segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A direita sem nada na cabeça

Com o avanço da direita populista na Alemanha vai ter gente no Brasil fazendo relação com as chances eleitorais da direita em 2018. Por certo aparecerá o nome do deputado Jair Bolsonaro nessas, digamos, análises políticas que usam qualquer coisa para criar um tom de credibilidade em previsões que nem à marretadas encaixam com a realidade daqui, seja qual for a situação eleitoral estrangeira. Já foi feita relação parecida com a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e chegou-se até a tentar fazer do sucesso do francês Emmanuel Macron um exemplo do que poderia acontecer no Brasil.

No caso da situação política da Alemanha as comparações também não tem nenhum valor analítico. A direita alemã, representada pelo partido nacional-populista Alternativa para a Alemanha (AfD), ficou como terceira força no parlamento alemão, o Bundestag, O AfD obteve 12,6% dos votos. Para se ter uma ideia do peso político desses números, o partido União Democrata Cristã (CDU), da chanceler Angela Merkel, teve 33% dos votos. É essencial ressaltar que a posição da direita alemã foi conquistada a partir de um debate acirrado sobre o islamismo, o euro e a crítica agressiva à política atual com os imigrantes. E o papo lá é sério.

As posições políticas na Alemanha são firmes, com partidos comprometidos historicamente com programas políticos que vão servir de base na formação do novo governo. Os temas de campanha não são escolhidos como mera propaganda de ocasião. Também não se troca de lado depois da eleição, com a facilidade que isso é feito no Brasil. Aí é que está o ponto para crer que a vitória desta direita populista terá um peso político definidor na política européia. Mas é leviano avaliar essa perspectiva no caso do Brasil, onde de fato não existe uma direita com sólidos compromissos políticos, administrativos, econômicos e também culturais.

Bolsonaro não é de direita coisa nenhuma e muito menos um conservador. Sua única diferença com a porção de políticos oportunistas à cata de qualquer coisa para ganhar votos é seu sucesso, numa dimensão que foi inesperada até para ele mesmo. Sua vitoriosa caminhada vem de um discurso genérico, com o uso de temas escolhidos para ganhar voto para deputado e eleger também seus filhos. Subiu na vida política sem que ele próprio tivesse controle direto disso, beneficiado por acasos e a contraposição também oportunista de políticos da esquerda com os quais bateu boca.

Disso resultou a impressionante projeção política que fez dele um presidenciável que aparece bem nas pesquisas. Na verdade, o encapetado ex-capitão tem pouca condição intelectual de representar ideias de direita e não só por falta de estofo próprio. Neste aspecto, cercou-se de seguidores carentes de um real pensamento político e até mais doidos do que ele, ainda que desse para imaginar que isso não seria possível. No geral, o caráter inflamado pela sua presença e que também lhe atiça o fogo é muito perigoso e será bastante problemático para o país, mas politicamente está longe de representar um projeto político com base para a implantação de um governo de direita.
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POR José Pires

São Francisco, um rio em perigo de morte

Leio uma matéria do jornal Diário de Minas sobre o Rio São Francisco e a imagem do futuro que as informações me passam agora é de um apocalipse acompanhando o curso dessas águas maltratadas durante tanto tempo. O jornal teve acesso a um amplo estudo feito pelo Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos e pela Companhia do Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf) que chegou a conclusões assustadoras. Quando se fala no São Francisco vem logo à cabeça a insistência política na transposição deste rio. Pois é o São Francisco que precisa receber urgente água de outros rios, conforme uma proposta desse trabalho para conter o assoreamento e aumentar o volume de seu leito.

O chamado Velho Chico está com o mais baixo volume em seu 513 anos de história, que se completam neste mês de outubro. O rio está para morrer da degradação que em grande parte se deve ao impressionante assoreamento. Seu leito recebe por ano 23 milhões de toneladas de sedimentos. É como se fossem lançadas nas águas a cada ano um milhão de carretas de detritos. A causa disso é a ação humana, como o desmatamento. Segundo o estudo, a erosão natural das margens é mínima. O problema é causado pelas áreas produtivas, pela irrigação, a urbanização e infraestrutura envolvendo o rio.

O estudo propõe intervenções para fazer frente ao problema, mas até a divulgação dessas informações impactantes pouca coisa vem sendo feita. Em um trecho do rio, a Agência Nacional de Águas (ANA) proibe a captação de água uma vez por semana, o que já causa reclamações de produtores que dependem diretamente do São Francisco. Na prática, esta é a primeira ação de racionamento na história de seu canal principal. Porém, conforme o próprio nome do rio, nem a fé no santo é capaz de fazer alguém acreditar que não virão problemas ainda mais graves. Nesta triste situação cultural do Brasil é improvável que se crie condições desde já para um trabalho amplo de recuperação dessas águas

E quanto mais demorar a ação, maiores serão os custos e as dificuldades até para criar a estrutura e encontrar quem dê conta do trabalho. Reverter um processo de degradação ambiental, reconduzindo o ambiente a uma condição de relativa qualidade é tarefa que leva muito tempo e evidentemente quanto mais demorar, mais difícil será a ação. Maior será o custo e haverá ainda mais dificuldade com a tecnologia e o conhecimento humano para a tarefa.

Pense na degradação do próprio São Francisco se ampliando, com os brasileiros tomando consciência da necessidade crucial de afinal salvar o rio, mas esta decisão sendo tomada só dentro de 10 ou vinte anos. Onde estarão os recursos humanos exigidos para este trabalho? E a tecnologia? Se levar tanto tempo para que o Brasil se dê contra da tragédia, é evidente que pelo padrão do desmazelo é impossível que em conjunto com o descuido ambiental a sociedade brasileira esteja formando pessoas capacitadas para lidar com o problema. Também é óbvio que o país não estará criando e guardando tecnologia durante a agonia das águas.

Mas imagine situação ainda mais difícil, que é até natural em paralelo ao descuido com a natureza. Pense em rios que correm na atualidade em terras ainda agricultáveis e boas para a criação de animais, com todo o capital e o lucro que envolve essas atividades. Se não for feito agora o trabalho de proteção ambiental e de recuperação do que já foi destruído, de que forma aparecerão essas verbas quando esses ambientes estiverem muito prejudicados e por consequência sem possibilidade de exploração comercial? Ora, se pouca coisa é feita agora, enquanto existe capacidade de investimento, quando essas terras estiverem improdutivas será ainda mais difícil arranjar dinheiro para refazer o que foi destruído.
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POR José Pires

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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Queermuseu: MBL e o curador da exposição afinal se encontram

A rádio Guaíba, de Porto Alegre, conseguiu juntar representantes do MBL e Gaudêncio Fidelis, para debater os acontecimentos que levaram ao fechamento da mostra “Queermuseu”, que virou notícia nacional depois da medida tomada pelo banco Santander, patrocinador da exposição. O encontro foi no programa "Esfera pública". O debate é inédito e deve ficar por aí, porque é improvável que Fidelis, curador da exposição, queira ver de novo frente a frente algum integrante do movimento de rua.

Uma situação tão rara poderia ter sido melhor explorada, mas faltou habilidade profissional aos dois apresentadores do programa para conduzir com equilíbrio o debate de assunto tão quente, ainda mais com gente envolvida em um conflito político agressivo como este. Os apresentadores Juremir Machado e Taline Oppitz não tiveram o devido distanciamento. Machado até que se conteve em boa parte do programa, mas Oppitz parecia fazer parte da equipe do curador Fidelis. Ela é do tipo que não deixa ninguém falar. Foi bastante agressiva com a dupla do MBL, em especial contra Arthur do Val, o youtuber que ficou conhecido na internet com suas intervenções em manifestações políticas de esquerda, de onde extrai um bom material, criando discussões com entrevistas provocadoras, com situações às vezes explosivas e altamente reveladoras.

Também pelo MBL, no debate estava Paula Cassol, coordenadora estadual do MBL gaúcho. Teve boa participação, conduzindo-se com equilíbrio e mostrando uma qualidade rara hoje em dia, que é saber ouvir. É também bem articulada, sabendo também colocar muito bem seu pensamento. Na discussão, tanto ela quanto do Val mantiveram-se no aspecto político, sem se envolverem nas questões artísticas do tema. Em teoria, na questão cultural o curador Fidelis é quem se daria melhor, mas ele ficou muito aquém dessa expectativa, trazendo pouca fundamentação para uma melhor compreensão dos aspectos conceituais da polêmica exposição.

Tenho visto entrevistas do curador da “Queermuseu” e em nenhuma delas é possível obter dele boas avaliações no ponto cultural deste debate. Por sinal, é a primeira vez que vejo um curador indignado com a repercussão de algo de sua criação. E não estou com ironias. O sujeito fez uma mostra que tem como fundo a política de gênero, assunto que não é de hoje que vem criando muita polêmica. Mas parece que ele não gosta nem um pouco que haja divergência sobre sua forma de ver e expor a sexualidade nos dias de hoje. Está sempre insistindo em desqualificar o MBL e fica só nisso. Não amplia o debate cultural e ainda acusa o MBL por algo que o movimento não vem fazendo, que é censura. Não tenho nenhuma identificação política com o MBL, mas no caso dessa exposição o movimento não vem fazendo nada mais do que qualquer instituição parecida faz no mundo todo, inclusive movimentos de esquerda, que mesmo no Brasil já fizeram até pior.

Fidelis tem dificuldade de enfrentar um debate. Quase abandonou o programa no meio, durante a transmissão ao vivo. Chegou a se levantar e sair da mesa por duas vezes. Voltou só depois de apelos dos apresentadores. No programa da Guaíba esteve também Álvaro Clark, filho de Lygia Clark, artista já falecida, que tem uma obra na exposição. Pode-se até achar que não faria sentido sua presença num debate como este, mas do ponto de vista da arte ele trouxe elementos importantes sobre a obra de Lygia Clark, uma das que estão no centro da polêmica. E o interessante é que sua explicação sobre esta obra não confere com a interpretação de Fidelis, exposta na apresentação do projeto do “Queermuseu”. A obra é de 1967, bem distante das preocupações atuais da esquerda com política de gênero, que é base do conceito desta exposição.
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POR José Pires

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Imagem- O curador se levanta para sair, numa das vezes que abandonou o debate

quinta-feira, 14 de setembro de 2017


José Dirceu: herói do povo brasileiro só no gogó

A pena do ex-ministro José Dirceu no processo do recebimento de R$ 10 milhões em propinas da empreiteira Engevix pode sofrer um aumento no TRF4. Esta é a opinião da maioria dos juízes, com a decisão do relator João Pedro Gebran Neto de aumentar para 41 anos e quatro meses e o revisor Leandro Paulsen para 27 anos, 4 meses e 20 dias. Em maio do ano passado, já houve a condenação pelo juiz Sergio Moro a uma pena de 20 anos e dez meses de prisão. Os dois juízes consideram que existem "inúmeras provas testemunhais e materiais” contra o político petista que Lula dizia ser o “capitão” de sua equipe de governo. Falta o voto apenas do terceiro magistrado, Victor Luiz dos Santos Laus, que pediu vista do processo.

Essa notícia sobre o provável aumento de pena vem logo após ele fazer pouco caso de seu antigo colega de governo e da cúpula petista, o ex-ministro Antonio Palocci, que resolveu delatar crimes do partido e do chefão Lula. Em notícia obviamente vazada pelo próprio Dirceu, ele disse ainda que “só luta por uma causa quem tem valor”. Achei muito bacana, ainda que existam informações suficientes para desconfiar que isso é só bravata.

A história pessoal de Dirceu não confere com esta exibição de bravura. E não estou falando dos anos de poder nos governos do PT, mas de muito antes. Depois do famoso Congresso da UNE de 1968, tentativa de reunir na clandestinidade cerca de mil estudantes numa cidade do interior paulista, que acabou com todo mundo preso, o ex-ministro foi para Cuba, onde teve treinamento militar e formação política. Votou depois ao Brasil para montar uma guerrilha, como continuidade do plano de Fidel Castro de estender a revolução comunista cubana para todo o continente latino-americano.

Acontece que em vez de ir literalmente à luta, Dirceu montou uma loja de armarinhos em Cruzeiro do Oeste, no Paraná. Ninguém sabe com que dinheiro. Na pequena cidade casou com uma mulher que nada sabia de seu passado e por lá ficou de 1975 a 1979, sem participar de nenhuma ação política, até que veio a anistia política no Brasil. São acontecimentos comprovados de sua vida, que não revelam disposição de morrer pela causa. E isso numa época muito violenta, na qual companheiros seus foram torturados e até mortos.

Nesta fase muito quente da vida do país não houve em paralelo no histórico de Dirceu este engajamento vital de que ele falou para desmerecer o ex-colega de partido. O valente passou detrás de um pacato balcão de loja todo este período que costuma ser chamado de “anos de chumbo”. Daí que este aumento de pena de prisão pode ser uma oportuna chance para uma demonstração prática de sua alegada coragem e da capacidade de sacrifício pela “causa”. Ele terá tempo de sobra para isso.
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POR José Pires

Corrupto na rua

Até que enfim alguém resolveu se manifestar contra a bandalheira que corre solta no país. E foi uma manifestação bastante objetiva. Os movimentos de rua não têm feito nada ultimamente, nem que fosse apenas para protestar contra a sem-vergonhice que rola. O MBL, como se sabe, resolveu virar polícia de costumes e os outros movimentos se calaram exatamente quando corre solto o debate sobre a corrupção.

Mas quem tomou posição firme contra a bandalheira foi a mulher de Ricardo Saud, delator da JBS, que está na prisão por decisão do ministro Edson Fachin, do STF. Antes de ser preso, Saud foi expulso de casa pela esposa, que ficou indignada com o conteúdo da gravação da conversa entre ele e Joesley Batista, em que os dois falam sobre autoridades, de manipulações para burlar a Justiça e também sobre mulheres. Depois disso, Saud foi posto fora de casa. Bem, já era hora de alguém tomar uma medida prática para expressar a indignação dos brasileiros com tanta safadeza.
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POR José Pires

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A esquerda sempre no poder na cultura

De Belo Horizonte vem uma notícia, daquelas que costumo dizer que traz informação às avessas. Juca Ferreira disse à Folha de S. Paulo que a capital mineira talvez possa receber a exposição “Queermuseu”, que foi cancelada pelo Santander, em Porto Alegre. Ele diz que estão estudando a proposta da exposição para ver se “seria viável”. Espere aí, mas quem é Juca Ferreira?

Juca Ferreira foi ministro da Cultura nos governos Lula e Dilma Rousseff e enquanto não ocupava oficialmente o comando da pasta foi braço-direito de Gilberto Gil, também no Ministério da Cultura, onde tinha tanto poder quanto o cantor baiano. Na prática, Ferreira é que tocava o ministério. Atualmente ele é secretário de Cultura de Belo Horizonte. Esse pessoal não fica no sereno. O eleitorado pode tirar pelo voto sua base de sustentação material ou o governo que os abriga ser retirado do poder por ilegalidades, como ocorreu com sua chefe Dilma Rousseff, que logo eles já estão ocupando o poder em outras administrações. Os imortais da cultura brasileira não estão na Academia. São da esquerda.

O aparecimento do homem da cultura nos 13 anos de governo do PT neste caso polêmico talvez sirva para uma melhor avaliação sobre o que ocorreu em Porto Alegre, que não pode ser restringido a um mero caso de censura. A questão é mais complexa, envolvendo uma batalha ideológica na qual, apesar da aparência até o momento, a esquerda é que vem levando vantagem. É provável que o pessoal do MBL gaúcho não tenha consciência da dimensão do que eles fizeram, pelo menos até o assunto ganhar o noticiário nacional, criando um debate cultural que não se via há muito tempo no Brasil. Mas as manifestações que levaram ao fechamento da mostra “Queermuseu” praticamente inauguram um processo político-cultural que terá muito peso no país, ainda mais com um ano eleitoral decisivo pela frente.

O debate deve esquentar. Se esta discussão fosse desenvolvida em bons termos, até que seria muito bom para o país. Mas com certeza não será em meio à calmaria que o MBL e setores da sociedade com uma visão política parecida a deste movimento discutirão cultura com a esquerda brasileira, que tem um espírito tão agressivo quanto o da turma que atuou contra a exposição em Porto Alegre. A diferença entre os dois lados é que a esquerda ocupa praticamente todos os espaços da cultura no país, inclusive na iniciativa privada, por meio de uma burocracia cultural fortalecida como nunca nos anos em que o PT ocupou o poder. Isso talvez possa explicar a bobeada da diretoria do Santander em promover a exposição e provavelmente traga uma luz para entender seu fechamento abrupto. Alguém da diretoria pode ter ficado muito irritado de ter tido a confiança traída.

Nesses 13 anos de poder do PT no governo federal, a esquerda brasileira foi tomando gradativamente todos os setores culturais pelo país afora. Tradicionalmente a cultura neste país sempre teve esse peso esquerdista. Com o projeto petista de poder, o domínio foi tomando fortes contornos ideológicos e adquirindo uma importância estratégica essencial. A cultura está sempre a serviço da agenda política da esquerda, conforme é o caso da mostra gaúcha no Santander, mas pode ser visto também em outras atividades culturais pelo país afora. E da cultura eles também se servem para manter seus quadros em atividade, com conforto material e poder, abrindo espaço apenas para quem pinta, dança, escreve e faz qualquer coisa da área da arte conforme a cartilha. O ressurgimento do ex-ministro Juca Ferreira — que andava sumido, mas agora acena com entusiasmo para o colega petista gaúcho — mostra que o projeto continua dominando o palco.
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POR José Pires

A favor de Lula fraudam até assinatura de bispo

Com a derrocada de Lula e seu partido, que rolam para patamares cada vez mais baixos de credibilidade e respeito, os petistas procuram forjar todo tipo de fraude para mascarar a situação. Estão falsificando até cartas de apoio a Lula, sem poupar o nome de ninguém. A vítima mais recente é o bispo de Garanhuns, Dom Paulo Jackson. Uma carta de apoio ao ex-presidente condenado por corrupção repassada na internet vem sendo atribuída falsamente ao religioso. No entanto, o bispo já desmentiu a autoria. E ficou muito bravo por seu nome ter sido usado.

A carta com a falsa assinatura chegou a ser publicada em sites de jornais do Nordeste e corre pela internet. Ela traz elogios entusiasmados a Lula, como no trecho em que diz que “Lula é uma causa a ser defendida, muito mais do que sua figura humana”. Um jornalista deve ter responsabilidade com a informação, além da obrigação de saber que bastaria um breve telefonema à Diocese de Garanhuns ou mesmo um e-mail para verificar a autenticidade do documento. Foi o que disse o próprio bispo, em mensagem a um jornal que veiculou a carta, dando um exemplar puxão de orelhas nos, digamos, profissionais: “Vocês simplesmente fizeram mau jornalismo. Precisam retornar às primeiras aulas de jornalismo”.

O pito de Dom Paulo Jackson serve como alerta contra o hábito de repassar de tudo pela internet sem conferir a veracidade. Esta fraude mostra também que é preciso tomar ainda mais cuidado agora, na hora desse desespero da militância petista. Eles não estão perdoando nada, nem bispos.
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POR José Pires

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Veja aqui o desmentido de Dom Paulo Jackson

Acalmando a nação

O governo lançou uma nota afirmando que "o presidente Michel Temer não participou e nem participa de nenhuma quadrilha". Isso mesmo, uma nota oficial avisando que o presidente não é ladrão. Aqui está ela, na íntegra:

“O presidente Michel Temer não participou e nem participa de nenhuma quadrilha, como foi publicado pela imprensa, neste 11 de setembro. O presidente tampouco fez parte de qualquer ‘estrutura com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagens indevidas em órgãos da administração pública’. O presidente Temer lamenta que insinuações descabidas, com intuito de tentar denegrir a honra e a imagem pública, sejam vazadas à imprensa antes da devida apreciação pela Justiça.”

É muito tranquilizador saber que não temos um presidente da República participando de nenhuma quadrilha nem obtendo vantagens indevidas. Tem que manter isso, viu?
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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Mostra "Queermuseu": bravatas e azucrinação à esquerda e à direita

A tal da mostra “Queermuseu”, patrocinada pelo Banco Santander em Porto Alegre e logo repudiada pelo próprio Banco, que mandou fechá-la antes que completasse um mês de exibição, é um espetáculo interessante que serve de reflexão sobre o atual momento cultural brasileiro.

Não é de hoje que este banco espanhol tem dificuldades na sua relação política e cultural com o Brasil. Anteriormente a diretoria do banco já havia demonstrado espantosa incompetência, seguida de uma covardia que reforçou a impressão de falta de responsabilidade. Foi naquele episódio no primeiro mandato de Dilma Rousseff, da carta enviada pelo banco a seus correntistas com um alerta sobre dificuldades na economia brasileira. Como se viu depois, a avaliação era correta. Ocorre que na época o Santander voltou atrás e demitiu a funcionária que redigiu a carta, depois de Lula reclamar em público, com aquela fineza peculiar dele, quando seu partido estava no poder. Tirem as crianças da sala, que lá vai o que o Lula disse: “essa moça não entende porra nenhuma de Brasil e de governo Dilma”.

Da mesma forma que agora, recuando diante de previsíveis pressões o Santander demonstrou uma tremenda incompetência de planejamento. Não dá para saber o que o banco pretendia com aquela avaliação rigorosa sobre economia, ainda mais indo de encontro a um governo autoritário. E também é um mistério o objetivo do patrocínio de um projeto de tendência artística claramente da militância homossexual radical. Sim, isto existe. E faz mais mal do que bem ao debate sobre direitos civis. Mas, quanto à exposição, nenhuma pessoa mais responsável da diretoria do banco teve a ideia de dar uma passadinha na mostra antes da abertura ao público?

E neste ponto, creio que já é hora de pedir calma às militâncias. Que a esquerda não jogue pedra em mim nem a direita me aplauda. Parafraseando o guru petista, os dois lados não entendem porra nenhuma de cultura, muito menos de arte. Tudo que eu não quero na cultura do meu país é a influência determinante de um curador de esquerda, com carteirinha de partido, como essa figura que dirige a mostra, Gaudêncio Fidélis, grudado em cargo nomeado em governos de esquerda no Rio Grande do Sul desde o governo brizolista de Alceu Colares, até o governo petista de Tarso Genro. Imaginem a liberdade artística de sua equipe. Mas também não quero movimentos de rua decidindo o que eu posso ver e determinando qual é o papel da arte. Kim Kataguiri não me representa como curador, nem seus colegas de movimento, que por sinal não foi pra isso que recebeu apoio nas ruas.

Mas, voltando, o banco Santander parece dirigido por idiotas políticos e os artistas da mostra são uns bravateiros. Vejam uma explicação do banco para acabar com a exibição: "O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia”. Mas, espera aí, como se faz para debater “grandes questões do mundo contemporâneo” sem “gerar desrespeito ou discórdia”, ainda mais organizando uma exposição de fundo gay, lésbico e transgênero? É desse modo que ela vinha sendo apresentada, antes do quiproquó que levou ao fechamento. Com o pega-pra-capar que direita e esquerda vem fazendo com este tema, talvez o Santander pretendesse finalmente apaziguar os espíritos com esta mostra.

E quanto aos responsáveis pela mostra, cabe um questionamento sobre os objetivos, digamos, de seu conceito de arte, que pelo pouco que deu para ser visto na internet é um projeto provocativo, com um radicalismo pouco visto na cultura brasileira. Vocês já devem ter ouvido falar dos quadros da “criança viada” e da imagem de Cristo usada ironicamente. Parece coisa inventada pela direita, não é mesmo? Pois esse negócio da “criança viada” existe mesmo, em quadros muito ruins, que se baseiam em um projeto anterior muito estranho. Publico um deles para vocês sentirem a barra. Imaginem as outras “obras” que não deu pra ver.

Ora, articulando em uma grande mostra materiais de alto teor explosivo de provocação, pode-se concluir então que a reação agressiva comandada pelo MBL fez os organizadores e artistas atingirem seu propósito. Mas não é nada disso. Esse é o pessoal que vive tentando repetir o que foi feito por Marcel Duchamp, o que é exatamente o contrário do que ele propôs. É o problema de toda leitura torta. E cabe lembrar que Duchamp correu riscos. E o centro da proposta desse pessoal bravateiro é ter o risco apenas na aparência. É uma das atividades mais bacanas que existe, o radicalismo bancado pelo Estado e pela burocracia cultural de esquerda que domina hoje em dia inclusive o acesso às verbas culturais da iniciativa privada.

Dessa forma, cuspir nos outros virou um meio de vida, que até agora eles vinham levando na maciota, sem a consequência do radicalismo verdadeiro e também sem a coragem de verdadeiros criadores que abriram caminhos muito interessantes na ampliação da liberdade de percepção artística. Como eu disse, não se sabe o que o Santander pretendia com o patrocínio dessa coisa, mas somos nós que teremos agora de suportar um debate com muita ignorância e agressividade dos dois lados — esquerda e direita —, que aproveitam o assunto para tentar um controle sobre a vida dos outros. É a valentia de bravateiros até agora escudados em verbas oficiais e do outro lado um movimento de rua que está indo “além das sandálias”, para fechar com a significativa frase do lendário pintor Apeles ao sapateiro que depois de uma explicação técnica sobre calçados queria também opinar na feitura do quadro que ele estava pintando.
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POR José Pires

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Imagem- Obras da mostra “Queermuseu”; imaginem o resto

Conspirações em desordem

Alguém precisa sistematizar as conspirações em andamento ou pelo menos as mais importantes, porque está difícil acompanhar. Antes do impeachment de Dilma Rousseff era mais simples. Tudo se dividia do jeitão tradicional que a esquerda faz: nós e eles. Naquele tempo, pelo ponto de vista dos petistas até o sol costumava nascer de vez em quando só para perseguir o PT. Porém, com Michel Temer ocupando a presidência da República ampliou-se bastante o âmbito das conspirações. Tem até conspiração de antigos adversários da esquerda, agora para fazer chover na horta do PT.

É claro que está mantida a conspiração contra o PT, que segundo os petistas recebeu a adesão agora até de Antonio Palocci, este trânsfuga que foi de herói do partido a traidor da causa. Pior ainda, o "Italiano" está com Sergio Moro nesta mais nova conspiração nova. Tem também várias conspirações contra Temer, com destaque para a que tem por detrás o procurador Rodrigo Janot e da qual participam os irmãos Batista. Sobre esta conspiração, em especial, não se sabe se vem antes ou depois do encontro noturno entre Temer e Joesley.

As conspirações contra Temer criam situações bastante delicadas. Muito cuidado. Um post no Facebook ou às vezes apenas um comentário falando sobre gatunos da equipe de Temer ou de ilegalidades do próprio presidente pode incluir de imediato seu nome numa conspiração que só não tem o governo americano por detrás, porque como todo mundo sabe, é contra o PT que os americanos conspiram.

E como existem conspirações contra Temer, por consequência tinha que ter alguma coisa armada para livrar o Temer. O ministro Gilmar Mendes está nessa, como todo mundo sabe. No entanto, este complô tem também suas complexidades, o que exige muita atenção. Desse modo, também neste caso pode surgir a acusação de envolvimento em um plano maquiavélico para favorecer o PT, bastando para isso, por exemplo, você achar que não é correto o braço-direito de Temer sair por aí rodando uma mala cheia de dinheiro pelas calçadas. Ou então ter opinião típica de conspirador, que costumam achar que não é bacana um presidente da República ouvir relato de crimes e dizer que “tem que manter isso”.

Estão vendo como está complicado se situar em meio a tantas tramas secretas? Isso não está certo. É mais que urgente a necessidade de organizar direitinho todas essas mancomunações, sistematizando de forma muito clara o papel de cada conspiração, deixando claro qual delas têm a nossa participação. Precisamos saber com exatidão o nosso papel nesses conluios ardilosos. Até porque em uma dessas conspirações algum pilantra pode estar ficando com a nossa parte em dinheiro.
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POR José Pires

Palocci, Geddel e a falta de sono de Lula e Temer

As acusações do ex-ministro Antonio Palocci deixaram Lula e seu partido num estado de tensão que eles não viviam desde o mensalão, quando o então presidente Lula só não foi condenado e preso porque recebeu a ajuda da oposição, com aquela famosa esperteza dos tucanos de deixá-lo fora do escândalo para que ele sangrasse até a próxima eleição. Lula não sangrou, reelegeu-se presidente e ainda teve força para fazer sua sucessora, dando continuidade aos esquemas. Com o devastador depoimento de Palocci, no entanto, voltam os temores dos petistas, ampliados pela situação mais complicada do partido, atualmente arruinado politicamente e fora do poder. E sem tucano para ter ideia besta. Agora não dá pra não ter medo de ser feliz.

O estresse é brabo entre os vermelhos, mas por outro lado, o governo Temer também está num estado de nervos que não se via desde que a polícia teve acesso às conversas bandidas do presidente nas noitadas fora de agenda no Palácio do Jaburu, naqueles despachos fora de agenda com visitas secretas que ele recebia pela garagem. E teve depois o impacto da descoberta da dinheirama mocozada em um apartamento de Salvador, com as digitais de Geddel Vieira Lima espalhadas pelos pacotes. Mas daí o assunto acabou ficando em segundo plano, com o homem mais próximo de Lula mudando a pauta com seu depoimento-bomba. Não é sempre que aparece uma confissão como a de Palocci, uma das pessoas mais próximas de Lula no poder e fora dele, além de coordenador da campanha de Dilma Rousseff e influente também no governo dela.

Porém, os trabalhos continuam. E agora é Geddel que está em situação parecida com a de Palocci, passando os dias em um lugar onde com certeza a avaliação do próprio futuro tem um peso impressionante. Ninguém é ingênuo de acreditar que toda a dinheirama descoberta era apenas para o bolso de Geddel e que toda aquela lucratividade foi obtida só com a influência dele nos bancos públicos e nos demais negócios com o Estado. Geddel não é um peixe pequeno, no entanto o trabalho de juntar aquela fortuna exige mais que um tubarão. É claro que isso teria que dar em um efeito muito interessante, com uma energia que atravessa as paredes que aprisionam o ex-braço direito de Temer. As noites atormentadas de Geddel atrapalham o sono no Palácio do Jaburu. E Temer tem motivo para não dormir sossegado. Aliás, são 51 milhões de motivos.
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POR José Pires

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Palocci, os crimes de Lula e a ilusão corrupta do pré-sal

Se Lula tinha alguma esperança de não ser condenado em segunda instância no processo do famoso triplex do Guarujá, isso se rompeu definitivamente com o depoimento de Antonio Palocci desta quarta-feira, dado ao juiz Sérgio Moro. É claro que o julgamento no Tribunal Regional Federal da 4ª Região deve ater-se às provas que já estão lá, mas em processos do tipo nunca se deve subestimar o clima político e era com isso que Lula contava para se safar. Tanto é que até inventou essa caravana pelo Nordeste, que ao contrário do esperado sucesso esperado, acabou contribuindo para demonstrar fraqueza política.

O depoimento de Palocci foi desastroso para Lula, em tudo que ele tem para enfrentar daqui pra frente. Desmonta até a lorota sobre sua candidatura em 2018. Seu ex-ministro fez uma confissão extensa sobre o esquema criminoso investigado pela Lava Jato, inclusive falando de Lula diretamente. Ele disse que o ex-presidente fez um “pacto de sangue” com a Odebrecht. E Palocci é um chegado. Foi da mais alta importância na primeira vitória eleitoral de Lula para presidente e sempre foi pessoa de sua intimidade. Era um braço-direito mesmo depois de sair do governo. E a forma que o ex-ministro abriu o verbo mostra que ele sabe que o Ministério Público tem provas consistentes. E apesar de ter falado bastante hoje, com certeza ele guarda muita coisa para depois, para garantir a delação premiada que ainda está negociando com os promotores.

Algo muito interessante que dá para observar no depoimento foi a falta de percepção de Lula frente ao aumento do volume de corrupção em seu governo e também sua falta de capacidade de conduzir o esquema em condições mais controladas. Chama a atenção o papel do chamado pré-sal como aguçador da ambição pelo dinheiro. Palocci diz que o pré-sal “foi um dos grandes males para o Brasil”. Ele diz que o governo não soube “lidar com a riqueza”, o que de fato ocorreu e não foi só no estímulo aos ladrões para meter a mão no dinheiro público.

Todo o país perdeu muito na ilusão de que o petróleo jorraria de tal forma que o Brasil chegaria a fazer parte da Opep, como repetia então o próprio Lula. E agora ficamos sabendo pela fala de um dos mais graduados dirigentes petistas que a animação com o dinheiro fácil afetou até a capacidade de atenção dos corruptos no disfarce de seus crimes. Esta foi outra situação no governo do PT em que a propaganda manteve-se ativa mesmo depois da vitória eleitoral, convencendo até os próprios autores da fraude. Tem até um slogan forte que define muito bem este arrebatamento: “Sem medo de ser feliz”. Eles se deixaram levar pelo engodo que deu muito voto para o PT. O governo petista gastou o que não tinha e ainda passaram a roubar além da conta.
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POR José Pires

Stédile: atiçando a confusão com insultos contra Moro


João Pedro Stédile, do MST, fez uma grande besteira nesta quarta-feira em um palanque, durante o encerramento da caravana do ex-presidente Lula pelo Nordeste. Como o movimento liderado por esta figura truculenta tem ares rurais, creio que cabe o velho jargão que diz que quem fala demais acaba dando bom dia a cavalo. Ao lado de Lula, Stédile chamou Sergio Moro de “aquele merdinha” e “bundão”. Um líder político pode tratar um juiz federal dessa forma? É óbvio que não pode. Em situações muito menos graves, como daquele post de Facebook da atriz Mônica Iozzi, ela acabou sendo obrigada a pagar indenização de R$ 30 mil, além de arcar com custos judiciais, em processo movido por Gilmar Mendes.

Com este episódio do desbocado líder do MST, é provável que finalmente alguém graúdo do PT receba uma lição sobre os limites legais da própria língua e tomara que isso aconteça mesmo. Um processo contra Stédile, vindo do próprio Poder Judiciário, poderia ajudar a amenizar a temperatura política brasileira, que os petistas têm todo o interesse em aumentar. A facilidade que hoje em dia qualquer tem para comunicar o que pensa vem criando um clima de permanente combustão.

E infelizmente sempre tem alguém de cima, como fez agora Stédile, dando mau exemplo e atiçando este incêndio perigoso. Certamente ele seria condenado pelo que falou. No vídeo que já corre pela internet é muito claro seu insulto. Não tem como escapar. E o exemplo poderia ajudar a estabelecer maior responsabilidade sobre a liberdade de opinião, contribuindo inclusive como prevenção contra barbaridades que podem ocorrer no ano que vem, durante o embate eleitoral.
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POR José Pires

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Pindura corintiana

É impressionante a dívida contraída pelo Corinthians para construir seu megaestádio, o Arena Corinthians, que não rende o suficiente para pagar as mensalidades do empréstimo. O clube deve R$ 400 milhões, mas desde novembro de 2016 não paga nada para o banco, que aceitou uma renegociação do acordo, mas até agora não obteve resposta financeira dos dirigentes corintianos. Qual é o banco? Ora, é a minha, a sua, a nossa Caixa Econômica Federal. A revista Época fez uma boa matéria sobre a pindura corintiana, na qual se afirma que não existe perspectiva para a retomada dos pagamentos. Mas sobre esse tipo de perspectiva não nos falta experiência. Em negócios como esse com bancos públicos é até bem fácil prever que a conta vai ficar para o contribuinte.

Provavelmente o processo será encaminhado de forma parecida ao do empréstimo. Como se sabe, o dinheiro caiu fácil na conta do Corinthians no governo do PT, determinado pelo ex-presidente Lula. A mamata começou no governo dele e foi até o de sua pupila, Dilma Rousseff. Agora, nesta hora em que falta numerário para ao menos repor o dinheiro, vai-se desencadear uma armação que começa pelo presidente da Republica, envolve seus ministros e abraça também os interesses de deputados e senadores. Com esse tipo de gente à frente do dinheiro público é praticamente certo o rombo nas contas da Caixa. Já é uma forma tradicional de tocar o gerenciamento dos bancos estatais, desenvolvido inclusive com cinismo. Como esses figurões que arrasam com a administração pública são quase todos liberais, logo mais eles terão inclusive mais argumentos para o desprezo pelo papel do Estado na economia.

Agora, que se pergunte ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o que faria um banco privado, como por exemplo o Banco Boston, frente ao risco de um calote como este. Antes de pegar a presidência do Banco Central, no governo Lula, o ministro foi presidente desse grande banco americano e sabe muito bem que o empréstimo nem existiria se não fosse calçado em bases muito sólidas para prevenir dificuldades com a quitação. Mas se mesmo com todos os cuidados, ainda assim ocorresse um problema grave como este, o banco já estaria estudando o que poderia ser tomado do Corinthians. Não haveria o mínimo espaço para manobras para fugir do pagamento. Seria bem diferente do que deve ocorrer com a nossa Caixa. Já antevejo emocionadas defesas do clube como um patrimônio cultural a ser preservado, em movimentações que juntarão torcedores de camisas variadas exigindo um amaciamento na cobrança da dívida. No Brasil, até as torcidas se juntam na hora de transformar em empréstimo a fundo perdido o compromisso financeiro com um banco estatal.
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POR José Pires

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Hilda Hilst e Mário Schenberg: um poema à bela amizade

A leitura traz umas descobertas prazerosas, que pode ser inclusive a revelação sobre algo legal de ser lido, uma coisa nova que tem muita relação com o que somos, mas que nem sabíamos que estava escrita. Foi o que aconteceu comigo, relendo nesses dias um livro de entrevistas da Hilda Hilst, deliciado com franqueza dessa grande mulher e da forma mágica e muito inteligente dela ir respondendo às perguntas, sempre de espírito aberto, fazendo às vezes a gente dar até umas boas gargalhadas. A maioria das entrevistas recolhidas neste livro mantém relativamente intacto seu jeito de falar, com ela revelando seus encantamentos, entremeando com histórias muito boas e também alguns palavrões, senão não seria a Hilda.

Conheci Hilda quando morei em Campinas, na década de 80, e estivemos algumas vezes juntos, quando tivemos boas conversas que se estendiam até a madrugada na famosa “Casa do Sol”, lugar fora da cidade, onde ela vivia. Hilda é uma escritora que estou sempre relendo, até pelo fato da sua obra ter como poucas uma capacidade inspiradora e também ser aquele tipo de texto com o qual nos revigoramos para nossa própria atividade, seja da escrita ou qualquer outro trabalho. Pois, numa dessas entrevistas de que falei, dada ao Suplemento Literário de Minas Gerais, falando da sua amizade com o físico Mário Schenberg, ela lembrou que havia feito um poema para ele, depois publicado “em algum lugar”. Schenberg é uma figura inesquecível da universidade brasileira (morreu em 1990), que sempre teve uma ligação muito especial com o meio artístico.

Hilda, que nos deixou em 2004, foi sempre muito fixada na questão da mortalidade. Como ela mesmo dizia, uma de suas preocupações era com a “terrível desagregação disso tudo que nós somos, pensamos, amamos”. Ela tinha uma tese interessante sobre isso. Dizia que parece que a gente constrói uma alma. Segundo o que contou, Schenberg não só acreditava na imortalidade da alma, como acreditava em vidas passadas. Para ele, os dois haviam vivido no Egito. Hilda havia sido uma sacerdotisa amiga dele. O físico acreditava nessas coisas, mas não falava nada na universidade. “Tenho medo de perder meu emprego”, ele dizia. O misticismo de Hilda a levou até a tentar comunicar-se com os mortos, em experiências feitas em faixas de rádio sem emissoras. Ela me garantiu que obteve contato, mas naquela casa realmente tudo era possível.

Foi a partir dessas histórias que veio a lembrança sobre o poema para Schenberg, o que levou o entrevistador a perguntar como era o físico. “Era um homem maravilhoso, capaz de explicar pra gente as teorias do Einstein com a maior simplicidade”, ela disse. Mas e o poema? Na edição do livro até informam em nota de rodapé que o poema saiu na “Revista da USP”, mas se fosse numa época pré-internet imaginem a dificuldade que seria para localizar esta obra. Mas hoje em dia é bem mais fácil resolver um problema desses. E quem sabe o que procura, acaba encontrando.

Nem vou dizer que o poema é praticamente inédito porque infelizmente Hilda Hilst permanece sendo uma autora com poucos leitores, mesmo num país como o nosso, com índices baixíssimos de leitura. Coisas do Brasil, onde conseguiram tornar a educação e a cultura pior do que era quando esta grande autora estava viva. Porém, mesmo para mim o poema era inédito. Pois então, consegui encontrá-lo e aí está. É uma boa oportunidade de apreciar o encontro de dois seres muito especiais que passaram por este planeta.
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POR José Pires

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Mario Schenberg: Amado Alguém

Disse-lhe um dia: aquela te ama.
Deita-te com ela. Ando cansada
De lhe ouvir confissões a toda hora.
Os olhos cerrados, a fala mansa
Respondeu-me: "E como posso?
Se o que ela pintou de mais humano
Foi uma poça d'água..." Era pintora aquela.
Disse-me um dia: "Vivemos juntos. No Egito.
Uma vida antiga. Sabias?"
Não.
E falávamos de possíveis universos
Das infinitas matérias. Ele dizia:
"Não contes a ninguém... mas acredito
Acredito, acredito."
Hospedou-se em minha casa
Quando o perseguiam. Às vezes saía à noite:
Chapéu, charuto, casaco. Ríamos
Dos disfarces absurdos: tão ele.
Todos o reconheciam.
Juntos inauguramos
Um ciclo de palestras na Unicamp:
Física. Poesia. Rigor. Magia.
Amado Mário. Lúcido ao infinito.
Veemente, Humilde.
Igual a todos os gigantes.
No silêncio é que nos entendíamos.

Hilda Hilst
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domingo, 3 de setembro de 2017