sábado, 23 de março de 2019

Bolsonaro faz da Educação um ministério bichado

Com o Ministério da Educação em permanente crise e com uma série de programas do ensino básico travados, o ministro Ricardo Vélez Rodríguez foi desautorizado a nomear integrantes de sua equipe. A notícia é do Estadão. A ordem foi do presidente Jair Bolsonaro, que já havia vetado dois nomes para a secretaria executiva, depois de divulgados pelo ministro. A determinação é inédita: um ministro proibido de nomear seu braço-direito.

A nova secretária-executiva anunciada pelo ministro na semana passada, professora Iolene Lima, foi demitida nesta sexta-feira. A situação está cada vez mais patética. Se restar alguma dignidade a Vélez Rodríguez ele pede demissão nesta segunda-feira. O gesto viria atrasado, claro, mas nunca é tarde para tomar vergonha na cara.

Por outro lado, temos este presidente da República incapaz de definir ações executivas e deixar clara a função do ministro de uma das pastas mais importantes da atualidade. Bolsonaro é um desastre como administrador. Escolhe mal e não sabe o que fazer quando seu subordinado não rende o que ele deseja. Será que é tão difícil assim compreender que alguém na condição de Vélez Rodríguez, desrespeitado e sem a mínima delegação de poder, não tem possibilidade alguma de fazer qualquer coisa que preste no cargo?

Pelo jeito, Bolsonaro tem dificuldade até para um raciocínio tão simples. E duvido também que ele consiga compreender como essas suas atitudes estabelecem sérias dificuldades de renovação de qualidade em seu governo. Qual o doido que vai aceitar ser ministro da Educação depois da humilhação sofrida por Vélez Rodríguez? Esta deve ser uma aposta quente nesses dias em Brasília.

Bolsonaro conseguiu impor a si mesmo um estrago que nem o mais encardido oposicionista imaginaria ser possível. Um ministério essencial para o sucesso de seu governo foi transformado em um terreno indesejável, onde nenhum profissional de qualidade vai querer entrar.
.........................
POR José Pires

sexta-feira, 22 de março de 2019

Bolsonaro: errando no governo com o que deu certo em campanha

O governo de Jair Bolsonaro vem sendo vítima de consequências típicas de quem vence uma eleição de forma extraordinária. Na avaliação da sua vitória parece que deixaram de lado casualidades determinantes durante a campanha, a começar das facadas de Adélio. O atentado fortaleceu o mito e ainda criou uma justificativa para Bolsonaro se retirar de cena, evitando mostrar-se integralmente dessa forma que os brasileiros só estão vendo agora: uma figura que causa vergonha alheia até em quem já foi seu fã.

Imaginem este sujeito sem noção que aí está, sendo obrigado a se expor dando entrevistas e tendo que participar de debates. Mesmo amparado na respeitabilidade do cargo de presidente, Bolsonaro perdeu rápido a confiança de uma parcela enorme de brasileiros. Também não consegue se impor como líder, em grande parte porque tem uma dificuldade enorme de se expressar até em questões muito simples. E ao contrário do que se pensava, falta-lhe carisma e capacidade de cria empatia.

Outro erro de avaliação grave foi o de achar que sua vitória se deveu a uma genial ação de comunicação digital. E não foi bem assim. No segundo turno sua comunicação não teve que encarar nenhuma grande dificuldade. Enfrentaram um adversário obrigado a atuar na defensiva e que não teve capacidade de ganhar aliados nem no desfecho da eleição. Por isso, seguiram do mesmo modo do primeiro turno, na linha bolsonarista de desinformação e ataques violentos.

Mas acabou ficando o mito de que ganharam pela capacidade de comunicação, uma fama que está criando sérios problemas agora, na hora de governar. Essa ilusão da campanha fez muita gente acreditar que Carlos Bolsonaro é um bamba no negócio. E não é fácil desfazer o equívoco. Foi ele que sempre cuidou  da comunicação digital do pai, cuja eleição acabou referendando seu talento pra coisa. Como as casualidades estão sempre fora da análise da vitória, Carlos acabou sendo superestimado e ganhou uma influência no governo que está muito além, mas bem acima mesmo, da sua real capacidade política e profissional.

O que vem sendo feito em comunicação é tão errado que nem há o que consertar. Seria preciso jogar tudo fora e fazer algo totalmente diferente. E isso também não será fácil de conduzir, pois a comunicação comandada pelo assim chamado Carluxo cumpriu pelo menos uma de suas metas, concluindo a tarefa de criar um perfil político para a militância governista. É uma militância agressiva, que busca se impor não pelo debate e o convencimento, mas com desdém pelo que o outro diz, com agressão e o ataque cerrado a qualquer um que ouse fazer o mínimo reparo ao que acontece no governo.

Essa militância cabeça-dura já causou muito estrago nesses quase três meses de governo. Afastam inclusive simpatizantes, criando uma profunda rejeição entre a imprensa e causando encrenca até com o Judiciário. O descontentamento atinge até a base aliada do governo no Congresso Nacional, com o afastamento de deputados que já estavam prontos a aderir ao governo, para isso bastando que houvesse articulação política. Foi seguindo o modelo da campanha que as falanges digitais passaram a mirar raivosamente parlamentares, jornalistas e quem mais estivesse pela frente. É o que o Carluxo sabe fazer. E só poderia ter dado certo se o governo do pai dele contasse com tantas casualidades favoráveis como aconteceram para que ele se elegesse.
.........................
POR José Pires
___________________

Imagem- Uma peça antiga do portfólio de Carluxo, o genial comunicador

Temer na cadeia e os tradicionais pretextos para evitar a prisão de maiorais

É curioso como sempre aparece a alegação do risco de um grande transtorno político ou social quando a polícia prende um salafrário com grande poder. Agora, com a Lava jato mandando pra cadeia o ex-presidente Michel Temer, estão falando em dificuldades na arrumação necessária do país, que tem na reforma da Previdência um passo decisivo. Porém, se não tivesse essa reforma arranjariam outros assuntos. Sempre foi assim para defender um maioral pego pela polícia.

Um exemplo marcante dessa antiga tentativa de ludibriar a lei vem do ministro Marco Aurélio de Mello, em uma fala significativa, quando há pouco mais de um ano Lula estava para sofrer a condenação pela qual seria preso. O ministro afirmou então que não acreditava que o chefão do PT seria preso antes do recurso da defesa percorrer todo aquele caminho interminável, até chegar aos tribunais superiores. “A prisão do presidente Lula preocuparia a todos em termos de paz social”, disse Marco Aurélio.

O ministro aproveitava uma estratégia antiga com a qual durante muito tempo o PT se prevaleceu politicamente, com a criação de um clima de intimidação apoiado num suposto apoio das massas ao PT, sempre pronto para ser acionado em caso de ameaça ou mesmo brotar de um modo instantâneo, em revolta contra os inimigos do partido do Lula. Enquanto não houve quem peitasse esse mito, os petistas pintaram e bordaram, ganhando eleições com caixa dois, montando cenários para se beneficiarem e atacando de todas as formas quem ousasse contrariá-los. Esse mito de propaganda com a intimidação de uma possível revolta popular sempre foi uma excelente defesa para não serem forçados ao respeito da lei.

A Operação Lava Jato não aceitou baixar a cabeça à intimidação. Mostrou que o PT apoiava-se numa bravata para afrontar o país, dominar as instituições e manter na impunidade sua cúpula de ladrões. Na verdade, não era “a todos” que afetava a prisão do Lula. A preocupação vinha de um círculo restrito, composto por uma elite política de uma ganância sem tamanho. O que não queriam é ver as leis sendo aplicadas com o devido rigor. Ligado até por laços de família a esta elite (foi nomeado pelo primo Collor), Marco Aurélio é uma das figuras tradicionais que sempre mantiveram o Judiciário a serviço de interesses particulares, de gente endinheirada e de poder pessoal arrancado de forma abusiva do Estado, se empenhando inclusive em criar conceitos para que este domínio.

Não era por respeito à origem popular do poder conquistado por Lula que Marco Aurélio procurava protegê-lo. Tampouco era em respeito a valores sociais progressistas, no contexto da imagem do líder dedicado aos mais pobres. A defesa de Lula por Marco Aurélio é uma dessas ironias da política brasileira, no cinismo da alegação de um oligarca que apela para o risco da revolta das massas insatisfeitas com a prisão de seu líder. Mas na verdade, por meio dessa enganação o objetivo é manter a impunidade de toda uma casta de salafrários que saqueia os cofres públicos há várias décadas.

O próprio Lula teve uma interferência pessoal nessa tradicional imposição de um seleto clube da impunidade, quando disse que José Sarney “não podia ser tratado como se fosse uma pessoa comum”. Atualmente um criminoso condenado, Lula falou como presidente da República em junho de 2009. Sarney era acusado de graves irregularidades como presidente do Senado. São inúmeras as histórias como esta ou a do ministro Marco Aurélio. Esse pessoal está sempre procurando estabelecer conceitos que justifiquem a impunidade. É o que ocorre agora nesta prisão de Temer.

Pela lógica torta de suas conversas é evidente que jamais haveria a oportunidade da prisão de um maioral, já que sempre é possível a alegação de uma provável complicação sobre algo que estiver em andamento. E exatamente desse jeito eles procuram estabelecer a impunidade, facilitando a atividade de saquear os cofres públicos.

Faça uma projeção do tanto de coisas que esse governo precisa fazer, além das tarefas do Judiciário e do Legislativo, sem falar na trabalheira geral do resto do país. Sem dúvida, levaria vários anos para poder encaixar de forma tranquila em uma agenda tão cheia a prisão do Temer ou de qualquer outro salafrário. Por isso não faz sentido esperar uma situação mais normalizada para prender corrupto. Ao contrário: se eles não forem presos logo, esses bons tempos jamais virão.
.........................
POR José Pires

quinta-feira, 21 de março de 2019


Políticos com os nervos à flor da pele

Era muito estranha a irritação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que nesta quarta-feira havia avançado sobre o ministro Sergio Moro com uma fúria que não combinava com seu perfil político, até porque se ele fosse sempre assim não estaria na presidência da Câmara. Maia disse que o projeto anticrime era uma cópia do mesmo tema apresentada no passado pelo ministro Alexandre Moraes, do STF, o que além de não ser verdadeiro não foi apontado por ele quando Moro apresentou seu projeto há alguns dias.

Por sinal, Moro já havia dito que incluiu ideias de Moraes no projeto anticrime. Isso é comum em projeto de lei, como Maia sabe muito bem. Um projeto de lei não está na categoria de obras de literatura. Não é poesia ou romance, sobre os quais se exige originalidade.

Ontem a irritação de Maia foi tanta que ele atropelou de forma lamentável normas de cortesia pessoal e também de respeito entre os Poderes. O presidente da Câmara havia sido criticado por ter adiado a tramitação do projeto de Moro. Na grosseira réplica, ele chamou o ministro da Justiça de “funcionário” de Bolsonaro, talvez sem perceber que com isso ofendia o próprio presidente da República ou então sabendo disso e não se importando com a desqualificação feita ao governo.

Uma fala de Maia: “Eu sou presidente da Câmara, ele [Moro] é ministro funcionário do presidente Bolsonaro. O presidente Bolsonaro é quem tem que dialogar comigo. Ele está confundindo as bolas, ele não é presidente da República, ele não foi eleito para isso. Está ficando uma situação ruim para ele”.

O ministro Sergio Moro respondeu com uma nota sóbria, sem tocar nas graves ofensas do presidente da Câmara. E hoje acordamos com a notícia da prisão do ex-presidente Michel Temer, por ordem de prisão expedida pelo juiz Marcelo Bretas. Outro político preso foi o braço direito de Temer no governo, o ex-ministro Moreira Franco. Ele é sogro de Rodrigo Maia. O presidente da Câmara tinha fortes razões para o mau humor de ontem.
.........................
POR José Pires

quarta-feira, 20 de março de 2019

Lula e o filho Luleco no foco da Polícia Federal

A Polícia Federal indiciou novamente Lula nesta quarta-feira e desta vez foi com um parente próximo. O ex-presidente e o filho Luís Cláudio Lula da Silva, o Luleco, foram indiciados pelos crimes de lavagem de dinheiro e tráfico de influência em pagamentos para empresa de marketing esportivo. O filho de Lula ganhou uma dinheirama com a Touchdown em um setor dos mais difíceis de alcançar lucros, pelo menos no Brasil: o futebol americano.

A vitoriosa carreira de Lulinha na área esportiva começou em uma conversa entre Lula e Emílio Odebrecht, quando o chefão petista pediu que o empreiteiro ajudasse o filho a iniciar a carreira. O dono da Construtora Odebrecht topou na hora dar uma mão ao garoto. A informação foi dada pelo ex-executivo Alexandrino Alencar, que em depoimento de delação premiada relatou o encontro ocorrido em 2011 entre Lula e Emílio Odebrecht, confirmado depois pelo empreiteiro.

Lula costumava dizer que seu filho Fábio Luiz da Silva, o Lulinha, era um “Ronaldinho” dos negócios, pelo tanto que ele faturou com a sociedade da Gamecorp com a Telemar, mas Luleco não fica atrás do prodigioso irmão. Sua empresa é investigada desde 2017 e a PF descobriu que a Touchdown recebeu mais de R$ 10 milhões de patrocinadores. E isso com uma empresa com capital de apenas mil reais.

O garoto é outro craque da família Lula da Silva para ganhar dinheiro. Profissionais do ramo confirmaram sua qualidade extraordinária como empresário em uma atividade esportiva pouco popular entre os brasileiros. Segundo o site G1, em depoimento à PF, representantes da Confederação Brasileira de Futebol Americano disseram que jamais tiveram patrocínio anual e nem investimentos que durassem tantos anos, em valores tão expressivos, e sem formalizar um contrato.
.........................
POR José Pires

Petista Lindbergh Farias é o primeiro a procurar moleza na Justiça Eleitoral

Já começa a debandada para tribunais eleitorais de políticos acusados de corrupção, após o entendimento do STF de que investigação sobre caixa dois é função da Justiça Eleitoral. O ex-senador Lindbergh Farias será o primeiro beneficiado. Nesta segunda-feira a Segunda Turma do Supremo decidiu que um inquérito contra o político petista não vai mais tramitar na Justiça Federal do Rio. A denúncia contra Lindbergh é pesada. Ele é acusado de receber R$ 4,5 milhões da Odebrecht em 2008 e 2010, em troca de contratos durante seu mandato como prefeito de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro.

Logo que houve a decisão do STF sobre a competência da Justiça Eleitoral julgar crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio, o ministro Marco Aurélio já havia dito que isso poderia ocorrer. Só faltou ele gargalhar. Mas como já ressalvei aqui, Marco Aurélio evitou zoar com os brasileiros, no que para mim nem podia ser definido como previsão — com este STF parece que foi mesmo planejado.

Certamente outros acusados de corrupção seguirão atrás de Lindbergh, pois advogados já se movimentam para seus clientes adentrarem a porteira da impunidade escancarada pelo STF. Qual seria a razão de um advogado pleitear o envio do inquérito de seu cliente para outro tribunal? É tão óbvio quem nem preciso responder. A questão deixa claro que a decisão do STF é um estímulo à impunidade.

Independente da polêmica sobre a definição legal dos crimes, foi grave o retrocesso ético. Com o país começando a viver um clima de maior proteção aos cofres públicos — depois do rigor da Operação Lava Jato botar medo em salafrários para que nem pensem em começar a roubar — não tem como não suspeitar que o STF opera a favor dos que querem se manter acima da lei.
.........................
POR José Pires

terça-feira, 19 de março de 2019

Fazendo feio na casa dos outros

O governo Bolsonaro está numa condição política tão pouco inteligente e sem capacidade de discussão crítica que não só leva a um péssimo comportamento como também impede a compreensão de sinais emitidos pela opinião pública, por especialistas e vindos das estruturas de poder, incluindo governos estrangeiros.

E nem vou falar sobre a necessidade da leitura atenta ao que traz a imprensa, porque já faz tempo que este meio vem sendo usado pela máquina bolsonarista meramente como suporte para a justificativa de erros, o ataque a adversários e a criação de espantalhos tão estúpidos que servem como animação dos fanáticos que já estão do lado do governo.

O que dizer do espetáculo burlesco montado na véspera do encontro com o presidente Donald Trump? Bolsonaro comandou um jantar na embaixada brasileira em Washington para o qual convidou Steve Bannon, o porcalhão da campanha de Trump. Os dois tiveram uma desavença séria, com problemas até com a família do presidente.

Só por isso já seria um despropósito, na descortesia de antes de um encontro festejar com alguém com quem o anfitrião não se dá bem. Mas teve mais que isso. Bolsonaro passou a noite com Bannon e outras figuras da ultradireita americana falando mal da China e sabe-se lá de que outros governos. Mas as nações e povos atingidos certamente terão as informações dos mexericos.

Mas o que fazer com um governo tão surdo às mínimas evidências que não tem atenção alguma ao resultado do que vem fazendo? Embalados pela máquina de comunicação subterrânea do bolsonarismo, com suas análises fraudulentas e fakes news, a militância já está acreditando nesta viagem como o advento de uma nova era nas relações do Brasil com os Estados Unidos.

Poderíamos até achar tudo muito engraçado, mas isso não é possível agora nem nunca. Está aí algo sobre o qual absolutamente não se pode achar que “um dia vamos rir de tudo isso”. Pelo custo que o país terá que bancar no futuro, acho melhor dizer um dia tudo isso vai nos fazer chorar muito.
.........................
POR José Pires

As más companhias do governo Bolsonaro

Muitos já escreveram no Brasil sobre os equívocos do governo de Jair Bolsonaro nas relações externas, área de extremo risco porque paga-se em curto prazo o custo de erros, com o prejuízo batendo direto nas contas do país e na sua segurança. Perde-se dinheiro e são atraídos perigos dos quais até agora estivemos livres, mas que aparentemente andam muito próximos. O Brasil já é citado até em carta de terrorista que mata 49 pessoas na Nova Zelândia.

E as más companhias agora são de responsabilidade e de Bolsonaro, sua equipe e sua família. Sem dúvida, nisso o ciclo de governos do PT errou demais, mas não faz sentido bolsonarista ficar justificando dificuldades absurdas de gestão apelando para a comparação com o desastre que o partido do Lula foi para o país .

Nas relações externas o governo Bolsonaro só vem dando bola fora. Uma demonstração do quanto eles estão errados veio de um alerta recebido no Estados Unidos, durante a viagem oficial para o encontro com Donald Trump. O tema foi o vínculo forte com Steve Bannon.  O recado foi para Eduardo Bolsonaro, que atua internacionalmente com a desenvoltura de um chanceler, aproveitando-se da condição de ser filho do presidente da República.

A puxada de orelha não foi de nenhum esquerdista. O aviso em tom muito sério foi de Roger Noriega, influente anticastrista. Ele é embaixador e foi homem forte da diplomacia latino-americana no governo George W. Bush.

Ele disse o seguinte: “Suponho que ele saiba que Bannon entrou em desacordo com a Casa Branca e com a família do presidente. Obviamente ele é um adulto e pode escolher seus amigos. Mas eu acho que seria bom passar mais tempo ampliando seu círculo e encontrando mais aliados, trazendo mais amigos para a causa de uma boa relação bilateral”.

Novamente cabe dizer que isso já foi dito muitas vezes por aqui, em nosso pais, mas é claro que vale a correção feita por alguém de fora com muita experência no ramo, apesar de eu achar que ele também não será ouvido. A relação incondicional e até apaixonada da família Bolsonaro com Bannon é muito parecida com a extrema proximidade de Lula e Dilma Rousseff com Fidel Castro. Já escrevi sobre isso e expus minha suspeita de que existe uma pesada dívida que sempre manteve a esquerda de rabo preso com a ditadura cubana.

Também é de se desconfiar que o grude entre os Bolsonaro e Bannon — que envolve inclusive Olavo de Carvalho — tenha a ver igualmente com coisas que ficaram em haver. Não vou especular montantes sobre tais obrigações, mas com certeza é um compromisso que pode ficar pesado para o Brasil.
.........................
POR José Pires

sábado, 16 de março de 2019

A interminável crise de Vélez Rodríguez no Ministério da Educação

O Ministério da Educação é uma terra desolada, como dizia o bom e velho T. S. Eliot, que também afirmava que abril é o mais cruel dos meses, mas é improvável que o ministro Vélez Rodríguez chegue até lá para conferir se em Brasília a coisa também é assim. Mas nem precisa. Ele passou todo esse primeiro trimestre amargando os dias de uma forma que, pelo que lembro, nunca aconteceu desse jeito com outro ministro na história deste país.

Foi intensa a boataria de que o ministro cairia nesta sexta-feira, logo que se soube que ele estava no Palácio do Planalto com o presidente Jair Bolsonaro. De imediato, o ministro da Casa Civil, Ônyx Lorenzoni, correu para garantir à imprensa que Bolsonaro “vai demitir coisa nenhuma”. “O presidente confia nele”, garantiu. Mas o que sabe Lorenzoni sobre firmeza no cargo?

Mas deveria ao menos saber que é péssima a situação de um ministro quando a informação de que ele está em reunião com o presidente causa um alvoroço na imprensa. É quando despachar com o chefe passa a ter outro sentido. E olha que assunto de trabalho é o que não falta para um tetê-à-tête de Vélez Rodríguez com Bolsonaro. O serviço está empacado desde que ele assumiu o cargo.

O ministro está com dificuldade até para nomear secretário-executivo, cargo que até o momento está em “stand by” — como se diz hoje em dia —, talvez à espera de sinais telepáticos vindos da Virgínia, numa terceira tentativa, agora de um nome que já é bastante refutado desde que apareceu no noticiário.

Mesmo o corriqueiro dentro de um ministério não vem sendo desenvolvido na Educação, onde não se deu andamento nem às avaliações básicas em um novo governo e até a essencial compra de livros didáticos ficou embolada, enquanto Vélez Rodríguez virou um gestor de crises, uma atrás da outra, depois de várias propostas extravagantes, com uma encrenca atrás da outra, além das polêmicas que aparecem toda vez que o ministro resolve falar alguma coisa.

O drama teve seu enredo piorado com a confusão em torno de discípulos de Olavo de Carvalho, o velho professor de filosofia que teve um papel importante na criação do clima político que facilitou a eleição de Bolsonaro. Vélez Rodríguez foi indicado por ele, sendo mais uma vítima da predileção de alguém com a fama de ser capaz de promover a mudança do amor para o ódio com uma velocidade e agressividade surpreendentes. Quem se espanta com o que Olavo vem fazendo em público com Vélez Rodríguez é porque desconhece o que já aconteceu no COF, seu curso de filosofia, com histórias lamentáveis de agressão política e intelectual feitas pelo mestre a seus alunos, sob o pretexto de qualquer divergência.

É claro que este comportamento foi levando ao afastamento das melhores cabeças, formadas sob a influência de Olavo de Carvalho, com uma perda de vigor exatamente na base de sustentação de qualquer filosofia, que é a discussão crítica. Se Sócrates tinha a síntese esclarecedora do “só sei que nada sei”, com Olavo é na base do “só sei que você não sabe nada, sua besta”. Parece piada, mas pode ser considerado como, digamos, um “sistema filosófico” que ele segue estritamente.

Com todo o respeito, mas não resistindo a parafrasear o próprio ministro, o professor da Virgínia é um canibal. Vélez, coitado, sucumbiu a um desarranjo que inclusive serve como demonstração de sua dificuldade intelectual ou mesmo de experiência de vida, porque pela convivência, ainda que distante fisicamente, ele tinha a obrigação de saber dos maus bofes de Olavo.

A permanência de Vélez Rodríguez está em uma condição arrasadora, que é aquela do ministro que é preciso que alguém do governo esteja sempre garantindo que ele está firme no cargo. E é ainda pior quando este aval vem de Ônyx Lorenzoni, que sequer desconfia que a frase garantidora já virou uma piada pronta na política brasileira.
.........................
POR José Pires

sexta-feira, 15 de março de 2019

O STF na contramão da batalha contra a corrupção

Em outros países com democracias sólidas, pelos quais os brasileiros costumam inclusive ter grande respeito e até certa inveja, seus tribunais supremos são um fator de confiança na Justiça, do fortalecimento do sentido cívico da confiabilidade do funcionamento das instituições jurídicas em todas as instâncias, com a garantia assegurada pela integridade e efetividade de que o sistema jurídico funciona sem a interferência dos endinheirados e do uso escuso da política. São países onde o papel do Supremo como esteio do bom andamento da democracia é tão claro que essa qualidade torna-se corriqueira, de modo que pouco se nota esta sustentação da estabilidade.

No Brasil é o contrário. Nosso Supremo Tribunal Federal tem uma função reversa à ordem e ao respeito pela Justiça. Serve mais como um estímulo negativo ao funcionamento de todos os demais Poderes, no geral atuando até para o desmonte de atividades já com um funcionamento relativamente aceitável e às vezes até muito bom, conquistado, aliás, com árduo esforço para superar dificuldades e a interferência de criminosos e de gente que atua como se estivesse acima da lei. Quando se consegue quebrar uma tradição de impunidade dos mais fortes, do pessoal com mais dinheiro e poder político, logo o STF se apresenta para recompor a bandalheira.

No geral, a impressão transmitida pelo nosso STF é de que certos juízes se lançam sobre seus afazeres despreocupados com a Justiça como prioridade, se ocupando mais em desconsertar — e também desconcertar — o que não tem necessidade de reparo, muito menos da parte de uma Casa que, como todos sabem, vive com processos atrasados em décadas. Mas o curioso é que o STF sempre arruma tempo para desarranjar o que vem sendo elaborado com cuidado e muito esforço por quem trabalha de forma honesta e com seriedade. Estão sempre soltando ladrão, trancafiado para permitir que promotores e polícia possam tocar o serviço sem obstruções criminosas. Fazem desmoronar delicados ajustes e complicadas tarefas jurídicas e de investigação, apoiadas em peso pela sociedade.

O esforço do STF é para que a Justiça não sirva como parâmetro de estabilização da vida brasileira, determinando o pleno respeito à lei — garantido por um rigor tão efetivo que imponha hábitos que não exijam a necessidade do uso das penas da lei. Do jeito que está composto, este STF mantém forças negativas e muito ativas que muitas vezes se impõem sobre a banda que não está  podre. Em arranjos subterrâneos e às vezes nem tanto, essas forças se articulam em razão da influência de grupos de salafrários apoiados por bancas milionárias de advogados, cuja existência fica em risco pelo cumprimento da lei e a consolidação de práticas jurídicas e policiais exercidas com seriedade e rigor.

O Brasil pode caminhar para ter uma sociedade onde haja a inibição da má-fé, com a garantia de respeito e justiça para quem acredita na boa vontade para com o outro. No entanto, este STF tem outra crença, outras vontades, daí o fato de sempre puxar a ré quando certas figuras notam que o país está encontrando um caminho de qualidade.
.........................
POR José Pires


segunda-feira, 11 de março de 2019

Bolsonaro, um presidente propagador de fake news

Desde a publicação do vídeo pornográfico no Carnaval, Jair Bolsonaro não vinha criando complicações para seu próprio governo. Dava a impressão de que tinham tomado dele o Twitter, que passou a publicar mensagens sóbrias, com assuntos realmente relativos ao governo. Ele devia até estar orgulhoso, pois deram uma acertadinha inclusive no seu português.

Mas o clima de tranqüilidade já foi quebrado neste domingo. Parece que Bolsonaro conseguiu pegar a senha do Twitter de volta sem nenhum general perceber. A partir de um material sem pé nem cabeça publicado pelo site Terça Livre — um dos mais ensandecidos sites da rede bolsonarista de comunicação —, Bolsonaro atacou a jornalista Constança Rezende, do Estadão, aproveitando para colocar também no bolo o pai da repórter, Chico Otávio, de O Globo. A notícia é visivelmente falsa, com manipulação na gravação de áudio, toda recortada, e tradução errada do diálogo para forçar um clima de conspiração, do jeito que o bolsonarismo gosta.

É totalmente armada a matéria publicada por Jawad Rhalib, que o Terça Livre afirma ser “jornalista francês”. A partir da gravação de uma conversa informal com a jornalista brasileira foi construída uma narrativa delirante de uma conspiração contra o governo Bolsonaro. O Terça Livre deu o toque local de manipulação, fazendo de conta que tinha como base uma fonte estrangeira independente.

O texto de Rhalib procura deliberadamente criar um clima de ameaça por parte da imprensa, mais especificamente do Estadão, na divulgação do relatório do COAF sobre movimentação financeira suspeitas de 1,2 milhões de assessores de assessores do hoje senador e ex-deputado Flávio Bolsonaro, entre eles seu motorista e faz-tudo Fabrício Queiroz.

A jornalista Fernanda Salles, que assina a matéria no site Terça Livre, trabalha para um deputado bolsonarista. Ela ocupa cargo no gabinete do deputado Bruno Engler (PSL), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Ganha R$ 6.543,69 por mês. Até nisso a tropa de Bolsonaro é parecida com os companheiros do PT. Fazem de cargos públicos a base para montar uma máquina de comunicação que pratica a desinformação e ataca adversários, imprensa e qualquer um que contrarie o interesse desse governo. Podem fabricar fake news a partir de uma rede de colaboradores bancados com dinheiro público.

Com métodos assim, até faz sentido que para justificar besteiras e malfeitos desse governo todo bolsonarista use como referência o que os petistas fizeram de pior com o país.
.........................
POR José Pires

Um governo duro de aguentar

É uma tarefa ingrata avaliar o governo de Jair Bolsonaro, pois erros muito primários geralmente não permitem análises aprofundadas. Claro que isso facilita para os bolsonaristas que ainda mantêm-se fiéis à missão de protetores desse sujeito sem noção. Fica tudo no preto e branco, o que desobriga de pensar. Mas o que temos não tem nada de estimulante para quem encara a política com seriedade. Governo muito ruim cria desânimo até para fazer oposição, mesmo porque é de uma insalubridade danada o debate com esta militância crente em qualquer bobagem que venha de cima, neste governismo chucro e deficiente de argumentos.

Bolsonaro é esse tipo que antes da reforma da Previdência sequer ter passado por comissões técnicas do Congresso já foi adiantando o que podia ser negociado para baixo na proposta de seu governo, até mesmo limites de idade. O que se faz com uma capacidade de expressão assim tão asnática? Nem dá para citar Maquiavel, muito menos Aristóteles. Na verdade, no assunto não cabe falar nem no Karnal.

O capitão que virou presidente é também o ativista que posta vídeo pornográfico para mostrar para ao povo brasileiro coisas feias que não devem ser feitas. Sorte nossa que o gajo não é contra a tortura, senão iria passar uns filminhos legais para ilustrar sua indignação. Mas com viagem marcada para um encontro em poucos dias com Donald Trump, sabe-se lá que links quentes que não vai pegar no tête-à-tête com o homem que ele mais admira no mundo.

O nível do grande líder é tão baixo que perto dele mesmo uma figura tosca como o general Mourão foi se agigantando. Com Bolsonaro como referência, Mourão passa até por intelectual, representa o equilíbrio e, dado o temor de que tudo vá à breca, depois de vestir o pijama o general linha-dura virou garantia de segurança até para a democracia.

Agora com os olavistas fora do governo a tendência é de maior perda do vigor do pensamento. Não se sabe como ficará o conteúdo ideológico e intelectual do governo. Kit-gay, terra plana, globalismo, KGB, canibais, pedofilia, Foro de São Paulo, birra com Georges Soros, feminazis, abortistas, birra também com Gramsci, extrema-imprensa, comunas, uma porção de assuntos essenciais na pauta ideológica de Bolsonaro podem ficar de fora do debate, com a discussão ficando restrita ao COF, o cursinho de filosofia que o professor Olavo de Carvalho ministra da distante Virgínia.

O problema é que a mensalidade é cara: 60 paus. E de vez em quando o mestre inconteste ainda pede uma graninha para pagar seus impostos atrasados. Eu, hein? Vou-me embora ser oposição em Pasárgada.
.........................
POR José Pires

quarta-feira, 6 de março de 2019

Jair Bolsonaro, um presidente pornográfico

Não há porque surpreender-se com o que Jair Bolsonaro fez nesta terça-feira, postando no Twitter um vídeo mais que obsceno. É pornografia do mais baixo nível. Este é o cara que foi escolhido como presidente da República na última eleição, no que foi um dos grandes erros políticos cometidos depois da redemocratização do país, após o fim da ditadura de 1964. Releve-se em parte o engano do eleitor brasileiro em razão da má-qualidade do lote de candidatos oferecidos pelos partidos, além de servir também como atenuante a presença do PT, se impondo como referência política que faz muitos preferirem até o capeta.

Que Bolsonaro é um sujeito totalmente sem noção já era comprovável em uma coleção imbatível de provas gravadas em vídeos ou em entrevistas a jornalistas. Ele mesmo fazia questão de mostrar-se do pior modo possível, expondo suas grosserias com um orgulho que fazia desconfiar da sua sanidade mental. A direita fala bastante em esquerdopata. Que tal direitopata?

Sempre ficou muito claro que o capitão que virou político era um desajustado. E para não ficar dúvidas sobre isso, basta conferir avaliações de sua personalidade feitas na caserna por oficiais do Exército nas ocasiões em que ele teve que responder a processos internos por indisciplina e deslealdade.

Entre 1987 e 1988, Bolsonaro foi julgado duas vezes a partir de inquéritos internos, sendo considerado culpado por unanimidade por três oficiais militares. A partir de um recurso, depois ele conseguiu a absolvição no STM. O interessante são as avaliações de sua personalidade feitas nessa época.

Ele é descrito como tendo "desvio grave de personalidade e uma deformação profissional". Anos depois o general Ernesto Geisel teve uma conclusão semelhante: “Bolsonaro é um mau militar”. A afirmação do ex-presidente é de 1993, feita em uma entrevista na qual ele faz pesadas críticas a oficiais de linha-dura, com os quais Bolsonaro era alinhado na caserna. Bolsonaro surgiu na conversa como uma das figuras que perturbavam o velho general para que ele patrocinasse um golpe contra o governo Sarney. Notem que anos depois das trapalhadas que forçaram sua saída do Exército, Bolsonaro não havia mudado nada.

Segundo um oficial superior de Bolsonaro, ele era repelido ao tentar liderar oficiais subalternos “tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos". Esta última avaliação é a descrição perfeita do que é Bolsonaro nos dias de hoje, postando vídeos obscenos no Twitter, quando deveria estar focado no estudo da montoeira de problemas brasileiros que precisam ser enfrentados com urgência.

Como se vê, não faltaram avisos sobre os mau bofes da figura que acabou virando presidente. São alertas que já vem de longe, documentados pelo próprio Exército Brasileiro.

No entanto, a distração dos brasileiros foi  tão grave que nem os militares tiveram a precaução de se distanciarem, tanto no aspecto físico como no aspecto institucional, de um político que além de ser uma vergonha alheia coletiva coloca em risco a imagem do próprio Exército Brasileiro no plano mundial.

Além do constrangimento local, essas barbaridades que Bolsonaro vem fazendo repercutem no exterior, dando aos estrangeiros a pior impressão de um militar como presidente do Brasil, com as características grotescas de um milico de republiqueta de bananas. Uma boa parcela de brasileiros sente imensa vergonha de ter um presidente desses, de modo que deve ser muito pior para um militar. Afinal, é um deles que está fazendo este papel grotesco.
.........................

POR José Pires

terça-feira, 5 de março de 2019

Olavo de Carvalho e Bolsonaro: parceiros na falta de ânimo da direita

Na página de Facebook de Olavo de Carvalho pode ser visto um sinal interessante da dificuldade que a direita vem tendo para o debate produtivo e a troca de ideias. É um silêncio total nas áreas de comentários. Antes era diferente. Existia entusiasmo. Mesmo com as dezenas de comentários em sua maioria convergindo ao entendimento de que Olavo é o gênio da raça, havia algo para aproveitar da conversação debaixo dos posts.

Com número de amigos sempre no limite da contagem de cinco mil e quase 600 mil seguidores, hoje em dia a página do professor da Virgínia tem pouquíssimos comentários embaixo dos posts sempre furibundos. É sempre abaixo de dez comentários, muitas vezes apenas um ou dois, o que é estranho na página de um professor de filosofia que segundo consta tem milhares de alunos e cuja proposta filosófica resultou na eleição de um presidente.

Além disso, Olavo se elevou ao que se pode chamar de “crista da onda”, a partir do sucesso conquistado com a eleição de Jair Bolsonaro e a influência junto ao presidente na nomeação de dois ministro importantes, na Educação e nas Relações Exteriores. A ministra Damares Alves tem também a ver com seu perfil, digamos, intelectual, nos temas de comportamento, como o do chamado “kit-gay”, que teve no professor um importante propagador antes da onda bolsonarista começar a levantar.

Tendo sido um difusor importante dos conceitos que criaram o clima para a eleição deste governo, a página de Olavo deveria ser o centro de uma animada discussão, além da exaltação desse momento que o país vive. Mas não é isso o que acontece. Como se dizia antigamente, o clima é borocoxô. Sei que o professor é de maus bofes e intimda a classe, mas o número baixíssimo de comentários na sua página pode ter também uma relação com a desânimo que se abateu sobre a maioria dos eleitores deste governo.

A verdade é que Bolsonaro não teve capacidade de capitalizar o movimento de massas que o levou ao Palácio do Planalto. O sujeito é totalmente sem noção. Falta também inteligência e capacidade de articulação no padrão político em seu entorno, que tem extrema dificuldade de encaminhar pautas que elevem o espírito dos que depositaram votos e esperança em uma transformação sem precedentes no país. Ao contrário disso, nesse governo todo dia é uma agonia.

Temos aqui o caso interessante de uma frustração popular na mesma medida do excesso de expectativas, que eram falsas, mas isso não importa. Quando isso ocorre, a consequência só pode ser esta que o governo Bolsonaro já vem sentindo, de uma decepção que se não for contida com urgência por medidas animadoras, seguirá a tendência de virar um desprezo que arrasará com sua governabilidade. No poder, o PT levou mais de dez anos para sentir este efeito demolidor. Bolsonaro colheu com mais rapidez esta rejeição, queimando seu filme de forma inédita já nos primeiros dois meses.
.........................
POR José Pires

Governo Bolsonaro: demissão por pensamento próprio no Ministério das Relações Exteriores

Um governo de encrenqueiros não perde a chance de arrumar confusão nem em uma segundona de Carnaval. E o furdunço veio de um lugar já manjado em confusões, o Ministério das Relações Exteriores, regaço olavista que não dá descanso ao governo Bolsonaro. O ministro Ernesto Araújo demitiu o embaixador Paulo Roberto de Almeida do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, órgão vinculado ao Itamaraty.

O diplomata Almeida estava no cargo desde agosto de 2016, nomeado no governo Temer, depois de ter passado “os treze anos e meio do regime lulopetista, do início de 2003 até o impeachment de meados de 2016” totalmente fora de qualquer cargo no Itamaraty, como ele próprio explica nesta segunda-feira em seu blog.

Ora, um ministro demite quem ele quiser. Tem a prerrogativa para isso. A questão é que o diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais foi demitido por uma diferença de pensamento, fora de suas atribuições profissionais. A demissão aconteceu depois de Almeida republicar textos em seu blog, um deles assinado pelo chanceler Ernesto Araújo e os outros dois pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Rubens Ricupero. Que se chame isso do que quiser, mas o espírito é de censura.

No texto linkado no blog do diplomata demitido, o ministro Araújo afirma que FHC e Ricupero não têm conhecimento para opinar sobre os problemas recentes na Venezuela e o papel do governo na crise que chegou à fronteira do nosso país. Vale lembrar que Ricupero tem uma longa experiência como especialista no tema. E calma, pois tem mais. O ministro afirma que o desenrolar do processo político que resultou no descrédito internacional do governo Maduro se deve a ele, Araújo, e ao presidente Bolsonaro.

“A esperança de uma nova Venezuela não existiria sem o novo Brasil”, ele decreta. E ainda nos informa que foram as iniciativas do governo Bolsonaro que levaram os Estados Unidos a acordarem para o problema venezuelano e se colocarem politicamente. “Não foi o Brasil que seguiu os EUA, mas antes o contrário”, afirma sem nenhuma vergonha do absurdo de sua pretensão.

Ele disse ainda que foram venezuelanos que apontaram o papel decisivo do Brasil, levando o governo Trump a tomar vergonha e meter as caras na região. Vejam o trecho: “Segundo me confidenciou pessoalmente uma grande liderança democrática venezuelana, foram as iniciativas do Brasil que mudaram o jogo e mobilizaram os próprios Estados Unidos a romperem a inércia em que se encontravam até o início de janeiro e a virem colocar seu peso político em favor da transição democrática”.

O texto todo vai nessa batida de ativista de DCE. É o estilo intelectual do chanceler do governo Bolsonaro. O ministro escreve panfletos em vez de debater com a serenidade e inteligência que se espera de alguém no cargo que ocupa. Talvez esteja nisso a base de seu problema com o diplomata demitido. Paulo Roberto de Almeida publica seu blog há bastante tempo, onde promove um interessante debate de ideias. Publica bons textos de sua autoria, além da republicação de materiais sobre política internacional e problemas brasileiros. Sigo seu trabalho há muitos anos.

E ninguém pense que o diplomata demitido é um esquerdista. Esta mais para liberal, o que não deixa de ser um problema em um governo cada vez mais fechado em uma bolha de direita, que não aceita nada que seja diferente do que quer ouvir.
.........................
POR José Pires

___________________

Imagem- O ministro Araújo e dois colegas intelectuais do governo Bolsonaro

sexta-feira, 1 de março de 2019


A raiva que se autoalimenta nas redes sociais

Foi aberta a temporada de linchamento nas redes sociais por causa de besteiras escritas contra o ex-presidente Lula, tendo como base a morte de seu neto. É impressionante a ferocidade com que as pessoas caem em cima de alguém que fez uma bobagem, que poderia ser consertada com  um pedido de desculpas ou talvez um processo, mas de forma alguma com a violência que está acontecendo.

Duas vítimas que consegui identificar são mulheres. Concordo que é indecente o que foi publicado por ambas, mas a reação em massa é desproporcional à tolice feita.

Para uma delas planejam manifestações em frente ao salão de beleza de sua propriedade e já lotaram de insultos e ameaças sua página no Facebook e a página da sua empresa. O resultado evidentemente será desastroso, tanto na sua vida pessoal como para seu trabalho.

E o mais lamentável é que tanto furor é consequência dos compartilhamentos feitos pelas próprias pessoas que se dizem revoltadas com os posts impensados que foram apagados de imediato pelas autoras, logo que elas tomaram consciência da bobagem que escreveram.

Ou seja, um post reprovável que provavelmente mereceria apenas uns puxões de orelhas de amigos e familiares acaba tendo uma repercussão nacional provocada exatamente pelo repúdio, que vai num crescendo de violência, criando um clima que nada tem a ver com a compaixão ou o respeito pela morte de uma criança. Na verdade, isso só vai piorar o que já não começou bem.

A desastrosa ciclovia do Rio demonstra muito bem o risco que os nossos administradores públicos são para a população e o perigo sério que é ser homenageado por eles. A memória de Tim Maia que o diga.
.........................
POR José Pires