quarta-feira, 24 de julho de 2019

Preconceito e indignação conforme a onda

Para a esquerda o preconceito e a indignação andam a reboque das circunstâncias, com o sentimento sempre na dependência do interesse do momento. Porém, às vezes acontece da indignação bater com o preconceito e se dar em paralelo nos mesmos dias.

É o que vem ocorrendo no desmerecimento da esquerda para com a cidade de Araraquara, com a intenção de diminuir a importância da prisão dos hackers pela Polícia Federal, em uma operação que veio para desmontar a exploração dos vazamentos de mensagens roubadas de celulares de autoridades da Justiça.

Peraí, mas esse pessoal que trata a cidade paulista desse jeito não é o mesmo que na maior indignação diz que Bolsonaro tem preconceito com o Nordeste? Que descuido, companheiros: botaram a indignação para andar de braços dados com o preconceito na mesma semana.

Não tenho dúvida nenhuma de que Bolsonaro é mesmo fogo na roupa. No entanto, vocês são do mesmo nível, espalhando um preconceito pesado contra o interior paulista, procurando desmoralizar a região de maior capacidade econômica e tecnológica do país, fazendo isso de forma ampla, com compartilhamento nas redes sociais de políticos e intelectuais de esquerda, da militância e também em sites esquerdistas.

Indignação com preconceito só quando Bolsonaro fala a palavra "paraíba" em um sussurro discreto que acaba sendo captado sem querer pelo microfone. Ai desse presidente se ele estivesse tratando Araraquara do jeito que vocês vem fazendo desde que a PF acabou com a festa dos hackeamentos.
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POR José Pires

Prisão dos hackers: a bomba que pode implodir a exploração de vazamentos

Chega de vitimização. Na terça-feira a Polícia Federal informou ao STF que não existe nenhuma investigação em curso sobre Glenn Greenwald, dono do site The Intercept, que explora os vazamentos de conversas particulares de promotores da Lava Jato e Sérgio Moro.

A polícia estava ocupada com outra investigação. Por coincidência, ainda ontem no final da tarde veio a notícia que a PF localizou e prendeu hackers acusados de invadir os celulares de Deltan Dallagnol e Moro. São três homens e uma mulher, alvos nesta terça-feira na Operação Spoofing. Os presos são Walter Degatti Neto, Danilo Cristiano Marques, Gustavo Henrique Elias Santos e Suelen Priscila de Oliveira.

Presos em São Paulo, Araraquara e Ribeirão Preto, eles foram levados a Brasília para serem interrogados. A PF quer saber quem está por detrás do grupo e pagou o serviço sujo. Como se costuma dizer, no popular, quem não deve não teme. Quem estiver fazendo jornalismo, buscando simplesmente a verdade dos fatos, ora, não vai temer que a PF consiga ligar todas as linhas, dos hackers presos até o ponto final da utilização do material obtido por eles de forma criminosa.

É evidente que a investigação pretende esclarecer se existe um comando político por detrás dos quatro suspeitos. A não ser que seja por simples curiosidade a invasão da conversa de autoridades da Justiça. O que já se sabe é que os presos “foram responsáveis por centenas” de outras invasões. A informação é do jornalista Merval Pereira, de O Globo, que conta também que as invasões não atingiram só pessoas ligadas à Lava Jato. Foram hackeadas autoridades governamentais, além de jornalistas.

O que se sabe até aqui confirma o que já escrevi sobre o grave risco da exploração das mensagens vazadas de conversas entre promotores e o então juiz Sérgio Moro criar um clima favorável a esse tipo de crime. Disse também que a exaltação a essa invasão de privacidade, colocando-a falsamente na categoria de uma luta por liberdades democráticas e a busca de Justiça, serviria para estimular algo que na verdade tem que ser contido, pela força da lei e com todo rigor.

Logo que se deu o vazamento das conversas de autoridades pelo site The Intercept foi levado adiante pela esquerda um absurdo movimento para justificar o crime de invasão da privacidade, com a falsa alegação de um propósito de aprimoramento da Justiça e do respeito à liberdade de imprensa. Como se fosse possível alguém se dedicar a espionar conversas alheias movido apenas por um sentimento de justiça. Por este raciocínio teríamos então “hackers do bem”, aliados evidentemente a jornalistas e políticos idem. Ora, contem outra.

A ficha dos acusados é suja, com exceção da mulher de um deles, presa também na operação policial. Dois homens já estiveram presos e condenados por outros crimes. Segundo o site O Antagonista, também já apareceu uma dinheirama no caso. 100 mil reais, claro que em espécie, foram apreendidos na residência do casal Gustavo Henrique Elias Santos e Suelen Priscila de Oliveira. O site noticiou também que o Coaf identificou R$ 630 mil em transações suspeitas de dois investigados. 424 mil reais são da conta de Gustavo Henrique Elias Santos. Outra transação atípica de 203 mil reais é de Suelen Oliveira, entre março e maio deste ano.

O caso ainda deve render bastante, talvez até com a descoberta dos mandantes da invasão dos celulares de Dallagnol e Moro. De qualquer modo, do ponto de vista jornalístico é nitroglicerina pura, como costumava dizer o grande Joel Silveira, toda vez que se deparava com uma descoberta capaz de causar grandes emoções. E mesmo que este caso não tenha a ver diretamente com os vazamentos explorados pelo The Intercept, não resta dúvida de que a notícia se encaixa na pauta do site.

Mas o interessante é que até o momento em que escrevo, muitas horas após as prisões e já com a tarde avançando, o site de Greenwald ainda nem tocou no assunto. Mesmo no Twitter não falaram nada. Mas esperemos. Devem estar avaliando com todo cuidado o assunto, afinal com nitroglicerina pura não se brinca.
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POR José Pires

terça-feira, 23 de julho de 2019

Boris Johnson, mais uma piada de mau gosto da política internacional

A revista alemã Der Spiegel trouxe de volta o inesquecível Alfred E. Neuman, o idiota que estrelava as capas da revista americana Mad, que marcou de forma brilhante entre os anos 50 e 70 o humor em todo o mundo. A figuraça voltou com a cara de Boris Johnson, eleito como novo primeiro-ministro do Reino Unido. A edição é da semana passada, pois era previsível a vitória do candidato do Brexit. O outrora império onde o sol jamais se punha não surpreende mais ninguém depois que virou a ilha da piada.

Como não tem outro jeito, é preciso mesmo rir disso tudo, mas a verdade é que tem um tom de humor negro essa mania mundial de eleger idiotas, exatamente quando a situação mundial exige estadistas da maior seriedade e bom senso. Observem que na imagem da capa da Der Spiegel basta mudar a figura, colocando os traços de Donald Trump ou mesmo do nosso Jair Bolsonaro, para ilustrar desastrosas escolhas, negativas para a própria democracia.
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POR José Pires

Carla Zambelli versus Joice Hasselmann: as musas da direita lavam a roupa suja em público

“Pensei que fosse só burra, mas além disso, é muito mau-caráter mesmo. Mentirosa, venenosa, invejosa, uma víbora que espalha mentiras e discórdia.” Quem disse isso foi a deputada Joice Hasselmann, se referindo a colega Carla Zambelli. Foi publicado nesta terça-feira no grupo de WhatsApp do PSL, que como todos sabem é o partido de Jair Bolsonaro.

Com todo o respeito, um arranca-rabo entre essas duas senhoras é motivo para pegar uma vasilha bem grande de pipoca. Joice e Carla estiveram juntas antes de Bolsonaro se eleger e faziam papel de musas da direita. Sim, cada movimento tem a musa que merece, neste caso duas delas, tão apropriadas à nova era de Bolsonaro quanto Maria do Rosário e Gleisi Hoffmann como musas da era que passou, aquela do Lula.

Hoje em dia Joice e Carla estão se pegando, numa briga escandalosa que já teve outras baixarias públicas. A mensagem de Joice tem uma relação com uma provocação de Carla, postada ontem no mesmo grupo de WhatsApp do PSL, em que ela faz a seguinte pergunta: “Por que Joice e Frota não migram logo para o PSDB de Doria?”.

Neste furdunço entra também o citado deputado Alexandre Frota, que por sua vez, além de atacar publicamente Carla e Joice, bate no senador Major Olímpio. Para ele, Zambelli e Olímpio são, respectivamente, “duas caras e barata tonta”. São exemplos da “nova política”, todos do PSL de São Paulo, o que torna oportuno falar do deputado Eduardo Bolsonaro, que o paizão presidente pretende presentear com o cargo de embaixador nos Estados Unidos.

Sendo Eduardo presidente do PSL paulista, as recorrentes baixarias servem como avaliação de seu currículo. Alguém pode achar que um político que dirige um partido com esta bagunça terrível tem capacidade de ser embaixador nos Estados Unidos? O PSL paulista teria de servir como um exemplo para a base política do governo Bolsonaro, digo no sentido ideal e não dessa forma, trazendo complicações para o governo do pai dele.

Esta deve ser a primeira vez que Eduardo Bolsonaro administra alguma coisa na vida e o resultado, como se pode ler até no Twitter, está mais que precário. Enquanto o partido se perde numa tremenda desunião com essa troca de insultos o filho do presidente deve estar surfando em alguma praia da Indonésia, o que serve também para conferir seu senso de responsabilidade.

E vejam que esses políticos que citei são figuras centrais do bolsonarismo, todos da intimidade do presidente, um deles o próprio filho do presidente da República. E ainda tem quem acha que esse governo pode dar certo? Para defender esse projeto político não basta ser fanático de direita. Tem que ter também a cabeça totalmente fora do lugar.
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POR José Pires

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Imagem- Joice Hasselmann e Carla Zambelli, em foto do Twitter, quando ainda não arrancavam os cabelos uma da outra

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O café da manhã que é uma dor de cabeça para Bolsonaro

Uma polêmica criada por Carlos Bolsonaro acabou trazendo a informação de que o café da manhã semanal de Jair Bolsonaro com jornalistas foi uma ideia do porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros. Foi o próprio presidente quem deu a informação, ao ser perguntado neste domingo sobre críticas feitas ao porta-voz nas redes sociais, com seu filho Carlos como um dos autores de cacetadas.

No Twitter, o filho de Bolsonaro critica exatamente o café da manhã e insinua que isso seria uma maquinação contra seu pai. De fato, o café da manhã tem um efeito negativo para o governo, mas de qualquer forma é muito difícil que dê certo qualquer proposta de comunicação que exija de Bolsonaro um diálogo sensato. Ele não tem capacidade de expressão e chega a ser impressionante seu desconhecimento até de noções gerais de governo.

Bolsonaro também tem um temperamento explosivo que não contribui para o esclarecimento de qualquer assunto, muito menos para amenizar danos na imagem do governo por meio de uma boa explanação frente a um questionamento. Ao contrário, em conversas informais podem ser encaixados temas exatamente para extrair respostas irritadas, que servem para atrair leitores. Jornalistas sabem que ele rende polêmica e estoura por pouca coisa, uma forma de reação que por sinal turbinou sua carreira até ele virar um presidenciável de peso.

Claro que eu sei que acabo de traçar o perfil de alguém contra-indicado para ocupar com seriedade qualquer cargo executivo, mas, enfim, até por esta personalidade totalmente desconectada a um trabalho produtivo, brasileiros cometeram o erro colossal de eleger esse sujeito sem noção para presidente da República. Veremos até onde o país aguenta. Mas, ainda que a maior deficiência seja do próprio Bolsonaro, claro que nenhum de seus seguidores, muito menos seu filho Carluxo, aceitará esta avaliação crítica. É um padrão de comportamento familiar dos Bolsonaro pegar alguém como bode-expiatório quando algo não anda de acordo com o interesse do clã.

E todo bolsonarista acredita que Bolsonaro é um ás da comunicação, algo que conforme já falei várias vezes, é uma grande balela. Mas, de qualquer forma, parece-me de um amadorismo muito grave expor qualquer presidente da República a uma conversa aberta com jornalistas em um café da manhã, quatro vezes por mês. Convenhamos, por melhor que fosse o governo e independente da capacidade pessoal do presidente, sempre haveria temas delicados para tratar. Já seria trabalho demais se trouxessem só uma questão complicada por semana e o mais provável é que apareçam mais. E este café da manhã começou exatamente num período que seria melhor que Bolsonaro comesse sozinho seu pão com leite condensado.

Mas acontece que a decisão é sempre do presidente, então se o café da manhã está sendo feito é porque é do seu gosto. E nisso temos outra demonstração de seu despreparo, que no caso se junta ao deslumbramento com o poder. Transparece a vaidade com a atenção que se concentra na sua figura, com a imprensa destacando cada fala sua. E claro que ele não tem a mínima capacidade de compreensão de como se processa essa relação, do papel dos profissionais que trabalham com a informação e no dele próprio. De espírito personalista, antes de tomar posse ele já fazia confusão entre o crédito pessoal e o respeito coletivo à função de presidente da República. Como se costuma dizer, Bolsonaro está se achando. E Carluxo não teria como não acreditar também que seu pai é o máximo.
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POR José Pires

200 dias de Bolsonaro: festa sem nada para comemorar

O governo de Jair Bolsonaro completou 200 dias na semana passada e nos dias anteriores davam a notícia de que o presidente apresentaria uma série de medidas importantes para a economia. Bem, até que parecia ser possível conceder ao menos o benefício da dúvida quanto à evidente dificuldade que Paulo Guedes demonstra para encarar uma crise que nunca se viu antes neste país. Talvez houvesse uma surpresa do ministro da Economia, com a revelação do resultado de um trabalho discreto nos bastidores, na montagem de um projeto de maior peso, demonstrando enfim que ele não está preso apenas à ideia de uma reforma na Previdência como panacéia econômica.

Mas não foi ainda desta vez que o ministro Guedes provou que de fato é o “Posto Ipiranga” da cantilena de Bolsonaro toda vez que lhe falta capacidade para se expressar sobre alguma questão problemática, das tantas na condução deste governo. A cerimônia de comemoração dos 200 dias acabou tendo como destaque um selo do ministério da Agricultura para produtos agrícolas artesanais, que mesmo sendo uma medida incrementadora para determinado setor, parece um tema pego às pressas para compensar a falta de um anúncio de impacto.

A situação é tão desesperadora que a expectativa era da liberação dos recursos de contas ativas do FGTS, medida que apenas alivia o sufoco da economia. O governo Temer fez algo parecido. E mesmo quanto a esta medida a pasta de Paulo Guedes não traz confiança. O ministro havia dito que a liberação iria injetar R$ 42 bilhões na economia. Depois, a equipe econômica diminuiu para R$ 30 bilhões. O país está até agora à espera das regras para o saque do FGTS e, claro, torcendo para que o ministro e sua equipe ajustem suas matemáticas.

Enquanto os brasileiros esperam ações do governo que de fato ativem a economia e tragam empregos com a maior urgência, Bolsonaro passou a semana envolvido com aquilo que já teve ministro acusando os outros de fazer, mas que na verdade é ele que faz como ninguém: balbúrdia. Falou besteira sobre a fome, fez comentário xenófobo sobre adversários políticos do Nordeste, atacou jornalistas, defendeu Dias Toffoli em sua decisão sobre o Coaf que trava investigações. Foi uma semana e tanto, mesmo para o costumeiro padrão de baixo nível.

Bolsonaro gosta do “nós contra eles” que pegou do PT e apenas trocou os sinais, seguindo desembestado pela direita. Agora também se dedica a colocar culpa na imprensa, que conforme diz, só dá “más notícias”. Mas é a própria realidade que traz os fatos. Na mesma semana em que ele jogava pedra (ou algo diferente que não cabe mencionar) para todo lado, o estado de São Paulo registrava o fechamento de 2.325 indústrias de transformação e extrativas nos primeiros cinco meses deste ano. É o número mais alto da década. Também é 12% maior que o do ano passado.

Tudo bem, não há dúvida de que o desastre foi criado pelo PT e seu governo incompetente e gatuno, gerando a maior crise da nossa história. Mas depois de mais de 200 dias de governo, essa lembrança serve apenas para lembrar a razão da derrota petista e também da eleição de Bolsonaro.
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POR José Pires


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Imagem- Bolsonaro - Valter Campanato, Agência Brasil

quinta-feira, 18 de julho de 2019

A luta pela impunidade continua, companheiros

A esquerda reclamou bastante do caso que envolve o filho de Jair Bolsonaro, o atual senador Flávio Bolsonaro, com suas complicações com seu braço-direito Fabrício Queiróz, quando foi deputado estadual no Rio de Janeiro. A suspeita de arrecadação de parte de salários de funcionários do gabinete de Flávio na Assembleia fluminense vinha sendo investigada pelo Ministério Público do Rio e os políticos esquerdistas sabem disso muito bem.

No entanto, parlamentares de esquerda e a militância não só do PT como de puxadinhos como o Psol vinham procurando colar na imagem do ministro Sérgio Moro uma responsabilidade que nem é de seu ministério e de maneira vergonhosa também acusavam Moro de segurar a investigação, algo que, insisto, é fora da sua alçada e que também não estava ocorrendo.

E a investigação de Queiróz acabou sendo barrada não por Moro ou por ordem do odiado Jair Bolsonaro, mas por um antigo companheiro da esquerda, o ministro Dias Toffoli, que teve o começo de sua carreira de sucesso ao lado não só de petistas como os deputados Gleisi Hoffmann e Paulo Pimenta, como também de comunistas como Jandira Feghali e até mesmo de Marcelo Freixo, do Psol, porque todos têm origem em comum, ainda que aparentem uma certa independência de vez em quando, com táticas isoladas criadas para fingir que representam objetivos mais amplos do que o projeto autoritário trabalhado em conjunto.

A esquerda apontava o dedo para Moro e quem travou a investigação contra Flávio Bolsonaro e Queiróz foi Toffoli, que atuou no passado com Gleisi, Pimenta, Feghali e também Freixo, todos estabelecendo no início do governo do PT as bases para a implantação de um projeto autoritário de esquerda no país, sabe-se lá quando, mas o fato é que eles não descansam. Podem inclusive contar com Toffoli, caso este projeto vá se viabilizando, afinal, como eu já disse, o ministro não tem preferência: serve a qualquer poderoso.

Por sinal, Toffoli e a esquerda que agora o critica neste caso em particular atuam noutra parceria, em uma trama à parte com o mesmo sentido de alargar a impunidade e evitar que corruptos poderosos sejam alcançados pelo rigor implantado por Moro e a Lava Jato. Este plano consiste em desmoralizar a Lava Jato e libertar Lula, acabando com a prisão em segunda instância e com a delação premiada. A divergência entre a tigrada por causa do Queiróz não prejudica a associação no âmbito mais amplo do incremento da impunidade. Nisso está mantida a antiga parceria de Toffoli, Gleisi, Pimenta, Feghali, Freixo e demais companheiros, que vem desde os tempos em que levantavam juntos a bandeira do socialismo.
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POR José Pires

O México livre enfim de El Chapo

O narcotraficante mexicano Joaquin Guzmán, conhecido como “El Chapo”, foi condenado à prisão perpétua nos Estados Unidos. E por lá, como todo mundo sabe, cumpre-se de fato a pena. Ser extraditado para o México é o grande medo de todo chefão mexicano e mesmo El Chapo fez de tudo para não enfrentar essa parada. Ele foi muito poderoso no México, onde chegou a fugir pelo menos três vezes de prisões de alta segurança, sendo que na última fuga, em julho de 2015, usou um túnel de cerca um quilômetro e meio de extensão construído pela sua quadrilha até sua cela.

O criminoso ficou menos de seis meses em liberdade e sua recaptura acabou tendo o envolvimento involuntário do ator americano Sean Penn, que permitiu que forças de segurança do México obtivessem pistas do foragido. O ator, que é admirador de Hugo Chávez, foi ao México fazer uma entrevista com El Chapo para a revista Rolling Stone. A entrevista é sórdida, com Sean Penn dando uma imagem benéfica ao criminoso. Teve a utilidade, porém, de servir para a polícia vigiar o ator e seus contatos mexicanos e chegar até El Chapo.

Não sei se Sean Penn poderá conseguir permissão para visitar o criminoso condenado, talvez para uma segunda entrevista com o assassino que ele parece ter como um Robin Hood latino-americano, mas isso parece improvável. Nem a mãe de El Chapo conseguiu visto do governo americano para ver o filho fora-da-lei, que não sairá mais da cadeia.

Sua sentença será cumprida em uma penitenciária de segurança máxima em Florence, no Colorado, conhecida como ADX Florence, de onde ninguém conseguiu fugir desde sua inauguração, em 1994. Por lá, a rotina é tediosa: 23 horas por dia fechado na cela, em regime de solitária. Como exemplo de punição, pode ser visto como um forte desconvite ao crime.

Com certeza, agora El Chapo não dará mais trabalho. Ficará preso até o final da vida, sem nenhuma chance de manter o comando de seus negócios criminosos a partir do presídio, como acontece em vários países, inclusive no México, onde o presidente Andrés Manuel López Obrador teve uma reação surpreendente ao saber da sentença de prisão perpétua.

El Chapo era um bandido temível, com um grau espantoso de violência mesmo para um país como o México, que vive em estado de terror com a extrema crueldade de criminosos, onde são muitas as histórias terríveis de torturas, chacinas, com a bandidagem agindo de forma extremamente sanguinária.

Mesmo diante do histórico assustador do criminoso, em entrevista coletiva nesta quinta-feira, López Obrador disse o seguinte sobre a sentença dada a El Chapo: "Lamento muito que haja casos desse tipo. Não quero que ninguém fique preso, que ninguém sofra. Sou um idealista".

"Quando todas essas coisas que acontecem terminam em condenações como essa, uma condenação para ficar na prisão o resto da vida, em uma prisão hostil, dura, desumana, sim, isso me comove", disse o político eleito em julho do ano passado com uma plataforma política de esquerda. É interessante como a esquerda é muito parecida em todo o mundo.

Imaginem as facilidades que um bandidão como El Chapo não teria em um país como o Brasil. Talvez até tivesse da nossa esquerda uma manifestação sentimental como a do mexicano López Obrador, até porque El Chapo era um chefão do tipo populista, bem do gosto de esquerdista brasileiro. Era capaz até de aparecer jornalista vazando mensagens surrupiadas por algum hacker, com diálogos de malvados promotores articulando-se para encontrar um jeito de meter el pobrecito na cadeia.
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POR José Pires

O mito que dá vergolha alheia

Não existe um modo de definir vergonha alheia quando o constrangimento vem do presidente do nosso país, mas como Jair Bolsonaro multiplica suas performances ridículas no exterior, creio que no Brasil vamos precisar de uma definição diferente para esta forma de sentir vergonha. Geralmente a vergonha alheia com a atitude de alguém ocorre com um indivíduo que faz besteiras que não são da nossa responsabilidade. É sempre um incômodo, mas pelo menos não envolve nossa imagem pessoal.

Não é o que acontece com um presidente da República, que mesmo que não tendo recebido nosso voto encarna para o exterior a imagem do nosso país. Estou falando isso por causa da participação vergonhosa de Bolsonaro no fechamento nesta quarta-feira da 54ª Cúpula do Mercosul, na Argentina, com um discurso com uma série de provocações bestas. Ele pretendia ser engraçado e acabou cometendo gafes, numa intimidade inapropriada com os demais chefes de governo.

O mais vergonhoso é que sua zoação foi no momento que deve ser o mais sério da reunião. Bolsonaro parece que colocou na cabeça que tem talento para stand-up, o que deve ser uma conclusão de equipe, a não ser que ele seja o primeiro presidente no mundo que não avalia seu comportamento público com profissionais. Parecem ter visto nele um craque em comunicação espontânea, com capacidade de improviso para encantar plateias. Não é o que mostra o resultado. O pior tiozão é aquele que resolve tornar público seu talento de animador de churrascos. Nosso embaraçoso presidente está nesta toada.

Corre pela internet um vídeo da sua participação no encontro do Mercosul. É visível o constrangimento das pessoas em volta. Bolsonaro fez gracinha com Evo Morales, da Bolívia, constrangeu o presidente do Chile, Sebastián Piñera, que chegando atrasado procurava ocupar discretamente seu lugar no plenário. Bolsonaro fez uma piada com o presidente chileno, falando da Copa América. "O seu problema é com o Peru; não com o Brasil", ele disse à Piñera, como se estivesse em um churrasco regado com cerveja. E que gafe. Chile e Peru amargam um conflito histórico desde a Guerra do Pacífico, quando a derrota fez o Peru perder parte de seu território para o Chile.

O espetáculo de Bolsonaro foi bem longo, até porque um efeito da vergonha alheia é a sensação de que o constrangimento se prolonga de forma insuportável. E hoje em dia essa vergonha ainda é registrada, podendo ser acessada a qualquer momento. Vídeos e matérias sobre a reunião levam nossa imagem para mundo, com este presidente sem noção atuando como animador de circo xexelento. A cara dos dirigentes dos outros países não deixa dúvida do estranhamento com as tolices do colega brasileiro.

Esta reunião do Mercosul serviu para demonstrar que embora estejam abertas ao Brasil possibilidades de ampliar suas relações não só na América do Sul como na Europa, com a perspectiva do acordo de livre comércio com a União Européia, a condução do governo Bolsonaro pode adiar os benefícios para um futuro distante. Um entrave com a Europa será na visão equivocada deste governo na questão do meio ambiente, ainda com obstáculos sérios que podem ser causados pelo fechamento ideológico e do perfil personalista do governo.

Bolsonaro incorre no erro de dar um peso indevido ao relacionamento pessoal em situações em que isto não é o fator definidor. Ele acredita seriamente, por exemplo, numa proximidade pessoal com Donald Trump — emoções mútuas, coisa de pele, talvez — que abrirá oportunidades de acertos no fio do bigode. Ainda nesta reunião do Mercosul, falando sobre a indicação de seu filho Eduardo Bolsonaro como embaixador, ele deixou clara sua crença no efeito mágico da camaradagem nas relações internacionais.

Ele disse que basta um telefone seu para que o presidente dos Estados Unidos dê “um sinal positivo” para a indicação. Ainda sobre o desejo de ter seu filho como embaixador em Washington, outra explicação sua revela uma visão ridiculamente estreita das relações entre dois países. "Imaginem se o filho do Macri [Mauricio Macri, presidente argentino] fosse embaixador no Brasil e ligasse para mim, querendo falar comigo. Quando vocês acham que ele seria atendido. Amanhã, semana que vem ou imediatamente?", foi o que disse para reforçar sua indicação.

É a consagração de uma atitude muito própria nas relações externas. Como se sabe, na família Bolsonaro o nepotismo é uma tradição. Espera-se que seu governo não vá tentar emplacar isso como um padrão para o Mercosul.
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POR José Pires


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Imagem- Bolsonaro com o chanceler Ernesto Araújo, na reunião do Mercosul, onde deu seu show

Foto de Alan Santos, PR

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Os riscos do filho embaixador

Já tem uma movimentação forte nas hostes bolsonaristas para arrumar justificativas para que Eduardo Bolsonaro desista do cargo de embaixador nos Estados Unidos. Fazem um esforço para que ele possa sair dessa com o menor estrago político possível. Existe um risco fundamental que é o da sua indicação ser recusada pelo Senado, algo que na minha visão é quase certo, se o presidente Jair Bolsonaro for até o fim com o presente para o filhão.

Acho muito complicado para um senador votar a favor de uma indicação desavergonhada como esta. Vai pesar inclusive o sentimento corporativista, para evitar o risco de uma decisão desmoralizante demais para o Senado. E deve pesar também a dificuldade de cada parlamentar para explicar para suas bases uma desonra desse tamanho.

A verdade é que o negócio foi exagerado, mesmo para um Bolsonaro, ou melhor: dois Bolsonaro. A indicação para a embaixada mais importante da diplomacia brasileira foi com certeza acertada entre pai e filho, espertalhões que não têm capacitação para avaliar o conjunto das implicações políticas de uma decisão dessa envergadura.

Falei do risco de Bolsonaro ser o primeiro chefe de governo a ter uma indicação recusada pelo Senado, mas é claro que pode acontecer de Eduardo ser aceito como novo embaixador. Pois neste caso o problema se agigantará. Falta a Bolsonaro e a seu filhão a capacidade pessoal para prever os riscos, mas com certeza, entre o bolsonarismo existem pessoas capazes de avaliar a complicação que pode ser o filho do presidente virar embaixador, ainda mais no país de sua ambição.

O episódio demonstra inclusive a fragilidade intelectual das relações políticas de Eduardo Bolsonaro no plano internacional. O filho de Bolsonaro é o representante na América Latina da organização direitista internacional presidida por Steve Bannon, o marqueteiro americano descartado por Donald Trump depois de eleito. A organização tem muito dinheiro, que evidentemente não sai do bolso de Bannon. Está com uma sede internacional em um antigo mosteiro na Itália, com um contrato de aluguel pelos próximos vinte anos para o imóvel ser usado como espaço de estudos, conferências e demais proselitismos para ampliar no mundo o pensamento de extrema direita.

O grave erro dessa indicação de Bolsonaro mostra que Bannon tem uma certa dificuldade de organização estratégica. Colocar o filho do presidente brasileiro com embaixador nos Estados Unidos traria sérias dificuldades para nosso país, pois é estreita demais sua identificação com um grupo restrito da direita americana. O Brasil estaria com um embaixador de relações limitadíssimas, fechadas em um círculo da direita americana. A indicação revela a ansiedade um grupo que escancara seus planos. Dá para entender porque uma das primeiras coisas que Trump fez depois de se eleger foi chutar pra fora seu marqueteiro.

São os rolos criados de forma absolutamente estúpida pelo paizão junto com o filhão. Creio que uma parcela de bolsonaristas mais preparados — que não são muitos, mas existem — deve ter capacidade para prever problemas que se avizinham. Duas estrelas da direita, a deputada estadual Janaina Paschoal e Olavo de Carvalho, já deram o alerta em mensagens pelas redes sociais. São dois cínicos, pois passaram por cima da questão do nepotismo. Olavo nem fala disso e Janaina procede de um modo muito ruim, se assemelhando a petistas pegos em maracutaias: ela fala em “eventual nepotismo”.

Os argumentos de ambos servem unicamente como desculpa política para Eduardo Bolsonaro sair dessa. Resumidamente, os dois apelam pela sua desistência do cargo, alegando a importância política de sua presença no Brasil, o que é uma balela. O deputado é um fracasso como articulador. É genioso e briguento. Sob sua presidência o PSL paulista é um partido rachado. Mas autocrítica não conta muito para esse pessoal.

No entanto, a dimensão do perigo pode forçar Bolsonaro a fazer mais este recuo. Será até engraçado, pois muito bolsonarista que defendeu uma indicação nepotista vai ter de achar um jeito para explicar sua adesão a um plano de uma idiotice que poucas vezes se viu na política brasileira.
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POR José Pires

Eduardo Bolsonaro, o filho que não reconhece seu lugar

O deputado Eduardo Bolsonaro é entrevistado na edição desta semana da Veja. A revista deu-lhe cinco páginas, espaço que é para poucas estrelas da política. O filho de Bolsonaro opina sobre quase tudo de importante que envolve hoje o governo de seu pai, mas o mais interessante é que disserta sobre assuntos de Estado como se estivesse em uma posição política alcançada por mérito próprio. Dá a impressão de que não se dá conta que o interesse da imprensa não é exatamente pela sua atividade política pessoal, pelo peso político como parlamentar ou qualquer outra questão de mérito (essa palavrinha que a direita repete tanto, pelo menos antes do nepotismo explícito do bolsonarismo), em posição alcançada por esforço próprio. É uma entrevista com o filho do presidente. E ponto.

Não há razão alguma em seu currículo político para que haja interesse do leitor no que ele pensa, do mesmo modo que ocorre com seus irmãos, igualmente políticos eleitos pelas mãos paternas, que são notícia apenas pelo vínculo familiar com o poder. Eduardo Bolsonaro nada mais é que um deputado do baixo clero, qualificação inferior que não consegue superar mesmo estando na presidência do presidente do PSL em São Paulo e sendo filho do presidente. Ele é de pouca eficiência como articulador e não mostra serviço também na liderança. Alguém ouviu falar dele agindo na votação da reforma da Previdência? Para se ter uma idéia de sua capacidade pessoal, basta ver como anda a situação de seu partido e a precariedade da base do governo de seu pai.

Seu currículo como deputado é fraco e se tem algo para ser notado são os episódios pitorescos. Na legislatura passada ele marcou presença na sessão da votação do impeachment de Dilma Rousseff, depois da cuspida do então deputado Jean Wyllys em seu pai. Eduardo aparece em um vídeo correndo atrás do deputado do Psol e disparando cusparadas. Outra cena importante de sua carreira é a de uma troca de mensagens entre ele e seu pai, quando Bolsonaro foi candidato a presidente da Câmara e teve apenas quatro votos. Não recebeu nem o voto de Eduardo, que estava nos Estados Unidos e era disso que ele reclamava na mensagem ao filho.

Na eleição passada ele foi o deputado federal mais votado da história, com 1,8 milhão de votos. No entanto, como aconteceu com tantos outros, o caminhão de votos veio no embalo da onda direitista que também elegeu Jair Bolsonaro. Eduardo segue na sombra do pai. Embora tenha tido votação altíssima em São Paulo, exerce pouca influência no estado. Teria dificuldade de se eleger prefeito em qualquer uma de suas cidades, ainda mais na capital. Nunca se ouviu falar de atividade alguma do filho de Bolsonaro com ligação com o estado ou a capital, seu atual domicílio eleitoral. É provável que não saiba sair do Ibirapuera e chegar em Santana. Certamente teria dificuldade de liderar qualquer movimento expressivo no estado, de articulação para as próximas eleições.

Pode ser que seja por esta falta de conexão e traquejo com atividades práticas da política que Eduardo esteja ansioso para sair do Brasil, no que ele está correto se a sua vontade for avaliada por suas chances de crescimento político no Brasil por mérito próprio — voltando à palavrinha de que tanto gostava a direita brasileira. Talvez ele acredite numa chance de criar uma identidade própria ao lado de Donald Trump. Por isso tenta cavar com o paizão uma boca boa na embaixada brasileira estrategicamente mais importante da atualidade. Tem muita gente reclamando de sua indicação, o que eu acho um equívoco. O currículo é perfeito para uma nomeação feita pelo presidente Bolsonaro.
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POR José Pires

sábado, 13 de julho de 2019

Janaina Paschoal deixa pra lá o nepotismo e passa a mão na cabeça do filhão de Bolsonaro

Janaina Paschoal deu sua opinião sobre a nomeação de Eduardo Bolsonaro como embaixador nos Estados Unidos. A deputada estadual pelo PSL de São Paulo tratou a questão do nepotismo como “eventual”, deixando de fora o aspecto ético e moral da nomeação de um filho pelo presidente da República para a ocupação de um cargo de confiança. Que diferença daquela firmeza com obrigações morais, muito marcante em seu passado recente. Faltou o ímpeto justiceiro que chegou até a render memes com trilha sonora de banda heavy metal.

Ninguém pode ser acusado de exagerado se rogar aos céus uma resposta sobre onde foi parar o furor ético dessa senhora. O fervor era até um pouco exagerado, mas na ética na política é preferível o rigor do que a falta dele. E não estou falando do processo de impeachment de Dilma Rousseff, cujo equilíbrio não foi só da sua responsabilidade.

Janaina ficou famosa pelas suas manifestações pessoais extremadas sobre política. Quando era cotada para ocupar a vaga de vice ela chegou a alertar a militância bolsonarista para que não se adotasse um comportamento parecido ao dos petistas. Ela disse isso ao lado de Jair Bolsonaro, em um evento do lançamento da candidatura.

Pois ela foi se igualar aos petistas exatamente neste debate, quando é vital que se fale da ética e do respeito que se deve ter a regras morais em funções públicas, sem que isso precise ser obrigatoriamente detalhado em lei. É a mesma admissão que o PT faz do indefensável, quando é do interesse dos que mandam no poder.

Em mensagem no Twitter, depois de qualificar como “eventual” o claro nepotismo, Janaina aponta o compromisso de Eduardo com seu mandato de deputado federal de “quase dois milhões de votos”, apelando também para suas “responsabilidades no Brasil”.

A deputada estadual diz que o deputado deve “agradecer a deferência e declinar” do convite, como se não fosse uma nomeação acertada de antemão entre ele e o pai. Só falta pedir que ele faça cara de surpresa quando recusar a indicação. Janaina fala também que o filho do Bolsonaro “tem muito a fazer na Câmara e na Presidência Estadual do PSL”.

Com isso, ela acaba levantando um problema grave no currículo do provável futuro embaixador nos Estados Unidos. Sua liderança no PSL é um desastre. Não se dá nem com a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann, deputada federal por São Paulo, que ficou apenas atrás dele em número de votos no estado. Na articulação no Congresso o filho de Bolsonaro também é um fiasco. Basta a ver a condição caótica do partido e da base do governo de seu pai.

O que Janaina parece querer é dar um jeito para Eduardo Bolsonaro se safar de uma situação altamente arriscada. Parece que o filhão armou junto com o paizão uma arapuca para ele mesmo. A indicação de seu nome depende de prévia renúncia ao mandato de deputado. Só depois vem a decisão do Senado. A repercussão do anúncio da nomeação foi péssima, fazendo rachar até mesmo a militância bolsonarista. E seu nome pode ser recusado. Seria a primeira vez que isso acontece no Senado, deixando-se sem a embaixada e fora da Câmara.

Em razão desse perigo, com o qual Eduardo não contou na sua afobação para se dar bem, os argumentos de Janaina estão na medida certa como justificativa para ele sair dessa fria. Essa sua conversa nada tem a ver com o que era esperado dela na política brasileira, a partir da sua atuação com Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e outros colegas, no histórico processo de impeachment que acabou com o ciclo de poder do PT e para isso teve o apoio nas ruas de brasileiros que acreditam que vergonha na cara é uma obrigação, mesmo que não esteja em lei alguma.
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POR José Pires

As doces trending topics da Paraty de Glenn Greenwald

Leio nas redes sociais notícia repassada entre a esquerda de que a hashtag “Parabéns Paraty” amanheceu neste sábado em primeiro lugar nos chamados trending topics. No dia anterior, Glenn Greenwald participou da Feira Literária de Paraty, a Flip. Só não é inusitada a presença do vazador de mensagens privadas de autoridades brasileiras em um evento ligado à literatura porque não é de agora que a Flip vem se tornando palco de exibição da pauta da esquerda brasileira.

A cultura em nosso país está tomada por esta partidarização à esquerda e agora já se sabe que a direita pretende fazer o mesmo. Isso põe em risco a cultura brasileira e por extensão a capacidade produtiva de todos os outros setores. A contaminação partidária acaba com a qualidade de qualquer evento. É o que ocorre com a Flip, que além de chata está cada vez mais irrelevante.

Como eu disse, nas redes sociais se diz que a hashtag “Parabéns Paraty” bombou no Twitter e isso é mesmo possível. Sei muito bem qual é o plano. Tentam ganhar a opinião pública, especialmente no exterior, para que se pense que o Brasil inteiro aclama a participação do dono do The Intercept, com o apoio à sua conversa de ativista partidário em uma festa que deveria ser literária e de debate sério da cultura.

Mas existem várias formas para destacar artificialmente um assunto no trending topics e para isso Greenwald deve estar bem assessorado. Afinal, quem recebe em mãos para publicação quase 1 milhão de mensagens de autoridades do Ministério Público, da Justiça e sabe-se lá de quem mais, deve ter por perto profissionais que conhecem os meios para colocar seu nome nas alturas na internet.
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POR José Pires

sexta-feira, 12 de julho de 2019

O filhotismo arraigado de Jair Bolsonaro

O pessoal em torno do presidente Jair Bolsonaro vem fazendo um esforço para justificar sua nomeação do filho Eduardo Bolsonaro como embaixador nos Estados Unidos, mas não tem jeito: o estrago político é enorme. Já não está fácil para bolsonaristas falarem em ética, probidade e todos os adjetivos que a direita usa para se auto-elogiar, aproveitando para atacar adversários, acusando-os de defeitos que a eleição de Bolsonaro teria vindo para sanar.

Como é que vai ficar aquela palavrinha muito falada pela direita, a tal da “meritocracia”? Depois dessa, ficará difícil para algum seguidor de Bolsonaro repeti-la sem que todo mundo caia na gargalhada.

O bolsonarismo vem tentado o impossível. Querem convencer a opinião pública de que não há nepotismo nesta nomeação. Para isso apelam para a citação de decretos, súmulas vinculantes e outras manobras. Foi o que fez em nota, nesta sexta-feira, a Controladoria-Geral da União. Mas acontece que certas imoralidades do poder podem muito bem ser cometidas dentro da legalidade.

O nepotismo não tem nenhum impedimento legal em ditaduras africanas, por exemplo, onde por favorecer a parentada não há nenhum perigo de alguém ir para a cadeia ou perder o mandato. Por sinal, com coisas como esta o Brasil vai ficando com fama parecida aos olhos do mundo.

O que vale não é apenas a letra da lei, mas o respeito à moralidade pública. Faz muito tempo que o entendimento desta palavra — que por sinal costuma vir acompanhada do termo “filhotismo” — já está até dicionarizado. Está lá no velho Aurélio, no Michaelis, também no Aulete, no Houaiss e em tantos outros a definição dessa sem-vergonhice.

Não há lei que derrube a compreensão deste conceito. Esta é a definição do dicionário Aulete: “Nepotismo: Favorecimento de amigos e parentes por parte de quem ocupa cargos públicos”.

Outra definição muito interessante é do Michaelis, que diz exatamente isto: “Favoritismo de certos governantes aos seus parentes e familiares, facilitando-lhes a ascensão social, independentemente de suas aptidões”. Reparem que é exatamente o que Bolsonaro vem fazendo há trinta anos com seus filhos e outros parentes. Na família Bolsonaro o nepotismo é uma tradição.
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POR José Pires

O desgosto de Ciro Gomes

Ciro Gomes defendeu a saída da deputada Tabata Amaral do PDT por ela ter votado a favor da reforma da Previdência e cita Djavan para definir a divergência com a jovem deputada: “Desgosto de filha”, ele disse para explicar sua sensação com a polêmica.

Como se sabe, o cantor Djavan é conhecido por suas composições abstratas, com letras em que ele junta frases de sentido vago. Estilisticamente são devaneios que se encaixam com precisão na música. Funcionou muito bem em várias canções de sucesso, até porque ele é um excelente cantor, de estilo próprio e interpretações muito marcantes. É um autor de músicas realmente muito boas e se impôs em uma época em que a MPB estava coalhada de grandes artistas.

Mas acontece que Ciro foi citar exatamente um trecho da canção “Faltando um pedaço”, que tem um sentido mais claro: “desgosto de filha” é uma expressão antiga, coisa mais do interior, que toca numa questão de comportamento, que certamente deve ter um expressivo peso moral no sertão nordestino. Djavan é de Alagoas. O desgosto é pela gravidez indesejada de uma filha. Não é o caso do problema entre Tabata e Ciro.

Além disso, Ciro não é exatamente um exemplo de boa relação de um homem mais maduro com os jovens. Reparem que boa parte de suas encrencas públicas vem da intervenção de jovens da platéia, que o deixam muito irritado. Ele não sabe lidar e muito menos compreende a ousadia da juventude, muito menos sua impertinência natural. E não foram poucas vezes que sua resposta a um questionamento de alguém mais jovem é o famoso “Vá estudar, garoto!”, próprio de quem não respeita divergência, ainda mais vindo de alguém mais jovem.

E quanto à citação de Djavan em um debate sobre posicionamento político, chega a ser um despropósito, por causa da total falta de lógica que intencionalmente o compositor aplica nas letras de suas canções, um resultado trabalhado por ele com a técnica de quem cria um estilo. Acaba sendo muito bom, afloram ótimos achados poéticos que encaixam na voz de forma muito bonita. Porém, como filosofia política só pode servir para Ciro Gomes. Não pela beleza artística, mas pela falta de lógica, que embaralha a compreensão e nada tem a ver com um pensamento objetivo. Tem muito a ver com o Ciro, na sua confusa personalidade. Enfim revela-se que sua filosofia é simplesmente o djavanês.
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POR José Pires

O chefe que atrapalha o serviço

Já se diz que a votação em segundo turno da reforma da Previdência pode ir para depois do recesso do Congresso, em agosto. Caso isso ocorra, provavelmente a proposta corre riscos. Neste período de espera pode haver a desmobilização dos apoiadores e abre-se a oportunidade para a oposição criar complicações futuras.

E o presidente Jair Bolsonaro não só não ajuda como atrapalha bastante, como fez diretamente quando tentou favorecer agentes de segurança e nas suas constantes atrapalhações políticas, algumas abaladoras para a credibilidade do governo, como essa ideia de nomear seu filho Eduardo Bolsonaro para a embaixada dos Estados Unidos, que aparece em momento crucial da reforma, quando o presidente da Câmara e parlamentares trabalham duro para sua aprovação.

Com este presidente sem noção aprontando o tempo todo como estará a situação política depois do recesso? Outro fato a ser avaliado, mas aí já com a reforma aprovada, é que evidentemente será preciso colocá-la em prática, o que deixa de ser responsabilidade do Legislativo, passando para a esfera do governo, inclusive com a tarefa de encaminhar e colocar em prática outras medidas necessárias para compor com as mudanças na Previdência o cenário econômico que pode tirar o país dessa grave crise.

E alguém acha isso possível sob o comando de um presidente que no meio de uma crise brutal e enquanto deputados labutam para aprovar uma proposta vital para seu governo está ocupado em nomear o filho como embaixador? Eu duvido muito. Até espero estar errado, porque sei que com a permanência dessa toada grotesca a nossa vida não vai melhorar, mas tenho a convicção de que o problema mais grave do país é mesmo o de comando.
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POR José Pires