quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Herança maldita

Uma herança política do PT que vai dar muito trabalho para o Brasil descartar no lixo da História – destino de quase todos os conceitos políticos deste partido no governo – é esta certeza obstinada de que apenas sua própria verdade tem valor e de que qualquer opinião discordante tem que ser menosprezada e atacada com agressividade, passando até dos limites da difamação e da calúnia.

É uma forma de fazer política que infelizmente parece que pegou, até porque o clima criado pela militância que gira em torno do poder parece exigir que qualquer um se comporte dessa forma intolerante, até como forma de defesa em meio a tantos ataques. Hoje em dia, quando a gente entra numa rede social corre sempre o risco de uma emboscada de algum bando militante ou até de um "camper", porque eles agem igual jogador de game que fica de franco-atirador estragando a diversão dos outros.

Dá até para compreender a tensão e agressividade que acomete tanta gente. Esta herança petista criou uma situação que pode deixar qualquer um em posição defensiva o tempo todo. Mas o problema é que muitas vezes acaba-se partindo para o ataque sobre pessoas que nada tem a ver com as táticas governistas de desqualificação de quem pensa diferente deles. Aí partem-se amizades e pode-se perder a ótima possibilidade do diálogo franco e aberto, que é o melhor que se pode tirar de um encontro com alguém na internet.

Esta herança intolerante veio de uma tática eleitoral que atualmente contamina o debate público. É coisa que nasceu do PT e foi até sistematizada e ampliada na internet, inclusive com profissionais pagos para isso. No entanto, isso já é bem antigo. É uma forma de luta política com raízes no leninismo soviético e que também foi muito usada pelos nazistas, especialmente nos esquemas criados para a ocupação do poder na Alemanha. Já foi também bastante usada no Brasil durante anos, da década de 60 até 1980, quando o Partido Comunista Brasileiro (o velho Pecezão) praticava uma política cotidiana de desmoralização de qualquer um que falasse ou escrevesse contra os interesses do comunismo.

O clima de grosserias já está aí, com muita gente pegando pesado mesmo quando o interlocutor está só querendo debater problemas que afetam a todos ou às vezes apenas ter uma boa conversa pela internet. Não podemos deixar que esta herança maldita do PT se instale em nossas mentes. E de forma alguma nos nossos corações.
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Por José Pires


terça-feira, 8 de outubro de 2013


Um político muito coerente

Um cuidado que é preciso tomar com a palavra "coerente" é que ela depende totalmente da atitude de quem sai por aí espalhando o autoelogio. Um exemplo significativo disso é Adolf Hitler, ele mesmo, o líder e criador do nazismo, que foi uma das pessoas mais coerentes que já passou pela face da Terra.

De vez em quando me aparece alguém com alguma teoria estrambótica acerca de Hitler, fazendo elaboradas teorias sobre supostas origens do grande mal que ele representou. Quase todas essas teorias pecam porque não contam com um traço de personalidade muito firme de Hitler: sua coerência.

Tudo o que ele fez na Alemanha e depois tentou impor ao resto do mundo está no livro "Mein Kampf", um documento muito claro sobre sua visão política e seus projetos como governante. Está lá inclusive o ódio absoluto pelos judeus. O livro foi publicado muito antes de sua subida ao poder, numa época que seria impossível prever que o cabo do exército que vinha de uma guerra perdida e pintor dos mais medíocres alcançaria a expressão política que conquistou.

Qualquer leitor sensato que pegasse o livro de Hitler logo que foi lançado suspeitaria do risco que havia do horror que de fato aconteceu depois. Bastava ponderar sobre a tragédia que seria o estabelecimento de um governo coerente com as ideias que autor colocou no papel. Mas acontece que "Mein Kampf" pode ser lido também como uma peça de ficção alucinada, onde impera o ódio e a desumanidade, de tal forma que indicava ser improvável que um político fosse capaz de formar um governo coerente com as barbaridades que estavam escritas ali. Mas Hitler fez isso. Afinal, ele era um político muito coerente.
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Por José Pires

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Rumo complicado

Marina Silva passa hoje por um teste difícil. Sua imagem política estará em exame pela opinião pública a partir da decisão sobre o que fará daqui pra frente, depois do TSE negar registro a seu partido, o Rede Solidariedade. Ela pode entrar em qualquer outro partido ou optar por tocar o projeto da Rede, pelo qual não pode disputar eleição alguma em 2014. A resposta ao teste não é nada simples. É difícil para um político com a popularidade no auge ficar fora de uma eleição importante, que além de presidente elegerá também deputados nos estado e no Congresso, senador e governador. Mas acontece que se a ex-ministra do governo Lula optar pela entrada em um partido estará seguindo o caminho usual da maioria dos políticos brasileiros, que é fazer qualquer coisa pelo sucesso no jogo eleitoral.

É claro que neste último caso não tem projeto algum de Rede Solidariedade. É o sentido usual da política que acabará levando Marina e os seus a um debate desgastante e improdutivo. Isso se de fato a intenção deles for a de construir um partido diferente dos que estão aí. E o problema do registro no STF mostra que falta muita coisa para seu grupo político comprovar na prática a capacidade para administrar qualquer coisa. Não conseguiram administrar nem as dificuldades e riscos para o registro de seu partido.

Independente da forma suspeita que o TSE analisou o registro do partido que ela pretendia fundar, vê-se claramente que da parte dos organizadores da Rede Solidariedade faltou um acompanhamento mais sério do assunto, a começar do fato de deixarem uma decisão tão importante para o último momento, numa situação em que uma negativa não permitiria um rápida conserto. É muito óbvio que dessa forma teriam pela frente um problema irremediável e ele aí está.

É o caso de pensar com alívio que ainda bem que Marina não está administrando o Brasil, porque para trapalhadas desse tipo já basta o governo do PT, comandado ao menos oficialmente por uma presidente que não tem um mínimo controle nem sobre o idioma do país onde nasceu.
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Por José Pires

Palavras ao léu

Marina Silva diz que a resposta que dará hoje sobre seu futuro político "será coerente". E como atualmente parece que no jornalismo existe um problema geral de cabeça ninguém lhe pergunta onde ela encaixa "coerente" A palavra exige um acompanhamento para que possa ser compreendido o que realmente uma pessoa está falando. E não vale também vir com a palavra "ética", como ela faz o tempo todo, porque hoje em dia esta é outra palavra que serve pra tudo.

E a verdade é que até agora Marina vem seguindo um caminho que nada tem de reto. De ministra do Ambiente de um presidente (ele, o Lula) destrutivo na área ecológica, inclusive no desmonte de leis e no achincalhamento verbal do respeito à natureza, ela saltou fora para um partido de aluguel (o Partido Verde, caindo de maduro em falsidades) e aí veio com este plano de um partido só pra ela (o Rede Solidariedade, que perdeu as tramas).

Marina não rouba, o que na política brasileira já faz uma diferença positiva bem grande. Mas em uniformidade de ação, ela e os marineiros que me desculpem, o que temos por enquanto é só ambição pessoal.

Qual é a coerência? Por enquanto, Marina segue na mesma toada de todos os outros, mantendo-se na mídia sem que dê para entender de fato o que ela traz de diferente. Faz isso até na enrolação sobre seu destino político. Se fosse coerente mesmo, Marina já teria dito ontem qual é sua posição. Jogando a questão para o dia seguinte ela está fazendo o mesmo que qualquer político: marketing.
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Por José Pires

Rede fora da eleição


Se fosse num país sério, o fato da Rede Sustentabilidade não conseguir o registro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderia até ser visto unicamente como um tremendo amadorismo do grupo da ex-ministra Marina Silva. Mas estamos no Brasil, um lugar onde os cenários eleitorais passaram a ser construídos da forma mais adequada para a perenização de um partido no poder. Todos sabem que ao governo do PT não interessa nem um pouco a candidatura de Marina Silva, muito menos embalada por um partido com ares de novidade. Seria um fato político ruim para a candidatura de Dilma Rousseff, sendo provável até que isso mexesse na futura composição do Congresso e até nas eleições para governador. Já bastante desgastado, o PT poderia sofrer um forte baque com um sucesso da Rede, porque é óbvio que é de seu eleitorado que sairiam muitos votos. Até agora falou-se bastante só na candidatura presidencial de Marina e foi foi deixada de lado esta possibilidade da Rede ter uma expressiva bancada de deputados.

O rigor do TSE com a Rede não segue o figurino do tratamento a tantos partidecos que vêm sendo formados, nesta surreal realidade política com mais de três dezenas de partidos. Nesses dias mesmo saíram mais dois partidecos, comandados por políticos sem nenhuma expressão nacional. Nossa Justiça foi também muito delicada com um partido mais graúdo, o PSD do ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.

A generosidade com Kassab foi tamanha que juntou até o STF ao TSE, quando ambos decidiram que mesmo sem ter participado de nenhuma eleição (mas já com uma boa bancada, amealhada sabe-se lá como) seu partido teria o direito proporcional de tempo de propaganda e dinheiro do Fundo Partidário. Mas Kassab é um político do sistema, qualquer sistema, desde que ele possa dar sua contribuição em mudanças que deixem tudo do jeito que está.

O problema do partido de Marina com o TSE é não ter completado o número de assinaturas exigido para o registro. 95 mil firmas foram rejeitadas por cartórios. E vale a pena dar os nomes de cidades onde cartórios mais encrencaram para firmar as assinaturas da Rede. A média de rejeições em todo o Brasil é de 24%. Pois no ABC paulista, onde o PT tem um imenso poder, os índices chegaram a 78%. Isso mesmo: quase tudo recusado pelos cartórios. Foi 78% recusado em São Bernardo do Campo, 72% em Mauás e 69% em Santo André.

É claro que isso nada prova e talvez nunca ocorra nenhuma investigação para verificar o que aconteceu de verdade nessas cidades e em outras onde cartórios contribuíram para adiar o sonho de Marina Silva. Mas fica no ar a suspeita de que o domínio político petista já está chegando a tanto que eles decidem até quais partidos podem ser formados no país.
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Por José Pires

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mais uma entrevista pra conservador algum gostar

Cada vez que esse papa Francisco dá uma entrevista ele vem com um monte de afirmações que devem fazer muito mal aos católicos conservadores. Hoje foi publicada uma entrevista no diário italiano La Repubblica, sendo que é exatamente neste dia o início do trabalho dos oito cardeais que devem conduzir as reformas do papado de Francisco. É evidente que é uma entrevista que vem para reforçar sua visão sobre a condução desta reforma.

O destaque na imprensa já está sendo dado para a frase "a corte é a lepra do papado", dita por ele no mesmo momento em que criticava a visão "vaticano-cêntrica", que "esquece do mundo ao redor" para cuidar apenas dos interesses do Vaticano, em grande parte, segundo ele, "interesses temporais". A corte de que ele fala é o círculo que se mantém na adulação da cúpula da Igreja.

Vamos ver agora o que dizem agora os conservadores. Numa entrevista anterior, publicada numa revista católica da Itália, o papa criou polêmica ao reclamar da obsessão de setores católicas com temas como o aborto e o casamento gay. Foi uma óbvia recomendação para mudar de assunto ou pelo menos amenizar os termos, mas muita gente tentou mostrar que a opinião de Francisco havia sido distorcida pela imprensa. Bem, aquela foi uma entrevista longa e nela o papa mostrava de fato posições que nada tem a ver com o conservadorismo que muitos querem como uma linha determinante na Igreja e que vinha sendo seguida anteriormente.

Na matéria que saiu hoje no La Repubblica o papa Francisco foi ainda mais afirmativo na sua opinião de que há uma necessidade de haver uma abertura da Igreja Católica a temas importantes da atualidade. A entrevista começa na capa do jornal e ocupa três páginas. Foi feita por Eugenio Scalfari, fundador do jornal e com quem o papa já vinha tendo um debate público por meio de cartas sobre o diálogo entre católicos e não-católicos. Sacalfari é ateu, mas não é anticlerical.

Uma afirmação de Scalfari dá o tom do explosivo conteúdo da entrevista. Escrevendo sobre o que sentiu na conversa com o papa, ele diz: "Se a Igreja se converter naquilo que ele quer e imagina, haverá uma mudança de época". A conversa rendeu muitos assuntos que vão estimular o debate entre os católicos. Porém, as falas do papa trazem uma perceptível desvantagem para os conservadores.

Até em questões econômicas o pensamento de Francisco não bate com a agenda conservadora. "Penso que o chamado liberalismo selvagem converte os fortes em mais fortes e os fracos em mais fracos e aos excluídos em mais excluídos", ele disse, acentuado inclusive que se for necessário deve haver "a intervenção direta do Estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis".

E não adianta os conservadores tentarem acusar alguma manipulação. São palavras literais do papa. É melhor que encarem que podem vir mudanças desfavoráveis para que quer uma Igreja menos liberal no comportamento e na política. A entrevista demonstra que pode haver uma mudança até na relação com a Teologia da Libertação, ala da Igreja que teve em João Paulo II e Bento XVI dois implacáveis inimigos. O papa Francisco até busca fugir do confronto com as atitudes de João Paulo II, que combateu de modo firme os líderes da Teologia, mas mostra uma mudança substancial de visão. Ele diz que os líderes erravam em dar um "plus político a sua ideologia", mas considera que "muitos deles eram fiéis com um alto conceito de humanidade".
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Por José Pires


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Link: Clique aqui, que o La Repubblica disponibiliza uma tradução em espanhol da entrevista. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O ator de sempre

E eis que o ex-presidente Lula aparece nas manchetes dizendo que "em 2014 atuará como candidato". E Lula tem feito outra coisa na vida nos últimos 30 anos do que atuar como candidato? Por mais de dez anos ele teve até salário mensal do PT para fazer isso. É o primeiro caso brasileiro e talvez o único também nas democracias ocidentais de um político com salário pago pelo partido para ser seu eterno candidato, condição que ocupa até hoje. Ele só não precisa mais do salário, já que atualmente é um dos homens mais ricos do Brasil, apesar da fachada de propaganda muito trabalhada da simplicidade pessoal.

Lula não desce do palanque e faz ou fala qualquer coisa para para se manter numa visibilidade que até constrange a atual presidente e impede qualquer ampliação do quadro de lideranças de seu partido. A situação política do PT hoje em dia é grotesca: para tudo precisam chamar o Lula. O que este partido vai fazer se um dia desses seu candidato eterno morre? Parece que todos se esquecem que Lula já é um homem de idade. Ele completa 68 anos agora em outubro. E independente disso, toda instituição tem que ter em andamento um programa que vá além da sua liderança de momento. O destino do PT é muito parecido com a situação política atual deixada pelo falecido Hugo Chávez, na Venezuela, onde seus partidários tem dele como herança apenas a memória da sua figura. Não ficou projeto algum.

Portanto, Lula não está anunciando nenhuma novidade para 2014. Vai agir como sempre, comportando-se como um candidato que atropela qualquer regra e atua sem respeito algum pela decência. E a sua megalomania anda tão destrambelhada que ele está deformando até o sentido da famosa música do Raul Seixas. A "metamorfose ambulante" cantada pelo roqueiro tinha o significado de independência e desafio às regras impositivas da sociedade. Na voz do Lula, "metamorfose ambulante" soa como sinônimo de oportunismo e manipulação.
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Por José Pires

domingo, 29 de setembro de 2013


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Por fora do mensalão


Para quem julga que existe hoje em dia uma consciência maior do se passa no mundo da política, uma pesquisa divulgada ontem pela Folha de S. Paulo pode ser uma decepção: 29% dos paulistanos não sabem o que é o mensalão. A pesquisa é do Datafolha e foi feita apenas na cidade de São Paulo, onde o nível de informação é para ser maior. A situação é ainda mais triste pelo fato do Datafolha ter usado só a expressão "mensalão", sem exigir conhecimento maior sobre o tema.

É provável que uma parcela expressiva dos que sabem do mensalão não tenha a compreensão exata da dimensão do esquema de suborno e sua importância no projeto de perenização do PT no poder. Muita gente pensa que foi só um caixa 2, até como resultado da propagação desta falsa versão pela máquina política de comunicação e propaganda governista para amenizar o crime. E na minha opinião este desconhecimento tem origem em parte na forma que atualmente é feito o noticiário político, na maioria das vezes sem contextualização da informação e sem dar referência constante sobre o tema que está sendo tratado. Vivemos numa época de fragmentação extrema da informação.

As ferramentas da internet permitem o oferecimento de links para situar o leitor e possibilidade de sistematização do que é publicado, mas na internet brasileira infelizmente criou-se o hábito de escrever sobre qualquer coisa como se o leitor estivesse sempre acompanhando de perto o assunto. Eu vivo dizendo que o profissional de comunicação tem a obrigação de buscar aprofundar a informação e o conhecimento e sempre procurar dar referência sólida sobre o que está falando. Comunicação sem qualidade acaba favorecendo quem tem recursos financeiros e poder político para massificar sua própria propaganda. E a quadrilha do mensalão sempre soube usar isso.
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Por José Pires


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Além da imaginação

Com o ditador Bashar al-Assad em superioridade militar é estranho que suas forças tenham de fato atacado civis com armas químicas. O ataque parece improvável, mas não é impossível. O clima de ódio que impera internamente na Síria tem mais a ver com sentimentos tribais do que com uma lógica de Estado que até poderia evitar atos como este ataque que serve de justificativa para a intervenção dos americanos.

Bashar al-Assad acusa os rebeldes de terem feito este ataque contra civis para incriminar o governo. Não é difícil que isso ocorra. É uma atitude que foge ao padrão de uma guerra convencional, mas o tipo de conflito que ocorre na Síria nada tem de convencional. Para compreender o que ocorre em toda aquela região é preciso esquecer os modelos comuns de combate.

Existe um livro editado no Brasil que traz boas informações sobre o quanto são inusitados os métodos em uso no Oriente Médio. O livro é “De Beirute a Jerusalém”, do jornalista americano Thomas L. Friedman,  que virou um especialista no assunto depois de passar quase dez anos trabalhando naquela região. Em 1982 ele era chefe do escritório do The New York Times em Beirute. É o ano da invasão do Líbano por Israel e da expulsão da OLP do país. E foi em 1983 que a embaixada americana no Líbano foi atingida por carros-bomba suicidas, com dezenas de americanos mortos. O atentado é um ponto-chave na escalada mundial do terrorismo islâmico.

Neste livro, Friedman faz uma análise do comportamento político não só dos ditadores da região, mas também dos oposicionistas, muitos deles armados e ferozes. A esquerda brasileira costuma usar seu raciocínio maniqueísta também quando olha para o Oriente Médio. Talvez imaginem que lá é travada uma luta entre o bem e o mal. Não é bem assim. Por sinal, o livro de Friedman traz um retrato aprofundado da OLP e de seu líder, o falecido Arafat, que foi ídolo de sempre da nossa esquerda. Pois não iriam gostar do que ele descobriu. Isso se lessem o livro, é claro. Mas essa gente não lê nada.

Uma história contada por Friedman da época em que Israel ocupou o Líbano pode dar uma ideia de como por ali o uso apenas da lógica militar pode fazer qualquer um se danar feio. O jornalista americano diz que naquele lugar é preciso um outro tipo de imaginação. Mas vamos ao caso. O general israelense Amonn Shahak comandava uma divisão militar durante a ocupação de Beirute pelo exército israelense, quando um grupo de anciãos drusos muito exaltados o levou até três caixotes de laranja. Cada um continha cabeças humanas, troncos, mãos e pernas de drusos. Os velhos acusavam os falangistas cristãos de terem feito aquilo. Drusos e falangistas – todos libaneses – estavam em luta, num daqueles conflitos que parecem vir de tempos bíblicos.

O general Shahak então tomou um jipe e foi até o quartel-general dos falangistas tomar satisfações. O comandante falangista disse que de fato houvera um combate entre seus homens e os drusos. Mas os drusos é que recolheram seus mortos depois da luta, os mutilaram e levaram os pedaços de corpos para instigar seus próprios combatentes. E depois foram até o quartel israelense com a história. Era um truque já conhecido. O general israelense obviamente era um homem bastante experiente em combates e mesmo assim por pouco não se metera numa situação muito complicada. Ele disse disse ao jornalista que ficara pasmo com aquilo. E admitiu que deu-se conta que estava no meio de um jogo que não compreendia.
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Por José Pires


Imagem - A capa da revista The Economist retrata Bashar al-Assad do jeito certo: é um criminoso. Mas nas atuais condições é difícil saber se a Siria ficará melhor sem ele.

sábado, 7 de setembro de 2013

O grito que deu cana

Há 43 anos uma piada dessas dava cana braba. Foi esta charge feita pelo cartunista Jaguar que serviu de pretexto para prisão em novembro de 1970 de toda a redação do jornal "O Pasquim". O motivo da prisão chega a ser também engraçado porque a ditadura militar tratou como símbolo nacional o conhecido quadro de Pedro Américo – muito ruim e uma cópia deslavada de uma pintura do francês Ernest Meissounier, onde ele retrata uma vitória importante de Napoleão. A frase brincalhona que Jaguar colocou na boca de D. Pedro I era de uma música cantada por Jorge Ben (que na época não era Benjor) que tocava muito no rádio.

Na época era assim. Tempos de "Brasil, Ame-o ou Deixe-o", não se podia brincar nem com o verde e amarelo da nossa bandeira. E nem com uma pintura ruim que era reverenciada pelos militares como símbolo da pátria.

Os milicos não acharam graça. Numa invasão da redação de madrugada pela polícia foram presos José Grossi, Fortuna, Ziraldo, Paulo Garcez e Luiz Carlos Maciel. Estavam terminando a edição daquela semana do jornal. Tarso de Castro fugiu pelos fundos quando a polícia chegou. A polícia foi na casa do Millôr Fernandes mas não o encontrou. Paulo Francis foi preso em casa. E Jaguar, Sérgio Cabral e Flávio Rangel se entregaram depois. Atendiam a uma proposta da polícia, que disse que assim soltaria os outros. Era um truque. Ficou todo mundo preso.

A prisão foi tratada depois de forma escrachada pelo jornal. Não perdiam a piada de jeito nenhum. Apelidaram o episódio de "A gripe da turma do Pasquim". Segundo Jaguar, nos dois meses que ficaram presos nunca foram interrogados por ninguém. Mas a verdade é que correram um risco tremendo. O clima político era pesado, com presos sofrendo torturas e também desaparecendo para sempre. Pelo menos um perigo sério chegou muito perto deles. Um comando da extrema-direita tentou pegá-los na prisão, mas um militar impediu o sequestro.

Passadas quatro décadas a piada do Jaguar não causa mais reação nos militares, que não estão nem aí para uma gozação dessas. A situação se inverteu no Brasil. Hoje em dia quem bronqueia contra gozações ao poder é a esquerda governista, que está sempre atiçando suas patrulhas sobre qualquer um que tente fazer algo fora do senso comum e sem reverência babaca por uma pátria que é roubada de cima a baixo.
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Por José Pires

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Maracutaia entre companheiros

Tem que ter preparo físico para acompanhar as maracutaias do PT. Acontecem o tempo todo. Agora é uma denúncia de compra de votos na eleição para presidente do partido. E não vem da imprensa e nem da oposição. A denúncia é do deputado Henrique Fontana (PT-RS), que disse o seguinte: “Desconfio de pagamento coletivo. Uma pessoa pagou para um grupo e isso é voto de cabresto”.

Fontana está entre os seis petistas que disputam o cargo, entre eles Rui Falcão (PT-SP), que tenta a reeleição. A eleição será em 10 de novembro e para votar os filiados tinham tinham até o dia 31 de agosto para quitar seus débitos com o partido. A acusação de Pimenta tem a ver com isso. “184.893 filiados estavam aptos a votar em 28/8. Ontem, eram 780 mil os filiados que estavam em dia com a tesouraria”, ele disse.

O PT é cheio de surpresas como esta da quitação instantânea de pagamento de centenas de milhares de filiados numa véspera de eleição partidária. Parece que neste partido dinheiro não é problema. Sempre tem algum pagamento surpreendente. Lembram da quitação da dívida do ex-presidente Lula em 2004 com o partido? Imaginem a surpresa do Lula quando ele soube que sua enorme dívida de R$ 29,4 mil havia sido paga pelo Paulo Okamoto, companheiro de tamanha bondade que nem se preocupou em avisá-lo? Haja coração. Num partido desses não dá mesmo para ter medo de ser feliz.
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Por José Pires

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Na escuta


Por que é que o governo americano ficaria espionando as conversações da presidente Dilma Rousseff? Nem vou ir no ponto político de que nem é dela o comando de verdade sobre as ações do governo do PT. A presidente não chega a ser laranja neste esquema de poder, mas se for para xeretar pessoas neste governo ela não está na frente da lista. E a Dilma tem problema de sinapse até quando está com um marqueteiro na sua cola. Um espião estrangeiro deve penar para entender uma conversa com ela raciocinando de improviso.

E nem é possível imaginar o presidente Barack Obama sendo interrompido em uma reunião na Casa Branca de discussão sobre a Síria, o Irã e a União Soviética para que ele tome conhecimento com urgência de uma conversa importante entre a Dilma e a Ideli Salvatti.

Porém, se os americanos estiverem mesmo espionando as conversas da Dilma isso só pode ter uma explicação: até o Obama precisa dar umas risadas de vez em quando.
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Por José Pires

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A derrota da máquina de destruir reputações

Desde antes de subir ao poder era muito forte no PT o hábito de tentar destruir reputações de forma leviana. Com a presidência da República e o surgimento de vastas roubalheiras, o partido sistematizou este hábito e aproveitou a ampliação que a internet pode dar a qualquer tipo de maledicência. Hoje existe uma rede de blogs e sites que atuam especificamente no campo do ataque a qualquer um que eles tomem por adversário.

É claro que com este método apareceram barbaridades sem sentido no próprio teor da, digamos assim, denúncia. Existem ataques tão baixos que não não resistem sequer a uma análise lógica. Uma das vítimas deste descarado mau-caratismo foi o jornalista Boris Casoy, numa situação desastrada quando vazou uma parte de uma conversa sua com colegas do estúdio no final do programa de jornalismo que apresenta na Rede Bandeirantes. Isso aconteceu em dezembro de 2009 e foi feito depois pela internet um escarcéu dos diabos com o episódio.

Esta semana Casoy foi absolvido de um processo que pedia o pagamento de R$ 3,5 milhões (isso mesmo, milhões) ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). A decisão foi do  Tribunal de Justiça de São Paulo. Anteriormente, o jornalista já havia pagado indenização aos garis que se sentiram ofendidos, o que na minha opinião também não é justo. A penalização devia ser de quem posteriormente fez uso político da conversa em ambiente fechado. Mas deixemos assim.

Esta decisão de agora é que tem realmente importância porque parece que temos a derrota da máquina política colocada em movimento para sufocar um jornalista. O processo foi movido pelo Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio e Conservação, Limpeza Urbana
e Ambiental de Ribeirão Preto.

A fala de Boris Casoy foi de fato infeliz. Durante a apresentação final dos créditos do jornal que apresenta na Rede Bandeirantes, ele fez um comentário aos colegas de estúdio sem saber que seu microfone ainda estava ligado. Foi depois de uma reportagem com dois lixeiros desejando feliz Ano Novo. "Que merda", ele disse "Dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho". No dia seguinte ao episódio o jornalista pediu desculpas no mesmo programa. Como eu já disse, é uma fala das mais infelizes, mas acontece que foi feita entre colegas, num tom de gozação. E pode ter sido apenas uma provocação, dessas que costumam ocorrer num ambiente de trabalho.

Porém, independente do que o jornalista pensa de fato sobre a matéria que finalizou o jornal, sua fala se deu em ambiente fechado. Foi o vazamento e a ampla divulgação posterior que fez desse comentário um fato político aumentado propositalmente para pressioná-lo. E a razão de fazer de Casoy um alvo preferencial é sua posição independente e crítica ao governo do PT, o que vem fazendo deste que saiu da Folha de S. Paulo e fez uma carreira de sucesso no jornalismo televisivo, quebrando inclusive o padrão de apresentadores bonitinhos que dominava até então na televisão brasileira. Antes do programa na Bandeirantes, o jornalista havia sido demitido da Rede Record por evidentes pressões vindas de Brasília, quando Lula era presidente. Esta vitória de agora do Boris Casoy não é só dele. Ganhou também a liberdade de expressão e a independência política.
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Por José Pires

quinta-feira, 25 de julho de 2013


terça-feira, 23 de julho de 2013


PT, saudações


É possível fazer uma lista bem grande de defeitos graves que comprovam a falência do PT como partido. E nem é preciso arrolar a roubalheira que deu em uma diversidade de escândalos.  Podemos ficar só nos defeitos relativos à estrutura orgânica de um partido. E o pior defeito hoje do PT é sua carência de quadros e, pior ainda, de lideranças com votos.

Esta carência de quadros partidários pode ser vista nesta conversa de sempre sobre a terceira candidatura do ex-presidente Lula. O assunto voltou agora com a evidente queda de popularidade da presidente Dilma Rousseff, comprovada em pesquisas. O partido mostra que fracassou quando só tem Lula para apresentar como candidato forte. Nem Dilma serve mais.

O desmonte do PT vem sendo feito desde 1985 por duas figuras vistosas do partido: Lula e José Dirceu. O serviço começou eliminando quadros de extrema-esquerda no final dos anos 80 e avançou até a eleição de Lula, em 2002, calando ou botando fora quem não afinava com a transformação do partido numa máquina de ganhar eleições a qualquer custo.

Da eleição de Lula em diante os quadros foram se estreitando forçosamente em torno do projeto de poder da cúpula. Uma consequência desastrosa foi a perda gradativa de gente de qualidade, o que pode-se ver até na dificuldade de governar. Os desvios éticos cada vez mais graves foram também fazendo muitos irem embora por conta própria. Sei de militantes dedicados que na década de 90 fizeram questão de devolver as bandeiras vermelhas no diretório municipal do partido.

O PT sofreu uma depuração pesada, com a eliminação de gente que ao menos tinha capacidade técnica. Eram membros do partido com profissão definida e carreiras profissionais respeitáveis conquistadas com esforços próprio, sem os recursos da política e sem o uso da desonestidade dos tráficos de influência. Foi-se um capital humano de qualidade, matéria essencial na feitura de um partido..

Hoje as áreas de liderança do partido estão compostas de políticos profissionais, um defeito que se espalha pelo país afetando inclusive os diretórios municipais.  Muitos de seus membros não fazem há décadas outra coisa na vida que política. E uma grande parte dos que dominam hoje o partido só fez isso na vida. A própria presidente Dilma é um exemplo disso. Desde a década de 80 está pendurada em algum cargo, no início agregada ao poder do falecido Leonel Brizola e agora grudada em Lula, eterna ameaça de tomar seu lugar na eleição do ano que vem.

O PT faliu como partido. Não deve acabar, mas definitivamente não tem mais como acomodar qualquer projeto orgânico de renovação política e administrativa. Com Lula ou Dilma, disputará a próxima eleição na mesma categoria em que estão os demais partidos: uma agremiação de políticos profissionais que tem como pauta apenas seus interesses pessoais.
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Por José Pires

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O companheiro do falido

Com a falência, Eike Batista passou a ser severamente criticado e até gozado nos útimos dias. Não são poucas as acusações. Ele é condenado até por afetar a credibilidade brasileira na atração de investimentos externos.

De fato, como empresário Eike (tratado assim, nesta falsa intimidade da vassalagem costumeira de parte da imprensa aos ricos e poderosos) merece muitas críticas, mas não devemos esquecer uma figura essencial na impressionante ascenção do empresário aos píncaros do sucesso, de onde agora desaba. Apesar de graúdo em dinheiro, no aspecto político ele é peixe pequeno no desastre que parece atingir o país iludido na sedução do desenvolvimento bancado pela grana fácil do pré-sal.

Nas empreitadas ilusórias do tipo em que Eike esteve metido sempre transita um "sócio", que no jorro de lorotas econômicas e sociais ganhou até agora enormidades em apoios políticos e votos e talvez até em espécie, já que não acredito que político algum faça milionários da noite para o dia apenas por ter bom coração.

Agora que a crise mostra que não é de marolinha, quem tem que ser cobrado é o "sócio", que está na chefia já na terceira etapa de um projeto que faz o Brasil perder toda vez que eles ganham. O "sócio" e seus companheiros é que devem pagar pelos poços agora secos de esperança e espalhados pelo país afora.
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Por José Pires

O plebiscito que não deu quorum

O problema de reunião de emergência é dela sair uma ideia de emergência. É o caso dessa proposta de fazer um plebiscito, que até agora ninguém do governo conseguiu explicar direito para que exatamente poderia servir. Começou com a proposta de uma Constituinte exclusiva, mudaram para o tal do plebiscito e pelo jeito não vai ter coisa alguma. Não conseguiram o apoio nem da base governista. Talvez devessem ter feito antes um plebiscito entre eles.

Dilma Rousseff ouviu a voz das ruas e não entendeu direito. A moçada protestou contra vários problemas, mas a síntese das questões levantadas nas manifestações é muito óbvia: vai trabalhar, vagabundo! Ou, respeitando a questão de gênero, vagabunda!

Aí ela fez a tal reunião de emergência (marcou para o dia seguinte) de onde apareceu o plebiscito que não agrada a ninguém e nem tem possibilidade legal de ser feito agora. Não gaste saliva com este assunto. Não vai ter plebiscito algum. Chamaram a imprensa antes de ouvir alguém que entende do assunto e agora passam por mais este vexame.

Este é o estilo petista de governar. O bater de cabeças já foi engraçado há algum tempo atrás, mas ninguém tem paciência mais para rir. É piada velha, que já perdeu seu tempo e lugar. E o pior é que nós estamos nela.
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Por José Pires