido o controle de empresas instaladas no Brasil. Ora, ninguém deve esperar que um governo que comete tamanhos crimes com sua própria gente vá ter respeito na terra dos outros.
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POR José Pires

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Imagem- Cena de rua em Pequim em setembro deste ano, em foto extraída do site Environment Today

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Trinca do barulho


Num governo em que a produção de piadas prontas só tem rival na criação contínua de escândalos de corrupção, apareceu nesta semana um produto de humor involuntário que parece imbatível. O eterno presidenciável Ciro Gomes se juntou ao ex-ministro Carlos Lupi, mais o governador do Maranhão, Flavio Dino, e a trinca fundou uma auto-intitulada “Rede da Legalidade”, contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O nome da coisa é referente ao histórico movimento liderado por Leonel Brizola no governo do Rio Grande do Sul, em 1961, em defesa da posse do presidente João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros.
Como se costuma dizer nas redes sociais, é muito “fake” tentar se apossar de um nome com esse peso histórico, ainda mais numa situação que em vez da necessidade de coragem exige apenas falta de caráter. Mas não deixa de ser curioso a presença de Ciro Gomes em algo assim, ele que tem origem política ainda na ditadura militar nos quadros do PDS, partido que recebeu uma logotipagem moderninha para escamotear sua verdadeira identidade: era a Arena, que sempre defendeu o regime dos militares. Quando era vivo, Brizola costumava chamar esse tipo de político de “filhote da ditadura”. O estilo truculento do ex-deputado cearense não nega o berço. Ciro Gomes entrou há poucos dias no PDT, o sexto partido na sua carreira política. Já foi inclusive do PSDB e só não foi do PT porque não é necessário. Serve como avulso ao partido de Lula deste o primeiro ano de poder petista.
Outra figura do patético trio, o governador Flavio Dino, também não tem currículo condizente com o respeito à democracia. Esse pessoal que defende Dilma se apegou ao argumento mentiroso de que o impeachment é um golpe. Pois o partido de Dino, que é do notório PCdoB, tem como fato mais marcante de sua história uma das piores tentativas de golpe que já houve no Brasil, a Guerrilha do Araguaia, movimento armado que ocorreu entre os estados de Tocantins e Pará, entre 1972 e 1975. O partido de Flavio Dino tenta fazer colar nessa história a lorota de que a luta era contra a ditadura. É mentira. O plano do PCdoB era o da implantação de uma ditadura comunista, que dependendo dos humores do partido poderia ser de inspiração do comunismo chines ou apoiada nas ideias de Enver Hodja, ditador comunista que durante décadas manteve a Albânia como um país miserável, mesmo estando situado na Europa. Hodja é um dos ídolos históricos dos comunistas do PCdoB, junto com Josef Stálin. Na atualidade um país considerado por eles um exemplo político é a Coréia do Norte.
Para completar a ficha, outro integrante da liderança da tal “Rede da Legalidade” é figura manjada da política brasileira, um daqueles sujeitos que toda vez que aparece uma grande sujeira política pergunta-se se o nome dele já apareceu no meio. Carlos Lupi é chefão do PDT e um defensor da legalidade ao nível de Dilma, a presidente que já confessou que dá suas pedaladas. E ela conhece muito bem esse seu guerreiro, herói do povo brasileiro. Ministro do Trabalho no primeiro mandato da sucessora de Lula, ele se destacou na onda de demissões que teve logo no primeiro ano. Foi o sexto ministro a cair por causa de corrupção. Esse baluarte da legalidade que agora reaparece ao lado de Ciro Gomes e de Flavio Dino é aquele que depois de apontado como corrupto dizia que só o tiravam do ministério "abatido à bala". No entanto, não foi preciso desperdiçar chumbo. Ele foi obrigado a pedir demissão, senão a presidente Dilma (mesmo ela sendo a Dilma) seria obrigada a chutá-lo pra fora do governo. Agora, a presidente conta com ele e mais os outros dois na defesa de seu mandato. Ou "da legalidade", como eles dizem. Pra alguém como ela, até que é legal.
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POR José Pires

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Falta alguém na derrota do chavismo



Na derrota histórica do chavismo na Venezuela dá para sentir a falta de alguém. É da oposição brasileira. Onde foram parar os parlamentares da oposição que, tendo como figura de destaque o senador Aécio Neves, foram um dia até a Venezuela para prestar solidariedade ao líder da oposição venezuelana Henrique Capriles, preso pelo governo de Nicolás Maduro? Isso foi há quase seis meses e depois os oposicionistas descuidaram de criar ações efetivas que mantivessem uma relação sólida com o que foi se desenvolvendo politicamente entre os venezuelanos, até esta derrota de agora. Recentemente o senador Aécio Neves disse em entrevista que "o impeachment não pode ser a pauta única de um partido". O dele, evidentemente.
É claro que não dá para discordar do senador mineiro, até pela necessidade do país ter uma oposição que na política seja uma aliada firme da sociedade civil na busca de uma saída ao desastre criado pelo PT, havendo ou não o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O PSDB então que crie pautas de qualidade ou ao menos mantenha as pautas em que entra de supetão, como foi a da luta da oposição venezuelana contra o regime chavista. Os senadores viajaram para a Venezuela naquela ocasião e na continuidade não se viu um desenvolvimento político do assunto, que acabou restrito a um ou outro discurso de parlamentares da oposição.
Essa dificuldade em persistir politicamente é habitual entre os tucanos, defeito que no geral é de toda a oposição. Eles se regem pela reação ao que a imprensa traz, pelo que o governo do PT apronta ou pelas roubalheiras descobertas pela polícia. Essa falta de iniciativa faz a oposição perder a oportunidade de aumentar sua credibilidade, deixando escapar importantes ganhos políticos que poderiam fortalecer a luta pelo respeito à democracia e o combate à corrupção em nosso país. É o que ocorre agora com esta vitória democrática na Venezuela, que poderia estimular muito mais a batalha dos brasileiros pela decência na política, mas para isso a nossa oposição teria que ter a preocupação de manter firmes os laços de solidariedade com a luta dos venezuelanos contra o chavismo. Tem a ver com o papo de Aécio Neves sobre a importância de boas pautas para um partido. E se relaciona também à necessidade do país ter uma oposição com objetivos claros e firmeza de propósito.
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POR José Pires

sábado, 5 de dezembro de 2015

A interrogação da Argentina de Macri

Tenho percebido entre brasileiros uma certa euforia com a eleição na Argentina do oposicionista Maurício Macri. Até entendo, afinal tivemos com isso a derrota de Cristina Kirchner. Porém, eu penso que é sempre bom ter cautela com o que acontece neste país vizinho, mesmo quando os sinais parecem ser de uma melhoria na situação política por lá. E como a empatia espontânea por ele entre nós vem na totalidade de brasileiros oposicionistas, a cautela tem que ser redobrada, tendo em vista que o sucesso político e administrativo de Macri após a derrota eleitoral do populismo pode ter um grande peso nas mudanças em nosso país, assim como pode ser muito ruim para nós caso essa possibilidade de tirar os argentinos do sufoco seja desmoralizada pela atuação dos partidários do kirchnerismo, que logo estarão na oposição e prontos para uma briga muito suja.
Cabe lembrar que estamos falando do país de Fernando de la Rúa, presidente argentino que foi obrigado a renunciar na metade de seu governo, em razão da oposição cerrada feita pelo peronismo, com o uso agressivo de sindicatos e de sua militância nas ruas. A renúncia foi em 2001 e deste caos muito bem planejado é que veio o kirchnerismo. Aqui mesmo no Brasil já tivemos fatos que servem como demonstração da situação de um governo federal que sofra o ataque dessas forças populistas que hoje temem perder o poder no Brasil. As manifestações dessa semana em São Paulo contra o plano de reestruturação de escolas do governo de Geraldo Alckmin foram apenas um aperitivo, e bastante leve, do que pode acontecer no plano nacional, especialmente se após a saída do PT tivermos no comando político do país alguém sem uma proposta claramente divergente do que aí está e que seja um político com firmeza de personalidade.
Ao contrário do que muitos vêm falando, a eleicão de Maurício Macri não traz nenhuma garantia de uma mudança de qualidade na política da Argentina e muito menos uma transferência quase que natural dessas esperadas boas transformações para nós, aqui no Brasil. Ao contrário disso, se Macri não tiver um objetivo claro e pulso firme para chegar lá, pode ocorrer entre os argentinos um processo de fortalecimento do populismo, forçado por ações do kirchnerismo, que na continuidade do também duradouro peronismo é capaz de fazer o diabo para prejudicar o adversário. Macri tomará posse num país em estado de penúria, inclusive moral, numa situação muito parecida com a da nossa terra. Cristina Kirchner só não teve uma Petrobras para roubar. Pode parecer que haverá uma condenação ao governo que ora termina, mas ocorre que depois de sair do poder os populistas costumam ter um bom aproveitamento até das más condições em que eles deixam o país. Aí então eles usam a miséria de seu próprio legado como arma contra o adversário. Dessa forma, se beneficiam da sua própria herança maldita.
Na análise política não se deve ter juízo absoluto, como vejo tanta gente fazendo o tempo todo. Como obra em progresso, a política exige um acompanhamento que pode ir transformando nosso pensamento e pode-se inclusive mudar de opinião no curso dos acontecimento, desde que isso não rompa princípios éticos. A não ser, é claro, que a pessoa tenha a cabeça bitolada por um partidarismo. Por todos os riscos que deve enfrentar, o governo Maurício Macri exige ainda mais essa forma de análise. Apesar de ter achado ótimo a derrota de Cristina Kirchner, o que sei do presidente eleito da Argentina não me dá impressão de que ele tenha rigor suficiente para o desmonte das imoralidades feitas até agora. Por enquanto, para mim "cambiemos" foi só slogan de propaganda. Mas, como eu disse, a obra está em andamento. Espero sinceramente que o autor faça eu mudar essa opinião.
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POR José Pires

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O impeachment na ordem institucional

Haja paciência para as tolices governistas, mas vamos lá. Com o devido respeito por quem pode estar caindo de boa fé na lorota, é muito idiota a tentativa de desqualificar o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff pela via do ataque ao presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha, destacando sua indiscutível má qualidade. Cabe aqui lembrar que ele já era capaz de tremendas sujeiras quando estava na base de apoio do governo. Aliás, foi cacifado pelo poder do partido do Lula que ele aprontou as maracutaias que só agora a militância petista começa a apontar.
Mas sigamos na demonstração da idiotice de mais esta hipocrisia governista. Os brasileiros não poderiam fazer absolutamente nada em defesa da ética e da democracia se fossem depender de um presidente digno na Câmara Federal. O processo eleitoral brasileiro é precário no aspecto representativo e o que é feito depois nos bastidores do Congresso Nacional é ainda pior. Por isso, os presidentes da Câmara sempre foram muito ruins, péssimos mesmo, agindo na condução do Legislativo como mero instrumento do Executivo. A lista de cafajestes é triste. Fiquemos apenas neste periodo petista, desde a subida de Lula ao poder em 2002: Pela ordem, Efraim Morais (PFL), Severino Cavalcanti (PP), João Paulo Cunha (PT), Aldo Rabelo PCdoB), Arlindo Chinaglia (PT), Michel Temer (PMDB), Marco Maia (PT), Henrique Alves (PMDB) e finalmente Eduardo Cunha (PMDB).
Note que na lista de presidentes todos são ligados ao esquema de poder do PT, condição abjeta em que estava o próprio deputado Eduardo Cunha até há bem pouco tempo. E são referências exemplares da qualidade desta lista dois nomes muito próximos até afetivamente do poder petista. São os ex-deputados Severino Cavalcanti e João Paulo Cunha, o primeiro foi retirado à força da presidência da Câmara por corrupção — mas defendido em palanque até agora pelo ex-presidente Lula e jamais atacado pelo PT — e o segundo foi um dos chefes do esquema político do mensalão, tendo sido da cúpula do PT e íntimo de Lula, José Dirceu e outros maiorais petistas. Como todos sabem, ele foi condenado pelo STF e preso por corrupção. Como se vê, para poder atuar pela ética no Brasil só resta a opção de se fixar no papel institucional do presidente da Câmara Federal, que é o que está sendo feito agora com este impeachment.
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POR José Pires

Gilmar Mendes de novo não facilita pro PT

Até mesmo o petista mais empedernido terá de concordar que não é fácil encarar um confronto com o ministro Gilmar Mendes. Ontem o PT protocolou a desistência de um mandado de segurança contra a decisão de Eduardo Cunha de aceitar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. E fizeram isso depois do ministro ter sido escolhido relator pelo sorteio eletrônico. Vejam que não é só pelas tantas delações premiadas que os companheiros do 13 andam numa maré de azar. Com tanto ministro boa praça nomeado pelo Lula e pela Dilma e foi dar logo Gilmar Mendes. Logo que soube da notícia, eu achei desrespeitosa a atitude dos advogados do PT, até pelo fato de ter ficado parecendo que se fosse outro o resultado do sorteio eles teriam levado adiante ação.
Mas teve a reação de Gilmar Mendes, noticiada nesta sexta-feira. O ministro negou o pedido de desistência dos petistas e ainda levou o caso à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para que seja apurado eventual responsabilidade disciplinar do advogado da causa. Na sua decisão, o ministro foi claro sobre o desrespeito à Corte, classificando a manobra como "tentativa de fraude à distribuição processual". Segundo ele, “Ninguém pode escolher seu juiz de acordo com sua conveniência”. Esta não é a primeira vez que o PT recebe de volta de Gilmar Mendes um bom revide às suas costumeiras tentativas de embaralhar o debate político, o que fazem inclusive dentro dos tribunais. Todo mundo sabe que muita coisa que fizeram na forma jurídica durante o julgamento do mensalão eram apenas suportes para que a máquina de comunicacão e propaganda petista aproveitasse o fato.
Por sinal, durante este histórico julgamento Gilmar Mendes deu um exemplar chega-pra-lá no próprio Lula, ainda como presidente da República, quando em entrevista revelou uma visita secreta do chefe petista ao seu escritório, onde ele tentou chantageá-lo, pressionando em favor dos mensaleiros da cúpula do PT, que foram depois condenados à prisão por corrupção. Lula deve ter ouvido umas boas nesse dia. Na época, a denúncia foi importante para conter os arroubos petistas. E essa atitude de agora do ministro vem em boa hora, pois com esta derrocada petista existe sempre a tentação de alguma aprontação. Dessa forma, já estão avisados e no popular: não vem que não tem. Ou melhor, com o Gilmar Mendes tem.
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POR José Pires

O fim da Cosac Naify e outras perdas



Nesses dias o fundador da editora Cosac Naify revelou que vai fechar sua empresa, fundada em 1997. Em quase vinte anos, a editora nunca deu lucro. E no geral seus livros são extremamente custosos. Só estão fazendo a última liquidação de estoque, para que esse projeto brilhante de Charles Cosac seja mais um fator de orgulho na história cultural do nosso país, apenas isso e ainda assim na memória de poucos, que é como anda a situação deste país. Charles Cosac é uma figura de impressionante vitalidade, dessas pessoas que passaram boa parte de sua vida fora do país vivendo com intensidade e acolhendo com atenção em seu espírito e no intelecto qualidades que depois procurou implantar em sua editora. Como se vê, um cara esquisito para o Brasil. Quem ele pensa que é? Talvez ele tenha escolhido o lugar errado para expor na prática suas evidentes qualidades existenciais, porque se tivesse sido feita num país europeu ou em qualquer outra sociedade realmente moderna a Cosac Naify seria um mito mundial. Mas, enfim, foi aqui que essa genial criação se deu e mesmo com seu final talvez ainda seja possível extrair qualidades na arte e no intelecto de que esta terra tanto precisa.
Esta conversa toda em torno do dono da editora que fechou tem o sentido de destacá-la na sua identidade exata, como uma obra autoral, como acontecia bastante até agora na área das editoras. No caso da Cosac Naify é bem mais marcante este fator individual. E a editora do Charles Cosac foi uma obra-prima. Tenho alguns livros dela, menos do que eu gostaria por causas financeiras, no entanto quando uma editora está na altura dessa criação de Charles Cosac sua influência não se estabelece apena com a posse do objeto físico que ela fabrica. O bom livro tem sempre emanações que vão além do objeto. A Cosac Naify teve um interação com a cultura brasileira e uma importância especialmente com os que fazem cultura e vivem disso na sua totalidade. É a ponta mais fina da pirâmide, de onde qualquer país irá extrair vitalidade para se construir e na qual as partes mais amplas terá sustentação de qualidade para viver a vida e fazer coisas. Uma sociedade avançada só é feita a partir da compreensão de que a base de sustentação da pirâmide tem que ser invertida.
Sua queda não pode ser vista no aspecto econômico, se é que isoladamente a economia seja um fator para a avaliação de qualquer outra coisa. Como esta editora tem toda uma interrelação com a alta cultura, com ligação com a indústria cultural e a criação artística, não temos aqui uma mera falência comercial. O salto admiravel proposto por Charles Cosac e interrompido no ar pode revelar problemas graves na construção de algo muito mais importante do que uns pontinhos no PIB, ainda que não sejam alcançados com sorrateiras pedaladas.
Pela característica muito especial em meio à banalidade e precariedade intelectual e criativa que virou a nossa indústria cultural, a falência da Cosac Naify merecia mais atenção. Essas portas fechadas são um alerta que está além do sinal vermelho da deterioração perigosa que beira o irremediável. E mesmo assim (ou por isso mesmo) este fechamento não vem tendo a devida atenção. As razões do descaso inclusive profissional no aspecto jornalístico e na recepção dos leitores estão exatamente na condição que levou ao fim da editora. Na morte da Cosav Naify estão causas e sintomas de uma doença que pode estar matando aquilo que teria de ser um caráter nacional e que já tinha boas bases estabelecidas por gerações anteriores. O que virou a nossa imprensa e o que é a internet brasileira pode dar a base para uma meditação sobre o que estou falando. Não sobrou ninguém? Além do mais, quem ainda mantém as tais antenas (que hoje em dia é até "cult" ter estilosamente aparadas) deve estar com uma dificuldade tremenda para brigar por um espaço dentre ampla cobertura das estrepolias forjadas nos bastidores daquele programa de calouros que traz como jurados três dos piores e mais chatos cantores da nossa abalada MPB — até que venha o novo BBB, é claro, ou um novo filme do James Bond.
A Cosac Naify já era pra ter ido fechada há bastante tempo. Só manteve-se viva pela insistência do dono, que parece ter muito dinheiro e com certeza uma grandeza espiritual que anda cada vez mais rara por essas terras. Charles Cosac se insere numa tradição brasileira de gente muito rica que vinha turbinando a capacidade de se fazer um país. Usando o próprio dinheiro para por em prática ideias mais amplas, geralmente aprendidas fora do país. Isso aconteceu por aqui em todo o século 20 e serviu até para aprendermos a posição correta de uma pintura moderna na parede. Tivemos ricos desse jeito bem menos que em outros países que subiram feito foguete, como nos Estados Unidos. Mas alguns apareceram e foram definidores em qualidade no que pode ser chamado de identidade nacional. Era gente como Joaquim Nabuco, um Paulo Prado, em cuja casa o grande Blaise Cendrars, escritor francês que veio ao Brasil na década de 20 nos dar uns toques, disse que almoçava todos os dias e “estava sempre enfurnado na sua biblioteca”. Ah, puxa vida, qual o rico brasileiro hoje em dia com uma biblioteca onde um homem como Blaise Cendrars poderia se enfurnar?
A esquerda pode espernear, mas o que de fato deu sustentação até agora ao país foi feito assim. Sem o indivíduo, na sua mais profunda percepção de empenho, liberdade e espírito, nada se faz. Algum esforço do Estado também ajuda, desde, é claro, que isso não seja focado em suporte financeiro desperdiçado com artistas e intelectuais de edital. O fim deste projeto visionário da Cosac Naify precisa ser visto na sua característica mais profunda, de demolição de valores essenciais para a feitura de um país e do desconsolo social que já beira o abandono da razão de viver. Só espero que essa análise não venha muito tarde, em memórias futuras sobre o rescaldo do que poderia ter existido um dia.
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POR José Pires

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Laços do passado

De hospedeiro terminal até pulga salta fora. A hora é de apear do poder petista e quem teve benefícios políticos e oportunidade até de aumento de riqueza faz isso com a maior facilidade. Soube da notícia de que o senador Blairo Maggi foi sondado por emissários do Palácio do Planalto para ocupar a liderança no Senado do governo Dilma Roussef. O titular do cargo, como se sabe, foi preso. Maggi recusou o convite. E como só um lado teria o interesse de divulgar a negativa, fica muito fácil adivinhar quem vazou a notícia.
Maggi é um desses políticos que faz carreira bancado por muito dinheiro. É um dos favorecidos por este nosso sistema eleitoral, em que a grana manda. Ele é fazendeiro, um dos ricaços brasileiros que aproveitaram bem este período petista e pelo material que sobrou da boa relação com o PT nota-se que de braços com o partido ensaiava inclusive passos internacionais para aumentar sua fortuna. A imagem dele com o ex-presidente Lula, felizes num campo de soja, foi feita em Cuba. Não é um fato antigo. A viagem ao país de Fidel Castro foi em fevereiro de 2014, quando já se sabia muito bem o significado moral do projeto político comandado por Lula. E o senador devia ter conhecimento também do desastre econômico que estava montado.
A foto foi divulgada pela própria assessoria de Lula, como parte da manipulação de propaganda para parecer que tudo ia bem em nosso país. Foi o ano em que Dilma ganhou seu segundo mandato. Como dá pra ver, Maggi não viu problema em colaborar com a fraude. Mas acontece que nessa época, apesar da desgraça que inevitavelmente cairia sobre as cabeças dos brasileiros, parecia que o PT poderia se recuperar politicamente e manter o poder, até com a volta de Lula à presidência da República. Daí a extrema boa vontade do senador fazendeiro, bastante explícita na fotografia. Mas agora os tempos são outros, quando relações estreitas com este governo que aí está não trazem mais benefícios imediatos. Ao contrário, o melhor é nem aparecer na fotografia. Daí a recusa ao cargo tão significativo. Acho até que o senador Maggi não aceitaria hoje em dia posar com Lula num campo de soja de qualquer lugar. E muito menos em Cuba.
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POR José Pires

Fim de linha para o partido do Lula

Pode-se até pensar no antigo chavão do "Só mesmo no Brasil!", mas seria injustiça para com o nosso país atribuir ao caráter nacional as exageradas patifarias que tomaram conta da política. Esta última, de um líder do governo no Senado discutindo mesada para calar a boca de investigado pela Justiça e rotas de fuga para escapar da lei, é aquele tipo de coisa que mesmo em filme pode parecer muito fora de lógica. Mas a política no Brasil só ficou desse jeito tão abusada depois do PT chegar ao poder. Os dirigentes petistas e seus derradeiros defensores na internet costumam tentar dar uma recosturada na história brasileira quando acontece um flagrante criminal com um deles, que aliás é uma rotina neste ciclo petista. Agora, por exemplo, depois de ser preso o senador petista Delcídio do Amaral teve até sua biografia reformulada, passando a ser um antigo tucano. Estava infiltrado então no PT e na função de líder de governo? São o máximo esses tucanos, hein? Com um adversário tão ladino é um espanto que Dilma ainda não tenha caído. Este é um papo que não cola mais, porque até as pessoas mais desligadas de uma análise política aprofundada já sabem que um governo de quatro mandatos poderia ter mandado todo o PSDB para a cadeia se o partido tivesse feito só a metade do que os petistas inventam.
A coisa está feia, mas não é uma situação de "Só mesmo no Brasil!". Eu diria “Só mesmo o PT!”. Nosso país sempre sofreu de um sério desvirtuamento moral na política, porém os limites morais nunca haviam sido rompidos de tal maneira. Política do jeito que o PT faz só havia aparecido no Brasil no curto período de Fernando Collor que, coitado, não tinha um partido e nem contava com o amplo apoio em sindicatos e instituições que os petistas tiveram até agora para manter seu modelo de governo. Aliciaram até o Collor que, como todos sabem, lá atrás foi brecado a tempo. O PT teve espaço para desenvolver seu projeto destrutivo, contando com uma tolerância da sociedade civil que muitas vezes beirou a convivência e em muitos casos foi até cumplicidade. Por exemplo, não se via o empresariado reclamando enquanto parecia que poderia haver benefício econômico com o projeto político que aí está — mesmo com toda a imoralidade e o risco para a democracia.
Lembram daquele papo de "o PT tem que ter a sua vez" quando Lula estava para ganhar a primeira eleição? Pois é, naquela época eu já questionava este argumento, perguntando como faríamos se eles não quisessem mais sair do poder. É claro que logo eu era tachado de pessimista. E aqui estamos nesta situação de "Só mesmo o PT!", o jargão mais apropriado para o que está acontecendo. E o plano deles de perenização no poder só está indo à breca pela autofagia criada pela péssima administração do próprio projeto politico. Não é por uma reação externa que o PT esta sendo derrotado. Se houvesse lideranças mais hábeis no partido e menos dominadas pela ambição do dinheiro, o PT ainda ficaria por décadas no poder.
E mesmo com a coisa para o lado deles estando muito feia é bom não achar que podemos alcançar uma relativa normalidade no curto prazo. O Brasil tem uma facilidade enorme em aceitar os piores absurdos como se fossem processos naturais sobre os quais nada se pode fazer. Senão não estaríamos desse jeito. Para quem quiser ter uma ideia melhor da condição absurda que está nossa terra, tente ver nossa vida com um olhar de fora, como se estivesse acontecendo num daqueles longínquos lugares da África. Pois é, a expressão que vem à mente é "O horror, o horror!", não é mesmo? E nem comece a achar as coisas não possam ficar piores. Eles ainda não começaram a se matar.
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POR José Pires

terça-feira, 24 de novembro de 2015


sábado, 21 de novembro de 2015

Formação partidária

Como se diz, no popular, é de pequenino que se torce o pepino. Vendo por este lado, o Congresso Nacional da Juventude do PT aponta um futuro de muitas maracutaias ao jovem petista. Os dirigentes do partido estão cuidando do jeito deles da formação da rapaziada. O local do encontro partidário desta sexta-feira foi decorado com faixas gigantescas com as imagens de José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoíno e João Paulo Cunha, condenados por corrupção no processo do mensalão. Veja uma faixa à esquerda, na foto distribuída pelo próprio PT. Como se sabe, eles foram até presos pelo crime que cometeram. E são apontados como "guerreiros do povo brasileiro". Bem, cada partido tem os heróis que merece. E já estava mesmo no tempo de aposentar a imagem do Che Guevara. Será que já fizeram camiseta e cartaz com a efígie heróica do Delúbio? E o Dirceu de boina vermelha com estrela também vai ser exemplar como simbologia. Sem dúvida, é a cara do PT.
O congresso contou com o ex-presidente Lula como animador de platéia, quando num de seus atos falhos ele soltou uma confissão. "O ideal de um partido é que ele pudesse ganhar a Presidência da República, 27 governadores, 81 senadores e 513 deputados sem se aliar a ninguém", disse Lula. Ora, essa era exatamente a meta do mensalão, que se desse certo teria dispensado o PT dessa incomodação de fazer alianças, exigência tão chata em democracias. Com o mensalão bastaria o parlamentar passar no caixa, assegurando dessa forma uma governabilidade mais em conformidade com o projeto político do partido do Lula, o sonho confessado por ele de governar sozinho. O plano era esperto, mas acabou sendo desmontado pela polícia, a imprensa e o Ministério Público. Mas os petistas não se emendam. Nem com cadeia. Estão colocando seus jovens naquele velho caminho em que os fins justificam os meios.
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POR José Pires

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Arma contra o terror

Os atentados dos terroristas islâmicos vêm tendo resultados contrários aos que eles parecem ter planejado com suas matanças. Tentaram destruir o “Charlie Hebdo” e o que aconteceu foi um aumento da importância e o fortalecimento da simbologia do jornal. O “Charlie Hebdo” sempre foi um jornal de grande valor. Seus desenhistas foram essenciais na modernização do humor internacional, desde sua criação no final da década de 60, tanto na tematização quando na forma de satirizar o acontecimento. A fundação do jornal é um pouco anterior a do nosso “O Pasquim”, que já fechou há muito tempo e nem é lembrado mais. Mas aqui não é como na França, que preserva sua cultura. E por isso mesmo o Brasil não sai do buraco. “O Pasquim” teve bastante influência do “Charlie Hebdo”, inclusive no traço e no humor cáustico de um dos mais geniais humoristas do semanário brasileiro, o Henfil, que teve bastante influência do cartunista Reiser — que era da velha guarda do jornal francês e morreu cedo de câncer, em 1983, aos 42 anos. Reiser era do grupo que criou o “Charlie Hebdo”, junto com Cabu e Wolinski, dois dos desenhistas que foram covardemente assassinados em janeiro deste ano na redação do jornal pelos terroristas islâmicos, no dia em que foram mortas 12 pessoas. O jornal sempre teve cartunistas ótimos, sendo que um dos melhores da nova geração, Tignous, estava entre os mortos do início deste ano.
O “Charlie Hebdo” sempre foi fundamental na história da imprensa mundial, no entanto essa importância não era do conhecimento geral, a não ser entre os franceses e quem é da área. O atentado chamou a atenção de todo o mundo para o jornal, que virou um símbolo de resistência e não só da França. Somos todos Charlie, mesmo quem se incomoda com certas coisas que eles fazem. Até o direitista que busca justificativa para o massacre numa ou outra charge violenta contra o cristianismo sabe muito bem que como alvo do terrorismo islâmico os cristãos estão bem antes que qualquer cartunista impertinente. Bem, queiram ou não, a situação fortaleceu ainda mais a percepção já bem antiga que diz que enquanto alguém estiver fazendo uma piada que nos incomoda é sinal de que a democracia vai indo relativamente bem.
Hoje em dia, qualquer acontecimento mais importante logo faz o mundo inteiro querer saber o que é que o “Charlie Hebdo” vai publicar. Isso traz uma lembrança boa em relação a nós, pois é o que acontecia também com “O Pasquim”, quando quase toda semana esperava-se pra ver o que é que o jornal ia aprontar contra a ditadura militar. E essa turma valorosa (a “Turma do Pasquim”) foi essencial para atravessarmos aquele período tenebroso. É um papel parecido ao que agora vem sendo tocado pelo “Charlie Hebdo”, que aprontou uma muito boa nesse número publicado agora, depois do horroroso ataque dos terroristas islâmicos em Paris. A capa com uma pessoa tomando champanhe que vaza de buracos de bala é uma daquelas sacadas que dão um reforço na importância da existência não só de uma imprensa livre, mas também de um espírito aberto e tolerante a qualquer manifestação de crítica ou humor. Num momento amargo, de dor e indignação entravadas em nossa garganta, o deboche com o terror veio como um desafogo. Desse jeito podemos ir avançando, buscando uma forma de conter e punir esses bandidos, evitando afetar direitos universais que nasceram exatamente na boa e velha França e sem que inocentes levem as cacetadas que devem ser só para os criminosos fundamentalistas. Umas das nossas armas é também rir deles, sem ceder ao medo que o terror quer impor o mundo.
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POR José Pires

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sebastião Salgado e a tragédia ambiental de Minas Gerais


Logo que ocorreu o rompimento das barragens da Samarco, em Minas Gerais, apareceu nessa história uma figura que me deixou intrigado pela rapidez de seu surgimento e pela forma que se colocou no assunto. Esta figura que surgiu de pronto é o conhecido fotógrafo Sebastião Salgado, de quem tivemos notícia neste caso em uma visita sua ao Palácio do Planalto, onde foi recebido pela presidente Dilma Rousseff. Foi uma estranha aparição para um homem que fez fama como alguém presente a acontecimentos onde captou a dor humana, em imagens que o tornaram conhecido no mundo inteiro. Com o histórico que tem, sua presença faria mais sentido às margens do Rio Doce, talvez até documentando o assustador estrago produzido pela Samarco, quem tem como maior acionista a mineradora Vale, antiga “Vale do Rio Doce”, que acabou dando uma razão prática ao marketing que eliminou o nome do rio de sua marca publicitária.
Sebastião Salgado poderia colocar os pés nas margens do Rio Doce e dali talvez dar uma ressonância aos gritos desesperados dos que vivem em torno daquelas águas envenenadas. Seria interessante inclusive ver o que ele com seu retumbante estilo poderia extrair plasticamente daquela situação terrível, neste desastre ambiental que parece ser o maior já ocorrido no país. Mas não foi isso que ele fez. De imediato, o fotógrafo foi ao encontro de Dilma e no gabinete dela apresentou um plano de recuperacão do Rio Doce. O desastre não tinha ainda uma semana. Ele já disse que Dilma “achou a ideia fantástica”, mas o que pensei de imediato é sobre a opinião das pessoas que vivem às margens do Rio Doce. E como já falei, nem que fosse apenas pela cortesia a primeira visita tinha que ser feita naqueles cantos e não no centro do poder federal, no gabinete de quem jamais cumpriu com responsabilidades que evitariam com certeza o desastre ambiental. Mas nenhuma crítica veio até agora do fotógrafo. Salgado transborda otimismo. Depois do encontro com Dilma ele afirmou que espera que se constitua um “megafundo” que junte a Samarco, a BHP e a Vale no plano para recuperar todas as nascentes do Vale do Rio Doce.
Sei que Salgado é proprietário de uma grande extensão de terras na região, onde ele tem feito um trabalho de reflorestamento e recuperação ambiental. É provável que ele já estivesse desenvolvendo um projeto, apesar de que até agora nada disso havia sido contado para ninguém. No entanto, acho que não pode haver dúvida de que as condições do ambiente mudaram bastante depois da região ser tomada por lama tóxica, não é mesmo? Não se sabe ainda com exatidão nem da extensão do estrago causado pela Samarco, BHP e Vale. E como homem de esquerda, creio que Salgado teria de concordar que mudou bastante também a situação política.
O fotógrafo que me desculpe, mas parece coisa preparada. Num momento que exige uma rigorosa discussão crítica ele aparece com a solução pronta e de uma forma que ameniza o debate público necessário não só para a recuperação do rio como também a mudança das condições políticas que vêm impondo durante décadas o domínio de uma grande empresa sobre o destino das vidas humanas e o ambiente de uma extensa região. Não é de hoje que a Vale causa danos ao Rio Doce e tudo que o cerca. Num país em que a economia não leva em conta a vida das pessoas, a Vale e outras grandes corporações sempre reinaram. Desde que entrou nesta história, junto a Dilma no Palácio do Planalto, o aclamado fotógrafo vem colocando panos quentes na discussão. Nem tocou em políticas públicas, tão ausentes nesta área em que até a sobrevivências de populações indígenas está em risco. Não teve uma palavra de crítica aos responsáveis pelo desastre, o que pode até parecer estranho demais em razão da fama de combatividade que embala seu respeito como profissional. Vou ser franco: até aqui seu comportamento não difere do que faria um relações públicas da Samarco, da BHP e da Vale. Nunca gostei da figura política de Salgado, com suas relações estreitas com o ex-presidente Lula e a falta total de crítica ao descalabro moral e político que vem acabando com o nosso país, de graves consequências inclusive no respeito ao meio ambiente. Lula é um político e governante que fez até questão de mostrar em falas públicas seu desprezo pela defesa do meio ambiente. Dilma segue o mesmo padrão. Neste ciclo de governos que tem ele como líder máximo houve um desmonte imenso de leis e regras ambientais, que mesmo já sendo anteriormente ineficazes ele e seu partido conseguiram piorar.
Porém, o Lula é um ídolo para o fotógrafo. Em abril de 2013, Salgado inaugurou em Londres uma grande exposição, resultado de um projeto que permitiu que ele visitasse 32 regiões da Antártida ao Ártico, entre 2004 e 2012. Imaginem o custo disso. O release conta que as mais de 250 fotos reunidas na mostra “retratam as partes mais puras do planeta e modos de vida tradicionais, destacando a relação harmônica do homem com a natureza”. A exposição “Genêsis” teve sua premiére mundial no Museu de História Natural de Londres. Convidado por Salgado, o ex-presidente Lula fez a abertura da exposicão, em 2013, com um discurso humano e ecológico bastante inspirado. Não foi de improviso, é claro. Leu tudo atentamente. Dizem que uma imagem vale por mil palavras, pois essa do Lula na exposição de Salgado também deve valer bastante. Outro fato importante é que o patrocinador desse projeto carissimo do fotógrafo foi a mineradora Vale. Mas tem mais um fato interessante, que descobri indo atrás de mais informacões depois de sua visita a Dilma por causa do rompimento das barragens em Minas Gerais. O Instituto Terra, de Salgado, tem um projeto no BNDES que pede financiamento do banco a fundo perdido. Não sei qual é a quantia, mas deve ser bastante dinheiro, pois deu uma parada agora com os cortes recentes. Como se vê, são muitas interações que no minimo criam um emaranhado de conflitos de interesses na interferência do famoso fotógrafo nesta tragédia em torno do Rio Doce.
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POR José Pires

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Tráfico e esquerda, uma relação antiga

Já faz tempo que o governo dos Estados Unidos vem acusando o governo da Venezuela de apoio ao narcotráfico. As denúncias ocorrem desde antes da morte de Hugo Chávez e aumentaram bastante depois de Nicolás Maduro assumir o poder. Essa era uma queixa antiga também do governo da Colômbia, que faz fronteira com a Venezuela. Pois neste caso os americanos obtiveram hoje uma forte argumentação contra o governo venezuelano com a prisão no Haiti do filho de criação de Maduro, Efraín Antonio Campos Flores, com 800 quilos de cocaína. A droga havia sido despachada na Venezuela. Ora, não dá para acreditar que num governo com tamanha vigilância interna seja possível um embarque desse tipo, ainda mais de uma pessoa com tal proximidade com o presidente venezuelano — ele é sobrinho da primeira-dama Cilia Flores e foi criado pelo casal desde criança.
O envolvimento de chavistas com o narcotráfico já é assunto antigo e consta até a participação de militares, o que acabou dando o nome ao esquema governista venezuelano de “Cartel dos sóis”, uma referência às divisas de generais venezuelanos. Até o filho do ex-presidente Chávez, Hugo Chávez Colmenares, é acusado de envolvimento no crime. No tráfico estaria também o número dois do regime bolivariano, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Geral. Sabe-se há muito tempo da relação estreitíssima do governo bolivariano com o grupo guerrilheiro das Farcs, que explora o tráfico de drogas na Colômbia. É claro que a proximidade com as Farcs só poderia ter uma influência desse tipo.
Esta relação da esquerda dita revolucionária com o tráfico de drogas é facilitada por duas vias, uma delas moral e a outra prática. Primeiramente tem a velha mitologia esquerdista de elevar o bandido a um padrão de contestador do sistema. Nesta visão, o narcotráfico serviria inclusive como arma contra os países mais ricos, afetando-os por meio da disseminação da droga. O raciocínio é de uma canalhice atroz, mas a doutrina revolucionária costuma ter disso. A questão prática é a do financiamento das atividades de guerrilha e terrorismo e até de campanhas eleitorais com o uso de dinheiro do tráfico, que pode começar apenas com a extorsão dos traficantes. Porém, logo depois tudo acaba misturado, com os militantes armados agindo como traficantes.
Até Cuba tem uma relação com esse desvio grave, que aconteceu quando o regime de Fidel Castro atuava na África, em países como Angola e Moçambique. Em 1976, Fidel Castro tinha 15 mil soldados em Angola. Nessas expedições no continente africano, brilhava de forma marcante o general cubano Arnaldo Ochoa, tido como herói junto aos cubanos, até ser executado por determinação de Castro. Cuba sentia então os efeitos da glasnost de Mikhail Gorbatchev. Na luta interna do regime entre quem pretendia uma abertura política e os dirigentes que queriam manter a coisa como estava, Ochoa foi usado por Castro como bode-expiatório para calar a possível dissidência.
A justificativa para matar o general Ochoa foi a acusação de tráfico de drogas. E isso existiu mesmo? O que dizem é que dinheiro não só do tráfico de drogas como também de diamantes era usado em parte do financiamento das tropas. Uma ressalva que se faz é que os cubanos não participavam do tráfico. Era dinheiro exigido aos traficantes. E que Fidel Castro sabia disso ninguém precisa dizer. A menos que se acredite que o ditador cubano só veio a ter conhecimento do fato mais de dez anos depois das tropas cubanas saírem da África, para só então tomar providências mandando para o pelotão de fuzilamento um general até então idolatrado pelos cubanos.
O julgamento de Ochoa foi naquela rapidez muito comum no regime de Fidel Castro. O militar cubano foi preso no dia 12 de junho de 1987 e já no dia 9 de julho foi dada a sentença de pena capital pelo Tribunal Militar Especial. O fuzilamento foi no mesmo mês, no dia 13. Quem conta toda a história desse importante episódio da esquerda latino-americana é o escritor cubano Norberto Fuentes, ele também um apoiador do regime desde a revolução, em 1959. Com esses acontecimentos houve também seu rompimento com Fidel Castro, com quem até então tinha uma relação muito próxima, de passarem a madrugada juntos bebendo e falando da vida.
Fuentes quase foi morto também. Ele foi preso logo depois da execução de Ochoa e só escapou depois de um amplo apelo internacional de intelectuais para sua soltura. Saiu de Cuba acompanhado por Gabriel García Márquez, em um avião cedido pelo governo mexicano. O escritor colombiano era um amigo antigo e havia intercedido junto a Fidel Castro por sua vida. García Marquez era também muito amigo do general Ochoa e também pediu que ele fosse poupado. Mas esse pedido não foi atendido pelo ditador. Depois, no exilio, Fuentes contou toda a história em um livro muito bom, “Dulces guerreros cubanos”, que infelizmente nunca foi traduzido no Brasil.
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POR José Pires

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O perigo de ser brasileiro

É brutal o rescaldo do rompimento das barragens da mineradora Samarco, em Minas Gerais. O desastre já é considerado o maior desastre ambiental de Minas e está entre os maiores do Brasil. E tem também as perdas em patrimônio e em vidas humanas. As imagens da destruição são de doer o coração. Não deve ser fácil suportar diretamente o sofrimento de uma tragédia desse porte, quando sabemos que até objetos que nos pertencem guardam valores que não são apenas os materiais. Já foram confirmadas duas mortes e 25 pessoas continuam desaparecidas, mas o próprio governador do estado, Fernando Pimentel, teve o realismo de dizer que é difícil os trabalhadores da barragem serem encontrados com vida. São 13 funcionários que sumiram depois de arrebentadas as barragens do Fundão e de Santarém, com o despejamento de 62 milhões de metros cúbicos de água e rejeito de minério, formando uma avalanche de lama tóxica que avançou quilômetros atingindo vários municípios.
O derramamento de lama e sujeira chegou a 15 metros de altura. Das 180 casas do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, foram destruídas 158. Apenas 22 residências ficaram de pé depois que a lama baixou, espalhando-se a seguir pela região. As perdas são inclusive de patrimônio histórico. A região é de grande importância histórica para o país. Mariana foi a primeira capital mineira, fazendo divisa com Ouro Preto. No mesmo distrito de Bento Rodrigues uma igreja do século XVIII desapareceu sob a lama. Outros bens culturais também foram seriamente atingidos. E toda a localidade ainda deverá conviver durante muito tempo com problemas criados pela lama, que por ser tóxica deve afetar a produtividade do solo e os recursos hídricos de um extenso território. A agricultura pode sofrer danos durante anos. Para se ter uma ideia da dimensão do estrago, a lama e rejeitos soterraram o rio Doce à distância de cerca de 100 quilômetros das barragens destruídas. Os rejeitos levados pelas águas ainda vão alcançar Espírito Santo, onde estão chegando nesta segunda feira.
O desastre que afetou Minas Gerais traz outra grande preocupação sobre barragens, além dos problemas geográficos, ambientais e até étnicos que já se sabe que são causados por sua construção. Elas também podem se romper. É claro que não estou querendo transferir de imediato para barragens em todo o país os riscos que levaram à tragédia mineira. Mas só se vive com tranquilidade quando existe confiança. E alguém pode confiar na segurança das barragens feitas no Brasil depois de saber com o estouro do escândalo do petrolão como é que se comportam os dirigentes das maiores empreiteiras do país? E também é vasta a experiência dos brasileiros quanto ao funcionamento das instituições nacionais responsáveis pela prevenção e atendimento a acontecimentos como este de Minas, desde o funcionário de carreira até os nossos representantes eleitos, como governadores, prefeitos e as autoridades federais. Passado o susto e a dor, por mais grave que tenha sido o problema nós sabemos que o comportamento nacional é o de deixá-lo para trás, sem que haja uma aplicação séria das autoridades no trabalho de resolver as causas e atuar com rigor sobre as consequências. É por isso mesmo que tragédias se repetem todos os anos. Não sei até quando essa atitude vai prevalecer, mas até o país tomar jeito a melhor prevenção neste caso é não ficar na frente de barragem alguma.
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POR José Pires

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Imagem- A lama tóxica deixa suas marcas em Barra Longa, depois de passar por Mariana. Foto de Antonio Cruz/Agência Brasil.

domingo, 1 de novembro de 2015

Lula, o lero mais bem pago do Brasil

Os petistas sofriam até recentemente de uma tensão psicológica com o final de semana e a chegada da revista “Veja” às bancas. A patologia podia ser chamada de "Síndrome de Veja". No entanto, o problema se agravou. Agora a tensão é também com a “Época”. E o PT pode se preparar para a depressão com os jornais diários na segunda-feira, terça, quarta, quinta e a sexta. O ritmo é brabo e sempre tem assunto novo aparecendo no imenso poço de corrupção aberto neste ciclo de governos petistas, sempre com o ex-presidente Lula em destaque, comandando as maracutaias com sua família de milionários emergentes do dia pra noite. Pois o PT andava tenso com a “Veja” e esta semana foi a “Época” que veio com denúncia mais poderosa contra ele e seus companheiros. Não tem delator premiado, juiz Sergio Moro, não exige decisão do deputado Eduardo Cunha, não é furo do Jornal Nacional, nada dessas coisas em que os petistas se apegam para justificar roubalheiras apelando para papos paralelos.
A denúncia da “Época” vem de uma fonte que não dá para petista acionar a máquina difamatória governista e colocar em dúvida. São dados oficiais do Conselho de Atividades Financeiras (Coaf), agência do Ministério da Fazenda responsável pelo combate à lavagem de dinheiro no país. Os petistas vão dizer o que agora? Não dá pra falar que o Coaf é do PIG. Não tem como escapar desses fatos impressionantes que provam que Lula tornou-se um dos homens mais ricos do país e vem sendo um fenômeno no ramo das palestras. De abril de 2011 pra cá, sua empresa de palestras recebeu 27 milhões de reais. Isso é o que foi declarado por ele para a Receita Federal apenas como conferencista. Já fizeram uma conta interessante com essa dinheirama. Ao dólar no valor médio de 2,20 reais, do mesmo período, o chefão do PT ganhou 12 milhões e 272 mil dólares. Dá R$ 32.812 reais por dia só pelo lero do Lula. Mas tem mais. A matéria da "Época" informa que o total oficial da movimentação financeira do chefão do PT registrada pelo Coaf neste período de cerca de quatro anos é de R$ 52,3 milhões de reais.
Realmente ele é o cara. Em palestras está faturando no mesmo nível de estrelas internacionais da política. E ainda ganha um pouco mais por outros serviços. Mas é preciso ressalvar que boa parte dos pagamentos veio de empresas que negociam com o governo do PT. Pelas palestras, por exemplo, 4 milhões de reais são da parte da empreiteira Odebrecht. E para fechar as contas desse milionário que em números oficiais movimentou mais de 50 milhões de reais em apenas quatro anos, também no Coaf o Brahma (apelido dele em empreitadas) aparece com renda mensal declarada de R$ 3.753,36. Puxa vida, nunca na história deste país se viu alguém se dar tão bem fazendo bicos.
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POR José Pires

Lula: aniversário pouco concorrido

Não é necessário ter muita experiência em marketing para saber que em situação de baixa popularidade certas ações devem ser descartadas para não chamar ainda mais a atenção ao isolamento do político. Foi esse efeito reverso que ocorreu com os vídeos de pessoas desejando feliz aniversário ao ex-presidente Lula, que teve um aniversário de data redonda nesta semana: 70 anos. Podia-se falar em inferno astral, mas os problemas de Lula nada têm a ver com relações místicas com a vida. É a realidade mesmo e são de sua responsabilidade pessoal os efeitos negativos que juntaram-se exatamente neste período, que deveria ser de altas festas em torno de seu nome. Nos últimos meses foram muitas as revelações de suspeitas brabas de corrupção bem próximas do Brahma, como o chefão do PT costuma ser chamado nas suas empreitadas. Até seu filho e a nora, além de um sobrinho que fez negócios milionários em Angola, apareceram como acusados em depoimentos ao Ministério Público em investigações sobre corrupção.
O desgaste de Lula é de tal grau que acabou com o mito construído pela propaganda. E eu duvido que ele consiga recompor aquela imagem fraudulenta. E foi exatamente agora, com a credibilidade lá embaixo, que inventaram de publicar vídeos de pessoas desejando feliz aniversário. É coisa de marqueteiro amador. Teve até os que cometeram a gafe de lembrar que o aniversariante está em baixa, como fez Chico Buarque, o eterno arroz de festa do PT, um dos poucos artistas que sobraram da leva de artistas que no passado animavam as festas petistas. No vídeo, por sinal, o cantor parece bastante tocado e não é pela emoção.
O resultado patético dos vídeos deu destaque ao isolamento do ex-presidente. Não é de hoje a debandada de personalidades que antes paparicavam Lula, mas agora são pouquíssimos os que querem ficar perto dele. O esgotamento do chamado "efeito teflon", que impedia que os malfeitos do ciclo de governos petistas grudassem à imagem de Lula, teve outra má consequência. O próprio Lula afeta negativamente a imagem de quem chega perto dele, daí a ausência dos parabéns de figuras destacadas da política, do empresariado e da cultura. Sumiu aquele monte de gente que ficava em torno do Lula feito moscas. Nota-se a falta também de antigos amigos do Brahma, companheiros como José Dirceu, Delúbio Soares, André Vargas e tantos outros parceiros que ficaram para trás, alguns deles largados na cadeia. Lula teve um aniversário de 70 anos bastante chocho, o que até era esperado. A surpresa é que ele tenha resolvido fazer propaganda de seu isolamento político.
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POR José Pires