sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Lula e o plano do retorno do Brasil do vale-tudo

Existe uma definição muito boa sobre o personalismo na política, nesta crença tola em salvadores da pátria, que é a frase “pobre do país que precisa de heróis”. O ponto preciso é de que só uma sociedade arruinada em quase tudo pode acreditar que pode haver salvação por este caminho, daí o lamento. E o que dizer então de um país que precisa do Lula como herói? Ora, talvez seja o cara certo, porque pelo menos não teremos que encarar o esforço de trabalhar para repor valores morais, que é a maior complicação numa sociedade em destruição, como a nossa.


Calma, eu sei que a honestidade é a base de qualquer trabalho de valor efetivo, ainda mais quando o objetivo é do interesse de todo o país. Mas esta a única razão que vejo como justificativa dessa corrida para apoiar a eleição de Lula, ainda mais com a alegação de “luta contra o fascismo”, que chega a ser insultuosa para verdadeiros heróis que no século passado combateram realmente fascistas, em tempos que duvido que esses bravos guerreiros da atualidade teriam coragem de sair nas ruas com essa conversa fiada.


Dá até tristeza pela condição terrivelmente antiética em que é jogado o Brasil, com esta incondicional adesão a um político que já demonstrou do que é capaz em matéria de imoralidade e noutras tretas em proveito próprio. A justificativa da luta pela democracia, ou contra o fascismo, só serve para passar menos vergonha por estarem colocando em prática aquele jargão de outros tempos difíceis dessa pátria desmantelada, na canção daquele sujeito que é ao mesmo tempo menestrel e guru na corte de Lula, que cantava “Chame o ladrão, chame o ladrão!”. Mas, espera aí: a música era de crítica, companheiros.


Lula na presidência será um sério problema prático, uma complicação que ele próprio garante que vai criar para nós, quando garante que está pronto para usar a experiência que adquiriu nos últimos anos. Ele diz que aprendeu muito, o que é assustador. Ainda mais? Eu diria que soa como ameaça, ao contrário dos que o aclamam como libertador do Brasil, todos agitando toalhas com a cara do larápio, marchando contra o fascismo. Lula já teve dois mandatos e mandou nos quatro que completam o período de governos petistas. Seu legado é de uma brutal queda moral que contaminou toda a sociedade brasileira, além de ter causado a destruição da economia do país.


Os números provam isso: o legado petista foi de 12 milhões de desempregados. Isso no oficial, é claro, pois os dados não pegam os trabalhadores que desistiram de procurar o que não existe. No final do governo Dilma, o Brasil estava com um déficit de 4,5%. O diagnóstico do desastre administrativo foi apresentado ao próprio Lula pelo jornalista William Waack, na CNN, durante a melhor entrevista feita com o chefão do PT neste período de campanha. Como é de seu costume, Lula negou tudo e ficou apavorado procurando em seus papéis um meio de contestar a verdade. Nada encontrou. O jornalista concluiu então a exposição dos números com a definição exata da consequência para o Brasil da visão econômica do PT: “Nenhum país que não esteve em guerra perdeu tanta renda como o Brasil perdeu ali entre 2014, 15 e 16”.


Waack foi claro, mostrando ao chefe político esquerdista o desastroso cenário que surgiu da “ideia de que o Estado seria um grande indutor do crescimento através de volumosos investimentos e papel dos bancos públicos”. Não se pode deixar de acusar a responsabilidade de Jair Bolsonaro e seu ministro Paulo Guedes na vida infernal que os brasileiros estão levando, no entanto — e sempre ressaltando a incompetência e má-fé do atual governo — deram prosseguimento do legado petista. Bolsonaro e Guedes vão entregar o país desgraçadamente parecido ao que foi feito pelas magias petistas da cervejinha e da picanha.


Lula resiste a apresentar um plano de governo, mas com este currículo, nem precisa. Que empresa contrataria um administrador como este? Muitas delas, como se vê pela correria de elites de todo tipo — inclusive as novas elites da nossa cultura, como Anitta e Pabllo Vittar — em apoio a um retorno, que o vice Geraldo Alckmin já definiu muito bem como “volta à cena do crime”. Ocorre que, embora não esteja devidamente exposto em um ideário do partido, já está mais que entendido a possibilidade de lucro com os valores morais, digamos, que se estabelecerão com uma volta ao poder como esta.


Já existem até estudos sobre o conceito de que o país ganha muito mais fechando os olhos para a corrupção e à incapacidade administrativa. É uma visão tão fora de propósito que não seria acreditável nem numa comédia grotesca sobre o Coringa elegendo-se prefeito de Gotham City com uma plataforma política de combate ao fascismo. No enredo proposto pela esquerda por aqui, na realidade, não se pune empresários ladrões e muito menos políticos idem porque — oh, dó! — senão eles perdem seus negócios. E não há motivo para espanto, afinal já foi avisado faz tempo que eles não têm medo de ser feliz. E tem até o gesto com a primeira letra da palavra “ladrão”.


Uma pergunta que faço aos que aclamam um sujeito tão trapaceiro é como faremos mais adiante com a educação dos mais jovens e mesmo nas relações entre todos os brasileiros. Como ficará a ética como conceito de vida depois da volta ao poder de um político que já aceitou a existência do mensalão e que também teve a roubalheira do petrolão na Petrobras? Como Lula mandava nos quatro governos petistas, ele não pode fugir de se enquadrar num dos dois casos. É com esse sujeito que o Brasil será salvo? Então a mensagem clara é de que valerá pouco, quase nada, ter respeito aos princípios morais de qualidade.


Aos brasileiros vai ficar a lição de que a aplicação honesta ao trabalho não abre portas para a realização pessoal, talvez nem mesmo para a subsistência — isso não dá futuro, será o conselho ao incauto que estiver agindo corretamente. Viveremos em um país onde quem passou a vida fazendo tudo com dedicação, de forma honesta, poderá achar que errou em defender princípios de dignidade e ética, sentindo que no decorrer da existência deveria ter se aproveitado dos outros? Isso é um tapa na cara dos mais velhos. E sinto dizer que servirá como um mau ensinamento aos mais jovens.


É um novo tempo que se anuncia. Uma revolução de costumes, que pode virar até jurisprudência jurídica, com certeza colaborando muito com o projeto de governo petista. Claro que de início será complicado explicar para os filhos e netos esse novo modelo de civilização, mas não há porque se preocupar: em pouco tempo a safadeza será tão normal que nem as crianças terão dúvida de que receberão aprovação ao bater no coleguinha e tomar seu brinquedo. E quem ainda tiver apego a métodos arcaicos de vida, como a honestidade e o respeito ao próximo, que arrume um jeito de se reinventar.



quinta-feira, 29 de setembro de 2022


 

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Jair Bolsonaro e Lula: para onde vão as massas na campanha e no pós-eleição

Será uma surpresa para mim se Jair Bolsonaro não tiver uma votação expressiva neste primeiro turno. Especialmente nas últimas semanas, apareceram comprovações materiais de um apoio popular à sua candidatura, em manifestações com toda a aparência de espontaneidade, mesmo porque as forças partidárias que apoiam a reeleição do presidente nunca tiveram a capacidade estrutural de levar as massas para as ruas. São partidos com experiência comprovada em arranjos de bastidores e na armação de esquemas de sustentação do governo, seja de que lado for, sem no entanto contar com o antigo aparato do PT, que garante participação com suas linhas de ligação com sindicatos, universidades, organizações civis e até no serviço público.


Entre agosto e setembro quebraram-se também alegações de fragilidade de Bolsonaro para o enfrentamento de entrevistas fora do circuito jornalístico que lhe dá apoio praticamente incondicional. Ele também desmontou com atitudes práticas a afirmação de adversários de que seria um desqualificado para discussão pública com adversários e que por isso fugiria de enfrentá-los em debates.


Ele se saiu bem no Jornal Nacional, a entrevista de maior visibilidade com candidatos neste fim de campanha, ainda mais levando em consideração a desigualdade no tratamento dos entrevistados. O rigor dos apresentadores do noticiário da Rede Globo não mereceria ressalva do ponto de vista jornalístico, se não tivesse ficado muito abaixo em comparação ao que William Bonner e Renata Vasconcelos tiveram com Lula, seu mais importante adversário.


O início da entrevista com Lula vai ficar na carreira de William Bonner como uma mancha complicada de explicar, com uma afirmação que soou como se tivesse sido soprada pelo marqueteiro da campanha petista. Falando sobre corrupção, Bonner disse que o ex-presidente envolvido em dois grandes esquemas de corrupção, o mensalão e o petrolão, “não deve nada à Justiça".


Nem de longe, mas longíssimo mesmo, Bolsonaro recebeu durante a entrevista algo parecido para seu uso político e eleitoral. Ciro Gomes tampouco saiu do programa levando para sua campanha uma conceituação tão favorável em relação a um sério problema de imagem, como aconteceu com Lula. A acolhida favorável tocou numa fragilidade política do petista. Cabe registrar a fala do jornalista da Rede Globo.


“O Supremo Tribunal Federal deu razão, considerou o então juiz Sergio Moro parcial, anulou a condenação do caso do tríplex e anulou também outras ações por ter considerado a vara de Curitiba incompetente. Portanto, o senhor não deve nada à Justiça”, disse Bonner. O marqueteiro João Santana não faria melhor, nem mesmo o criador original de Lula, o falecido Duda Mendonça. É quase uma sentença de absolvição. Foi a mais fantástica fake news desta eleição, feita ao vivo para milhões de telespectadores pela rede de televisão mais poderosa do país.


Claro que teve um aproveitamento total depois, por Lula e seu marketing de campanha. O petista até agradeceu com cinismo: “Adorei o comportamento do Bonner, quando ele teve a coragem de dizer: ‘Hoje, o senhor não deve nada’”. Depois, a mensagem foi sendo repassada infinitamente nas redes sociais. Equivalente a este mimo político, seria Bonner falar a Bolsonaro que o presidente nada deve em relação ao enfrentamento da pandemia. Ou dizer que Ciro Gomes é uma flor de pessoa.


A desconsideração proposital que era feita a Bolsonaro, de que fugiria de debates em razão de deficiência pessoal, teve também um desmentido cabal com a participação na TV Bandeirantes, no primeiro encontro entre candidatos, com o conhecido peso histórico nas eleições. Neste debate foi também demolido o mito de Lula como um grande debatedor político e obrigou sua retirada de cena, para se expor unicamente para plateias previamente organizadas em ambientes favoráveis.


Não tenho dúvida de que a falta de reação do chefão do PT aos ataques de Bolsonaro acendeu um alarme entre os dirigentes petistas, que até então tinham uma convicção religiosa na inteligência política de Lula e na sua capacidade pessoal em um embate cara a cara com adversários. Para mim, a tática extrema da busca de resolver a eleição no primeiro turno tem mais a ver mesmo com a dificuldade prevista em um encontro frente a frente com Bolsonaro. Na minha opinião, dos candidatos que aí estão, só Ciro Gomes tem garra pessoal para este enfrentamento direto.


O cenário com Lula em um segundo turno, no embate um a um, traz maiores motivos de preocupação. Outra complicação que deve ter causado tremores entre os dirigentes petistas é a dificuldade da campanha em atrair apoio popular visível, mostrando um estímulo eleitoral de massas, para Lula não ser sustentado tanto pelo poder financeiro da campanha – já chegaram no limite de 86 milhões de reais, falando só do oficial. É curioso que não haja uma aclamação nas ruas em torno de um candidato que se diz que vai ganhar no primeiro turno.


Essa ausência das massas populares é mais um acontecimento inesperado para os petistas, igualmente com uma surpresa reversa: é Bolsonaro e não Lula que mostra nas ruas um apoio vibrante de multidões sem uma relação direta com militância partidária ou de classe. São pessoas de idades variadas, muitos jovens e muitas mulheres – é bobagem a gozação esquerdista de que o candidato sustenta-se com seguidores da terceira idade.


O que Bolsonaro e sua equipe vão conquistar em votos com este ambiente favorável à participação popular dependerá da capacidade técnica da sua campanha, que terá sua constatação em poucos dias. Mas o prolongamento dessa força popular é garantido, independente de qualquer resultado eleitoral. E não existe garantia de que com a derrota de Bolsonaro seja bolsonarista este movimento de massas. Já escrevi várias vezes que vejo este amplo posicionamento coletivo contrário à esquerda no Brasil concentrado em Bolsonaro, mas de forma alguma tendo ele como condutor.


É uma massa de brasileiros que vai dar o tom do próximo mandato presidencial, com muita gente pronta para ir às ruas em oposição ao governo de Lula, caso ele seja eleito. Neste caso, cumprindo um papel estabilizador, o que pode ser favorável ao país: na minha visão, um governo petista trará muito risco ao Brasil. E no longo prazo, bem organizada e com boa condução, essa massa de brasileiros poderá dar à política brasileira um clima de maior equilíbrio, em termos de poder em todas as instituições. Como se diz, quando não dá para garantir o que vem pela frente: quem viver, verá.


segunda-feira, 26 de setembro de 2022


 

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Vladimir Putin: o vingador do passado

 Toda vez que Vladimir Putin aparece ameaçando o Ocidente, me chama a atenção o ambiente de filme antigo onde ele faz seus pronunciamentos, com os telefones fixos ao fundo e o fax, pronto para disparar ordens aos seus batalhões. Se as sanções internacionais apertarem, o ditador da Rússia pode abrir um brechó. A estética local, digamos assim, faz lembrar bastante aquele outro legado estúpido do comunismo, o ditador Kim Jong-Un, que costuma ser filmado fazendo disparos de mísseis em um cenário de “Perdidos no espaço”.

Tempos difíceis, não? Quem diria que no Terceiro Milênio viveríamos aterrorizados por uma figura de antiquário. Putin não só parece um ditador dos anos 1950, talvez um tanto mais atrás. Seu anacronismo é autêntico, inclusive pela base de seu poder, uma potência nuclear sustentada pela exportação de commodities.


O clima político de Guerra Fria fica perfeito nestas cenas que parecem de histórias de vilão do comunismo, em filmes americanos de décadas atrás. Só ficaria mais no tom se fosse Ronald Reagan o presidente dos Estados Unidos, mas aí seria pedir demais em matéria de metalinguagem.


É de dar medo. Poderá ser o fim do mundo se acabar o papel do fax ou um telefone desses não der linha na hora de reverter a ordem do ataque nuclear.


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Lula e seu pior inimigo: um passado da queda moral e da quebradeira da economia brasileira


Nesta eleição, Lula voltou a fazer seu velho jogo de aliciar muitos partidos por meio de promessas de cargos e sabe-se lá o que mais, montando um quadro eleitoral favorável. O exemplo de São Paulo serve para provar a montagem deste esquema obscuro que sustenta depois o mito de ganhador de eleição por meio do carisma político. Na disputa pelo governo paulista houve também a anulação de candidaturas, sejam aliados ou inimigos, que poderiam complicar para o lado do chefão do PT. Lula parte para o ataque direto ou apela para o aliciamento.

Contra Sergio Moro articularam a demolição da sua própria possibilidade legal de se candidatar para qualquer cargo em São Paulo. Guilherme Boulos foi presenteado com futuras mordidas em fatias do poder. Deram até o cargo de vice na chapa de Fernando Haddad para a esposa de Márcio França, uma mulher que nunca disputou cargo eletivo algum. Com esse mimo familiar, França abandonou o sonho de voltar ao Palácio Bandeirantes e virou candidato ao Senado, sabe-se lá com quais vantagens de campanha garantidas por Lula.

Foi com jogadas parecidas em vários estados, anulando obstáculos e formando artificialmente um ambiente favorável ao seu interesse, que Lula ganhou força, além de sua candidatura dispor de uma dinheirama – quinze dias antes da hora do voto já tinha alcançado o limite legal de 86 milhões (isso, milhões!) de reais, apenas no oficial, sem falar na mansão em que foi morar na capital paulista, alugada não se sabe por quem, que evidentemente não entra na contabilidade obrigatória do TSE.

Sejamos francos: com esses arranjos, até o “carisma” do eterno candidato Eymael faria diferença nesta eleição. E aqui cabe expor uma questão. Já se vão 40 anos com ele mandando em um partido e tendo o apoio, ano após ano, das mais variadas instituições civis, como sindicatos, movimentos organizados do meio rural e das cidades, além da relação estreita com a imprensa e as universidades. Lula ainda precisa desse esquema todo para confrontar um candidato desprezível, do feitio de Jair Bolsonaro?

Primeiro, o óbvio, o ex-trabalhador há muitas décadas sabe muito bem que não é pelo carisma que ele se mantém por tantos anos em destaque na política brasileira. E depois, Lula com certeza tem o conhecimento, com dados e avaliações de especialistas e cercado de conselhos de políticos experientes, de que não é contra Bolsonaro a disputa deste ano, do mesmo modo que não foi Bolsonaro o adversário da eleição passada.

Lula e seu partido se movimentam contra forças sociais que nasceram dos erros e das más intenções dos governos em que ele mandou. As políticas que arrasaram o país moralmente e na economia trouxeram o risco de gerar um monstro, que poderia ser qualquer político com o senso de oportunidade de aproveitar-se da desgraça. Foi por acaso que este oportunista se chamava Bolsonaro.

Pesam também contra Lula e o PT as atitudes políticas no governo ou na oposição, criando divergências destrutivas entre a população, intrometendo-se nos valores religiosos e morais das pessoas, estabelecendo um discurso de desrespeito à opiniões contrárias que trouxe ao Brasil um clima de divisão até entre familiares, de irmão contra irmão, amigos que não mais se falam. E teve também a impressionante roubalheira, no revolucionário método do rouba e não faz.

O ódio passou a prevalecer sobre o sentimento de amor e amizade, do respeito ao que o outro fala. E claro que vou concordar se disserem que isso é o que faz Bolsonaro, no entanto com a observação de que o caldo de cultura dessa cizânia nacional e de tanta maldade veio da pioneira prática petista – primeiro para ganhar eleições e depois dividindo a opinião pública e atiçando ódios para manter-se no poder e tocar um projeto político que não tem em vista a alternância no poder.

Que Bolsonaro é um coisa ruim, não se questiona. Cabe, no entanto, juntar aos seus malefícios a compreensão de que ele alcançou o poder alavancado pelo ambiente criado pelo PT no país.

A medida do significado do ressentimento popular pelo período petista está neste esforço extraordinário exigido de Lula para se contrapor ao presidente mais asqueroso que este país já teve que suportar. Usando a linguagem do próprio, Bolsonaro é o torturador que não faz questão de parecer bonzinho. Isso é com o Lula. O legado que se volta contra o PT é tão pesado que, mesmo depois de Bolsonaro ter feito até gozação com a terrível mortandade que abalou o Brasil, sua popularidade se mantém com uma extensão capaz de juntar multidões em todo o país, como se viu neste Sete de Setembro.

E que não se acredite que milhões de pessoas saíram às ruas nesse dia movidas por uma liderança carismática de direita. A motivação é muito mais poderosa e terá continuidade a partir do ano que vem. O PT sabe disso, mas suas lideranças não estão em condição de se ocupar agora do pós-eleição. A complicação mais urgente é a de encarar um segundo turno neste clima. Daí o esforço de resolver tudo no primeiro turno.

Vem disso tudo a preocupação em criar um oponente com uma imagem diabólica, o “genocida”, “fascista” e outras definições que não se encaixam de verdade nos crimes de Bolsonaro, que foram terríveis, mas não podem ser caracterizados dessa forma, a não ser que se reescreva a História. Como farsa, é claro. A estratégia é antiga: valoriza-se ao extremo o perigo do oponente, estimulando o orgulho da participação na sua derrota. O sujeito é um ogro, não tenho dúvida. Mas os petistas não ficam com vergonha de ter que piorar a imagem até de um ogro para obter vitória?

A questão é se desta construção eleitoral nascerá energia maior do que o peso da rejeição ao estado de coisas terrivelmente negativo, que veio do período petista de poder. Lula criou uma herança maldita para ele mesmo e junto com isso pode ter estabelecido a impossibilidade de convencer os brasileiros de que não é pior do que um adversário terrivelmente insuportável.