sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O retrocesso que arrasa com a natureza e mata gente

Quando acontecem desastres ambientais, como o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, logo aparecem informações trazidas pela imprensa sobre estudos com a avaliação séria dos problemas que deram origem ao desastre e muitas vezes até com as medidas de prevenção que poderiam ter sido tomadas. Vivemos em um país em que se sabe praticamente tudo dos problemas, com diagnósticos e  o tratamento adequado para acabar com o sofrimento ou evitá-lo. O que falta mesmo é aplicar esse conhecimento, que teria de ser pela via política. Mas aí temos sempre os políticos atrapalhando.

No caso do rompimento da barragem da Vale apareceu agora uma informação que revela uma tremenda irresponsabilidade da classe política de Minas Gerais, seus administradores públicos e o conjunto da sociedade que tem poder político no estado.

Em julho do ano passado uma comissão da Assembleia Legislativa mineira rejeitou um parecer que criava novas restrições para barragens, além de determinar mais exigências às empresas. Seria obrigatória uma garantia de recuperação socioambiental. O parecer proibia também a construção de barragens onde há comunidades e novas licenças de alteamentos, quando o próprio rejeito é usado na ampliação dos empreendimentos.

O único voto a favor do parecer foi do deputado João Vitor Xavier (PSDB), relator e presidente da comissão. Ele foi rejeitado pelos deputados Gil Pereira (PP), Tadeu Martins Leite (MDB) e Thiago Cota (MDB). É até triste assistir a um vídeo postado no início da noite desta sexta-feira, no qual o relator do parecer faz uma impressionante previsão do desastre de hoje em Brumadinho. O deputado Xavier diz o seguinte: “Não estou dizendo que poderemos ter novas rupturas. Por tudo o que vi, eu não tenho dúvidas de que teremos rupturas de novas barragens no Estado de Minas Gerais, porque o modelo que utilizamos é obsoleto, é ultrapassado”.

Fiz uma rápida pesquisa para saber mais sobre o assunto e posto uma matéria do site G1 que resume bem a atitude irresponsável da Assembléia mineira. O parecer seria encaixado em um projeto criado pela Comissão Extraordinária das Barragens, formada após o desastre de Mariana em novembro de 2015, em que 19 pessoas morreram e várias comunidades foram destruídas pela lama da barragem da mineradora Samarco, de propriedade também da Vale. A verdade é que os políticos de Minas atuaram para desmotivar a movimentação social que poderia ter ido além até desse parecer, impondo rigor sobre as barragens e ampliando a força e o empenho da população para exigir mais segurança e respeito ao meio ambiente.

Seres humanos poderiam ter sido poupados de uma morte horrível. Não haveria a destruição do meio ambiente e o fim de comunidades inteiras. Mas infelizmente, como sempre houve a ação política do retrocesso, com o desmonte de regras e leis e o desestímulo para que a população não tome em suas mãos a defesa do bem comum.
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POR José Pires


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A materia do site G1

A vida pregressa em vídeos que pesam no currículo

Hoje em dia, no Brasil, para montar um governo é preciso verificar nos currículos o histórico de vídeos produzidos pela figura que vai ser nomeada. Claro que o método não faz sentido em um governo cujo presidente se elegeu exatamente em função dos vídeos mais estúpidos que já se viu na política brasileira, mas, enfim, estou falando da montagem de uma administração dentro de padrões de normalidade, se é que um dia isso ainda será possível neste país.

Ontem, em meio ao alvoroço virtual de uma polêmica sobre o que o presidente Jair Bolsonaro quis ou não dizer em uma curta frase no Twitter, apareceu mais uma encrenca da ministra Damares Alves, desta vez com efeito internacional bastante grave, com um problema provocado por mais um vídeo de pregação em sua igreja. É óbvio que a tendência é de que apareçam outras falas absurdas dessa ministra. Damares funcionava como uma ativista política em suas pregações pretensamente religiosas e a verdade é que na campanha Bolsonaro se beneficiou bastante com o que ela produzia de barbaridades.

O chamado “kit-gay”, por exemplo, como toda a polêmica criada com a educação sexual nas escolas, teve em Damares uma protagonista importante, manipulando informações e passando dados totalmente falsos. Com ela, atuava também seu chefe, o senador Magno Malta, já  concluindo o mandato com o qual foi imensamente útil ao projeto de poder de Bolsonaro, para depois ser repelido pelo presidente. Eles são todos parte de um enredo fraudulento. Ora, que país é esse onde o presidente da República ganha a eleição enfiando o dedo de forma obscena no orifício da página de um livro de educação sexual e fazendo disso o centro do debate em um país metido na sua pior crise econômica e moral?

O novo quiproquó da ministra dos Direitos Humanos é um vídeo onde ela diz que pais holandeses são instruídos a “massagear sexualmente suas crianças”. Vamos à sua fala: “Inclusive na Holanda, os especialistas ensinam que o menino deve ser masturbado com sete meses de idade para que, ao chegar na fase adulta, possa ser um homem saudável sexualmente, e a menina deve ter a vagina manipulada desde cedo para que ela tenha prazer na fase adulta”.

Nós brasileiros não nos impressionamos com essas coisas, por causa do desmonte político e cultural que faz de uma fala dessas praticamente uma normalidade. Mas o vídeo causou indignação entre os usuários do Twitter holandês. A imprensa holandesa também repercutiu o caso e não é improvável que venha da Holanda um pedido de explicação oficial desse governo que provoca vergonha alheia internacional. Afinal, embora seja uma idiotice completa, a fala é de uma ministra de Estado.

Numa matéria do site UOL, sente-se o reforço da sensação de que estamos convivendo no Brasil com uma realidade política que não faz sentido, perdendo tempo em discussões sobre assuntos completamente idiotas. O site ouviu uma jornalista holandês, Sandra Korstjens, que disse o seguinte: “Muitas pessoas acham difícil acreditar que ela realmente falou isso, porque é tão absurdo”. E a jornalista tem toda razão. É realmente inacreditável que estejamos vivendo algo como esse governo Bolsonaro. No Brasil atual parece que acordamos todos os dias em um pesadelo. E o mais constrangedor é que essa foi a vontade da maioria dos eleitores. Pior ainda, a outra opção eleitoral poderia ter deixado o país numa situação ainda pior.
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POR José Pires

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O anunciado adeus do deputado Jean Wyllys

Em meio ao alarido geral, aparece agora Jean Wyllys dizendo que vai renunciar ao novo mandato de deputado federal. No anúncio feito em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, ele afirma que está desistindo de seu terceiro mandato e sairá do país. O político do Psol disse que tomou a decisão por causa de ameaças, porém não foi claro sobre o real conteúdo dessas ameaças. Não trouxe nenhuma denúncia objetiva, alegando apenas que o clima criado com a eleição de Jair Bolsonaro afeta sua segurança pessoal.

Com a notícia, o deputado conseguiu ganhar espaço na imprensa, mas se ele tinha esperança de criar uma comoção política, parece que o artifício não deu certo. Não houve nada parecido a um “Fica, Jean Wyllys!”. Inexiste qualquer movimentação pedindo que ele reconsidere a decisão. Ao contrário, as pessoas vêm prestando sua solidariedade e dando um tchau ao renunciante.

Não me espantaria se isso for mais uma de suas pataquadas. Jean Wyllys é um fazedor de cenas, desde o tempo em que foi vitorioso numa edição desse programa lamentável que é o BBB, da Rede Globo. Na política ele continuou atuando de forma farsesca. Ele saiu do programa, mas o BBB não saiu dele. Na política fez fama infelizmente se aproveitando de temas essenciais para a democracia brasileira e prejudicando a luta pelos direitos civis. A verdade é que sua carreira política não deu certo. Ele não conquistou representatividade entre as minorias, no eleitorado feminino e no meio cultural de esquerda, entre os quais supostamente ele teria grande força política.

Sua votação para deputado federal no Rio de Janeiro foi muito pequena, demonstrando que faltou-lhe capacidade de fazer da sua enorme projeção nacional um reforço importante em pautas que costumam ficar de fora da política tradicional. Ele teve apenas 24.295 votos e não teria sido eleito se não fosse o alto quociente eleitoral do Psol, garantido por Marcelo Freixo, com seus 342.491 votos que deu-lhe o segundo lugar no estado, pouca coisa abaixo do deputado Hélio Negão, apadrinhado por Jair Bolsonaro. E em matéria de violência, Freixo tem mais do que se queixar do que Wyllys. Desde que presidiu a CPI das Milícias em 2008, ele vem sendo obrigado a viver protegido por um forte esquema de segurança.

No anúncio da renúncia política, Jean Wyllys voltou a acusar Jair Bolsonaro e seus filhos, citando inclusive as suspeitas de relações da família Bolsonaro com chefes de milícias paramilitares no Rio. “Me apavora saber que o filho do presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário”, ele disse. Ocorre que esta rivalidade não é unilateral. Não foi alimentada apenas por Bolsonaro e nem era só ele que lucrava com os insultos mútuos. Da sua primeira eleição — com apenas 13.018 votos, quando foi eleito da mesma forma pelo quociente do partido — Wyllys saltou para 144.770 em 2014.

O problema para ele foi que seu eleitorado minguou nos últimos quatro anos, quando a estratégia do confronto acabou favorecendo Bolsonaro e seus filhos. Com inabilidade política e total falta de bom senso, Wyllys foi um dos parlamentares otários da esquerda que serviram de alavanca para o extraordinário crescimento da direita no país. Não se pode deixar de ser solidário com ninguém quanto à ameaças de violência, mas para o bem dos direitos individuais e a qualidade da democracia, Jean Wyllys já vai tarde da política.
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POR José Pires


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O deputado aplaude Dilma Rousseff, em audiência com a presidente apenas quatro meses
antes dela sofrer o impeachment, em agosto de 2016

Foto de Lula Marques, Agência PT

Bolsonaro e um cargo novo no Governo Federal

Uma das coisas mais estranhas na viagem do presidente Jair Bolsonaro ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, é a presença na comitiva do deputado Eduardo Bolsonaro. O deputado do PSL nunca teve destaque em sua carreira na área de relações exteriores nem atuou de forma expressiva como parlamentar em assuntos internacionais. Mesmo que tivesse feito algo de importante neste setor, nem por isso ele deveria fazer parte da comitiva do presidente da República. Aponto essas questões apenas para deixar claro sua falta de predicados em política internacional.

A menos que Bolsonaro esteja pensando em criar no Governo Federal o cargo de “filho do presidente”, o deputado Eduardo Bolsonaro destoa em uma equipe técnica e política de assessoramento da Presidência da República. Os indicativos de sua qualificação são os piores possíveis, já demonstrado até em atitudes tolas, como em outra viagem inadequada, desta vez para os Estados Unidos, quando posou para fotos com um boné de campanha de reeleição do presidente Donald Trump, atualmente ainda no meio do mandato.

Nesta mesma viagem, o deputado disse que o plano do governo de seu pai para a mudança da embaixada brasileira de Telavive para Jerusalém não causaria problemas, pois seria possível o Brasil se unir aos árabes contra o Irã. O ardiloso plano nos colocaria ao lado de sunitas contra xiitas, numa confusão violenta do Oriente Médio já bem antiga. No aspecto comercial, parece que já não está dando certo. Nesta semana a Arábia Saudita suspendeu parte das importações de frango do Brasil.

Creio que essa rápida explanação sobre os predicados do garoto já serviriam para eliminá-lo de uma comitiva internacional. Mas cabem outras informações sobre suas precárias qualidade de assessoria. Jamil Chade, enviado especial do Estadão à Davos, mandou de lá uma ótima matéria de bastidores, escrevendo sobre o que viu e ouviu na mesa em que o presidente Bolsonaro tomava café com seus assessores. O jornalista estava em uma mesa ao lado. O deputado Eduardo Bolsonaro participava do café.

Chade não conseguiu falar com o presidente, que lhe virou as costas quando foi questionado sobre a situação de seu outro filho, Flávio Bolsonaro. No texto delicioso, o jornalista fecha com Eduardo Bolsonaro fazendo uma explanação muito própria para seu pai e os assessores sobre a falta de atenção de internautas com o que vai escrito em posts. Logo depois, ele perguntou aos colegas da comitiva: "Trilionário e bilionário têm (a letra) H?". "Não, né?".

Pois então, é como eu disse. Um ajudante desses numa comitiva internacional de tamanha importância só se justifica se no Governo Federal tiver o cargo de “filho do presidente”.
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POR José Pires


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O presidente Bolsonaro no embarque para Davos, Suiça, tendo ao lado o filho deputado

Foto de Alan Santos, PR

Bolsonaro falha na primeira grande tarefa internacional

Como se não bastasse o discurso mixo no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o presidente Jair Bolsonaro ainda furou com jornalistas brasileiros e estrangeiros, ao cancelar uma entrevista coletiva, marcada para esta terça-feira. O vexame foi completo em Davos. Foi a primeira vez que um líder latino-americano falou no evento internacional e o resultado foi péssimo, ainda mais na situação de Bolsonaro, cercado de expectativas mundiais em razão de seu alinhamento à direita e a promessa de mudanças determinantes na economia brasileira.

O jornal O Estado de S. Paulo noticiou que o cancelamento aconteceu quando as plaquinhas com os nomes do presidente e dos ministros Paulo Guedes, Sergio Moro e Ernesto Araújo já estavam sobre a mesa destinada aos entrevistados, com os jornalistas à espera. Um assessor presidencial disse que Bolsonaro havia desistido da coletiva por causa “abordagem antiprofissional da imprensa”. E isso aconteceu depois do presidente ter feito um discurso mixuruca tendo toda a liberdade de expor suas idéias da forma que quisesse. O reforço na piada pronta é a pretensão em apontar o dedo para o comportamento profissional alheio, vinda de gente sem capacidade até de colocar para andar os processos básicos de um governo.

Para sua fala, já chamada de “discurso relâmpago”, Bolsonaro tinha o espaço de 45 minutos e usou apenas 5 minutos, expondo somente generalidades sobre seu projeto de governo. Chamou a atenção o nervosismo de quem está longe da garagem de casa. Destaca-se na fala o convite às autoridades presentes para que conheçam “nosso Pantanal”. O efeito foi decepcionante. Segundo o Estadão, entre os jornalistas em Davos ficou a impressão de que Bolsonaro “incapaz de se comportar como um chefe de governo, ou, em termos mais simples, como uma figura pública preparada para exercer esse papel”. Não acho que tenha sido diferente a opinião de autoridades e governantes presentes ao encontro. O novo presidente vem demonstrando nas mais variadas situações que não tem preparo e capacidade de liderança à altura do momento muito difícil que o mundo e o Brasil atravessam.
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POR José Pires


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Imagem- Bolsonaro à espera para falar nesta terça-feira, em Davos.
Foto de Christian Clavadetscher, Fórum Econômico Mundial

Olavo de Carvalho: professor e discípulos em sintonia de linguagem

Existem poucas coisas mais bonitas do que ver o trabalho de um professor dando frutos, especialmente quando o processo avança em conformidade com seu estilo e sua filosofia. Estou falando isso por causa de um vídeo que rola pela internet, no qual um dos deputados bolsonaristas que foram para a China negociar com o governo comunista um aparato tecnológico de identificação facial refuta as criticas do filósofo Olavo de Carvalho. Em um vídeo recente  Olavo tachou de “analfabetos políticos” os parlamentares da caravana, digamos, diplomática e mercantil. O professor também disse que eles são “caipiras”, mas achei inadequado o insulto. Caipiras costumam ser ressabiados. Não devem confiar nem um pouco nesse “tar” de comunismo.

O próprio deputado, de quem eu nunca havia ouvido falar, se diz um “olavista”, que é como se identificam os alunos do velho professor. Trata-se de Daniel Silveira, deputado federal pelo PSL do Rio de Janeiro. É um desses ativistas de direita que resolveram se lançar na política na tentativa de dar equilíbrio, ordem e mais tolerância a este país, nem que seja na porrada. O deputado bolsonarista trouxe uma importante revelação sobre o comunismo na China, onde, segundo diz, existe um “socialismo light”, ao contrário de Cuba e Venezuela, atualmente sob regimes ditatoriais. São todas palavras deles. Esse é o pessoal que acredita que Fernando Henrique Cardoso e seus colegas tucanos são comunistas, conforme ouviram Olavo de Carvalho afirmar em suas preleções.

Mas o que mais me chamou a atenção na fala do deputado indignado foi a assimilação de linguagem entre aluno e professor, demonstrada no indignado contra-ataque ao mestre. O deputado começa mandando Olavo, com o perdão da transcrição, “pra puta que o pariu”, mas ressalva que foi desse modo que aprendeu com o próprio professor, no que ele não deixa de ter razão. “Olavo de Carvalho, vou usar o teu nível”, o deputado avisa no inicio do vídeo, para então rebater com palavrões as críticas, além de explicar que “o brasileiro parece que só funciona na porrada e bandido na bala, parece mais ou menos isso”. E ele segue nesta filosofia por quase meia hora.

Parece que o debate entre os bolsonaristas começa enfim a se aprofundar, o que pode criar para a base de apoio de Jair Bolsonaro, senão um sistema filosófico, mas ao menos umas ideias para estabelecer alguma doutrina política neste governo. Mas ainda sobre esta polêmica viagem para a China, nesses dias Cleber Teixeira, advogado do deputado Alexandre Frota, disse que o “bunda murcha” do Olavo “não é guru da direita”. Notem que independente da celeuma sobre a autoridade intelectual do projeto da chamada “nova era”, a linguagem do mestre se estabelece como uma norma.

Este mesmo advogado do deputado Frota teve, por sinal, uma instigante interação com o deputado Eduardo Bolsonaro, que no Twitter também chamou de “analfabetos” os deputados da caravana chinesa. Referindo-se ao filho do presidente Bolsonaro, o advogado do Frota disse o seguinte: “Se ele vier falar nesse tom no gabinete do Frota eu quebro a cara dele”. A hermenêutica aqui é muito óbvia, além de que temos um interessante exercício filosófico do bolsonarismo. Achei muito bacana. Trata-se do conceito em vias de se tornar objeto.
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POR José Pires

Esquerda e direita, na mesma toada contra e a favor da Rede Globo

Como é interessante observar a esquerda e a direita tão iguaizinhas, como acontece hoje em dia na reação dos dois lados quando o jornalismo vai contra seus interesses. Esse pessoal anda precisando da ajuda de profissionais da psicologia, para enfrentarem a grave perturbação bipolar que os obriga a se revezarem entre as violentas sarrafadas e a incontida paixão pelo jornalismo da maior emissora do país.

Atualmente são os bolsonaristas que sentam o cacete na Globo, com a mesma ignorância e violência dos petistas, quando no poder eles eram questionados em reportagens e investigações jornalistas sem as quais, por sinal, jamais haveria o impeachment de Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro manteria sua carreira conforme sua vocação de político de baixo clero. Não seria nada mal a segunda conseqüência, mas onde estaria o país se Dilma não tivesse sido escorraçada do governo? Sem dúvida, o Brasil estaria pior. A única divergência é quanto ao grau da desgraça. E o jornalismo também não pode ficar se adequando ao provável resultado das notícias. Aí então não se trata de jornalismo.

Chega a ser engraçado ver petistas atualmente elogiando o conteúdo jornalístico da Rede Globo e aceitando incondicionalmente matérias sobre as graves suspeitas de falcatruas sobre o filho de Bolsonaro, além de outras críticas e denúncias contra seu governo. É claro que basta haver qualquer material diferente, sobre a prisão de algum maiorial petista ou alguma denúncia nova contra o partido do Lula, para que as atitudes se invertam, com petistas tacando pedra e bolsonaristas batendo palmas. E o pior é que os ignorantes de ambos os lados não percebem que, no final, com esta histérica esquizofrenia estão na verdade elogiando o jornalismo da Rede Globo.
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POR José Pires

sábado, 19 de janeiro de 2019

Olavo de Carvalho e governo Bolsonaro: uma relação em discussão

Os seguidores de Olavo de Carvalho, auto-intitulados “olavetes”, que andavam festejando a influência do conhecido professor de filosofia no governo de Jair Bolsonaro, agora começam a ter que suportar os dissabores de freqüentar o poder federal. Nesta quinta-feira o governo Bolsonaro deu mais um de seus recuos e suspendeu a nomeação de um discípulo de Olavo. A exoneração aconteceu em um ministério essencial para a pregação política do filósofo, o Ministério da Educação, atingindo o Enem, um ponto vital no ataque à chamada “cultura marxista”, que vem sendo denunciada há anos por Olavo como uma manipulação sobre o destino do país. Esta foi uma base dos intempestivos de Jair Bolsonaro que lhe deram fama como deputado e fez dele opção preferencial do sentimento antipetista que tomou conta do eleitorado.

No Enem, o presidente Jair Bolsonaro resolveu suspender a da coordenação o economista Murilo Resende Ferreira. O recuo é típico desse governo, com a exoneração acontecendo poucos dias depois do próprio Bolsonaro ter elogiado Ferreira em um Twitter. O presidente saiu em defesa da nomeação, que vinha desencadeando polêmicas. Ferreira não tem experiência na área de educação básica. Além disso, apareceram críticas vindas do MBL, movimento que apóia o governo Bolsonaro. Um de seus líderes avisou no Twitter que o novo coordenador do Enem havia sido expulso da organização social por ser “um maluco completo”, categorização que não é pouca coisa entre a rapaziada do MBL.

A demissão do discípulo de Olavo ocorre na pasta onde o professor indicou o próprio ministro Ricardo Vélez Rodríguez, encaixado no governo exatamente com a função política de ressaltar a missão de “desesquerdização” do Brasil propalada por Bolsonaro. A nomeação errada para o Enem vem se somar a outro desgaste recente na Educação, com a publicação de uma licitação para a compra de livros didáticos que incluía especificações absurdas, como a dispensa de qualidade de impressão dos livros e cuidado com a revisão dos textos.

Olavo de Carvalho começa a experimentar as contradições reais do exercício de seu pensamento, com problemas criados por um equívoco que, por sinal, é bastante antigo na relação entre intelectuais e o poder. Ele embarcou em uma onda liderada por uma personalidade popular sem ter antes estabelecido uma doutrina e qualificado quadros para encarar o trabalho. Será interessante acompanhar o desenvolvimento agora desta relação, em meio aos atropelos de um governo tomado pela intempestividade e a inexperiência, com uma impressionante dificuldade de aplicação no estudo e no planejamento de ações.

Não são bons os prognósticos desta, digamos, discussão de relação. Olavo é conhecidamente de pavio curto e o governo Bolsonaro tem muita dificuldade de se recompor, mesmo porque não tem base sólida para se reposicionar e consertar erros. O presidente não tem sequer partido organizado. Seu PSL é uma maçaroca de figuras ambiciosas, que não se entendem nem se criticam a China ou fazem caravana para importar tecnologia de controle de massa da ditadura comunista. É o “probleminha” de que falei, com responsabilidade do próprio Olavo de Carvalho, sobre querer fazer a História andar mais depressa sem antes estabelecer as mínimas bases para a difícil tarefa.
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POR José Pires

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Olavo de Carvalho e a caravana bolsonarista para a China comunista

O comunismo internacional já anda dividindo a direita brasileira. O tal do sistema chinês de identificação que deputados bolsonaristas foram conhecer na China, com toda mordomia paga pelo governo comunista chinês, causou encrenca na troupe de Olavo de Carvalho. O guru ficou encrespado com a notícia e aproveitou para fazer um vídeo dizendo que se fosse guru de fato do governo Bolsonaro coisas desse tipo não aconteceriam.

Não vou dizer que é um puxão de orelhas no presidente Jair Bolsonaro, mas como o velho professor é de pavio curto pode ser o sinal de cansaço com as besteiras que já explodiram em menos de um mês de governo. Sou mais novo que o intrépido ativista da Virgínia, mas eu aconselharia muita maracujina, que eu nem sei se ainda existe, mas pode ser algum genérico. Seguramente, muito mais besteiras virão.

Bem, nem precisa ser um filósofo genial para saber que é uma furada embarcar na popularidade de uma figura como Bolsonaro, sem doutrina, partido ou qualquer outra estrutura organizada, levando atrás de si uma carrada de eleitos com a mesma falta de tudo, mas com a ambição de se dar bem na vida, com o menor esforço possível, por meio da política. Mas Olavo acha que sempre tem razão. E se estrepou.

No vídeo divulgado por Olavo nas redes sociais a parte mais engraçada é a de um homem já de avançada idade e que se gaba sem parar da própria inteligência, desta vez fazendo papel de adolescente ameaçando ficar de mal da deputada Carla Zambelli se ela não desistir dessa caravana abilolada. Ele garante que ajudou muito a deputada antes de ela ser eleita.

Zambelli não voltou atrás, é claro. A deputada inclusive já mandou de um hotel na China um vídeo criticando pesadamente o guru da Virgínia, dizendo que ao contrário de quem fica criticando e vive há anos no exterior, ela mora no Brasil. Como se vê, o debate entra na esfera do nacionalismo exacerbado, muito próprio da direita.

Esses comunistas não são fáceis. Não quero amendrontar ninguém com conspirações, mas é capaz de Olavo de Carvalho já ter entrado no radar do tal sistema chinês de identificacão.
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POR José Pires

Flavio Bolsonaro e Queiróz, a volta da dupla que encrencou o governo Bolsonaro

O pedido de suspensão da investigação sobre Fabrício Queiroz, feito por Flávio Bolsonaro, é o tipo de defesa desastrosa tanto para Flávio Bolsonaro quanto para seu pai, o presidente Jair Bolsonaro. O pedido foi feito nesta quarta-feira ao STF e atendido no mesmo dia pelo ministro Luiz Fux. A solicitude deve acabar com a vontade de qualquer membro da família Bolsonaro de mandar um soldado e um cabo até a mais alta Corte do país.

A alegação de Flávio Bolsonaro, ex-chefe de Queiróz, agrava ainda mais o impacto político que já não era altamente desgastante. O político recorreu ao foro privilegiado. Ele foi chefe de Queiróz como deputado estadual no Rio de Janeiro e assumirá em fevereiro o mandato de senador. Até agora o filho de Bolsonaro se defendia afirmando que seu antigo assessor é quem devia explicações.

É espantoso como da transição para cá e com menos de um mês de governo desmontou-se toda a imagem de respeito à moralidade pública que teve influência decisiva na eleição de Jair Bolsonaro. Foram vários equívocos abalando conceitos éticos, como a nomeação com a triplicação do salário do filho do vice-presidente no Banco do Brasil, além de outras coisas muito mal explicadas, que juntaram-se à graves suspeitas de ilegalidade, como neste caso das movimentações do ex-assessor Queiróz, que inclui até um cheque para a primeira-dama.

Na prática, junto à opinião pública este pedido de Flávio Bolsonaro é praticamente uma confissão de que estamos diante de um caso muito sério, no qual ele tem grande responsabilidade e que pode atingir também o presidente da República. Como conceder o benefício da dúvida para um político que age desse jeito? Para muita gente, mesmo entre quem votou em Bolsonaro, passa como confissão de culpa. De qualquer modo, isso não é mais algo apenas do Queiróz e sua habilidade de “fazer dinheiro”, da qual ele mesmo se gabou.

Um dado curioso dessas complicações é que para compensar tanto desgaste Jair Bolsonaro ficará com a obrigação de ter que realizar muito mais do que a população aceitaria numa condição política de normalidade. A recuperação da imagem entre quem acreditou em suas bandeiras éticas pode ter exigências que excedem a capacidade de qualquer “Posto Ipiranga”. Claro que os brasileiros que não votaram nele exigirão ainda mais. Por causa de decisões erradas, deslizes éticos e graves suspeitas de ilegalidades, Bolsonaro terá que superar metas de governo que normalmente já seria muito difícil de alcançar.
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POR José Pires

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

As relações misteriosas entre Maduro e PT

O PT é bastante experiente e seus dirigentes têm senso de oportunidade quando isso lhes convém. Do mesmo modo, a presidente do partido, deputada Gleisi Hoffmann, sabe agir com pragmatismo quando precisa disso para se livrar de encrenca ou tirar proveito político. Fez isso, por exemplo, na última eleição, quando manteve a imagem de brigadora pela causa, mas espertamente recuou nas pretensões pessoais, deixando de tentar a reeleição para o Senado e saindo candidata a deputada federal, numa disputa em que a máquina do partido faz a diferença de forma mais efetiva. Nesta opção, conseguiu também trabalhar politicamente um eleitorado menor, mais simpático à relação intensa dela com o presidiário Lula.

A ex-senadora e agora deputada é uma espertalhona, neste caso muito mais habilidosa que, por exemplo, Roberto Requião. O ex-senador pelo Paraná resolveu enfrentar a parada pela reeleição, mesmo com o risco de ter passado todo seu mandato colado à Lula e depois ao governo Dilma Rousseff, tendo atuado também contra o impeachment e por consequência mantendo-se na memória do eleitor como cúmplice do desastre político e social que todo mundo conhece muito bem. Chega a ser engraçado ver Requião, em vídeos feitos após a derrota, reclamando de terem ligado sua imagem ao PT. Pois foi exatamente este risco que Gleisi não correu, desistindo de tentar uma reeleição em um estado onde o PT não é bem visto.

Essa capacidade de precaução e o tremendo senso de oportunidade se choca com a viagem de Gleisi Hoffmann para a posse de Nicolás Maduro, prestigiando um dos governantes mais repudiados mundialmente. E cabe destacar que foi como presidente do PT que a deputada levou o apoio ao ditador venezuelano. Qual é o sentido de um gesto desse numa situação tão complicada para o partido do Lula, agora na oposição a um duro adversário no Brasil?

Até parece um erro, mas não é bem assim. Gleisi Hoffmann, Lula e os demais dirigente do PT sabem muito bem que a presença do partido na posse de Maduro é mais uma nódoa a impregnar a imagem petista. Vai se juntar às tantas outras manchas que desacreditam os petistas nos mais variados assuntos. Hoje em dia, petista não tem credibilidade para fazer crítica alguma. Qualquer simpatizante do PT que tenta apontar defeito mesmo nos piores adversários sabe do que estou falando. Sempre aparece algo pior que o PT já fez.

A presença de Gleisi Hoffmann como presidente do PT na posse do ditador Maduro lembra muito o beija-mão a Fidel Castro, feito por Lula e depois por Dilma Rousseff como presidente, em clima de veneração e obediência. Eram cenas que politicamente seria melhor serem evitadas, por isso deve-se suspeitar que o regime cubano tinha poder suficiente sobre o PT que exigia a presença dos dois governantes brasileiros. Era uma obrigação. É provável que um dia ainda apareçam as provas que expliquem tamanha afeição, até hoje protegidas pelo regime castrista numa muito bem guardada caixa preta que quando for aberta determinará a mais triste desonra da esquerda brasileira.

A relação intensa do PT com um regime político como o de Maduro talvez possa ser explicada, da mesma forma, também pelos laços anteriores que mantém o chavismo com o controle sobre o partido de Lula presidido pela deputada Gleisi. São misteriosas interações políticas e financeiras, não se sabendo ainda de que montantes e com quais implicações pessoais. Só muito rabo preso, em reprováveis relações subterrâneas, pode justificar o apoio a um regime nefasto, repudiado de uma forma quase unânime em todo o mundo. No rescaldo do desastre provocado pelo chavismo na Venezuela ainda aparecerá uma caixa preta com as revelações do passado, mostrando ao mundo os laços dessa paixão política que torna inseparáveis o PT e o governo Maduro.
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POR José Pires

Battisti: o protegido de Lula enfim presta contas à Justiça da Itália

A extradição de Cesare Battisti ter sido feita pelo governo de Evo Morales dá um realce ao desastroso acolhimento que o governo Lula deu ao terrorista italiano. Nem o colega da esquerda latino-americana avalizou a besteira petista. A proteção do PT a Battisti foi uma medida estupidamente equivocada, que acabou tendo um efeito internacional péssimo para o governo petista, até porque Tarso Genro, o ministro da Justiça que fez essa imensa bobagem, era um falastrão e avançou até em opiniões indevidas, atacando o sistema judiciário da Itália, país que pediu a extradição do criminoso condenado logo que foi divulgada sua presença no Brasil em 2004.

O caso Battisti serve como referência importante da dificuldade de confiar na esquerda brasileira. Para não perder o trocadilho, com eles o sinal é sempre vermelho. O tratamento privilegiado do governo do PT ao terrorista condenado é nada mais nada menos que o resultado da histórica leviandade esquerdista na interpretação da realidade. Na cabeça de um esquerdista é preciso respeitar Nícolas Maduro, cujo governo assassina manifestantes nas ruas à bala, mas o sistema judiciário da Itália é perverso.

Para Battisti, esse modo de ver as coisas garantia o melhor dos mundos. É interessante notar que com essa mesma visão torta que fazia de um criminoso um heróico injustiçado, o então presidente Lula se permitia a ilegalidades que seu partido condenava em outros governos. Agora, com o chefão petista preso no Brasil e Battisti na Itália, finalmente cada ponto de vista vai se ajustando à sua própria realidade.
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POR José Pires

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

General Mourão e seu aval de pai coruja


É tão absurda a resposta do general Hamilton Mourão sobre a nomeação de seu filho para um cargo no Banco do Brasil, que na primeira olhada pode-se pensar em alguma piada de adversários, nesses memes com ataques políticos compartilhados nas redes sociais. Parece fake news criada para complicar o governo de Jair Bolsonaro, mas foi mesmo postada no Twitter por seu vice. Mourão justifica a nomeação com a alegação de que foi por merecimento profissional de seu filho. Para a piada ficar completa, ele afirma o seguinte: “Em governos anteriores, honestidade e competência não eram valorizados”.

Como se a conseqüência política pudesse ser amenizada por uma suposta capacitação profissional do nomeado, que aliás não vem sendo contestada em lugar algum. Nem é citada. A questão é outra e de conseqüência muito grave. É provável que os longos anos de caserna, quando esteve protegido por uma forte couraça corporativista e longe dos olhos da opinião pública, tenha forjado no general uma personalidade insensível ao estrago que certos gestos podem infligir a um governo, tanto no respeito e confiança junto à população quanto nas relações com as instituições e os políticos. Daí sua dificuldade de entender a dimensão do problema da nomeação do filho que tanto admira.

Nunca se viu algo assim, em governo nenhum desde a redemocratização, até pelo fato de termos à nossa frente a dificuldade extra — até previsível quando foi montada uma chapa com dois militares — de uma confrontação de poder em que o dono da caneta (ainda que seja apenas uma esferográfica) é de patente menor. A questão da nomeação adquire uma dimensão ainda maior como o apoio público de Mourão. É óbvio que a manutenção do filho dele no cargo acaba com a imagem que criou o fenômeno Bolsonaro. Vai demolir a credibilidade do governo na articulação com os políticos, anulará a respeitablilidade junto à população e contribuirá para desmobilizar o apoio espontâneo nas ruas e nas redes sociais. E evidentemente deixará os petistas gargalhando de satisfação.

Como foi que o governo conseguiu montar uma questão tão destrutiva? Caso o presidente Bolsonaro não interfira prevalecerá a impressão de que afinou pela diferença de patente e de uma provável influência de Mourão junto aos militares. O conflito de autoridade é muito forte. O poder do presidente não chegará a mudar de mão, mas um naco razoável ficará com o vice. E caso Bolsonaro encare o problema, anulando a nomeação, abrirá uma divergência pessoal muito séria com seu próprio parceiro de chapa. A resposta para tudo isso dependerá do desenrolar do processo que já está em andamento, mas já é possível dizer que nem uma oposição altamente qualificada conseguiria criar uma encrenca tão séria.
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POR José Pires

Vem aí a TV do Bolsonaro

Os bolsonaristas que assumem como missão a defesa do governo que se preparem para responder por mais um recuo do presidente Jair Bolsonaro. A Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, mais conhecida como "TV do Lula", não será extinta. Seu fechamento era uma proposta importante da campanha de Bolsonaro. Quem defendeu a candidatura dele sabe muito bem disso, pois deve ter compartilhado muito material bolsonarista lascando o sarrafo nos gastos com a "TV do Lula". A EBC tem 2025 funcionários e custa R$ 680 milhões de reais anuais aos contribuintes.

A informação de que ela não será mais extinta é do ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz. Em entrevista ao jornal O Globo, o ministro disse que vão "racionalizar a empresa e otimizar seu orçamento", destacando que será feito "respeitando os direitos dos funcionários que trabalham lá". Pois é, pelo jeito a questão não era com os altos custos nem a falta de necessidade de uma emissora estatal. O problema é que era a "TV do Lula". Se for "TV do Bolsonaro" está tudo bem.
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POR José Pires

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Nomeação do filho do general Mourão: o erro crasso do governo Bolsonaro

Nunca teve um governo em seu início com tantos acontecimentos contrários a sua proposta essencial de campanha, que era a de moralizar o Governo Federal. Nesta terça-feira surgiu outro caso de locupletação, com o general Hamilton Mourão encaixando um filho em uma boca boa no Banco do Brasil. Antonio Hamilton Rossell Mourão, filho do vice de Bolsonaro, foi promovido a assessor especial do novo presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes. A notícia é do site O Antagonista.

O cargo anterior do filho de Mourão no banco era de assessor empresarial, com salário de 12 mil reais. Agora ele receberá 36 mil reais por mês. Na nova função ele também entra em um programa do banco, o PAET, que garante um bônus para quem ocupou cargo por dois anos, com um ganho na saída que é de 2 milhões de reais em média.

Esse pessoal parece que não compreendeu muito bem a expectativa dos eleitores de Jair Bolsonaro. Ele foi eleito para mudar o país e não para mudar o país de mãos.
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A extraordinária ascensão do filho do general Hamilton Mourão é o tal do erro sem volta, porque mesmo se for anulada sua promoção para um cargo no Banco do Brasil que fez seu salário saltar de 12 mil reais para 36 mil reais, a decisão não consertará o essencial, que é a quebra do conceito de honestidade. Com o governo Bolsonaro tão cercado de suspeitas — que atingem até o próprio presidente e sua mulher, com a história mal contada do alegado empréstimo ao famoso amigo Queiróz — sobrava o general Mourão como figura inatacável.

A boa reputação do vice de Bolsonaro andava compensando os tantos desacertos deste período inicial de governo e lhe concedia inclusive autoridade para intervir em algumas situações, passando para a opinião pública a sensação da existência ainda de algum senso de ordem e respeito. Agora isso ficou para trás. Se o seu filho continuar no cargo, acabou mesmo de vez o respeito com o governo Bolsonaro. E se voltarem atrás, vai ficar sempre a aparência de que só fizeram isso porque a mamata foi descoberta.
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POR José Pires

Paulo Guedes, Onyx Lorenzoni e seus desmentidos

A revista Crusoé, do pessoal do site O Antagonista, publicou nesses dias a informação de que numa conversa pouco antes do Natal com pessoas ligadas ao mercado financeiro, o ministro Paulo Guedes disse que era a favor de que Onyx Lorenzoni saísse do governo. Segundo a Crusoé, Guedes disse que “se Onyx Lorenzoni não cair em 90 dias, o governo terá muita dificuldade para aprovar projetos da área econômica”. Reparem que é exatamente o número de dias que o próprio Guedes tem para apresentar medidas práticas e aprovadas pelos parlamentares, senão começarão a achar que ele é que tem que sair.

Neste domingo a assessoria de Paulo Guedes mandou um desmentido à revista. Em nota, disseram que é “absolutamente inverídica” a informação de que o ministro da Economia tenha defendido a saída de Onyx Lorenzoni. Sei que Guedes é tido como eficiente em economia, assim como já deu para notar que diplomacia não é seu forte. Ele tem fama de ter o pavio curto. Pelo que já foi confirmado em público, dá para imaginar as explosões nos bastidores. Não é improvável que ele tenha dito isso. É menos improvável ainda que ele não saiba do risco que corre com este articulador político.

Não discordo das desconfianças de Guedes sobre a qualificação de Onyx Lorenzoni e quanto a habilidade do colega ele deve saber muito mais do que eu, pelo que deve ter colhido em conversações pessoais com políticos que conhecem de perto Lorenzoni, deputado que em vários mandatos foi sempre uma figura apagada no plano nacional.

Existem desmentidos que contribuem mais para reforçar um assunto do que para acabar com um mal entendido. É o caso deste. Na maioria dos casos, o desmentido de um boato é o recurso mais eficiente para torná-lo mais próximo de uma notícia verídica. É um "efeito Tostines" todo entortado, de embrulhar o estômago, como já deve estar sabendo agora o ministro Onyx Lorenzoni, com este tic-tac de 90 dias que soa em sua cabeça mesmo que de fato não tenha sido armado pelo Guedes.
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POR José Pires

Ciro Gomes e um assunto difícil

Ciro Gomes, que andou sumido por uns tempos, devia estar na expectativa do impacto de uma entrevista dada ao jornal El País, na qual cobra responsabilidades do presidente Jair Bolsonaro e faz críticas ao PT, exigindo sensatez do partido do Lula. A entrevista foi publicada nesta segunda-feira na edição brasileira do jornal, mas deu chabu em razão do clima de violência no Ceará. Entre o dia em que Ciro deu a entrevista e sua publicação aconteceram os ataques de bandidos ligados à facções criminosas, que inclusive obrigou o governo estadual a pedir socorro ao ministro Sérgio Moro.


Fica difícil para Ciro apontar o dedo para qualquer político hoje em dia, seja do governo ou da oposição, sem antes se posicionar sobre os acontecimentos violentos em seu estado, onde seu grupo político detém o poder há mais de 30 anos e reelegeu o governador e elegeu dois senadores, entre eles seu irmão.


Claro que antes da publicação da entrevista os jornalistas de El País procuraram o político cearense para que ele falasse sobre a explosão de violência, mas Ciro disse que preferia aguardar alguns dias para poder falar sobre o assunto. É um sinal muito sério do quanto é braba a situação no Ceará: fez até o Ciro Gomes adquirir ponderação.
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POR José Pires