quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Pouca cadeia para muita roubalheira

A única surpresa sobre a prisão do governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), é que ela tenha acontecido só agora. O homem foi vice de Sérgio Cabral, ex-governador recordista em corrupção, cujos crimes aconteceram quando Pezão estava bem do lado dele, até porque foi também secretário de Obras de Cabral por longo período, entre 2007 e 2014. Para que Pezão não tivesse implicação com os crimes de seu titular Cabral, ele teria de ser ingênuo em um grau que é impossível quantificar. Não cabe nem usar criança como exemplo porque até uma criancinha desconfiaria do tio Cabral e sua mulher, tia Adriana Ancelmo, vendo os dois sempre em viagens nababescas e adornados com jóias caras e outros mimos.

Não causa surpresa também o montante de dinheiro dessa corrupção, sendo apenas a parte de Pezão mais de R$ 25 milhões entre 2007 e 2015, conforme a contagem da Procuradoria-Geral da República, que informa também que, corrigido pela inflação, o roubo passa de R$ 39 milhões. É tanto dinheiro que corre nos roubos até agora revelados que notícia de corrupção abaixo de um milhão parece nota de pé de página de seção policial.

Cá pra nós, é tão descarado e o volume de corrupção é tão grande que em um país com a Justiça em pleno funcionamento a polícia passaria em todo o governo do Rio de Janeiro uma rede de malha bem fina, levando para a cadeia quase todos em volta de Cabral e Pezão. Com esse problema encarado mais a sério pelos brasileiros, esses criminosos seriam obrigados a permanecer presos muito mais tempo do que costumam ficar na cadeia, sem nenhum dos benefícios usuais de abatimento do tempo de cumprimento da condenação.

É interessante que essa importante prisão ocorra em paralelo com o julgamento do indulto de Michel Temer que está sendo feito pelo STF, na apreciação de um perdão a corruptos, benefício que pode ser concedido por um presidente acusado também de graves crimes de corrupção. Ah, sim: tampouco será surpresa se logo mais Pezão for solto pelo STF, por Gilmar Mendes ou outro daqueles ministros que parece que estão sempre de plantão para tirar corrupto da cadeia.
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POR José Pires

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O filho de Jair Bolsonaro atravessando nas relações externas

Quem afinal representa o deputado Eduardo Bolsonaro na sua viagem aos Estados Unidos. Talvez o papai eleito presidente? Já se sabe do nepotismo que deu poder político à família Bolsonaro, mas esta viagem vem sendo uma tremenda atravessada em assuntos que não dizem respeito a um deputado federal. Nos Estados Unidos, o filho de Bolsonaro se comporta como chanceler, ditando regras diplomáticas, conceituando bem do jeitão dele mudanças nas relações externas do Brasil, uma delas a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, numa imitação do que já foi feito por Donald Trump, decisão criticada de imediato pela União Europeia e por países árabes

Existe o risco disso comprometer relações comerciais com países árabes, mas de qualquer forma, o Brasil deixa de ter uma posição independente na região, assumindo desnecessariamente um lado em um conflito violento e interminável. Mas Eduardo Bolsonaro procurou aliviar a tensão sobre os problemas sérios que podem ser criados com esta absurda decisão. Preparem-se, porque não é fake news. De fato, ele falou que para compensar, o Brasil pode se posicionar contra o Irã. Sempre segundo o inusitado diplomata, este país não é bem visto na região. “A maioria ali é sunita”, informa o estrategista, que obviamente deve saber pouco sobre o comportamento histórico dos sunitas. Mas sigamos com suas ideias. Diante disso, ele disse, como o Irã “quer dominar aquela região”, quem sabe “a gente não consiga um apoio desses países árabes”. Ah, bom, então digo eu: teremos problemas APENAS com o Irã. E estaremos ao lado dos sunitas naquele conflito. Ufa!

Este é o ritmo próprio do governo de Jair Bolsonaro. Preparem-se que vem muito mais por aí. Como é natural em pessoas acostumadas a um universo muito simples e restrito, Bolsonaro nem percebe o ridículo internacional nessa diplomacia carregada de nepotismo, ainda mais seu garoto não sendo lá uma sumidade com pelo menos algo inteligente para falar. O filho do presidente eleito brasileiro foi recebido por Jared Kushner, genro de Trump. Ficou uma situação engraçada, tipo política internacional em família.

Para piorar, o deputado fez questão de posar com um boné escrito “Trump 2020”, numa antecipação besta de uma reeleição que já está claro que não será fácil para o presidente americano. Não faz sentido buscar mais uma encrenca, entrando em uma briga que já está muito feia, entre republicanos democratas. Claro que estou falando do interesse nosso país. Mas o deputado poderia raciocinar que a mudança de governo nos Estados Unidos será exatamente no meio do mandato do pai dele.

Como diz o general Humberto Mourão, “cada dia uma agonia”. Imaginem o que vem por aí, de um presidente que nem tomou posse e permite essas atravessadas. A intromissão de Eduardo Bolsonaro é um desrespeito inclusive ao presidente Michel Temer, que certamente não é essas coisas como político nem como pessoa, mas enfim, hay gobierno. Neste caso, respeito é até uma questão de protocolo. E nesta feia atravessada tem até um componente político, ao desperdiçar o efeito internacional do próprio Bolsonaro já como presidente anunciando a mudança da embaixada. É o problema da afobação, do despreparo e da falta de planejamento. Fico na espera para saber o que Bolsonaro ganha com esses atropelos, sempre lembrando que se o valentão gosta de enfrentar problemas não precisa criar nenhum novo, porque subindo a rampa do Palácio do Planalto ele os terá de sobra.
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POR José Pires


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O deputado brasileiro com o boné com a propaganda da reeleição de Donald Trump.
Foto de Paola de Orte, Agência Brasil

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A saúde em Cuba e a insanidade da esquerda brasileira

Já faz algum tempo que a esquerda se comporta por impulso, quase espasmos de um organismo adoecido pela ignorância. E vem sendo triste neste caso do abandono pelo governo de Cuba do Programas Mais Médicos. Essa militância esquece-se da origem do problema e não tendo mais o governo de Fernando Henrique Cardoso pra botar a culpa, mete bala em Jair Bolsonaro e passa a emitir impressionantes opiniões românticas sobre a saúde em Cuba.

Agora, com este problema nas relações com o governo cubano, até Che Guevara foi trazido à lembrança, com uma informação totalmente falsa de que ele foi o responsável pela origem da beleza que é hoje em dia a saúde pública em Cuba. Não sei como é que se diz “fake news” na ilha, até porque com a informação sendo dominada pelo Estado, então lá tudo é fake news. Mas em nenhum dos livros sérios sobre a revolução cubana e o governo de Fidel Castro existe essa informação de Che Guevara organizando a área da saúde no governo depois da tomada do poder.

Na verdade, Che Guevara no início da revolução tornou-se presidente do Banco Nacional de Cuba e ajudou na organização do governo. Ele não tinha nenhum conhecimento econômico e teve que tomar até aulas de matemática com um economista cubano que atuava em Cuba. Claro que foi um desastre. Da mesma forma, Guevara mostrou uma tremenda incompetência no que fez depois da revolução cubana, mesmo nas atividades militares, com uma inabilidade estratégica e de planejamento que finalmente custou-lhe a vida em outubro de 1967, na Bolívia. Morreu num local escolhido por ele, que era totalmente inadequado geograficamente para a ação guerrilheira.

Mas cabem alguns fatos para acabar com esta tola ilusão de Guevara como um eficiente reformador da medicina em Cuba. Ele recebeu o diploma de médico em 1953, na Argentina, mas não seguiu a carreira. Preferia a ação política e a aventura em viagens pela América Latina, o que já fazia enquanto estudava. Tanto é assim que em julho de 1955 conheceu Fidel Castro no México e com ele começaria a aventura da revolução cubana, até a tomada de poder em 1959. Façam as contas e verão que é impossível que ele tenha adquirido experiência na medicina, muito menos na área do planejamento administrativo.

Portanto, esqueçam da camiseta do Che Guevara com estetoscópio. E sobre o sucesso da medicina em Cuba, basta pensar em carências em nosso próprio país para desmistificar mais essa lorota inventada pela esquerda sobre um país arruinado por uma ditadura incompetente que se prolonga por mais de 50 anos. Ora, se em um país com o peso econômico do Brasil a população sofre com dificuldades de atendimento por médicos, não tendo acesso nem a exames básicos de acompanhamento rotineiro da saúde, porque em um lugar pobre como Cuba seria diferente? Só se for por alguma religiosidade ética marxista, ideia idiota que faria o próprio Marx se revirar em seu túmulo. Em Cuba faltam remédios e nem existem essas máquinas de primeira linha e profissionais que o militante com plano privado de saúde costuma usar toda vez que seu médico pede algum procedimento que exige bons equipamentos e habilidade profissional.

Mas existe outra necessidade que impede que Cuba tenha um bom atendimento de saúde, só para resumir este problema agora tão cercado de ilusões pela esquerda. É a liberdade, sem a qual é impossível criar qualquer sistema eficiente. No Brasil foi essencial a capacidade empreendedora da classe médica para a criação de qualidades reconhecidas internacionalmente. Pesa muito a liberdade de mercado, que começa e se estabelecer a partir da liberdade do indivíduo. Um detalhe numa matéria recente sobre médicos cubanos que querem permanecer no Brasil me chamou a atenção e pode explicar isso que estou falando.

Um médico cubano que atende no interior de Minas Gerais foi ouvido pelo jornal O Globo e disse que representantes do governo cubano já pressionam sua família. Segundo o médico,  “eles já procuraram meus pais em Santiago de Cuba para falar o que está acontecendo no Brasil”. Desde a eleição de Bolsonaro esses agentes do governo pressionam os familiares dos profissionais cubanos para evitar que eles fiquem no Brasil. Pois é isso. Em Cuba a única fonte de informação sobre o que se passa no Brasil é o governo cubano. Quem achar que dessa forma é possível construir um sistema de qualidade em qualquer área é porque está com o cérebro completamente lavado.

A militância descolada, esses brasileiros de espírito socialista que defendem Cuba não precisam que alguém do governo vá até sua casa para levar a informação do que está acontecendo no Programa Mais Médicos ou em qualquer outra questão política brasileira ou internacional, não é mesmo? Basta acessar um site, pegar um jornal, uma revista ou ligar a televisão. Por mais dificuldades que tenhamos no Brasil, pelo menos aqui estamos defendidos pelo que a militância costuma chamar de democracia burguesa. Fica muito mais fácil ficar repassando inverdades defendendo qualidades insólitas em uma ilha dominada por décadas por um regime fechado.
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POR José Pires


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Imagem- Desfile oficial de primeiro de maio deste ano, em Cuba. Veja no  cartaz com quem o militante
governista acha que Brasil está. Foto de L Eduardo Dominguez, Cubadebate

General Mourão: o vice de Bolsonaro pede calma no pedaço

O general Hamilton Mourão se manifestou sobre o hábito do presidente eleito Jair Bolsonaro de provocar guerras sem necessidade. Bolsonaro pode provocar complicações por causa de opiniões suas sobre as relações com a China e da intenção de mudar a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, neste caso interferindo sem necessidade em um conflito antigo e explosivo. Foi no embalo do presidente americano Donald Trump que Bolsonaro comentou os assuntos, lucrando eleitoralmente com meras bravatas do ponto de vista do poder econômico, político e militar do Brasil. Além disso, tem o fato dele estar criando encrencas novas diariamente, quando já tem uma porção delas prontinhas para serem enfrentadas a partir de janeiro.

Sobre a questão da China, o vice Mourão ponderou com uma visão militar sobre o problema. “Uma briga com a China não é uma boa briga, certo?”, questionou, explicando que se deve comprar brigas que se pode vencer, o que obviamente não é o caso desta. Como exemplo da delicadeza estratégica, ele lembrou que 34% das exportações brasileiras são para os chineses, afirmando de forma objetiva que “não podemos fechar esse caminho, pois tem outros loucos para chegarem nele”.

É interessante o confronto da opinião do general Mourão com a do capitão Bolsonaro porque demonstra diferenças de qualidade calcadas não só na filosofia pessoal como na experiência de vida. Revela também algo que já é nítido. O verdadeiro interlocutor com as casernas não é o titular, mas seu vice. E isso não ocorre apenas pela diferença de patentes. Apesar de pretensamente representar os militares e ter se aproveitado muito disso em sua carreira política, Bolsonaro não tem exatamente o perfil de uma carreira militar exemplar. Foi forçado a retirar-se prematuramente do Exército Brasileiro para ser vereador no Rio de Janeiro, que pode ser interpretado como uma estranha escolha, mas a opção foi mais pelas circunstâncias muito ruins criadas por seu péssimo comportamento nas casernas.

O general Ernesto Geisel já disse que Bolsonaro “é um mau militar”, o que de fato nota-se na sua intempestividade às vezes insana, da qual ele tirou bom proveito em performances midiáticas, beneficiado por uma esquerda cretina e ladra, além de servir-se de forma irresponsável do esvaziamento e a desmoralização da política. À frente de uma guerra de verdade, Bolsonaro levaria à destruição de várias tropas, antes de ser retirado do comando. Mas o perfil de brigão funcionou bem para uma carreira de político de baixo clero, o que não tenho dúvida nenhuma que não serve no comando de um país com o peso internacional do Brasil. Bolsonaro alcançou o poder sem estratégia alguma, favorecido mais por erros do terreno e do adversário do que pela sua real capacidade. E pelo que está demonstrado com fatos, também segue sem estratégia até janeiro, quando terá de enfrentar o que pode ser comparado a uma guerra de grandes dimensões.

O ideal seria que o presidente eleito evitasse brigas desnecessárias, o que foi explicado com objetividade pelo general que é seu vice. Mas ocorre o contrário. Bolsonaro deveria estar concentrado em armar estratégias de enfrentamento do que já tem pela frente, em variados problemas que exigem equilíbrio e paciência, alguns com a exigência de longo tempo para obter-se bons resultados, outros com a necessidade de um trabalho aplicado de várias gerações — como é o caso da falência da educação e da degradação cultural brasileira, com o aparelhamento indecente e destrutivo tecnicamente feito pela esquerda.

Mas não é o que acontece, primeiro pela razão do comandante (ou falta dela), que é turrão de personalidade e com pouco conhecimento e experiência real de administrador e líder. Além das encrencas diárias que arruma, quando não consegue largar o WhatsApp e o Twitter em vez de dedicar-se ao estudo sério dos nossos problemas, Bolsonaro vem compondo uma equipe de briga. E pelo raciocínio até aqui creio que é fácil notar que não faço um elogio. O presidente eleito não tem o discernimento nem senso de oportunidade de aproveitar mesmo certas qualidades oferecidas pelas circunstâncias e a boa vontade de brasileiros preocupados com a gravidade da nossa atual condição — ainda que venham ao som contagiante da trilha musical de Ayrton Senna. Seu temperamento, sua psicologia pessoa e dos que o cercam, é pelo confronto e exibicionismo valentão. Pois eu acho que na falta de boas vozes da política ele devia ouvir seu vice, pois mesmo nas brigas que já estão postas não é na porrada que bons resultados podem ser alcançados.
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POR José Pires


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Imagem- Para onde vai isso tudo? Foto de Valter Campanato, Agência Brasil

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Funcionários na luta para a TV Lula não fechar

Parece que bateu o desespero em funcionários da TV Brasil, que teve o fechamento anunciado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro. Espero que ele não volte atrás também nessa decisão. A TV Brasil nem teria sido criada se não fosse a necessidade do governo petista ter mais um cabide de emprego para amaciar sua relação com jornalistas, a classe intelectual e também com os artistas. Não se engane com a indignação geral no meio intelectual e artístico com Bolsonaro. O capitão de fato não é fácil, mas no geral, a motivação da histeria esquerdista é o temor do desemprego e da falta de esquemas para se beneficiarem, que é algo sempre ruim, mas fica ainda pior numa situação como a de agora, com as empresas da área de comunicação em estado de falência.

Correu muito dinheiro entre a esquerda durante o período petista no Governo Federal. Além de muita verba no meio cultural, teve uma dinheirama para a criação de um esquema governista de comunicação. Mas acontece que as enormes verbas não tiveram aproveitamento na criação de projetos sustentáveis, com sucesso de público e credibilidade. Eram meros panfletos eletrônicos, de bajulação do projeto petista de poder e ataques politiqueiros a adversários do partido do Lula ou a qualquer um que ousasse discordar da desonestidade e da incompetência desses incapazes que não sabiam nem roubar. Teve blog da internet que chegou a receber 1 milhão de reais por ano, mas sumiu tudo logo que a chave do cofre mudou de mãos com a entrada de Michel Temer. Onde foi parar tanta grana? Está aí uma pergunta cuja resposta seria lucrativa aos cofres públicos.

Com a TV Brasil, que logo na sua criação em 2007 recebeu o apelido de “TV Lula”, foi o mesmo procedimento improdutivo, de não usar a estrutura e verbas para criar gradativamente uma emissora com sustentação na qualidade e na credibilidade. Nenhum programa chega ao traço de audiência. Não deixará saudades, a não ser como instrumento para fortalecer o lulopetismo, ofertando programas para figuras que emprestaram seu nome em apoio ao PT, especialmente na defesa de suas lideranças e do chefão, atualmente preso por corrupção e lavagem de dinheiro em Curitiba e prestes a receber novas condenações da Justiça.

Com a divulgação da intenção de Bolsonaro do fechamento da emissora, muitos estão se mexendo na tentativa de encontrar outra colocação no governo ou de evitar que seja cumprida a determinação. O site O Antagonista noticiou que está havendo lobby até junto ao presidente Temer e sua equipe, além evidentemente da pressão ser feita com qualquer personalidade que possa interferir em favor da continuidade da emissora.

O mais engraçado foi uma articulação da última semana para tentar puxar o cantor Lobão para o lado dos funcionários. Ou melhor, a articulação furou porque, segundo o jornal O Globo, servidores da EBC perderam muito tempo debatendo se valeria a pena tentar o apoio do roqueiro, que estava em uma rádio da estatal lançando um livro e CD. Quando por fim decidiram pedir a declaração, Lobão já tinha ido embora. É a crise política brasileira, companheiros. Falta liderança e determinação até na hora do sufoco.
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POR José Pires


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Imagem: O cantor Lobão no papel de ativista, em dezembro de 2014, durante manifestação antipetista
na frente da Câmara dos Deputados. Foto de Laycer Tomaz

sábado, 17 de novembro de 2018

Bolsonaro, o valentão que arruma mais encrencas do que pode enfrentar

Esta confusão internacional com o desligamento da participação de Cuba do programa Mais Médicos, do Governo Federal, revela incompetência grave em dois lados da política brasileira, numa esquerda que esteve no poder por mais de uma década — com a criação ou o agravamento de todas as graves questões que travam a vida nacional — e numa direita que entra agora no poder.

A raiz do problema vem do governo do PT, que conforme é revelado agora aos brasileiros, da pior forma, estabeleceu um programa de assistência de saúde aos mais pobres com a dependência externa seriamente comprometida, em percentual altíssimo, ao interesse de um governo estrangeiro. A subordinação ao controle e às idas e vindas políticas de estrangeiros seria grave de qualquer forma, mas é bem mais irresponsável e típico da cumplicidade histórica entre a esquerda que esta perda de autonomia tenha relação com Cuba, que independente de qualquer juízo de valor sobre a ideologia de seu regime político, não conta hoje em dia com a possibilidade de garantir estabilidade em qualquer tipo de relação.

Outra incompetência, que desenvolve o problema em vez de contê-lo, é a do presidente eleito Jair Bolsonaro, expoente eleitoral de uma direita que antes mesmo da posse oficial continua a dar vazão a um comportamento de uma ousadia sem fundamento ou valor prático a não ser o da sedução fácil do eleitorado, porém sem a possibilidade prática de atender às altas expectativas criadas na apelação politiqueira. Para usar uma imagem própria dessa tigrada, Bolsonaro se comporta como aqueles lutadores de MMA que se exibem em vídeos na internet de um modo idiota e subestimando o adversário. Todo mundo sabe como o vídeo termina. Pobre deste país vitimado por uma esquerda ladra e incompetente, que criou inclusive as condições do surgimento de uma direita  que tem uma segurança idiota no próprio gogó.

O caráter bravateiro dessa direita pode impor ao Brasil um comportamento de valentão, na desinteligência de lidar com os problemas de forma espetacular sem atuar diretamente na organização de soluções sustentáveis, ainda gerando confusões maiores antes de garantir uma estratégia de controle do problema. Vem daí este caso da encrencada condição do Programa Mais Médicos, com a saída repentina dos profissionais cubanos. Desse mesmo jeitão chucro outras complicações já foram desenvolvidas nesses poucos dias anteriores à posse em janeiro, antecipando até mesmo a necessidade do país se ocupar de problemas que eram inexistentes antes do governo Bolsonaro vir a público boquejar sobre sua valentia para encarar tudo o que está aí e mais um pouco.
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POR José Pires

Lula encontra a juíza Gabriela Hardt, substituta de Moro

O ex-presidente Lula deu um depoimento nesta quarta-feira à juíza Gabriela Hardt, no processo do sítio de Atibaia, o primeiro interrogatório dele depois da saída de Sergio Moro da Operação Lava Jato. Já deu para ver que os petistas não sentirão saudades do rigor que Moro imprimia no diálogo com os réus. A juíza enquadrou Lula logo no início do trabalho, quando o chefão petista quis dar início a seus discursos politiqueiros, na tentativa de criar um enfrentamento e politizar o julgamento. Gabriela Hardt interrompeu o nhem-nhem-nhem de forma muito clara. Disse a Lula que ele era o interrogado e não ela, alertando-o com firmeza: “Se começar com esse tom, a gente vai ter problema”.

Lula queria começar a discurseira com a conversa de que o sítio não é dele, no que foi prontamente interrompido pela juíza, que esclareceu que não é esse o motivo da ação. Neste ponto, atacada pelo advogado José Roberto Batochio, chamou sua atenção, perguntando o seguinte: “O senhor orientou o seu cliente sobre o processo ou precisa sair para explicar?”.

Esta postura rigorosa da juíza Gabriela Hardt vai evitar as enrolações da banca de advogados de Lula, além de que vai também nos poupar de chateações nos debates sobre o tema, impedindo afinal que petistas venham com a conversa de que Lula não é dono do sítio. Então, já está avisado pela juíza: a ação é por corrupção — pelo recebimento de vantagens indevidas das empreiteiras Odebrecht e OAS — e por lavagem de dinheiro. É só isso. Nada de posse do sítio, combinado?

Isso é tão fraudulento quando aquela mesma conversa que se ouve até hoje, na cantilena tola de que Lula não é dono do triplex do Guarujá. E daí, companheiro? Ele foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Da mesma forma que na ação do triplex, quem repetir essa conversa de que Lula é injustiçado porque não é o dono do sítio de Atibaia estará fazendo um papelão: é idiota ou age de má-fé.

Ah, outra coisa, sobre uma ausência que notei no interrogatório do chefão do PT. Senti a falta daquele advogado dele, o Fernando Haddad, o cara que dizia que fazia parte da sua defesa jurídica e estava sempre em visita a ele em Curitiba, pelo menos até 28 de outubro, quando perdeu a eleição. Terá largado a causa? Neste interrogatório o bravo advogado Haddad não compareceu.
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POR José Pires

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Roberto Requião, o senador que usa o cargo para fazer chacota

Roberto Requião aproveita seus últimos dias como senador para dar razão aos paranaenses, que impediram sua reeleição para o Senado ao colocá-lo em humilhante rabeira na eleição no Paraná. O quase ex-senador elaborou um projeto de lei que podia valer um processo por queda de decoro, caso ele já não estivesse de saída. A votação de Requião teve ares de plebiscito, decidindo por fim pela sua exclusão da vida pública, pelo menos de forma oficial, a menos que dentro de dois anos ele tente se eleger vereador em Curitiba. Mesmo isso não será fácil.

Nesta eleição de agora ele ficou em terceiro lugar, com apenas 15% dos votos válidos, bem atrás do segundo colocado que se elegeu com 23%. Seu candidato ao governo, o sobrinho João Arruda, também recebeu baixíssima votação. Teve 13% dos votos, ficando em terceiro numa eleição resolvida no primeiro turno. Foi como uma resposta à desfeita de Requião com os paranaenses, ao passar os oito anos de mandato apoiando Lula, Dilma Rousseff e o PT no Senado. Depois de passar todo esse tempo envergonhando seu estado, ele levou o troco dos eleitores.

O projeto de lei de Requião é na base da grosseria e da gozação, o mesmo comportamento dele em qualquer cargo que ocupa. A lei escrita em tom de piada, mas usando os jargões técnicos, propõe perdão judicial para quem for flagrado em crimes eleitorais, contra a administração pública e o sistema financeiro nacional. É uma clara provocação ao juiz Sergio Moro, que assumirá o Ministério da Justiça no governo de Jair Bolsonaro e abandona a Operação Lava Jato. Em entrevista coletiva, ao comentar o recebimento de caixa dois pelo deputado Onyx Lorenzoni, o juiz minimizou a situação. No projeto de lei, Requião sugere que a lei passe a se chamar “Lei Ônix Lorenzoni”.

No projeto, ele afirma que propõe a lei com a intenção de que a mesma forma do "perdão" de Moro se estenda a Paulo Guedes, futuro ministro da Fazenda e “a todos aqueles que cometem crime eleitoral ou contra a administração pública ou contra o sistema financeiro nacional”. O documento apresentado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado foi redigido por Requião todo em forma de piada. A comissão avaliará a constitucionalidade do projeto e está mais que claro que mandará essa baboseira para a gaveta. Porém, Requião vai aproveitar durante muito tempo este factóide para se gabar do que deve achar uma grande audácia. Para ele não importa de forma alguma que na verdade cometeu um grave desrespeito a uma função que, independente do azar de estar sendo ocupada por ele, é de grande responsabilidade, com um caráter institucional dos mais nobres.

Mas quem é que pode colocar juízo na cabeça de Requião? Os paranaenses conhecem de perto seus maus bofes. Já esteve duas vezes à frente do governo estadual, onde chegou beneficiado pelo desmonte político sofrido pelo país, que no Paraná é muito mais grave e já faz mais tempo que acontece. O resultado é que de vez ocorre a eleição de figuras grosseiras como ele, favorecidos pelo desgaste dos outros. No poder estadual, Requião já ofendeu professores universitários, xingou manifestantes e jornalistas, vivia agredindo as pessoas e chateando o próximo com piadas cretinas e invasivas. Por isso, em pelo menos duas ocasiões chegou a tomar uns tapas de gente que se incomodou. E nesta eleição os paranaenses resolveram dar um basta à chateação.

Requião já estava, como se diz, aprontando o terno para a posse, até que os paranaenses lhe deram um exemplar chega-pra-lá, pelo qual o daqui a pouco ex-senador chorou as pitangas de um jeito que fez amolecer até o coração da também quase ex-senadora Gleisi Hoffmann. Ela nem tentou se reeleger para o cargo. É comovente ver um vídeo em que Gleisi diz que na luta para prejudicar Requião os adversários chegaram até a ressaltar sua ligação com o PT. Sim, ela disse isso. Não é fake news. No Paraná o PT é tão rejeitado que faz até a presidente do partido cometer uma gafe dessas. Mas a partir de janeiro Requião terá um longo tempo para se dedicar a seus parceiros. Totalmente desocupado e com residência em Curitiba, não custa nada ele passar todos os dias por perto do prédio onde Lula está cumprindo pena, para saudar pelo megafone seu amigo, por mais um dia de cadeia do criminoso mais famoso do país.
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POR José Pires

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Bolsonaro, o presidente-aprendiz

É muito preocupante e eu arriscaria até em dizer que é desesperador ter na Presidência da República um homem que precisa ser alertado sobre a importância da relação comercial do Brasil com a China, que hoje em dia favorece nosso país em US$ 20,167 bilhões, o que dá 30,1% do superávit total brasileiro de US$ 67 bilhões. Se alguém acha que é um exagero desesperar-se, lembro que estamos falando de um político com quase 30 anos de mandato de deputado federal. Nem com muito otimismo alguém pode acreditar em um aprimoramento dele agora, depois de eleito presidente. Nesta situação, fanatismo não vale.

Está aí uma informação que não precisa vir de um “Posto Ipiranga”. O assunto não exige especialização. Para não falar besteira, bastaria saber ler e ter acompanhado o noticiário nos últimos anos, mas o presidente eleito Jair Bolsonaro não parece ter intimidade com o estudo nem com leituras básicas. Não quero trazer ainda mais preocupações, mas já tivemos um presidente que também não tinha paciência para documentos, relatórios, essas atividades trabalhosas da administração pública. E não é preciso dizer que isso não deu em boa coisa, não só para o Brasil como também para ele, que acabou no xilindró.

Governo curioso, o de Bolsonaro. Nem começou e já terá que dar uns passos para trás, uma regressão criada exclusivamente pela afoiteza verbal do presidente nesses dias da véspera da posse. É até engraçado, pois foi só por falar demais que ele será obrigado a recuos políticos humilhantes ou arcar com prejuízos econômicos que resultarão internamente em perda séria de credibilidade. Não cabe apostas. Bolsonaro voltará atrás no caso da China. O governo chinês não gostou das críticas do presidente eleito e avisou do modo deles: pela imprensa, que na China não é motivo de queixas dos políticos, como Bolsonaro costuma fazer por aqui. Por lá, a comunicação é toda estatal. Editorial do “China Daily” apontou que a vantagem do Brasil na balança comercial não dá motivo para queixas políticas.

Se tiver juízo, Bolsonaro deve voltar atrás também em outro assunto no qual entrou apenas para dar uma, digamos, lacrada política, para a qual nosso país também não tem tanto cacife assim. É a anunciada mudança da embaixada brasileira para Jerusalém. É difícil entender qual é o interesse brasileiro neste aceno político para a radical direita israelense, mas os pontos negativos já começam a aparecer. Logo que ele veio com essa destrambelhada ideia eu falei sobre a encrenca desnecessária que isso traria para o país. Representantes de países árabes já estão avisando que essa decisão pode afetar as relações comerciais com o Brasil. Segundo a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira existe o risco de interrupção de do crescimento do volume de vendas, com projeção de US$ 20 bilhões em 2022. No ano passado, as exportações brasileiras para o conjunto dos países árabes somaram US$ 13,6 bilhões.

Creio que alguém devia avisar Bolsonaro que ele já está eleito. Passou a fase dos memes, capitão. O momento é de se aferrar aos estudos, ao aprofundamento das propostas. É hora de preparar a viabilização prática das ideias e projetos, para em menos de dois meses encarar a mesa do presidente da República, tão atulhada de problemas que com certeza não há necessidade alguma de procurar encrencas novas.
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POR José Pires