segunda-feira, 8 de abril de 2019

Muito além do jardim para Jair Bolsonaro

Na semana passada, Jair Bolsonaro veio de novo com mais uma de suas falas constrangedoras, quando procura justificar algo e acaba expondo de forma brutal seu despreparo. Em discurso na inauguração de uma ouvidoria do governo federal, ele disse que “não nasceu para ser presidente” e que o cargo é “só problemas”. Falando sobre o desconforto com as obrigações do cargo, ele veio com essa: “Não me sobe à cabeça o fato de ser presidente. Eu me pergunto, eu olho para Deus e falo: O que eu fiz para merecer isso? É só problema, mas temos como ir em frente, temos como mudar o Brasil”.

A situação desse político atordoado, às voltas com as obrigações de um cargo muito além de sua capacidade lembra bastante a figura de Mr. Chance, personagem de um filme que as novas gerações desconhecem. Todo mundo devia assistir esta obra-prima, mais que pertinente ao que vivemos nos dias de hoje. O filme é “Being there” ou “Muito além do jardim”. O protagonista ficou por conta de Peter Sellers, espantosamente perfeito no papel, como acontece em todos os filmes em que aparece. É uma comédia que exige na construção da personagem central muita capacidade técnica de atuação. Mr. Chance tem que ser convincente, embora tudo o que ele diz e propõe seja próprio de um homem que passou toda a vida isolado da realidade. O desafio resolvido de forma muito hábil pelo grande ator é que embora dizendo os maiores absurdos, o protagonista não pode ser tomado como um idiota qualquer.

O filme é extraído de um livro excelente, de um dos escritores mais singulares que já existiu, o polonês Jerzy Kosinski, que viveu nos Estados Unidos. Foi dirigido por Hal Ashby. O roteiro é também de Kosinski, inteiramente perfeito, especialmente na construção de Mr. Chance, que na obra escrita é de uma síntese primorosa. Editado no Brasil, aqui é atualmente uma raridade. Kosisnki tem outros livros muito bons, impossíveis de serem encontrados neste deserto cultural que virou o Brasil.

Mr. Chance é um homem totalmente ingênuo. Passou toda a vida como jardineiro em uma mansão, onde seu único contato com o mundo era pelo que via na televisão. Viveu isolado desde a infância neste lugar cercado por muros altos, até que seu patrão morre e ele é obrigado a deixar a casa. Depois de ser atropelado por um magnata passa a ter contato com industriais e dirigentes políticos. A partir daí, tudo o que ele diz vai sendo interpretado como declarações geniais e propostas políticas de grande poder de resolução. Acontece que ele apenas repete em outros contextos o que passou a vida assistindo na televisão. E mesmo quando Mr. Chance fica calado por não compreender o que lhe pedem, alguém encontra uma compreensão que se encaixa de forma esclarecedora em seu silêncio. O livro é uma crítica profunda à falta de qualidade da comunicação de massa. Trata também do vazio intelectual da política. É uma visão pioneira, pois o filme é de 1979.

Na política, Bolsonaro é o próprio Mr. Chance, com a ressalva de que, ao contrário desta personagem de ficção, nosso presidente é altamente ambicioso e sem nenhum escrúpulo em se dar bem, aproveitando as chances que aparecem. Outra diferença muito grande é que as facilidades de Bolsonaro como Mr. Chance se esgotaram com sua eleição. Até ser eleito ele podia dizer as maiores barbaridades, sem que houvesse a obrigação de ter que mostrar o funcionamento na prática. O que temos agora, neste desconsolo e no visível apavoramento do presidente é o segundo episódio de Mr. Chance, que é claro que o filme não teve. Porém, a vida real segue implacável.

Do mesmo modo que acontece no filme com Mr. Chance, até a eleição de Bolsonaro, cada declaração estúpida que ele dava — e foram tantas! — era logo interpretada como uma resposta objetiva a determinado problema brasileiro. Claro que houve também um esperto aproveitamento político, mas a verdade é que era de forma natural que Bolsonaro ia encaixando suas grosserias. Desse modo, ele acabou sendo visto como um sério demolidor do politicamente correto, implacável com os bandidos da política e também do crime comum, o homem que iria colocar o país numa era de equilíbrio moral e político. O candidato de uma direita tosca foi amoldado ao sonho conservador do fim do aparelhamento das instituições públicas e do desmascaramento do discurso esquerdista da proteção de minorias, eliminando de uma tacada esta ferramenta perigosa da instituição do comunismo em nosso país.

Claro que o que era atacado com grosserias e propostas simplórias por Bolsonaro tinha solidez real, como o que também ocorria com as questões resolvidas por Mr. Chance apenas com uma frase. Cabe fazer um paralelo entre ambos no prestígio alcançado sem exame algum dos problemas, apenas pelo entusiasmo popular produzido por comentários estúpidos. Porém, as semelhanças terminam quando Bolsonaro é obrigado a enfrentar a obrigação pessoal de demonstrar na prática o funcionamento de sua visão muito simples para a solução de complexos problemas nacionais. É neste segundo episódio do nosso Mr. Chance que estamos há um pouco mais de três meses. E até que não levou tanto tempo assim para os brasileiros perceberem que se enganaram com alguém que foi suficientemente estúpido para não medir as conseqüências de chegar a um cargo executivo de tanta responsabilidade, munido apenas de suas concepções do baixo clero da política.

Como eu disse, não houve um segundo episódio para Mr. Chance — quase escrevia “Mr. Chance real”. Na discussão crítica proposta no filme o protagonista idiota não assume responsabilidade direta por nenhuma de suas opiniões. Não é o caso de Bolsonaro, como os brasileiros assistem com um espanto que se aproxima cada vez mais do horror, até porque não dá para se entregar ao riso, já que nesta comédia grotesca não estamos no papel de platéia. É no palco que o nosso destino permanece ligado ao político colocado quase por acaso na Presidência da República — aí sim, temos o Mr. Chance “real”. O final deste enredo ninguém sabe, mas com certeza nenhum de nós se salva, muito menos os que abriram a possibilidade deste segundo episódio real e avassalador, colocando no poder um homem totalmente inepto para a comprovação de forma prática de tudo que na realidade ele não sabia como fazer.
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POR José Pires


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Imagem- Mr. Chance do filme e o Mr. Chance da nossa realidade, agora
em um terrível segundo episódio

quinta-feira, 4 de abril de 2019

A reforma da Previdência na voz pouco hábil de Paulo Guedes

O ministro Paulo Guedes é o pior defensor de suas próprias ideias. O problema começa pelo fato dele não ter a plena compreensão sobre seu papel político. Guedes é um sujeito de maus bofes, mas de qualquer modo, mesmo alguém de personalidade autoritária pode adquirir consciência sobre a forma de agir para atingir determinados objetivos. Para isso ele teria de ter uma boa assessoria política, sendo até provável que tenha, porém o ministro não parece ser do tipo que ouve críticas e acata as necessárias correções.

Não é pelo atrito e a discussão política de contornos ideológicos que ele poderá ter sucesso no convencimento sobre a importância da sua proposta de reforma da Previdência. O que se espera dele são explicações aprofundadas sobre o que tem em vista com esta reforma, não só do conteúdo específico da proposta como também de seus efeitos e de outras ações econômicas em paralelo, no aproveitamento na economia brasileira dos benefícios de uma nova Previdência e também no suporte à aplicação prática da reforma, caso seja aprovada pelo Congresso.

Guedes deve ter em andamento em seu ministério ações desse tipo — pelo menos é o que se espera dele, que ao contrário do que se vê até agora, não é só o ministro da Previdência, mas da economia como um todo. São estas questões, mais aprofundadas e ampliadas nas ações exigidas em nossa economia, que ele deveria trazer em suas explanações, concentrando esforço mais na qualidade técnica, sem cair nas provocações de tipos como Zeca Dirceu e seus companheiros. Mesmo se tiver razão, na sua posição Guedes não tem como se beneficiar de um debate pontual com políticos adversários de suas teses ou com inimigos inconciliáveis.

Com o debate ideológico, o ministro lança-se no terreno desejado pelos adversários, além de que para isso ele não tem traquejo. Guedes não é bom orador, não atingindo nem qualidade mediana na exposição de ideias e não tem o controle dos nervos. Perde facilmente as estribeiras e acaba atingindo em bloco a classe política quando é puxado por um adversário para uma discussão, que sempre acaba em um mal-estar geral mesmo quando sua opinião é a mais razoável.

Já correm pela internet vários posts produzidos pela máquina subterrânea de comunicação do bolsonarismo, naquela forma tosca de pensar que já é um padrão dessa gente. Em todas essas mensagens de propaganda que fingem ser políticas é o Guedes que leva a melhor, “calando” os adversários, “lacrando” ou dando-se bem, conforme é o estilo desses posts ridículos que a meu ver levam os governistas à crença equivocada de que as coisas estão indo bem.

A proposta de reforma da Previdência deste governo saiu menor desta audiência de Guedes na Câmara, com a revelação de mais defeitos que qualidades, pesando bastante nesta desproporção a atuação do próprio ministro, que é um desastre como comunicador e para lidar com os políticos. No entanto, se ele seguir a onda artificial das redes sociais vai acreditar que tudo está indo às mil maravilhas. Claro que isso deve piorar ainda mais o que já não vai nada bem.
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POR José Pires

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Hitler e outros ditadores de esquerda adorados por Bolsonaro

Essa constatação extraordinária de Jair Bolsonaro de que o Nazismo foi de esquerda cria sérias suspeitas sobre seu fascínio por figuras como o ditador paraguaio Alfredo Stroessner e o ditador chileno Augusto Pinochet, ambos comprovadamente simpatizantes do regime comandado por Adolf Hitler e que submeteram seus países a práticas muito parecidas com o que foi feito pelas tropas nazistas por toda a Europa.

Stroessner esteve no poder durante 35 anos e durante este tempo o Paraguai foi refúgio seguro de líderes nazistas em fuga. Eduard Roschmann, responsável pela morte de 30 mil judeus na Letônia teve a guarida da ditadura paraguaia. E o criminoso nazista Josef Mengele, médico que usava seres humanos como cobaias para experimentos sádicos, também levou uma vida boa sob a proteção de Stroessner.

No Chile, o ditador Pinochet era amigo do alemão Paul Schaefer, médico das Forças Armadas alemãs durante a Segunda Guerra Mundia que migrou para o Chile, onde fundou com outros nazistas nos anos 60 a "Colônia Dignidade". Durante a ditadura chilena o lugar serviu como um centro clandestino de torturas da Dina — o serviço secreto e órgão de repressão política do regime. Durante todo o tempo que manteve a "Colônia Dignidade", Schaefer praticava a pedofilia com crianças da região, para cujos pais ele prometia educação gratuita.

Conforme a lógica torta de Bolsonaro, se Hitler era de esquerda, Stroessner e Pinochet teriam de ser considerados do mesmo modo. Não quero alimentar teorias conspiratórias, mas com esses ídolos comunas, será que Bolsonaro também não é de esquerda?
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POR José Pires

Paulo Guedes, o pior defensor de sua próprias ideias

O site O Antagonista conta que integrantes do Centrão pretendem interrogar com rigor o ministro Paulo Guedes na audiência desta quarta-feira na Comissão de Constituição e Justiça, na Câmara. Deputados do grupo pretendem pedir para Guedes um detalhamento da alegada economia de 1,1 trilhão de reais com a reforma da Previdência.

Com tanta animação por aí com esta reforma — que tem inclusive da parte da imprensa um apoio quase incondicional que prejudica bastante seu papel informativo — mesmo deputados e senadores contam com pouca informação objetiva e aprofundada. Na audiência recente no Senado, houve da parte de Guedes uma carência de informação técnica.

Sempre com um mau humor dos diabos, o ministro da Economia parece um politicão defendendo seu projeto. Algumas vezes faz lembrar o chefe dele. Guedes deveria ser mais técnico, até porque não estava exatamente em um ambiente com figuras que se deixariam seduzir por palavrório político. Nos debates com senadores de perfil mais técnico, ele levou a pior. Nas questões políticas teve que encarar até bate-boca, como o que teve com Katia Abreu. Por sinal, foi uma das poucas vezes em que a senadora estava certa numa àspera discussão.

Para se ter uma ideia do atraso do ministério de Guedes nesta matéria, há quase um mês o senador José Serra protocolou requerimento solicitando ao Ministério da Economia o detalhamento do cálculo sobre esta alegada economia de R$ 1,1 trilhão. Pelo visto, até agora este documento não circula entre os parlamentares. Sem os números, esta previsão nada mais é que lero de propaganda governista.

E mesmo isso não seria serviço para um sujeito mandão e com a carantonha do ministro. Caso não esteja mais bem orientado, na audiência de hoje a situação pode ser muito mais desconfortável para Guedes, já que da parte dos parlamentares da Câmara o embate é muito mais direto do que geralmente é o tratamento no Senado com autoridades convidadas.
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POR José Pires

Flavio Bolsonaro chama o Hamas pra briga

O senador Flavio Bolsonaro escreveu e depois apagou mensagem agressiva sobre o Hamas, após o grupo que controla Faixa de Gaza criticar medidas anunciadas por Jair Bolsonaro em Israel. "Quero que vocês se explodam", escreveu no Twitter o poderoso político que até o ano passado era só mais um deputado estadual do baixo clero do Rio de Janeiro.

Não sei o que é mais espantoso na família Bolsonaro, se é a insanidade ou a forma idiota como eles tratam questões muito sérias. Bem, deve ser as duas coisas. Nesta bravata com o grupo Hamas pode-se contar inclusive com o risco de violência física. No caso, o filho do presidente expõe todos os brasileiros, com muito menos riscos para ele, que conta com certeza com muitos seguranças. Além de senador, o valentão é filho do presidente.

Não é nada engraçado, mas o texto dúbio do senador cria a impressão de que ele quer que os brasileiros "se explodam". Com ele arrumando inimigos desse porte não é difícil que isso aconteça.

E creio que cabe perguntar se é mais idiota um político em sua posição publicar o post ou apagar depois — como se a eliminação amenizasse o insulto ao violento grupo palestino. Uma besteira desse tamanho exige retratação. Do jeito que está, ficou do mesmo tamanho o problema criado por este irresponsável que saiu ao pai.
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POR José Pires

quinta-feira, 28 de março de 2019

Os dissabores de Paulo Guedes no Senado

Não se deixe levar pelo engodo, caso veja por aí manifestações favoráveis a esta reforma da Previdência e elogios ao ministro Paulo Guedes — algo que com certeza ocorrerá bastante, porque apesar de atacada pelo bolsonarismo, a imprensa é favorável quase em bloco a esta reforma. Engodo pode parecer uma palavra muito forte, mas de fato é o que vem ocorrendo em torno dessa proposta de reforma. Tem os que fazem isso com má-fé e os que estão sendo empurrados pelo desespero a apoiar uma suposta tentativa de conter um problema grave que pode explodir futuramente. A questão é que desse jeito o efeito da cobertura jornalística acaba sendo parcial e pouco informativo sobre o que vem acontecendo com esta reforma e sua própria eficiência.

Um acontecimento recente, ainda desta quarta-feira, pode servir para demonstrar o que estou falando. Trata-se da presença do ministro da Economia, Paulo Guedes, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Foi um desastre e já estou vendo muita gente afirmar o contrário, numa tentativa de com isso alavancar mais a reforma. Alguém devia pegar esta audiência e fazer uma edição sintética apenas com falas do ministro. Ficaria exposta a ineficiência de Guedes na defesa de sua própria proposta, o que pessoalmente não me surpreende. Com seu surgimento na campanha de 2018 corri para me informar sobre essa figura e não vi predicados que sustentassem a fama que tentavam criar.

Paulo Guedes é um desses reformadores que caem como se fosse de paraquedas na cena política brasileira, gente sem presença alguma de qualidade na vida pública, mas que chega apontando defeitos em tudo que vinha sendo feito. Da ditadura militar para cá, passando por acontecimentos essenciais na história recente, como a luta por eleições diretas e a Constituinte, este ministro não será encontrado em momento algum. Do mesmo modo, ele é ausente do debate público brasileiro, que teve por décadas a área econômica como grande destaque. Enquanto a sociedade brasileira suava batalhando por tempos melhores, por certo Guedes estava esse tempo todo ganhando dinheiro. É um homem muito rico, E como fez fortuna em um país cuja economia foi pro buraco, francamente não posso acreditar em forças virtuosas movimentando o mercado em favor de seu espírito empreendedor.

A audiência de ontem serve para derrubar uma tese corrente, de que o andamento dessa reforma vai mal por causa do comportamento alucinado do presidente Jair Bolsonaro. Bolsonaro de fato não ajuda, mas a origem do problema é de raiz, como se costuma dizer hoje em dia. Vem do ministério de Guedes, que sofre de incapacidade política — que pode ser perdoável —, mas carece também de eficiência técnica, neste caso um defeito imperdoável de comando em alguém definido até por Bolsonaro como um “Posto Ipiranga”. Pois é bastante deficiente tecnicamente em suas explicações este ministro que propõe que uma população que, em sua maioria e por décadas, vive de pouco mais que o salário mínimo, retire mensalmente uma porção de seu salário para cuidar individualmente de sua aposentadoria.

Guedes é péssimo como orador, fala demais e percorre temas que além de não serem oportunos exigiriam capacidade de expressão que eu já disse que ele não tem. Arrogante e pretensioso, ele pretendeu por várias vezes determinar até como os senadores devem se comportar em seu próprio ambiente de trabalho. Antes da audiência ele devia ter visto alguns vídeos em que outras autoridades tentaram fazer coisa parecida. Teria apreciado o efeito entre os políticos dessa impertinência autoritária. Agora ele já sabe. Mas não acredito que vá se corrigir. Parece ser o modo como ele habitualmente trata seus subordinados. Porém, políticos eleitos têm representatividade. E isso Guedes foi obrigado a compreender, sendo repreendido pelos senadores em seu espírito de neófito na política.

A apreciação da presença de Guedes no Senado poderia se alongar, com lances engraçados e até vergonha alheia por sua incapacidade política que parece até ingenuidade, mas sei que vem da dificuldade de um caráter autoritário para obter experiência sobre o respeito ao pensamento dos outros, ainda que seja em atendimento a formalidades. Como um bom exemplo dos equívocos do ministro, puxo uma intervenção do senador tucano Tasso Jereissati, muito educado como sempre. Nem ele resistiu a fazer uma piada sobre o exagero de Guedes ao posicionar a política econômica do governo de Fernando Henrique Cardoso como “de esquerda”. Jereissati foi no ponto, brincando que, de fato, o economista Gustavo Franco é um comunista muito perigoso. E essa foi apenas uma das inverdades do ministro de Bolsonaro. Teve diversas comparações totalmente inexatas e também manipulações, como a menção à aposentadoria de parlamentares, cujos privilégios já foram corrigidos em lei. Ah, sim: a de funcionários públicos também obedecem a um teto.

A ironia de Guedes sobre aposentadorias no Congresso mereceu uma intervenção da senadora Kátia Abreu, que acabou em discussão. E o duro é que desta vez ela é que estava certa. É um erro primário acreditar que durante uma audiência no Senado alguém pode corrigir o comportamento de um senador, mas não há o que se fazer com o defeito profissional de um sujeito muito rico. Ou por sua índole, talvez. Guedes disse para a senadora — logo a quem — que ela “tem que se disciplinar”. Isso foi uma parte do feio bate-boca, quando além de ser grosseiro com Kátia Abreu (que é fogo na roupa, mas, enfim, ela é senadora e ele o convidado), o ministro ainda piorou a situação dando de dedo na plateia de senadores. Teve então, merecidamente, chamada sua atenção pela presidência da mesa.

Que me perdoem os fãs de Paulo Guedes, pelo menos os que até agora vêm sendo levados pela propaganda exagerada, mas para mim este “Posto Ipiranga” parece mais aqueles lugares encardidos de beira de estrada onde não se deve entrar para nada, muito menos para pedir informação.
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POR José Pires


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Imagem- O ministro Paulo Guedes na CAE do Senado
Foto de Jefferson Rudy, Agência Senado

quarta-feira, 27 de março de 2019

Paulo Guedes, um ministro na própria corda bamba

Em audiência na Comissão de Assuntos do Senado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, deu mais uma demonstração de que seu perfil não é exatamente o ideal para um cargo que, além de conhecimento técnico, exige abertura para o diálogo e capacidade de convencimento, o que na política demanda paciência, consideração pelas necessidades do próximo, respeito ao interesse alheio, enfim tudo que para Guedes parece não ter muita importância.

Aparentando como sempre um mau humor dos diabos, agora talvez por causa da aprovação ontem pela Câmara da chamada “PEC impositiva”, o ministro disse que se a Câmara e o Senado não quiserem suas propostas ele volta para onde sempre esteve. “Eu tenho uma vida fora daqui”, disse aos parlamentares. Vejam só, o “Posto Ipiranga” de Jair Bolsonaro é realmente um diferencial e tanto: não me lembro de um outro ministro que em reunião pública com parlamentares tenha dito que caso não queiram sua proposta ele pega o boné e dá o fora. Ah, sim, ele fez a ressalva de que não sairá na primeira derrota. Bom isso, não?

Guedes é um sujeito estressado, mas isso não é novidade. Logo que seu nome surgiu como sustentação da candidatura de Bolsonaro junto ao mercado, sendo chamado pelo próprio candidato de seu “Posto Ipiranga, vários colegas seus alertaram que ele é de difícil trato, tem personalidade autoritária e um histórico de chutar a mesa com facilidade. Em uma situação de crise extrema, como foco de exigências e também de críticas de parlamentares, alguém com essa personalidade pode estourar no momento errado ou demonstrar falta de boa vontade, o que, aliás, já vem ocorrendo.

“Eu estou aqui para servi-los. Se ninguém quiser o serviço, foi um prazer ter tentado”, foi uma das coisas que ele disse aos senadores, numa reunião preliminar, com a proposta da reforma da Previdência ainda em seus primeiros passos, sem sequer ter passado pela Comissão de Constituição e Justiça, da Câmara. Isso conversa de alguém que se coloca com pouca abertura à confrontação de ideias, ainda no início de um debate, sem ter adentrado o terreno das negociações que obrigatoriamente logo terá de ser percorrido.

Qual será o comportamento de Guedes quando a pressão esquentar de fato? Outro ponto político importante é o risco da reforma ser retalhada e emendada de uma forma que não seja do seu gosto. Ela pode também não ser aprovada, possibilidade que vem sendo mencionada por vários parlamentares e jornalistas que conhecem bem as tendências do Legislativo.

Supondo que não haja a aprovação, no cenário político criado por Guedes a decisão faria a crise econômica se acirrar. Pode ser que de fato a reforma da Previdência não seja aprovada, o que obrigaria à formulação de novas propostas econômicas, impondo ao governo Bolsonaro um caminho diferente do pretendido até aqui. Isso já aconteceu em outros governos, como, por exemplo, no de Fernando Henrique Cardoso. E aconteceu exatamente com uma reforma da Previdência, que por sinal teve o voto contrário do então deputado Bolsonaro.

Bem, quando isso ocorre, numa democracia o que resta a fazer é seguir adiante, procurando consertar o estrago da melhor forma. Talvez esteja aí uma atitude essencial para Guedes. Seria mais efetivo que ele assumisse que não é ministro da reforma da Previdência, mas da economia do país. O que não dá é um ministério de tal importância ter alguém, tão cedo, com a ameaça de que pode ir embora. Desse jeito fica parecendo que Bolsonaro vai ter que aceitar o fechamento de seu Posto Ipiranga.
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POR José Pires

De onde vem tanta angústia, presidente Bolsonaro?

Desde que Jair Bolsonaro assumiu o governo vem me chamando a atenção sua fisionomia sempre muito para baixo. O presidente transparece muita preocupação, angústia, com um peso emocional que pode-se notar na sua face. Vejam nesta foto, tirada nesta terça-feira em reunião do Conselho de Governo, em Brasília. Creio que ninguém vai discordar que não é o semblante de um político vitorioso que alcançou o poder da forma extraordinária que todos acompanharam há poucos meses.

Seu rosto parece o de alguém muito angustiado com algo além dos problemas de rotina, que bem sei que são muitos neste início de governo. No entanto, completou-se agora o primeiro trimestre de governo, tendo muito chão ainda pela frente para que um presidente possa não só consertar o que está errado, como também realizar seus projetos de governo.

A cara de Bolsonaro não revela a confiança, a firmeza e o entusiasmo de um político que ainda tem tanto tempo pela frente para suas realizações e que, enfim, está no cargo de maior importância da República. Em muitas fotos, ele parece um homem derrotado. Esta imagem que peguei como exemplo é apenas uma das tantas em que o presidente apresenta essa mesma cara angustiada, como pude ver em dezenas de outras cenas, nas mais diversas situações, algumas delas de cerimônias festivas, onde ele aparece do mesmo jeito, como alguém que guarda para si um peso que impede que ele relaxe e desfrute do poder que alcançou.

Pode ser que eu esteja errado, mas é este desconforto pessoal que as imagens passam. É tão pesado que não parece ter relação apenas com as preocupações evidentes que qualquer um teria estando à frente de um governo com tantas complicações. Além disso, como já mencionei, essa atitude angustiada é de antes do surgimento de tantos problemas.

Bolsonaro parece viver uma tensão particular, que seu semblante não consegue esconder. De qualquer modo, mesmo que não seja nada disso, é o que parece. É um cuidado que sua equipe de comunicação não está tendo com sua imagem. Essa foto, por exemplo, ainda que muito boa do ponto de vista jornalístico, nem seria divulgada por uma assessoria mais atenta.
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POR José Pires


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Imagem - Foto de Marcos Corrêa, Presidência da República

Um governo que abala a inteligência

Em um artigo no jornal britânico “Financial Times”, o jornalista Jonathan Wheatley disse que os mercados podem não ter se preparado para a extensão da incompetência do presidente eleito. Nem nós, nem nós. Bolsonaro é de fato um fenômeno. Frustrou expectativas boas e surpreendeu quem não acreditava nele. Danou-se quem esperava o condutor do desaparelhamento político da sociedade brasileira, eliminando o esquerdismo da máquina pública e de instituições.

Até aqui, sua incompetência chegou até a assanhar os inimigos da Lava Jato, que estão em contra-ataque maciço à luta contra a corrupção, em parte porque sentiram na falta de firmeza de Bolsonaro a possibilidade de reconquistar espaço para a impunidade.

Bolsonaro também surpreendeu seus críticos. Pelo que eu conhecia de sua incapacidade como político — a não ser para enricar e dar boa vida aos filhos — já esperava que seu governo fosse fraco. Mas confesso que é espantoso um nível tão baixo, com uma equipe incapaz de encaminhar até o que é corriqueiro na administração pública e na política. Cheguei a fazer um cartum sobre o meu espanto com um objeto de crítica que desnorteia a inteligência. Republico aqui.

É evidente que ao falar do despreparo dos mercados para a extensão da incompetência do presidente brasileiro, o jornalista do Financial Times também está sendo irônico. Mas não duvido que logo mais o esquema subterrâneo de comunicação do bolsonarismo comece a alardear a constatação do jornal britânico como uma grande esperteza de Bolsonaro frente aos mercados, mais uma de suas estratégias brilhantes, conforme os bolsonaristas definem toda besteira que aparece neste governo.

Esta é outra característica desta formidável incompetência. Eles montaram uma máquina que está o tempo todo fazendo o elogio dos erros, da cafajestice, aplaudindo aquilo que na verdade se deve a uma lamentável inabilidade do chefe e de sua equipe. Claro que é uma glorificação estúpida. Dessa forma não consertam o que não está certo e ainda fazem do erro um método.
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POR José Pires

Negócios, negócios, política à parte

O entendimento do governo Bolsonaro com o Congresso Nacional se complica até por falas do presidente que vêm a público com certo atraso. A Folha de S. Paulo publica nesta quarta-feira algo dito por ele a empresários que o visitaram. “Não vou jogar dominó com o Lula e o Temer no xadrez”, ele disse, referindo-se às negociações com políticos e seus partidos.

A referência a Temer faz crer que foi um encontro quando o ex-presidente ainda estava preso. De efeito retardado, a batida é feito um tapa na cara do Congresso Nacional.

Não deixa de ser significativa essa interpretação absoluta de uma negociação política como sendo chave de cadeia. Não ajuda muito, especialmente em um governo que só está patinando, sem falar nas recuadas, uma atrás da outra.

É interessante como é marcante sua fixação na conceituação da essência da política — que está no convencimento, na negociação — como um mero artifício para faturar em interesse próprio. Eu diria que é uma questão de ponto de vista.

Mas Bolsonaro deveria guardar para suas memórias essa forma de ver a atividade na qual passou a maior parte da sua vida. Pode ser interessante, no futuro, saber das falcatruas que ele parece conhecer a fundo e sobre as quais ficou calado durante três décadas como parlamentar.

Alguém devia dizer-lhe que agora, enquanto está no cargo mais importante de sua carreira, sua responsabilidade é pela criação do conteúdo dessas memórias. E pelo que foi visto até aqui, nesses poucos meses de governo, que podem ser lidos como um preâmbulo, pode-se prever páginas amargas pela frente.
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POR José Pires

segunda-feira, 25 de março de 2019

Joice Hasselmann e Kim Kataguiri no ringue do Twitter

A semana começa com brigas e não é só troca de tabefes entre namorados, como na relação de Jair Bolsonaro com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Agora tem furdunço de Joice Hasselmann com Kim Kataguiri, coisa muito feia, com troca de insultos pesados pelo Twitter. O bate-boca começou com Kataguiri fazendo críticas ao PSL, que levou Joice a investir sobre ele com uma ferocidade que nada tem a ver com os papéis de ambos. Ela é líder do governo Bolsonaro. O deputado é líder do MBL é um apoiador do governo e ativo apoiador da reforma da Previdência. Deviam estar de namoro firme.

“Oportunista”, “cara de pau”, “moleque”, foi um show no Twitter depois que Kataguiri chamou a atenção do PSL sobre incoerências do partido na relação com Rodrigo Maia. O quiproquó é o efeito visível da tática brucutu de Bolsonaro na relação com o Legislativo. O conceito “negociação” virou palavrão, a partir de suas repetidas falas sobre o toma-lá-dá-cá. O desentendimento se espalha, como conseqüência previsível do que o presidente vem fazendo.

Joice foi uma escolha errada de Bolsonaro. Seu perfil não se enquadra de jeito algum na necessidade de equilíbrio, articulação e capacidade de convencimento, essenciais no cargo. Mas aí é uma questão de padrão do gestor Bolsonaro. No embate pelo Twitter, Kataguiri lembra inclusive o tratamento que Joice dava ao presidente da Câmara, outro empecilho para colocá-la como articuladora entre políticos.

Quando atuava como jornalista, ela era uma atiçadora das redes sociais. Segundo a tuitada de Kataguiri, a deputada afirmava que Maia “era o Demônio na Terra, o arqui-inimigo da Lava Jato, o símbolo-mor da corrupção”, o que é verdade. Era o estilo, digamos, jornalístico dela, uma incansável caçadora de audiência e likes.

A investida agressiva de Joice sobre Kataguiri chega a ser uma insanidade política. Primeiro, ele vem defendendo a pauta do governo. E hoje em dia o deputado é líder de uma rede eficientíssima de comunicação na internet, com militância em cidades de todo o país. O ativismo lhe deu quase quinhentos mil votos em um estado eleitoralmente difícil como São Paulo. Sem Bolsonaro pedir voto para ele. O apoio do MBL aconteceu apenas no segundo turno, como voto útil. Nenhuma outra entidade ativista tem a organização e capacidade técnica do MBL, além da empatia com jovens conservadores. Como líder do governo, Joice deveria atuar para estreitar laços com Kataguiri e seu grupo. Política é isso, sem o entendimento de Bolsonaro de que negociação é um lixo.

Mas a desastrosa intervenção de Joice não para por aí. Na sua reação a Kataguiri ela usa o conceito de juventude como desprezível pejorativo. Chama o líder do MBL de "moleque", como se isso fosse xingar a mãe. Bem, isso vai totalmente contra o discurso da “nova política” contra a velha política, evidentemente uma risível cascata, mas é o que eles repassam por aí. Nos xingamentos ao deputado e líder do MBL, a líder do governo estigmatiza sua juventude como condição de despreparo, desonestidade e vagabundagem.

Não é preciso saber muita coisa de comunicação para entender o efeito disso na relação com os jovens animados com política e ávidos para influir no debate, muito próprio da juventude e altamente saudável para a democracia. Ao usar a palavra “moleque” como um pesado pejorativo, numa época em que isso é um cumprimento até carinhoso, Joice demonstra o que não é novidade para quem conhece seu currículo: ela é capaz de jogar tudo fora quando perde as estribeiras.
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POR José Pires


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Imagem- As feras do ringue do Twitter.
Fotos de Fabio Rodrigues Pozzebom e Valter Campanato, da Agência Brasil

domingo, 24 de março de 2019

Todos às ruas nesta segunda-feira! Não vai ter golpe! Temer livre!

— Tem que manter isso. Viu, companheiros?
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POR José Pires

A esquerda brasileira e sua luta contra o rigor da lei para o crime

Envolvida na defesa de um reles gatuno como o ex-presidente Lula, a esquerda brasileira deu algumas voltas — num revolteio retórico, jurídico e prático, de muita propaganda e mentiras políticas — e acabou de braços dados com o que tem de pior na política brasileira, juntando armas no combate à Operação Lava Jato e procurando derrubar conquistas essenciais para acabar com o domínio quase absoluto do crime no Brasil.

E fala-se aqui de ilegalidades diversas, do crime comum das quadrilhas organizadas que tocam o terror contra a população e da corrupção de políticos e empresários, com os bandos já se juntando, formando máfias fortalecidas em braços políticos, no narcotráfico, em milícias ou de qualquer outra forma de ganhar dinheiro de forma violenta e corrupta.

O partido do Lula e seus puxadinhos, como o Psol e demais partidecos, já estão juntos há algum tempo nessa luta contra o interesse do país. Não é surpresa que agora eles apareçam ao lado de políticos tradicionais da roubalheira, bradando para que soltem Michel Temer. Nesta luta contra a ética formam uma frente com partidos clientelistas e seus caciques, que dominam a Câmara e o Senado, além dos parceiros poderosos de um STF hoje em dia dominado por um grupo constituído dos piores juízes de sua história.

Qualquer parceria serve para atuar contra o estabelecimento da aplicação das leis de forma justa e rigorosa. Como reforço substancial, contam com bancas riquíssimas de advocacia, da parte de escritórios de alto poder e muito dinheiro, no lucrativo negócio que se tornou o Direito no Brasil, tomado por magnatas enriquecidos no vaivém interminável dos tribunais.

Como instrumento prático desse retrocesso, o PT e este conjunto de interesses políticos e financeiros precisam restabelecer o processo de cumprimento de pena só depois de uma última decisão, que demora muito e isso quando algo se decide. Não admitem condenados na cadeia a partir da condenação de segunda instância. Querem voltar aos tempos dos processos empurrados por décadas, relegados ao esquecimento, muitas vezes chegando à prescrição sem que a população brasileira sequer tome conhecimento do desfecho impune.

Agora, em abril, o STF terá um julgamento que pode decidir por este retrocesso, fazendo o Brasil retornar a uma condição inexistente em países onde a Justiça é levada a sério. Assim é na Europa, com prisão na segunda instância. E nos Estados Unidos o cumprimento de pena se dá logo na primeira instância.

E como a discussão dessa questão no Brasil tem se concentrado em crimes de corrupção, cabe apontar que a extinção da condenação em segunda instância beneficia igualmente o crime comum. A moleza não é só para o Lula, o Eduardo Cunha ou o Sérgio Cabral. Narcotraficantes, assaltantes, milicianos, estupradores, assassinos, bandidos violentos no geral, com advogados bem pagos qualquer transgressor da lei se favorece com a possibilidade dada pela Justiça de rolar indefinidamente os processos, mantendo-se em liberdade.

É nesta condição de impunidade que se pretende aprisionar o Brasil, deixando livres os violentos, endinheirados e corruptos, todos os que acumulam riqueza e poder com uma Justiça que tarda e falha.
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POR José Pires


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Imagem- A Justiça de olhos bem abertos, na gravura de 1499, do grande Albrecht Dürer, artista
do Renascimento alemão; no Brasil, seria bom que ela tivesse um leão desses

sábado, 23 de março de 2019

Bolsonaro faz da Educação um ministério bichado

Com o Ministério da Educação em permanente crise e com uma série de programas do ensino básico travados, o ministro Ricardo Vélez Rodríguez foi desautorizado a nomear integrantes de sua equipe. A notícia é do Estadão. A ordem foi do presidente Jair Bolsonaro, que já havia vetado dois nomes para a secretaria executiva, depois de divulgados pelo ministro. A determinação é inédita: um ministro proibido de nomear seu braço-direito.

A nova secretária-executiva anunciada pelo ministro na semana passada, professora Iolene Lima, foi demitida nesta sexta-feira. A situação está cada vez mais patética. Se restar alguma dignidade a Vélez Rodríguez ele pede demissão nesta segunda-feira. O gesto viria atrasado, claro, mas nunca é tarde para tomar vergonha na cara.

Por outro lado, temos este presidente da República incapaz de definir ações executivas e deixar clara a função do ministro de uma das pastas mais importantes da atualidade. Bolsonaro é um desastre como administrador. Escolhe mal e não sabe o que fazer quando seu subordinado não rende o que ele deseja. Será que é tão difícil assim compreender que alguém na condição de Vélez Rodríguez, desrespeitado e sem a mínima delegação de poder, não tem possibilidade alguma de fazer qualquer coisa que preste no cargo?

Pelo jeito, Bolsonaro tem dificuldade até para um raciocínio tão simples. E duvido também que ele consiga compreender como essas suas atitudes estabelecem sérias dificuldades de renovação de qualidade em seu governo. Qual o doido que vai aceitar ser ministro da Educação depois da humilhação sofrida por Vélez Rodríguez? Esta deve ser uma aposta quente nesses dias em Brasília.

Bolsonaro conseguiu impor a si mesmo um estrago que nem o mais encardido oposicionista imaginaria ser possível. Um ministério essencial para o sucesso de seu governo foi transformado em um terreno indesejável, onde nenhum profissional de qualidade vai querer entrar.
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POR José Pires

sexta-feira, 22 de março de 2019

Bolsonaro: errando no governo com o que deu certo em campanha

O governo de Jair Bolsonaro vem sendo vítima de consequências típicas de quem vence uma eleição de forma extraordinária. Na avaliação da sua vitória parece que deixaram de lado casualidades determinantes durante a campanha, a começar das facadas de Adélio. O atentado fortaleceu o mito e ainda criou uma justificativa para Bolsonaro se retirar de cena, evitando mostrar-se integralmente dessa forma que os brasileiros só estão vendo agora: uma figura que causa vergonha alheia até em quem já foi seu fã.

Imaginem este sujeito sem noção que aí está, sendo obrigado a se expor dando entrevistas e tendo que participar de debates. Mesmo amparado na respeitabilidade do cargo de presidente, Bolsonaro perdeu rápido a confiança de uma parcela enorme de brasileiros. Também não consegue se impor como líder, em grande parte porque tem uma dificuldade enorme de se expressar até em questões muito simples. E ao contrário do que se pensava, falta-lhe carisma e capacidade de cria empatia.

Outro erro de avaliação grave foi o de achar que sua vitória se deveu a uma genial ação de comunicação digital. E não foi bem assim. No segundo turno sua comunicação não teve que encarar nenhuma grande dificuldade. Enfrentaram um adversário obrigado a atuar na defensiva e que não teve capacidade de ganhar aliados nem no desfecho da eleição. Por isso, seguiram do mesmo modo do primeiro turno, na linha bolsonarista de desinformação e ataques violentos.

Mas acabou ficando o mito de que ganharam pela capacidade de comunicação, uma fama que está criando sérios problemas agora, na hora de governar. Essa ilusão da campanha fez muita gente acreditar que Carlos Bolsonaro é um bamba no negócio. E não é fácil desfazer o equívoco. Foi ele que sempre cuidou  da comunicação digital do pai, cuja eleição acabou referendando seu talento pra coisa. Como as casualidades estão sempre fora da análise da vitória, Carlos acabou sendo superestimado e ganhou uma influência no governo que está muito além, mas bem acima mesmo, da sua real capacidade política e profissional.

O que vem sendo feito em comunicação é tão errado que nem há o que consertar. Seria preciso jogar tudo fora e fazer algo totalmente diferente. E isso também não será fácil de conduzir, pois a comunicação comandada pelo assim chamado Carluxo cumpriu pelo menos uma de suas metas, concluindo a tarefa de criar um perfil político para a militância governista. É uma militância agressiva, que busca se impor não pelo debate e o convencimento, mas com desdém pelo que o outro diz, com agressão e o ataque cerrado a qualquer um que ouse fazer o mínimo reparo ao que acontece no governo.

Essa militância cabeça-dura já causou muito estrago nesses quase três meses de governo. Afastam inclusive simpatizantes, criando uma profunda rejeição entre a imprensa e causando encrenca até com o Judiciário. O descontentamento atinge até a base aliada do governo no Congresso Nacional, com o afastamento de deputados que já estavam prontos a aderir ao governo, para isso bastando que houvesse articulação política. Foi seguindo o modelo da campanha que as falanges digitais passaram a mirar raivosamente parlamentares, jornalistas e quem mais estivesse pela frente. É o que o Carluxo sabe fazer. E só poderia ter dado certo se o governo do pai dele contasse com tantas casualidades favoráveis como aconteceram para que ele se elegesse.
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POR José Pires
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Imagem- Uma peça antiga do portfólio de Carluxo, o genial comunicador

Temer na cadeia e os tradicionais pretextos para evitar a prisão de maiorais

É curioso como sempre aparece a alegação do risco de um grande transtorno político ou social quando a polícia prende um salafrário com grande poder. Agora, com a Lava jato mandando pra cadeia o ex-presidente Michel Temer, estão falando em dificuldades na arrumação necessária do país, que tem na reforma da Previdência um passo decisivo. Porém, se não tivesse essa reforma arranjariam outros assuntos. Sempre foi assim para defender um maioral pego pela polícia.

Um exemplo marcante dessa antiga tentativa de ludibriar a lei vem do ministro Marco Aurélio de Mello, em uma fala significativa, quando há pouco mais de um ano Lula estava para sofrer a condenação pela qual seria preso. O ministro afirmou então que não acreditava que o chefão do PT seria preso antes do recurso da defesa percorrer todo aquele caminho interminável, até chegar aos tribunais superiores. “A prisão do presidente Lula preocuparia a todos em termos de paz social”, disse Marco Aurélio.

O ministro aproveitava uma estratégia antiga com a qual durante muito tempo o PT se prevaleceu politicamente, com a criação de um clima de intimidação apoiado num suposto apoio das massas ao PT, sempre pronto para ser acionado em caso de ameaça ou mesmo brotar de um modo instantâneo, em revolta contra os inimigos do partido do Lula. Enquanto não houve quem peitasse esse mito, os petistas pintaram e bordaram, ganhando eleições com caixa dois, montando cenários para se beneficiarem e atacando de todas as formas quem ousasse contrariá-los. Esse mito de propaganda com a intimidação de uma possível revolta popular sempre foi uma excelente defesa para não serem forçados ao respeito da lei.

A Operação Lava Jato não aceitou baixar a cabeça à intimidação. Mostrou que o PT apoiava-se numa bravata para afrontar o país, dominar as instituições e manter na impunidade sua cúpula de ladrões. Na verdade, não era “a todos” que afetava a prisão do Lula. A preocupação vinha de um círculo restrito, composto por uma elite política de uma ganância sem tamanho. O que não queriam é ver as leis sendo aplicadas com o devido rigor. Ligado até por laços de família a esta elite (foi nomeado pelo primo Collor), Marco Aurélio é uma das figuras tradicionais que sempre mantiveram o Judiciário a serviço de interesses particulares, de gente endinheirada e de poder pessoal arrancado de forma abusiva do Estado, se empenhando inclusive em criar conceitos para que este domínio.

Não era por respeito à origem popular do poder conquistado por Lula que Marco Aurélio procurava protegê-lo. Tampouco era em respeito a valores sociais progressistas, no contexto da imagem do líder dedicado aos mais pobres. A defesa de Lula por Marco Aurélio é uma dessas ironias da política brasileira, no cinismo da alegação de um oligarca que apela para o risco da revolta das massas insatisfeitas com a prisão de seu líder. Mas na verdade, por meio dessa enganação o objetivo é manter a impunidade de toda uma casta de salafrários que saqueia os cofres públicos há várias décadas.

O próprio Lula teve uma interferência pessoal nessa tradicional imposição de um seleto clube da impunidade, quando disse que José Sarney “não podia ser tratado como se fosse uma pessoa comum”. Atualmente um criminoso condenado, Lula falou como presidente da República em junho de 2009. Sarney era acusado de graves irregularidades como presidente do Senado. São inúmeras as histórias como esta ou a do ministro Marco Aurélio. Esse pessoal está sempre procurando estabelecer conceitos que justifiquem a impunidade. É o que ocorre agora nesta prisão de Temer.

Pela lógica torta de suas conversas é evidente que jamais haveria a oportunidade da prisão de um maioral, já que sempre é possível a alegação de uma provável complicação sobre algo que estiver em andamento. E exatamente desse jeito eles procuram estabelecer a impunidade, facilitando a atividade de saquear os cofres públicos.

Faça uma projeção do tanto de coisas que esse governo precisa fazer, além das tarefas do Judiciário e do Legislativo, sem falar na trabalheira geral do resto do país. Sem dúvida, levaria vários anos para poder encaixar de forma tranquila em uma agenda tão cheia a prisão do Temer ou de qualquer outro salafrário. Por isso não faz sentido esperar uma situação mais normalizada para prender corrupto. Ao contrário: se eles não forem presos logo, esses bons tempos jamais virão.
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POR José Pires