sábado, 13 de julho de 2019

As doces trending topics da Paraty de Glenn Greenwald

Leio nas redes sociais notícia repassada entre a esquerda de que a hashtag “Parabéns Paraty” amanheceu neste sábado em primeiro lugar nos chamados trending topics. No dia anterior, Glenn Greenwald participou da Feira Literária de Paraty, a Flip. Só não é inusitada a presença do vazador de mensagens privadas de autoridades brasileiras em um evento ligado à literatura porque não é de agora que a Flip vem se tornando palco de exibição da pauta da esquerda brasileira.

A cultura em nosso país está tomada por esta partidarização à esquerda e agora já se sabe que a direita pretende fazer o mesmo. Isso põe em risco a cultura brasileira e por extensão a capacidade produtiva de todos os outros setores. A contaminação partidária acaba com a qualidade de qualquer evento. É o que ocorre com a Flip, que além de chata está cada vez mais irrelevante.

Como eu disse, nas redes sociais se diz que a hashtag “Parabéns Paraty” bombou no Twitter e isso é mesmo possível. Sei muito bem qual é o plano. Tentam ganhar a opinião pública, especialmente no exterior, para que se pense que o Brasil inteiro aclama a participação do dono do The Intercept, com o apoio à sua conversa de ativista partidário em uma festa que deveria ser literária e de debate sério da cultura.

Mas existem várias formas para destacar artificialmente um assunto no trending topics e para isso Greenwald deve estar bem assessorado. Afinal, quem recebe em mãos para publicação quase 1 milhão de mensagens de autoridades do Ministério Público, da Justiça e sabe-se lá de quem mais, deve ter por perto profissionais que conhecem os meios para colocar seu nome nas alturas na internet.
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POR José Pires

sexta-feira, 12 de julho de 2019

O filhotismo arraigado de Jair Bolsonaro

O pessoal em torno do presidente Jair Bolsonaro vem fazendo um esforço para justificar sua nomeação do filho Eduardo Bolsonaro como embaixador nos Estados Unidos, mas não tem jeito: o estrago político é enorme. Já não está fácil para bolsonaristas falarem em ética, probidade e todos os adjetivos que a direita usa para se auto-elogiar, aproveitando para atacar adversários, acusando-os de defeitos que a eleição de Bolsonaro teria vindo para sanar.

Como é que vai ficar aquela palavrinha muito falada pela direita, a tal da “meritocracia”? Depois dessa, ficará difícil para algum seguidor de Bolsonaro repeti-la sem que todo mundo caia na gargalhada.

O bolsonarismo vem tentado o impossível. Querem convencer a opinião pública de que não há nepotismo nesta nomeação. Para isso apelam para a citação de decretos, súmulas vinculantes e outras manobras. Foi o que fez em nota, nesta sexta-feira, a Controladoria-Geral da União. Mas acontece que certas imoralidades do poder podem muito bem ser cometidas dentro da legalidade.

O nepotismo não tem nenhum impedimento legal em ditaduras africanas, por exemplo, onde por favorecer a parentada não há nenhum perigo de alguém ir para a cadeia ou perder o mandato. Por sinal, com coisas como esta o Brasil vai ficando com fama parecida aos olhos do mundo.

O que vale não é apenas a letra da lei, mas o respeito à moralidade pública. Faz muito tempo que o entendimento desta palavra — que por sinal costuma vir acompanhada do termo “filhotismo” — já está até dicionarizado. Está lá no velho Aurélio, no Michaelis, também no Aulete, no Houaiss e em tantos outros a definição dessa sem-vergonhice.

Não há lei que derrube a compreensão deste conceito. Esta é a definição do dicionário Aulete: “Nepotismo: Favorecimento de amigos e parentes por parte de quem ocupa cargos públicos”.

Outra definição muito interessante é do Michaelis, que diz exatamente isto: “Favoritismo de certos governantes aos seus parentes e familiares, facilitando-lhes a ascensão social, independentemente de suas aptidões”. Reparem que é exatamente o que Bolsonaro vem fazendo há trinta anos com seus filhos e outros parentes. Na família Bolsonaro o nepotismo é uma tradição.
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POR José Pires

O desgosto de Ciro Gomes

Ciro Gomes defendeu a saída da deputada Tabata Amaral do PDT por ela ter votado a favor da reforma da Previdência e cita Djavan para definir a divergência com a jovem deputada: “Desgosto de filha”, ele disse para explicar sua sensação com a polêmica.

Como se sabe, o cantor Djavan é conhecido por suas composições abstratas, com letras em que ele junta frases de sentido vago. Estilisticamente são devaneios que se encaixam com precisão na música. Funcionou muito bem em várias canções de sucesso, até porque ele é um excelente cantor, de estilo próprio e interpretações muito marcantes. É um autor de músicas realmente muito boas e se impôs em uma época em que a MPB estava coalhada de grandes artistas.

Mas acontece que Ciro foi citar exatamente um trecho da canção “Faltando um pedaço”, que tem um sentido mais claro: “desgosto de filha” é uma expressão antiga, coisa mais do interior, que toca numa questão de comportamento, que certamente deve ter um expressivo peso moral no sertão nordestino. Djavan é de Alagoas. O desgosto é pela gravidez indesejada de uma filha. Não é o caso do problema entre Tabata e Ciro.

Além disso, Ciro não é exatamente um exemplo de boa relação de um homem mais maduro com os jovens. Reparem que boa parte de suas encrencas públicas vem da intervenção de jovens da platéia, que o deixam muito irritado. Ele não sabe lidar e muito menos compreende a ousadia da juventude, muito menos sua impertinência natural. E não foram poucas vezes que sua resposta a um questionamento de alguém mais jovem é o famoso “Vá estudar, garoto!”, próprio de quem não respeita divergência, ainda mais vindo de alguém mais jovem.

E quanto à citação de Djavan em um debate sobre posicionamento político, chega a ser um despropósito, por causa da total falta de lógica que intencionalmente o compositor aplica nas letras de suas canções, um resultado trabalhado por ele com a técnica de quem cria um estilo. Acaba sendo muito bom, afloram ótimos achados poéticos que encaixam na voz de forma muito bonita. Porém, como filosofia política só pode servir para Ciro Gomes. Não pela beleza artística, mas pela falta de lógica, que embaralha a compreensão e nada tem a ver com um pensamento objetivo. Tem muito a ver com o Ciro, na sua confusa personalidade. Enfim revela-se que sua filosofia é simplesmente o djavanês.
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POR José Pires

O chefe que atrapalha o serviço

Já se diz que a votação em segundo turno da reforma da Previdência pode ir para depois do recesso do Congresso, em agosto. Caso isso ocorra, provavelmente a proposta corre riscos. Neste período de espera pode haver a desmobilização dos apoiadores e abre-se a oportunidade para a oposição criar complicações futuras.

E o presidente Jair Bolsonaro não só não ajuda como atrapalha bastante, como fez diretamente quando tentou favorecer agentes de segurança e nas suas constantes atrapalhações políticas, algumas abaladoras para a credibilidade do governo, como essa ideia de nomear seu filho Eduardo Bolsonaro para a embaixada dos Estados Unidos, que aparece em momento crucial da reforma, quando o presidente da Câmara e parlamentares trabalham duro para sua aprovação.

Com este presidente sem noção aprontando o tempo todo como estará a situação política depois do recesso? Outro fato a ser avaliado, mas aí já com a reforma aprovada, é que evidentemente será preciso colocá-la em prática, o que deixa de ser responsabilidade do Legislativo, passando para a esfera do governo, inclusive com a tarefa de encaminhar e colocar em prática outras medidas necessárias para compor com as mudanças na Previdência o cenário econômico que pode tirar o país dessa grave crise.

E alguém acha isso possível sob o comando de um presidente que no meio de uma crise brutal e enquanto deputados labutam para aprovar uma proposta vital para seu governo está ocupado em nomear o filho como embaixador? Eu duvido muito. Até espero estar errado, porque sei que com a permanência dessa toada grotesca a nossa vida não vai melhorar, mas tenho a convicção de que o problema mais grave do país é mesmo o de comando.
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POR José Pires

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Ciro Gomes, Tabata e os dissidentes a favor da reforma da Previdência

Quem ficou com um grande pepino depois dessa votação da reforma da Previdência foi Ciro Gomes. O PDT fechou questão contra a reforma, mas oito deputados do partido votaram a favor da proposta, inclusive a revelação nacional da bancada, a deputada Tabata Amaral. O partido tem 27 deputados.

O problema de Ciro é ainda mais grave porque ele vem conduzindo este debate partidário bem a seu modo, sem respeito às opiniões contrárias. Também o presidente do PDT, o notório Carlos Lupi, tentou atropelar as vozes divergentes, afirmando que “quem quiser o lado dos banqueiros, que vá para o lado de lá”. Bem, ele só pode estar falando com certo atraso da proposta de Paulo Guedes, do sistema de capitalização, que não entrou no projeto votado pela Câmara. Os brucutus pedetistas trataram os próprios colegas de partido como políticos que trocam o voto pela verba de emendas do governo.

O debate sobre esta questão deveria ter sido encaminhado nos processos internos de discussão partidária, se é que o PDT tem isso, mas o encaminhamento que se impôs foi no estilão de Ciro Gomes, com ameaça de expulsão e achincalhamento público de quem propunha o voto favorável. Claro que isso dificulta bastante a negociação agora com os dissidentes para encontrar uma solução de consenso, sem o desgaste da ruptura.

Imaginem o clima para a convivência partidária depois das ameaças públicas de expulsão, além de que mais pra frente Ciro vai com certeza pegar o microfone e voltar a xingar companheiros que divergirem dele em outros assuntos. A decisão mais sensata para Tabata Amaral é sair logo desse partido ou vai prejudicar sua carreira, iluminada espontaneamente pela atenção da opinião pública.

Ainda na metade do ano, Ciro Gomes já foi reprovado ao enfrentar uma situação na qual um candidato derrotado à Presidência da República tem a obrigação de se sair bem. Ele mostrou que é incapaz de organizar politicamente, administrar e definir rumos até de um partido pequeno.
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POR José Pires

A reforma da Previdência e o destino de uma esquerda sem rumo

A esquerda conseguiu ficar com a fama de derrotada na reforma da Previdência. Tentando como sempre se alinhar no perfil de combatente, não trouxe contribuição para a pauta mais importante do Congresso neste primeiro semestre. Não conseguiu colocar sua posição crítica junto à população nem elaborou propostas para melhorar ainda mais uma reforma inevitável. Não trouxe ao debate argumentação ponderada, no convencimento e na articulação inclusive com os contrários, como deve ser o debate político. O placar acachapante de 379 a 131 traz uma pista da razão da falta de rumo dessa esquerda.

Este número palíndromo (quando pode-se ler algo de trás pra frente) do 131 parece ironia do destino. Serve como simbologia para o atolamento esquerdista em batalhas vazias, confrontos que não trazem resultado prático para um país que vive em uma crise inédita, que toma conta de tudo. E para o combate a este desastre resta pouquíssima estrutura, existe a tarefa de resolver questões morais e de corrupção, pesa também a brutal violência e o crescimento do poder do crime, enfim temos uma série de empecilhos que tornam ainda mais difícil criar soluções práticas, alguma delas de necessidade urgentíssima.

É preciso reconstruir quase tudo e neste trabalho vai-se enfrentar também transformações globais com a mudança brutal forçada no campo do trabalho pelas novas tecnologias, o agravamento da questão ambiental, o realinhamento político mundial em blocos comerciais poderosos e, claro, a falência de sistemas de amparo social, como em parte é o caso da Previdência, que por variadas causas atualmente passa por um processo de discussão e reestruturação em todo o mundo.

Enquanto vive-se nesta aflição, com a maioria da população já sabendo que é preciso construir ao menos uma base mais ou menos sólida para repor forças necessárias para enfrentar os problemas, a esquerda tenta envolver o país em pautas vazias que faz sentido apenas em um círculo restrito da militância, além de servir, claro, para uma parcela igualmente restrita, no entanto muito poderosa, de salafrários que não querem ver o país com leis e regras mais sérias no combate à corrupção e aos criminosos no geral.

Enquanto os brasileiros se mantinham de olhos grudados na discussão da proposta do governo Bolsonaro para a previdência, a esquerda se ocupava com os vazamentos explorados por Glenn Greenwald, no site do qual ele é dono. O alvo, como sempre, é Sérgio Moro. Esse tempo todo foi perdido com a questão exclusivamente partidária do Lula Livre. E o pior é que não percebem que esses assuntos não pegam e até causam alta rejeição. Além disso, falta massa de manobra para a esquerda nativa, como um Maduro tem na Venezuela e como dispõe também outro companheiro criminoso, o ditador Ortega, da Nicarágua.

Que a esquerda não se engane. É a perdedora na reforma da Previdência e pode continuar nesta posição com as futuras mudanças que virão. Mesmo quem não dá uma atenção especial para a política já percebe a falta de efetividade das propostas esquerdistas, além de ter ficado muito claro que seus parlamentares atuam só no ataque, na tentativa da desmoralização do que é apresentado pelos adversários. Em uma democracia não se elege um parlamentar apenas para o ataque a um governo, qualquer que seja sua linha política.

Isso é ainda mais claro na atual condição do país, até desesperadora. Nesta circunstância é preciso ajudar a construir, às vezes até se compondo em soluções mais amplas, fora de doutrinas partidárias. Acabou o tempo de malhar pesado um governo para depois ocupar o poder, como o PT vem fazendo desde que o partido foi criado. Esta lição se apresentou com esta reforma. Ou a esquerda aprende isso ou se manterá no papel de derrotada.
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POR José Pires


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Imagem- Sessão da Câmara de votação da reforma da Previdência.

Foto de Fabio Rodrigues Pozzebom, Agência Brasil

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Tabata Amaral e o PDT de Ciro Gomes próximos da separação

Acabou rápido o sonho de uma renovação política do PDT, com o destaque conquistado pela deputada Tabata Amaral com seu discurso progressista mais arejado e de uma sensatez política que faz tempo que não se via na esquerda. Tabata pode ser expulsa do PDT por ter votado a favor da reforma da Previdência nesta quarta-feira. Os caciques do partido parece que não compreendem que a perda também é de caráter simbólico.

A deputada estabelecia uma relação de empatia com a opinião pública e especialmente com a juventude. O eterno candidato a presidente Ciro Gomes também terá prejuízo político com esta expulsão. Por sinal, este impasse com o posicionamento da figura que na visão de muitos era uma revigorada no PDT mostra a incapacidade de Ciro para administrar sem rupturas até questões internas de um partido. E esse cabra queria ser presidente da República.

A deputada já havia se pronunciado a favor da reforma, mas o PDT fechou questão contra a proposta. No dia da votação, o presidente do partido, Carlos Lupi,  avisou que vai haver punição ao parlamentar que desobedecer a resolução. Ele foi ao Twitter para atacar quem defende o voto favorável. “Quem quiser o lado dos banqueiros, que vá para o lado de lá”, escreveu o pedetista.

O notório Lupi dando lição de moral pelo Twitter chega a ser engraçado. Mas mesmo Ciro Gomes, que até então exaltava Tabata como a grande revelação da política brasileira, andou sendo grosseiro com a moça. Depois de telefonar para a deputada para pedir que ela seguisse a orientação do partido, ele passou a insinuar que o voto favorável é por favorecimento pessoal.

“Eu fiz um apelo humilde pelo voto dela, para que seja contrário à reforma da Previdência. O governo tem um poder de convencimento que a gente não tem. Nós temos as palavras e eles têm emendas”, ele disse. É bem diferente do que dizia antes. Em março, ele escrevia no Facebook o seguinte: “A deputada Tabata Amaral é um tesouro! Só quem não conhece sua linda historia ou a vê com medo do que ela será no futuro, pode atacá-la desonestamente! Seu único defeito é a pouca idade com que tem que enfrentar a velhacaria política brasileira”.

Tenho a impressão de que o medo que essa tal “velhacaria política brasileira” tinha do que Tabata poderia ser no futuro chegou mais cedo do que Ciro esperava. Um pouco mais de seis meses foi tempo suficiente para que ele e seu partido mostrassem que promessa de renovação e o discurso com o aceno para valores democráticos e de respeito para a opinião contrária era só no gogó. O PDT e Ciro continuam alinhados com o velho dirigismo autoritário dos caciques da esquerda.
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POR José Pires

Glenn Greenwald, o ativista atrapalhado

Que Glenn Greenwald é um mero ativista, isso é coisa que faz tempo que eu sei. A novidade é que agora, comandando a exploração política do vazamento de conversas particulares de autoridades brasileiras, ele mostrou que é de uma incompetência incrível como ativista.

Poucas vezes se viu algo tão desastroso politicamente como este vazamento, um esquema tão mal conduzido que mesmo se tiverem material de fato incriminador contra Moro e a Lava Jato já não existe mais clima político para atingir os adversários.

A última ação incompreensível do ativista mequetrefe foi a da divulgação desde áudio que o The Intercept afirma ser de uma fala de Deltan Dallagnol. Nem importa se a voz é de fato do promotor porque não colou a tentativa do site de Greenwald de criar um escândalo a partir de uma fala sem sentido.

Foi mais de um mês prometendo uma grande bomba, mas apresentando materiais muito fracos, descambando para a pura fofoca, como nas mensagens tentando colocar Moro contra os promotores e agora, com o áudio divulgado nesta terça-feira, procurando envolver o STF nesta história mal contada.

Aí é que Greenwald mostrou incapacidade como ativista político. Se a luz já estava amarela em relação ao perigo do estímulo a esta devassa na privacidade de autoridades, com certeza ficou vermelha com a divulgação do áudio, além da interpretação do próprio dono do The Intercept, afirmando que Dallagnol teria o conhecimento prévio de uma decisão do ministro Luiz Fux. Bem, isso dificulta atingir o objetivo desse vazamento, que é tirar Lula da cadeia.

Em sua matéria sobre este assunto, depois de fazer parceria com o The Intercept na exploração dos vazamentos, a Folha de S. Paulo disse que teve acesso a centenas de milhares de mensagens. Um fato interessante — que mesmo tendo passado desapercebido não é apenas um detalhe — é que a Folha não diz se as mensagens são apenas entre promotores do MP.

É provável que The Intercept tenha conversas de outras autoridades e pode ser que envolva até mesmo jornalistas de veículos sem o acesso ao material que não se sabe de quem Greenwald recebeu. Já apareceu até o apresentador Faustão. Não dá para ter dúvida que se der certo o que o The Intercept vem fazendo, esta prática de vazar conversas privadas vai passar a ser vista como algo rotineiro no ataque a adversários ou mesmo na difamação de quem pensa diferente.

Este método nada tem de jornalístico e é um dos maiores perigos que o Brasil corre atualmente, com danos que podem ir além da transformação da política em um conflito vazio, sem alcançar nada de produtivo, a não ser a destruição da reputação alheia. E que ninguém se engane, pensando que a questão se restringe à política. Com a aceitação desse tipo de atitude, onde tudo pode, acaba-se de vez no Brasil o direito à privacidade.
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POR José Pires

terça-feira, 9 de julho de 2019

The Intercept e o escândalo que não decola

O The Intercept finalmente divulgou nesta terça-feira o primeiro áudio do material que Glenn Greenwald, dono do site, recebeu sabe-se lá de quem. Os áudios vinham sendo citados de forma sensacionalista pelo jornalista, procurando criar suspense para o que, segundo ele, seria um grande escândalo. Greenwald faz isso desde que anunciou que tinha em seu poder grande quantidade de mensagens e áudios, com diálogos trocados entre membros do Ministério Público e também de Sérgio Moro.

O áudio apresentado hoje reforça a imagem citada por Moro, da montanha que pariu um rato, com a diferença que nem rato mais vem saindo dessa montanha. Neste primeiro áudio, alguém identificado pelo site como Deltan Dallagnol comemora a proibição de entrevista de Lula em 2018, numa mensagem que não faz sentido algum como denúncia. A redação do The Intercept e seu chefe Greenwald estão com um problema sério na verificação do devido peso político do material e até da relação entre as supostas conversas e os fatos.

Greenwald fala em “conhecimento prévio e secreto” de Dallagnol da decisão do ministro Luiz Fux, mas já está demonstrado que a notícia não era segredo para ninguém. O dono do The Intercept também acusa Dallagnol de querer ocultar a decisão “para impedir que a Folha pudesse recorrer”. Parece piada. O jornal teria de ser intimado, como de fato foi. É uma determinação que está em toda decisão judicial. Como é que Dallagnol manteria segredo de uma decisão do STF que a própria Folha noticiou pouco antes de sua suposta mensagem de áudio? São mistérios do jornalista investigativo Glenn Greenwald.

Exatamente neste dia 9 completa-se um mês da primeira publicação de vazamentos pelo The Intercept e claro que Greenwald já estava muito antes com o material. Tiveram tempo de sobra para vasculhar tudo e selecionar áudios e mensagens mais impactantes. Porém até agora só conseguiram trazer a público material sem relevância do ponto de vista jornalístico e que não servem nem ao objetivo óbvio de ativismo de esquerda.

O que tem de novo neste caso é a acusação de Greeenwald, que envolve um ministro da mais alta Corte do país. O ministro Fux seria então capaz de antecipar em segredo uma decisão do STF a um promotor público? A acusação é leviana e muito grave. Consolida a imagem do The Intercept como uma publicação meramente ativista, sem respeito aos fatos e totalmente sem credibilidade jornalística.
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POR José Pires

Pegando cana pelo Instagram

Já faz bastante tempo que me impressiono com o vício que se tornou o uso do celular. O pessoal não larga o aparelhinho nem para fazer exercícios de caminhada. Já vi até ciclistas dando uma olhada na telinha enquanto a bicicleta rodava. E a falta de cuidado não é apenas com a segurança física. Não é de agora que se sabe que não existe a menor garantia de privacidade nas conversações e nas mensagens enviadas por qualquer das plataformas, no entanto aparecem o tempo todo casos de vazamentos que criam incríveis complicações, como ocorreu com as conversas vazadas pelo site The Intercept.

Quando apareceram as primeiras notícias sobre este caso, o que mais me surpreendeu é saber que profissionais que atuam exatamente em investigações policiais estivessem usando despreocupadamente seus celulares para conversar sobre temas delicados que envolvem um trabalho de graves implicações políticas. Parece português de anedota, com seu crachá de agente secreto pendurado no peito. Faz lembrar também uma piada que apareceu logo que este aparelho foi inventado, do Joaquim atendendo o celular e perguntando como é que foi — Ó, raios! — que a Maria o encontrou no motel.

A relação com este aparelhinho traiçoeiro é mesmo de viciado. E se a dependência leva ao descuido com a própria saúde, que dirá com a segurança. Outra história sensacional de descuido com a privacidade aconteceu nesta terça-feira. A notícia é do fim dessa tarde. A Polícia Federal prendeu um traficante procurado pela Interpol depois que sua mulher postou a localização deles em uma rede social. Veja na imagem divulgada pela PF.

Ronald Roland era citado em três operações da Política Federal e tem relação com as Farc, da Colômbia, e os cartéis mexicanos de Sinaloa e Los Zetas, conforme diz os relatório final de uma das operações policiais. E foi preso em um restaurante da Zona Leste, em São Paulo, depois da mulher postar no Instagram o local onde almoçavam. Até parece fake news, mas aconteceu de verdade. O bandidão foi pego por causa desse objeto viciante que não sai das mãos de ninguém.
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POR José Pires

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Leia aqui a reportagem no G1

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O vazamento que virou tiro no pé

Desde o início dos vazamentos contra a Lava Jato foi fácil detectar o objetivo da exploração política do conteúdo das conversas. Como o andamento de tudo foi muito ligeiro, logo foi possível observar o resultado contrário ao interesse dos que estão por detrás disso tudo. A base da trama era desmoralizar Sérgio Moro, no entanto ele cresceu a partir da reação contra os vazamentos. Até manifestações de rua em seu favor aconteceram em várias cidades do país, o que é absolutamente inédito na política brasileira.

Jamais em nossa história um ministro de qualquer governo teve um apoio desse tipo. Considerando que Moro é ministro de um governo com poucas realizações e que vive armando uma crise atrás da outra, sua popularidade pode ser vista de fato como um fenômeno.

Não adianta mais a tentativa de jogar este caso para o terreno do Direito, procurando categorizar no âmbito da legalidade jurídica — às vezes com um cinismo repugnante — conversas de caráter privado. Para a opinião pública o caso é político, do mesmo modo que na avaliação popular se encaixam esses ataques. Percebeu-se logo o característico conflito pelo poder. E pelo resultado até aqui, já deve ter por detrás dos vazamentos muita gente arrependida pela tentativa de golpear Moro.

Duvido que exista algo que comprometa de forma grave o ministro, mas se houver alguma conversa mais pesada, estamos à frente de um erro estratégico até bem tolo. A tendência de qualquer crise é pelo seu esfriamento gradativo. Um vazamento começa com a informação de maior impacto. E de forma alguma se dá início de forma chocha, como ocorreu neste caso.

Os responsáveis por esta tentativa de golpear Moro e a Lava Jato devem estar lamentando por não terem segurado o The Intercept, evitando o lançamento da bomba que deu chabu. Sérgio Moro cresceu a ponto de ser citado como presidenciável já para a próxima eleição, teve apoio de massa nas ruas e se fortaleceu junto a Jair Bolsonaro. O presidente, por seu lado, tornou-se aos olhos do povo um fiador da Lava Jato.

Poucas vezes se viu uma manobra tão equivocada, mesmo dessa esquerda abobalhada que vem cometendo erros crassos que fizeram até seu governo cair. A operação anti-corrupção mais popular da nossa história ficou relacionada ao governo Bolsonaro e a defesa da impunidade está com a esquerda. Para o tiro no pé ser ainda pior, o Brasil ainda ganhou a Copa América neste domingo, em jogo que Bolsonaro assistiu ao lado de Moro. Bem, mas pelo menos isso não é culpa do The Intercept.
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POR José Pires


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Imagem- Foto de Carolina Antunes, PR

Veja e seus parceiros na tentativa da criação de narrativas que não colam

Parece que o lulo-petismo afinal conseguiu armar uma força-tarefa na imprensa. O objetivo mais que óbvio é derrubar Sérgio Moro, não apenas pela sua capacidade pessoal de caçar corruptos, mas pela carga simbólica de sua imagem. A queda de Moro seria um impulso para livrar Lula, o que neste caso também não se trata unicamente da liberdade de um indivíduo.

Os significados se entrelaçam nesses acontecimentos. A queda de Moro e a liberdade de Lula abrem espaço para um retrocesso no novo padrão de rigor instalado pela Lava Jato, com o trabalho para o fim da impunidade e da justiça seletiva. O Brasil conquistou finalmente o direito da prisão de corruptos, algo que jamais acontecia com os poderosos antes das ações memoráveis desses valorosos agentes públicos .

Este modus operandi já alcançou resultados fantásticos, no entanto ainda não é um padrão estabelecido. Pode ser derrubado. E se isso ocorrer, o país perderá a chance de obter o efeito mais importante dessa transformação, de estender para a segurança pública este mesmo rigor na caça e na punição de criminosos de colarinho branco, além de corruptos que preferem camiseta vermelha com estrela estampada.

Que ninguém deixe de lembrar que antes de atuar contra a corrupção Moro condenou chefões do crime organizado. Agora, no Ministério da Justiça, é o primeiro da pasta em décadas que atua contra chefões de quadrilhas e de faccões. E também tem uma posição de rigor contra organizações criminosas, com propostas para serem aplicadas com firmeza contra o crime. Corruptos que ainda não foram alcançados pela Lava Jato vibram com a exploração desses vazamentos, mas não tenho dúvida de que haja também muita vibração da parte de chefões do crime levados para a tranca dura de prisões federais.

Em sua matéria de capa desta semana, Veja afirma que não é por ser contra Sérgio Moro que a revista entrou de parceria na exploração dos vazamentos. Em editorial e na reportagem, afirma-se também que a publicação das mensagens particulares não é contra a Lava Jato. Veja também deixa claro que as mensagens não servem para anular o processo que levou Lula para a cadeia. Por sinal, em editorial a Folha de S. Paulo disse a mesma coisa.

Claro que isso desmente a própria chamada de capa da revista. Na montagem leviana, Sérgio Moro faz pender para um lado a balança da Justiça. Dentre especialistas procurados pela imprensa para opinar sobre estes vazamentos, mesmo os de opinião mais rigorosa — alguns deles críticos antigos de Moro e da Lava Jato —, nenhum aponta ilegalidade que tenha influído diretamente nos processos.

Alega-se que as conversas foram impróprias, alguns dizem que um juiz não deve se comportar desse modo, porém fica muito claro que não houve manipulação de provas. A própria Veja afirma a mesma coisa. Portanto, sem relação de causa e efeito a chamada “Justiça com as próprias mãos” faz dessa capa uma das mais levianas da história da imprensa brasileira.

Quanto à libertação de Lula, acontece que de fato o sucesso da exploração dessas mensagens pode conduzir o país a uma condição muito mais trágica. Encaixado no propósito de soltar Lula está o fim da prisão em segunda instância. Então, abre-se um campo amplo para impunidade. Acabando a prisão em segunda instância, a liberação vai ser geral. O clima de desesperança com a Justiça vai favorecer também o crime comum.

Que ninguém se engane: solta-se Lula e por extensão a Justiça fica obrigada a soltar outros criminosos. Francamente, não dá para acreditar que numa situação com a Lava Jato desmoralizada os suspeitos de matar a vereadora Marielle estariam presos, como permanecem até agora. E crimes menos visíveis, estes com certeza terão um acobertamento facilitado pelo clima social de desesperança e falta de efetividade policial e de Justiça.

Quando se pergunta de onde vem esse hackeamento que surrupiou centenas de mensagens privadas de autoridades da promotoria pública e do Judiciário, pouco se fala do interesse do crime organizado que domina o narcotráfico, pratica assaltos, organiza milícias. Pode até ser que não haja relação direta entre o crime organizado e a ação que resultou nesses vazamentos explorados de início pelo The Intercept, que depois dividiu o produto suspeito com a Veja e a Folha de S. Paulo. Mas alguém acredita que a desmoralização da Lava Jato beneficia o lado honesto da sociedade brasileira?

O efeito desses ataques pode beneficiar bastante o crime comum. Felizmente até agora os brasileiros não foram convencidos por esta reação contra a Lava Jato, em ações evidentemente combinadas e que contam com todo o apoio de uma parcela de corruptos ainda com muito poder. Tomara que não prevaleça este plano pela impunidade. Com certeza chefes de quadrilha envolvidos em assaltos e assassinatos, matadores cruéis que dominam pelo terror comunidades inteiras, poderosos traficantes de drogas, essas figuras nefastas que aterrorizam o Brasil estão na maior ansiedade com a perspectiva de que se instale um clima favorável às suas atividades criminosas.
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POR José Pires

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Veja escolhe um lado arriscado na parceria do vazamento das mensagens da Lava Jato

Nesta atmosfera contaminada de partidarismo e interesses políticos indecentes que tomou conta do debate público no Brasil é um risco inclusive comercial para um veículo jornalístico quando seu posicionamento é visto como ligado diretamente a determinada corrente política. Certos sites existem para servir especificamente a um interesse político e a maioria dos que atuam com parcialidade foram criados exatamente para isso. Vivem de verbas direcionadas quando seus parceiros estão no poder ou de dinheiro vindo de fontes que nunca se sabe muito bem quais são.

Porém, já ficou demonstrado que veículos de história marcadamente jornalística não conseguem manter-se dessa forma. Ao perder o vínculo da credibilidade com o leitor, não foram poucos os que tiveram que fechar ou hoje em dia viraram publicações de menor prestígio. Já os veículos criados para servir a determinados grupos políticos, sempre acabam sofrendo a conseqüência da perda de poder de seus protetores. Dezenas de blogs e sites aliados dos petistas fecharam quase de imediato, com a saída do PT do poder. O vínculo com o leitor é a credibilidade, que pode ser aniquilada às vezes em poucas pautas que levantem suspeitas graves de parcialidade movida por interesse político ou até comprada. Nesta marca negativa, como eu já disse, existe também um risco comercial.

Uma publicação que entrou neste foco de descrédito é a Veja. A revista semanal já vem gradativamente demolindo a credibilidade construída anteriormente, quando desenvolveu uma linha editorial de investigação e denúncia dos desmandos e da roubalheira do PT no poder. Esta perda de prestígio piorou bastante com o lamentável desmonte financeiro da editora Abril, que publica a revista. E nos últimos meses a imagem de Veja descamba de um modo que demonstra um equívoco sério dos novos proprietários da empresa, já que num negócio desses a credibilidade só e um valor “imaterial” como conceito. Equivale também a dinheiro em caixa.

A imagem da Veja parece ainda mais comprometida agora, com sua entrada na parceria da publicação das mensagens trocadas entre integrantes da Operação Lava Jato, alem de diálogos com o ministro Sérgio Moro na época em que ele foi juiz. A revista entra na história quando já esta clara a articulação política que envolve o PT e seus puxadinhos como o Psol, para fortalecer uma narrativa de esquerda que tem sua origem na teoria do “golpe”, criada pelo partido do Lula durante o processo de impeachment que levou à cassação de Dilma Rousseff. O objetivo inicial da publicação pelo site The Intercept era a desestabilização do governo Bolsonaro. Queriam a demissão de Sérgio Moro. Como isso não se deu, continuam a exploração do assunto para lucrar com o que for possível.

A reportagem de Veja nada traz de novo, nem mesmo na tentativa de criação de um clima de ameaça sobre incriminações que nunca são reveladas. A reportagem embaralha o material, dispondo erradamente acontecimentos que não podem ter ligação entre si pela inexistência de coincidência de datas. Alguns nem eram da alçada do então juiz Moro. Acusações da revista a Moro em sua função de juiz já foram rebatidas por ele com fatos. Veja afirma ter analisado 649.551 mensagens supostamente roubadas à Lava Jato, o que coloca sua redação na situação delicada de ter o acesso a conversas privadas de jornalistas de veículos concorrentes e sabe-se lá de quais personalidades brasileiras. Não é possível avaliar como ética esta devassa em milhares de conversas particulares.

É incrível onde Veja foi parar. A revista está marcadamente posicionada em um lado político da acirrada divisão política atual, que compromete até mesmo a busca de uma saída para a crise econômica em que afunda o país. E ficaram de um lado que comprovadamente é restrito do ponto de vista político e ideológico, além de inegavelmente ter uma ampla e sólida rejeição entre os brasileiros. Muitos quebraram comercialmente com esta aliança, sem falar nos que acabaram na prisão. É estranho que numa empresa que precisa desesperadamente fugir da falência e que tem como principal ativo a credibilidade jornalística não haja a precaução contra esta entrada numa proposta furada.

O sintoma mais grave da situação altamente negativa de Veja é que nas últimas semanas a revista vem sendo tratada pelos parlamentares do PT como um veículo aliado, com deputados apontando suas reportagens como referência de que eles é que agem honestamente, enquanto a Lava Jato agiu de forma manipuladora e quebrou empresas. Veja foi apontada como publicação amiga por vários deles, em discursos agressivos na tribuna da Câmara e no Senado, além de citações altamente elogiosas em audiências onde, como sempre, os petistas passaram por cima da verdade, dos limites de respeito ao adversário e até da boa educação. O PT está numa relação apaixonante com a revista. É o chamado beijo da morte. Nunca existiu nada que não tenha sofrido pesada desmoralização com o apreço deste partido e com certeza Veja não será a primeira sobrevivente.
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POR José Pires

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Brasil, um país onde as regras nada valem

A medida provisória que impedia o desconto da contribuição sindical no pagamento dos trabalhadores já perdeu a validade. Foi na última sexta-feira, prazo final que o Congresso Nacional tinha para cumprir os 120 dias para votar o texto. Também pudera, os políticos tiveram muito trabalho nos últimos meses, nos bate-bocas entre Legislativo e Executivo, reuniões de horas para ouvir ministros sobre balbúrdias variadas. Essas coisas tomam um tempo precioso,  que de fato dificultam a concentração naquilo que tem prazos determinados.

Assim, já não temos aquilo que parecia ter sido resolvido, com este imposto compulsório voltando a ser aplicado nos salários. E o sindicalismo volta ao que era. Ou melhor, deixa de ser corrigido naquilo que não estava dando certo. Como acontece com tanta coisa neste país, no popular, era mais uma decisão só da boca pra fora.

E isto não é uma exceção na forma da classe dirigente brasileira administrar os rumos do país. Não é funcional em termos de qualidade, mas trata-se de um método. E que se situe nessa indeterminação também o setor privado, pois é de responsabilidade geral esta dificuldade na definição de regras, junto com vacilação no seu cumprimento quando já existe uma decisão em conjunto.

Claro que isso deixa o país em um eterno estado de anomia, a condição em que não se reconhecem valores ou regras de conduta. Por lei, a faixa é do pedestre, mas depende do motorista ter boa vontade.

Somos um lugar onde é difícil saber como se comportar até em questões essenciais do dia a dia, mesmo quando já muito bem regidas em lei. Por isso, o que se aprende desde cedo é que agir com honestidade pode ser um desfavorecimento em relação aos que passam a vida agindo como espertalhões.

O imposto sindical tinha caído, mas o Congresso não fez seu trabalho no prazo, do mesmo modo que o juiz não aplica com rigor a lei e a polícia deixa de multar ouir com honestidade não prende. Evidentemente as justificativas sempre aparecem. Tem quem diga que a reforma da Previdência seria a prioridade, ainda que a necessidade da regularização da anulação do desconto obrigatório tenha vindo antes.

Esta é mais uma discussão, no entanto, não interfere na qualidade do resultado disso tudo, que é péssimo: ninguém acredita em resolução alguma já definida, assim como fica muito difícil adquirir a consciência de que deve-se ter respeito a regras contra a norma estabelecida de que é mais vantajoso passar sobre os outros.

O Brasil vive atordoado por este círculo vicioso, eternamente movimentado pela incompetência e a má-fé, nesta antiga covardia coletiva de encarar com determinação os problemas nacionais. Daí que, enquanto os salários voltam a ter o desconto do imposto sindical, que o brasileiro se prepare para outros recuos.

No girar desta roda, que ninguém duvide que também o STF daqui a alguns dias revogue a prisão em segunda instância, tornada jurisprudência por este mesmo tribunal e que vem funcionando bem, com muito maioral salafrário comendo de marmita no sistema presidiário. Serviu inclusive para tirar o Brasil da incrível posição de ser um dos poucos países do mundo com uma vagarosa fila de instâncias, que percorrem décadas até a sentença final. Isso quando ela acontece.

Por aqui, como nunca se dá cumprimento ao que se resolve, jamais se sabe quais regras valem. O país vive em uma condição de idas e vindas e por isso mesmo nunca chega a lugar nenhum.
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POR José Pires

A esquerda surta com Sérgio Moro

O deputado Glauber Braga, do Psol, cometeu uma grosseria histórica com o ministro Sérgio Moro e correu para o Twitter para se gabar do que fez. Com agressividade, Braga simplesmente chamou de ladrão um convidado, que espontaneamente dava explicações aos deputados e sobre o qual jamais houve qualquer acusação formal nesse sentido. O insulto do deputado foi apenas o fecho da atuação em bloco dos políticos da esquerda nesta reunião marcada para esclarecer um assunto definido em pauta, mas que virou uma sessão de insultos, numa devassa leviana sobre toda a vida de Moro. Até sua esposa foi atacada.

Este político do Psol é aquele que ao dar o voto contra o impeachment de Dilma Rousseff, fez uma homenagem a Carlos Marighella, gritando seu nome no plenário da Câmara, ecoando na História como uma cínica ironia. Se Marighella tivesse obtido sucesso em sua aventura guerrilheira dos anos 60 o país teria se transformado em uma ditadura pior que a de 1964, dominada por um único partido. Para evitar comentários indevidos, esclareço que penso que o sucesso de Brilhante Ustra também resultaria em uma ditadura feroz, mas acontece que vivemos hoje em dia uma situação até cômica: a esquerda grita “fascista” o tempo todo, enquanto se atira com espírito autoritário contra os outros.

O plano da esquerda neste depoimento do ex-juiz da Lava Jato em audiência promovida por três comissões da Câmara era o de forçar o depoente a reagir de modo a criar uma situação favorável à pretensão de desmoralizá-lo. Não é de hoje que esquerdistas atuam dessa forma. A grosseria organizada tampouco se dá apenas no Congresso Nacional. A tática é aplicada em qualquer situação em que a esquerda quer tomar o controle, forçando um resultado que favoreça seu interesse. O problema é que encontram em Moro um homem de nervos de aço. Ele não se rende à provocações. Então é a esquerda que vai surtando, abusando cada vez mais da retórica violenta.

É uma irresponsabilidade que lideranças políticas ajam desse jeito na condição atual do país, com a violência argumentativa e o desrespeito dificultando o debate de qualquer questão, impedindo a compreensão dos problemas nacionais, deformando na juventude sua formação social. Ocorre, porém, que os ânimos exaltados de toda uma nação vêm exatamente dessa louca estratégia, aplicada pelo partido de esquerda que enquanto esteve no poder tinha como política de comunicação atazanar os adversários e impedir o debate público. É um método antigo da esquerda para estabelecer um discurso único, fazendo parecer que está havendo um rigor no debate político.

O hábito do desrespeito vem de longe. Foi um método que o ídolo exaltado pelo deputado do Psol levou à risca nos anos 60, em uma aventura militarista forçada por uma minoria na esquerda, condenada pelas forças democráticas de então, inclusive pelo partido onde Marighella esteve toda a vida até pegar em armas. Marighella foi o líder de uma das guerrilhas mais desastradas da América, treinada e controlada do exterior pela ditadura de Cuba. Ele rompeu com o mais forte partido de esquerda da época, o PCB, exatamente para liderar um bando violento, que teve como resultado o fortalecimento da corrente de linha dura da ditadura militar. Atrapalharam a oposição democrática, que atuava com métodos pacíficos.

Como o deputado Braga grita alto até hoje o nome de Marighella é evidente que seria perda de tempo exigir dele inteligência e conhecimento para compreender a necessidade do respeito a seus pares para levar adiante com qualidade qualquer tarefa, ainda mais em um local que existe exatamente para a convivência entre contrários. Não cabe também apontar efeitos negativos dessa beligerância idiota, não só no fortalecimento da direita, como no entrave à participação de brasileiros sensatos que teriam muito a contribuir para o país, gente qualificada que foge da perda de tempo dos debates vazios de conteúdo e de resultado prático de qualidade.

O Psol anda animado com sua bancada desta Legislatura — eleita principalmente com gritaria e vitimização —, de modo que não vai tomar consciência de que foi este clima que alimentou o crescimento da direita brasileira e sua vitória sem precedentes em nossa história. A esquerda pouco se importa também com a atmosfera política que vai ficando cada vez mais perigosa para a nossa democracia. Não valeu a experiência mais antiga, de 1964 e 1968 principalmente. Por isso não será agora que tomarão consciência da necessidade de equilíbrio e respeito ao próximo para todo trabalho em conjunto, claro que tendo como foco o interesse nacional e não o domínio político absoluto.

O comportamento de toda a esquerda com o ministro Sergio Moro nesta terça-feira na Câmara mostra que é impossível contar com eles para atuar sobre os problemas nacionais. A índole autoritária que vem do legado político e filosófico do marxismo dificulta mesmo a convivência mais básica de esquerdistas com os adversários, um impedimento que é mantido mesmo depois das recentes quebradas feias de cabeça. Usa-se muito a imagem do apego eterno ao Muro de Berlim para exemplificar esta desconformidade da esquerda com o respeito ao pensamento contrário, mas na verdade os muros são internos, um problema na mente e nos corações. E parece que a barreira é intransponível.
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POR José Pires

terça-feira, 2 de julho de 2019

Carlos Bolsonaro e sua perigosa paranóia conspiratória

Um período longo demais com a esquerda no poder e agora com um governo de direita eleito exatamente por causa da atmosfera social desequilibrada criada pelo petismo, parece que deixou o país numa situação em que comportamentos totalmente anormais são aceitos sem que instituições e autoridades atingidas tomem qualquer providência. A esquerda abilolada criou amplos espaços para uma direita idem, de modo que o contrassenso é regra e não exceção.

O vereador Carlos Bolsonaro postou nesta segunda-feira uma mensagem no Twitter que em um país onde prevaleça a normalidade seria exigido dele, de forma legal, um esclarecimento com exatidão sobre a grave denúncia. Esta sua tuitada tem muito daquela subjetividade paranóica que é bem própria de seu estilo. No entanto ele fala diretamente do GSI, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, comandado pelo ministro Augusto Heleno, que, como todo mundo sabe, é oficial da reserva. O general é também um dos principais conselheiros do presidente Jair Bolsonaro.

O assunto do filho do presidente é a prisão do militar da Aeronáutica, pego na Espanha com 39 quilos de cocaína em sua bagagem. A partir disso, Carlos coloca em dúvida o trabalho do general Heleno. “Por que acham que não ando com seguranças? Principalmente aqueles oferecidos pelo GSI? Sua grande maioria podem ser até homens bem intencionados, e acredito que sejam, mas estão subordinados a algo que não acredito”, ele escreve. Mais ainda, na mesma mensagem ele afirma que sua vida está ameaçada por causa do que tem falado. Ou seja, pelo que ele afirma, tem um pessoal barra-pesada bem ao lado do presidente da República. A relação feita com a cocaína apreendida na Espanha em um avião da FAB torna a denúncia ainda mais grave.

Como eu disse, falta clareza ao que o vereador escreve, como nesta parte em que ele fala em homens que “estão subordinados a algo que não acredito”, sem apontar a serviço de que estão esses homens. Mas como ele trata da segurança da Presidência da República e estando na posição privilegiada de ser filho do presidente, tenho certeza que em um país onde não houvesse dúvida sobre o que é normal e o que não é, esta sua denúncia seria objeto de investigação rigorosa. Ou então Jair Bolsonaro — não na posição de presidente, mas como pai — cuidaria de encaminhar o filho a um tratamento mental com um profissional qualificado.
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POR José Pires