segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Vélez Rodríguez, o ministro patrioteiro que quer fazer a estudantada cantar o hino nacional

Num governo danado para criar complicações desnecessárias é do Ministério da educação que vem uma porção delas. O ministro Ricardo Vélez Rodríguez é um desastre de tal proporção que toda vez que fala com a imprensa a encrenca é certa. Uma entrevista recente, dada para a revista Veja, obrigou a uma retratação quase imediata, pois o ministro — nascido na Colômbia — disse que “o brasileiro viajando é um canibal”.

Para chegar a esta generalização grosseira sobre os habitantes do país pelo qual foi generosamente acolhido, por certo Vélez Rodríguez deve ter se baseado nas histórias de brasileiros mal educados que aprontam no exterior. A generalização idiota permite dizer que se for usado o mesmo raciocínio torto do ministro pode-se chegar também a conclusões igualmente estúpidas sobre quem nasceu na Colômbia.

E uma barbaridade dessas tinha que vir logo do Ministério da Educação, onde com certeza o pessoal deve ter muito o que fazer, não só para consertar o estrago provocado em mais de dez anos de “política educacional” do PT, como para fazer a pasta funcionar ao menos no básico. Sobre esta parte, digamos, mais trivial, os indicativos são de que o trabalho não está andando.

Mas continua aparecendo coisa esquisita na pasta da Educação. Parece que o ministro anda com tempo de sobra para inventar. Nesta segunda-feira o ministério mandou e-mail a todas as escolas do país pedindo que os estudantes sejam perfilados cantando o hino nacional e que filmem as crianças e os vídeos sejam enviados ao governo.

A notícia corre a internet. O Ministério da Educação pede também que seja lida para os estudantes uma carta de Vélez Rodríguez. A carta termina com “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, slogan do governo Bolsonaro, que foi também de sua campanha. Felizmente não pedem palanques, o que descomplicará bastante mais esta tarefa dos professores brasileiros, que o ministro deve achar que andam com espaços vazios na carga horária.

Vélez Rodríguez já está tendo que explicar melhor sua pretensão. “Isso é ilegal, o MEC não tem competência para pedir nada disso às escolas”, já avisou o diretor da Associação Brasileira de Escolas Particulares, Arthur Fonseca Filho. A mensagem do ministério foi enviada também para escolas particulares. Logo a assessoria de imprensa do MEC informou que a carta é apenas uma recomendação.

Ah, não era uma ordem? Que bom, mas o clima criado com essa infeliz ideia tem muito a ver com outro slogan de exaltação patrioteira, de um pouco antes de Vélez Rodríguez chegar ao Brasil, quando na metade da década de 1970 a estudantada era obrigada a cantar o Hino Nacional e se perfilar nos pátios das escolas. O slogan era “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

O ministro talvez não saiba, mas quem foi obrigado quando criança a fazer esse papelão sabe que em vez de aumentar o espírito cívico da molecada, cantar hino serve para chatear, afastando-os desse sentimento. Se Vélez Rodríguez quiser fazer um bem para o Brasil, que cumpra sua obrigação no cargo. O que estimula o espírito cívico é educação de qualidade.
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POR José Pires

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Discurso de ódio e fake news na mira do Youtube: Nando Moura é um dos atingidos

Preparem-se, pois deve vir por aí uma onda de protesto da direita nas redes sociais falando em censura no Youtube. É tudo cascata. Na verdade, o Youtube vem atuando contra uma rede de pedofilia dentro da plataforma e contra vídeos que propagam discurso de ódio e fake news. Quanto a esses últimos, o Youtube resolveu desmonetizá-los — retirou as publicidades, eliminando as receitas que fez muito ativista de direita ganhar bastante dinheiro nos últimos tempos atiçando a militância fanatizada.

Um dos youtubers atingidos nesta limpa de discurso de ódio e fake news foi Nando Moura, uma grande estrela do bolsonarismo, que teve inclusive seu canal recomendado por Jair Bolsonaro durante a campanha. O sujeito é um bárbaro, bem no estilo do que é um youtuber no geral, com aquela desfaçatez para falar com determinação sobre um monte de assuntos sobre os quais não sabe nada, o que Nando faz com uma grosseria incomparável. Ele deve ser o mais chucro youtuber direitista hoje em dia, o que não é nada fácil com essa direita que temos no país.

Nando Moura foi um dos exaltados propagadores da idiotice de dizer que nazismo é de esquerda, uma mentira histórica que se não me engano veio de Olavo de Carvalho, mas com certeza teve no guru da direita um propagador entusiasmado. Nando Moura foi na cola do mestre, não só nesta bobagem perigosa que teve até um desmentido da embaixada da Alemanha muito vergonhoso para os brasileiros.

Recentemente, o youtuber direitista veio com outra grande besteira, afirmando que Stálin ganhou duas vezes o Prêmio Nobel da Paz. É tão absurdo que parece até difamação para diminuir a credibilidade intectual do rapaz, mas de fato ele disse isso. Idiotices desse tipo poderiam ser engraçadas, mas o problema é que a desinformação vai se propagando, o que fez a direita brasileira superar a esquerda em ignorância, montando tropas de idiotas políticos em muito menos tempo que os companheiros do Lula.

Nando Moura já está histérico com a desmonetização de seu canal. Fala em censura, pressão contra a direita, falta de liberdade de expressão, esse lero-lero da direita que também é muito parecido com o que a esquerda faz quando tem seus interesses atingidos. Não há o que reclamar. O pessoal do Youtube está agindo na linha que a direita defende, do bom e velho capitalismo. A plataforma de vídeo está com sérios problemas de credibilidade por causa da proliferação do discurso de ódio e fake news e precisa resolver ela própria este problema, antes que autoridades americanas e de outros países intervenham. Bem ao modo capitalista, seguiram o dinheiro. E cortaram. Não tem mais almoço de graça para celerados no Youtube e sua proliferação de barbaridades.
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POR José Pires


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Imagem- O furibundo youtuber direitista Nando Moura

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Bolsonaro: o mito desmoralizado pelo WhatsApp

As gravações de mensagens de áudio de WhatsApp trocadas entre o ex-ministro Gustavo Bebianno e o presidente Jair Bolsonaro têm um efeito parecido ao das gravações de telefonemas de Lula, liberados pelo então juiz Sérgio Moro na época em que Lula e Dilma Rousseff tentavam encontrar um modo de encaixá-lo em um cargo no governo petista para evitar que fosse preso.

Os diálogos entre Lula e a então presidente da República e outros companheiros, em março de 2016, revelaram uma pessoa mesquinha e grosseira, muito diferente do mito de propaganda que fazia o sucesso de Lula. Com Bolsonaro aconteceu algo parecido. Embora o chamado “mito” não tenha o peso histórico do chefão do PT, Bolsonaro se elegeu com a fama da integridade, da firmeza de propósitos, um político empenhado em atacar os graves problemas públicos brasileiros com rigor e seriedade.

Pois foi pego numa ordinária lavagem de roupa suja, alimentando futricas de uma cama de hospital, enquanto o subordinado que acabou sendo demitido procura colocar panos quentes na crise que o próprio filho do presidente criou e alimentou com um espírito da mais irresponsável molecagem. O diálogo absurdo mostra um presidente da República obcecado com uma questão irrelevante, deixando de lado a responsabilidade do comando de um país ainda atolado em uma crise econômica e moral muito grave. O eleitor brasileiro colocou no comando do país um sujeito que tem cabeça e temperamento de tia do WhatsApp.

Como o papo entre Bebianno e Bolsonaro foi por meio desta revolucionária tecnologia pode-se perguntar se os dois maiorais não tinham louça pra lavar. E todo mundo sabe da pilha de serviço por fazer. Coisas sérias para avaliação e estudo, talvez a Reforma da Previdência, o projeto de Sérgio Moro, assuntos desse tipo. E foi mais ou menos isso que Bebianno tentou dizer na conversa, apontando a irrelevância do tema levantado pelo presidente da República e o filho mimado, no ridículo debate público sobre quem mentiu quanto a existência de uma conversa sem importância. E no final ficou provado que o mentiroso é Bolsonaro. Mentiroso e otário. Hoje em dia não é preciso ser um craque em comunicação digital, como ele acha que é seu filho encrenqueiro, para saber do uso que costuma ser feito de diálogos pelo celular.

Bolsonaro sofreu um golpe forte, de uma forma parecida à repercussão entre a população das conversas privadas de Lula, reveladas pelo ex-juiz federal que hoje é seu ministro da Justiça. O impacto contra um mito pode vir de fatos muito simples como este, de uma conversa atravessada, que desmascara o sujeito que uma grande parcela de brasileiros pensava ser um estadista, revelando que ele não passa de um político tosco obcecado com picuinhas.
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POR José Pires

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Reforma da Previdência: o pior vendedor de um produto essencial

Jair Bolsonaro não é um bom garoto-propaganda da Reforma da Previdência. E não estou dizendo isso por causa de sua personalidade destrambelhada, demonstrada de forma impactante nesse episódio da demissão do ministro Gustavo Bebianno, quando, numa só tacada, demonstrou total falta de lealdade com parceiros e com pessoas motivadas a se articular para resolver problemas de governo. Só não entende o recado quem for muito besta. Quando Bolsonaro estiver metido em encrenca, o político que não tomar cuidado ao dar-lhe a mão pode acabar ficando mais arrasado que o presidente.

O complicador de Bolsonaro no papel do presidente com a proposta de reforma é sua trajetória política como deputado federal. Na Câmara, ele foi sempre contrário a essa questão, do mesmo modo que se posicionou com radicalismo no ataque a tentativas de organização e do controle fiscal por parte do Governo Federal, independente do partido que estivesse no governo. Bolsonaro foi contra até o Plano Real. Militou e votou contra um plano econômico da maior importância, que ficou comprovado ter sido fundamental para evitar que o Brasil caísse num buraco de onde dificilmente se livraria um dia.

No caso da Reforma da Previdência, sua atuação contrária como deputado foi ainda mais extremada, aproveitando para defender privilégios, garantindo votos entre os militares e popularidade entre os milhões de desavisados sobre a imprescindível necessidade da reforma. Mexer na Previdência foi sempre um risco sério de impopularidade e muitos políticos responsáveis e muito mais qualificados que Bolsonaro deixaram de se eleger por não concordar em atuar de forma demagógica numa grave questão econômica.

Bolsonaro atuou de forma espetacular contra a Reforma da Previdência e teve largos benefícios eleitorais, atingindo com essa e outras demagogias insensatas um sucesso inédito na política brasileira, se elegendo presidente da República. Sua trajetória é a melhor propaganda contra a Reforma da Previdência e o pessoal que está hoje na Câmara dos Deputados sabe muito bem disso.
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POR José Pires

— Deixe-me ver se entendi, Holmes. Se o presidente do PSL vai ser investigado por SUPOSTO caixa dois, isso significa que os investigadores irão atrás de supostas evidências, ouvirão supostas testemunhas, colherão supostas provas, para enfim apontar um suposto culpado, certo?

— Supostamente elementar, meu caro Watson!
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POR José Pires

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

El Chapo finalmente enfrenta a lei. Nos Estados Unidos, é claro

O traficante Joaquín Guzmán, conhecido como El Chapo, foi condenado nesta terça-feira pela Justiça dos Estados Unidos. El Chapo era chefe do cartel de Sinaloa e foi tão poderoso no México que não só tinha tratamento privilegiado na prisão como conseguiu fugir duas vezes de presídios de segurança máxima. No México, o relacionamento do crime organizado com a classe política e autoridades é mais ou menos parecido com o que pode ocorrer no Brasil, caso o domínio do crime sobre a vida dos brasileiros não seja interrompido com todo o rigor e seja definitivamente eliminada a interação dos criminosos com a política.

Se não houver uma política de segurança séria, que dê um corte rigoroso ao crescimento do crime organizado, o Brasil caminhará para uma “mexicanização”, com toda violência e crueldade característica dos chefões do narcotráfico do México, que por lá dominam estados inteiros e matam políticos, jornalistas, passando por cima de qualquer um que não baixe a cabeça.

Até a eleição recente de Miguel López Obrador o crime organizado mandava no México. O presidente anterior, Enrique Peña Neto, foi apontado durante o julgamento nos Estados Unidos como recebedor de milionárias propinas do narcotráfico. A relação entre o crime e governantes mexicanos, ao menos até agora, sempre foi em clima de parceria. Por isso, o único medo de chefões como El Chapo era o da extradição para os Estados Unidos, que foi o que ocorreu após sua captura, seis meses depois de uma fuga espetacular do que era tido como o presídio mais seguro do país. Ele escapou em julho de 2015 de uma solitária com câmeras de vigilância, saindo por um túnel de mais de um quilômetro cavado sob chuveiro da cela. Na fuga anterior, em 2001, saiu da prisão escondido em um carrinho da lavanderia.

Nos presídios dos Estados Unidos não existem essas facilidades que parece coisa de cinema de má qualidade. E com a Justiça americana também não tem moleza. É provável que o megatraficante seja condenado à prisão perpétua. El Chapo foi considerado culpado em todas as dez acusações contra ele, como lavagem de dinheiro e distribuição internacional de drogas. Testemunhas também relataram assassinatos e torturas. O terror e a crueldade impostos pelo crime organizado entre os mexicanos é espantosamente desumano. Existem vídeos chocantes sobre isso na internet.

A sentença sairá em 25 de junho, lembrando que o caso de El Chapo não percorreu várias instâncias, nem levou muitos anos até parar em um Supremo frouxo com a criminalidade que conta com altos poderes por detrás. El Chapo foi extraditado em janeiro de 2017 e já teve finalizado seu julgamento. Ficará em regime fechado à espera da sentença, que com certeza será pesada e cumprida na sua integridade, porque com os americanos não é como no Brasil, onde até criminoso da pesada tem progressão de pena e o benefício de dar uma saidinha para visitar a mamãe.
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POR José Pires


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Imagem- Capa da revista mexicana Processo na época em que El Chapo fugiu da prisão

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Homenagem da pesada

A ciclovia Tim Maia, no Rio de Janeiro, desabou pela terceira vez na madrugada desta quinta-feira. O primeiro desabamento foi em janeiro de 2016, logo depois de inaugurada pelo então prefeito Eduardo Paes, causando a morte de duas pessoas.

Construída à beira-mar, há três anos a ciclovia teve mais de 50 metros arrancado depois de ser atingida por ondas. Em fevereiro do ano passado um forte temporal derrubou outro trecho. Agora, novamente o desastre veio de cima. A queda foi causada pelo temporal que atingiu a capital do estado. Ou seja, a obra construída à beira-mar não resiste às ondas e também não pode chover muito.

A desastrosa ciclovia do Rio demonstra muito bem o risco que os nossos administradores públicos são para a população e o perigo sério que é ser homenageado por eles. A memória de Tim Maia que o diga.
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POR José Pires

O Psol de Marielle fazendo o que aponta como defeito nos outros

A filha de Marielle Franco foi nomeada para um gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a notória Alerj. Claro que a moça vai para um gabinete do Psol. Luyara Santos, de 19 anos, foi nomeada pela deputada Renata Souza. Tudo bem, eu sei que o Psol é um partido revolucionário, mas todo o enredo é praticamente o mesmo que se vê na política tradicional.

Renata Souza e Marielle Franco se conheceram durante a campanha de Marcelo Freixo, o líder do Psol, para deputado estadual em 2006 e foram colegas no gabinete de Freixo. Quando Marielle se elegeu vereadora, Renata foi ser sua chefe de gabinete. E agora, como deputada, Renata emprega a filha de Marielle.

Sim, eu sei que teve o assassinato de Marielle no ano passado, mas não vejo como isso pode legitimar procedimento que nos outros é apontado como anti-ético. Para melhor combater práticas políticas que apelam até para assassinatos, talvez fosse necessário até ser mais exigente, aplicando a integridade na vida pública com mais decoro do que costuma ser cobrado da própria mulher de César.

Mas é como eu disse: o Psol se vende na propaganda como um partido diferente dos outros, mas para mim tudo isso que esse pessoal faz é muito parecido ao que se vê há muito tempo na política brasileira.
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POR José Pires

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Sabrina Bittencourt e o confuso caso de um alegado suicídio

Houve uma comoção com o anúncio do suicídio de Sabrina Bittencourt, ativista que atuou nas denúncias de abuso sexual de João de Deus e que também vinha apontando outros líderes religiosos como abusadores. O alegado suicídio da ativista criou um impacto nas redes sociais quando veio a público no domingo em uma nota da ONG Vítimas Unidas, da qual Sabrina participava. A nota afirmava que ela se suicidara em Barcelona na noite de sábado. A imprensa passou a tratar do caso, porém sem nenhuma confirmação de fato da sua morte. Logo após, um filho de Sabrine desmentiu a versão da ONG, afirmando que a morte de sua mãe ocorrera no Líbano.

A história é confusa e cercada de versões contraditórias, o que acabou contribuindo para suspeitas sobre a veracidade do suicídio. Três dias após o anúncio da morte, até agora não houve nenhuma confirmação oficial. O filho Gabriel Baum, que tem apenas 16 anos e se apresenta em vídeos como “ativista social”, foi quem afirmou que o suicídio foi Líbano. Ele disse ter visto a mãe pela última vez em Paris, antes de ela viajar a Barcelona e finalmente para o Líbano. O que ele anda dizendo sobre o assunto também não faz sentido. Em entrevista para a revista Época, publicada nesta segunda-feira, disse o seguinte, por meio de mensagens trocadas com o repórter: "Nenhuma polícia, governo ou hospital atestará a morte de minha mãe. Não vou dar esse prazer para eles".

Outra afirmação do filho de Sabrine à Época também contribui para tornar confusa uma história que poderia ser resolvida de um modo simples, com a apresentação do atestado de óbito, obrigatório em qualquer país. A declaração de Gabriel parece coisa de panfleto esquerdista: "Minha mãe não é propriedade do Estado. O Itamaraty ou qualquer governo corrupto do mundo jamais terá qualquer informação sobre a minha mãe".

Já foi aberta uma página em memória no Facebook, mas por enquanto os posts seguem a toada usual das redes sociais: sem objetividade e apelando para a emoção. Um dos administradores da página é o filho da ativista, que publicou vários posts, mas até o momento nenhum deles com informações objetivas sobre o alegado suicídio.

A página de Facebook da ONG Vítimas Unidas trata o caso da mesma forma confusa. Maria do Carmo Santos, fundadora da ONG, que informou primeiro sobre o alegado suicídio — dizendo que ocorrera em Barcelona para logo ser corrigida pelo filho da ativista — posta vídeos em que fala de supostos perseguidores, faz lamentações pessoais sobre cansaço e problemas de saúde, mas não vai ao ponto que interessa: a confirmação da morte. A ONG que ela preside é feminista radical e a página de Facebook está envolvida nessas guerras de redes sociais, com discussões centradas em um universo muito fechado, com trocas de acusações e denúncias deterministas demais pelo grau de gravidade na vida das pessoas, sejam vítimas ou quem sofre a denúncia.

Em um texto publicado nas redes sociais, que teria sido o último publicado por Sabrine Bittencourt, ela cria para si própria o perfil de uma heróica combatente pelas vítimas de abuso, fala de perseguições e até aponta nomes de pessoas, fazendo acusações graves. O texto é escrito em tom de despedida, começando com a seguinte afirmação: “Marielle me uno a ti”. Ela também cita de forma crítica a ministra Damares Alves, o que me parece muito esquisito do ponto de vista psicológico. Soa mais como uma pontificação política, seguindo o tom, por sinal, da composição de todo o texto, elaborado de uma forma que parece querer atingir um objetivo político.

Espero francamente que eu esteja certo nas minhas dúvidas. Primeiro porque desejo que Sabrine Bittencourt esteja viva, por ela e pelos que a amam de verdade. Depois, no meu distanciamento pessoal desta confusa história, penso que a situação brasileira anda complicada demais e perigosa de uma forma que nunca se viu antes, de modo que tudo vai se complicar ainda se houve de fato um suicídio, que já vem sendo tratado pela imprensa com um emocionalismo e de forma apressada, sem a devida confirmação dos fatos. Essa imprensa atual, que corre a divulgar apressadamente tudo o que aparece, precisa corrigir com urgência esse comportamento que adere à histeria ao invés de se pautar pelo equilíbrio do profissionalismo.

Na minha visão, paixões políticas e o sensacionalismo da esquerda e da direita que atualmente influencia muito a luta pelos direitos civis e o respeito aos direitos humanos só atrapalham na resolução de problemas graves que envolvem até violência física e o domínio cruel de seres humanos. Tomara que Sabrina reapareça e resolva-se tudo isso apenas como um lamentável mal-entendido.
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POR José Pires

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Lula ao pé da letra

Dentre o chororô fingido dos petistas, tentando criar um fato político desabonador à Justiça Brasileira com o episódio do enterro do irmão do Lula, a melhor apelação foi uma matéria do site Fórum, um que sobrou da máquina petista de comunicação que era azeitada com dinheiro público quando o condenado por corrupção e lavagem de dinheiro estava no poder. Acabaram fazendo o título que se vê na imagem, com a palavra "maudade" escrita errada desse jeito.

Com certeza foram avisados, pois deletaram a página, mas na minha opinião o título devia ter sido mantido assim mesmo. A palavra maldade escrita com "u" dá um tom de autenticidade para a frase. Dessa forma não tem como duvidar: a declaração é mesmo do Lula.
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POR José Pires

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Olavo de Carvalho e sua encrencas oportunistas com o governo Bolsonaro

A imagem vem da página de Olavo de Carvalho no Facebook. Com arte confeccionada por ele, o texto afirma o seguinte: “Se eu fosse guru do regime (sic), os generais cumpririam ordens e não dariam opinião sobre nada”. E eu pergunto como é que alguém que se dedica à filosofia comete um erro desses de interpretação? Os “generais” de que o professor está falando na verdade são militares da reserva e ministros do governo Bolsonaro, um deles foi eleito vice-presidente, de modo que não existe impedimento de que dêem opinião, independente da qualidade do que falam e do assunto tratado. No âmbito do custo e benefício de um governo, cabe a eles e ao presidente fazer o juízo de valor do que vem sendo falado.

Nos últimos dias, Olavo vem desfechando ataques vigorosos a esses generais que fazem parte do núcleo militar de Bolsonaro, centrando especialmente no vice Hamilton Mourão. É um desastre o que o velho professor vem fazendo, no tocante à estabilidade de um governo que se fez a partir de um clima político para o qual ele teve participação essencial em um trabalho de décadas, o que, ao menos em tese, exigiria dele mais equilíbrio e responsabilidade. Ainda mais quando sabe-se da dificuldade que Bolsonaro vem tendo para fazer seu governo engrenar.

O velho inimigo da esquerda manda seus petardos pelo Twitter e o Facebook, das trincheiras do estado americano da Virgínia, onde mora há muitos anos. Numa dessas mensagens, desta terça-feira, escreveu o seguinte: “Se dependermos de tipos como Mourão, em menos de um ano a quadrilha petista estará de volta ao poder, amparada nos serviços secretos da Rússia e da China”. Ele anda muito bravo com Mourão, que vem acenando que o governo não colocará em prática muita coisa da chamada política anti-globalista de Olavo, sendo uma delas a mudança da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém.

O exagero e nível de desrespeito é próprio de Olavo, procurando o mesmo impacto que enquanto atingia a esquerda dava imensa satisfação aos bolsonaristas. O problema é ter essa artilharia olavista como fogo amigo. O professor já escreveu que Mourão tem uma “falsa esperteza de covarde” e colocou em dúvida se o general Augusto Heleno “tem vergonha”. Num texto dessa semana, ele afirmou também que “militar, quando está diante de repórteres ou de figuras do show business, se mija nas calças, de temor reverencial e de prazer”.

Esta é a postura do guru da família Bolsonaro. Imaginem que interessante uma reunião do governo Bolsonaro para tratar desse tipo de assunto. Reunião no Albert Einstein tem a vantagem dos médicos estarem perto se o capitão enfartar. Olavo faz piada com a fama de guru, mas não discorda do seu papel simbólico neste governo. Ele próprio disse em vídeo recente que é “o símbolo do movimento que elegeu o presidente da República”, portanto sabe muito bem as consequências do que vem fazendo. Olavo tem também experiência suficiente para saber que sem o núcleo militar em torno de Bolsonaro seu governo se esfarela de imediato.

O que o professor pretende é mais simples do que influir decisivamente no governo Bolsonaro, que de forma alguma ele conseguiria criando encrencas desse jeito. Na verdade, ele dá os primeiros passos para o desembarque de um projeto político que não foi possível nem começar. Esse movimento de desembarque já vem sendo notado em várias figuras influentes das redes sociais, que durante a onda política que levou Bolsonaro à Presidência da República  tiveram com ele uma relação de ganho mútuo.

Acontece que com o desmonte da imagem de Bolsonaro acabam os benefícios em defender o governo. Ao contrário, perde-se prestígio e até dinheiro, porque para muitas dessas figuras, como certos youtubers, esse desmonte resulta em perda de credibilidade e audiência na internet. Neste bando desesperado para escapar, Olavo é o de maior expressão. Daí sua tentativa de sair dessa como o sujeito corajoso que brigou com os generais, que ele pretende apontar como demolidores de um projeto político.
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POR José Pires

Brumadinho: na raiz do desastre, a ambição de cada vez mais lucros

O jornal O Globo informa nesta terça-feira que a barragem da Vale que se rompeu em Brumadinho usava uma tecnologia que já foi banida em países como o Chile. É uma tecnologia menos segura, conhecida como alteamento a montante, que permite que o dique inicial seja ampliado para cima quando a barragem fica cheia de rejeitos de minério, usando o próprio material descartado — uma lama formada por ferro, sílica e água como fundação.

Especialistas ouvidos pelo jornal disseram que o método costuma ser usado por ser mais barato e ocupar menos espaço. O problema é que a falta de uma base sólida aumenta o risco de romper. Os chilenos substituíram esse modelo pelo convencional, muito mais seguro, depois de um terremoto em 1974 que destruiu todas as barragens de rejeitos das minas de cobre do país.

Pois a proibição deste método de alteamento estava no parecer de um projeto da Assembleia de Minas Gerais que criava novas restrições para barragens. O parecer foi rejeitado em julho do ano passado, conforme informei na sexta-feira (veja post mais abaixo), logo que ocorreu o desastre da barragem de Brumadinho. O único voto favorável foi do relator e presidente da comissão, deputado João Vitor Xavier (PSDB), com votos contrários dos deputados Gil Pereira (PP), Tadeu Martins Leite (MDB) e Thiago Cota (MDB).

Ou seja, a Assembleia mineira servia para atuar contra a segurança da população de Minas Gerais. Hoje o jornal O Globo revelou que o principal lobista que derrubou o projeto que exigia maior rigor no licenciamento de barragens de mineração foi Fernando Coura, presidente do Sindextra, o sindicato de mineração de Minas Gerais. O presidente do Sindextra, informa o colunista Lauro Jardim, teve um contrato de R$ 500 mil em 2013 com Fernando Pimentel, quando o petista e futuro governador de Minas ocupava o Ministério Desenvolvimento, do governo Dilma Rousseff.

Outras notícias sobre o descaso de políticos, autoridades e administradores públicos com a segurança da população vão se encavalando, agora que a barragem já arrebentou. O jornal Valor revelou que atuando como deputado, Leonardo Quintão “retirou da MP que criou a Agência Nacional de Mineração dois dispositivos que aumentariam a fiscalização de barragens de rejeitos, como a de Brumadinho”. Em 2014, Quintão recebeu 1,8 milhão de reais de mineradoras, 42% do total arrecadado por sua campanha. Em 2018 ele não se reelegeu, mas conseguiu uma boquinha de secretário especial do governo de Jair Bolsonaro.

E para fechar o relato, embora existam muitas outras notícias sobre a movimentação dessa máquina política cruel que está sempre articulando em favor da lucratividade mais fácil, agora apareceu a informação de que a mineradora Samarco, da qual a Vale é sócia, nada pagou de um total de 350,7 milhões de reais das multas que lhe foram impostas pelo rompimento da barragem em Mariana, em 2015.

E que ninguém pense que esses monstros se inibirão com o horror que vem sendo este desastre de agora, com Minas Gerais indo dormir para no dia seguinte procurar mais mortos na lama da barragem da Vale. Eles só vão ser contidos se o país se levantar, exigindo maior rigor, com fiscalização e punição contra esta sede de lucro que passa por cima até da vida das pessoas.
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POR José Pires


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Um panorama da natureza da região de Brumadinho, arrasada
pelo rompimento da barragem da Vale

Foto de Vinicius Mendonça, Ibama

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Olavo de Carvalho faz a autocrítica do governo Bolsonaro

Como se já não tivesse problemas de sobra, depois da cirurgia no Hospital Albert Einstein, onde deu entrada neste domingo, o presidente Jair Bolsonaro vai ter muito trabalho para dar uma ordenada nos bastidores políticos de seu governo, com a confusão criada nos últimos dias por Olavo de Carvalho. Mas, espera aí: a função de um guru não seria exatamente o contrário, de dar um equilíbrio ao material com que trabalha? Bem, pode até ser, mas não é assim quando esse guru é Olavo de Carvalho.

Desde a eleição de Bolsonaro que o professor de filosofia vem atacando os problemas deste novo governo bem do jeitão dele, com porretadas verbais no Youtube e espinafrações o tempo todo no Twitter e no Facebook. Cercado de centenas de discípulos fiéis, o professor e filósofo é aquele tipo de aliado muito útil enquanto o negócio é cuidar dos adversários, mas passa a ser um estorvo na hora de colocar algo em funcionamento. Desse modo, Olavo já criou sérios atritos com vários parlamentares e lideranças do PSL, partido do presidente, e também com ministros influentes e até com o próprio vice-presidente, general Hamilton Mourão.

Em vídeos do Youtube, o professor dá de dedo em ministros como Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general da reserva que faz parte do círculo militar altamente influente em torno de Bolsonaro. O presidente foi seu cadete na Academia Militar das Agulhas Negras, nos anos 70. Outro general que recebe pitos agressivos de Olavo é o vice Hamilton Mourão.

O tema usado como base para sua mais recente aparição no Youtube foram as ameaças que o deputado Jean Wyllys afirma estar recebendo. Em relação a isso, Olavo acha que existe uma desproporção na atenção que a mídia tem dado ao deputado do Psol, em detrimento ao que acontece com ele, que, segundo o que diz, sofre muito mais ataques. Ele ainda se queixa de não ter a solidariedade do governo.

Ele relembra até as ameaças que sofria no tempo do Orkut, nenhuma delas documentada porque, como explica, não teve tempo para gravar as mensagens ou fazer seus prints. Tampouco seus alunos o fizeram. Não atenderam aos pedidos do professor, que diz ter feito o pedido muitas vezes em suas aulas.

Olavo é naturalmente hiperbólico. E como todo hiperbólico, também é incrivelmente exagerado em números na sua imensidade argumentativa. Diz que no tempo do Orkut havia “cinco mil pessoas” escrevendo todos dias contra ele. Só no extindo Orkut, ainda segundo suas contas, esse material é de “mais de cem mil páginas”. Mais à frente, aparece outro número no meio de sua fala, quando ele traz o assunto para os dias de hoje, afirmando que atualmente este volume “ultrapassa quinhentas mil páginas”. Sim, isso mesmo: quinhentas mil páginas.

Os conflitos criados por Olavo agora assumem uma dimensão política que atinge o governo Bolsonaro. Para se ter uma ideia da confusão, nas suas últimas intervenções públicas ele ataca as Forças Armadas. Já faz muitos anos que ele vem fazendo esse papel crítico do movimento de 1964. Desde os anos 70 o professor atua nos bastidores, junto ao setor linha-dura do Exército Brasileiro, onde pelo jeito nunca teve respostas à altura de suas expectativas e do esforço de proselitismo feito em palestras para militares da reserva e em contatos pessoais com milicos de pijama.

Em seu último vídeo ele diz o seguinte: “Acuso formalmente as Forças Armadas por omissão de terem aberto o caminho para a conquista do poder pelos comunistas”. Ele diz que os militares: “entregaram o capitão para boi de piranha”, se referindo às denúncias contra um dos filhos de Bolsonaro. A acusação atinge o círculo de militares em torno do presidente, que ele também critica de não serem rigosos com a imprensa. “Você não tem vergonha, Heleno? Você não tem vergonha, Mourão?”, ele pergunta em vídeo postado recentemente. Se referindo aos generais, eles diz o seguinte: “Militar, quando está diante de repórteres ou de figuras do show business, se mija nas calças, de temor reverencial e de prazer”.

É difícil sintetizar o que Olavo vem fazendo no Youtube, onde se adaptou à linguagem fragmentada e histérica que tomou conta do pedaço. Antes de fazer sucesso na internet, o professor já usava bastante a técnica de misturar contextos e recortar a realidade de uma forma que servisse para expor sua opinião. Bem, isso pode funcionar com relativa qualidade no texto escrito, que permite ao autor criar uma base sólida para a compreensão do leitor. Mas em vídeo o resultado tem quase sempre o mesmo efeito artificial e sensacionalista que deu fama à figuras muito idiotas, que ganham bastante dinheiro como “youtubers”.

Parece que Olavo de Carvalho perdeu o ponto onde a sólida construção do filósofo confundiu-se no volúvel sucesso das redes sociais.  E agora é tarde para essa avaliação. O descontrole se entremeou à eleição de um presidente que ele pretensamente julga ser o escolhido para colocar em prática teses que sequer foram colocadas em ordem.  É óbvio que o destino de sua filosofia de youtuber é dele próprio ser descartado como influência de um governo que atualmente ele atrapalha, mesmo tendo sido, sem dúvida, essencial na sua eleição.

Na área do pensamento, o que Olavo vem fazendo ultimamente pode ser polêmico, instigante, talvez até muito divertido, mas na política prática, que é o ponto em que se estabelece o tema central de seu discurso e deveria ser o objetivo de suas preleções, isso cria apenas confusão. É mais do que uma falha técnica que ele não esteja sabendo disso. O erro parece vir de um desajuste psicológico, que espero não ser mais sério do que aparenta o que é visto no Youtube e pode-se ler pelo Twitter e no Facebook.
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POR José Pires

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O retrocesso que arrasa com a natureza e mata gente

Quando acontecem desastres ambientais, como o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, logo aparecem informações trazidas pela imprensa sobre estudos com a avaliação séria dos problemas que deram origem ao desastre e muitas vezes até com as medidas de prevenção que poderiam ter sido tomadas. Vivemos em um país em que se sabe praticamente tudo dos problemas, com diagnósticos e  o tratamento adequado para acabar com o sofrimento ou evitá-lo. O que falta mesmo é aplicar esse conhecimento, que teria de ser pela via política. Mas aí temos sempre os políticos atrapalhando.

No caso do rompimento da barragem da Vale apareceu agora uma informação que revela uma tremenda irresponsabilidade da classe política de Minas Gerais, seus administradores públicos e o conjunto da sociedade que tem poder político no estado.

Em julho do ano passado uma comissão da Assembleia Legislativa mineira rejeitou um parecer que criava novas restrições para barragens, além de determinar mais exigências às empresas. Seria obrigatória uma garantia de recuperação socioambiental. O parecer proibia também a construção de barragens onde há comunidades e novas licenças de alteamentos, quando o próprio rejeito é usado na ampliação dos empreendimentos.

O único voto a favor do parecer foi do deputado João Vitor Xavier (PSDB), relator e presidente da comissão. Ele foi rejeitado pelos deputados Gil Pereira (PP), Tadeu Martins Leite (MDB) e Thiago Cota (MDB). É até triste assistir a um vídeo postado no início da noite desta sexta-feira, no qual o relator do parecer faz uma impressionante previsão do desastre de hoje em Brumadinho. O deputado Xavier diz o seguinte: “Não estou dizendo que poderemos ter novas rupturas. Por tudo o que vi, eu não tenho dúvidas de que teremos rupturas de novas barragens no Estado de Minas Gerais, porque o modelo que utilizamos é obsoleto, é ultrapassado”.

Fiz uma rápida pesquisa para saber mais sobre o assunto e posto uma matéria do site G1 que resume bem a atitude irresponsável da Assembléia mineira. O parecer seria encaixado em um projeto criado pela Comissão Extraordinária das Barragens, formada após o desastre de Mariana em novembro de 2015, em que 19 pessoas morreram e várias comunidades foram destruídas pela lama da barragem da mineradora Samarco, de propriedade também da Vale. A verdade é que os políticos de Minas atuaram para desmotivar a movimentação social que poderia ter ido além até desse parecer, impondo rigor sobre as barragens e ampliando a força e o empenho da população para exigir mais segurança e respeito ao meio ambiente.

Seres humanos poderiam ter sido poupados de uma morte horrível. Não haveria a destruição do meio ambiente e o fim de comunidades inteiras. Mas infelizmente, como sempre houve a ação política do retrocesso, com o desmonte de regras e leis e o desestímulo para que a população não tome em suas mãos a defesa do bem comum.
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POR José Pires


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A materia do site G1

A vida pregressa em vídeos que pesam no currículo

Hoje em dia, no Brasil, para montar um governo é preciso verificar nos currículos o histórico de vídeos produzidos pela figura que vai ser nomeada. Claro que o método não faz sentido em um governo cujo presidente se elegeu exatamente em função dos vídeos mais estúpidos que já se viu na política brasileira, mas, enfim, estou falando da montagem de uma administração dentro de padrões de normalidade, se é que um dia isso ainda será possível neste país.

Ontem, em meio ao alvoroço virtual de uma polêmica sobre o que o presidente Jair Bolsonaro quis ou não dizer em uma curta frase no Twitter, apareceu mais uma encrenca da ministra Damares Alves, desta vez com efeito internacional bastante grave, com um problema provocado por mais um vídeo de pregação em sua igreja. É óbvio que a tendência é de que apareçam outras falas absurdas dessa ministra. Damares funcionava como uma ativista política em suas pregações pretensamente religiosas e a verdade é que na campanha Bolsonaro se beneficiou bastante com o que ela produzia de barbaridades.

O chamado “kit-gay”, por exemplo, como toda a polêmica criada com a educação sexual nas escolas, teve em Damares uma protagonista importante, manipulando informações e passando dados totalmente falsos. Com ela, atuava também seu chefe, o senador Magno Malta, já  concluindo o mandato com o qual foi imensamente útil ao projeto de poder de Bolsonaro, para depois ser repelido pelo presidente. Eles são todos parte de um enredo fraudulento. Ora, que país é esse onde o presidente da República ganha a eleição enfiando o dedo de forma obscena no orifício da página de um livro de educação sexual e fazendo disso o centro do debate em um país metido na sua pior crise econômica e moral?

O novo quiproquó da ministra dos Direitos Humanos é um vídeo onde ela diz que pais holandeses são instruídos a “massagear sexualmente suas crianças”. Vamos à sua fala: “Inclusive na Holanda, os especialistas ensinam que o menino deve ser masturbado com sete meses de idade para que, ao chegar na fase adulta, possa ser um homem saudável sexualmente, e a menina deve ter a vagina manipulada desde cedo para que ela tenha prazer na fase adulta”.

Nós brasileiros não nos impressionamos com essas coisas, por causa do desmonte político e cultural que faz de uma fala dessas praticamente uma normalidade. Mas o vídeo causou indignação entre os usuários do Twitter holandês. A imprensa holandesa também repercutiu o caso e não é improvável que venha da Holanda um pedido de explicação oficial desse governo que provoca vergonha alheia internacional. Afinal, embora seja uma idiotice completa, a fala é de uma ministra de Estado.

Numa matéria do site UOL, sente-se o reforço da sensação de que estamos convivendo no Brasil com uma realidade política que não faz sentido, perdendo tempo em discussões sobre assuntos completamente idiotas. O site ouviu uma jornalista holandês, Sandra Korstjens, que disse o seguinte: “Muitas pessoas acham difícil acreditar que ela realmente falou isso, porque é tão absurdo”. E a jornalista tem toda razão. É realmente inacreditável que estejamos vivendo algo como esse governo Bolsonaro. No Brasil atual parece que acordamos todos os dias em um pesadelo. E o mais constrangedor é que essa foi a vontade da maioria dos eleitores. Pior ainda, a outra opção eleitoral poderia ter deixado o país numa situação ainda pior.
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POR José Pires

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O anunciado adeus do deputado Jean Wyllys

Em meio ao alarido geral, aparece agora Jean Wyllys dizendo que vai renunciar ao novo mandato de deputado federal. No anúncio feito em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, ele afirma que está desistindo de seu terceiro mandato e sairá do país. O político do Psol disse que tomou a decisão por causa de ameaças, porém não foi claro sobre o real conteúdo dessas ameaças. Não trouxe nenhuma denúncia objetiva, alegando apenas que o clima criado com a eleição de Jair Bolsonaro afeta sua segurança pessoal.

Com a notícia, o deputado conseguiu ganhar espaço na imprensa, mas se ele tinha esperança de criar uma comoção política, parece que o artifício não deu certo. Não houve nada parecido a um “Fica, Jean Wyllys!”. Inexiste qualquer movimentação pedindo que ele reconsidere a decisão. Ao contrário, as pessoas vêm prestando sua solidariedade e dando um tchau ao renunciante.

Não me espantaria se isso for mais uma de suas pataquadas. Jean Wyllys é um fazedor de cenas, desde o tempo em que foi vitorioso numa edição desse programa lamentável que é o BBB, da Rede Globo. Na política ele continuou atuando de forma farsesca. Ele saiu do programa, mas o BBB não saiu dele. Na política fez fama infelizmente se aproveitando de temas essenciais para a democracia brasileira e prejudicando a luta pelos direitos civis. A verdade é que sua carreira política não deu certo. Ele não conquistou representatividade entre as minorias, no eleitorado feminino e no meio cultural de esquerda, entre os quais supostamente ele teria grande força política.

Sua votação para deputado federal no Rio de Janeiro foi muito pequena, demonstrando que faltou-lhe capacidade de fazer da sua enorme projeção nacional um reforço importante em pautas que costumam ficar de fora da política tradicional. Ele teve apenas 24.295 votos e não teria sido eleito se não fosse o alto quociente eleitoral do Psol, garantido por Marcelo Freixo, com seus 342.491 votos que deu-lhe o segundo lugar no estado, pouca coisa abaixo do deputado Hélio Negão, apadrinhado por Jair Bolsonaro. E em matéria de violência, Freixo tem mais do que se queixar do que Wyllys. Desde que presidiu a CPI das Milícias em 2008, ele vem sendo obrigado a viver protegido por um forte esquema de segurança.

No anúncio da renúncia política, Jean Wyllys voltou a acusar Jair Bolsonaro e seus filhos, citando inclusive as suspeitas de relações da família Bolsonaro com chefes de milícias paramilitares no Rio. “Me apavora saber que o filho do presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário”, ele disse. Ocorre que esta rivalidade não é unilateral. Não foi alimentada apenas por Bolsonaro e nem era só ele que lucrava com os insultos mútuos. Da sua primeira eleição — com apenas 13.018 votos, quando foi eleito da mesma forma pelo quociente do partido — Wyllys saltou para 144.770 em 2014.

O problema para ele foi que seu eleitorado minguou nos últimos quatro anos, quando a estratégia do confronto acabou favorecendo Bolsonaro e seus filhos. Com inabilidade política e total falta de bom senso, Wyllys foi um dos parlamentares otários da esquerda que serviram de alavanca para o extraordinário crescimento da direita no país. Não se pode deixar de ser solidário com ninguém quanto à ameaças de violência, mas para o bem dos direitos individuais e a qualidade da democracia, Jean Wyllys já vai tarde da política.
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POR José Pires


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O deputado aplaude Dilma Rousseff, em audiência com a presidente apenas quatro meses
antes dela sofrer o impeachment, em agosto de 2016

Foto de Lula Marques, Agência PT