sábado, 5 de julho de 2014

Os profissionais da indignação seletiva

A revista Forum é uma das publicações que servem ao governo desde que o PT alcançou o poder. Neste número que está nas bancas é possível ver como funciona a indignação seletiva desses meios de comunicação governista para mascarar objetivos que tem mais a ver com propaganda política do que com jornalismo. Nesta edição, eles publicam uma matéria sobre a anunciada aposentadoria política do senador José Sarney que, como todos sabem, é aliado do governo do PT desde a campanha eleitoral de Lula de 2002. Sarney foi um dos políticos que mais ajudou Lula a vencer sua primeira eleição e também deu apoio na reeleição e depois na eleição de Dilma Rousseff, não sem garantir nesses 12 anos uma valiosa cota de cargos no governo, entre eles o precioso Ministério da Energia, que sempre foi dele.

A revista governista mostra nessa matéria sobre Sarney uma interessante variação da indignação seletiva, que não se restringe a atacar ou não um político. Nesta indignação controlada também existem graus que influem no contexto de uma denúncia. Dessa forma, eles até falam na matéria sobre o férreo controle político do clã Sarney há décadas no Maranhão. Citam inclusive a dinheirama que a Polícia Federal encontrou em março de 2002 em um escritório de Roseana Sarney e seu marido, Jorge Murad. Na época, descobriram R$ 1,3 milhão em notas de cinquenta reais, o que destruiu as pretensões presidenciais de Roseana, que estava à frente nas pesquisas eleitorais.

A matéria da Forum faz um retrospecto da carreira política de Sarney e seu imenso poder, que vem desde sua colaboração com a ditadura militar. É um político que sempre esteve escorado em algum governo e fazendo uso dos cofres públicos. Porém, a revista governista não traz a informação essencial sobre a sustentação deste poder, que é a estreita relação política do senador nesses últimos 12 anos com o governo do PT. Qualquer texto sobre a carreira política de José Sarney tem que ter como base a sustentação mútua entre ele e o PT, sem a qual provavelmente ele seria hoje um político do baixo clero e talvez tivesse até sido preso.

A ligação dele com o governo petista é ainda mais importante como informação numa matéria desta porque é preciso levar em conta que o ataque ao poder político de Sarney sempre foi um elemento essencial na pauta do PT antes da primeira eleição de Lula. A denúncia de oligarquias como a do cacique político maranhense teve um peso eleitoral no crescimento do PT, contribuindo afinal na vitória de Lula para presidente da República. Foi com este discurso que os petistas ganharam a confiança de uma ampla parcela do eleitorado que desejava ver o país livre do domínio nefasto desse tipo de político.

No entanto, na matéria da Forum não entrou a relação muito próxima — até fraterna — entre Lula e Sarney, com a poderosa participação de seu grupo político no governo do PT. É a demonstração prática da técnica da indignação seletiva, uma manipulação que até em matérias de denúncia exige uma seleção no conteúdo do texto, com o corte criterioso de qualquer fato que possa afetar o governo, mesmo que a informação eliminada seja essencial na compreensão histórica do assunto. Nesse tipo de jornalismo a submissão ao poder está sempre acima do respeito ao leitor.

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POR José Pires

Na internet costumam aparecer uns rastros estranhos. Fiz o texto acima sobre a matéria da revista governista Forum sobre o senador José Sarney, um material manipulado que evita qualquer menção à parceria dele com o governo do PT. É claro que o texto da Forum deve ter sido bastante discutido por altas esferas antes da publicação. Pois vejam o que notei no endereço da reportagem na internet. Está mais para um aviso do que identificação de matéria. Vejam na imagem e no link que publico novamente. O texto é este: http://www.revistaforum.com.br/digital/153/degringolada-imperio-sarney23-nao-editar-ainda/. Muito interessante este "nao-editar-ainda". É de suspeitar que a redação estava à espera da aprovação de alguém muito poderoso.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Um dia qualquer num ônibus do Alabama

Neste 2 de julho é comemorado nos Estados Unidos o dia da instituição da Lei de Direitos Civis, que pôs fim à discriminação racial. A lei completa 50 anos. Ela foi assinada em 1964 por Lyndon B. Johnson, mas o trabalho para que fosse alcançada começou muito antes e teve um impulso importante na atitude de uma mulher, em 1955, no Alabama, um dos estados americanos mais racistas naquele tempo. Foi algo que hoje pode ser visto como muito simples, mas que era de uma complicação danada naquela época: um negro recusar-se a dar seu assento a um passageiro branco. Este era o costume. Estando ocupados nos ônibus todo os bancos reservados aos brancos, os negros deviam ceder o lugar. No dia 1 de dezembro de 1955, em Montgomery, Rosa Parks (1913-2005) recusou-se a fazer isso. Junto com o marido, Raymond Parks, ela já era membro da Associação Nacional Para o Desenvolvimento das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês). A associação existia desde 1909. Foi depois de participar de um seminário da associação que ela tomou esta atitude histórica.


O gesto corajoso desencadeou todo um processo de luta, mas é preciso ter em conta que foi necessário muito empenho e organização para que disso resultasse uma das leis mais importantes da democracia americana, além de um marco universal dos direitos humanos. O avanço desta ideia exigiu lideranças capazes, entre elas a de Martin Luther King (1929-1968), personalidade que se sobressaiu nesta luta. Foi preciso também a habilidade que ele teve de evitar que correntes radicais do movimento negro apelassem para uma violência que só agravaria o problema racial.

Faço essa ressalva sobre a necessidade da aplicação de inteligência e suor em uma ação política porque sei muito bem que existe uma tendência de se acreditar que transformações políticas são geradas naturalmente, a partir de acontecimentos banais. Com a internet e as redes sociais aumentou ainda mais essa visão ingênua de que a realidade pode ser mudada a partir de um estalo (ou um clique).

E nunca foi assim, muito menos na reação à severa segregação racial imposta nos Estados Unidos, desde que o primeiro negro pôs os pés naquele país na condição de escravo. Tampouco foi uma luta unilateral, com negros bonzinhos contra brancos maus — ou a "elite branca", na cretina definição da esquerda brasileira, numa realidade de tolerância social, como a nossa,  que devia ser vista como virtude nacional. Entre os negros americanos, como eu já disse, havia até uma posição de reação pela violência, que felizmente foi anulada. A transformação de qualidade na democracia americana se deve à atuação de brancos e negros, gente de espírito livre e de boa vontade, sem as quais mudança alguma acontece.

Antes do admirável gesto de Rosa Parks, por exemplo, já havia sido estabelecida uma lei para as Forças Armadas que definia um tratamento igual para todos naquela instituição, independente de religião, nacionalidade, raça ou a cor da pele. A Suprema Corte também já decidira por unanimidade pela inconstitucionalidade da segregação nas escolas públicas. Mesmo no conjunto da nação americana existiam fortes diferenças em cada estado no tratamento aos negros. A Lei dos Direitos Civis foi uma solução federal, pondo fim aos sistemas legais e costumes segregacionistas em qualquer estado americano.

E aqui trago uma questão, antes que ela apareça na forma de azucrinação militante: estaria eu tentando diminuir o papel do movimento negro e de seus líderes no fim da segregação racial e o surgimento da Lei de Direito Civis? É óbvio que não. Procuro apenas apontar a unidade humana em qualquer ação de qualidade nas relações entre as pessoas. Até porque naquele estado americano em que Rosa Parks negou-se a dar seu lugar a um passageiro branco, com certeza também não deve ter sido nada fácil a vida de um branco sem preconceito racial. E eles estavam lá, alguns até nos assentos reservados aos brancos. 
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POR José Pires

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Imagem- Rosa Parks, que tomou a atitude que deu início a um movimento de transformação social, tendo ao fundo o homem que assumiu a liderança deste processo: Martin Luther King.

terça-feira, 1 de julho de 2014

O mito em xeque

No último dia para a oficialização das alianças dessas eleições, Paulo Maluf abandonou a candidatura do petista Alexandre Padilha ao governo de São Paulo e se bandeou para a de Paulo Skaf. Ele desmanchou uma aliança que já havia sido fechada, até com pose dos dois para fotos da imprensa. O problema do ex-ministro da Saúde é que sua candidatura não decola de jeito nenhum. Mas com esta derrocada prematura é de se fazer um questionamento: e o tão falado carisma de Lula? O que se diz sempre é que ele tem o dom pessoal de resolver qualquer parada eleitoral.

O desmascaramento dessa lorota vem num péssimo momento para o PT. A presença de Lula em palanque sempre é brandida como um remédio mágico em qualquer dificuldade eleitoral. É quase uma ameaça, como vem acontecendo em relação à queda de popularidade de Dilma Rousseff. Com o esvaziamento da sua reeleição, a entrada de Lula resolveria a parada de imediato. Esta é a tese petista. Furada, como se vê nesta complicação que ocorre no próprio estado de Lula, onde nasceu seu partido e ele começou a carreira política.

O tão falado carisma de Lula não resiste a uma comparação entre ele e seus adversários, nas disputas eleitorais importantes em sua carreira. Pode-se começar com sua derrota na primeira eleição direta que tivemos para presidente, quando foi eleito Fernando Collor. Ora, o que não se duvida de forma alguma é que naquela eleição o político mais carismático era Leonel Brizola. Basta ver os vídeos da época para constatar isso ainda hoje. Acontece que, apesar de ser uma boa referência em política, carisma não é definidor único de eleição e na maioria das vezes nem é o requisito principal. Foi o que aconteceu com falecido político gaúcho. Os petistas adoram falar numa suposta maquinação que tirou a vitória de Lula nesta primeira eleição, mas a única maquinação sobre a qual não resta nenhuma dúvida foi a que tirou Brizola do segundo turno e colocou Lula como adversário mais fácil para Collor.

Ninguém pode negar capacidade política a Lula e nem a força eleitoral de sua personalidade, principalmente depois da guaribada que o marqueteiro Duda Mendonça deu nele em 2002. Porém, a construção do mito Lula exigiu muito mais do a sua suposta simpatia. A cúpula do PT criou uma máquina de ganhar eleição, para isso passando por cima inclusive de petistas que pretendiam construir um partido com um diferencial político. Depois de esmagada a democracia interna, o partido se soprepôs ao que houve de pior na política brasileira em matéria de uso da máquina pública. E alcançando o poder instrumentalizou o Estado em função dos objetivos do partido.

E o carisma? Se formos ver isso como decisivo em política, então o político mais carismático dos últimos tempos deve ser Fernando Henrique Cardoso. Ele ganhou duas eleições do próprio Lula no primeiro turno. Já o petista só se elegeu presidente em segundo turno e sempre em campanhas muito caras. E ele teve à frente adversários tidos como políticos de pouquíssimo carisma, José Serra e Geraldo Alckmin. Eleição se ganha com organização partidária, infraestrutura e dinheiro. E Lula teve tudo isso de sobra nas duas vezes em que foi eleito. Carisma algum resolveu a a eleição, muito menos no primeiro turno. E nas duas vezes ele disputou com larga vantagem desde o início.

Em 2002, Lula vinha da mais longa exposição de imagem já explorada por um candidato em eleição presidencial. Teve tempo de sobra para ficar conhecido no país todo. Foi mais de uma década com o PT trabalhando exclusivamente seu nome. Pois mesmo assim foi obrigado a ir para o segundo turno, forçado por José Serra, na época com um perfil político visto como pouco popular. Mas o pior teste do tal carisma de Lula foi na eleição seguinte. Novamente ele foi para um segundo turno, desta vez levado por Alckmin, um adversário tão frio que até recebeu o apelido de “picolé de chuchu”. E Lula estava no poder, fazendo uso da máquina pública com a desfaçatez bem própria dele. E nesta eleição ele ainda foi favorecido por uma campanha muito mais rica que a do adversário. Isso nunca é lembrado. Em 2006, a campanha de Alckmin custou R$ 45,78 milhões. E Lula teve muito mais grana para gastar: R$ 75 milhões. Carisma, é? Ora, o PT vai ter que arrumar outra lorota.
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POR José Pires

segunda-feira, 30 de junho de 2014


Regime de camisa de força

O tal do bolivarianismo que tomou conta pela força da Venezuela é mesmo um mundo à parte, que não respeita nem regras do bom senso. Na verdade, nem o senso do ridículo consegue penetrar na fechada corte política que hoje controla o país. O presidente Nicolás Maduro dizia que fez contato com o falecido Hugo Chávez por meio de um passarinho e é provável que ele acredite mesmo que teve esse tipo de comunicação com o chefe. O bolivarianismo não cabe numa ideologia. É coisa de hospício.

Neste sábado tivemos mais uma demonstração do grau de doidice daquele governo. Foi celebrado por lá o Dia do Jornalista, quando concederam vários prêmios. A premiação foi feita por um tal de Movimento Jornalismo Necessário, que parece ter uma semelhança de propósito com jornalistas governistas brasileiros que pregam o controle da informação. Os sites e blogs sujos que servem ao governo do PT iriam se dar muito bem no regime chavista.

Na premiação, até o presidente Nicolás Maduro foi contemplado com uma menção especial "por seu destacado trabalho no Twitter". Mas o prêmio mais significativo foi do ministro do Interior, general Miguel Rodríguez Torres, a autoridade do governo bolivariano encarregada de reprimir os protestos que já duram três meses naquele país. Já aconteceram prisões seguidas de maus tratos e torturas, além de mortes de manifestantes. A repressão é violenta, inclusive com ativistas da oposição sendo alvo de espancamentos e tiros disparados por agentes do governo e militantes governistas.

Pois Rodríguez Torres recebeu o prêmio de "comunicador do ano". E a justificativa para a bizarra homenagem ao general? Foi por ele “informar de forma oportuna e verdadeira sobre os acontecimentos violentos". É do mais pesado humor negro, mas não tem como não rir. Como é que se diz "piada pronta" em espanhol? Mas o grotesco ficou ainda mais, digamos assim, apurado, com a revelação feita pelo militar das fontes filosóficas que segue para dizer sempre a verdade: "Os dez mandamentos, as palavras de minha mamãe e o código de honra do cadete". São palavras literais do premiado. Eu bem disse pra vocês: é difícil identificar a ideologia de um governo tão amalucado.
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POR José Pires

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Imagem- No recorte do jornal espanhol "El Mundo", Nicolás Maduro e o ministro do Interior, general Miguel Rodríguez Torres, o “comunicador do ano” da Venezuela.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Piração no Paraná

Já falei aqui da surpresa do PMDB ter decidido pela candidatura de Roberto Requião ao governo do Paraná. O partido já era tido como aliado garantido de Beto Richa para sua reeleição. A decisão é uma interessante reviravolta política, mas tem um problema: o próprio Roberto Requião. Os paranaenses de bom senso sentem até arrepios em pensar na volta ao governo de um dos políticos mais abilolados e autoritários deste país. Requião parece o maluco do Suárez. Na política é igualmente um craque, mas o problema é que ele também morde.

A personalidade complicada de Requião já alcançou fama nacional, com situações pitorescas, como o dia em que o presidente Lula mostrou-lhe uma cumbuca com sementes de mamona. Sem pensar, ele meteu um punhado na boca e mastigou como se fosse um petisco. Teve que cuspir de imediato a semente tóxica. E ele tem também seu lado autoritário, que mostrou muitas vezes, uma delas nos corredores do Congresso Nacional, quando roubou o gravador de um repórter depois de se incomodar com um questionamento.

Daí o frio na espinha que causa a possibilidade da sua volta. Antes do governo atual, Requião teve dois mandatos como governador. Foram anos conturbados no Paraná, um longo período de conflitos e trapalhadas, com ele se metendo em tudo, de forma agressiva e abusando de seu poder. Muito mandão, ele desautoriza secretários, desmerece o trabalho do funcionalismo público e até humilha subordinados e pessoas humildes publicamente. Durante seu governo ele inventou uma reunião semanal em um auditório com secretários e funcionários graduados. O evento era motivo de chacota e era chamado pelos paranaenses de "Escolinha do Professor Raimundo". Tem esse lado jocoso, mas era também um ritual de humilhação, com Requião dando de dedo em secretários e fazendo piadas grosseiras, com tudo isso sendo filmado e transmitido pela emissora estatal de TV.

Foi um tempo de eterno quiproquó no Paraná, com o governador sempre criando encrencas com alguma área do funcionalismo ou da iniciativa privada. Nesses oito anos de conflitos sobrou pancada até para as universidades públicas. O Paraná tem universidades estaduais de bom nível, como a UEM, de Maringá, e a UEL, de Londrina. No plano nacional, Requião busca compor uma imagem progressista de defensor da Educação, mas com ele as universidades sofreram muito. O que professores e servidores recebiam do governador eram insultos. Requião chegou a brigar com comissões de professores que buscavam diálogo para resolver problemas salariais e de manutenção do ensino superior. De estilo extremamente centralizador, no final de seu governo até autorização de viagem de professores para estudos e pesquisas ele puxou diretamente para si. E é claro que não decidia nada.

Suas confusões com os professores universitários foram parecidas com as que teve com funcionários públicos de outros setores, além das encrencas com empresários, prefeitos e qualquer um que não baixasse a cabeça. Sua forma de governo era um caos administrativo e político, com ele no centro colocando nos outros a culpa de problemas que eram de sua responsabilidade. Sua candidatura traz a possibilidade da volta dessa desagradável confusão. A Copa do Mundo já ficou livre do maluco do Suárez. Agora é o Paraná que corre o risco de levar umas mordidas.
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POR José Pires

terça-feira, 24 de junho de 2014

Já vai tarde

O senador José Sarney é um histórico estraga-prazeres. Quando o Brasil saia da ditadura militar, em 1985, esperava-se com a eleição de Tancredo Neves um reordenamento da vida política brasileira. Mas aí aconteceu com a saúde dele aquilo que todo mundo sabe. Para um país que tinha esperança de começar a traçar um caminho mais decente foram dois choques: a morte de quem encarnava esta esperança e aparição súbita de um político desprezível, que estava como vice de Tancredo exatamente pela deslealdade que tivera com os militares que deram sustentação à sua carreira política e até ali davam o reforço das armas para seu domínio sobre o estado do Maranhão.

O estraga-prazeres era José Sarney, que acabou assumindo a presidência. O país ainda vivia o temor de um retrocesso político e por isso não conseguiu tomar a medida mais certa, que era chutar Sarney para o lixo da História, dar a posse ao presidente da Câmara dos Deputados e seguir os trâmites legais da redemocratização. Bem, quem estava lá naquela época sabe que essa medida que hoje parece tão simples era de uma complicação sem tamanho para aquele Brasil ainda com os coturnos às suas costas. Com Sarney, em vez de um reordenamento de qualidade armou-se no governo a máquina da corrupção e da incompetência que aí está até hoje.

Nesta segunda-feira, Sarney anunciou que não vai tentar a reeleição ao Senado. É mesmo um estraga-prazeres. Vai tirar o gostinho dos eleitores do Amapá de chutar-lhe o traseiro pelo voto, dando também ao país a satisfação de uma limpeza de forma objetiva, sem a chance dessa fuga de uma derrota certa desta vez. Sua eleição ao Senado em 2006 já foi por pouco. Por pouco não foi derrotado pela então desconhecida Cristina Almeida, do PSB. Mas o jogo foi pesado. Sarney fazia dobradinha com Lula, com quem depois deu seguimento ao usufruto do poder sem nenhum escrúpulo, um projeto de vida que se deu muito bem com a forma do PT fazer política.

A própria situação de Sarney como senador do Amapá é uma demonstração do estado de decadência ética da política brasileira e até da falta de respeito à regras básicas, tal como o político residir de fato no seu assim chamado "domicílio eleitoral". Sarney nem aparece no Amapá, estado onde ele já ganhou três mandatos. Em 2013 esteve apenas duas vezes na capital, Macapá. A casa onde legalmente é seu domícilio eleitoral está fechada. Nesta última segunda-feira ele esteve no estado e foi bastante vaiado numa cerimônia, ao lado da presidente Dilma Rousseff. O anúncio da sua desistência veio logo depois da notícias das vaias. É uma saída melancólica da política, mas não deixa de ser também melancólica para o Brasil, um país que não teve meios para impedir pelas vias legais e pelo voto uma carreira política tão nefasta.
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POR José Pires

Quiproquó na direita

No Facebook costuma acontecer muita confusão, mas eu nunca tinha visto um arranca-rabo como o que vem ocorrendo entre Olavo de Carvalho e parte de um pessoal em torno dele. Sua página vive lotada, no limite dos cinco mil e ele tem 65 mil seguidores. Mas sempre está abrindo alguma vaga, pois um questionamento pode levar o professor de filosofia a excluir o petulante. Esta eliminação pode ser precedida de uma bronca feia, inclusive com xingamentos.

Assim vem sendo neste novo atrito, de maior volume que os anteriores porque vem juntando gente em torno da polêmica, com um dos lados fazendo um retrospecto da tirania do mestre sobre os que o cercam. Os alvos dos ataques de Carvalho são Francisco Razzo e Gustavo Nogy, dois jovens expoentes do pensamento de direita.

O aborrecimento de Carvalho começou com uma entrevista de Razzo ao site “O Camponês”, onde se falou sobre a ampliação do espaço intelectual da direita no Brasil. Razzo citou então vários pensadores e acabou deixando de lado o nome de Olavo de Carvalho. Esta omissão causou um descontentamento entre seus admiradores, alguns deles alunos que o seguem com fanatismo. A fúria do professor veio com um post publicado por Razzo, procurando esclarecer o que disse na entrevista. O post foi linkado com entrada na página de Carvalho e daí veio todo o quiproquó.

Gustavo Nogy entrou na história apenas por ter escrito um breve post solidarizando-se com Razzo e fazendo uma rápida análise, quando afirmou que também para ele Olavo de Carvalho não era uma influência determinante. Fez isso com o maior respeito e vem afirmando sucessivamente sua grande consideração pelo papel político e intelectual de Carvalho. Mas só vem recebendo pauladas.

Olavo de Carvalho não deixa de ter razão em se aborrecer com dois jovens que fazem uma leitura equivocada até das suas próprias situações pessoais na atualidade. Razzo e Nogy estão para lançar seus primeiros livros, após um relativo sucesso na internet. Sem dúvida, não teriam esta projeção hoje em dia para expressar suas ideias se não tivesse existido o longo trabalho anterior de Carvalho na criação do espaço que se abriu para o pensamento de direita. Sua atuação foi de início numa dureza total e um isolamento intelectual suportados com uma fibra admirável. Nada contra que um jovem direitista aponte um Leo Strauss, um Allan Bloom ou até mesmo um Aristóteles como essenciais na sua formação pessoal, mas é óbvio que não foi deles e nem de quaisquer outros a conquista direta do espaço que o pensamento de direita tem atualmente no país.

Isso se deve em grande parte a Olavo de Carvalho, que apesar da ranzinzice insuperável é um dos textos de maior qualidade que já se teve no país e um pensador que trouxe questionamentos essenciais à esquerda no poder. De insuperável também são minhas divergências com suas posições políticas em muitos aspectos, a começar pelo religioso, mas na minha visão o país tem a ganhar com um espaço intelectual aberto para o pensamento de direita. O debate nacional precisa de conservadores que pensem com razoável qualidade.

O problema de Carvalho nesta polêmica foi a desproporção de sua reação em relação aos fatos. Apesar de sofrer ataques grosseiros, Nogy vem respondendo de forma rigorosa e com boa educação aos questionamentos que surgem em sua página. O professor de filosofia mantém até agora a mão pesada nos seus posts. No final, foi feito um furdunço de uma questão que poderia ser desenvolvida em um debate equilibrado. Bem, mas aí o Olavo de Carvalho não seria o Olavo de Carvalho. No entanto, o resultado disso pode ser muito ruim para seu próprio trabalho, que até aqui vem prosperando de tal forma que afeta até o poder da esquerda. Ele mesmo pode ter criado dentro da ala mais inteligente da direita brasileira um racha que nem seus adversários sonhavam.
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POR José Pires

sábado, 21 de junho de 2014

Presença inesperada

Já estava tão certa a reeleição do governador do Paraná, Beto Richa, que a opinião corrente era a da sua vitória já no primeiro turno. Sua concorrente direta vinha sendo a senadora Gleisi Hoffmann, mulher do ministro Paulo Bernardo. O casal é de muito prestígio no governo do PT, desde o primeiro mandato de Lula. Porém, os dois têm mostrado que a habilidade no aproveitamento do poder não se converte, da parte deles, em fortalecimento do projeto político que os sustenta. Ao contrário. Gleisi Hoffmann é desatenta a ponto de levar para trabalhar no Palácio do Planalto um assessor que acabou sendo preso acusado de estuprar menores. E seu marido, Paulo Bernardo, foi quem alimentou todo o crescimento vertiginoso da carreira de um pupilo que hoje em dia não vale um dólar furado: o deputado André Vargas.

Com adversários desse feitio, Beto Richa já estava crente que passaria o cargo para ele mesmo. Até que apareceu o senador Roberto Requião para estragar o passeio do tucano. Ele será candidato a governador pelo PMDB. Com este fato novo, já se fala que o segundo turno é inevitável. Pois eu digo que Richa pode até perder para Requião, caso não conserte com urgência os erros que vêm cometendo. E deixe de cometer novos, é claro. Um grave engano foi a confiança excessiva nos líderes peemedebistas que aliciou com cargos no governo. O PMDB já era dado como fechado com a reeleição do governador.

A vitória de Requião no PMDB foi uma surpresa que serve inclusive como forte impulso emocional à sua candidatura. O toque de garra é de um peso que ajuda muito em política e Requião já mostrou que tem pique para sustentar um ritmo desses até o fim. O cara é fogo. Com certeza ele vai trazer à disputa um teor crítico que Richa terá de ser muito hábil para enfrentar sem borrar sua imagem de bom moço.

Requião tem uma personalidade terrível e não é de hoje. Vou contar uma história dele, dos anos 70, extraída do livro “Como se fiz por si mesmo”, obra-prima memorialística de Jamil Snege, escritor curitibano que apesar de ter sido sempre pouco notado é um dos maiores do país. Snege perdeu muito tempo trabalhando em publicidade. Ele mesmo dizia isso no final da vida, que acabou pra ele em maio de 2003. Foi também marqueteiro político, quando fez várias campanhas para Requião. Vamos a um trecho que extraí do livro dele, “datilografado” à antiga.

“O que Roberto Requião fazia nos inícios de 70? Guerrilha, revolução armada, sublevação das massas. Porra nenhuma. Chegava em minha casa geralmente no sábado, com a mulher Maristela, sentava-se num sofá xadrez e até uma, duas da madrugada, entretinha a platéia com casos do mais irreverente e cáustico humor. Findo o repertório, escolhia uma vítima entre os presentes e torturava-a até a morte, a menos que alguém o interrompesse com um prato de spaghetti à matricciana.”

Este é o Requião. E o Paraná inteiro sabe que nesses últimos quarenta anos ele piorou bastante. O Beto Richa que se prepare. O spaghetti à matricciana virá só depois da eleição.
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Por José Pires

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Cofres fechados para a oposição

O Paraná é um dos estados brasileiros que sofre o descaso federal um tanto a mais que os outros porque tem um governador de oposição, o tucano Beto Richa. Em Brasília, o governo do PT fecha o cofre depois de levar embora os impostos dos paranaenses. Não cede nem nas questões básicas. Com a sórdida manipulação deixam o estado em situação muito ruim, para então aparecer uma ajuda vinda pelas mãos de um político petista. Quem faz isso é a senadora Gleisi Hoffmann, candidata ao governo estadual e mulher do ministro Paulo Bernardo, chefe absoluto do partido no Paraná.

Dinheiro dos paranaenses só volta ao estado dessa forma, com o clientelismo que o PT tornou uma política de Estado. Gleisi Hoffmann vive rodando pelo interior entregando ambulâncias, tratores e outro tipo de benefício para os prefeitos. É uma indignidade. Usam o dinheiro público como se fosse uma bondade pessoal. Até há pouco tempo a senadora fazia isso na companhia do deputado André Vargas, antes de ele virar persona non grata entre seus ingratos companheiros.

O plano petista é óbvio. Fazer do Paraná uma terra arrasada. Movidos pela ambição, para eles os meios justificam os fins, que é sempre mais e mais poder. Dessa forma criam o cenário ideal para o marqueteiro de campanha trabalhar. Mas tem ocasião que a situação fica feia demais, o que cria uma urgência na encenação pública de caridade. Talvez pela pressa ou mesmo por um ato falho, a impressão que passam é a do deboche. O Paraná vem sendo castigado com chuvas pesadas que causaram muitos estragos. Então, na semana passada, Gleisi levou ao governador uma ajuda em recursos federais: R$ 140 mil. Mesmo na desgraça, os paranaenses não tiveram como não rir.

Como pegou muito mal, os petistas trouxeram a presidente Dilma Rousseff para fazer o papel de caritativa governante. É claro que ela tinha ao lado a senadora Gleisi Hoffmann. Em União da Vitória, palco da cerimônia de adjutório, Dilma disse que o Exército tem “bote de fibra ótica” para ajudar o Paraná. A presidente é assim, sempre dando trabalho aos humoristas que a imitam. É uma labuta dura criar uma cópia mais engraçada que a original. E essa acaba sendo a serventia dela hoje em dia. Dilma desopila o fígado dos sofridos brasileiros.
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Por José Pires

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Imagem- A presidente Dilma com Gleisi Hoffmann e o ex-companheiro André Vargas nos tempos em que formavam o trio que fazia de conta que ajudava os paranaenses. Hoje restou só a dupla Dilma e Gleisi.

quarta-feira, 18 de junho de 2014


terça-feira, 17 de junho de 2014

Chico César afinado com a grosseria do PT

O cantor Chico César andava sumido. Eu sabia que ele havia voltado à sua terra natal, a Paraíba, onde virou secretário estadual da cultura. Antes havia sido presidente da Fundação Cultural da capital, João Pessoa. Agora há pouco soube de seu atual paradeiro: entrou na onda do PT de desqualificar quem discorda do governo. Ele fez um texto — que parece uma letra de música — sobre as vaias recebidas pela presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo. Deve ser a inspiração mais bizarra que já existiu na MPB. O conteúdo é igualmente fora dos eixos. O cantor embarca na onda marqueteira do PT, que tenta fazer do episódio um embate de classes e racial.

Atolados na lama de uma governo que não anda pra frente, os petistas tentam fazer Dilma de vítima. Não vem dando certo, até pela desproporção entre o fato e o barulho que fazem. Até aí nenhuma surpresa. No PT esta hipocrisia é uma marca histórica. Mas a entrada em cena de Chico César é lamentável. E não é por ele estar num lado que eu julgo errado, nada disso. Fazer letra pra uma reles jogada partidária e eleitoral diminui qualquer artista, independente do partido que possa ser favorecido.

Do tema esdrúxulo, Chico César extraiu um equívoco, nem vou dizer artístico — que não dá para tanto. O problema é moral. Também para ele os torcedores que vaiaram Dilma são da "elite". Os petistas vêm falando em "elite branca", desqualificação indecente e racista que aponta um caminho inclusive perigoso na política.Quem vaiou Dilma, ele escreve, mora "em condomínio fechado". Este é o nível. O PT aposta o tempo todo na divisão entre os brasileiros e este é um de seus piores defeitos. Mas o que é que deu no Chico César de meter isso na sua carreira artística? É tão pesado que atinge até parte considerável de seu público. Mas a rede governista de sites e blogs sujos está adorando.

Seu ataque chega a ser indecente. Ele diz que "os vaiantes sentem-se frustrados na falta de desastres". Se não fosse uma canalhice, isso seria para rir. É uma grosseria com quem vem alertando para os riscos de uma Copa do Mundo mal organizada, com estádios e acomodações feitas às pressas. E chega a ser idiota afirmar que a falta de um desastre pode causar frustração. Ninguém é burro igual petista da época em que o PT era da oposição do quanto pior melhor. Com os torcedores que vaiaram Dilma a acusação é ainda mais cretina. Como é que alguém que vai a um estádio pode querer que aconteça um desastre exatamente no lugar onde está? Para não sair frustrado por não ter visto uma pilastra cair na cabeça de um filho ou amigo, seu Chico César?

A letra sobre as vaias segue neste mesmo tom de baixo nível. Publico abaixo na íntegra para vocês sentirem o drama. Chico César já fez campanha para o Lula e também para Dilma Rousseff. Discordaria dele mesmo se o apoio tivesse sido aos adversários tucanos, Geraldo Alckmin e Serra. Não acho que artista deva se engajar em campanha eleitoral alguma e vejo esta excessiva partidarização da arte no Brasil como outro dos defeitos do PT. É política partidária demais dividindo os brasileiros. Mas cada um faz o que quer, é claro. Até mesmo este ataque rasteiro a quem não participa da claque governista.
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Por José Pires

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O TEXTO DE CHICO CÉSAR

chegam antes
vão antes de van
com seus seus ingressos vips

os vaiantes não querem saber
se há crianças na sala de casa vendo tv
eles pegaram os aviões
desceram nos aeroportos
e alguns tomaram o metrô até o estádio
finalmente concluído

tudo funcionou até ali
e os vaiantes sentem-se frustrados na falta de desastres
e felizes em agredir a mulher
muitos vaiantes são mulheres

a euforia
uma certa embriaguez até
de estar ali fazendo ola
e aparecendo no telão de led

a euforia
e uma certa embriaguez até
de pertencer ainda a um grupo
um condomínio fechado dá segurança aos vaiantes

eles precisam gritar em público e em coro aquela palavra
que evitam dizer em casa
na mesa em que se empanturram
para depois fazer dieta
ou debaixo dos lençóis com as luzes apagadas

os vaiantes
crêem que tem o direito de ser deselegantes
pois pagam impostos e muitos deles pagaram pelo ingresso
livrando-se assim de estar na fan fest com aquela gente suada
ou no cheiro de fumaça do churrasco com os vizinhos de prédio

os vaiantes vaiam
porque a copa é aqui
e eles não tiveram de pagar em prestações
as passagens para a espanha, o méxico, o japão, a frança
vaiam pois não precisam se hospedar em cinco pessoas
em quartos onde mal cabem dois

eles vaiam porque estão em casa
mas lá fora aplaudem até microfonia
e as línguas arrevesadas que não compreendem
mas são estrangeiras e deviam estar dizendo coisas interessantes
que fogem a sua ignorância

os vaiantes vaiam
pois sabem que mesmo não perdendo
o que percebem como privilégio de classe
de gente bem
tem mais gente chegando perto de ter acesso
aos mesmos bens e serviços
a seus carros
aos aviões
aos estádios
ås universidades
metrô não que metrô é coisa de gentinha no entender dos vaiantes
tem mais gente chegando perto de sua bossalidade e ignorância

os vaiantes em seu estertor espamódico
mostram-se esquizofrêncos e epilépticos morais
espumando com suas bocas tortas na tv
suas barrigas
suas chapinhas
seus stick lips para manter brilhante o botox labial

os vaiantes sentiram-se eufóricos
pois não sabem distinguir um jogo de futebol
de uma eleição que sabem que o candidato deles perderá
pois confundem um jogo de futebol
com o carro alegre da história cheia de gente contente
que os atropela ou passa ao largo de sua falta de auto-estima

a história vai
os vaiantes ficam aguardando o challenger para se espatifar no ar junto com ele
os vaiantes adoram gran finale
(chico césar)

[Copiado literalmente da página do cantor no Facebook.]

domingo, 15 de junho de 2014