quinta-feira, 27 de junho de 2013

O conto da PEC 37

Ora, ora, ora, mas então uma emenda tão essencial para a democracia como era a PEC 37 acabou tendo apenas 9 votos favoráveis na Câmara. Como é que foi acontecer isso com uma preciosidade dessas? A resposta óbvia é que as manifestações que vem acontecendo em todo o país causam tanto medo nos políticos que até a bancada do PT recuou em bloco na apreciação de uma proposta que funcionaria como uma peça de ataque nas contendas que o partido vem tendo com o Ministério Público desde que teve seus maiorais flagrados no escândalo do mensalão.

Depois da votação que enterrou a proposta teve até a ridícula comemoração de deputados, quando o Brasil inteiro sabe que se não fossem as passeatas a emenda teria grandes chances de ser aprovada. A aprovação era tão importante para o governo que haviam acionado até as tropas de propaganda política que atuam em sites e blogs na divulgação de temas do interesse petista. Há semanas que se espalhavam pela internet falsos argumentos favoráveis à PEC 37.

Como eu já disse, dos nove votos favoráveis nenhum é do PT. E entre esses apoiadores têm até um deputado que merece o troféu de palerma de 2013, mesmo ainda não tendo terminado nem o primeiro semestre. Dificilmente antes que o ano acabe alguém fará bobagem maior que a dele, que é ainda mais grave porque até o mês passado ele era presidente do PSDB, cargo que ocupava desde 2007. É o deputado Sérgio Guerra (PSDB-PE), que disse ter se confundido na hora da votação da proposta e por isso votou errado.

Além de Guerra, votaram a favor da PEC-37 os seguintes deputados: Abelardo Lupion (DEM-PR), Valdemar Costa Neto (PR-SP), Mendonça Prado (DEM-SE), Bernardo Santana de Vasconcellos (PR-MG), Eliene Lima (PSD-MT), João Lyra (PSD-AL), João Campos (PSDB-GO) e Lourival Mendes (PTdoB-MA). Os deputados Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) e Paulo Cesar Quartiero (DEM-RR) se abstiveram e não votaram.
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Por José Pires

Economia que vem das ruas

A Câmara dos Deputados rejeitou na última terça-feira a destinação de R$ 43 milhões para eventos da Fifa. A dinheirama era para ser usada em investimentos para a Copa de 2014, como parte dos compromissos do governo com a Fifa. O repasse chegou à Câmara por Medida Provisória vinda das mãos da presidente Dilma Rousseff e acabou tendo a  rejeição inclusive dos partidos aliados. O único partido que votou à favor foi o PT.


Isto é resultado das manifestações de rua que acontecem em todo o país. São fatos assim que desmentem os críticos que tentam desqualificar os protestos como sendo coisa de 20 centavos. A atitude de respeito da moçada saindo às ruas já está na casa dos milhões.
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Por José Pires

quarta-feira, 26 de junho de 2013


A conversa de sempre

Todo governo que pensa em fugir de responsabilidades e nada fazer para melhorar suas atitudes vem sempre com essa conversa de reforma política. Com esse papo, o governo do PT está querendo desviar do assunto central e aproveitar a situação para amoldar o sistema político de vez a seus interesses. E ainda fazem de conta que a proposta vem ao encontro da voz das ruas.

Pode-se ter variadas interpretações sobre a indignação atual do brasileiro, mas numa coisa a maioria concorda plenamente: tais protestos são resultado da falência administrativa deste governo, qualidade que reforma política alguma resolve. Alguém pode até achar que no meu raciocíno eu esqueço a inclusão da falência política. Mas neste ponto não vejo falência alguma. Na política os planos do PT vem dando certo  desde os primeiros acertos para a eleição de Lula, ainda antes do início da campanha.

Nascia ali o mensalão e também uma queda moral que deu nisso que aí está. O plano de sujeição do Legislativo ao Executivo foi de uma sujeira e dimensão que nunca se teve neste país. Foi nesta reunião emblemática da história do PT que o deputado Valdemar Costa Neto (que está na base aliada até hoje) pediu a José Dirceu R$ 20 milhões para sacramentar a união do PT com o PL, com a inclusão de José Alencar como vice de Lula.

Esquecer fatos essenciais como este pode levar ao equívoco de se achar que uma reforma política se faria com patifes convertidos num passe de mágica em anjos promotores da ética. Nada disso. Uma reforma agora seria conduzida com os promotores da imoralidade ainda no ápice de seu poder.

O PT fez um desmonte da política de tal forma que o domínio de uma casta provocou uma falência interna no próprio partido, que não se renova e tampouco se qualificou para a prática cotidiana da política. Isso inclui governar. Mas como fazer isso se desde que pegaram o poder os maiorais vem demolindo os quadros do partido? E no governo, a desmoralização geral que fizeram da política tornou muito difícil convencer um profissional qualificado a arriscar a vida e a carreira no antro de negociatas que virou a máquina pública.

O ponto essencial da falência administrativa brasileira está neste nó cego que impede que pessoas de bem se dediquem à administração do bem comum. Também é neste ponto que reside a dificuldade de alguém honesto querer fazer política hoje em dia.

É preciso resolver isso, é claro, mas a idéia de uma reforma política tirada às pressas da cachola é um atalho criado para voltar os passos ao mesmo caminho imoral de sempre. De boas leis e regulamentos adequados o país está cheio. Está aí a nossa Constituição. A Lei de Improbidade Administrativa brasileira também é uma das mais bem feitas do mundo. O que é preciso é a sociedade civil aprender a colocar em prática essas leis, julgando e punindo com rigor quem mete a mão nos cofres públicos e também quem deforma o sistema político de modo criminoso.

Mas alguém pode então perguntar: e o que você propõe? Não proponho nada. O que posso dizer é que é preciso acabar com esta mania de achar que num texto ou numa fala é possível dar forma definitiva para questões que nem a vida inteira permitiu conduzir de maneira correta. Este é um debate de longo prazo, com ações constantes vindas da sociedade civil, como são essas manifestações da moçada, que num safanão político acordou os brasileiros para a necessidade de reação.
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Por José Pires

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Crimes sem solução


Como acontece bastante no país, a novidade é um assunto velho. Nos próximos dias haverá uma remexida no assassinato de Paulo César Farias, o poderoso tesoureiro de Fernando Collor na sua caminhada até a presidência da República, que depois virou homem forte de seu governo mesmo sem ter nenhum cargo oficial. Conforme está em toda a imprensa, nesta segunda-feira começou o julgamento de quatro envolvidos no crime.

A morte foi há 17 anos. Mesmo a gente vivendo num lugar onde é normal um julgamento levar tanto tempo para começar, o despropósito causa um estranhamento, até pela exigência das relembranças de pouca ou nenhuma utilidade. O assunto é antigo demais e pode ser até um estorvo à atenção da opinião pública aos problemas realmente sérios que temos pela frente.

Mesmo no plano da morte de um braço direito de presidente da República, a morte de PC Farias teve sua importância bastante diminuída frente a um assassinato como foi o de Celso Daniel. A morte do ex-prefeito de Santo André poucos meses antes de Lula ser eleito presidente e o PT ganhar o poder tem elementos mais fantásticos. Porém, são crimes similares no grau da importância que ambos tinham junto ao presidente da República de cada período. E também no clima misterioso que envolve as duas mortes.

PC Farias mandava mais no governo Collor do que qualquer ministro e aproveitava este poder para realizar negócios altamente lucrativos nos bastidores. A suspeita que persiste até hoje é que agia em comum acordo com o presidente. Com a queda de Collor o país cuidava de questões mais importantes e esqueceu por um tempo os dois, até que veio a surpresa do assassinato à tiros em Alagoas, junto com a amante Suzana Marcolino. Para a polícia alagoana, Suzana atirou em PC Farias e depois se matou.

Collor foi cassado em agosto de 1992 e PC Farias foi morto em junho de 1996. Da mesma forma que acontecia entre Lula e Celso Daniel, antes de alcançar a presidência em 1989 Collor era amigo de PC Farias. É claro que ele era o homem com mais conhecimento sobre a atuação de Collor antes, durante e depois da presidência. Devia saber também muito do que foi feito nos bastidores daquele governo. Daí a suspeita da queima de arquivo, desconfiança que existe também na morte de Celso Daniel, neste caso por corrupção em Santo André, cidade onde era prefeito e que, segundo o Ministério Público, tinha dinheiro público sendo desviado para a campanha presidencial do PT.

O governo Collor foi o governo mais corrupto da República, mas isso acabou deixando de ter a importância de antes porque a avaliação precede a chegada do PT ao poder e sua revolução no conceito de corrupção no país. O PT e Lula gritavam muito alto contra o Governo Collor. Berravam até. Para eles o então presidente estava abaixo de ladrão. Hoje Collor é da base aliada do governo e chega a dar uma mão como senador na defesa de maiorais petistas condenados por corrupção no STF.

O interessante neste círculo que afinal juntou grupos que antes brigavam tanto é que isso deu unidade também à condição política dos dois cadáveres mais importantes da nossa história recente, o de PC Farias e Celso Daniel. Tudo é muito parecido, especialmente no enorme esforço para que nenhuma das mortes se afaste da conclusão mais fácil do crime comum.
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Por José Pires

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Armando golpes

É bastante simbólica deste lamentável tempo em que vive o Brasil a foto publicada ontem na capa de "O Globo" dos dois deputados mensaleiros do PT, José Genoino e João Paulo Cunha, durante a reunião que aprovou a emenda à Constituição que submete decisões do STF ao Congressso Nacional. A decisão foi da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, da qual os dois fazem parte mesmo estando condenados por corrupção pelo mesmo STF. E isso reforça a imagem como representação desta época sem respeito até ao bom senso.

Genoíno esbraveja. Ele voltou ao combate. Saiu do papel de humilde vítima de circunstâncias que o penalizaram até por distração. O deputado era um dos chefes da cúpula do PT enquanto o partido mantinha em atividade o esquema de suborno a parlamentares que garantia maioria favorável ao governo na Câmara Federal. É dele a desculpa mais incrível do mensalão: assinou o documento de um empréstimo de milhões de reais sem saber do que se tratava. A justificativa faz dele um idiota, mas Genoíno aceita este papel. O militante disciplinado é capaz de tudo para ajudar a sustentar o poder do partido.

Genoíno vem de uma linha de militância de esquerda intensivamente treinada para o combate intensivo mesmo nas situações mais adversas, como aconteceu agora nesta sua condenação à cadeia por causa da participação no esquema de conspiração contra a democracia que foi o mensalão. Sua origem política é o Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, de longa história de luta contra a democracia. É um partido que nasceu de uma teimosia contra a história: foi criado pelos comunistas que jamais aceitaram a denúncia dos crimes de Stálin feita pelos dirigentes da própria União Soviética no final da década de 50.

A primeira notícia que se teve de Genoíno foi no final da década de 70 quando ele foi pego pelo Exército Brasileiro na região do Rio Araguaia, no Pará, durante os combates contra a conhecida guerrilha do Araguaia, organizada pelo PCdoB. Até hoje a esquerda tenta fazer da luta armada do período da ditadura militar uma história de heróis que lutavam pela democracia, mas isso é mentira.

O nosso exército realmente representava uma ditadura, mas casos específicos como o do Araguaia não podem ser vistos da mesma forma que as ações repressivas contra a resistência democrática ao regime. Não foi pela democracia que o PCdoB organizou aquela guerrilha no norte do país. O plano político do partido era a partir dali instalar uma ditadura comunista no Brasil. Da mesma forma que agiu também contra verdadeiros democratas, o exército errou quando atentou contra os direitos humanos, desobedecendo até convenções de tempos de guerra que condenam o extermínio e a tortura. Porém, o lado de Genoíno e seus companheiros do PCdoB tinha para o Brasil planos até piores que os da ditadura militar.

O partido de Genoíno daqueles tempos tinha apoio externo. O PCdoB então oscilava entre o radical comunismo maoísta da China e o da Albânia, país atrasadíssimo e de regime ainda mais fechado. Naquele época esta esquerda brasileira que optou pela luta armada era até comandada de fora, por dirigentes estrangeiros que determinavam o que devia ser feito aqui no Brasil. Isto é confirmado por documentação oficial que apareceu depois da queda do comunismo, especialmente na União Soviética.

De Cuba também vinha dinheiro e instruções aos participantes da luta armada. O doutrinamento político e treinamento militar também eram feitos lá. O companheiro de partido de Genoíno e chefe da quadrilha do mensalão, José Dirceu, passou uma temporada sendo treinado por cubanos e veio na clandestinidade ao país também na década de 70 para implantar aqui o comunismo. Faltou-lhe coragem para enfrentar este tipo de luta e ele acabou arrumando um jeito de se homiziar no interior do Paraná, mas isso é outra história.

Trago José Dirceu para fechar este raciocínio porque me parece evidente que é um negócio casado a maquinação para dar aos deputados a exclusividade da decisão final sobre as patifarias praticadas por eles mesmos. A proposta que elimina o poder jurídico do STF sobre a corrupção é do mesmo feitio da PEC 37 que acaba com o poder de investigação do Ministério Público. Não é por acaso que ambas têm o entusiasmado apoio de políticos da mesma laia.

E não é só pelo fato de Genoíno e Dirceu estarem juntos nessa parada que fiz a análise histórica buscando lá atrás os antecedentes históricos deste setor da esquerda que inclusive tem hoje o máximo poder sobre o partido do governo. É porque essas duas emendas são parte de um plano autoritário. E para isso eles trazem o mesmo argumento mentiroso que usaram tantas vezes numa história cheia de tentativas de golpes: é para o bem da nossa democracia.
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Por José Pires

Os seguidores de Feliciano

Andava sumido o deputado Jean Wyllys, do Psol, mas ontem ele reapareceu para manifestar novamente sua fixação no deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que preside atualmente a Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Pode parecer ironia minha, mas estou falando sério sobre esta fixação. Já passou da hora de acabar com esta farsa que faz do deputado Feliciano um diabo de um tamanho que ele não tem. Se o problema dos direitos cívicos no Brasil fosse este deputado ou qualquer outro pastor, seria muito fácil consertar o Brasil.

Wyllys esteve numa manifestação a favor dos direitos humanos e contra o deputado pastor em São Paulo, tendo ao lado e presidindo a mesa dos trabalhos o cartunista Laerte. Este é outro que faz parecer palhaçada a questão dos direitos civis no país. Laerte quer tornar sua mania de se vestir de mulher (ou de perua, pelas roupas que escolhe) uma questão cívica de primeiro plano. A mídia pelo menos faz isso. E a impressão que dá é que ele gosta muito dessa atenção ao que ele veste.

A histeria que o deputado do Psol faz da questão dos direitos individuais sobre a sexualidade tem feito mais mal à causa homossexual do que a mais empedernida campanha reacionária. Esta é minha opinião e a de muita gente que detesta ver problemas sérios servirem de plataforma política de quem só pensa na reeleição no ano que vem. Este oportunismo costuma ser muito prejudicial quando o tema usado de forma manipuladora é de fato relevante.

A manifestação estrelada pelo deputado do Psol foi na mesma quinta-feira em que a Comissão de Justiça da Câmara aprovou a emenda que passa para o Congresso atribuições do STF relativas ao julgamento de corrupção. É óbvio que uma emenda como esta terá um efeito imediato no país que transcende em muito qualquer outro dano aos direitos cívicos, no entanto lá está o senhor Wyllys distraindo a atenção da mídia de perigos reais muito mais sérios. Não sei se o Psol e seu deputado fazem essas coisas de acordo com a pauta estabelecida pela base aliada do governo de ataques ao Estado de Direito. Porém, mesmo se não for coisa combinada, o serviço está sendo feito direitinho.
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Por José Pires

terça-feira, 23 de abril de 2013


Educação lucrativa

A rede de ensino privado Kroton Educacional anunciou um acordo para incorporar a Anhanguera Educacional. A fusão das duas maiores companhias de ensino privado do país é avaliada em R$ 5 bilhões e vai criar um gigante com valor de mercado de R$ 12 bilhões. É claro que isso é mais uma jogada no lance dos negócios na Bolsa de Valores e maior lucratividade. Ou alguém acredita que o gigantismo comercial é capaz de promover uma boa educação? Obviamente isto não virá, no entanto as ações já disparam.


A fusão formará o maior grupo privado de educação do mundo e as duas empresas anunciam isso como uma grande vantagem para um país que tem um sistema educacional que permite uma coisa dessas. Em teleconferência, o presidente da Kroton, Rodrigo Galindo, disse com orgulho que o peso financeiro da empresa que terá ele como presidente-executivo será “o dobro do valor da segunda maior companhia do mundo, a New Oriental”. Este é o momento em que o brasileiro sensato deveria perguntar por que em vários países muito melhores em educação não existe este interesse em ter a “primeira” companhia de educação privada do mundo. O negócio ainda precisa ser aprovado pelo CADE, mas quando colocam algo assim em andamento é sinal de que tem malhas abertas naquele órgão.


O foco de uma associação dessas é a rentabilidade e não o aprimoramento da educação. O mercado de ações é um excelente balcão de negócios. Hoje o site da revista Exame publica um gráfico interessante das duas empresas. Vejam na imagem. Antes do acordo, as ações da Anhanguera vinham numa queda impressionante e no dia 1º de abril, no que até parece até uma ironia, começou uma notável recuperação. Até que em 8 de abril as ações deram um vigoroso e llucrativo salto.


Por este gráfico a gente vê como é importante aprender algumas lições no lugar certo. Se no final de março eu tivesse a informação sobre esta fusão eu poderia ter ganhado um dinheirinho ao menos para comprar em sebos uns livros usados para aprimorar a minha educação.
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POR José Pires

domingo, 21 de abril de 2013


A volta da amiga íntima do Lula

A semana começa com um assunto que incomoda muito a harmonia familiar no mais conhecido apartamento de cobertura de São Bernardo do Campo. Rosemary Noronha, a Rose, volta às páginas da imprensa e logo na Veja. A revista traz uma reportagem de capa retomando o escândalo que tem à frente a amiga íntima que o ex-presidente Lula mandou a presidente Dilma Rousseff nomear como chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo. Como o Brasil inteiro já sabe, ela aprontava por lá o que queria, amparada pela amizade poderosa.

A revista teve acesso ao relatório final feito por técnicos do Palácio do Planalto, com o resultado da investigação sobre o que Rose andou fazendo na chefia do escritório do governo até ser demitida do cargo. A amiga de Lula gozava de tanto poder no governo do PT que foi até recebida com honras de chefe de estado na embaixada brasileira em Roma. Ela teve motorista oficial da embaixada à sua disposição e foi convidada pelo embaixador José Viegas a ficar hospedada no luxuoso Palazzo Pampini. O quarto oferecido tem um detalhe muito interessante. Rose ficou com o marido no "quarto vermelho". A identificação desta forma é do próprio embaixador, que também desejou "benvenuti!" à ela em mensagem pessoal. Como este tipo de denominação é desconhecido no Itamaraty, a revista sugere que pode ser algo como "telefone vermelho", menção a um privilégio concedido apenas ao chefe.

O relatório levou à instalação de um processo administrativo contra Rose, com a recomendação de que ela seja investigada por enriquecimento ilícito. O processo já foi aberto na Controladoria Geral da União. A investigação que levou ao relatório foi feita pela Casa Civil da Presidência, de uma forma que segundo Veja " destoa da tradição dos governos petistas de amenizar os pecados de companheiros pilhados em falcatruas". Sentindo-se abadonada e vendo que pode acabar pagando sozinha pelos malfeitos, Rose também estaria manobrando para mostrar ao parceiros que pode revidar causando um prejuízo geral.

Um sinal disso é que ela trocou de advogados. Abandonou os advogados escolhidos pelo PT e contratou um escritório conhecido por representar maiorais do PSDB. Seus novos advogados já fizeram a defesa até em processos enfrentados pela ex-governadora gaúcha Yeda Crusius. Rose tem razão de estar ressabiada. Como gozou da intimidade de Lula deve saber muito bem que ele não tem nenhum escrúpulo em abandonar companheiros pelo caminho para se safar de responsabilidades.

Outro aviso que Rose pode estar mandando estaria na escolha das suas testemunhas no processo administrativo. Gilberto Carvalho e Erenice Guerra são dois nomes de peso relacionados por ela. Carvalho é secretário-geral da Presidência e ex-chefe de gabinete de Lula, além de ser amigo dele de longa data, frequentando até as exclusivas festas juninas organizadas pela ex-primeira dama, dona Marisa. E Erenice Guerra foi o braço direito de Dilma Rousseff, até ser demitida do governo por causa do envolvimento em um escândalo de corrupção.

Uma das das reclamações dos novos defensores de Rose é pelo vazamento de informações “de dentro do próprio do governo federal”. Esta liberação de informações para a imprensa, que eles consideram "distorcidas", seria para "agredir a imagem de Rosemary". Ou seja, os indicativos são de que Rose está mesmo sendo descartada politicamente e não contará mais com os mecanismos de defesa não só do partido como também do poderoso que foi seu amigo íntimo. Ao contrário disso, a movimentação que vem de dentro do próprio Palácio do Planalto mostra com clareza que está armada uma artilharia pesada contra ela.
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POR José Pires

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Mal na foto

Por conta das maracutaias em que se mete, o ex-presidente Lula acumula um desgaste imenso em sua imagem. Tem muita coisa: a mudança da lei de telecomunicações feita por ele para beneficiar uma transação entre grandes empresas telefônicas, numa triangulação que acabou beneficiando seu filho em um negócio de milhões; aconteceu o julgamento do mensalão, com a condenação de seus amigos que acertavam os subornos a parlamentares na sala ao lado da sua no Palácio do Planalto; a lista de malfeitos (como eles dizem para amenizar) é bem grande; é uma longa esteira de corrupção, que veio até ao governo da sucessora que ele fez com um dedaço; por causa de corrupção, ela teve que demitir uma porção de ministros indicados diretamente pelo ex-presidente; o golpe mais recente no governo Dilma foi o da amiga íntima Rosemary Noronha, nomeada a mando dele para o escritório da Presidência da República, onde ela e um bando com cargos nomeados negociavam atestados falsos; foi neste caso que ficou muito claro publicamente que Lula envolve seu poder político até nas "amizades íntimas"; em Brasília já se comentava há muitos anos que os dois eram amantes.

O acúmulo de lama respingou bem alto na semana que passou, com o pedido feito à Polícia Federal pela Procuradoria da República do Distrito Federal para a apuração do envolvimento de Lula no esquema do mensalão, que fez cair toda a cúpula do PT, envolvida em suborno de parlamentares

Tanto desgaste exige que marqueteiros se virem para ao menos amenizar a sujeira grossa. Daí o monte de encontros de Lula com personalidades variadas, especialmente do mundo artístico. Ele teve reunião recente com Bono, do U2, um cantor que felizmente nunca foi do meu gosto musical. Bono é um tipo de artista que fatura bastante em auto-promoção fazendo o papel de salvador dos pobres. Mesmo se não houvesse má fé de sua parte, de qualquer forma o resultado não é nada digno.

Já nesta semana o material de limpeza de imagem para se plantar na mídia foi produzido em exposição do fotógrafo Sebastião Salgado, uma retrospectiva de sua obra em Londres. Lula esteve lá e claro que o foco dos jornalistas teve que ser o recente pedido para que a polícia dê uma guaribada no que ele andou fazendo na época do mensalão. Ele se negou a responder sobre o mensalão. E ainda bem que nada falou sobre fotografia, um dos inumeráveis assuntos de que não entende nada.

Lula foi à abertura da exposição à convite do próprio fotógrafo. Foi esta a versão oficial para sua a presença, que acho lamentável. Sempre gostei das fotos de Sebastião Salgado. Vejo nele uma alta qualidade técnica e uma admirável disciplina profissional, algo sempre essencial em qualquer arte e de muito peso na fotografia. A presença do ex-presidente na exposição não é lamentável por ser o Lula. Podia ser o Fernando Henrique Cardoso e ainda assim haveria um equívoco de Salgado. Mas é claro que a forma que Lula foi encaixado no evento torna a coisa bem pior. É evidente a intenção de destacar uma ligação política entre o político e o artista, num período de sério desgaste de Lula. E na minha visão é necessário uma separação nítida entre o compromisso político e a arte.

Mas não é por isso que vou fazer como a militância azucrinadora e começar a falar mal das fotografias de Salgado. Continuam boas, mas na carreira do fotógrafo permanecerá esta nódoa. Ele ficou parecido com marqueteiro. Em qualquer obra isso deixa sempre uma mancha negativa.
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POR José Pires

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Imagem: Lula e Sebastião Salgado posam para o fotógrafo oficial do ex-presidente, em imagem distribuída pelo Instituto Lula.

segunda-feira, 8 de abril de 2013


Alegria fúnebre

Duas mortes de personalidades de destaque na política mundial servem como referência para uma questão importante no debate público: qual é o tom aceitável de crítica diante da morte? Na morte do venezuelano Hugo Chávez aconteceram alguns excessos, na confusão que alguns fazem entre a análise da ação política do dirigente político e o ódio pessoal que pode ser gerado pelo que ele fez. Agora, na morte da ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, o clima ficou bem mais pesado. A esquerda parece ter menos capacidade de conter os mais abusados ou talvez não queira que haja moderação nem nas ocasiões fúnebres.

Nas redes sociais a militância azucrinadora vibra com a morte como se fosse uma queda política de Tatcher e não sua ida pelo caminho que todos deveremos seguir um dia. Da Inglaterra vieram fotos de ingleses comemorando com champanhe. Repete-se uma grotesca euforia que vimos também na morte de Chávez. Foi em dose muito menor, como eu já disse. Não teve nem champanhe.

Mas seja da direita ou da esquerda, são equivocos com o mesmo teor espantoso de desumanidade e também do mesmo peso em ignorância política. Mira-se na pessoa e não no que ela fez ou nos conceitos políticos e morais que deixou como legado.

Comemorar a morte de Chávez, de Thatcher ou de qualquer outro político não faz sentido algum, antes de tudo pela desumanidade do gesto. E quanto aos dois citados, suas obras estão completadas e isso é o que interessa. Sobre a morte de Chávez é preciso até lamentar que ele tenha ido embora sem arcar com as conseqüências do desastroso regime imposto na Venezuela. E quanto à Margareth Thatcher, só alguém muito tolo pode comemorar sua morte. Esta completou de fato sua obra, que acredito que até o esquerdista mais ferrenho terá a obrigação de concordar que é imensamente maior que a do venezuelano.

Concordando ou não com o que Tatcher fez, seu legado transformou o mundo de uma forma que nenhum outro governante realizou no final do século passado. Comparável com as mudanças promovidas por ela só tem o que foi feito na década de 80 por Mikhail Gorbachev, que resultou no desmantelamento do comunismo na União Soviética. Não só por coincidência, foi em período semelhante ao de Tatcher como primeira-ministra britânica. A derrocada do comunismo deve-se também ao papel dela no mundo e essa é uma das coisas que a esquerda não perdoará jamais. Outro que deu uma mãozona para a direitização do mundo neste período foi o americano Ronald Reagan, mas a marca liberal na economia mundial ficou mesmo por conta de Thatcher.

Ela viveu bastante para ver sua obra em andamento e influenciando a economia do mundo. Foi tão sortuda que ainda teve a satisfação de ver interpretando seu papel num filme de Holywood a grande atriz Meryl Streep, que até ganhou um Oscar por isso. Quem abre champanhe para celebrar a morte de Thatcher, na verdade está comemorando a própria derrota.
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POR José Pires

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Imagem: Margareth Thatcher em caricatura das mais ácidas feitas pelo grande desenhista inglês Gerald Scarfe. Ela devora um adversário político, o que foi usual durante seus anos de poder. Nem é preciso dizer o que desenhista achava dela, não é mesmo? Scarfe é também autor dos admiráveis desenhos que marcam o filme "The Wall", que Alan Parker fez em 1982 com a banda inglesa Pink Floyd.

segunda-feira, 25 de março de 2013


Recorde bilionário

Eu acho que é um caso para comemoração nacional, com banquete oficial, desfile, exposição, lançamento de selo, esse tipo de coisa que se costuma fazer quando o país alcança um patamar formidável em algum setor. O gasto anual com deputados no Brasil já vai alcançar 1 bilhão de reais. Falta pouco. O gasto atual está em R$ 928 milhões. Uma pequena emenda já poderia num salto levar para este 1 bilhão o orçamento desta casta política. Dava pra fazer já a comemoração do dispêndio desta fortuna. Mas logo mais chegaremos lá.

Devemos sempre lembrar sempre que os nossos políticos, tanto os senadores quando os deputados, custam mais ao contribuinte do que os políticos de democracias muito bem estabilizadas de países de maior poder econômico que o Brasil. Recentemente a ONG Transparência Brasil fez um estudo sobre gastos individuauis de representação, viagens e contratação de assessores e comparou com os mesmos custos em países estrangeiros. No Brasil o valor superava R$ 1 milhão ao ano. Em três países ricos estava assim: Alemanha - R$ 860 mil, França, R$ 770 mil, Inglaterra - R$ 760 mil.

A ONU divulgou no mês passado um estudo que mostra que em custo total o congressista brasileiro é 2º mais caro em um universo de 110 países. Cada um dos nossos parlamentares custa US$ 7,4 milhões por ano. Os Estados Unidos é único país que gasta mais: US$ 9,6 milhões anuais. Mas é preciso dizer que esta é uma comparação integral entre cada gasto, sem nenhuma outra referência. Se for levado em conta a renda per capita de brasileiros e americanos, aí o gasto brasileiro salta lá em cima, fazendo dos nossos políticos uma casta paga de uma forma que talvez não exista em lugar nenhum do mundo.

Outra questão óbvia, mas que é preciso ressaltar porque temos no país patrulhas vigilantes de ataque ao pensamento crítico, é que na maioria destes países as democracias vão muito bem com seus parlamentares sendo pagos com o devido equilíbrio. Eu penso até que essas democracias vão bem também por isso. O que desmoraliza a democracia é esta rapina dos cofres públicos que deputados e senadores vêm fazendo com aumentos contínuos determinados por eles mesmos.

Então, não há nenhum ataque à democracia ou ao papel essencial do Congresso Nacional quando são trazidos estes números escandalosos. É preciso mesmo sentar a lenha nesta elite gastadora e trazer todos os gastos com parlamentares a um nível próximo ao que ganham os demais brasileiros que não fazem parte desta casta. Isso só vai fortalecer nossa democracia.
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POR José Pires

sábado, 16 de março de 2013

A difamação que vem da Argentina

Deixa ver se eu entendi: a esquerda quer derrubar o papa, é isso? É o que dá a entender a corrente de difamação que desenvolveram contra o papa Francisco, a partir de acusações que se baseiam na sua atividade como bispo, na Argentina. As fontes carecem e muito de credibilidade. Existe uma acusação muito pesada, de que dois jesuítas teriam sido delatados às forças da repressão na época da ditadura militar. Isto veio do jornalista Horácio Verbitsky, fundador do Página 12, jornal que atua na defesa do governo de Cristina Kirchner. Verbitsky é tido na Argentina como influente mentor político do "kirchnerismo". Sua relação pra lá de estreita com os Kirchner vem desde o governo anterior de Néstor Kirchner, o falecido marido da atual presidente, que a fez como sucessora.

Verbitsky tem uma história política com vínculos com o autoritarismo. Fez parte do extremismo que tivemos na América do Sul entre as décadas de 60 e 80, quando grupos políticos violentos tentaram substituir ditaduras de direita por ditaduras de esquerda. E existem suspeitas muito sérias sobre este seu passado. Ele foi da organização política Montoneros, grupo armado dos mais agressivos da América Latina, que praticava até terrorismo. O jornalista que acusa o papa Francisco fazia parte da área de inteligência dos Montoneros, que tinha entre outras funções a de apontar bons alvos físicos para sequestros e chantagens para arrancar dinheiro para a organização. Um dos sequestros mais rentáveis deles foi o duas pessoas da família que controla a Bunge e Born. O ex-montonero é acusado de ter ajudado a desviar para Cuba US$ 60 milhões vindos deste sequestro. Ele nega e diz que é tudo invenção de adversários para destruí-lo.

A acusação contra o papa Francisco está em "El silencio", livro escrito por Verbitsky onde ele expõe sua visão sobre o papel da igreja durante o regime militar na Argentina. Para ele a igreja católica colaborou com a sucessão de ditadores, de 1976 até 1983. Foi um período violentíssimo. Quem reclama com mau humor dos que falam que em "ditabranda" no Brasil está fechando os olhos ao que ocorreu na Argentina. Calcula-se em cerca de 30 mil o número de mortos e o de desaparecidos é de 10 mil. Colocar a igreja católica entre os colaboradores de um regime de terror desses é uma acusação da maior gravidade. Na Argentina não tem coisa pior. E o do Página 12 sabe disso. Ele me parece uma dessas pessoas que se nega a rever seus erros do passado. Está preso aos rancores do passado. É costume dessa gente fazer a difamação histórica de qualquer um que não esteve com eles nas aventuras do passado. No Brasil também temos este tipo de problema, até na situação muito cômica de gente que defende erros graves do passado sem sequer ter participado deles. O ex-montonero argentino mantém-se aferrado a uma vendeta particular com igreja. Ele queria que, quando foi bispo na Argentina, o papa Francisco tivesse prestado apoio incondicional às suas ações criminosas.

Mesmo atuando hoje junto a um governo que já está no quarto mandato consecutivo, Verbitsky parece não compreender que a ampliação dos horizontes políticos que houve no mundo exige análise e argumentação muito diferente daquela feita na obscuridade da militância clandestina. Daí a minha questão inicial, perguntando se a esquerda quer derrubar o papa. E quando embarca nesta rede da difamação que saiu da Argentina, a esquerda brasilera se situa de forma ainda mais tola. Essa azucrinadora militância puxou para cá o antagonismo violento da esquerda argentina, que talvez seja a mais maluca do continente. Com isso, assumem um confronto desnecessário com todos os católicos.

Será que é preciso dizer pra esta gente que na relação com uma instituição do peso moral da igreja católica é preciso agir com equilíbrio e razão? Especialmente na hora de expor supostas faltas graves desta intituição não é nem um pouco inteligente agir de forma difamatória, com argumentos sem nenhuma base de sustentação. Será que até algo simples assim eles precisam ouvir? É claro que precisam. E se tiver alguém temendo que uma dica dessas possa fortalecê-los, não há porque se estressar com uma preocupação dessas. Esse pessoal não se emenda de jeito nenhum.
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POR José Pires

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Imagem: Juntos numa ocasião pública, Verbitsky e Cristina Kirchner revelam de forma muito expressiva a sintonia entre o jornalista e a presidente; à frente, capa de "El silencio".

quarta-feira, 13 de março de 2013


quinta-feira, 7 de março de 2013

O dia em que José Dirceu voltou no pinote de Caracas


José Dirceu não vai poder ir ao velório de Hugo Chávez. O presidente do STF, Joaquim Barbosa, recusou a licença que ele pediu ontem para fazer a viagem. O passaporte do ex-ministro de Lula está confiscado em razão da sua condenação à prisão no processo do mensalão.

A decisão de Barbosa não vai permitir que se esclareça uma dúvida que me ocorreu quando soube do pedido feito por Dirceu. Como seria a recepção a ele no velório de Chávez? O relacionamento entre os dois nunca foi próximo, mesmo quando ainda não havia sido revelado seu papel como chefe da quadrilha do mensalão. E Chávez certamente nunca levou à sério políticos de esquerda como Dirceu.

No único contato oficial entre os dois, Dirceu levou um carreirão de Chávez em Caracas e voltou bem rápido para o Brasil. Ninguém se lembrou desse episódio. A coisa não está nem no cocuruto do Google, como já verifiquei. Mas modestamente a nossa memória só perde pra elefante bom da cuca.

Foi uma viagem ligeira do José Dirceu para Caracas em 2005, quando o clima estava fervendo nas relações entre a Venezuela e os Estados Unidos. De um lado Chávez, que governava desde 1999, e do outro George W. Bush, que não precisa ser apresentado. Eram dois coisas ruins. E é preciso lembrar também que em abril de 2002 o presidente venezuelano quase foi tirado do poder por um golpe, que ele sempre atribuiu ao governo americano.

Chávez estava à toda na Venezuela. E por aqui, no Brasil, Lula e seu grupo governavam embaladíssimos no projeto de poder perpétuo para o PT. A denúncia do mensalão só viria três meses depois na famosa entrevista do então deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, ao jornal Folha de S. Paulo.

É claro que Lula e Dirceu embalavam também o sonho de ocupar a liderança da esquerda latino-americana. No plano local o domínio do Congresso Nacional já estava encaminhado por meio dos subornos do mensalão. Faltava só abarcar o continente no projeto partidário que, para os dois, era para muitas décadas de poder.

Mas nisso Chávez era uma barreira, pois além do peso da sua personalidade ele tinha também divergências com a visão ideológica dos líderes brasileiros, colocando isso em prática no governo da Venezuela. Seu projeto sempre foi pelo confronto direto com os Estados Unidos, bem diferente do que pensavam Lula e Dirceu, partidários de uma conciliação parecida com a que faziam no plano local e que até então estava dando certo.

Naquele mês de abril de 2005 a então secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, fez uma visita oficial importante ao Brasil. É possível até que fosse um dos lances de algum arranjo entre Lula e Bush, que já havia sido acertado nos bastidores. Porém, Chávez estava numa briga feia com os ianques. Foi aí que José Dirceu, que ocupava a chefia da Casa Civil, fez as malas e foi para a Venezuela conversar com o presidente venezuelano. A idéia era propor uma amenizada nas ações e discursos de Chávez.

Até hoje não se sabe como foi a conversa e seria muito interessante para a história política de Nuestra América que este colóquio entre os dois tenha tido alguma testemunha ou que esteja documentado. Seria bom demais saber o que é que Dirceu ouviu naquele dia, pois ficou muito evidente que ele mais ouviu do que falou. O que sabemos até agora da conversa é apenas sua conclusão. Dirceu voltou na mesma hora para o Brasil, bem rápido mesmo, sem falar nada sobre este dia em que ele e o Lula tentaram suavizar o Hugo Chávez.

E o Chávez continuou o mesmo, sempre à toda, até ser parado pelo câncer. Como se sabe, a liderança da esquerda no continente ficou entre seus braços e neste papel ele até influiu para vexames ao governo Lula, como foi o caso da encampação da Petrobrás pelo governo de seu pupilo boliviano, Evo Morales.
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POR José Pires