terça-feira, 9 de julho de 2019

The Intercept e o escândalo que não decola

O The Intercept finalmente divulgou nesta terça-feira o primeiro áudio do material que Glenn Greenwald, dono do site, recebeu sabe-se lá de quem. Os áudios vinham sendo citados de forma sensacionalista pelo jornalista, procurando criar suspense para o que, segundo ele, seria um grande escândalo. Greenwald faz isso desde que anunciou que tinha em seu poder grande quantidade de mensagens e áudios, com diálogos trocados entre membros do Ministério Público e também de Sérgio Moro.

O áudio apresentado hoje reforça a imagem citada por Moro, da montanha que pariu um rato, com a diferença que nem rato mais vem saindo dessa montanha. Neste primeiro áudio, alguém identificado pelo site como Deltan Dallagnol comemora a proibição de entrevista de Lula em 2018, numa mensagem que não faz sentido algum como denúncia. A redação do The Intercept e seu chefe Greenwald estão com um problema sério na verificação do devido peso político do material e até da relação entre as supostas conversas e os fatos.

Greenwald fala em “conhecimento prévio e secreto” de Dallagnol da decisão do ministro Luiz Fux, mas já está demonstrado que a notícia não era segredo para ninguém. O dono do The Intercept também acusa Dallagnol de querer ocultar a decisão “para impedir que a Folha pudesse recorrer”. Parece piada. O jornal teria de ser intimado, como de fato foi. É uma determinação que está em toda decisão judicial. Como é que Dallagnol manteria segredo de uma decisão do STF que a própria Folha noticiou pouco antes de sua suposta mensagem de áudio? São mistérios do jornalista investigativo Glenn Greenwald.

Exatamente neste dia 9 completa-se um mês da primeira publicação de vazamentos pelo The Intercept e claro que Greenwald já estava muito antes com o material. Tiveram tempo de sobra para vasculhar tudo e selecionar áudios e mensagens mais impactantes. Porém até agora só conseguiram trazer a público material sem relevância do ponto de vista jornalístico e que não servem nem ao objetivo óbvio de ativismo de esquerda.

O que tem de novo neste caso é a acusação de Greeenwald, que envolve um ministro da mais alta Corte do país. O ministro Fux seria então capaz de antecipar em segredo uma decisão do STF a um promotor público? A acusação é leviana e muito grave. Consolida a imagem do The Intercept como uma publicação meramente ativista, sem respeito aos fatos e totalmente sem credibilidade jornalística.
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POR José Pires

Pegando cana pelo Instagram

Já faz bastante tempo que me impressiono com o vício que se tornou o uso do celular. O pessoal não larga o aparelhinho nem para fazer exercícios de caminhada. Já vi até ciclistas dando uma olhada na telinha enquanto a bicicleta rodava. E a falta de cuidado não é apenas com a segurança física. Não é de agora que se sabe que não existe a menor garantia de privacidade nas conversações e nas mensagens enviadas por qualquer das plataformas, no entanto aparecem o tempo todo casos de vazamentos que criam incríveis complicações, como ocorreu com as conversas vazadas pelo site The Intercept.

Quando apareceram as primeiras notícias sobre este caso, o que mais me surpreendeu é saber que profissionais que atuam exatamente em investigações policiais estivessem usando despreocupadamente seus celulares para conversar sobre temas delicados que envolvem um trabalho de graves implicações políticas. Parece português de anedota, com seu crachá de agente secreto pendurado no peito. Faz lembrar também uma piada que apareceu logo que este aparelho foi inventado, do Joaquim atendendo o celular e perguntando como é que foi — Ó, raios! — que a Maria o encontrou no motel.

A relação com este aparelhinho traiçoeiro é mesmo de viciado. E se a dependência leva ao descuido com a própria saúde, que dirá com a segurança. Outra história sensacional de descuido com a privacidade aconteceu nesta terça-feira. A notícia é do fim dessa tarde. A Polícia Federal prendeu um traficante procurado pela Interpol depois que sua mulher postou a localização deles em uma rede social. Veja na imagem divulgada pela PF.

Ronald Roland era citado em três operações da Política Federal e tem relação com as Farc, da Colômbia, e os cartéis mexicanos de Sinaloa e Los Zetas, conforme diz os relatório final de uma das operações policiais. E foi preso em um restaurante da Zona Leste, em São Paulo, depois da mulher postar no Instagram o local onde almoçavam. Até parece fake news, mas aconteceu de verdade. O bandidão foi pego por causa desse objeto viciante que não sai das mãos de ninguém.
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POR José Pires

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Leia aqui a reportagem no G1

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O vazamento que virou tiro no pé

Desde o início dos vazamentos contra a Lava Jato foi fácil detectar o objetivo da exploração política do conteúdo das conversas. Como o andamento de tudo foi muito ligeiro, logo foi possível observar o resultado contrário ao interesse dos que estão por detrás disso tudo. A base da trama era desmoralizar Sérgio Moro, no entanto ele cresceu a partir da reação contra os vazamentos. Até manifestações de rua em seu favor aconteceram em várias cidades do país, o que é absolutamente inédito na política brasileira.

Jamais em nossa história um ministro de qualquer governo teve um apoio desse tipo. Considerando que Moro é ministro de um governo com poucas realizações e que vive armando uma crise atrás da outra, sua popularidade pode ser vista de fato como um fenômeno.

Não adianta mais a tentativa de jogar este caso para o terreno do Direito, procurando categorizar no âmbito da legalidade jurídica — às vezes com um cinismo repugnante — conversas de caráter privado. Para a opinião pública o caso é político, do mesmo modo que na avaliação popular se encaixam esses ataques. Percebeu-se logo o característico conflito pelo poder. E pelo resultado até aqui, já deve ter por detrás dos vazamentos muita gente arrependida pela tentativa de golpear Moro.

Duvido que exista algo que comprometa de forma grave o ministro, mas se houver alguma conversa mais pesada, estamos à frente de um erro estratégico até bem tolo. A tendência de qualquer crise é pelo seu esfriamento gradativo. Um vazamento começa com a informação de maior impacto. E de forma alguma se dá início de forma chocha, como ocorreu neste caso.

Os responsáveis por esta tentativa de golpear Moro e a Lava Jato devem estar lamentando por não terem segurado o The Intercept, evitando o lançamento da bomba que deu chabu. Sérgio Moro cresceu a ponto de ser citado como presidenciável já para a próxima eleição, teve apoio de massa nas ruas e se fortaleceu junto a Jair Bolsonaro. O presidente, por seu lado, tornou-se aos olhos do povo um fiador da Lava Jato.

Poucas vezes se viu uma manobra tão equivocada, mesmo dessa esquerda abobalhada que vem cometendo erros crassos que fizeram até seu governo cair. A operação anti-corrupção mais popular da nossa história ficou relacionada ao governo Bolsonaro e a defesa da impunidade está com a esquerda. Para o tiro no pé ser ainda pior, o Brasil ainda ganhou a Copa América neste domingo, em jogo que Bolsonaro assistiu ao lado de Moro. Bem, mas pelo menos isso não é culpa do The Intercept.
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POR José Pires


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Imagem- Foto de Carolina Antunes, PR

Veja e seus parceiros na tentativa da criação de narrativas que não colam

Parece que o lulo-petismo afinal conseguiu armar uma força-tarefa na imprensa. O objetivo mais que óbvio é derrubar Sérgio Moro, não apenas pela sua capacidade pessoal de caçar corruptos, mas pela carga simbólica de sua imagem. A queda de Moro seria um impulso para livrar Lula, o que neste caso também não se trata unicamente da liberdade de um indivíduo.

Os significados se entrelaçam nesses acontecimentos. A queda de Moro e a liberdade de Lula abrem espaço para um retrocesso no novo padrão de rigor instalado pela Lava Jato, com o trabalho para o fim da impunidade e da justiça seletiva. O Brasil conquistou finalmente o direito da prisão de corruptos, algo que jamais acontecia com os poderosos antes das ações memoráveis desses valorosos agentes públicos .

Este modus operandi já alcançou resultados fantásticos, no entanto ainda não é um padrão estabelecido. Pode ser derrubado. E se isso ocorrer, o país perderá a chance de obter o efeito mais importante dessa transformação, de estender para a segurança pública este mesmo rigor na caça e na punição de criminosos de colarinho branco, além de corruptos que preferem camiseta vermelha com estrela estampada.

Que ninguém deixe de lembrar que antes de atuar contra a corrupção Moro condenou chefões do crime organizado. Agora, no Ministério da Justiça, é o primeiro da pasta em décadas que atua contra chefões de quadrilhas e de faccões. E também tem uma posição de rigor contra organizações criminosas, com propostas para serem aplicadas com firmeza contra o crime. Corruptos que ainda não foram alcançados pela Lava Jato vibram com a exploração desses vazamentos, mas não tenho dúvida de que haja também muita vibração da parte de chefões do crime levados para a tranca dura de prisões federais.

Em sua matéria de capa desta semana, Veja afirma que não é por ser contra Sérgio Moro que a revista entrou de parceria na exploração dos vazamentos. Em editorial e na reportagem, afirma-se também que a publicação das mensagens particulares não é contra a Lava Jato. Veja também deixa claro que as mensagens não servem para anular o processo que levou Lula para a cadeia. Por sinal, em editorial a Folha de S. Paulo disse a mesma coisa.

Claro que isso desmente a própria chamada de capa da revista. Na montagem leviana, Sérgio Moro faz pender para um lado a balança da Justiça. Dentre especialistas procurados pela imprensa para opinar sobre estes vazamentos, mesmo os de opinião mais rigorosa — alguns deles críticos antigos de Moro e da Lava Jato —, nenhum aponta ilegalidade que tenha influído diretamente nos processos.

Alega-se que as conversas foram impróprias, alguns dizem que um juiz não deve se comportar desse modo, porém fica muito claro que não houve manipulação de provas. A própria Veja afirma a mesma coisa. Portanto, sem relação de causa e efeito a chamada “Justiça com as próprias mãos” faz dessa capa uma das mais levianas da história da imprensa brasileira.

Quanto à libertação de Lula, acontece que de fato o sucesso da exploração dessas mensagens pode conduzir o país a uma condição muito mais trágica. Encaixado no propósito de soltar Lula está o fim da prisão em segunda instância. Então, abre-se um campo amplo para impunidade. Acabando a prisão em segunda instância, a liberação vai ser geral. O clima de desesperança com a Justiça vai favorecer também o crime comum.

Que ninguém se engane: solta-se Lula e por extensão a Justiça fica obrigada a soltar outros criminosos. Francamente, não dá para acreditar que numa situação com a Lava Jato desmoralizada os suspeitos de matar a vereadora Marielle estariam presos, como permanecem até agora. E crimes menos visíveis, estes com certeza terão um acobertamento facilitado pelo clima social de desesperança e falta de efetividade policial e de Justiça.

Quando se pergunta de onde vem esse hackeamento que surrupiou centenas de mensagens privadas de autoridades da promotoria pública e do Judiciário, pouco se fala do interesse do crime organizado que domina o narcotráfico, pratica assaltos, organiza milícias. Pode até ser que não haja relação direta entre o crime organizado e a ação que resultou nesses vazamentos explorados de início pelo The Intercept, que depois dividiu o produto suspeito com a Veja e a Folha de S. Paulo. Mas alguém acredita que a desmoralização da Lava Jato beneficia o lado honesto da sociedade brasileira?

O efeito desses ataques pode beneficiar bastante o crime comum. Felizmente até agora os brasileiros não foram convencidos por esta reação contra a Lava Jato, em ações evidentemente combinadas e que contam com todo o apoio de uma parcela de corruptos ainda com muito poder. Tomara que não prevaleça este plano pela impunidade. Com certeza chefes de quadrilha envolvidos em assaltos e assassinatos, matadores cruéis que dominam pelo terror comunidades inteiras, poderosos traficantes de drogas, essas figuras nefastas que aterrorizam o Brasil estão na maior ansiedade com a perspectiva de que se instale um clima favorável às suas atividades criminosas.
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POR José Pires

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Veja escolhe um lado arriscado na parceria do vazamento das mensagens da Lava Jato

Nesta atmosfera contaminada de partidarismo e interesses políticos indecentes que tomou conta do debate público no Brasil é um risco inclusive comercial para um veículo jornalístico quando seu posicionamento é visto como ligado diretamente a determinada corrente política. Certos sites existem para servir especificamente a um interesse político e a maioria dos que atuam com parcialidade foram criados exatamente para isso. Vivem de verbas direcionadas quando seus parceiros estão no poder ou de dinheiro vindo de fontes que nunca se sabe muito bem quais são.

Porém, já ficou demonstrado que veículos de história marcadamente jornalística não conseguem manter-se dessa forma. Ao perder o vínculo da credibilidade com o leitor, não foram poucos os que tiveram que fechar ou hoje em dia viraram publicações de menor prestígio. Já os veículos criados para servir a determinados grupos políticos, sempre acabam sofrendo a conseqüência da perda de poder de seus protetores. Dezenas de blogs e sites aliados dos petistas fecharam quase de imediato, com a saída do PT do poder. O vínculo com o leitor é a credibilidade, que pode ser aniquilada às vezes em poucas pautas que levantem suspeitas graves de parcialidade movida por interesse político ou até comprada. Nesta marca negativa, como eu já disse, existe também um risco comercial.

Uma publicação que entrou neste foco de descrédito é a Veja. A revista semanal já vem gradativamente demolindo a credibilidade construída anteriormente, quando desenvolveu uma linha editorial de investigação e denúncia dos desmandos e da roubalheira do PT no poder. Esta perda de prestígio piorou bastante com o lamentável desmonte financeiro da editora Abril, que publica a revista. E nos últimos meses a imagem de Veja descamba de um modo que demonstra um equívoco sério dos novos proprietários da empresa, já que num negócio desses a credibilidade só e um valor “imaterial” como conceito. Equivale também a dinheiro em caixa.

A imagem da Veja parece ainda mais comprometida agora, com sua entrada na parceria da publicação das mensagens trocadas entre integrantes da Operação Lava Jato, alem de diálogos com o ministro Sérgio Moro na época em que ele foi juiz. A revista entra na história quando já esta clara a articulação política que envolve o PT e seus puxadinhos como o Psol, para fortalecer uma narrativa de esquerda que tem sua origem na teoria do “golpe”, criada pelo partido do Lula durante o processo de impeachment que levou à cassação de Dilma Rousseff. O objetivo inicial da publicação pelo site The Intercept era a desestabilização do governo Bolsonaro. Queriam a demissão de Sérgio Moro. Como isso não se deu, continuam a exploração do assunto para lucrar com o que for possível.

A reportagem de Veja nada traz de novo, nem mesmo na tentativa de criação de um clima de ameaça sobre incriminações que nunca são reveladas. A reportagem embaralha o material, dispondo erradamente acontecimentos que não podem ter ligação entre si pela inexistência de coincidência de datas. Alguns nem eram da alçada do então juiz Moro. Acusações da revista a Moro em sua função de juiz já foram rebatidas por ele com fatos. Veja afirma ter analisado 649.551 mensagens supostamente roubadas à Lava Jato, o que coloca sua redação na situação delicada de ter o acesso a conversas privadas de jornalistas de veículos concorrentes e sabe-se lá de quais personalidades brasileiras. Não é possível avaliar como ética esta devassa em milhares de conversas particulares.

É incrível onde Veja foi parar. A revista está marcadamente posicionada em um lado político da acirrada divisão política atual, que compromete até mesmo a busca de uma saída para a crise econômica em que afunda o país. E ficaram de um lado que comprovadamente é restrito do ponto de vista político e ideológico, além de inegavelmente ter uma ampla e sólida rejeição entre os brasileiros. Muitos quebraram comercialmente com esta aliança, sem falar nos que acabaram na prisão. É estranho que numa empresa que precisa desesperadamente fugir da falência e que tem como principal ativo a credibilidade jornalística não haja a precaução contra esta entrada numa proposta furada.

O sintoma mais grave da situação altamente negativa de Veja é que nas últimas semanas a revista vem sendo tratada pelos parlamentares do PT como um veículo aliado, com deputados apontando suas reportagens como referência de que eles é que agem honestamente, enquanto a Lava Jato agiu de forma manipuladora e quebrou empresas. Veja foi apontada como publicação amiga por vários deles, em discursos agressivos na tribuna da Câmara e no Senado, além de citações altamente elogiosas em audiências onde, como sempre, os petistas passaram por cima da verdade, dos limites de respeito ao adversário e até da boa educação. O PT está numa relação apaixonante com a revista. É o chamado beijo da morte. Nunca existiu nada que não tenha sofrido pesada desmoralização com o apreço deste partido e com certeza Veja não será a primeira sobrevivente.
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POR José Pires

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Brasil, um país onde as regras nada valem

A medida provisória que impedia o desconto da contribuição sindical no pagamento dos trabalhadores já perdeu a validade. Foi na última sexta-feira, prazo final que o Congresso Nacional tinha para cumprir os 120 dias para votar o texto. Também pudera, os políticos tiveram muito trabalho nos últimos meses, nos bate-bocas entre Legislativo e Executivo, reuniões de horas para ouvir ministros sobre balbúrdias variadas. Essas coisas tomam um tempo precioso,  que de fato dificultam a concentração naquilo que tem prazos determinados.

Assim, já não temos aquilo que parecia ter sido resolvido, com este imposto compulsório voltando a ser aplicado nos salários. E o sindicalismo volta ao que era. Ou melhor, deixa de ser corrigido naquilo que não estava dando certo. Como acontece com tanta coisa neste país, no popular, era mais uma decisão só da boca pra fora.

E isto não é uma exceção na forma da classe dirigente brasileira administrar os rumos do país. Não é funcional em termos de qualidade, mas trata-se de um método. E que se situe nessa indeterminação também o setor privado, pois é de responsabilidade geral esta dificuldade na definição de regras, junto com vacilação no seu cumprimento quando já existe uma decisão em conjunto.

Claro que isso deixa o país em um eterno estado de anomia, a condição em que não se reconhecem valores ou regras de conduta. Por lei, a faixa é do pedestre, mas depende do motorista ter boa vontade.

Somos um lugar onde é difícil saber como se comportar até em questões essenciais do dia a dia, mesmo quando já muito bem regidas em lei. Por isso, o que se aprende desde cedo é que agir com honestidade pode ser um desfavorecimento em relação aos que passam a vida agindo como espertalhões.

O imposto sindical tinha caído, mas o Congresso não fez seu trabalho no prazo, do mesmo modo que o juiz não aplica com rigor a lei e a polícia deixa de multar ouir com honestidade não prende. Evidentemente as justificativas sempre aparecem. Tem quem diga que a reforma da Previdência seria a prioridade, ainda que a necessidade da regularização da anulação do desconto obrigatório tenha vindo antes.

Esta é mais uma discussão, no entanto, não interfere na qualidade do resultado disso tudo, que é péssimo: ninguém acredita em resolução alguma já definida, assim como fica muito difícil adquirir a consciência de que deve-se ter respeito a regras contra a norma estabelecida de que é mais vantajoso passar sobre os outros.

O Brasil vive atordoado por este círculo vicioso, eternamente movimentado pela incompetência e a má-fé, nesta antiga covardia coletiva de encarar com determinação os problemas nacionais. Daí que, enquanto os salários voltam a ter o desconto do imposto sindical, que o brasileiro se prepare para outros recuos.

No girar desta roda, que ninguém duvide que também o STF daqui a alguns dias revogue a prisão em segunda instância, tornada jurisprudência por este mesmo tribunal e que vem funcionando bem, com muito maioral salafrário comendo de marmita no sistema presidiário. Serviu inclusive para tirar o Brasil da incrível posição de ser um dos poucos países do mundo com uma vagarosa fila de instâncias, que percorrem décadas até a sentença final. Isso quando ela acontece.

Por aqui, como nunca se dá cumprimento ao que se resolve, jamais se sabe quais regras valem. O país vive em uma condição de idas e vindas e por isso mesmo nunca chega a lugar nenhum.
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POR José Pires

A esquerda surta com Sérgio Moro

O deputado Glauber Braga, do Psol, cometeu uma grosseria histórica com o ministro Sérgio Moro e correu para o Twitter para se gabar do que fez. Com agressividade, Braga simplesmente chamou de ladrão um convidado, que espontaneamente dava explicações aos deputados e sobre o qual jamais houve qualquer acusação formal nesse sentido. O insulto do deputado foi apenas o fecho da atuação em bloco dos políticos da esquerda nesta reunião marcada para esclarecer um assunto definido em pauta, mas que virou uma sessão de insultos, numa devassa leviana sobre toda a vida de Moro. Até sua esposa foi atacada.

Este político do Psol é aquele que ao dar o voto contra o impeachment de Dilma Rousseff, fez uma homenagem a Carlos Marighella, gritando seu nome no plenário da Câmara, ecoando na História como uma cínica ironia. Se Marighella tivesse obtido sucesso em sua aventura guerrilheira dos anos 60 o país teria se transformado em uma ditadura pior que a de 1964, dominada por um único partido. Para evitar comentários indevidos, esclareço que penso que o sucesso de Brilhante Ustra também resultaria em uma ditadura feroz, mas acontece que vivemos hoje em dia uma situação até cômica: a esquerda grita “fascista” o tempo todo, enquanto se atira com espírito autoritário contra os outros.

O plano da esquerda neste depoimento do ex-juiz da Lava Jato em audiência promovida por três comissões da Câmara era o de forçar o depoente a reagir de modo a criar uma situação favorável à pretensão de desmoralizá-lo. Não é de hoje que esquerdistas atuam dessa forma. A grosseria organizada tampouco se dá apenas no Congresso Nacional. A tática é aplicada em qualquer situação em que a esquerda quer tomar o controle, forçando um resultado que favoreça seu interesse. O problema é que encontram em Moro um homem de nervos de aço. Ele não se rende à provocações. Então é a esquerda que vai surtando, abusando cada vez mais da retórica violenta.

É uma irresponsabilidade que lideranças políticas ajam desse jeito na condição atual do país, com a violência argumentativa e o desrespeito dificultando o debate de qualquer questão, impedindo a compreensão dos problemas nacionais, deformando na juventude sua formação social. Ocorre, porém, que os ânimos exaltados de toda uma nação vêm exatamente dessa louca estratégia, aplicada pelo partido de esquerda que enquanto esteve no poder tinha como política de comunicação atazanar os adversários e impedir o debate público. É um método antigo da esquerda para estabelecer um discurso único, fazendo parecer que está havendo um rigor no debate político.

O hábito do desrespeito vem de longe. Foi um método que o ídolo exaltado pelo deputado do Psol levou à risca nos anos 60, em uma aventura militarista forçada por uma minoria na esquerda, condenada pelas forças democráticas de então, inclusive pelo partido onde Marighella esteve toda a vida até pegar em armas. Marighella foi o líder de uma das guerrilhas mais desastradas da América, treinada e controlada do exterior pela ditadura de Cuba. Ele rompeu com o mais forte partido de esquerda da época, o PCB, exatamente para liderar um bando violento, que teve como resultado o fortalecimento da corrente de linha dura da ditadura militar. Atrapalharam a oposição democrática, que atuava com métodos pacíficos.

Como o deputado Braga grita alto até hoje o nome de Marighella é evidente que seria perda de tempo exigir dele inteligência e conhecimento para compreender a necessidade do respeito a seus pares para levar adiante com qualidade qualquer tarefa, ainda mais em um local que existe exatamente para a convivência entre contrários. Não cabe também apontar efeitos negativos dessa beligerância idiota, não só no fortalecimento da direita, como no entrave à participação de brasileiros sensatos que teriam muito a contribuir para o país, gente qualificada que foge da perda de tempo dos debates vazios de conteúdo e de resultado prático de qualidade.

O Psol anda animado com sua bancada desta Legislatura — eleita principalmente com gritaria e vitimização —, de modo que não vai tomar consciência de que foi este clima que alimentou o crescimento da direita brasileira e sua vitória sem precedentes em nossa história. A esquerda pouco se importa também com a atmosfera política que vai ficando cada vez mais perigosa para a nossa democracia. Não valeu a experiência mais antiga, de 1964 e 1968 principalmente. Por isso não será agora que tomarão consciência da necessidade de equilíbrio e respeito ao próximo para todo trabalho em conjunto, claro que tendo como foco o interesse nacional e não o domínio político absoluto.

O comportamento de toda a esquerda com o ministro Sergio Moro nesta terça-feira na Câmara mostra que é impossível contar com eles para atuar sobre os problemas nacionais. A índole autoritária que vem do legado político e filosófico do marxismo dificulta mesmo a convivência mais básica de esquerdistas com os adversários, um impedimento que é mantido mesmo depois das recentes quebradas feias de cabeça. Usa-se muito a imagem do apego eterno ao Muro de Berlim para exemplificar esta desconformidade da esquerda com o respeito ao pensamento contrário, mas na verdade os muros são internos, um problema na mente e nos corações. E parece que a barreira é intransponível.
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POR José Pires

terça-feira, 2 de julho de 2019

Carlos Bolsonaro e sua perigosa paranóia conspiratória

Um período longo demais com a esquerda no poder e agora com um governo de direita eleito exatamente por causa da atmosfera social desequilibrada criada pelo petismo, parece que deixou o país numa situação em que comportamentos totalmente anormais são aceitos sem que instituições e autoridades atingidas tomem qualquer providência. A esquerda abilolada criou amplos espaços para uma direita idem, de modo que o contrassenso é regra e não exceção.

O vereador Carlos Bolsonaro postou nesta segunda-feira uma mensagem no Twitter que em um país onde prevaleça a normalidade seria exigido dele, de forma legal, um esclarecimento com exatidão sobre a grave denúncia. Esta sua tuitada tem muito daquela subjetividade paranóica que é bem própria de seu estilo. No entanto ele fala diretamente do GSI, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, comandado pelo ministro Augusto Heleno, que, como todo mundo sabe, é oficial da reserva. O general é também um dos principais conselheiros do presidente Jair Bolsonaro.

O assunto do filho do presidente é a prisão do militar da Aeronáutica, pego na Espanha com 39 quilos de cocaína em sua bagagem. A partir disso, Carlos coloca em dúvida o trabalho do general Heleno. “Por que acham que não ando com seguranças? Principalmente aqueles oferecidos pelo GSI? Sua grande maioria podem ser até homens bem intencionados, e acredito que sejam, mas estão subordinados a algo que não acredito”, ele escreve. Mais ainda, na mesma mensagem ele afirma que sua vida está ameaçada por causa do que tem falado. Ou seja, pelo que ele afirma, tem um pessoal barra-pesada bem ao lado do presidente da República. A relação feita com a cocaína apreendida na Espanha em um avião da FAB torna a denúncia ainda mais grave.

Como eu disse, falta clareza ao que o vereador escreve, como nesta parte em que ele fala em homens que “estão subordinados a algo que não acredito”, sem apontar a serviço de que estão esses homens. Mas como ele trata da segurança da Presidência da República e estando na posição privilegiada de ser filho do presidente, tenho certeza que em um país onde não houvesse dúvida sobre o que é normal e o que não é, esta sua denúncia seria objeto de investigação rigorosa. Ou então Jair Bolsonaro — não na posição de presidente, mas como pai — cuidaria de encaminhar o filho a um tratamento mental com um profissional qualificado.
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POR José Pires

Tiririca filosofando para Bolsonaro melhor que Olavo de Carvalho

Finalmente Jair Bolsonaro arrumou um filósofo à altura do que ele precisa. Que Olavo de Carvalho, qual nada. O pensador é o deputado Tiririca, que em entrevista à Folha de S. Paulo expôs sua visão política, falando da sua experiência como parlamentar. Ele aproveitou para dar conselhos a Bolsonaro sobre a articulação com os parlamentares e o aprimoramento da governabilidade.

Vejam uma explicação sua sobre o funcionamento da relação entre Legislativo e Executivo: “Aprovar projeto não depende de mim, depende do toma lá dá cá, que não é negócio de dinheiro, é: tu apoia o meu projeto que eu apoio o teu, é assim que funciona aqui”.

E tem também uma sugestão para Bolsonaro evitar dissabores no futuro: "Tá faltando a galera pra chegar e dizer: ‘Irmão, senta aqui. Cara, tu não é deputado. É o país, irmão. Assim não vai. É assim, assim e assim…’ Se ele não sair do pedestal ele vai ser o pior governo que já tivemos em todos os tempos”.

Sentiram a hermenêutica? Sem querer desmerecer Olavo de Carvalho, com o quase literal pontapé inicial que deu a este governo, na contribuição valorosa com seus palavrões, os xingamentos e toda aquela violenta  espinafração, não se pode negar que o desbocado professor vem fracassando na resolução plena das questões de governo.

Numa rápida entrevista de jornal, Tiririca mostrou que pode ser um guru mais apropriado para Bolsonaro. Sua filosofia é muito mais raiz, como se diz hoje em dia. Claro que ele não chegou ainda a um sistema filosófico. Mas tudo tem seu tempo.

Em poucas palavras ele demonstrou que pode chegar ao conteúdo que permita a implantação de sólidos conceitos para o governo deslanchar. Como pensador, Tiririca pode desenvolver com muito mais eficiência a doutrina política bolsonarista que até agora Olavo não teve capacidade de criar.
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POR José Pires

sexta-feira, 28 de junho de 2019

A Espanha dá uma mão amiga para o Mercosul

Se deve aos esforços da Alemanha e da Espanha o acordo comercial finalmente fechado nesta sexta-feira entre o Mercosul e a União Européia, depois de décadas de negociações. Foram esses dois países que atuaram para vencer a forte resistência de governantes que temem os efeitos do acordo sobre o setor agrícola da Europa.

Esta é a abertura de um mercado de altíssima importância estratégica e de grande poder aquisitivo, podendo permitir ao Brasil fugir da dependência de sua balança comercial com determinados países, entre esses a China. Além das vantagens comerciais, existe a chance da criação de associação técnica e cultural com um continente altamente desenvolvido, que sempre dispôs da melhor qualidade em arte e tecnologia.

Foi principalmente da Espanha a insistência que impulsionou este acordo histórico. O governo espanhol organizou uma carta favorável ao pacto e articulou sua assinatura por vários países. A iniciativa da carta foi do presidente espanhol, Pedro Sánchez, que é do Partido Socialista.

O empenho do socialista é uma demonstração de pragmatismo que poderia servir como uma lição política para Jair Bolsonaro, que desde que assumiu o governo vem acenando no plano internacional para políticos de direita que só rendem encrencas e idiotices ideológicas.
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POR José Pires

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Desinformação, abafamento do debate público e da busca da verdade

Em novas informações sobre o rompimento da barragem em Brumadinho, na última terça-feira a Delegacia de Meio Ambiente de Minas Gerais havia divulgado que houve uma detonação de explosivos no complexo, antes do rompimento que no inicio deste ano causou o desastre ambiental, matando ao menos 245 pessoas.

A Vale negou de imediato que tivesse havido qualquer detonação no local. Mas nesta quinta-feira a empresa confirmou ter feito detonações no dia do rompimento da barragem. No entanto, alegam que as duas detonações ocorreram depois da tragédia. Agora a empresa afirma que as bombas foram detonadas às 13h33 e às 14h30 nas minas Córrego do Feijão e Jangada. A barragem B1 rompeu às 12h28.

É muito estranho que tenham explodido bombas exatamente uma hora depois de um desastre da dimensão do rompimento de Brumadinho, mas de qualquer forma, ao negar as explosões ficou evidente a tentativa de desinformação da parte da Vale. Essas grandes empresas com atividade que trazem risco ao meio ambiente agem sempre assim, atuando com a contra-informação ao invés de facilitar a transparência.

Claro que a transparência deveria ser prioridade depois de um desastre. É uma questão de ética social, respeito à população e o atendimento do que é necessário para sanar os danos de sua responsabilidade. Mas o controle da informação começa antes do desastre. É uma prática permanente dessas empresas, com o uso do peso publicitário de sua marca nos caixas das empresas de comunicação, na chantagem financeira e o domínio de liderancas políticas, pelo que proporcionam de ganho para orçamentos de municípios e estados.

Com alto poder financeiro e político, abafam as vozes críticas, evitam o debate entre a população, não permitem a existência do jornalismo independente e de organizacões sociais que poderiam abrir espaço para a discussão séria sobre os aspectos técnicos e políticos da sua atividade. É claro que este fechamento à opinião pública é anticientífico. Quando não se pode apontar hipóteses contrárias ao sentimento imposto de que tudo está indo muito bem, fica muito mais difícil lidar com riscos e suas consequências.
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POR José Pires

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Imagem- Destruição na região de Brumadinho. Foto de Vinicius Mendonça, Ibama

Weintraub e suas tuitadas do barulho

O ministro Abraham Weintraub faz tanta besteira que nos força até a perguntar que raios de coisa esse sujeito usa para vir com suas gracinhas totalmente fora do decoro do cargo. Calma, não há uma insinuação de que Weintraub faça uso de drogas ilícitas. Nada disso. Ele pode ser um cachaceiro, por exemplo e ter suas geniais ideias enquanto enche a cara com colegas.

O próprio Lula bebia além da conta, pelo menos antes do retiro forçado em Curitiba. Francamente, não vejo problema nisso, a não ser que haja excesso e quando o sujeito procura esconder, como era o caso do chefão petista, que teve até que ser impedido pelo STF de expulsar um jornalista estrangeiro que escreveu sobre seu hábito etílico. E em muitas ocasiões públicas era evidente o abuso da branquinha.

Mas o problema de Weintraub pode ser mesmo de personalidade. E personalidade incorrigível, porque é evidente que ele pensa que suas atitudes idiotas são um diferencial de imagem que pode reforçar politicamente sua atividade e ajudar o governo. Desde o início desse governo os brasileiros esperam que se dê no mínimo uma ordem básica no Ministério da Educação, pois Bolsonaro arrumou um sujeito que parece que pensa que lacração nas redes sociais é política pública.

O ministro correu para o Twitter nesta quinta-feira para dar um pitaco sobre a prisão do militar da Aeronáutica, flagrado pela polícia na Espanha com uma maleta cheia de cocaína. A tuitada de Weintraub: “No passado, o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?”.

Bem, o que se sabe mesmo é que Bolsonaro não conseguiu montar um governo com quadros qualificados, mas Weintraub extrapola o limite desta baixa qualidade. Essa tuitada irresponsável demonstra seu despreparo. Ele sequer compreende a gravidade dessa prisão, com a óbvia necessidade do governo administrar com todo cuidado este incidente para amenizar a repercussão mundial, além de evitar que o problema político cresça na proporção do desejo da oposição de esquerda.

Ora, um sujeito que não tem noção da complicação política dessa prisão de repercussão internacional não serve para ocupar um cargo de primeiro escalão e muito menos para estar no comando de um ministério. Parece que já passou da hora de Bolsonaro dar uma canetada para Weintraub dispor de mais tempo vago para tentar suas lacraçõezinhas nas redes sociais.
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POR José Pires

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O sumiço de Paulo Guedes

Não que eu esteja me queixando de falta de animação no governo Bolsonaro, mas vocês repararam no desaparecimento do ministro da Economia, Paulo Guedes? Não, ele não está em viagem para o Japão, com o presidente Jair Bolsonaro. Guedes não faz parte da comitiva que foi à reunião do G20. O motivo da sua ausência não foi divulgado.

Bem, nem é preciso dizer que a situação do ministro não é a de um “Posto Ipiranga”, como Bolsonaro vive dizendo desde a campanha eleitoral, para justificar que também de economia ele não entende nada. Mesmo a reforma da Previdência que segue no Congresso Nacional não é a de Guedes. A que ele mandou foi toda desmontada pelos parlamentares. Fizeram uma nova, aproveitando inclusive para aparecerem como os bonzinhos que excluíram as maldades do ministro. Nesta reforma não tem a marca essencial da proposta do governo, mesmo que Bolsonaro não estivesse sabendo, que seria a mudança para um sistema de capitalização.

Era o grande lance de Guedes, a salvação da lavoura, como se dizia antigamente. Como fazer sem o remédio essencial, a panacéia indispensável para evitar que o Brasil afunde estrondosamente em um buraco sem fundo? Era o que dizia Guedes, em tom de ameaça que atingia várias gerações, desgraçando o futuro até dos nossos tataranetos.

Mas não foi só com a Previdência que o ministro perdeu o comando para o Congresso. Estimulado pelo vazio de articulação do governo Bolsonaro — problema agravado pelo estilo de pouca conversa de Guedes e sua fixação obsessiva na Previdência — Rodrigo Maia puxou também para o Legislativo outros temas importantes da economia, como a mudança no FGTS, autonomia do Banco Central e a reforma tributária.

O presidente da Câmara montou uma equipe que em matéria de prestígio faz sombra para o ministro da Economia. Para cuidar da pauta econômica ele chamou Samuel Pessôa, Bernardo Appy, Marcos Mendes e Marcos Lisboa. Todos liberais, cada um deles com mais experiência na atividade pública que o ministro Guedes e juntos formando um ministério que faz do Posto Ipiranga de Bolsonaro um postinho largado de beira de estrada de terra.

Na prática, mudanças na economia estão sendo pensadas pelo Legislativo. A hábil puxada de tapete de Maia minou o respeito e a credibilidade de Guedes. Seu sumiço terá algo a ver com este desprestígio? Pode estar pensando em uma carta de demissão, planejando cumprir a ameaça que fazia o tempo todo, achando que dessa forma obrigaria os políticos a acatarem suas ordens sem nenhuma discussão.
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POR José Pires

A espera demorada pelo escândalo de Glenn Greenwald

Quando Glenn Greenwald apareceu com a notícia dos vazamentos de mensagens roubadas dos celulares de integrantes da Lava Jato já havia a desconfiança de que ele não tinha em mãos material comprovando que Sérgio Moro tivesse agido fora da lei como juiz. Um indício da falta de solidez dos vazamentos veio da primeira publicação pelo The Intercept, quando foram apresentados diálogos que não continham nenhuma incorreção grave entre Moro e promotores do Ministério Público. Quem é do ramo sabe que matérias desse tipo costumam ser editadas para serem divulgadas em série, mas jamais se começa com o conteúdo de menor impacto.

Na minha opinião, o que Greenwald e seus companheiros da esquerda esperavam era que mesmo sendo de pouca relevância, o material teria condições de criar o clima para o STF libertar Lula. Também desestabilizariam o governo de Jair Bolsonaro. Esperavam uma demissão do ministro Sérgio Moro, o que equivaleria a um enfraquecimento político muito grave desse governo. No entanto, ocorreu o contrário. Foi muito rápida a percepção da relação de fortalecimento mútuo entre Moro e a Lava Jato. Mais que isso, no chamado imaginário dos brasileiro o ministro Moro mantém o prestígio do juiz da Lava Jato.

O site de Greenwald não pode ser levado a sério do ponto de vista jornalístico. É um site ativista de esquerda, daqueles que sempre estiveram na linha de frente da defesa de Lula e do projeto político da esquerda. Greenwald nunca se preocupou com o alto nível de corrupção os governos do PT nem com a destruição econômica que gradativamente foi criada por Lula e Dilma Rousseff. No Brasil ou no exterior, suas falas sobre Lula e os acontecimentos políticos do país não diferem de qualquer militante esquerdista, desses que sem nenhum espírito crítico idolatram às cegas o chefão petista.

Depois de fazer o serviço de militante, usando seu site na tentativa de atingir Moro com vazamentos que parecem de origem criminosa, Greenwald correu para a Folha de S. Paulo procurando turbinar o material com a credibilidade de um grande jornal, mas aí ficou fortalecida a impressão de que ele não tem a posse de diálogos que impliquem no descrédito do ex-juiz da Lava Jato. A chamada escandalosas de capa para a matéria deste domingo da Folha não combinava com o conteúdo fraco da reportagem. E não faz nenhum sentido que já com alguns dias de polêmica o jornal encampasse o assunto trazendo diálogos ainda menos relevantes do que os que já haviam saído no site de propriedade de Greenwald.

Segundo a matéria, Greenwald levou tudo para a Folha, em um pacote que contém textos, áudio, fotos e vídeos. Tem até diálogos de jornalistas com procuradores, o que colocou a direção da Folha numa situação nada ética, da cumplicidade de fuçar nas conversas privadas (e essas sim com sigilo de fonte) de seus concorrentes. Mas independente da falta de respeito, o que se pergunta é onde está, afinal, a bomba de que Greenwald vem falando desde que começou a vazar conversas privadas de autoridades.

Na edição desta terça-feira da Folha, o editorial do jornal parece encaminhar este assunto à sua devida condição, bem aquém do escândalo que a esquerda esperava criar. O editorialista repete o que já foi escrito em vários lugares e foi dito por muita gente, que a condenação de Lula se deu em três instâncias, o que desmonta o raciocínio de que houve uma condenação combinada pelo celular. O texto afirma também que as mensagens “talvez tenham sido obtidas de forma criminosa”, o que para muitos é praticamente uma certeza. E diz também que “ainda não se atestou a autenticidade das mensagens”, que, digo eu, é um procedimento impossível neste caso. Não há materialidade alguma nem fonte.

Essas afirmações vindas de um editorial do jornal que há poucos dias aceitou fazer uma parceria com o The Intercept na publicação das mensagens subtraídas de conversas privadas talvez tenham sido escritas para situar o assunto em seu devido nível, como especulação política e não a bomba jornalística sonhada pela esquerda. É possível até que essa esfriada tenha vindo a partir de uma discussão interna sobre a responsabilidade do jornal. De qualquer forma, se o material entregue por Greenwald fosse de alto impacto, o leitor da Folha já teria lido a notícia no domingo. E o jornal não estaria agora publicando um editorial que parece a confissão de que o escândalo do ano deu chabu.
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POR José Pires

Governo na contramão do bom senso


A proposta de construção de um autódromo no Rio de Janeiro, com o objetivo da cidade sediar o Grande Prêmio de Fórmula 1 já em 2021, pelo menos serve para demonstrar que o eleitor do Rio errou novamente na escolha de um comando para tirar o estado da desgraçada situação em que se encontra. Com Jair Bolsonaro de animado apoiador desse despropósito, todo o Brasil tem a oportunidade de apreciar mais uma prova de um dos grandes erros coletivos da nossa história, para o qual só é páreo a eleição de Fernando Collor, em 1998, mas pelo menos ali o povo tinha a justificativa da falta de hábito, afinal não se votava para presidente neste país desde 1960.

Porém, da eleição de Collor para cá não faltou tempo para o brasileiro aprender a votar melhor. No entanto, deu Wilson Witzel no Rio e Bolsonaro como presidente da República. Por isso temos que suportar o tempo todo ideias estapafúrdias como esta, que por sinal já rendeu para Bolsonaro um papelão internacional. A única compensação que este sujeito sem noção nos dá é que sua impulsividade demole de imediato as besteiras.

Nesta segunda-feira, depois de uma reunião com Witzel e o executivo da Fórmula 1, Chase Carey, ele deu uma animada declaração em entrevista coletiva, afirmando que “há 99% de chance” do Grande Prêmio ir para o Rio. De imediato foi desmentido por Carey, o que rendeu um vídeo muito engraçado, com mais um vexame do presidente fazendo sucesso na internet.

Duvido que esse negócio vá para a frente. Já é notório entre os cartolas do mundo todo o risco de grandes obras esportivas no Brasil, pelo que já aconteceu com as Olimpíadas e com a Copa do Mundo, duas encrencas que ocorreram também no Rio. Nesta associação com políticos brasileiros existe o perigo grave da desmoralização internacional, mas a parceria pode acabar até dando cadeia.

Não é preciso se aprofundar na avaliação da condição atual do Rio de Janeiro, como de todo o Brasil, para apontar a falta de sentido prático do governador do Rio e de Bolsonaro no uso do dinheiro público. A proposta é tão absurda em meio à falência econômica do país e a permanente desgraça em que vive o Rio, que ambos caem imediatamente em suspeição.

A única justificativa para construir um autódromo no Rio hoje em dia seria para o uso do espaço para alojar desabrigados pelas chuvas, quando vier novamente aquele sofrimento de todo ano, quando se alagam moradias, comércio e indústria, encostas desabam, neste estado de calamidade que é o cotidiano de tantas cidades atualmente em nosso país.
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POR José Pires

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Imagem- O executivo da Fórmula 1 dá uma freada de 99% na animação de Bolsonaro
Foto de Walter Campanato, Agência Brasil

terça-feira, 25 de junho de 2019

O desbocado Ciro ataca: outra vez a treta é com o vereador Fernando Holiday

Ciro Gomes com certeza é um sujeito que tem bastante dinheiro, mas deve preparar o bolso para pagar mais uma indenização para o vereador paulistano Fernando Holiday, que já tem um processo contra ele, por ofensa. Ciro já foi condenado em primeira instância e dificilmente não perderá no final. Ofendeu de forma lamentável o vereador, que é um dos criadores do MBL, chamando-o de “capitão do mato” só porque Holiday, que é negro, pensa muito diferente dele sobre conceitos raciais e a forma de atuar nesta questão.

Nesta terça-feira o assunto voltou a ser discutido com Ciro no programa Morning Show, da rádio Jovem Pan. E o candidato derrotado recentemente na eleição para presidente da República fez um ataque ainda mais violento ao jovem parlamentar do MBL. Chamou-o de nazista. Foi tudo bem do jeitão do Ciro, que nunca fundamenta as desqualificações que faz a quem não pensa como ele. Para o político cearense, dizer que alguém é nazista, xingar a mãe, chamar de corno ou corrupto, tudo é a mesma coisa.

Certamente receberá outro processo, mais um previsivelmente com decisão contra ele. Por sinal, no programa da Jovem Pan, Ciro até faz um desafio nesse sentido. Ele costuma falar suas besteiras e pedir que o processem, como se isso validasse seus argumentos ou, sei lá, fosse uma comprovação de que ele é um cabra muito macho. Pois isso para mim é uma ofensa também ao trabalho da promotoria, dos juízes, de quem faz valer a lei neste nosso país. E tem lei para punir este comportamento lamentável, que é ainda pior vindo de quem deveria dar bom exemplo, já que tem um papel político importante.

Já passou da hora de Ciro parar com esta continuada postura de desrespeito não só aos adversários como também à Justiça. Consertar caráter não é serviço da Justiça, mas existem meios para obrigar o sujeito a ter mais respeito com o próximo. Como ele dá prosseguimento às ofensas, se gaba disso e ainda desdenha a autoridade que o acabou de condenar, talvez fosse o caso de aplicar-lhe uma condenação pelo desafio jocoso, com uma indenização bem pesada, bastante alta mesmo, afinal é a pedido do réu.
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POR José Pires