segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Leilão de petróleo não pode


Quem é vivo sempre aparece. Mas também aparece cada coisa... A imagem é do ator Paulo Betti fazendo campanha contra o leilão do campo de Libra. A propaganda política veiculada na TV é da Federação Única dos Petroleiros, a FUP, que tem promovido manifestações contra os leilões. Não sei se o ator recebeu cachê pela filmagem, mas de qualquer forma é muito estranho que agora ele venha com isso.

Paulo Betti foi quem disse uma frase que ficou marcada na nossa história política recente e é quase como um slogan do projeto político que o PT vem implantando desde o primeiro mandato de Lula. "Não dá para fazer [política] sem botar a mão na merda", ele disse num encontro de artistas em apoio ao governo. A reunião foi em junho de 2006, na casa do então ministro Gilberto Gil, onde artistas se juntaram para dar uma força à campanha de reeleição de Lula e prestar solidariedade à cúpula do PT, que já havia sido flagrada no esquema do mensalão.

Pelo que se vê, para Paulo Betti não tem problema algum botar a mão na merda para fazer política. Botar a mão no petróleo é que não pode.
.....................
Por José Pires

quinta-feira, 17 de outubro de 2013


A lição de casa do Chico Buarque

As intervenções de Chico Buarque no debate sobre a polêmica das biografias estão mais para samba de Noel Rosa: ele só dá palpite infeliz. Com um texto publicado ontem em O Globo ele arrumou encrenca até com seu editor, Luiz Schwarcz. O compositor disse que achava "justo" a indenização que a editora Companhia de Letras foi obrigada a pagar para herdeiras do jogador Garrincha, que embargaram a edição da biografia escrita pelo jornalista Ruy Castro.


Acontece que sem o trabalho feito por Ruy Castro é provável que Garrincha estivesse esquecido. A biografia, escrita depois de uma longa pesquisa, trouxe de volta o interesse pelo craque brasileiro e deu dignidade à sua imagem. No livro, Castro mostra que Garrincha nunca foi o bobalhão que acostumamos a ver apontado em histórias da crônica esportiva. Com as restrições pretendidas por Chico e seus colegas do “Procure Saber” seria impossível fazer uma biografia tão boa. Nenhuma editora bancaria os riscos. E autores sérios certamente vão se negar a trabalhar sob o monitoramento de herdeiros. Prevalecendo a posição de Chico Buarque será o fim de biografias com qualidade no Brasil.


A resposta do editor Schwarcz veio de pronto no blog da Companhia de Letras. Para ele, Chico e os outros artistas escolheram o "vilão errado" ao atacar escritores e editores. E o processo das herdeiras de Garrincha teve motivações puramente econômicas. “Com o pagamento realizado, nem a capa ou muito menos o conteúdo voltou a preocupar as herdeiras", ele escreveu.


No artigo de O Globo o compositor foi também tremendamente injusto com Paulo Cesar Araújo, autor de uma biografia de Roberto Carlos, que vem mostrando ter uma importância muito grande nesta polêmica. Araújo disse que os argumentos do “Procure Saber” são os mesmos dos processos que sofre de Roberto Carlos. Já li a biografia do cantor e nada vi que pudesse causar o sentimento de afronta que o cantor transparece. O que provavelmente deve tê-lo incomodado foi a revelação detalhada do acidente em que perdeu parte de uma perna. Este é um de seus graves problemas psicológicos. Mas nenhuma biografia do cantor pode ser levada a sério se não tocar neste e em outros assuntos perturbadores para ele.


Chico abriu o artigo afirmando que jamais foi entrevistado por Araújo, que disse que ele foi um dos artistas que deu depoimento durante as pesquisas sobre a vida de Roberto Carlos. Acontece que o biógrafo tinha a comprovação de que esta entrevista existiu. A conversa com Chico foi filmada e gravada. Essas provas foram divulgadas e já estão disponíveis inclusive na internet.


Pois nesta quinta-feira Chico enviou uma carta ao jornal desculpando-se com Araújo. Na carta ele diz que esquecera da entrevista, mas que de qualquer forma pede desculpas. Isso resolve ao menos esta questão, mas imaginem como ficaria a credibilidade de Araújo se ele não tivesse as gravações. Sendo apenas a sua palavra contra a de Chico é óbvio que o biógrafo ficaria muito mal.


Porém, os problemas de Chico Buarque não acabaram aí. O jornalista Reinaldo Azevedo pegou o assunto para analisar em seu blog no site da revista Veja e resolveu dar também uma boa corrigida na gramática do compositor. Chamou a atenção de Reinaldo a falta de sabor da prosa de Chico e também alguns erros espantosos. Ficou muito interessante o texto em que (e não "onde") ele faz esta revisão. É um desmonte do mito exatamente numa ferramenta essencial da sua fama.
.....................
Por José Pires
__________________


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Ameaça de corte

O jornalista Toninho Vaz foi amigo de Paulo Leminski e após a morte do escritor escreveu "Paulo Leminski, o bandido que sabia latim", elogiada biografia e se não me engano o único trabalho de maior fôlego que existe sobre a vida do escritor curitibano, que morreu em 1989, aos 44 anos. Pois a viúva de Leminski, Alice Ruiz e suas filhas, Estrela e Áurea, estão querendo censurar a biografia porque não gostam de uma parte que relata o suicídio de Pedro, irmão de Leminski. As três familiares mandaram uma correspondência à editora, que cancelou a publicação de uma nova edição que estava pra sair.

O irmão de Leminski é essencial na vida do poeta e tem presença de peso na biografia. Era o caçula, que numa crônica publicada em um jornal curitibano depois do suicídio, Leminski chama de "meu único professor de violão". A morte trágica foi uma razão de seus conflitos existenciais. É tão forte que é com a notícia do suicídio, recebida por ele do próprio Leminski ao telefone, que Vaz dá início ao emocionado livro sobre a vida do amigo.

Estrela, a filha mais nova, foi agressiva na sua página do Facebook: "Qual é a relevância de detalhes sórdidos do suicídio para uma biografia dele? Que relevância tem para a obra? Ou seria para dar um molho e vender mais?", ela escreveu, tocando numa ponto que tem sido a preocupação de herdeiros na recente polêmica sobre censura à biografias: a venda dos livros.

É uma argumentação absurda que faz crer que biografias são hoje em dia uma mina de ouro no Brasil, o que não é o caso nem de livros que tratam da vida de ídolos populares, quanto mais de artistas e escritores com uma obra restrita, mesmo que de qualidade. Escrever uma biografia é um trabalho de longo prazo e demanda custos e riscos que exigem um empenho que geralmente só acontece quando existe um interesse pessoal do biógrafo na obra da personalidade retratada.

E aí estão herdeiros de vários artistas praticamente insultando pessoas que têm feito um serviço de extrema importância pela preservação e divulgação de fatos essenciais na construção da identidade nacional. No caso da censura exigida por herdeiros de Leminski a situação é ainda pior, pois afeta um biógrafo que esteve próximo do poeta. Foi amigo dele e até hoje tem proximidade com os que conviveram com Leminski em Curitiba. Além do mais, quando Vaz se lançou na feitura da biografia nada garantia o sucesso que veio depois com a publicação. E a meu ver a biografia escrita por ele é em boa parte responsável pelo revivescimento do interesse dos leitores por Paulo Leminski.

Esta censura dos herdeiros é até uma afronta ao que o poeta construiu em vida e expressou em tudo que escreveu. Sua obra toca as pessoas exatamente pelo confronto com o conformismo e foi dessa forma também que ele viveu até o fim. A marca essencial que Leminski deixou é exatamente o contrário dessa tentativa de controle sobre o que o outro faz.
.....................
Por José Pires

quarta-feira, 9 de outubro de 2013



Herança maldita

Uma herança política do PT que vai dar muito trabalho para o Brasil descartar no lixo da História – destino de quase todos os conceitos políticos deste partido no governo – é esta certeza obstinada de que apenas sua própria verdade tem valor e de que qualquer opinião discordante tem que ser menosprezada e atacada com agressividade, passando até dos limites da difamação e da calúnia.

É uma forma de fazer política que infelizmente parece que pegou, até porque o clima criado pela militância que gira em torno do poder parece exigir que qualquer um se comporte dessa forma intolerante, até como forma de defesa em meio a tantos ataques. Hoje em dia, quando a gente entra numa rede social corre sempre o risco de uma emboscada de algum bando militante ou até de um "camper", porque eles agem igual jogador de game que fica de franco-atirador estragando a diversão dos outros.

Dá até para compreender a tensão e agressividade que acomete tanta gente. Esta herança petista criou uma situação que pode deixar qualquer um em posição defensiva o tempo todo. Mas o problema é que muitas vezes acaba-se partindo para o ataque sobre pessoas que nada tem a ver com as táticas governistas de desqualificação de quem pensa diferente deles. Aí partem-se amizades e pode-se perder a ótima possibilidade do diálogo franco e aberto, que é o melhor que se pode tirar de um encontro com alguém na internet.

Esta herança intolerante veio de uma tática eleitoral que atualmente contamina o debate público. É coisa que nasceu do PT e foi até sistematizada e ampliada na internet, inclusive com profissionais pagos para isso. No entanto, isso já é bem antigo. É uma forma de luta política com raízes no leninismo soviético e que também foi muito usada pelos nazistas, especialmente nos esquemas criados para a ocupação do poder na Alemanha. Já foi também bastante usada no Brasil durante anos, da década de 60 até 1980, quando o Partido Comunista Brasileiro (o velho Pecezão) praticava uma política cotidiana de desmoralização de qualquer um que falasse ou escrevesse contra os interesses do comunismo.

O clima de grosserias já está aí, com muita gente pegando pesado mesmo quando o interlocutor está só querendo debater problemas que afetam a todos ou às vezes apenas ter uma boa conversa pela internet. Não podemos deixar que esta herança maldita do PT se instale em nossas mentes. E de forma alguma nos nossos corações.
.....................
Por José Pires


terça-feira, 8 de outubro de 2013


Um político muito coerente

Um cuidado que é preciso tomar com a palavra "coerente" é que ela depende totalmente da atitude de quem sai por aí espalhando o autoelogio. Um exemplo significativo disso é Adolf Hitler, ele mesmo, o líder e criador do nazismo, que foi uma das pessoas mais coerentes que já passou pela face da Terra.

De vez em quando me aparece alguém com alguma teoria estrambótica acerca de Hitler, fazendo elaboradas teorias sobre supostas origens do grande mal que ele representou. Quase todas essas teorias pecam porque não contam com um traço de personalidade muito firme de Hitler: sua coerência.

Tudo o que ele fez na Alemanha e depois tentou impor ao resto do mundo está no livro "Mein Kampf", um documento muito claro sobre sua visão política e seus projetos como governante. Está lá inclusive o ódio absoluto pelos judeus. O livro foi publicado muito antes de sua subida ao poder, numa época que seria impossível prever que o cabo do exército que vinha de uma guerra perdida e pintor dos mais medíocres alcançaria a expressão política que conquistou.

Qualquer leitor sensato que pegasse o livro de Hitler logo que foi lançado suspeitaria do risco que havia do horror que de fato aconteceu depois. Bastava ponderar sobre a tragédia que seria o estabelecimento de um governo coerente com as ideias que autor colocou no papel. Mas acontece que "Mein Kampf" pode ser lido também como uma peça de ficção alucinada, onde impera o ódio e a desumanidade, de tal forma que indicava ser improvável que um político fosse capaz de formar um governo coerente com as barbaridades que estavam escritas ali. Mas Hitler fez isso. Afinal, ele era um político muito coerente.
.....................
Por José Pires

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Rumo complicado

Marina Silva passa hoje por um teste difícil. Sua imagem política estará em exame pela opinião pública a partir da decisão sobre o que fará daqui pra frente, depois do TSE negar registro a seu partido, o Rede Solidariedade. Ela pode entrar em qualquer outro partido ou optar por tocar o projeto da Rede, pelo qual não pode disputar eleição alguma em 2014. A resposta ao teste não é nada simples. É difícil para um político com a popularidade no auge ficar fora de uma eleição importante, que além de presidente elegerá também deputados nos estado e no Congresso, senador e governador. Mas acontece que se a ex-ministra do governo Lula optar pela entrada em um partido estará seguindo o caminho usual da maioria dos políticos brasileiros, que é fazer qualquer coisa pelo sucesso no jogo eleitoral.

É claro que neste último caso não tem projeto algum de Rede Solidariedade. É o sentido usual da política que acabará levando Marina e os seus a um debate desgastante e improdutivo. Isso se de fato a intenção deles for a de construir um partido diferente dos que estão aí. E o problema do registro no STF mostra que falta muita coisa para seu grupo político comprovar na prática a capacidade para administrar qualquer coisa. Não conseguiram administrar nem as dificuldades e riscos para o registro de seu partido.

Independente da forma suspeita que o TSE analisou o registro do partido que ela pretendia fundar, vê-se claramente que da parte dos organizadores da Rede Solidariedade faltou um acompanhamento mais sério do assunto, a começar do fato de deixarem uma decisão tão importante para o último momento, numa situação em que uma negativa não permitiria um rápida conserto. É muito óbvio que dessa forma teriam pela frente um problema irremediável e ele aí está.

É o caso de pensar com alívio que ainda bem que Marina não está administrando o Brasil, porque para trapalhadas desse tipo já basta o governo do PT, comandado ao menos oficialmente por uma presidente que não tem um mínimo controle nem sobre o idioma do país onde nasceu.
.....................
Por José Pires

Palavras ao léu

Marina Silva diz que a resposta que dará hoje sobre seu futuro político "será coerente". E como atualmente parece que no jornalismo existe um problema geral de cabeça ninguém lhe pergunta onde ela encaixa "coerente" A palavra exige um acompanhamento para que possa ser compreendido o que realmente uma pessoa está falando. E não vale também vir com a palavra "ética", como ela faz o tempo todo, porque hoje em dia esta é outra palavra que serve pra tudo.

E a verdade é que até agora Marina vem seguindo um caminho que nada tem de reto. De ministra do Ambiente de um presidente (ele, o Lula) destrutivo na área ecológica, inclusive no desmonte de leis e no achincalhamento verbal do respeito à natureza, ela saltou fora para um partido de aluguel (o Partido Verde, caindo de maduro em falsidades) e aí veio com este plano de um partido só pra ela (o Rede Solidariedade, que perdeu as tramas).

Marina não rouba, o que na política brasileira já faz uma diferença positiva bem grande. Mas em uniformidade de ação, ela e os marineiros que me desculpem, o que temos por enquanto é só ambição pessoal.

Qual é a coerência? Por enquanto, Marina segue na mesma toada de todos os outros, mantendo-se na mídia sem que dê para entender de fato o que ela traz de diferente. Faz isso até na enrolação sobre seu destino político. Se fosse coerente mesmo, Marina já teria dito ontem qual é sua posição. Jogando a questão para o dia seguinte ela está fazendo o mesmo que qualquer político: marketing.
.....................
Por José Pires

Rede fora da eleição


Se fosse num país sério, o fato da Rede Sustentabilidade não conseguir o registro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderia até ser visto unicamente como um tremendo amadorismo do grupo da ex-ministra Marina Silva. Mas estamos no Brasil, um lugar onde os cenários eleitorais passaram a ser construídos da forma mais adequada para a perenização de um partido no poder. Todos sabem que ao governo do PT não interessa nem um pouco a candidatura de Marina Silva, muito menos embalada por um partido com ares de novidade. Seria um fato político ruim para a candidatura de Dilma Rousseff, sendo provável até que isso mexesse na futura composição do Congresso e até nas eleições para governador. Já bastante desgastado, o PT poderia sofrer um forte baque com um sucesso da Rede, porque é óbvio que é de seu eleitorado que sairiam muitos votos. Até agora falou-se bastante só na candidatura presidencial de Marina e foi foi deixada de lado esta possibilidade da Rede ter uma expressiva bancada de deputados.

O rigor do TSE com a Rede não segue o figurino do tratamento a tantos partidecos que vêm sendo formados, nesta surreal realidade política com mais de três dezenas de partidos. Nesses dias mesmo saíram mais dois partidecos, comandados por políticos sem nenhuma expressão nacional. Nossa Justiça foi também muito delicada com um partido mais graúdo, o PSD do ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.

A generosidade com Kassab foi tamanha que juntou até o STF ao TSE, quando ambos decidiram que mesmo sem ter participado de nenhuma eleição (mas já com uma boa bancada, amealhada sabe-se lá como) seu partido teria o direito proporcional de tempo de propaganda e dinheiro do Fundo Partidário. Mas Kassab é um político do sistema, qualquer sistema, desde que ele possa dar sua contribuição em mudanças que deixem tudo do jeito que está.

O problema do partido de Marina com o TSE é não ter completado o número de assinaturas exigido para o registro. 95 mil firmas foram rejeitadas por cartórios. E vale a pena dar os nomes de cidades onde cartórios mais encrencaram para firmar as assinaturas da Rede. A média de rejeições em todo o Brasil é de 24%. Pois no ABC paulista, onde o PT tem um imenso poder, os índices chegaram a 78%. Isso mesmo: quase tudo recusado pelos cartórios. Foi 78% recusado em São Bernardo do Campo, 72% em Mauás e 69% em Santo André.

É claro que isso nada prova e talvez nunca ocorra nenhuma investigação para verificar o que aconteceu de verdade nessas cidades e em outras onde cartórios contribuíram para adiar o sonho de Marina Silva. Mas fica no ar a suspeita de que o domínio político petista já está chegando a tanto que eles decidem até quais partidos podem ser formados no país.
.....................
Por José Pires

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mais uma entrevista pra conservador algum gostar

Cada vez que esse papa Francisco dá uma entrevista ele vem com um monte de afirmações que devem fazer muito mal aos católicos conservadores. Hoje foi publicada uma entrevista no diário italiano La Repubblica, sendo que é exatamente neste dia o início do trabalho dos oito cardeais que devem conduzir as reformas do papado de Francisco. É evidente que é uma entrevista que vem para reforçar sua visão sobre a condução desta reforma.

O destaque na imprensa já está sendo dado para a frase "a corte é a lepra do papado", dita por ele no mesmo momento em que criticava a visão "vaticano-cêntrica", que "esquece do mundo ao redor" para cuidar apenas dos interesses do Vaticano, em grande parte, segundo ele, "interesses temporais". A corte de que ele fala é o círculo que se mantém na adulação da cúpula da Igreja.

Vamos ver agora o que dizem agora os conservadores. Numa entrevista anterior, publicada numa revista católica da Itália, o papa criou polêmica ao reclamar da obsessão de setores católicas com temas como o aborto e o casamento gay. Foi uma óbvia recomendação para mudar de assunto ou pelo menos amenizar os termos, mas muita gente tentou mostrar que a opinião de Francisco havia sido distorcida pela imprensa. Bem, aquela foi uma entrevista longa e nela o papa mostrava de fato posições que nada tem a ver com o conservadorismo que muitos querem como uma linha determinante na Igreja e que vinha sendo seguida anteriormente.

Na matéria que saiu hoje no La Repubblica o papa Francisco foi ainda mais afirmativo na sua opinião de que há uma necessidade de haver uma abertura da Igreja Católica a temas importantes da atualidade. A entrevista começa na capa do jornal e ocupa três páginas. Foi feita por Eugenio Scalfari, fundador do jornal e com quem o papa já vinha tendo um debate público por meio de cartas sobre o diálogo entre católicos e não-católicos. Sacalfari é ateu, mas não é anticlerical.

Uma afirmação de Scalfari dá o tom do explosivo conteúdo da entrevista. Escrevendo sobre o que sentiu na conversa com o papa, ele diz: "Se a Igreja se converter naquilo que ele quer e imagina, haverá uma mudança de época". A conversa rendeu muitos assuntos que vão estimular o debate entre os católicos. Porém, as falas do papa trazem uma perceptível desvantagem para os conservadores.

Até em questões econômicas o pensamento de Francisco não bate com a agenda conservadora. "Penso que o chamado liberalismo selvagem converte os fortes em mais fortes e os fracos em mais fracos e aos excluídos em mais excluídos", ele disse, acentuado inclusive que se for necessário deve haver "a intervenção direta do Estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis".

E não adianta os conservadores tentarem acusar alguma manipulação. São palavras literais do papa. É melhor que encarem que podem vir mudanças desfavoráveis para que quer uma Igreja menos liberal no comportamento e na política. A entrevista demonstra que pode haver uma mudança até na relação com a Teologia da Libertação, ala da Igreja que teve em João Paulo II e Bento XVI dois implacáveis inimigos. O papa Francisco até busca fugir do confronto com as atitudes de João Paulo II, que combateu de modo firme os líderes da Teologia, mas mostra uma mudança substancial de visão. Ele diz que os líderes erravam em dar um "plus político a sua ideologia", mas considera que "muitos deles eram fiéis com um alto conceito de humanidade".
.....................
Por José Pires


___________________

Link: Clique aqui, que o La Repubblica disponibiliza uma tradução em espanhol da entrevista. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O ator de sempre

E eis que o ex-presidente Lula aparece nas manchetes dizendo que "em 2014 atuará como candidato". E Lula tem feito outra coisa na vida nos últimos 30 anos do que atuar como candidato? Por mais de dez anos ele teve até salário mensal do PT para fazer isso. É o primeiro caso brasileiro e talvez o único também nas democracias ocidentais de um político com salário pago pelo partido para ser seu eterno candidato, condição que ocupa até hoje. Ele só não precisa mais do salário, já que atualmente é um dos homens mais ricos do Brasil, apesar da fachada de propaganda muito trabalhada da simplicidade pessoal.

Lula não desce do palanque e faz ou fala qualquer coisa para para se manter numa visibilidade que até constrange a atual presidente e impede qualquer ampliação do quadro de lideranças de seu partido. A situação política do PT hoje em dia é grotesca: para tudo precisam chamar o Lula. O que este partido vai fazer se um dia desses seu candidato eterno morre? Parece que todos se esquecem que Lula já é um homem de idade. Ele completa 68 anos agora em outubro. E independente disso, toda instituição tem que ter em andamento um programa que vá além da sua liderança de momento. O destino do PT é muito parecido com a situação política atual deixada pelo falecido Hugo Chávez, na Venezuela, onde seus partidários tem dele como herança apenas a memória da sua figura. Não ficou projeto algum.

Portanto, Lula não está anunciando nenhuma novidade para 2014. Vai agir como sempre, comportando-se como um candidato que atropela qualquer regra e atua sem respeito algum pela decência. E a sua megalomania anda tão destrambelhada que ele está deformando até o sentido da famosa música do Raul Seixas. A "metamorfose ambulante" cantada pelo roqueiro tinha o significado de independência e desafio às regras impositivas da sociedade. Na voz do Lula, "metamorfose ambulante" soa como sinônimo de oportunismo e manipulação.
.....................
Por José Pires

domingo, 29 de setembro de 2013


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Por fora do mensalão


Para quem julga que existe hoje em dia uma consciência maior do se passa no mundo da política, uma pesquisa divulgada ontem pela Folha de S. Paulo pode ser uma decepção: 29% dos paulistanos não sabem o que é o mensalão. A pesquisa é do Datafolha e foi feita apenas na cidade de São Paulo, onde o nível de informação é para ser maior. A situação é ainda mais triste pelo fato do Datafolha ter usado só a expressão "mensalão", sem exigir conhecimento maior sobre o tema.

É provável que uma parcela expressiva dos que sabem do mensalão não tenha a compreensão exata da dimensão do esquema de suborno e sua importância no projeto de perenização do PT no poder. Muita gente pensa que foi só um caixa 2, até como resultado da propagação desta falsa versão pela máquina política de comunicação e propaganda governista para amenizar o crime. E na minha opinião este desconhecimento tem origem em parte na forma que atualmente é feito o noticiário político, na maioria das vezes sem contextualização da informação e sem dar referência constante sobre o tema que está sendo tratado. Vivemos numa época de fragmentação extrema da informação.

As ferramentas da internet permitem o oferecimento de links para situar o leitor e possibilidade de sistematização do que é publicado, mas na internet brasileira infelizmente criou-se o hábito de escrever sobre qualquer coisa como se o leitor estivesse sempre acompanhando de perto o assunto. Eu vivo dizendo que o profissional de comunicação tem a obrigação de buscar aprofundar a informação e o conhecimento e sempre procurar dar referência sólida sobre o que está falando. Comunicação sem qualidade acaba favorecendo quem tem recursos financeiros e poder político para massificar sua própria propaganda. E a quadrilha do mensalão sempre soube usar isso.
.....................
Por José Pires


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Além da imaginação

Com o ditador Bashar al-Assad em superioridade militar é estranho que suas forças tenham de fato atacado civis com armas químicas. O ataque parece improvável, mas não é impossível. O clima de ódio que impera internamente na Síria tem mais a ver com sentimentos tribais do que com uma lógica de Estado que até poderia evitar atos como este ataque que serve de justificativa para a intervenção dos americanos.

Bashar al-Assad acusa os rebeldes de terem feito este ataque contra civis para incriminar o governo. Não é difícil que isso ocorra. É uma atitude que foge ao padrão de uma guerra convencional, mas o tipo de conflito que ocorre na Síria nada tem de convencional. Para compreender o que ocorre em toda aquela região é preciso esquecer os modelos comuns de combate.

Existe um livro editado no Brasil que traz boas informações sobre o quanto são inusitados os métodos em uso no Oriente Médio. O livro é “De Beirute a Jerusalém”, do jornalista americano Thomas L. Friedman,  que virou um especialista no assunto depois de passar quase dez anos trabalhando naquela região. Em 1982 ele era chefe do escritório do The New York Times em Beirute. É o ano da invasão do Líbano por Israel e da expulsão da OLP do país. E foi em 1983 que a embaixada americana no Líbano foi atingida por carros-bomba suicidas, com dezenas de americanos mortos. O atentado é um ponto-chave na escalada mundial do terrorismo islâmico.

Neste livro, Friedman faz uma análise do comportamento político não só dos ditadores da região, mas também dos oposicionistas, muitos deles armados e ferozes. A esquerda brasileira costuma usar seu raciocínio maniqueísta também quando olha para o Oriente Médio. Talvez imaginem que lá é travada uma luta entre o bem e o mal. Não é bem assim. Por sinal, o livro de Friedman traz um retrato aprofundado da OLP e de seu líder, o falecido Arafat, que foi ídolo de sempre da nossa esquerda. Pois não iriam gostar do que ele descobriu. Isso se lessem o livro, é claro. Mas essa gente não lê nada.

Uma história contada por Friedman da época em que Israel ocupou o Líbano pode dar uma ideia de como por ali o uso apenas da lógica militar pode fazer qualquer um se danar feio. O jornalista americano diz que naquele lugar é preciso um outro tipo de imaginação. Mas vamos ao caso. O general israelense Amonn Shahak comandava uma divisão militar durante a ocupação de Beirute pelo exército israelense, quando um grupo de anciãos drusos muito exaltados o levou até três caixotes de laranja. Cada um continha cabeças humanas, troncos, mãos e pernas de drusos. Os velhos acusavam os falangistas cristãos de terem feito aquilo. Drusos e falangistas – todos libaneses – estavam em luta, num daqueles conflitos que parecem vir de tempos bíblicos.

O general Shahak então tomou um jipe e foi até o quartel-general dos falangistas tomar satisfações. O comandante falangista disse que de fato houvera um combate entre seus homens e os drusos. Mas os drusos é que recolheram seus mortos depois da luta, os mutilaram e levaram os pedaços de corpos para instigar seus próprios combatentes. E depois foram até o quartel israelense com a história. Era um truque já conhecido. O general israelense obviamente era um homem bastante experiente em combates e mesmo assim por pouco não se metera numa situação muito complicada. Ele disse disse ao jornalista que ficara pasmo com aquilo. E admitiu que deu-se conta que estava no meio de um jogo que não compreendia.
.....................
Por José Pires


Imagem - A capa da revista The Economist retrata Bashar al-Assad do jeito certo: é um criminoso. Mas nas atuais condições é difícil saber se a Siria ficará melhor sem ele.

sábado, 7 de setembro de 2013

O grito que deu cana

Há 43 anos uma piada dessas dava cana braba. Foi esta charge feita pelo cartunista Jaguar que serviu de pretexto para prisão em novembro de 1970 de toda a redação do jornal "O Pasquim". O motivo da prisão chega a ser também engraçado porque a ditadura militar tratou como símbolo nacional o conhecido quadro de Pedro Américo – muito ruim e uma cópia deslavada de uma pintura do francês Ernest Meissounier, onde ele retrata uma vitória importante de Napoleão. A frase brincalhona que Jaguar colocou na boca de D. Pedro I era de uma música cantada por Jorge Ben (que na época não era Benjor) que tocava muito no rádio.

Na época era assim. Tempos de "Brasil, Ame-o ou Deixe-o", não se podia brincar nem com o verde e amarelo da nossa bandeira. E nem com uma pintura ruim que era reverenciada pelos militares como símbolo da pátria.

Os milicos não acharam graça. Numa invasão da redação de madrugada pela polícia foram presos José Grossi, Fortuna, Ziraldo, Paulo Garcez e Luiz Carlos Maciel. Estavam terminando a edição daquela semana do jornal. Tarso de Castro fugiu pelos fundos quando a polícia chegou. A polícia foi na casa do Millôr Fernandes mas não o encontrou. Paulo Francis foi preso em casa. E Jaguar, Sérgio Cabral e Flávio Rangel se entregaram depois. Atendiam a uma proposta da polícia, que disse que assim soltaria os outros. Era um truque. Ficou todo mundo preso.

A prisão foi tratada depois de forma escrachada pelo jornal. Não perdiam a piada de jeito nenhum. Apelidaram o episódio de "A gripe da turma do Pasquim". Segundo Jaguar, nos dois meses que ficaram presos nunca foram interrogados por ninguém. Mas a verdade é que correram um risco tremendo. O clima político era pesado, com presos sofrendo torturas e também desaparecendo para sempre. Pelo menos um perigo sério chegou muito perto deles. Um comando da extrema-direita tentou pegá-los na prisão, mas um militar impediu o sequestro.

Passadas quatro décadas a piada do Jaguar não causa mais reação nos militares, que não estão nem aí para uma gozação dessas. A situação se inverteu no Brasil. Hoje em dia quem bronqueia contra gozações ao poder é a esquerda governista, que está sempre atiçando suas patrulhas sobre qualquer um que tente fazer algo fora do senso comum e sem reverência babaca por uma pátria que é roubada de cima a baixo.
.....................
Por José Pires

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Maracutaia entre companheiros

Tem que ter preparo físico para acompanhar as maracutaias do PT. Acontecem o tempo todo. Agora é uma denúncia de compra de votos na eleição para presidente do partido. E não vem da imprensa e nem da oposição. A denúncia é do deputado Henrique Fontana (PT-RS), que disse o seguinte: “Desconfio de pagamento coletivo. Uma pessoa pagou para um grupo e isso é voto de cabresto”.

Fontana está entre os seis petistas que disputam o cargo, entre eles Rui Falcão (PT-SP), que tenta a reeleição. A eleição será em 10 de novembro e para votar os filiados tinham tinham até o dia 31 de agosto para quitar seus débitos com o partido. A acusação de Pimenta tem a ver com isso. “184.893 filiados estavam aptos a votar em 28/8. Ontem, eram 780 mil os filiados que estavam em dia com a tesouraria”, ele disse.

O PT é cheio de surpresas como esta da quitação instantânea de pagamento de centenas de milhares de filiados numa véspera de eleição partidária. Parece que neste partido dinheiro não é problema. Sempre tem algum pagamento surpreendente. Lembram da quitação da dívida do ex-presidente Lula em 2004 com o partido? Imaginem a surpresa do Lula quando ele soube que sua enorme dívida de R$ 29,4 mil havia sido paga pelo Paulo Okamoto, companheiro de tamanha bondade que nem se preocupou em avisá-lo? Haja coração. Num partido desses não dá mesmo para ter medo de ser feliz.
.....................
Por José Pires

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Na escuta


Por que é que o governo americano ficaria espionando as conversações da presidente Dilma Rousseff? Nem vou ir no ponto político de que nem é dela o comando de verdade sobre as ações do governo do PT. A presidente não chega a ser laranja neste esquema de poder, mas se for para xeretar pessoas neste governo ela não está na frente da lista. E a Dilma tem problema de sinapse até quando está com um marqueteiro na sua cola. Um espião estrangeiro deve penar para entender uma conversa com ela raciocinando de improviso.

E nem é possível imaginar o presidente Barack Obama sendo interrompido em uma reunião na Casa Branca de discussão sobre a Síria, o Irã e a União Soviética para que ele tome conhecimento com urgência de uma conversa importante entre a Dilma e a Ideli Salvatti.

Porém, se os americanos estiverem mesmo espionando as conversas da Dilma isso só pode ter uma explicação: até o Obama precisa dar umas risadas de vez em quando.
.....................
Por José Pires