quinta-feira, 23 de abril de 2009

A democracia sofre em meio ao bate-boca

Se ainda tem alguém que não acredita que há um grave descontrole institucional no Brasil, talvez se convença assistindo à discussão ocorrida ontem no Supremo Tribunal Federal entre o ministro Joaquim Barbosa e o ministro Gilmar Mendes, presidente da corte.

Foi um bafafá. No meio da discussão, o ministro Barbosa exige respeito do presidente Gilmar Mendes e avisa que ele “não está falando com os seus capangas do Mato Grosso”.

Alguns analistas políticos estão dizendo que Lula deve estar rindo de orelha a orelha com as crises que corroem a credibilidade do Judiciário e do Legislativo. Considerando a irresponsabilidade cívica do presidente da República, sempre governando de forma meramente eleitoral, até pode ser que a crise nos outros poderes o faça feliz. Bem, ele que não tem medo de ser feliz com qualquer coisa.

A situação do Executivo também não é das melhores. É até pior. Tanto que nem se discute mais falcatruas que surgem no governo. Já estão dentro da normalidade.

Mas não penso que haja motivo para euforia. A crise que temos aí vai bem além do final do mandato de Lula ou de quem o venha suceder. É uma crise do poder civil, algo bastante grave em um país com o nosso histórico em desrespeito à democracia.

Se algum setor tem motivo pra rir é, sem dúvida, o militar. Não, não estou insinuando a possibilidade de um golpe militar imediato, apesar de acreditar que isso só não acontece em razão da falta de clima internacional para uma aventura do tipo.

Mas a tendência no plano internacional não é de equilíbrio, muito menos no plano político. O agravamento das questões ambientais e o momento final de recursos naturais essenciais, como o petróleo, por exemplo, e da escassez de outros, como a água, indica uma situação internacional bastante complicada dentro de − vamos ser otimistas −, vinte anos.

É bastante preocupante que no momento atual o Brasil ainda não tenha um poder civil instalado com solidez e uma democracia com um mínimo de equilíbrio.

Mas leiam a íntegra da discussão no STF, um bate-boca acalorado que também pode ser visto aqui.
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POR José Pires


Bate-boca no STF

Gilmar Mendes - O tribunal pode aceitar ou rejeitar, mas não com o argumento de classe. Isso faz parte de impopulismo juficial.
Joaquim Barbosa - Mas a sua tese deveria ter sido exposta em pratos limpos. Nós deveríamos estar discutindo....
GM - Ela foi exposta em pratos limpos. Eu não sonego informação. Vossa Excelência me respeite. Foi apontada em pratos limpos.
JB - Não se discutiu claramente.
GM - Se discutiu claramente e eu trouxe razão. Talvez Vossa Excelência esteja faltando às sessões. [...] Tanto é que Vossa Excelência não tinha votado. Vossa Excelência faltou a sessão.
JB - Eu estava de licença, ministro.
GM - Vossa Excelência falta a sessão e depois vem...
JB - Eu estava de licença. Vossa Excelência não leu aí. Eu estava de licença do tribunal.
Aí a discussão é encerrada e os ministros começaram a julgar outra ação. E foi retomada mais tarde com Mendes, na hora que proclamou o pedido de vista de Carlos Ayres Britto. A sessão esquenta e só é encerrada depois que o ministro Marco Aurélio Mello interfere na discussão.
GM – Portanto, após o voto do relator que rejeitava os embargos, pediu vista o ministro Carlos Britto. Eu só gostaria de lembrar em relação a esses embargos de declaração que esse julgamento iniciou-se em 17/03/2008 e os pressupostos todos foram explicitados, inclusive a fundamentação teórica. Não houve, portanto, sonegação de informação.
JB – Eu não falei em sonegação de informação, ministro Gilmar. O que eu disse: nós discutimos naquele caso anterior sem nos inteirarmos totalmente das conseqüências da decisão, quem seriam os beneficiários. E é um absurdo, eu acho um absurdo.
GM – Quem votou sabia exatamente que se trata de pessoas...
JB – Só que a lei, ela tinha duas categorias.
GM – Se vossa excelência julga por classe, esse é um argumento...
JB – Eu sou atento às conseqüências da minha decisão, das minhas decisões. Só isso.
GM – Vossa excelência não tem condições de dar lição a ninguém.
JB – E nem vossa excelência. Vossa excelência me respeite, vossa excelência não tem condição alguma. Vossa excelência está destruindo a justiça desse país e vem agora dar lição de moral em mim? Saia a rua, ministro Gilmar. Saia a rua, faz o que eu faço.
GM – Eu estou na rua, ministro Joaquim.
JB – Vossa excelência não está na rua não, vossa excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso.
Ayres Britto – Ministro Joaquim, vamos ponderar.
JB – Vossa excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. Respeite.
GM – Ministro Joaquim, vossa excelência me respeite.
Marco Aurélio – Presidente, vamos encerrar a sessão?
JB – Digo a mesma coisa.
Marco Aurélio – Eu creio que a discussão está descambando para um campo que não se coaduna com a liturgia do Supremo.
JB – Também acho. Falei. Fiz uma intervenção normal, regular. Reação brutal, como sempre, veio de vossa excelência.
GM – Não. Vossa excelência disse que eu faltei aos fatos e não é verdade.
JB – Não disse, não disse isso.
GM – Vossa excelência sabe bem que não se faz aqui nenhum relatório distorcido.
JB – Não disse. O áudio está aí. Eu simplesmente chamei a atenção da Corte para as consequências da decisão e vossa excelência veio com a sua tradicional gentileza e lhaneza.
GM – Aaaaah, é Vossa Excelência que dá lição de lhaneza ao Tribunal. Está encerrada a sessão.

Galileu Galilei e a farra das viagens no Congresso Nacional

Quando eu disse que a entrada do deputado Fernando Gabeira no escândalo das passagens aéreas da Câmara traria um sabor intelectual à farra, com elementos muito mais interessantes do que aqueles que costumam aparecer nas tretas de políticos, sabia que ele não me decepcionaria.

Os deputados estão se defendendo das acusações, com vários deles querendo que o uso das cotas se mantenha com está. Alguns até alegam que é coisa de mais de quarenta anos. Bem, o estelionato também é, mas foi desmascarado antes. Você sabia que namoradas, tios, primas e... (gosto mesmo disso) terceiros voam há quarenta anos com passagens aéreas da Câmara? Eu não sabia.

Os discursos no plenário chegam a comover. Um senador citou até a hipótese de ele ficar doente em Brasília, longe da família. Ora, isso é desviar da questão. Pode funcionar no Congresso, onde isso acontece bastante, mas neste debate não vale. A sociedade civil não quer afastar nenhum político da família. Aliás, seria melhor para nós se eles fossem mais familiares. A questão é outra.

Outro senador chama a atenção ao fato de ele ter que viajar sempre com uma pessoa ao lado. Deve ser doença, ele não esclarece. Também não é disso que a sociedade civil está falando.

Como dá pra ver, é o de sempre. E aí é que entra o brilho de Gabeira. Ele ilumina bastante e não é só por estar na política brasileira, dominada por gente de pouco talento. Gabeira ajuda bastante num caso como este. Seria muito difícil agüentar o debate se ele se restringisse a políticos como o deputado Ciro Gomes, o expoente do baixo clero mais procurado pela imprensa sempre à procura alguma besteira para estimular a falta de assunto.

Ciro Gomes apareceu no debate. Mas é o de sempre também. Fez um discurso empolado em plenário, pretensamente civilizado e disposto ao debate equilibrado da questão, mas depois vai ao cafezinho da Câmara falar palavrões. Ele não se agüenta.

No plenário estava brabo, mas se conteve. Falou em “sanha violenta, intimidatória”, mas não xingou ninguém. Falou da mãe também (calma, é a dele), da história de que ela teria viajado com passagens da Câmara. No discurso, Gomes faz parecer que o caso está presente em toda a imprensa. Mas isso não é verdade. Só se for nos jornais do Ceará. Na internet não está. É ele quem está dando publicidade à história, com a evidente intenção de se vitimizar.

O deputado cearense disse também que até nos Estados Unidos os parlamentares tem direito a passagens. E, segundo ele, com crédito ilimitado. França, Suécia, Dinamarca, todos os parlamentos tem o benefício, sempre conforme suas palavras. Não informou se algum deputado repassa sua cota para alguma Galisteu gringa, sueca ou francesa ou para a sogra visitar a Europa os Estados Unidos. Mas não precisa, pois sabemos que isso não acontece.

Mas até aí tudo bem. Enquanto ele está falando só da mãe dele, tudo bem. Mas o boca-suja acaba estragando tudo. Depois do discurso foi ao cafezinho da Câmara e, apontando o plenário, chamou de “babacas” os colegas que não resistem às supostas pressões. E ainda disse que “Ministério Público é o caralho”. Depois, arrotou valentia para os jornalistas: "Não tenho medo de ninguém. Da imprensa, de deputado, de ninguém. Pode escrever o caralho aí".

Levando em conta o estilo afamado, Ciro Gomes neste momento está com outra mãe na boca. A dos jornalistas, já que este edificante diálogo entre o parlamento e a imprensa acabou sendo divulgado.

É um palavrório danado, mas, como já disse, é o de sempre. Contando apenas como gente como Ciro Gomes não ia ser mesmo fácil suportar estes escândalos. Viva o Gabeira.

Ele também discursou na Câmara ontem. O dia foi animado em Brasília. Na sua fala tem muita coisa banal, ao nível de seus pares, afinal o Gabeira também é humano. Não vou citar aqui, não vem ao caso. Mas vejam esta pérola que saiu de seu discurso : “Se o Galileu Galilei estivesse no Brasil seria condenado certamente pelos jornalistas, pela internet e pelos leitores de jornal, porque há um tipo de moral um pouco mais complexa que leva um pouco mais de tempo pessoa entender”.

Não é bacana? Ela, a Câmara, se move. Eppur se muove! Até o Galileu Galilei agora está na parada. Será o famoso terceiro, de que falam sempre? Pelo que dá pra entender na explanação de Gabeira, o Galileu não está no Brasil. Bem, estando no exterior, que não tenha viajado com passagem aérea da Câmara e muito menos levado a Galisteu.
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POR José Pires

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O ministro fala uma coisa e o Itamaraty outra

O governo Lula precisa combinar melhor sua posição em assuntos de peso internacional, como o racismo. O ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, foi o representante brasileiro na Conferência da ONU e estava presente durante o agressivo discurso do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. O presidente do Irã veio com os ingredientes de sempre: atacou Israel e insistiu em sua estúpida tese que tenta diminuir a importância do chamado Holocausto nazista contra os judeus.

O ministro Santos perdeu uma ótima oportunidade de firmar uma posição brasileira contra o racismo de Amadinejad e criticar sua tese absurda da inexistência de um acontecimento comprovado em farta documentação, como é o caso do Holocausto.

Mas não havendo coragem para tanto, Santos podia pelo menos não contemporizar com a fala do presidente do Irã. Dá a impressão de que ele não compreendeu a gravidade do discurso no plano internacional. O ministro parece pertencer ao grupo de pessoas que só entende o que aconteceu depois que os jornais e a TV explicam.

Na terça-feira, em entrevista à jornalista Helena Carnieri, da Gazeta do Povo, o ministro disse que o discurso de Ahmadinejad “foi algo interessante para os dois lados. Para os judeus, que queriam dar visibilidade a sua causa, e para Ahmadinejad, que teve seu momento de glória”. A entrevista parece ter sido feita no mesmo dia do discurso. Ninguém ainda o havia avisado de que a coisa foi bem séria. Mas a jornalista, com certeza, sabia o que se passava. É uma entrevista curta, muito bem feita. É um bom aviso para Lula não mandar mais Santos cuidar de assuntos importantes no exterior.

O ministro também achou “um exagero” a retirada dos representantes de 23 países em protesto ao discurso. Representantes de países europeus saíram da sala. E países como os Estados Unidos, Canadá, Austrália, Alemanha, Itália, Holanda, Polônia e Nova Zelândia boicotaram o encontro por causa da presença do presidente do Irã.

Mas ainda assim o ministro não viu problemas no episódio histórico que presenciou. E no final da entrevista ainda endereçou críticas à Israel por não absorver o discurso... anti-israelense. “Os judeus fazem questão de reverberar, dar eco a um discurso crítico à sua postura. Revela uma intolerância, uma grande incapacidade de absorver críticas”, disse Santos, com uma estranho argumento, ainda mais vindo de um ministro da Igualdade Racial.

Pois no dia seguinte o Itamaraty lançou uma nota criticando o discurso de Ahmadinejad e dando o devido peso ao episódio. Praticamente desautoriza o ministro da Igualdade Racial. Um trecho da nota: “O governo brasileiro tomou conhecimento, com particular preocupação, do discurso do presidente iraniano que, entre outros aspectos, diminui a importância de acontecimentos trágicos e historicamente comprovados, como o Holocausto. O governo brasileiro considera que manifestações dessa natureza prejudicam o clima de diálogo e entendimento necessário ao tratamento internacional da questão da discriminação”.

Para um país tão distante geográfica e politicamente do conflito entre Irã e Israel chega a ser uma nota dura. É evidente que o ministro não teve capacidade política para compreender a importância do que viu. Ou então concorda com o presidente do Irã, o que é muito pior.

De qualquer forma, era previsível que Ahmadinejad faria algo no gênero. Além de ter mesmo uma posição racista em relação aos judeus, ele tenta a reeleição no mês que vem. Tem que falar para o eleitor iraniano e, para isso, usou como palanque uma reunião internacional.

E o governo Lula deveria se preparar melhor para esse tipo de encontro sobre temas que juntam forças inconciliáveis. Ou o Brasil ainda pode ser surpreendido por acontecimentos piores. E aí, haja nota do Itamaraty depois.
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POR José Pires

Pra Frente Brasil

Atenção: o cidadão eufórico da foto não
é o dirigente de uma ONG ligada ao PCdoB que
acabou de receber R$ 8,5 milhões



Uma curiosidade sobre a ONG Bola Pra Frente, do PCdoB, que recebeu do Ministério do Esporte R$ 8,5 milhões em 2008: Bola Pra Frente é o nome social da ONG. A denominação jurídica da organização é Pra Frente Brasil.

Os responsáveis pela ONG poderiam até dizer que, sendo uma instituição dedicada ao esporte, o nome se justifica, já que vem de uma música de incentivo à Seleção Brasileira na conquista da Copa do Mundo de 1970. Mas Pra Frente Brasil é bem mais que isso.

A ligação histórica de Pra Frente Brasil mais marcante é com a Ditadura Militar brasileira em seu período mais repressivo, o de Emílio Garrastazu Médici. O departamento de propaganda do regime usou bastante a música, tornando a frase Pra Frente Brasil um slogan de exaltação patriótica e propaganda do regime.

Em um período de censura à imprensa, prisões e torturas, o Pra Frente Brasil serviu de forma eficiente para focar a opinião pública no sucesso do time brasileiro de futebol, desviando a atenção dos crimes contra os direitos humanos e a liberdade de expressão.

Que o mesmo slogan sirva para dar nome a uma organização ligada a um partido que teve militantes torturados e mortos pela mesma Ditadura que deu fama ao Pra Frente Brasil é mais um símbolo da bagunça histórica do nosso país, um embaralhamento que gradativamente vai tornando o brasileiro cada vez mais confuso e atrapalhado sobre o que quer para si e para o Brasil.
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POR José Pires

Gastando os tubos país afora

Os poderes legislativos de todo o país estão fazendo um grave desserviço ao Brasil. Faz sentido depois de mais de 24 anos do final da Ditadura Militar o nosso Congresso Nacional estar discutindo se passagens aéreas da cota dos parlamentares pode ser presenteada a parentes e terceiros?

O brasileiro já não é muito chegado aos regulamentos e chamados ritos democráticos, preferindo por muitas vezes o caminho mais fácil do "jeitinho". Com os políticos agindo desse modo, aí é que democracia vai mesmo à breca.

Nem alguém tão inteligente como Fernando Gabeira ou escolado como Michel Temer sabe que não dá para passar passagens aéreas do Congresso para parentes?

No Brasil devia existir voz de prisão para lorota. Ah, eu não sabia que não era correto dar a passagem para minha namorada. Oh, mas não pode emprestar o celular do Senado para minha filhinha viajar? Teje preso! Não, pensando melhor, deixa pra lá. Teríamos de pedir espaço nas prisões de outros países para cumprir tal lei.

E o pior é que o descontrole de gastos (para dizer o mínimo) contamina os legislativos de todo o país. Bem, com esse clima, até associação de bairro não escapa de cair na farra.

O Estado de S. Paulo pesquisou os gastos das Assembleias Legislativas e encontrou situações até piores do que na Câmara ou no Senado. E cada vez que alguém confere em algum dos poderes ( Executivo, Judiciário ou Legislativo, todos estão na mesma situação) acaba encontrando o desrespeito com o dinheiro público.

Como já disse, assim cai muito o respeito à democracia. Calma, não estou pedindo um golpe militar — lutei contra a Ditadura; e não era para implantar por aqui outra ditadura, a comunista, objetivo de gente como a ministra Dilma Rousseff, por exemplo. Mas não acho que estejamos livres do risco de viver novamente tempos negros. Na América do Sul sempre existe essa maldita possibilidade.

Mas é complicado resolver esta e outras questões, com praticamente todo o instrumental para a solução nas mãos dos parlamentares. Eles sempre estão legislando em causa própria. Essa gente só pensa em poder e dinheiro, isso está bem claro. Se tiver meia centena ali com disposição de trabalhar de forma séria, vou ficar muito surpreso. E com tanta irresponsabilidade e má-fé, o Legislativo fortalece a ideia da autocracia, do "pai da pátria" que finge tudo resolver, um dos fatores que favorece bastante a carreira de políticos como Lula. Acabaram também escancarando o espaço para aventuras contra a democracia. Nos arranjos de gabinete ela é destruída todos os dias.

Sempre digo aqui que no estado em que o país se encontra, para dar solução a certos problemas só chamando as tropas da ONU. Não seria o caso?

Mas vamos ao que o Estadão apurou. A verba indenizatória da Câmara e do Senado, que é de R$ 15 mil, é superada por várias Assembléias estaduais. Os deputados estaduais de Alagoas, um estado na rabeira de qualquer índice de qualidade de vida, recebem R$ 39 mil para despesas com aluguel, manutenção de escritórios, locomoção e alimentação.

As Assembleias de Santa Catarina, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas e Mato Grosso também gastam mais com seus deputados. Em Santa Catarina, a verba indenizatória é de R$ 38 mil. Em São Paulo, de R$ 17.450,00.

É vergonhoso, mas ainda não é tudo. Em algumas cidades alguns vereadores recebem o mesmo que os parlamentares em Brasília, mesmo não tendo óbviamente que viajar para outros estados ou o interior. Vereadores de Macapá, no Amapá do senador Sarney, e Boa Vista, em Roraima, recebem também R$ 15 mil.
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POR José Pires

Aviso para o bom andamento dos trabalhos

Atenção senhores senadores e deputados, apesar de não haver legislação própria e nenhuma objeção dos regulamentos internos das duas casas, Senado e Câmara, não é permitido levar o faqueiro para casa e nem doar qualquer peça a parentes e terceiros.
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POR José Pires

Presidente viajado

Quando eram oposição os petistas gostavam de falar sobre as viagens do presidente Fernando Henrique Cardoso. Pois é, aí está o presidente inzoneiro para calar os que achavam que FHC viajava demais. Restando ainda 20 meses para acabar o mandato, o presidente Lula já viajou mais ao exterior que o tucano. E é bom lembrar que isso se refere só á viagens para fora e que FHC pelo menos parava no Palácio do Planalto.

Não viajava tanto internamente. E Lula, como se sabe, nem tira um tempinho para governar. É só viagens e mais viagens.

Hoje e amanhã Lula vai para a Argentina e com isso completará 348 dias no exterior. Isso dá 15% de seu tempo de governo. Até o final do mandato, com certeza, Lula terá ficado mais de um ano fora do Brasil, dos oito de governo. Pela média, deve alcançar 400 dias. Em oito anos, FHC ficou bem menos: 347 dias, 11,8% do mandato.

No ano passado Lula bateu seu próprio recorde: passou 75 fias no exterior. Vejam a lista publicada em reportagem de O Estado de São Paulo: 2003, 67 dias; 2004, 40 dias; 2005, 52 dias; 2006, 34 dias. Em 2006 o número de viagens baixou porque ele estava em campanha eleitoral, neste caso, oficial.
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POR José Pires

terça-feira, 21 de abril de 2009

Com a bola toda

Houve um tempo em que se falava muito no Brasil de um tal “ouro de Moscou”. A expressão havia sido criada para acusar os comunistas brasileiros, que teriam suas atividades no Brasil financiadas pela União Soviética. Em certo período a acusação pareceu um exagero dos conservadores e da Ditadura Militar. Tinha gente que achava até uma calúnia contra a esquerda.

Porém, depois do colapso do comunismo na União Soviética em 1991 apareceram documentos comprovando que realmente vinha dinheiro do Partido Comunista Soviético para os comunistas brasileiros do antigo Partido Comunista Brasileiro, o PCB, ou Pecezão, como também era conhecido.

Hoje o PCB praticamente não existe mais no país. É um dos partidos nanicos, bem pequeno mesmo, sem representação no Congresso Nacional e talvez nem tenha alguém eleito para qualquer cargo em todo o território nacional. Hoje, o partido representante do comunismo no Brasil é o Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. Até 1962, seus militantes faziam parte do PCB. O PCdoB nunca foi próximo da União Soviética, apesar de ter sido sempre stalinista. São até hoje, mesmo com todos os crimes de Stálin. Crimes, aliás, que estão por trás da origem do partido em 1962.

Foi de um rompimento com o PCB, por contrariedade à denúncia dos crimes de Stálin, que nasceu o partido dos bravos camaradas de Lula.

Vê-se, então, que dinheiro é um problema histórico para os comunistas brasileiros. Moscou era longe, a polícia estava sempre por perto: era brabo. E, pelo jeito continua sendo um problema para eles mexer com dinheiro. Agora aparecem problemas no ministério cedido aos comunistas por Lula.

O Ministério do Esporte é hoje do PCdoB, tendo à frente o comunista Orlando Silva. O ministro ficou conhecido no ano passado por ter pago com um cartão corporativo uma nota de tapioca, que custou R$ 8,30. Na época, quando foi também acusado de gastar 20 mil reais com o cartão, ele disse que o pagamento da tapioca havia sido um engano.

Com as denúncias, Silva teve uma atitude surpreendente. Um dia depois da demissão da ministra Matilde Ribeiro por causa dos gastos pessoais com cartão corporativo, ele devolveu todos os gastos que fez com cartão, em um total de R$ 30.870,78.

O ministro disse à imprensa que os gastos haviam sido feitos dentro da “absoluta legalidade”, mas fez questão de devolver para evitar polêmica.

Agora as suspeitas recaem sobre um repasse milionário de verbas para uma ONG sob a direção do partido. E não foi por falta de aviso. O Ministério do Esporte já havia sido alertados pelo Tribunal de Contas da União sobre a falta de critérios objetivos no repasse de verbas para entidades. Segundo o TCU, havia precariedade na análise da capacidade técnica das entidades.

Pois em 2008 o ministério repassou R$ 8,5 milhões para a organização não-governamental Bola Pra Frente. A ONG é dirigida pela ex-jogadora de basquete Karina Valéria Rodrigues, eleita vereadora em 2008 e filiada ao PC do B.

Com o perdão do trocadilho, é uma bolada e tanto. No ranking de repasses do ministério, o Bola Pra Frente só perdeu para o Comitê Olímpico Brasileiro, com R$ 28,7 milhões, e a Confederação Brasileira de Futebol de Salão, com R$ 24, 9 milhões, que foi responsável pela organização do mundial da modalidade no ano passado.
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POR José Pires

Mais viagens por nossa conta

Todo dia aparece mais um que usou sua cota de passagens da Câmara para agraciar parentes e terceiros. Gosto deste “terceiros”. Encaixa tudo aí, já que um terceiro pode ser inclusive uma amante.

Agora é a vez do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e do deputado Fernando Gabeira. Temer não é supresa. A forma leniente como lida com as amoralidades da Câmara sempre dão a impressão de que ele está metido em alguma coisa. Dessa farra ele comprovadamente participou. De qualquer modo, as justificativas de Temer sempre trazem um conteúdo engraçado a qualquer assunto.

Não deveria ser o seu papel, mas ele parece sempre estar falando com ironia. Sobre o fato do deputado Fábio Faria ter dado passagens da sua cota para a então namorada Adriane Galisteu, o presidente da Câmara disse que “não é um padrão normal”. E nada mais fez.

Sobre o uso das passagens, Temer soltou nota oficial usando o termo “terceiros”, o que, como eu já disse, é um perigo porque significa tudo. Já disse aqui, sem exagero, que o presidente da Câmara é político desde que Brasília foi construída, mas mesmo assim ele tenta convencer a opinião pública que desconhece as regras internas da casa.

Na nota oficial ele afirma que repassou sua cota para “familiares e terceiros não envolvidos diretamente com a atividade do Parlamento” e justifica dizendo que o fez porque inexistem “regras claras definindo os limites da sua utilização”.

Na nota o parlamentar diz também que “determinou estudos para a readequação e reestruturação geral e definitiva de todos os pagamentos feitos pela Casa”. Bem, não é preciso se dar ao trabalho, já que a legislação já define que as passagens são destinadas para uso exclusivo do parlamentar.

E mesmo que não estivesse definido com tal clareza, será que nossos deputados não são suficientemente maduros para saber que namoradas, esposas e terceiros (gosto disso mesmo) devem fazer suas viagens por conta própria?

Mas sabemos onde vai dar esse negócio de fazer comissão para estudar o assunto. Todo mundo conhece a história da medida ineficaz do cara da piada para acabar com as traições da esposa. Ele tira o sofá da sala. Pois nossos políticos agem de forma pior quando são flagrados: eles regulamentam a treta.

Mas podem começar a temer os “estudos e readequações” do deputado Temer. Vindo da Câmara a tendência é que acabem legalizando o que agora é ilícito.
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POR José Pires

Fala o Gabeira

A presença do deputado Fernando Gabeira também vem enriquecer a lista dos que pagam as viagens aéreas dos outros com o dinheiro público. Neste caso, ficamos com o que atualmente deve ser o pensamento geral no Rio de Gabeira: Mas até o Gabeira?

Pois é, até ele. Mas como o deputado é bom de frase, pelo menos o deslize servirá para animar o escândalo. Temer entra com o rísivel, Gabeira vem com o conteúdo intelectual e até filosófico. Vejam esta a análise pessoal que ele faz sobre sua situação depois que foi pilhado: “Não acho que isso vai ser rapidamente superado. E eu não me importo. Para sobreviver politicamente, vou encarar de frente a morte política. É mais importante que meu destino pessoal”.

É bem bacana, mesmo que não explique nada. A apresentadora Adriane Galisteu saiu-se melhor. Disse que não vai mais namorar político e pronto. Vale pela concisão e, mais ainda, pela determinação em continuar rosetando — reparem ela vai manter a fama de namoradeira, apenas mantendo mais cuidado. Vai deixar de namorar políticos. Está certa a moça, namoro com político pode acabar em sacanagem. No mau sentido, é claro.
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POR José Pires

Viajando nas justificativas

Gabeira justificou o uso indevido das passagens com um argumento manjado: era prática na Casa. Bem, tanta coisa é prática naquela Casa. Acho até que, em parte, Gabeira foi colocado lá exatamente para ser crítico a estas práticas e não ser contaminado por elas.

É claro que ele está arrependido. Mas o pior é que, talvez animado com microfones e repórteres anotando suas palavras, encarnou o velho Gabeira e defendeu normas para o assunto. Bem, não sei o que o deputado e seus assessores andam lendo, mas desde o início do escândalo os jornais e sites informam que a cota de passagens aéreas é de uso exclusivo dos parlamentares. E será possível que algum adulto, ainda mais com a inteligência de Gabeira, pode imaginar que a cota é para uso de parentes ou, vou usar de novo, pois gostei, de terceiros?

Parece papo de político que diz que fumou maconha, mas não tragou.
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POR José Pires

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O espeto de pau de Protógenes Queiroz

O delegado Protógenes Queiróz postou hoje em seu blog uma explicação sobre o fato de ter usado passagem da cota da Câmara dos Deputados. A passagem foi cedida a ele pela deputada Luciana Genro, do PSOL.

Os posts publicados pelo delegado parecem coisa de maluco. Começam sempre com a frase “Ao povo brasileiro e aos internautas”.

Em um texto abilolado, ele mistura o ministro da propaganda do Nazismo, Joseph Goebbels, e uma suposta conspiração para espalhar "informações de conteúdo duvidosos a respeito" de sua conduta com “o propósito exclusivo” de defender o banqueiro Daniel Dantas.

Na verdade dei uma traduzida no texto do insígne blogueiro. Protógenes escreve numa língua estranha. A conspiração, segundo o que escreve, é para diminuir "a força e energia deste cidadão que exerce o seu munus de natureza pública". Ele deve ser daqueles que pensam que palavras em latim elevam uma frase, mas acontece que no lugar errado soa mais como latinório.

Mas a coisa é bem mais simples. O ferreiro foi pego com espeto de pau. E o conteúdo das notícias, ao contrário de "duvidoso" é bem claro: Protógenes Queiroz foi pego usando passagem áerea de cota de parlamentar, paga pelo dinheiro público, exatamente no meio de um escândalo que envolve esposas, sobrinhos, tios e demais familiares de políticos que fazem suas viagens por conta do dinheiro público. Até Adriane Galisteu apareceu na farra. Mas no caso da apresentadora, as viagens foram presentes que ganhou em um de seus namoros fugazes.

Mas o caso do delegado parece diferente. Mesmo que esteja namorando uma carreira política, até prova em contrário Protógenes está em serviço, não? Ele não podia aparecer numa dessas. Muito menos a deputada Luciana Genro, outra guardiã da ética. Parece coisa de otário. Ou melhor, de otários.

Mas no final de seu texto o delegado afirma que desconhece “por quem ou de que forma” são pagas as despesas de transporte e hospedagem, duas exigências dele para fazer suas palestras.

Para alguém que se coloca como paladino da justiça do Brasil, uma postura como essa é no mínimo falta de cuidado.
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POR José Pires

Aviso em outro endereço

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, avisa que a crise global não foi resolvida. Bem, não é isso que importa. Só em um país que não é sério uma questão como essa é levantada como se fosse... algo sério. Ah, então a crise não está resolvida? Ah, bom. Obrigado pelo alerta.

Mas destaquemos outro aviso de Meirelles. Vamos a ele: “O que não se pode é confundir sinais de melhora com a superação do problema. Já dizem que o Brasil é o porto seguro entre os emergentes. Vamos devagar... O otimismo exagerado pode levar a novas decepções”.

Isso sim interessa. Mas é bom antes ele alertar o presidente Lula.
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POR José Pires

Agora vai

O caso das cotas de passagens do Congresso Nacional presenteadas a parentes e terceiros por parlamentares já está no Conselho de Ética da Câmara, órgão responsável por julgar quebra de decoro dos deputados.

Chegou lá, mas não é para julgamento. É que um terço dos integrantes do Conselho emitiu pelo menos 35 passagens para o exterior em seus próprios nomes ou no de terceiros, para parentes, amigos e funcionários.

Para quem pensava que o caso ia dar em nada, está aí: deu em tudo. Todo mundo envolvido.
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POR José Pires

sábado, 18 de abril de 2009

Monteiro Lobato, um brasileiro que viu o futuro

Hoje é o dia do aniversário do nascimento do escritor Monteiro Lobato. Não é data redonda − são 127 anos. Mas é desnecessário esse tipo formalidade para lembrar alguém tão especial. Passei toda a semana ocupado em discutir o trabalho dele e por um ótimo motivo: meu filho mais novo, de pouco mais de seis anos, teve como tema de escola a obra e a vida do autor do Sítio do Pica Pau Amarelo. Foi uma tarefa fácil. Além do meu menino ser muito ligado em leitura, a obra de Lobato faz parte de sua vida desde sempre. Ele ouve as músicas desde o berço e vê os filmes e sabe das histórias todas. E como é de uma precocidade maravilhosa na leitura, antes dos cinco anos já se arriscava nas histórias escritas de Dona Benta, Narizinho, Pedrinho e toda a turma. De forma vívida, Monteiro Lobato é parte do seu imaginário e também de suas atividades práticas, pois habilidosamente o escritor insere sua obra em tudo quanto é canto da vida da criança.

Lobato é de casa. Sempre foi uma figura próxima, até porque suas histórias também eram adoradas na infância por meu filho maior, hoje com 25 anos. É um escritor que passa, lteralmente, de pai para filho, já que em meus tempos de criança ele também era um sucesso.

A dobradinha que fizemos, eu e minha criança, na discussão dos livros de Lobato, me encantou por duas razões. Deixemos de lado a mais óbvia, sobre o sentimento de amor e orgulho de partilhar com um filho pequeno este tipo de coisa, mesmo porque este é um dado natural. Mas é bastante gratificante sentir a permanência de um escritor brasileiro de uma forma prática. A obra de Lobato está vivíssima. E também é de uma satisfação imensa reler seus escritos onde a qualidade literária convive tão bem com a sedução às cabecinhas sempre ligadas em tantas coisas, ainda mais hoje com tevês de tantos canais, e a porção de atrativos em volta das nossas crianças.

Como encaixar um Saci,uma Cuca, nestas vidinhas agitadas? Monteiro Lobato ainda consegue. Percebo que a ligação com sua obra tem a mesma intensidade numa criança de hoje que é o centro de uma porção de instrumentos e atividades (meu filho pequeno já usa inclusive a internet) quanto acontecia comigo há tantos anos em casa, onde não tínhamos sequer televisão, na época transmitida apenas em branco e preto.

Para Lobato vale o chavão de dizer que foi um homem extraordinário. Em poucos brasileiros do século xx o elogio cabe tão bem. Bem, o século XX já encontrou o escritor entrando em idade madura. Ele é de 1822. Naquela época isso acontecia mais cedo.

Foi um intelectual participante, buscando influir em várias áreas. É bem conhecida sua teimosia na crença de que existia petróleo no Brasil, fazendo campanha para que nosso país começasse a busca e exploração deste recurso natural. Hoje em dia, quando o petróleo já se encaminha para o fim, isso parece algo óbvio. Até político ignorante fala com suposto conhecimento de pré-sal e combustíveis alternativos. Mas Lobato desencavou o assunto na primeira metade do século passado, quando a existência do petróleo por aqui era desdenhada pelos ignorantes ou por entreguistas, estes com a intenção de que não prosperasse o esforço de homens como o escritor, para que o combustível ficasse nas mãos das grandes empresas multinacionais, que já lançavam pelo mundo todo seus poderosos tentáculos.

E como o Brasil precisa hoje do exemplo de alguém como Lobato. Muito, muito. É um homem que no início do século passado antevia o que o Brasil precisava para tornar-se de fato uma Nação e já dava então sua grande contribuição em várias setores. E suas lições ainda estão vivas. Numa época como esta nossa, em que o conhecimento adquiriu um valor tremendo, figuras como ele devem ter seu valor histórico bem destacado. As novas tecnologias chamam ainda mais à participação dos nossos intelectuais, até porque instrumentos poderosos como a internet, por exemplo, estão ainda em estágio de construção. Além disso, vivemos duas crises vitais, a econômica e a ambiental, que exigem uma reformulação global de hábitos e no uso do conhecimento.

Atualmente no Brasil infelizmente os escritores são uns bananas. Com a exceção de um ou outro, como João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, ou o Ferreira Gullar, estão todos calados enquanto um presidente inzoneiro ataca a cultura e o conhecimento, encabeçando ä frente dos nossos políticos o que parece uma campanha contra a ética, a cultura, o meio ambiente, em um ataque sem precedentes contra tudo quanto é qualidade que acumulamos com tanta dificuldade anos todos.

Se estivesse vivo, Monteiro Lobato estaria com certeza no ataque a esta gente. Mas poderia estar vivendo também uma grande decepção. Lobato fez o Jeca Tatu como uma simbologia da necessidade de espalhar o conhecimento e construir uma nação grandiosa. O que ele acharia do fato de o Jeca Tatu além de não ter se aprimorado estar dominando hoje nossas mais importantes instituições e influindo decisivamente nos rumos (ou na falta de rumo) da Nação?
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Por José Pires

Livros em todos os cantos

Devemos muito a Lobato, mas um dos setores onde ele mais influiu com sua capacidade modernizadora foi a do livro, no sentido da editoração. Além de influir para relegar ao passado a mania de editar apenas as velharias e medalhões, ele fez o livro no Brasil avançar em setores fundamentais. Antes de Lobato prevaleciam os acadêmicos. Ele passou a imprimir novidades, inclusive as que ele mesmo escrevia. Também é notável seu interesse na modernização das capas, na utilização de ilustrações e na tradução de autores estrangeiros mdernos. Alguns ele mesmo traduzia. E bem. Foi ele o primeiro tradutor de Mark Twain no Brasil e também de Ernest Hemingway.

Deve-se falar na edição de livros no Brasil como dividida entre antes e depois de Monteiro Lobato. Em todos os aspectos ele tem um valor mundial, trazendo inovações não só no aspecto nacional, mas antevendo soluções editoriais que o fazem comprovadamente um pioneiro mundial.

Ele foi o primeiro, sem dúvida, na colocação do livro para a venda no mercado como um objeto no mesmo nível de qualquer outro objeto de uso cotidiano. Foi em 1918, quando as livrarias no Brasil não passavam de trinta e concentravam-se nas capitais, que o escritor teve a sacada de vender seus livros em qualquer estabelecimento comercial. Foi deste modo que os livros então penetraram no interior do país.

Vale a pena ler na íntegra a correspondência comercial que Lobato enviou para vários empresários para começar sua revolucionária empreitada.

Vamos ao texto: “Vossa Senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais coisas vender, maior será o lucro. Quer vender também uma coisa chamada “livro”? Vossa Senhoria não precisa inteirar-se do que essa coisa é. Trata-se de um artigo comercial como qualquer outro; batata,querosene ou bacalhau. É uma mercadoria que não precisa examinar nem saber se é boa nem vir a esta escolher. O conteúdo não interessa a V.S., e sim ao seu cliente, o qual dele tomará conhecimento através das nossas explicações nos catálogos, prefácios, etc. E, como V.S receberá este artigo em consignação, não perderá coisa alguma no que propomos”.

É de se reparar aqui no homem de vários instrumentos revelado em um texto sintético.
Além do estilo claro, novidade na literatura empolada da época e ainda mais em prospectos publicitários e correspondências comerciais, é notável a habilidade de Lobato em prevenir-se em poucas linhas quanto risco do preconceito em relação a um objeto até aquele momento de alcance muito restrito. Também é interessante seu avanço em relação à práticas comercias de então, propondo a venda em consignação. Dá para imaginar a satisfação do dono do armazém de secos e molhados do interior sabendo de um produto pelo qual ele só teria de pagar depois de feita a venda.

Esta técnica revolucionária de vender o livro em qualquer lugar foi implantada por Lobato em 1918, o que faz merecer uma revisão na história do livro mundialmente. Ora, em “Uma História da Leitura”, esplêndida obra em que Alberto Manguel narra o percurso da leitura na história da humanidade ele dá como uma revolução o fato do editor inglês Allen Lane, da Penguin Books, ter começado a fazer o mesmo em julho de 1935.

Manguel evidentemente desconhece a façanha de Monteiro Lobato, pois o escritor sequer é citado em sua história da leitura. Mas é fato comprovado historicamente que o nosso genial escritor começou aqui, antes de todos um processo essencial na ampliação da leitura: a venda do livro em todo lugar.
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Por José Pires

Choro eleitoral

Dilma Rouseff chorou em entrevista coletiva em Belo Horizonte ao falar de sua origem mineira. Estava demorando, pois o choro é uma característica do governo Lula e funcionou bem na campanha de 2002. Era um choro dirigido por Duda Mendonça, pois o marqueteiro encontrou um tema bom na morte da primeira mulher de Lula. E o sapo barbudo estava disposto a tudo para ganhar aquela eleição, até chorar. Mesmo que fosse usando cebolas cortadas.

O choro de Dilma Roussef lembra muito aquele das lágrimas do crocodilo pela criança que brinca às margens do rio onde onde está o bitelo. O crocodilo chorava porque não podia papar a criança. Dilma chora na esperança de papar o eleiorado mineiro, o segundo maior do Brasil. A diferença é que o crocodilo da anedota é mais honesto.
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POR José Pires

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Terra de adivinhões

O dom da adivinhação é mesmo muito forte no Maranhão. Como eu escrevi aqui na última terça-feira, desde o início da semana já preparavam por lá a posse de Roseana Sarney que dependia de decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Pois ontem o TSE confirmou a cassação do governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT) e de seu vice. Assume o governo a segunda colocada na eleição de 2008, Roseana Sarney.

Desse modo, O TSE desfaz a limpeza que o maranhense fez, tirando do poder pelo voto a oligarquia comandada por José Sarney. Voltam os Sarneys ao poder no estado mais miserável do Brasil, miserável exatamente por causa dos 40 anos de domínio sarneysista.
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POR José Pires

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Carta aberta lembra o assassinato de Celso Daniel

Bruno José Daniel Filho, irmão do ex-prefeito Celso Daniel (PT), de Santo André, assassinado há sete anos, divulgou uma carta aberta para lembrar a data de aniversário do ex-prefeito, que completaria 58 anos hoje.

Depois de ter sido ameaçado de morte no Brasil, Bruno Daniel vive com a família na França, numa situação que define como exílio.

O assassinato de Celso Daniel em janeiro de 2002 é um dos estranhos casos em que o PT se encalacrou nos últimos anos. Foram muitos, mas o assassinato do ex-prefeito é uma nódoa moral na história do partido, pois apesar de envolver a tortura e morte de uma de suas lideranças mais importantes e um de seus fundadores, os petistas pouco fizeram para esclarecer o episódio. Ao contrário, a movimentação que houve foi para abafar o caso.

Quando Celso Daniel foi assassinado, todas as lideranças do PT, incluindo Lula, fizeram um escarcéu nacional alegando que havia uma conspiração visando matar lideranças petistas, sendo a morte do então prefeito o início da matança. Lula chegou a discursar emocionado no enterro de Celso Daniel alertando sobre o suposto plano terrorista. A alegação causou um início de pânico entre os petistas de todo o país, além de criar uma situação política embaraçosa para o governo de Fernando Henrique Cardoso, que teve que agir rápido para evitar desdobramentos mais graves na segurança pública do país.

Mas passado apenas alguns dias os líderes petistas abandonaram de forma sincronizada a tese de conspiração e começaram a propagar a tese de que havia sido apenas um crime comum de sequestro seguido de morte, versão que buscam impor até hoje, apesar dos inúmeros fatos que fortalecem as suspeitas de que o caso não é assim tão simples. Bruno Daniel cita em sua carta aberta alguns desses acontecimentos suspeitos.

Vou publicar a carta na íntegra, pois me parece um interessante documento dos tempos atuais.
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POR José Pires


Hoje, 16 de abril, Celso Daniel, meu irmão, estaria completando 58 anos de vida. Como todos sabem, foi seqüestrado, torturado e assassinado há mais de sete anos quando era prefeito de Santo André e coordenava a elaboração do programa de governo do então candidato à presidência da república Luis Inácio Lula da Silva. Sérgio Gomes da Silva, que o acompanhava no momento do seqüestro, foi denunciado pelo Ministério Público como mandante desse crime. Foi preso por um pequeno período, mas responde em liberdade, após obter habeas corpus do Supremo Tribunal Federal, sob a alegação de que não representa perigo para a sociedade.

Apesar de todas as evidências colhidas pelo MP que mostraram que o crime foi planejado e que há pelo menos um mandante, o Poder Judiciário ainda sequer decidiu...
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Casa-da-mãe-joana

Casa-da-mãe-joana é uma expressão muito antiga. Apesar da extrema identificação que com os usos e costumes daqui, especialmente da parte dos políticos, não é uma expressão brasileira. Seu uso teria começado com uma tal de Joana que viveu na Idade Média, no século treze, de quem não se sabe o nome completo.

Joana foi rainha de Nápoles e condessa de Provença e acabou sendo exilada em Avignon, na França, onde regulamentou os bordéis da cidade. A expressão passou para Portugal, vindo depois para o Brasil, onde casa-da-mãe-joana serve para definir lugares onde reina a bagunça, a desorganização e o desapego por normas e leis.

Nos últimos tempos o Senado, a Câmara dos Deputados e Câmaras dos Vereadores, que também são definidas respeitosamente como Casa passaram a merecer o substantivo seguido do adjetivo formando a expressão casa-da-mãe-joana.

Desse modo, quando um parlamentar respeitosamente ou cinicamente, tanto faz, menciona o legislativo em discurso ou entrevista como “esta Casa”, imediatamente os brasileiros acrescentam mentalmente: da Mãe Joana.
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POR José Pires

Dinheiro público voando

De janeiro de 2007 a outubro de 2008 a Câmara dos Deputados gastou 81,5 milhões em passagens aéreas. O valor foi levantado pelo Ministério Público Federal de Brasília em um inquérito que identificou uma série de irregularidades na utilização das cotas de passagens usadas pelos deputados.

O escândalo do uso das cotas vai do aluguel de jatinhos aos mimos para parentes e namoradas. Até a apresentadora de TV Adriane Galisteu já fez turismo às custas do dinheiro público. E ainda levou a mamãe.
Galisteu recebeu o presente do deputado Fábio Faria (PMN-RN). Até agora o deputado não à Câmara o gasto com as sete passagens da cota que deu para a apresentadora. Na época os dois namoravam. Namorar é até uma marca da apresentadora. Ela faz questão de propagandear o tema. Mas Fábio Faria diz que Galisteu era sua "companheira", razão para não ter que devolver o dinheiro aos cofres públicos.

O sistema usado pela Câmara e tão estranho que até deputados licenciados para exercer cargos no governo Lula podem continuar usando as cotas de passagens. O site Congresso em Foco descobriu que os ministros José Múcio Monteiro, Geddel Vieira Lima e Reinhold Stephanes continuaram usaram o benefício 64 vezes após a posse.

Congresso em Foco apurou que a normas internas da Câmara vetam expressamente a atitude dos ministros no Ato 42 da Mesa da Casa, de 2000, que diz que “os parlamentares não podem utilizar a cota de passagens aéreas quando seu suplente estiver em exercício”.

Os três ministros cederam passagens para parentes. José Múcio Monteiro deu passagem para filho, genro, sobrinho e primo. Geddel Vieira Lima presenteou a esposa e a filha, além de uma mulher não identificada.

Várias pessoas voaram com a cota parlamentar de Reinhold Stephanes, mas um caso em especial demonstra a extrema generosidade da Câmara. Sua mulher, Cristina Angélica Batistuti Stephanes, é diretora de operações da Agência de Fomento do Paraná e voou duas vezes com passagens da cota parlamentar. A Câmara, portanto, arca com custos de funcionários até de governos estaduais.

Mas tem mais ainda. Congresso em Foco aprofundou-se realmente no assunto. Integrantes da Mesa Diretora também participam da farra. Numa reportagem com o ótimo título “Como conhecer o mundo pela Câmara”, o site informa que o segundo secretário Inocêncio Oliveira (PR-PE) transferiu parte de sua cota para a mulher, filhas e neta viajarem para os Estados Unidos e a Europa.

O itinerário dos parentes de Inocêncio é dos melhores: passaram por Nova Iorque, Frankfurt e Milão. O deputado disse ao site que não vê nenhuma ilegalidade em usar os recursos da Casa para viagens da família.
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POR José Pires

Avisando o deputado

O assunto das cotas também serve para o contribuinte entender a razão de tanta briga por cargos na Câmara e os inumeráveis acordos para conquistar uma vaga na mesa diretora. Como segundo secretário, Inocêncio recebe atualmente R$ 15.012,04 para passagens reservadas para a bancada de Pernambuco e um complemento de R$ 13.116,21, que é o percentual de adicional garantido aos membros da Mesa. Isso dá um total de R$ 28.128,25 todos os meses.

É o dinheiro do contribuinte voando. E qual é o resultado desse escandaloso vai-e-vem? Bem, o Ministério Público enviou uma "recomendação" ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP) solicitando mais rigidez no uso da cota de passagens aéreas pelos parlamentares.

Michel Temer é político desde que Brasília foi construída, tendo passado por vários cargos tanto no Legislativo quanto no executivo. Está no exercício do sexto mandato. É presidente do PMDB há sete anos. Foi procurador do estado de São Paulo e secretário da Justiça do mesmo estado, neste caso por duas vezes.

Um homem de tão pouca experiência precisa mesmo ser avisado sobre as irregularidades que acontecem inclusive com gente que se senta à mesma mesa com ele vários dias por semana.
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POR José Pires

quarta-feira, 15 de abril de 2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

Antecipando o julgamento

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vai julgar nesta noite os recursos do governador Jackson Lago (PDT), do Maranhão. Ele pode perder o mandato. Neste caso, torna-se governadora Roseana Sarney, a segunda colocada na eleição de 2008.

Eu disse “ele pode” perder o mandato? Bem, ontem a presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão já estava organizando a posse de Roseana Sarney. A presidente do TRE do Maranhão é Nelma Sarney, casada com Ronald Sarney, irmão do senador José Sarney (PMDB-AP) que, como todos sabem, é pai de Roseana Sarney.

Ontem a desembargadora Nelma Sarney enviou ofício ao comandante geral da Polícia Militar solicitando reforço policial a partir das 18 horas desta terça-feira para o julgamento. O ofício pede também reforço policial para o próximo dia 15, data da diplomação da segunda colocada na eleição, caso o julgamento de hoje seja desfavorável ao governador Jackson Lago.

Mas parece que já é certo que o resultado será contra ele. Ou os poderes divinatórios da desembargadora Sarney é que estão tinindo.

O dom da profecia, aliás, parece ser uma característica forte do Maranhão. Vejam ao lado a manchete de hoje de O Estado do Maranhão, jornal da família Sarney, os maiores proprietários de veículos de comunicação no estado. Tirando a condicional que parece estar ali só para disfarçar, é praticamente um anúncio do resultado. Imprensa muito ágil esta. É provável até que já esteja pronta a pauta para a posse de Roseana Sarney.
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POR José Pires

Fala o cara

É o presidente Lula falando. Vamos ouvir, então. Quando a gente pensa que ele chegou ao limite da falta de decoro e da ignorância, o cara se supera.

O petista estava num dia animado. Foi em um evento que juntou os chefes do Três Poderes para firmar um pacto para fazer o que eles, pelo menos em teoria, devem fazer normalmente. Ou não é função óbvia dos presidentes do Supremo Tribunal Federal, da Câmara e da Presidência da República “aumentar o acesso da população à Justiça, acelerar julgamentos de conflitos de massa, como a discussão sobre a cobrança da tarifa básica da telefonia, e dar mais agilidade à investigação criminal e ao processo penal?”

Bem, com Lula, Gilmar Mendes e Michel Temer fazendo um pacto republicano a gente tem que temer ainda mais pela República do que o usual.

Mas vamos às pérolas do Lula. Primeiro ele colocou as coisas no ponto exato em que estão de imoralidade e desfaçatez. É um cara sincero. “"Ninguém aqui é freira, e nós não estamos em um convento. E não me consta na história que num convento também não tem briga", ele disse. E o pior é que a platéia riu. Só os ingleses levam Lula realmente à sério. Depois da bobajada da culpa dos brancos de olhos azuis, a imprensa britânica falou bastante de Lula situando-o exatamente no ponto certo: um ignorante destravado.

Mas tem mais. O cara estava realmente inspirado. Ou é outra coisa. O entusiasmo de Lula com as bobagens que ele próprio fala lembra muito certas conversas de mesa de bar quando os participantes já estão há algum tempo debatendo. Acho que vocês me entendem.

Lá vai mais: “"O que nós precisamos é perder o medo de mudar", disse Lula. "Afinal de contas, médico e Justiça ninguém precisa em tempos bons. Só precisa em tempos maus".

Úm estranho conceito de Justiça e de Saúde. E vindo de um presidente da República deseduca, baixa os padrões morais e de compreensão e de como realmente as coisas funcionam. Lula não faz exames preventivos? Claro que ele faz, e não só porque é o presidente da República. Ele tem acesso aos melhores sérviços médicos, pois é um homem muito rico. Talvez até já seja milionário. Seu filho nós sabemos que já é.

Nem precisa ter azia. Com uma conversa rápida com o ministro da Saúde ele já poderia ter uma boa visão da importância da prevenção para a saúde pessoal e também a pública. E nisso entram os médicos. Medicina não existe para cortar a perna grangrenada ou tirar fora o pulmão. É melhor sempre evitar o problema. E isso é feito em bons tempos. Se Lula soubesse de fato disso, talvez não viesse com besteiras do tipo daquela quanto ao hábito de fumar , quando disse que em sua sala ele fuma quanto quiser.

Quanto à Justiça, quanto melhores tempos, sinal de que ela é eficiente, mais aplicação ela tem. Pois a Justiça conduz e mantém a harmonia, o que não precisa necessariamente ser na base do porrete. Aliás, quando a polícia está nas ruas agindo como tropa de ocupação, o que é o caso do Brasil atual, que vive maus tempos, a Justiça na verdade praticamente inexiste.

A Justiça em tempos bons pode, por exemplo, manter a qualidade de serviços como a telefonia, por meio da vigilância a regras estabelecidas. Mas o que não pode é um presidente fazer como Lula e mudar as regras repentinamente para favorecer a criação de um monopólio, como ele fez no caso da compra da Brasil Telecom pela OI. Aí os tempos ficam ruins para o contribuinte e o consumidor.
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POR José Pires

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A construção progressiva da miséria

Na semana passada um amigo me contou uma história sobre parentes que vivem uma situação difícil e estão tentando entrar no programa Bolsa Família. É um casal pobre com cinco filhos, o marido está desempregado. Foram então em busca do auxílio do governo.

Na entrevista para tratar do assunto, a assistente social olhou para os meninos e chamou a atenção da mãe: “Mas estas crianças estão bem cuidadinhas, hein? Será que vocês precisam mesmo de Bolsa Família?”

São cinco meninos, todos brancos, crianças bastante bonitas, traços herdados dos pais, mas sem dúvida muito pobres. Só na cabeça do presidente inzoneiro pessoas brancas e de olhos azuis são ricas e poderosas. Em Curitiba, encontramos meninos de rua loiros e de olhos claros. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul também.

A observação contrária ao zelo dos pais pobres com a aparência dos filhos, feita pela funcionária pública, simboliza bem o processo de espoliação que este governo vem fazendo com os valores morais deste país. Ao governo Lula interessa a criação de um país de vítimas. É fora de seus critérios a existência de uma pobreza vivida com dignidade. Por isso a linguagem do coitadinho é expressada continuamente pelo próprio Lula. Muitas vezes para fugir das próprias responsabilidades, como quando coloca nos ricos daqui ou de outros países a culpa sobre situações criadas por sua própria incompetência ou má-fé.

Desse modo, nada mais natural que para um acesso pleno à assistência as crianças tenham que ser malcuidadas. A intromissão desrespeitosa da assistente social dá a entender até que se fossem negras e maltrapilhas o auxílio poderia vir com mais rapidez. Não há como não notar que o presidente inzoneiro e a assistente social estão com os discursos afinados.

Isto é relegar as pessoas mais pobres a um papel social bastante miserável. Além da falta dos recursos econômicos parece também ser exigido a queda de valores morais e familiares, até em coisas básicas como manter as crianças limpas. Bem, com esta cultura, que pelo visto impregna os funcionários do Bolsa Família, fica ainda mais difícil encontrar a porta de saída do programa.

No governo Lula não basta precisar de auxílio. É preciso ser vítima. Mais que isso, buscam transformar a situação de pobreza das pessoas em instrumento partidário, sempre mais eleitoral que político e girando em torno dos objetivos circustanciais do partido. Qual é o maior problema em uma pobreza digna? Ora, é que ela não precisa de salvadores.

Isso está presente o tempo todo no discurso do próprio Lula, que conduz a criação de uma cultura que usa a pobreza de modo vil, criando uma situação sem saída para os que mais sofrem com as desigualdades. A exigência de que haja uma aparência de miserabilidade, seja no aspecto visual ou na questão moral, portanto, nada mais é que o fecho emblemático de um estilo.
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POR José Pires

Pobres de espírito

A história que contei acima é um exemplo interessante de como esta cultura parece estar instalada nos meandros da estrutura funcional do Bolsa Família. O programa é uma máquina de votos. Dá pra entender que condicione as pessoas a um papel subserviente, o pedinte do adjutório do presidente amigo dos pobres.

Não é supresa para mim. Não estou entre os que daqui há uns poucos anos, quando Lula estiver fora do poder, receberão com espanto as notícias sobre o que ele andou aprontando nestes tempos. Acho tudo dentro do esperado. Estou apenas fazendo o de sempre: registrando. Mas não posso ficar indignado por algo que vejo como um estímulo para que que os pais maltratem seus filhos. Espera aí: pobreza é uma imposição econômica, mas não precisa ser pobre de espírito.

Eu havia deixado em reserva o assunto até que eu conseguisse informações sobre procedimentos do Bolsa Família em outras regiões como, por exemplo o Nordeste. Como será por lá? Conforme o critério da assistente social citada acima pode até ser que para casal com cinco filhos, se pelo menos três deles não estiverem ranhentos, de cara suja e pés no chão, não sai o Bolsa Família.

Eu ia tocar no assunto só depois de juntar os dados que falei. Mas neste final de semana surgiu o caso da estudante gaúcha que teve cancelada sua matrícula na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) porque uma comissão da universidade deu um parecer contrário à sua entrada por meio do programa de cotas raciais. Os dois casos são tão semelhantes no aspecto de exigir submissão onde deveria ser estimulada a elevação de espírito, que vale a pena juntá-los aqui.

Nem vou ficar muito no mérito das cotas raciais. Sou contrário ao programa, primeiro na essência, porque ao criar uma divisão artificial de raças encaminha de fato o país para uma divisão entre brancos e negros. Além disso, é mais uma treta que preenche a estratégia do governo Lula de dividir para reinar. E de quebra, ainda arruma boquinhas para uma militância racista e disponível para ser aparelhada. Um governo que não sai do palanque precisa dessas coisas.

Demétrio Magnolli é quem melhor escreve sobre o assunto. Mas João Ubaldo Ribeiro, que pela faccia até parece se enquadrar nas cotas, também já fez bons textos sobre esta pataquada racista. Ele sintetiza bem o que eu penso disso: quem tem raça é cachorro, gente não tem raça.
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POR José Pires