domingo, 13 de abril de 2014

Assunto rolando

Passou desapercebida a morte de um líder de rolezinhos na última sexta-feira, ocorrida de uma forma que mostra o resultado do estímulo que deram a este tipo de atividade entre os jovens da periferia. Lucas Lima, de 18 anos, foi abandonado sem vida na porta de um hospital na Zona Leste de São Paulo depois de ser espancado em um baile funk. Ele morreu de parada cardíaca e traumatismo craniano. O moço era organizador de rolezinhos e ficou conhecido por ter organizado em janeiro um dos primeiros rolezinhos no shopping Metrô Itaquera. Na época, ele se queixou que nem podia mais frequentar shopping depois da repercussão que tiveram os rolezinhos.


Além deste embaraço a repercussão trouxe a fama e também inveja e rivalidade. Lucas teria sido morto no baile funk depois de uma confusão tola por causa de uma garota. No entanto, as notícias sobre o caso trazem informações sobre um fato dentro do fenômeno dos rolezinhos, que é o incômodo entre os jovens com a popularidade de líderes do movimento. Como já dava para prever logo no começo, formaram-se grupos com rivalidades que descambam para a violência. Existe ainda a dificuldade natural de lidar com a fama repentina, que deve ser ainda mais complicado numa localidade pobre onde a violência é menos limitada.


Existe uma corrente (na qual me incluo) que alertou desde o início sobre as consequências perigosas do estimulo aos rolezinhos. Falamos bastante sobre o óbvio risco à integridade física e emocional de todos, inclusive crianças e velhos, e também dos problemas para o comércio. E na época do auge dos rolezinhos apontei a insegurança que isso pode causar como uma cultura entre os jovens. A questão não era só a atrapalhação dentro dos shoppings. Teríamos que observar também os efeitos disso na vida dos jovens. Um resultado que podia ser previsto é a disseminação de quadrilhas determinando o comportamento coletivo de milhares de jovens. E parece que isso já está acontecendo.


No seu surgimento, os rolezinhos foram usados para corroborar teses esquerdistas que não fazem sentido nem na filosofia em que elas deveriam se apoiar. Teve gente que trouxe ao debate até o conceito de luta de classes, de uma forma que faria o velho Marx ficar muito bravo, ele que na cultura que surge em nossas periferias provavelmente identificaria uma reação de lumpesinato, de uma massa que não compreende nem por que sofre.


Em relação a essas lorotas muita gente contrapôs com o jargão do “leva pra casa”, que alerta de forma muito simples sobre o inferno que é viver próximo dessa realidade terrível que certos jornalistas e intelectuais estimulam de longe, sem nunca ter de viver o assédio e a intimidação que ocorre nos bairros mais pobres. Certas questões precisam ser encaradas levando em conta até a situação de pessoas que são obrigadas a ficar em casa temendo pelos filhos que estão de noite nas ruas, Não é preciso “levar para casa”, mas seria interessante ver esses “pensadores” tendo que ir agora às periferias dar uma ordem ao menos pacífica a esses movimentos que continuam em andamento mesmo depois de terem sido esquecidos como assunto.
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Por José Pires


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