quinta-feira, 16 de maio de 2019

Bolsonaro e seu prestígio de fast food

Corre pela internet esta foto de Jair Bolsonaro em Dallas, no Texas, comendo hamburger numa lanchonete não identificada. É a cena patética de um presidente brasileiro numa viagem sem agenda política importante, totalmente desprestigiado, tendo apenas sua equipe como companhia. Bolsonaro está em Dallas depois de ter cancelado na semana passada sua viagem para o recebimento de um prêmio em Nova York, onde dois estabelecimentos rejeitaram sediar o evento da homenagem.

Mas em Dallas a receptividade também não tem sido das melhores. O prefeito da cidade, Mike Rawlings, se recusou a dar as boas vindas ao presidente, depois de um abaixo-assinado de repúdio à sua presença, feito por metade dos 14 vereadores da cidade.

Isso retrata bem as consequências das encrencas políticas criadas por Bolsonaro. No entanto, a cena lamentável de seu isolamento político na lanchonete revela também o descuido que ele tem com a própria saúde. Aqui de longe dá para notar o nível baixo de qualidade da gororoba grudenta repleta de molho e gordura, com batatas fritas encharcadas de óleo.

Estamos falando de uma pessoa que levou uma facada na barriga, sendo obrigado a passar por cirurgias delicadas, com a reconstrução do trânsito intestinal. Depois de um ferimento tão traumático ele não teria que cuidar melhor de sua alimentação? Como a moçada costuma zoar dessas gororobas: isso é tarefa de bravos. Sei que Bolsonaro é um bravateiro, mas nem uma pessoa saudável deveria comer esse tipo de coisa.

É claro que a conseqüência mais grave fica por conta dele, porém, como a conta de 400 mil reais de sua cirurgia veio do bolso do contribuinte, abusar desse jeito de intestinos que sofreram uma forte agressão recentemente não deixa de ser desperdício de dinheiro público.
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POR José Pires

As ilusões do bolsonarismo no poder

Uma das coisas que procuro fazer quando acontece um lance político importante deste governo, como a audiência na Câmara com o ministro da Educação, Abraham Weintraub, é dar uma sapeada no material que o esquema subterrâneo do bolsonarismo espalha depois pelas redes sociais. Por este meio é possível não só avaliar a percepção que o bolsonarismo vem tendo de seus próprios problemas como também pode-se prever erros futuros.

E tudo indica mais atrapalhação vindo por aí. Logo que o ministro Paulo Guedes andou tendo aquelas encrencas no Senado e na Câmara, quando exercendo em plenitude sua arrogância e inabilidade política, quebrou o pau com parlamentares na própria casa deles, também corri para ver o que o bolsonarismo espalhava pela internet. Estavam naquela mesma toada, como o marketing tosco do supremo vencedor de batalhas. O texto é sempre na linha de “Paulo Guedes arrasa fulano” ou “Paulo Guedes cala não-sei-quem” e por aí vai.

A impressão é que o bolsonarismo tem como equipe de comunicação política uma porção de moleques viciados em internet que são instruídos para dar uma força a ministros e parlamentares amigos do governo. O primarismo tem sua origem em um equívoco de campanha, fortalecido pela impressionante vitória obtida: eles tem toda fé que Bolsonaro se elegeu devido à genialidade política do grupo que o cercava e a extrema capacidade de comunicação deles todos, incluindo o candidato.

Ocorre que não foi este o motivo do Brasil ganhar este este presidente inviável. Mas já ficou tarde para que entendam como foram para o poder. E nesta incompreensão terão dificuldade de mantê-lo. É uma das razões da manutenção do mesmo espírito da campanha, na continuidade da propaganda tosca. A ilusão de vitória política que tiveram com as lamentáveis performances de Paulo Guedes no Senado e na Câmara se repete agora na avaliação do desastroso embate do ministro da Educação com os deputados, que foi ainda mais negativo para o governo. E como esse pessoal se nutre basicamente do que eles mesmos espalham pelas redes sociais, Weintraub deve estar se achando o máximo. Pode-se prever que ainda darão muitas outras cabeçadas.
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POR José Pires

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Imagem- A foto da deputada Joice Hasselman levando o ministro da Educação pela mão feito
um estudante indo para a sabatina é de Fabio Rodrigues Pozzebom, Agência Brasil

Doce encontro de maiorais em Nova York

Como Jair Bolsonaro anda com medo de viajar para Nova York, enquanto ele seguia para dallas, no Texas, quem brilhou no evento da Câmara de Comércio Brasil foi o governador João Dória. Como se sabe, Doria é um sujeito dinâmico, de tal modo que a única garantia de que ele não largará o mandato de governador pelo meio é que eleição para cargo mais importante só tem em 2022. Até por isso, a ausência de Bolsonaro foi bem aproveitada por Doria, no papel de vendedor das facilidades de negócios no país. Esqueçam o Bolsodoria. Os indicativos são de que discurso violento não traz mais tanto benefício, o que exige uma mudança de marketing.

O rega-bofe teve a participação de empresários e investidores. Além de Doria também estavam em Nova York os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e David Alcolumbre, na mesma mesa em que estava o presidente do STF, Dias Toffoli, como pode ser visto na foto que publico, extraída do blog do jornalista Jamil Chade. Mas o que é que essas figuras públicas têm a ver com um evento para contatos com investidores? Nada, é claro. A não ser que se acredite que depois de ver juntos esses três, bebendo vinho francês, um investidor americano ficará mais convencido a arriscar seus dólares em nosso país.

Mas pode-se dizer que cada qual que viaje para onde quiser e vá ao evento que julgar apropriado. Bem, de fato a situação pode ser vista por este ângulo, no entanto os custos teriam de sair exclusivamente do bolso dos presidentes do Senado, da Câmara e do STF, o que não foi o caso. O país está em crise, sem dinheiro para uma porção de gastos essenciais, mas sempre tem verba pública para essas inúteis atividades de representação, que nada mais são que viagens de recreio de maiorais.
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POR José Pires

O leitor da cara alheia

A dificuldade pessoal de Jair Bolsonaro para entender o básico fica muito clara com este encontro com o ex-presidente George W. Bush, nos Estados Unidos, quando depois ele passou aos jornalistas interpretações políticas da posição de Bush sobre questões atuais muito sérias da Venezuela e da Argentina, pelo que teria percebido no “semblante” do ex-presidente americano.

Suas palavras: “Eu não sou vidente, mas, pelo semblante, eu entendi que ele [Bush] tem preocupação não só com a Venezuela, bem como a questão da Argentina”.

Ora, parece que temos então uma novidade interessante. Bolsonaro, que evidentemente é um sujeito que não costuma abrir um livro, agora deu para “ler semblantes”? Não quero ficar pegando no pé do Olavo de Carvalho, mas isso parece dica de astrólogo.

Mas como não existe esse negócio de interpretar posicionamento político “pelo semblante”, fica como mais uma cretinice de Bolsonaro, além de ser uma leviandade imperdoável depois de uma audiência com qualquer pessoa, ainda mais se o encontro foi com um ex-presidente estrangeiro, que sempre representa institucionalmente o interesse de seu país.

Neste caso, a lição é muito simples, fácil talvez até mesmo para Bolsonaro. De um encontro com alguma autoridade só se deve ter como fato o que foi dito de forma muito clara. Senão fica parecido com aqueles biógrafos de má-qualidade que revelam até o que passava pela cabeça do biografado diante de situações dramáticas de sua vida, ocorridas há muito tempo. Trazer ao leitor insondáveis pensamentos de uma personalidade que já morreu é mais ou menos o mesmo que ver no semblante de alguém algo que ele não disse.

Aliás, se fosse possível ler algo no semblante de um político americano, nos Estados Unidos isso seria feito com muito mais habilidade pelos jornalistas de lá, onde por sinal o jornalismo sempre foi de grande qualidade. Imaginem a facilidade que isso não traria aos profissionais da mídia naquelas coletivas na Casa Branca. Pelo método do Bolsonaro bastaria ficar sentado observando bem o presidente e lendo no seu semblante o que não sai pela sua boca.
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POR José Pires

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Weintraub, Paulo Guedes e suas atrapalhadas lições

Nunca houve no país um governo desastroso como o de Jair Bolsonaro, que conseguiu montar para si próprio uma equação política de tal forma problemática, que mesmo um opositor muito encardido teria dificuldade de bolar. A estratégia é destruidora. O governo não aproveitou a trégua protocolar de início de mandato, quando a população mantém uma absoluta tolerância e a própria oposição é obrigada a manter-se calada até que passe esse período de espera.

Era o momento de tomar ciência dos problemas, articular-se politicamente, estabelecer o comando sobre a máquina pública, criar pautas positivas e se possível travar a oposição. Pois o presidente Bolsonaro não fez nada disso. Ao contrário, ele levantou assuntos excelentes para seus inimigos. Que governo doido atua estimulando o confronto, como se tivesse uma eleição para disputar em poucos meses? É o governo Bolsonaro. Para a esquerda, isso tem sido muito bom. A situação ficou tão favorável que até o Twitter do presidiário Lula anda tirando um sarrinho.

O assunto mais quente pode fazer o país fervilhar nos próximos dias. Traz uma pauta criada exclusivamente por Bolsonaro, na área do ensino superior público, exatamente onde a esquerda é bem articulada e sabe atuar politicamente. A novidade é que a notória falta de tato deste governo pode ter criado uma unidade em todo o ensino superior, onde a esquerda sempre teve seu poder político restrito ao comando de organismos de representação, que ganha por meio de eleições de baixíssima participação de professores, servidores e estudantes. Ao bater de frente com as universidades, o governo junta ao mesmo bloco de resistência até quem nada tem a ver com os objetivos da esquerda.

O impagável ministro Abraham Weintraub e seu chefe deram a uma oposição até então desmobilizada esta pauta política facílima de tocar pra frente. Manifestações já aconteceram em várias cidades na semana que passou. Foi marcada uma greve geral para o dia 15 deste mês. Tudo indica que a “balbúrdia” será nacional. Nada mais fácil, com um governo que traz até chocolates para gerar assunto contra seu próprio interesse.

Na política, as chamadas “pautas-bombas” costumam aparecer como forma de pressionar o Executivo. São geralmente criadas pela oposição. A novidade é um governo que espalha seus próprios explosivos. Outro assunto que deve render bastante para a oposição é o da reforma da Previdência, com desdobramentos que com certeza chegarão às ruas. A apresentação do projeto do governo é um desastre, a começar pela incrivelmente inábil performance do ministro Paulo Guedes. Bem que uma conhecida aluna sua na universidade, a liberal Elena Landau, disse que ele foi um mau professor. E ainda era de matemática.

Guedes é tão ruim na exposição de suas ideias, que no confronto com ele até a deputada comunista Jandira Feghali passa a exalar simpatia. Políticos esquerdistas notoriamente agressivos conseguem até mesmo apelar ao respeito institucional e passar por vítimas. O “Posto Ipiranga” do Bolsonaro virou a preferência da esquerda. Adoram um debate com ele. E é claro que o clima tende a esquentar, conforme o processo se desenvolver no Congresso Nacional. Pode ser um passeio para a oposição. A bancada aliada do governo do Bolsonaro não tem capacidade de enfrentar parlamentares experientes em criar armadilhas e que agora se beneficiam com o confronto político.

E depois a pauta da Previdência deverá ir para as ruas, onde independente do modo como será aprovada servirá como um tema excelente para atiçar a população contra o governo. A reforma trouxe várias questões impopulares. Mesmo se forem limadas, estarão marcadas como intenção deste governo em tirar direitos dos mais pobres. Porém, a complicação mais difícil para Bolsonaro é que sua aprovação se dará com o país ainda em marcha muito lenta na economia.

A melhor das aposentadorias no futuro pouco significa em um país que no presente nem emprego tem. Mas acontece que o adorado ministro de Bolsonaro não estabeleceu uma relação prática entre a reforma da Previdência e a organização econômica do país, deixando o governo pendurado num projeto com efeito de longo prazo, enquanto o povo sofre o diabo no dia a dia, com os sérios problemas econômicos que há muito tempo atormentam a vida do país.
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POR José Pires

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Os descaminhos de Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho informa na sua página de Facebook que vai ficar três dias sem postar, mas não disse o motivo do afastamento. Nos últimos dias ele foi assunto diário na mídia, ainda que de forma altamente negativa para sua imagem. Nem é necessário fazer pesquisa alguma para saber que sua rejeição está em alta, com poucas possibilidades de que ele possa reverter o estrago.

Atiçador de conflitos, com o pouco cuidado que tem ao espalhar a cizânia o professor da Virgínia cometeu um erro grave enquanto atacava pesadamente a ala militar do governo Bolsonaro. Olavo escreveu que “altos oficiais militares” criticados por ele foram “buscar proteção escondendo-se por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas”, em referência ao general Villas Bôas, que sofre de doença degenerativa.

A indignidade só não foi repudiada por seus discípulos mais próximos. Poucas vezes se viu unanimidade parecida na política brasileira. Ninguém gostou do que ele escreveu. A grosseria teve protestos até de quem costuma se divertir com a atrapalhação causada no governo Bolsonaro pela sua xingação. Olavo ainda tentou consertar o estrago, inventando uma tola teoria conspiratória de que articularam tudo para que ele escrevesse o post desastrado depreciando a condição de saúde de Villas Boas, mas esta idiotice não colocou.

Esses três dias de resguardo anunciados pelo Facebook me parece pouco para uma tarefa que faz tempo que tem sido deixada de lado por Olavo, que é escrever coisa séria. Poderiam ser até mesmo artigos sobre a atual conjuntura, com ideias que ajudassem o governo apoiado por ele a concretizar alguma coisa. O sujeito quer ser reconhecido como filósofo, mas virou um caçador de likes nas redes sociais. Fica o tempo todo escrevendo palavrões e dando sarrafadas em integrantes do governo que ele apóia. Vai acabar sendo lembrado apenas por isso e mesmo assim não será por muito tempo.

Algumas pessoas tentam fazer análises elaboradas, procurando encontrar um habilidoso plano nesse comportamento de moleque mal educado, mas podem fuçar nessas nojeiras todas que eu duvido que surja dentre as maluquices de Olavo de Carvalho algo além da aparência de um tremendo desvario de um sujeito que perdeu de vez o bom senso e que não sabe mais nem qual é seu próprio objetivo.
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POR José Pires

terça-feira, 7 de maio de 2019

Olavo de Carvalho contra militares: briga suja no bolsonarismo

Como é notório, Olavo de Carvalho nos últimos dias está empenhado em uma artilharia cerrada contra os militares que ocupam cargos no governo Bolsonaro, numa briga por espaço no governo. Isso é até natural na política, no entanto, levando em consideração o resultado que sua metodologia de luta vem apresentando, há que se considerar se no final sobrará governo para seus olavetes pegarem umas boquinhas.

Não cabe aqui avaliar o que Olavo vem fazendo tendo em conta minha posição quanto a esse governo ou o que penso dele próprio. Sou contra ambos. Mas tenho que dizer que ele embola-se em seus próprios argumentos. Temos um caso sério de uma figura que é um  poço de contradição nos termos. E na prática. Já faz tempo que me parece que o comportamento do velho professor da Virgínia revela algo mais que a ferocidade também natural de um sujeito em uma luta política, ainda mais quando essa figura é alguém como Olavo, que incorporou todos os defeitos de sua história como esquerdista e depois como direitista.

Parece haver um sério desarranjo psicológico por detrás dessa movimentação histérica em busca da mera cizânia. Não faz sentido tanto esforço que gera apenas confusão e não tem resultado prático para seu grupo político, os chamados olavetes, como também desmobiliza demais os esforços de um governo que tem sua origem em grande parte em suas ideias. Muitos ficam procurando uma lógica política em seu comportamento. Não vejo assim. O que ele tem feito nem é matar a galinha dos ovos de ouro. Olavo pisa em sua cabeça enquanto o bicho mal saiu do ovo.

Nada tenho a ver com os dois lados dessa briga, mas sei do mau resultado do que esse sujeito endoidecido vem fazendo. Ai de nós se houver muita influência sobre jovens dessa forma de debater política e de procurar criar espaços políticos. É uma cultura da provocação barata, do insulto, do desrespeito à opinião alheia, da construção de versões mentirosas conforma o interesse de ocasião. Temos aí um perigo contra o qual não devemos nos calar. Pode ser o nascedouro de uma visão autoritária muito perigosa, seja tida como de esquerda ou de direita, não importa, afinal Olavo tomou lições de autoritarismo tanto dos comunistas quando da direita.

Seus ataques aos militares do governo Bolsonaro dão vergonha alheia até em quem é da oposição. O nível é baixo demais, com xingamentos até risíveis, como quando ele chama o ministro Santos Cruz, um general da reserva, de “bosta engomada”. Puxa vida, como é que alguém que quer ser reconhecido como “filósofo” se serve de argumentos desse tipo? E tem coisas muito piores e nada engraçadas. Nesta madrugada, Olavo postou no Facebook e no Twitter uma mensagem em que cita o general Eduardo Villas Bôas, de uma forma que até para um Olavo de Carvalho ele foi longe demais.

Ele diz que para se defenderem de seus ataques os militares se escondem “por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas”. Villas Bôas sofre de uma grave doença degenerativa que impede seus movimentos. Ultimamente ele tem dificuldade até para respirar. No mesmo post Olavo termina com uma afirmação que serve para qualificar quem posta essa indignidade: “Nem o Lula seria capaz de tamanha baixeza”. É verdade. Nem o Lula seria capaz de algo tão baixo como o que Olavo de Carvalho anda escrevendo.
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POR José Pires

sábado, 4 de maio de 2019

Nova York, um amor de cidade

Nesses dias em que Jair Bolsonaro deve estar sentido muito ódio por Nova York, lembrei de um dos logotipos mais importantes do Século 20, uma declaração de amor à cidade. O trabalho gráfico passou depois a influenciar a comunicação mundial. Ao contrário de Bolsonaro, milhões de brasileiros deve estar amando o que Nova York fez nesses dias, então vamos lá.

É esta imagem que publico aqui, criada por Milton Glaser, um dos grandes artistas gráficos que já existiu e também grande desenhista, criador outras imagens também muito marcantes. É um dos modernizadores da ;e comunicação de massa, genial ilustrador e publicitário, um dos bambas que no século passado movimentaram o mundo com sua criatividade.

O logotipo fez parte de uma campanha publicitária de 1977 para promover o turismo em Nova York, que teve também uma música, da autoria de Steve Karmen. A música é competente, mas o que ficou mesmo foi logotipo, para o qual foi usada uma tipologia que era novidade na época, a American Typewriter, inspirada nos tipos de máquina de escrever — a fonte foi criada em 1974 por Joel Kaden e Tony Stan.

Cabe apontar que era dessa forma que a gente escrevia nesses tempos distantes do computador e ainda mais da internet, batendo letra por letra as frases na fita da máquina, que passava para o papel o que pensávamos.

A grande sacada de Milton Glaser foi a colocação do coração formando a frase. Esse grande artista, atualmente com 89 anos, deu ali o toque inicial do uso da imagem do coração, depois transferida para uma diversidade de formas de comunicação. O logotipo declarando amor a Nova York virou um dos ícones mais famosos do mundo.
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POR José Pires

Fuga de Nova York: o persona non grata Bolsonaro recua mais uma vez

Jair Bolsonaro não vai mais a Nova York. Nesta sexta-feira a Secretaria de Comunicação Social da Presidência divulgou uma nota informando que foi cancelada a viagem que o presidente faria para ser homenageado pela Câmara de Comércio Brasil-EUA. Estragaram a festa de Bolsonaro. Empresas desistiram do patrocínio do evento depois de forte rejeição nas redes sociais e manifestações contrárias, inclusive do prefeito da cidade. A festa teve que mudar duas vezes de lugar, começando pelo Museu de História Natural de Nova York, cuja diretoria justificou a desistência argumentando que a homenagem a Bolsonaro seria "uma mancha na reputação do museu".

Logo que a homenagem foi anunciada, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, classificou Bolsonaro como “um ser humano perigoso” e pediu a um dos lugares escolhidos que não aceitasse o evento. O senador estadual democrata de Nova York Brad Hoylman disse que o único prêmio que Bolsonaro merece é o de "intolerante do ano". Com o anúncio de que Bolsonaro desistiu da viagem, o prefeito já fez uma zoação pelo Twitter. “Ele fugiu”, escreveu na mensagem: “Sem supresas — covardes não costumam aguentar um soco”. Escreveu também que "seu ódio" não é bem vindo em Nova York.

É óbvio que Bolsonaro seria recebido não com tapete vermelho, mas com protestos na porta do evento. Escrevi aqui sobre o assunto. Na minha opinião, a rejeição criada dificultaria até a escolha de um americano que deveria também receber homenagem, conforme a praxe do evento, marcado para 14 de maio. Até hoje não se soube de um gringo que topasse encarar a cerimônia na companhia do presidente brasileiro. Nem Steve Bannon apareceu para dar uma mãozinha. A homenagem ocorre durante um jantar de gala com a presença de mil convidados. A entrada individual custa 30 mil dólares. É óbvio que o público não compareceu. Que empresário seria doido de querer o nome de sua empresa associado a esta persona non grata?

A nota do governo brasileiro é puro mimimi, como costuma dizer a moçada. Eles dizem que a viagem foi cancelada “porque ficou caracterizada a ideologização da atividade”. O texto afirma que Bolsonaro desistiu “em face da resistência e dos ataques deliberados do Prefeito de Nova York e da pressão de grupos de interesses sobre as instituições que organizam, patrocinam e acolhem em suas instalações o evento anualmente”.

Ora, mas pelo que se sabe é exatamente por esta linha que Bolsonaro escolheu fazer política, confrontando de forma pesada assuntos polêmicos, atuando agressivamente contra adversários, reais ou de mentira, mas de qualquer forma sempre com um discurso violento e às vezes até com muito ódio. O prefeito de Nova York não deixa de ter razão no Twitter em que dizia que Bolsonaro é um fujão. Agora que encontrou uma reação à altura era o momento do líder da direita brasileira mostrar na prática a valentia que ele e seus seguidores trombeteiam o tempo todo.

A alegação sobre a ação de “grupos de interesses”, além de revelar a frouxidão do bolsonarismo quando encontra a reação de gente determinada, demonstra ignorância sobre o efeito internacional do que o governo Bolsonaro vem fazendo em várias áreas e também da rejeição que as falas do próprio presidente vem alimentando em todo o mundo. De fato, os tais “grupos de interesse” são muito fortes nos Estados Unidos e na Europa, o que faz parte de democracias mais bem estabelecidas.

Bolsonaro perdeu uma boa chance para mostrar que é valente de fato, encarando esses opositores com mesma agressividade e até a crueldade que usa com todos que discordam dele aqui no Brasil. No entanto, essa tarefa é muito mais difícil do que insultar jornalistas brasileiros, que por imposição do papel profissional, não podem colocá-lo em seu devido lugar. Também não é a mesma moleza que insultar minorias, ofender mulheres, desmerecer o trabalho sério das pessoas e seus direitos.

Como se costuma dizer, Bolsonaro fugiu do pau. E com essa vergonhosa covardia selou de vez sua condição de presidente que não poderá mais fazer com tranquilidade nenhuma viagem ao exterior, por medo da reação que pode encontrar de estrangeiros decentes que tem a coragem de se contrapor à sua arrogância e grosseria.
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POR José Pires

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Bolsonaro e seu sonho retroativo de ser militar

Jair Bolsonaro é um sujeito tão papudo, que costuma falar certas coisas da maior responsabilidade, se colocando em um papel que não se sustenta pela sua própria história. Em cerimônia no Itamaraty, nesta sexta-feira, ele disse a diplomatas: “Quando os senhores falham, entramos nós, das Forças Armadas. E, confesso, que torcemos, e muito, para não entrarmos em campo”.

Bolsonaro forçou a barra com esse “nós, das Forças Armadas”. O presidente da República é quem manda nas Forças Armadas, porém este papel constitucional não faz dele um componente militar. Sobre isso, aliás, o general Ernesto Geisel já foi muito claro: “Bolsonaro é um mau militar”. O ex-presidente do penúltimo governo do ciclo da ditadura militar falou isso em uma entrevista, lembrando o tempo em que Bolsonaro, já como deputado federal, atiçava as casernas para que os militares dessem outro golpe, retornando ao poder.

A verdade é que Bolsonaro saiu corrido do Exército Brasileiro. Respondeu a um inquérito por insubordinação e chegou a ficar preso 15 dias. Foi em 1988 o julgamento que pôs fim a sua carreira militar. Foi absolvido no STM, mas ficou claro que o processo podia voltar a ser apreciado. Foi praticamente uma ordem para que ele pedisse pra sair.

Quem abandonaria uma carreira militar no posto de capitão, saindo do Exército para ser vereador no Rio de Janeiro? Foi o que Bolsonaro fez. Das duas, uma: ou não tinha muito apreço pela carreira militar ou foi obrigado a sair. Portanto, “nós, da Forças Armadas”, uma pinóia. Bolsonaro está mais para paisano, além de já ter demonstrado que o conceito que Geisel tinha dele como militar serve também para definir sua qualidade como civil.
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POR José Pires

quinta-feira, 2 de maio de 2019

A invasão da casa de Leopoldo López e os livros deixados para trás pelos capangas de Maduro

Tive uma boa impressão ao ver as fotografias do interior da casa do líder oposicionista venezuelano Leopoldo López. Muitos livros, o que é algo inusitado na residência de um político latino-americano. Infelizmente o motivo das fotos foi a invasão da casa do político, que desde terça-feira está refugiado na embaixada da Espanha. López mantém-se na luta nas ruas contra a ditadura de Nicolás Maduro, ao lado de Juan Guaidó, presidente do Parlamento reconhecido por mais de 50 países, entre eles o Brasil e os Estados Unidos, como presidente encarregado da Venezuela.

López é um político diferente da tosca direita venezuelana. Tem o perfil social-democrata. Era um dos favoritos na última eleição venezuelana para presidente, mas junto com Henrique Capriles promoveu o boicote das eleições, forçados pelos esquemas injustos que acabaram levando à reeleição fraudada de Maduro. Ele estava em prisão domiciliar, vigiado por guardas armados, até ser libertado por soldados contrários ao governo venezuelano durante a rebelião popular que começou na segunda-feira.

A invasão da casa do líder oposicionista foi certamente feita por um bando ligado ao governo Maduro. Os bandidos reviraram o local, destruiram e roubaram muita coisa. Mas como é do comportamento de capangas de ditadores, deixaram os livros, que aparecem nas fotos feitas enquanto Lilian Tintori, esposa do líder oposicionista, avaliava os danos e começava a arrumação. “Arrumarei minha casa, porque é o nosso lugar, onde vivem nossos filhos, se queriam amedrontar-nos aqui seguiremos de pé, firmes, como todos os venezuelanos”, ela escreveu no Twitter.

A foto que publico aqui é do Twitter dela. Reparem que em meio aos muitos livros, no chão está uma obra de Nicolau Maquiavel — o grande Nicolau — tendo na capa sua imagem mais conhecida, com o atilado olhar, numa cena em que o filósofo italiano bem pode estar questionando como é que ainda estamos desse jeito na América Latina, depois de passados tantos séculos que ele pensou e escreveu tudo aquilo.
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POR José Pires

Verissimo e Olavo de Carvalho, juntos no gosto pelas graças do poder

Com o Brasil embolado numa decadência sem precedentes é claro que os critérios de honra ao mérito também teriam de descambar para níveis muito baixos. Estou falando da condecoração de Hamilton Mourão e Olavo de Carvalho com o grau de Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco, a mais alta homenagem do governo brasileiro. Outras 32 pessoas foram agraciadas pelo presidente da República com a medalha.

Nem vou falar do mérito pessoal de Mourão, de Olavo ou dos outros homenageados, mas a verdade é que recebem a medalha meramente porque estão ao lado de Jair Bolsonaro. Com todos os presidentes foi desse jeito. Até Michel Temer aproveitou o bocadinho de mandato que pegou de Dilma Rousseff e fez uma festinha com sua turma. E acontece a mesma coisa em todas as instâncias, da mais chinfrim câmara de vereadores aos governos estaduais e até mesmo na iniciativa privada. Paparicar a própria turma é um hábito nacional. O que levou ao descrédito de praticamente toda homenagem pública.

Não há nenhuma forma de reconhecimento oficial no Brasil que não tenha sofrido uma séria desmoralização desta política do compadrismo, que é geral, sem diferença de partidos, ideologias ou qualquer outro tipo de relação. E o engraçado é que todos sabem que essas homenagens não valem nada, exatamente porque para ser agraciado basta ter afinidade com o poder, no entanto quando surge a oportunidade de receber uma medalha todo mundo corre oferecendo o peito.

Mesmo os que promovem para si próprios a fama da independência de qualquer poder e o desapego a veleidades mundanas. É o caso de Olavo de Carvalho, que trombeteia o tempo todo que não está nem aí para esse tipo de coisa, mas pega com todo gosto qualquer naco de reconhecimento falso que lhe oferecem. O guru do Bolsonaro já recebeu até uma comenda da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, concedida pelo então deputado Flavio Bolsonaro, evidentemente com os votos favoráveis daqueles gatunos eleitos no Rio. A homenagem é tão fajuta que o filho do Bolsonaro já havia dado a mesma comenda a um chefe de milícia, atualmente procurado pela polícia.

O processo de homenagens oficiais é tão degenerado no país que nem a Ordem de Rio Branco se salva. Esta mesma medalha recebida de Bolsonaro por Olavo e Mourão já foi dada para Marisa Letícia, a falecida esposa de Lula. Foi entregue por ele próprio em 2010, no segundo mandato como presidente. Lula aproveitou para homenagear no mesmo dia a esposa de seu vice José Alencar. E que não se questione o que ambas fizeram para merecer o galardão. O sistema é o mesmo do filósofo da Virgínia: um padrinho poderoso basta.

Além de agraciar a mulher dele e a de seu parceiro de chapa, o chefão petista também já deu a Ordem de Rio Branco para Luis Fernando Veríssimo. Neste caso foi conferida à homenagem uma ironia interessante, ainda que involuntária. Humorista recebendo medalha é um sinal de total esculhambação de  valores. E também resultou nesse revoluteio histórico, que agora revela que Olavo e Verissimo até que têm suas semelhanças. Cada qual num extremo, mas ambos bastante chegados em um agrado do poder.
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POR José Pires

quarta-feira, 1 de maio de 2019

No topo do sucesso

Três empresas que estavam entre as patrocinadoras do evento em Nova York que vai homenagear o presidente Jair Bolsonaro retiraram seus apoios. São elas a companhia aérea Delta, a consultoria Bain & Company e o jornal Financial Times.

A homenagem promovida pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos já sofreu outras rejeições, com a desistência do Museu de História Natural de Nova York em sediar o evento, que foi também rejeitado pelo restaurante Cipriani Hall.

A homenagem a Bolsonaro está virando o mico do ano para a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, mas ele não tem do que reclamar. Um sujeito que se esforça tanto para ser detestável tem que colher como uma grande glória o fato de ter conseguido se tornar persona non grata para tanta gente.
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POR José Pires

A velha herança da esquerda

A esquerda brasileira passou anos repetindo a cantilena da “herança maldita”, com a acusação lançada aos adversários sobre problemas que o PT encontrou quando assumiu o governo. O mais atacado com essas acusações foi o governo anterior, do PSDB. No entanto, a verdade é que herança maldita mesmo é que vem sendo criada pela esquerda, com o legado trágico de governos populistas como esse comandado por Nicolás Maduro, na Venezuela, além de outros países que tiveram a infelicidade de ter governos parecidos, como o próprio Brasil, com o ciclo de governos petistas de Lula e Dilma Rousseff.

Enquanto esteve no poder, o PT até mesmo se serviu do poder econômico e político do nosso país, criando esquemas para beneficiar regimes alinhados politicamente ao partido do Lula. Foi o caso dos favorecimentos ao governo de Evo Morales, na Bolívia, da imensa fortuna despendida em financiamentos a empreendimentos como o Porto de Mariel, em Cuba, além da dinheirama desperdiçada na Venezuela. A conta com o regime bolivariano ficou pesada. Sem contar o que vai ser gasto com o desastre político e econômico gerado pelo chavismo — para se ter uma idéia, nesta quarta-feira o governo brasileiro para liberou R$ 223,8 milhões para assistência emergencial e acolhimento de cidadãos da Venezuela. Além desses custos extras, tem também o prejuízo com os negócios feitos pelos petistas, como o calote de R$ 1,6 bilhão ao BNDES.

É um tremendo prejuízo que vem do que chamei de herança maldita, cujo custo não é apenas financeiro. Na dificuldade de tirar Nicolás Maduro do poder está o substrato dessa herança, com capacidade ideológica de criar uma variedade de problemas por um tempo indefinível, mesmo que aconteça logo a queda do ditador venezuelano. Desde a primeira eleição de Hugo Chávez, o regime bolivariano estabeleceu um apoio popular organizado, que age na sustentação do governo e na intimidação dos adversários, com o uso inclusive da violência física. Para isso, tiveram a assessoria da ditadura de Cuba, que conta com uma técnica antiga de manipulação e controle das massas. Chávez herdou essas técnicas cruéis.

O regime cubano cuidou muito bem do controle da população, já no começo da Revolução Cubana. Desde 1960 até as crianças são organizadas por meio dos chamados “Pioneiros rebeldes”. Os jovens têm também suas instituições próprias. Vejam a semelhança com manipulação de crianças e jovens promovidas pelo regime nazista na Alemanha e pelos fascistas de Mussolini, na Itália. No Brasil é provável que haja uma surpresa logo mais com o resultado, digamos, em “recursos humanos”, do que o MST vem produzindo atualmente em escolas totalmente sob o poder da organização. O autoritarismo não se consolida sem este controle das massas, que começa na doutrinação dos mais jovens.

O governo de Hugo Chávez e de seu sucessor Maduro contam com a assessoria direta do governo cubano, que hoje em dia na América Latina é o regime com maior experiência no domínio político de uma população. Nesta técnica, um de seus trunfos foi a criação dos Comitês de Defesa da Revolução, os CDRs, que atuam de forma local, em comitês formados pelos moradores de cada bairro. Em Cuba isso existe desde a subida de Fidel Castro ao poder. Cada CDR é responsável pelo controle do que acontece no bairro, claro que com a política secreta no controle nacional do mecanismo. É uma infalível máquina de delação, com um papel terrível de intimidação no cotidiano de cada cidadão. Esta modalidade de controle político foi instituída na Venezuela, onde atua também com membros armados, com milícias que agem para intimidar adversários nos períodos eleitorais.

Sua atuação explica em parte o sucesso eleitoral de Chávez e depois de Maduro. Em determinados bairros é impossível a oposição entrar para fazer campanha. O processo é muito parecido com o que acontece em localidades do Rio de Janeiro controladas por milícias paramilitares. A diferença é que na Venezuela esta pressão violenta é sustentada diretamente pelo governo de Maduro, com justificativa ideológica até para matar os que são contra o regime bolivarianista. Com Chávez, as eleições na Venezuela transcorriam em clima de intimidação e supressão até do direito de ir e vir da oposição. Com Maduro é a mesma coisa. O poder é mantido no grito, com violência e desrespeito às mínimas regras democráticas. Isso vem da herança maldita estabelecida anteriormente pelo regime cubano, que depois teve a ajuda política e financeira do governo do PT na sua sustentação. E o pior é que independente do que ocorrer com Maduro, a herança maldita se manterá como um grande perigo, com influência no futuro da Venezuela e também no que vamos viver aqui no Brasil.
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POR José Pires

segunda-feira, 29 de abril de 2019

O presidente bagunçador do mercado

Será que Jair Bolsonaro ainda não percebeu que não é mais apenas um deputado bestalhão do baixo clero? Pois ele tem que tomar consciência de que atualmente o bestalhão é presidente da República. Quando fazia seus furdunços como deputado é claro que ele e os filhos políticos lucravam com as barbaridades. Eles ampliavam seu eleitorado arrumando encrenca com adversários e distribuindo vídeos grosseiros nas redes sociais. Mas hoje em dia é bem diferente. O perde-ganha afeta até as finanças do país.

Quando Bolsonaro fala, agora como presidente, fortunas trocam de mãos. Pessoas podem ficar ricas do dia pra noite. Será que alguém sabe antecipadamente o teor de suas declarações em público? Espero que não, pois inclusive seria um crime. Nesta segunda-feira, em uma feira agropecuária ele pediu ao presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, para reduzir juros de empréstimos a produtores rurais. Foi o que bastou para uma queda das ações do banco na Bolsa, que chegaram a cair 1,5%, depois de operarem em alta de 1,9% pela manhã.

Imaginem a dinheirama que vale a informação antecipada de que Bolsonaro vai fazer um singelo pedido como este ao presidente do banco estatal. Foi de um jeito parecido que há poucos dias ele derrubou as ações da Petrobras, quando mandou revogar o aumento do preço do diesel decidido pela diretoria da empresa. Pelo que consta, nem o ministro da Economia, Paulo Guedes, estava sabendo que ele iria anular desse jeito o aumento. E sendo do ramo, claro que Guedes sabe o valor de uma interferência como esta. É coisa que, com certeza, enriquece muito mais rápido que passar a mão em salário de funcionário nomeado em gabinete.

Claro que não estou acusando ninguém, pois teria que ter provas, daí a ter que manter o assunto apenas no plano do estranhamento, porque apesar de ser um sujeito totalmente sem noção para a função de presidente da República, Bolsonaro conhece muito bem o valor de uma polêmica pública, já que subiu na vida explorando esse tipo de coisa. Então qual é a razão da movimentação que ele vem criando no mercado desde que tomou posse? Não tem como não suspeitar de um falatório que movimenta tanta grana. Mas também pode ser ele esteja fazendo isso apenas porque ainda não tomou consciência da sua importância como bestalhão.
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POR José Pires

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Turismo sexual na visão de Bolsonaro

Nesta quinta-feira, em café da manhã com jornalistas, Jair Bolsonaro mandou ver mais uma das suas. Dilma Rousseff vai acabar ficando para trás em matéria de confusão mental. Ele disse que o Brasil “não pode ser o país do turismo gay”.

As suas palavras: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay aqui dentro”.

Na prática, Bolsonaro disse que turismo sexual é aceitável, desde que seja com objetivo heterossexual. Tem que ser coisa de macho. Como ele mesmo afirmou, “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade".

A questão não é de governo, na esfera da lei, dos costumes, do respeito à dignidade humana. É um problema pessoal psicológico, que aparenta ser grave. A fixação do presidente é coisa séria.
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POR José Pires

O trem-bala de Dilma passa pra mão de Bolsonaro

Tem tanta coisa encoberta no Governo Federal, com organismos que geram custos sem servirem para nada, que de vez em quando ficamos sabendo da existência de uns deles que parecem saídos de alguma fábula ou de uma dessas histórias de realismo mágico, do tempo do boom da literatura latino-americana. Claro que isso nada tem a ver com o encantamento da obra de um García Márquez, mas do mesmo modo o enredo é fora da realidade.

No Brasil gasta-se o que não se tem em ideias e projetos que não passam de ficção. Estão aí o tempo todo, sem que o brasileiro se aperceba da sua impalpável existência. É o caso do tal do trem-bala, de Dilma Rousseff, que serviu para o PT ganhar votos na sua primeira eleição. Tudo parecia algo apenas de propaganda eleitoral, mas não é que foi montada até uma estatal com aquilo? E não ficou barato.

O projeto vinha do governo Lula, foi usado por Dilma para engabelar eleitores e depois, no governo dela, foi criada a estatal. Prometiam entregar antes das Olimpíadas de 2016 o primeiro trecho da ferrovia ligando Rio a São Paulo. No entanto, não apareceram investidores privados, nacionais ou estrangeiros, dispostos a tocar o projeto. Quem é fã do Paulo Guedes que pense nisso quando ele aparecer com suas considerações de que basta abrir para a iniciativa privada que o dinheiro entra. No Brasil, as genialidades do liberalismo costumam se pagas depois pelo Estado.

Podia-se pensar que o trem-bala de Dilma era coisa do passado. Mas essa falseta esteve aí o tempo todo, com estatal e tudo, com o custo da ficção saindo dos bolsos dos brasileiros. Desde aquela época existe uma estatal chamada EPL, sigla de um nome pomposo: Empresa de Planejamento e Logística. Não se faz nada neste troço e para isso precisam de uma porção de funcionários: são 143 cargos, a um custo anual de R$ 70 milhões.

Bolsonaro foi eleito para acabar com essas coisas e até tinha prometido extinguir esta empresa, entre outras ricas inutilidades. Mas já recuou. Seu governo vai embarcar no sonho do trem-bala. O Estadão informa que estão contratando mais pessoal, com sete pessoas entrando este mês. Como se vê, o realismo mágico vai continuar.
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POR José Pires

Bolsonaro e Olavo de Carvalho; uma parceria do barulho

O chega-pra-lá dado por Jair Bolsonaro em Olavo de Carvalho não é evidentemente uma atitude pessoal do próprio presidente. A nota oficial é um trabalho de equipe. O conteúdo do texto foi definido por um grupo e claramente imposto a Bolsonaro. Se fosse por ele, tudo se manteria do jeito que vem sendo desde sua posse, com Olavo criando uma impressionante cizânia no governo. O professor de filosofia tem de fato uma grande ascendência sobre Bolsonaro, exercida em grande parte por causa do fascínio que os filhos têm pelo guru. Pela vontade de Bolsonaro não seria alterado o prestígio de Olavo, até porque o clima de agressividade tem um objetivo que deve ter sido assoprado nos ouvidos do presidente.

O efeito do descarte público do guru já pode ser sentido nas redes sociais, que é onde a influência de Olavo pode ser sentida, publicamente por seus posts no Facebook e internamente nas suas aulas do COF, o cursinho de filosofia que ele ministra da sua casa na Virgínia, nos Estados Unidos. O contato com o professor no curso à distância é que dá origem às pautas depois retransmitidas em redes sociais pelos discípulos e que também seguem na rede subterrânea do bolsonarismo.

É desse esquema de comunicação que até deputados da base do governo Bolsonaro se queixam. Também vem daí o desconforto dos militares. De forma brusca, mais para panfleto que para filosofia, Olavo vem teorizando sobre a atuação dos militares na política. Ele tenta reescrever de modo peculiar a história do período da ditadura militar. Esta narrativa tem aspectos risíveis, que colocam até o penúltimo presidente do ciclo ditatorial e organizador da saída dos militares do poder, general Ernesto Geisel, como um facilitador da atuação da esquerda. Como costuma ocorrer em decorrência do estilo do velho professor da Virgínia, o assunto pode tomar ares de delírio. Já vi olavetes em vários lugares tachando Geisel como “esquerdista”.

Que ninguém espere que venha de Olavo de Carvalho um estímulo à governabilidade de um país, com a criação de um clima de “bom temperamento e a moderação das facções contrárias”, para citar um renomado filósofo, este sim um liberal. Foi Adam Smith que afirmou tal coisa, ele que na sua teoria da educação universitária, tem a visão de que é preciso “aprimorar o entendimento ou para consertar o coração”. No entanto, a filosofia do guru da família Bolsonaro não tem como base a criação de uma razoável harmonia que permita estabelecer um produto prático de uma doutrina. Ele próprio se gaba de não ter nenhuma doutrina prática. E basta assistir a uma aula sua, onde de filosofia mesmo pouca coisa tem, para ver que isso também se aplica à sua didática.

Para mim, Olavo de Carvalho é um sujeito que passou parte da vida em busca de um guru — por isso foi até do Partido Comunista Brasileiro, o antigo Partidão de Luis Carlos Prestes, que sempre atraiu muita gente que precisava de um consolo dogmático para a existência. Entre outras coisas, Olavo foi também muçulmano, tendo sido membro de uma seita menor em São Paulo, onde se praticava até a poligamia. E esteve também atrás de outros gurus, conforme ele mesmo conta em vídeos na internet.

Ocorre que os mestres não confirmaram suas expectativas e com o tempo ele julgou ser muito fácil ser ele próprio o guru. E aqui temos o típico caso do aprendiz de feiticeiro com dificuldade de perceber que a aparente facilidade de tornar-se um mestre era uma ilusão criada pela precariedade da formação dada pelos gurus que teve na vida. Claro que uma coisa levou à outra. Quem é seu seguidor fiel, enquadrando-se nas suas teorias amalucadas — com a exigência até mesmo da adoção absoluta do ódio aos inimigos do mestre —, pode ter benefícios, como a incorporação em um grupo social, cercando-se de proteção e elogios (além dos likes no Facebook), como o próprio mestre buscava no passado, antes dele próprio resolver virar guru.

É uma condição de aparente comodidade, que dispensa inclusive de encarar dúvidas e o mergulho na eterna avaliação das contradições. Essa é a tarefa de todo verdadeiro estudioso até o fim da vida, esforço dispensado pelos dogmas de uma seita. Porém, como já foi observado nesses meses iniciais do governo, esta filosofia da conturbação não tem serventia na hora da aplicação ao trabalho prático. Foi o que se viu no Ministério da Educação, entre outras atrapalhações criadas no governo Bolsonaro pelo chamado olavismo. É provável que até mesmo Bolsonaro venha a sentir como funciona essa filosofia de moer o próximo, que por ora ataca com unhas e dentes o tal do núcleo militar de seu governo. Tais engrenagens de destruição de reputações forçosamente devem chegar ao próprio presidente. Será interessante ver o que o Carluxo escreverá no Twitter quando começar esse fogo amigo sobre seu pai.
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POR José Pires