domingo, 14 de abril de 2019

Um presidente fora do razoável

Paulo Guedes falou neste domingo sobre a decisão de Jair Bolsonaro de mandar a Petrobras suspender a alta de diesel nas refinarias. O ministro da Economia, que ainda está em Washington, disse que "é evidente que aparentemente já houve um efeito ruim".

Bem, “aparentemente” a Petrobras teve de imediato uma perda de 32 bilhões, além da intervenção do presidente ter quebrado a imagem de independência da empresa, estabelecida — vejam só — por Michel Temer, que havia eliminado a má-fama deixada pela ingerência no governo de Dilma Rousseff. E também "aparentemente" ficou claríssima a dificuldade de tocar um programa de ajuste nas contas, com Bolsonaro com o poder de dar a última palavra.

Mas achei bem significativa a explicação de Guedes sobre a utilidade de um episódio como este para afinar o relacionamento entre os dois. O ministro disse que é possível “consertar” se Bolsonaro “fizer alguma coisa que não seja muito razoável”.

Mas é mesmo sui generis este governo. Não me lembro de nenhuma vez ter visto um ministro falando desse jeito de um presidente, como estivesse se referindo a um adolescente não muito bom da cabeça. Acho até que isso é inédito mundialmente. Mas é bastante parecido com a opinião de boa parte dos brasileiros sobre esse sujeito que caiu na Presidência da República de uma forma inesperada até para ele.
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POR José Pires

Ministro ameaça deputada: mais uma para Bolsonaro resolver

Nunca houve nenhum governo com tantas encrencas como este de Jair Bolsonaro.  Sempre está aparecendo coisa nova, seja no governo ou no partido do presidente, o inacreditável PSL, que consegue se sobressair em sujeiras mesmo no lamaçal partidário brasileiro. Neste sábado estourou o escândalo da ameaça de morte feita pelo ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio à deputada Alê Silva, do PSL de Minas Gerais.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, a deputada afirma que o ministro fez as ameaças em reunião com correligionários, no final do mês passado. Alê Silva ja deu depoimento à Polícia Federal e pediu proteção policial contra as ameaças. Segundo ela, "é pesado" o relato que recebeu de uma testemunha das ameaças do ministro. Vejam sua versão: “Essa pessoa me disse que ele [Álvaro Antônio] falou assim: ‘Eu vou parar a minha vida para acabar com a vida dela’”.

O clima de violência é por causa do laranjal do PSL, que tem Álvaro Antônio como um dos principais acusados. Pode-se dizer que esse problema entre a deputada e o ministro é em grande parte responsabilidade de Bolsonaro, que não consegue enfrentar nenhuma questão de frente. Bolsonaro se negou a demitir o ministro, quando apareceram as denúncias de sua participação em esquema para lançar candidaturas-laranjas, na campanha eleitoral do ano passado em Minas Gerais. O presidente disse que aguardaria o relatório da Polícia Federal para tomar uma decisão.

Ficou esperando até agora, quando surge um fato grave que exige um posicionamento imediato seu. Tem gente de peso ao lado da deputada ameaçada. Pelo Twitter, Janaina Paschoal exigiu a demissão do ministro. E agora, como é que fica? Para não ter sido demitido logo que surgiram as denúncias, obviamente Álvaro Antônio deve ter muito prestígio com o presidente ou alguma outra coisa que não estamos sabendo. E pelo jeito, seu protegido também não dá a mínima para a autoridade do presidente.

Mas depois dessa notícia ficou difícil para Bolsonaro mantê-lo no cargo. Além do pedido público de Janaina, o assunto toca em algo que politicamente sempre foi um problema na carreira do presidente, que é a relação política com as mulheres. Seja como for, o desfecho será no seu estilo, em decisão que só acontece depois de dar um tempo para que o problema piore bastante.
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POR José Pires

Bolsonaro, o perdoador do Holocausto

Quem será que anda conversando com o presidente Jair Bolsonaro sobre a cultura do povo judeu? Como ele anda se metendo em assuntos do Oriente Médio é preciso melhorar seus conhecimentos na área. Do jeito que está, ainda vai dar problema. Agora ele veio com a afirmação de que é possível perdoar o Holocausto, mas não esquecer. Me senti na obrigação de verificar se era mesmo verdade, afinal a frase é absurda até mesmo para um sujeito sem noção como o presidente.

Bem, tem até um vídeo como registro, onde ele até destaca sua autoria. Parece que ele tem orgulho da sacada. “E é minha esta frase”, ele ressalta depois de dizer a bobagem. Ora, como é possível que alguém possa acreditar que pode-se perdoar um genocídio organizado, que resultou em seis milhões de mortos e que tinha como objetivo a eliminação total dos judeus? Bolsonaro acredita nisso. Ele acha que é possível perdoar esta mortandade em massa.

O povo judeu com certeza não acredita nisso. Tanto é assim, que o Holocausto tornou-se uma questão central da identidade judaica, com um esforço histórico pela punição de criminosos nazistas, inclusive com o sequestro de nazistas refugiados em outros países, como ocorreu com Otto Adolf Eichmann, capturado em 1960 na Argentina pelo Mossad. Não teve perdão. O criminoso foi julgado e enforcado em Israel.

O julgamento foi acompanhado pela filósofa Hannah Arendt, que depois escreveu o livro “Eichmann em Jerusalém”, onde temos o famoso conceito sobre a “banalidade do mal”. Como Olavo de Carvalho anda dizendo que Bolsonaro é um aplicado leitor, agora com o presidente envolvido em temas judaicos talvez fosse interessante aconselhar sua leitura.

Bolsonaro tem que tomar cuidado, pois se o seu governo não for bem, pode haver a a redenção dos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff. No quesito de bobagens proferidas por um presidente, esses primeiros meses demonstram que é grande o risco inclusive do brasileiro esquecer as idiotices ditas por Dilma, diminuídas por este novo campeão em dar bola fora que agora despacha no Palácio do Planalto.
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POR José Pires

sexta-feira, 12 de abril de 2019

A proposta ultraliberal de Paulo Guedes com problema de combustível

O ministro da Economia, Paulo Guedes, se negou a comentar a revogação do aumento do preço do diesel pela Petrobras, por ordem de Jair Bolsonaro. Guedes está em Washington e passou “o dia todo trabalhando”, como ele disse ao tentar  evitar falar sobre o chefe fazendo controle artificial de preços no Brasil. As notícias são de que o ministro aparentava irritação, normal para o Guedes, mas qualquer um no lugar dele não estaria gostando nada do que aconteceu.

Uma ponto essencial da pauta de sua viagem é exatamente tranquilizar o chamado mercado, com a garantia de que a cargo dele está em curso uma agenda liberal na economia do Brasil. Não é preciso ser um especialista para saber que uma ordem do Palácio do Planalto mandando a Petrobras recuar em um aumento de combustíveis nada tem a ver com essa doutrina.

O porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros deu a entender nesta sexta-feira que Bolsonaro não avisou Guedes da sua intervenção. É uma pena, pois a atitude fez a Bolsa balançar, com a Petrobrás desabando em 5 pontos. Sempre é uma chance de ganhar um troco, como Guedes sabe melhor do que nós. Ontem, em Washington, o ministro já havia dito algo que parece mostrar que está difícil a liga com o presidente. Ele disse o seguinte: “Bolsonaro está apaixonado pela reforma? Claro que não, mas entende que é importante”.

Ah, bom. Mas de qualquer forma parece ser uma situação difícil esta, de um presidente ainda não totalmente convencido sobre um projeto do governo dele mesmo, que já está correndo no Congresso Nacional. Outra declaração do ministro sobre o mesmo tema pode ser vista como um esclarecimento a mais sobre a questão. “Políticos espertos não querem a reforma para discutir a um ano de eleição municipal”, ele disse.

Não vou dizer que é uma indireta para o chefe, mas a verdade é que o único raciocínio de Bolsonaro sempre foi o do ganho político imediato. Há décadas ele vive disso, do mesmo modo que a vida de Guedes sempre foi faturando no mercado de capitais. É uma questão de objetivos.

Bolsonaro não tem como objetivo a conquista do mundo e do coração dos brasileiros com uma plataforma política liberal em economia. Além de que deve ter gente piando na sua cabeça que não é por esta via que seu perfil se encaixa. E não se pode dizer que falte traquejo político a quem afirme tal coisa. Imaginem o Brasil dando certo e encontrando um caminho de razoável equilíbrio com as idéias liberais de Guedes.

Raciocinemos com o sucesso da coisa. Num desenlace desses, quem vocês acham que estaria muito forte para disputar o governo em 2022? Podem apostar que é provável que o clima político fique mais favorável ao formulador da milagrosa receita do que para uma reeleição.

No entanto, especulações políticas de longo prazo dependem do ovo, por ora dentro da galinha. Não são poucos os que acreditam que essa reforma da Previdência já gorou. O ministro Onyx Lorenzoni tem que aparentar otimismo. Ele acha que até julho ela está aprovada na Câmara. A liderança do DEM na Câmara pensa diferente: a conclusão só será concluída na primeira semana de dezembro e isso no melhor dos cenários.

Como se vê, pode ser que a reforma salte para 2020, ano eleitoral. Seria uma condição exemplar, pois nada melhor que os políticos trabalhem sobre a Previdência da população e ao mesmo tempo busquem a conquista da confiança do eleitor nas eleições municipais. O Guedes é que não vai gostar. Até porque ficaria ainda mais difícil fazer o Bolsonaro se apaixonar pela proposta.
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POR José Pires

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Maria do Rosário versus Danilo Gentili: a petista ataca de novo em favor do adversário

Danilo Gentili foi condenado à prisão por ofender a deputada Maria do Rosário. O objeto da ação é um vídeo no qual ele rasga uma notificação da Câmara dos Deputados e esfrega os pedaços de papel dentro das calças. Cabe recurso. A encenação é grotesca, mas o sentido de crítica e humor de Gentili sempre foi esse. Foi também o que se estabeleceu de forma destacada nos últimos tempos como linguagem, nesta era em que parece haver uma competição sobre quem pode ser mais grosseiro para emplacar popularidade nas redes sociais.

No entanto, cabe apontar que a notificação de Maria do Rosário que Gentili enfiou na cueca era para processá-lo por uma piada, uma das tantas que não só ele, mas outros comediantes e youtubers fazem hoje em dia com políticos de qualquer posição, inclusive na zoação de direitistas como o presidente Jair Bolsonaro. Sempre mal-humorada, a deputada petista não achou graça e ainda acreditou que poderia intimidá-lo.

Com essa condenação absurda, Maria do Rosário segue na sua tarefa histórica de fabricar falsos mitos com suas contraposições sem nenhum senso estratégico nem sequer tático, independente dela ter ou não razão. O problema é que a deputada petista não tem senso de medida nem sabe avaliar o risco dos efeitos contrários à sua disposição em levar a melhor em qualquer situação. Isso é próprio da turma do PT, como se viu na balbúrdia de sua bancada no Senado durante o processo de impeachment, na louca estratégia de defesa que serviu para acelerar a queda de Dilma Rousseff.

Foi também dessa forma que Maria do Rosário deu início ao processo de crescimento do prestígio de Jair Bolsonaro, com aquela discussão estúpida em 2003, quando interrompeu uma entrevista do então deputado do baixo clero chamando-o de estuprador. Houve o grosseiro revide dele. E o resto é História. Desse vídeo, seguiu-se uma movimentação política e de comunicação que alavancou o prestígio de Bolsonaro até chegar à sua eleição para presidente da República.

O efeito dessa ação agora da deputada petista é o de fazer de um apresentador de um programa de entrevistas e humorista de qualidade discutível um paladino da defesa da liberdade de expressão. Não dá para prever que um dia ele possa alcançar a Presidência da República, embora seja difícil supor que possa ser pior do que Bolsonaro como presidente. Mas o fato é que com o destaque dado a Gentili por esta ameaça de prisão, Maria do Rosário repete o feito de conceder a um adversário mais mérito do que ele merece.
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POR José Pires


Olavo de Carvalho e o fiasco de seus olavetes

Olavo de Carvalho deu uma entrevista a Pedro Bial, em seu programa “Conversa com Bial”, na TV Globo. É uma repetição das suas explicações sobre os rolos em que se meteu depois de fazer indicações de nomes para o governo de Jair Bolsonaro, exatamente para ministérios que até agora criaram as maiores complicações. O pior caso é o do Ministério da Educação, onde o indicado de Olavo, Ricardo Vélez Rodríguez, foi incapaz de desenvolver a gestão básica do ministério, comprometido em sua eficiência por inéditas confusões que envolveram disputa política, com o professor de filosofia por detrás, atuando agressivamente nos bastidores, da sua casa na Virgínia, nos Estados Unidos.

Desde que começou o conflito, no qual teve vários discípulos demitidos do ministério em meio a bate-bocas violentos, Olavo vem procurando se desvencilhar de obrigações políticas com o desastre provocado em uma das pastas mais importantes do país e de especial relação com antigas preocupações suas. Já faz tempo que o professor acusa a esquerda pelo desmantelamento do ensino no Brasil. O problema é que agora, com a chance de influenciar positivamente nesta área, Olavo demonstrou que na prática nada tem a contribuir. Duvido que se saiba de qualquer proposta para a Educação ou de qualidade na gestão, mesmo que da maior simplicidade, que Olavo tenha trazido durante a confusão desde que esse governo começou.

O velho professor, que durante anos batalhou para ser reconhecido como “filósofo”, mostrou que mal consegue ter propostas práticas para que a Educação se encaminhe por um rumo melhor no país, o que desmoraliza também seu papel como educador ou ao menos na credibilidade como crítico do que vinha sendo feito até agora. Sem dúvida, é baixa a qualidade do que a esquerda fez no poder, mas o que Olavo vem mostrando é muito pior. Ele também se desmoralizou como estrategista político, envolvendo-se em conflitos menores, com uma constrangedora dificuldade em colaborar para que as coisas andem no governo que tem seu apoio. Ao contrário, com Olavo ao lado um governo nem precisa ter oposição. Imaginem um professor que em vez de estar à frente do processo, colocando equilíbrio na cabeça da moçada e dando instrução à classe, se junta à bagunça dos piores alunos no fundo da sala: este é o Olavo que foi exposto publicamente depois que ele alcançou fama nacional.

Para justificar o desastre no qual está envolvido, na entrevista com Bial ele traz uma conceituação nova, para se juntar à maçaroca política em que ele é o maior embolador em dezenas de posts diários de sua página de Facebook, que parece escrita não por um professor, mas por um moleque mal educado, um “idiota político”, como Olavo gosta de classificar qualquer um que toma como inimigo. Segundo o que ele diz, na substituição de Vélez Rodríguez por Abraham Weintraub, “conseguiram trocar um pseudo olavete por um verdadeiro olavete”. Olavete é um termo pejorativo criado para identificar discípulos fanatizados do professor, depois adotado por seus próprios alunos e agora também por ele, com indisfarçado orgulho pelo apelido idiota.

Como se vê, existem categorias entre os olavetes, mas é claro que o “verdadeiro olavete” só terá prestígio enquanto seguir estritamente as ordens vindas da Virgínia e respeitar o ritual de adoração semanal no COF, o cursinho de filosofia à distância que Olavo professa desde a longínqua Virgínia. Por enquanto apenas em início do serviço, o ministro Wientraub recebe selo de qualidade como “verdadeiro olavete” do proprietário do cursinho de filosofia. Mas qualquer contradição que aparecer — sendo mais grave quando em contraposição ao professor — fará o novo ministro da Educação ser jogado às feras do fundo da classe, que estimulados na feroz bagunça por Olavo praticam a chamada destruição de reputação com as mãos mais pesadas das redes sociais.
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POR José Pires

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Bolsonaro: sem dias de governo

Jair Bolsonaro cancelou na úlrima hora o pronunciamento em rede nacional de rádio e TV sobre os 100 dias de seu governo. O discurso estava escrito e a transmissão havia sido programada pela EBC.

Na data praticamente protocolar de todo governo ele recua de falar de seus 100 dias de governo. Mas também pudera: os cem dias desse governo estão mais para sem dias de governo.
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POR José Pires

Vélez Rodríguez, o ministro que desviava a atenção da incapacidade dos colegas

Ricardo Vélez Rodríguez vai fazer falta. Calma, ele fará falta aos demais ministros do governo Bolsonaro, já que era um tremendo imã da negatividade, atraindo quase toda a atenção dos brasileiros com a enormidade de confusões durante a sua, digamos, gestão.

Vélez Rodríguez era de fato muito ruim de serviço, mas a maioria dos ministros de Bolsonaro também não é grande coisa. Uma das consequências do monte de burrada feitas por ele foi que o restante dos ministros teve tranquilidade para fazer suas burradas sem que ninguém prestasse tanta atenção. Imaginem o que não corre por todos esses ministérios, onde a qualidade de comando é quase a mesma de um Vélez Rodríguez e em muitos casos de nível até mais baixo.

Enquanto esteve à frente do Ministério da Educação, por exemplo, Vélez Rodríguez evitou que houvesse mais atenção ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que não é apenas um alucinado que não fala coisa com coisa. Araújo também tem dificuldades terríveis para se expressar. Experimentem ver um trecho de qualquer vídeo onde ele aparece. O chanceler parece ter um problema sério de cognição. Alguém acha que pode sair grande coisa de um chanceler que não consegue falar meia dúzia de frases sem se enrolar todo?

E nesta terça-feira, Vélez Rodríguez fez falta para a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, deputada licenciada do DEM e fazendeira. Durante depoimento em uma comissão na Câmara dos Deputados ela afirmou que os brasileiros não passam muita fome porque têm "manga nas cidades". Sim, ela disse esse absurdo, que até traz a lembrança daquela presidente que saudava a mandioca.

Com a falta do Vélez Rodríguez, a idiotice da ministra da Agricultura teve destaque. Vejam sua fala: "Agricultura para países que tiveram guerra, que passaram fome, é questão de segurança nacional. Nós nunca tivemos guerra, nós não passamos muita fome porque temos manga nas nossas cidades, nós temos um clima tropical”.

O que será que uma figura que pensa esse tipo de cretinice estará fazendo em seu ministério? Não me refiro à defesa de privilégios de ricos donos de terras, da anulação de multas e repetidas anistias de dívidas com bancos públicos, além de tantos outros benefícios dados com facilidade, governo atrás de governo, que isso para isso a habilidade desse pessoal dá conta.

Estou falando em políticas efetivas de produção agropecuária e de alimentos saudáveis para os brasileiros, do progresso e aumento de ganhos sem tirar os lucros do esgotamento dos nossos recursos naturais e da qualidade do meio ambiente. Duvido que a ministra da manga que mata a fome do brasileiro tenha alguma diferença de um Vélez Rodríguez quanto às exigências de trabalhar pelo país e não só pelo interesse de magnatas do campo e da cidade.
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POR José Pires

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Muito além do jardim para Jair Bolsonaro

Na semana passada, Jair Bolsonaro veio de novo com mais uma de suas falas constrangedoras, quando procura justificar algo e acaba expondo de forma brutal seu despreparo. Em discurso na inauguração de uma ouvidoria do governo federal, ele disse que “não nasceu para ser presidente” e que o cargo é “só problemas”. Falando sobre o desconforto com as obrigações do cargo, ele veio com essa: “Não me sobe à cabeça o fato de ser presidente. Eu me pergunto, eu olho para Deus e falo: O que eu fiz para merecer isso? É só problema, mas temos como ir em frente, temos como mudar o Brasil”.

A situação desse político atordoado, às voltas com as obrigações de um cargo muito além de sua capacidade lembra bastante a figura de Mr. Chance, personagem de um filme que as novas gerações desconhecem. Todo mundo devia assistir esta obra-prima, mais que pertinente ao que vivemos nos dias de hoje. O filme é “Being there” ou “Muito além do jardim”. O protagonista ficou por conta de Peter Sellers, espantosamente perfeito no papel, como acontece em todos os filmes em que aparece. É uma comédia que exige na construção da personagem central muita capacidade técnica de atuação. Mr. Chance tem que ser convincente, embora tudo o que ele diz e propõe seja próprio de um homem que passou toda a vida isolado da realidade. O desafio resolvido de forma muito hábil pelo grande ator é que embora dizendo os maiores absurdos, o protagonista não pode ser tomado como um idiota qualquer.

O filme é extraído de um livro excelente, de um dos escritores mais singulares que já existiu, o polonês Jerzy Kosinski, que viveu nos Estados Unidos. Foi dirigido por Hal Ashby. O roteiro é também de Kosinski, inteiramente perfeito, especialmente na construção de Mr. Chance, que na obra escrita é de uma síntese primorosa. Editado no Brasil, aqui é atualmente uma raridade. Kosisnki tem outros livros muito bons, impossíveis de serem encontrados neste deserto cultural que virou o Brasil.

Mr. Chance é um homem totalmente ingênuo. Passou toda a vida como jardineiro em uma mansão, onde seu único contato com o mundo era pelo que via na televisão. Viveu isolado desde a infância neste lugar cercado por muros altos, até que seu patrão morre e ele é obrigado a deixar a casa. Depois de ser atropelado por um magnata passa a ter contato com industriais e dirigentes políticos. A partir daí, tudo o que ele diz vai sendo interpretado como declarações geniais e propostas políticas de grande poder de resolução. Acontece que ele apenas repete em outros contextos o que passou a vida assistindo na televisão. E mesmo quando Mr. Chance fica calado por não compreender o que lhe pedem, alguém encontra uma compreensão que se encaixa de forma esclarecedora em seu silêncio. O livro é uma crítica profunda à falta de qualidade da comunicação de massa. Trata também do vazio intelectual da política. É uma visão pioneira, pois o filme é de 1979.

Na política, Bolsonaro é o próprio Mr. Chance, com a ressalva de que, ao contrário desta personagem de ficção, nosso presidente é altamente ambicioso e sem nenhum escrúpulo em se dar bem, aproveitando as chances que aparecem. Outra diferença muito grande é que as facilidades de Bolsonaro como Mr. Chance se esgotaram com sua eleição. Até ser eleito ele podia dizer as maiores barbaridades, sem que houvesse a obrigação de ter que mostrar o funcionamento na prática. O que temos agora, neste desconsolo e no visível apavoramento do presidente é o segundo episódio de Mr. Chance, que é claro que o filme não teve. Porém, a vida real segue implacável.

Do mesmo modo que acontece no filme com Mr. Chance, até a eleição de Bolsonaro, cada declaração estúpida que ele dava — e foram tantas! — era logo interpretada como uma resposta objetiva a determinado problema brasileiro. Claro que houve também um esperto aproveitamento político, mas a verdade é que era de forma natural que Bolsonaro ia encaixando suas grosserias. Desse modo, ele acabou sendo visto como um sério demolidor do politicamente correto, implacável com os bandidos da política e também do crime comum, o homem que iria colocar o país numa era de equilíbrio moral e político. O candidato de uma direita tosca foi amoldado ao sonho conservador do fim do aparelhamento das instituições públicas e do desmascaramento do discurso esquerdista da proteção de minorias, eliminando de uma tacada esta ferramenta perigosa da instituição do comunismo em nosso país.

Claro que o que era atacado com grosserias e propostas simplórias por Bolsonaro tinha solidez real, como o que também ocorria com as questões resolvidas por Mr. Chance apenas com uma frase. Cabe fazer um paralelo entre ambos no prestígio alcançado sem exame algum dos problemas, apenas pelo entusiasmo popular produzido por comentários estúpidos. Porém, as semelhanças terminam quando Bolsonaro é obrigado a enfrentar a obrigação pessoal de demonstrar na prática o funcionamento de sua visão muito simples para a solução de complexos problemas nacionais. É neste segundo episódio do nosso Mr. Chance que estamos há um pouco mais de três meses. E até que não levou tanto tempo assim para os brasileiros perceberem que se enganaram com alguém que foi suficientemente estúpido para não medir as conseqüências de chegar a um cargo executivo de tanta responsabilidade, munido apenas de suas concepções do baixo clero da política.

Como eu disse, não houve um segundo episódio para Mr. Chance — quase escrevia “Mr. Chance real”. Na discussão crítica proposta no filme o protagonista idiota não assume responsabilidade direta por nenhuma de suas opiniões. Não é o caso de Bolsonaro, como os brasileiros assistem com um espanto que se aproxima cada vez mais do horror, até porque não dá para se entregar ao riso, já que nesta comédia grotesca não estamos no papel de platéia. É no palco que o nosso destino permanece ligado ao político colocado quase por acaso na Presidência da República — aí sim, temos o Mr. Chance “real”. O final deste enredo ninguém sabe, mas com certeza nenhum de nós se salva, muito menos os que abriram a possibilidade deste segundo episódio real e avassalador, colocando no poder um homem totalmente inepto para a comprovação de forma prática de tudo que na realidade ele não sabia como fazer.
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POR José Pires


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Imagem- Mr. Chance do filme e o Mr. Chance da nossa realidade, agora
em um terrível segundo episódio

quinta-feira, 4 de abril de 2019

A reforma da Previdência na voz pouco hábil de Paulo Guedes

O ministro Paulo Guedes é o pior defensor de suas próprias ideias. O problema começa pelo fato dele não ter a plena compreensão sobre seu papel político. Guedes é um sujeito de maus bofes, mas de qualquer modo, mesmo alguém de personalidade autoritária pode adquirir consciência sobre a forma de agir para atingir determinados objetivos. Para isso ele teria de ter uma boa assessoria política, sendo até provável que tenha, porém o ministro não parece ser do tipo que ouve críticas e acata as necessárias correções.

Não é pelo atrito e a discussão política de contornos ideológicos que ele poderá ter sucesso no convencimento sobre a importância da sua proposta de reforma da Previdência. O que se espera dele são explicações aprofundadas sobre o que tem em vista com esta reforma, não só do conteúdo específico da proposta como também de seus efeitos e de outras ações econômicas em paralelo, no aproveitamento na economia brasileira dos benefícios de uma nova Previdência e também no suporte à aplicação prática da reforma, caso seja aprovada pelo Congresso.

Guedes deve ter em andamento em seu ministério ações desse tipo — pelo menos é o que se espera dele, que ao contrário do que se vê até agora, não é só o ministro da Previdência, mas da economia como um todo. São estas questões, mais aprofundadas e ampliadas nas ações exigidas em nossa economia, que ele deveria trazer em suas explanações, concentrando esforço mais na qualidade técnica, sem cair nas provocações de tipos como Zeca Dirceu e seus companheiros. Mesmo se tiver razão, na sua posição Guedes não tem como se beneficiar de um debate pontual com políticos adversários de suas teses ou com inimigos inconciliáveis.

Com o debate ideológico, o ministro lança-se no terreno desejado pelos adversários, além de que para isso ele não tem traquejo. Guedes não é bom orador, não atingindo nem qualidade mediana na exposição de ideias e não tem o controle dos nervos. Perde facilmente as estribeiras e acaba atingindo em bloco a classe política quando é puxado por um adversário para uma discussão, que sempre acaba em um mal-estar geral mesmo quando sua opinião é a mais razoável.

Já correm pela internet vários posts produzidos pela máquina subterrânea de comunicação do bolsonarismo, naquela forma tosca de pensar que já é um padrão dessa gente. Em todas essas mensagens de propaganda que fingem ser políticas é o Guedes que leva a melhor, “calando” os adversários, “lacrando” ou dando-se bem, conforme é o estilo desses posts ridículos que a meu ver levam os governistas à crença equivocada de que as coisas estão indo bem.

A proposta de reforma da Previdência deste governo saiu menor desta audiência de Guedes na Câmara, com a revelação de mais defeitos que qualidades, pesando bastante nesta desproporção a atuação do próprio ministro, que é um desastre como comunicador e para lidar com os políticos. No entanto, se ele seguir a onda artificial das redes sociais vai acreditar que tudo está indo às mil maravilhas. Claro que isso deve piorar ainda mais o que já não vai nada bem.
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POR José Pires

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Hitler e outros ditadores de esquerda adorados por Bolsonaro

Essa constatação extraordinária de Jair Bolsonaro de que o Nazismo foi de esquerda cria sérias suspeitas sobre seu fascínio por figuras como o ditador paraguaio Alfredo Stroessner e o ditador chileno Augusto Pinochet, ambos comprovadamente simpatizantes do regime comandado por Adolf Hitler e que submeteram seus países a práticas muito parecidas com o que foi feito pelas tropas nazistas por toda a Europa.

Stroessner esteve no poder durante 35 anos e durante este tempo o Paraguai foi refúgio seguro de líderes nazistas em fuga. Eduard Roschmann, responsável pela morte de 30 mil judeus na Letônia teve a guarida da ditadura paraguaia. E o criminoso nazista Josef Mengele, médico que usava seres humanos como cobaias para experimentos sádicos, também levou uma vida boa sob a proteção de Stroessner.

No Chile, o ditador Pinochet era amigo do alemão Paul Schaefer, médico das Forças Armadas alemãs durante a Segunda Guerra Mundia que migrou para o Chile, onde fundou com outros nazistas nos anos 60 a "Colônia Dignidade". Durante a ditadura chilena o lugar serviu como um centro clandestino de torturas da Dina — o serviço secreto e órgão de repressão política do regime. Durante todo o tempo que manteve a "Colônia Dignidade", Schaefer praticava a pedofilia com crianças da região, para cujos pais ele prometia educação gratuita.

Conforme a lógica torta de Bolsonaro, se Hitler era de esquerda, Stroessner e Pinochet teriam de ser considerados do mesmo modo. Não quero alimentar teorias conspiratórias, mas com esses ídolos comunas, será que Bolsonaro também não é de esquerda?
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POR José Pires

Paulo Guedes, o pior defensor de sua próprias ideias

O site O Antagonista conta que integrantes do Centrão pretendem interrogar com rigor o ministro Paulo Guedes na audiência desta quarta-feira na Comissão de Constituição e Justiça, na Câmara. Deputados do grupo pretendem pedir para Guedes um detalhamento da alegada economia de 1,1 trilhão de reais com a reforma da Previdência.

Com tanta animação por aí com esta reforma — que tem inclusive da parte da imprensa um apoio quase incondicional que prejudica bastante seu papel informativo — mesmo deputados e senadores contam com pouca informação objetiva e aprofundada. Na audiência recente no Senado, houve da parte de Guedes uma carência de informação técnica.

Sempre com um mau humor dos diabos, o ministro da Economia parece um politicão defendendo seu projeto. Algumas vezes faz lembrar o chefe dele. Guedes deveria ser mais técnico, até porque não estava exatamente em um ambiente com figuras que se deixariam seduzir por palavrório político. Nos debates com senadores de perfil mais técnico, ele levou a pior. Nas questões políticas teve que encarar até bate-boca, como o que teve com Katia Abreu. Por sinal, foi uma das poucas vezes em que a senadora estava certa numa àspera discussão.

Para se ter uma ideia do atraso do ministério de Guedes nesta matéria, há quase um mês o senador José Serra protocolou requerimento solicitando ao Ministério da Economia o detalhamento do cálculo sobre esta alegada economia de R$ 1,1 trilhão. Pelo visto, até agora este documento não circula entre os parlamentares. Sem os números, esta previsão nada mais é que lero de propaganda governista.

E mesmo isso não seria serviço para um sujeito mandão e com a carantonha do ministro. Caso não esteja mais bem orientado, na audiência de hoje a situação pode ser muito mais desconfortável para Guedes, já que da parte dos parlamentares da Câmara o embate é muito mais direto do que geralmente é o tratamento no Senado com autoridades convidadas.
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POR José Pires

Flavio Bolsonaro chama o Hamas pra briga

O senador Flavio Bolsonaro escreveu e depois apagou mensagem agressiva sobre o Hamas, após o grupo que controla Faixa de Gaza criticar medidas anunciadas por Jair Bolsonaro em Israel. "Quero que vocês se explodam", escreveu no Twitter o poderoso político que até o ano passado era só mais um deputado estadual do baixo clero do Rio de Janeiro.

Não sei o que é mais espantoso na família Bolsonaro, se é a insanidade ou a forma idiota como eles tratam questões muito sérias. Bem, deve ser as duas coisas. Nesta bravata com o grupo Hamas pode-se contar inclusive com o risco de violência física. No caso, o filho do presidente expõe todos os brasileiros, com muito menos riscos para ele, que conta com certeza com muitos seguranças. Além de senador, o valentão é filho do presidente.

Não é nada engraçado, mas o texto dúbio do senador cria a impressão de que ele quer que os brasileiros "se explodam". Com ele arrumando inimigos desse porte não é difícil que isso aconteça.

E creio que cabe perguntar se é mais idiota um político em sua posição publicar o post ou apagar depois — como se a eliminação amenizasse o insulto ao violento grupo palestino. Uma besteira desse tamanho exige retratação. Do jeito que está, ficou do mesmo tamanho o problema criado por este irresponsável que saiu ao pai.
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POR José Pires

quinta-feira, 28 de março de 2019

Os dissabores de Paulo Guedes no Senado

Não se deixe levar pelo engodo, caso veja por aí manifestações favoráveis a esta reforma da Previdência e elogios ao ministro Paulo Guedes — algo que com certeza ocorrerá bastante, porque apesar de atacada pelo bolsonarismo, a imprensa é favorável quase em bloco a esta reforma. Engodo pode parecer uma palavra muito forte, mas de fato é o que vem ocorrendo em torno dessa proposta de reforma. Tem os que fazem isso com má-fé e os que estão sendo empurrados pelo desespero a apoiar uma suposta tentativa de conter um problema grave que pode explodir futuramente. A questão é que desse jeito o efeito da cobertura jornalística acaba sendo parcial e pouco informativo sobre o que vem acontecendo com esta reforma e sua própria eficiência.

Um acontecimento recente, ainda desta quarta-feira, pode servir para demonstrar o que estou falando. Trata-se da presença do ministro da Economia, Paulo Guedes, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Foi um desastre e já estou vendo muita gente afirmar o contrário, numa tentativa de com isso alavancar mais a reforma. Alguém devia pegar esta audiência e fazer uma edição sintética apenas com falas do ministro. Ficaria exposta a ineficiência de Guedes na defesa de sua própria proposta, o que pessoalmente não me surpreende. Com seu surgimento na campanha de 2018 corri para me informar sobre essa figura e não vi predicados que sustentassem a fama que tentavam criar.

Paulo Guedes é um desses reformadores que caem como se fosse de paraquedas na cena política brasileira, gente sem presença alguma de qualidade na vida pública, mas que chega apontando defeitos em tudo que vinha sendo feito. Da ditadura militar para cá, passando por acontecimentos essenciais na história recente, como a luta por eleições diretas e a Constituinte, este ministro não será encontrado em momento algum. Do mesmo modo, ele é ausente do debate público brasileiro, que teve por décadas a área econômica como grande destaque. Enquanto a sociedade brasileira suava batalhando por tempos melhores, por certo Guedes estava esse tempo todo ganhando dinheiro. É um homem muito rico, E como fez fortuna em um país cuja economia foi pro buraco, francamente não posso acreditar em forças virtuosas movimentando o mercado em favor de seu espírito empreendedor.

A audiência de ontem serve para derrubar uma tese corrente, de que o andamento dessa reforma vai mal por causa do comportamento alucinado do presidente Jair Bolsonaro. Bolsonaro de fato não ajuda, mas a origem do problema é de raiz, como se costuma dizer hoje em dia. Vem do ministério de Guedes, que sofre de incapacidade política — que pode ser perdoável —, mas carece também de eficiência técnica, neste caso um defeito imperdoável de comando em alguém definido até por Bolsonaro como um “Posto Ipiranga”. Pois é bastante deficiente tecnicamente em suas explicações este ministro que propõe que uma população que, em sua maioria e por décadas, vive de pouco mais que o salário mínimo, retire mensalmente uma porção de seu salário para cuidar individualmente de sua aposentadoria.

Guedes é péssimo como orador, fala demais e percorre temas que além de não serem oportunos exigiriam capacidade de expressão que eu já disse que ele não tem. Arrogante e pretensioso, ele pretendeu por várias vezes determinar até como os senadores devem se comportar em seu próprio ambiente de trabalho. Antes da audiência ele devia ter visto alguns vídeos em que outras autoridades tentaram fazer coisa parecida. Teria apreciado o efeito entre os políticos dessa impertinência autoritária. Agora ele já sabe. Mas não acredito que vá se corrigir. Parece ser o modo como ele habitualmente trata seus subordinados. Porém, políticos eleitos têm representatividade. E isso Guedes foi obrigado a compreender, sendo repreendido pelos senadores em seu espírito de neófito na política.

A apreciação da presença de Guedes no Senado poderia se alongar, com lances engraçados e até vergonha alheia por sua incapacidade política que parece até ingenuidade, mas sei que vem da dificuldade de um caráter autoritário para obter experiência sobre o respeito ao pensamento dos outros, ainda que seja em atendimento a formalidades. Como um bom exemplo dos equívocos do ministro, puxo uma intervenção do senador tucano Tasso Jereissati, muito educado como sempre. Nem ele resistiu a fazer uma piada sobre o exagero de Guedes ao posicionar a política econômica do governo de Fernando Henrique Cardoso como “de esquerda”. Jereissati foi no ponto, brincando que, de fato, o economista Gustavo Franco é um comunista muito perigoso. E essa foi apenas uma das inverdades do ministro de Bolsonaro. Teve diversas comparações totalmente inexatas e também manipulações, como a menção à aposentadoria de parlamentares, cujos privilégios já foram corrigidos em lei. Ah, sim: a de funcionários públicos também obedecem a um teto.

A ironia de Guedes sobre aposentadorias no Congresso mereceu uma intervenção da senadora Kátia Abreu, que acabou em discussão. E o duro é que desta vez ela é que estava certa. É um erro primário acreditar que durante uma audiência no Senado alguém pode corrigir o comportamento de um senador, mas não há o que se fazer com o defeito profissional de um sujeito muito rico. Ou por sua índole, talvez. Guedes disse para a senadora — logo a quem — que ela “tem que se disciplinar”. Isso foi uma parte do feio bate-boca, quando além de ser grosseiro com Kátia Abreu (que é fogo na roupa, mas, enfim, ela é senadora e ele o convidado), o ministro ainda piorou a situação dando de dedo na plateia de senadores. Teve então, merecidamente, chamada sua atenção pela presidência da mesa.

Que me perdoem os fãs de Paulo Guedes, pelo menos os que até agora vêm sendo levados pela propaganda exagerada, mas para mim este “Posto Ipiranga” parece mais aqueles lugares encardidos de beira de estrada onde não se deve entrar para nada, muito menos para pedir informação.
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POR José Pires


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Imagem- O ministro Paulo Guedes na CAE do Senado
Foto de Jefferson Rudy, Agência Senado

quarta-feira, 27 de março de 2019

Paulo Guedes, um ministro na própria corda bamba

Em audiência na Comissão de Assuntos do Senado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, deu mais uma demonstração de que seu perfil não é exatamente o ideal para um cargo que, além de conhecimento técnico, exige abertura para o diálogo e capacidade de convencimento, o que na política demanda paciência, consideração pelas necessidades do próximo, respeito ao interesse alheio, enfim tudo que para Guedes parece não ter muita importância.

Aparentando como sempre um mau humor dos diabos, agora talvez por causa da aprovação ontem pela Câmara da chamada “PEC impositiva”, o ministro disse que se a Câmara e o Senado não quiserem suas propostas ele volta para onde sempre esteve. “Eu tenho uma vida fora daqui”, disse aos parlamentares. Vejam só, o “Posto Ipiranga” de Jair Bolsonaro é realmente um diferencial e tanto: não me lembro de um outro ministro que em reunião pública com parlamentares tenha dito que caso não queiram sua proposta ele pega o boné e dá o fora. Ah, sim, ele fez a ressalva de que não sairá na primeira derrota. Bom isso, não?

Guedes é um sujeito estressado, mas isso não é novidade. Logo que seu nome surgiu como sustentação da candidatura de Bolsonaro junto ao mercado, sendo chamado pelo próprio candidato de seu “Posto Ipiranga, vários colegas seus alertaram que ele é de difícil trato, tem personalidade autoritária e um histórico de chutar a mesa com facilidade. Em uma situação de crise extrema, como foco de exigências e também de críticas de parlamentares, alguém com essa personalidade pode estourar no momento errado ou demonstrar falta de boa vontade, o que, aliás, já vem ocorrendo.

“Eu estou aqui para servi-los. Se ninguém quiser o serviço, foi um prazer ter tentado”, foi uma das coisas que ele disse aos senadores, numa reunião preliminar, com a proposta da reforma da Previdência ainda em seus primeiros passos, sem sequer ter passado pela Comissão de Constituição e Justiça, da Câmara. Isso conversa de alguém que se coloca com pouca abertura à confrontação de ideias, ainda no início de um debate, sem ter adentrado o terreno das negociações que obrigatoriamente logo terá de ser percorrido.

Qual será o comportamento de Guedes quando a pressão esquentar de fato? Outro ponto político importante é o risco da reforma ser retalhada e emendada de uma forma que não seja do seu gosto. Ela pode também não ser aprovada, possibilidade que vem sendo mencionada por vários parlamentares e jornalistas que conhecem bem as tendências do Legislativo.

Supondo que não haja a aprovação, no cenário político criado por Guedes a decisão faria a crise econômica se acirrar. Pode ser que de fato a reforma da Previdência não seja aprovada, o que obrigaria à formulação de novas propostas econômicas, impondo ao governo Bolsonaro um caminho diferente do pretendido até aqui. Isso já aconteceu em outros governos, como, por exemplo, no de Fernando Henrique Cardoso. E aconteceu exatamente com uma reforma da Previdência, que por sinal teve o voto contrário do então deputado Bolsonaro.

Bem, quando isso ocorre, numa democracia o que resta a fazer é seguir adiante, procurando consertar o estrago da melhor forma. Talvez esteja aí uma atitude essencial para Guedes. Seria mais efetivo que ele assumisse que não é ministro da reforma da Previdência, mas da economia do país. O que não dá é um ministério de tal importância ter alguém, tão cedo, com a ameaça de que pode ir embora. Desse jeito fica parecendo que Bolsonaro vai ter que aceitar o fechamento de seu Posto Ipiranga.
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POR José Pires

De onde vem tanta angústia, presidente Bolsonaro?

Desde que Jair Bolsonaro assumiu o governo vem me chamando a atenção sua fisionomia sempre muito para baixo. O presidente transparece muita preocupação, angústia, com um peso emocional que pode-se notar na sua face. Vejam nesta foto, tirada nesta terça-feira em reunião do Conselho de Governo, em Brasília. Creio que ninguém vai discordar que não é o semblante de um político vitorioso que alcançou o poder da forma extraordinária que todos acompanharam há poucos meses.

Seu rosto parece o de alguém muito angustiado com algo além dos problemas de rotina, que bem sei que são muitos neste início de governo. No entanto, completou-se agora o primeiro trimestre de governo, tendo muito chão ainda pela frente para que um presidente possa não só consertar o que está errado, como também realizar seus projetos de governo.

A cara de Bolsonaro não revela a confiança, a firmeza e o entusiasmo de um político que ainda tem tanto tempo pela frente para suas realizações e que, enfim, está no cargo de maior importância da República. Em muitas fotos, ele parece um homem derrotado. Esta imagem que peguei como exemplo é apenas uma das tantas em que o presidente apresenta essa mesma cara angustiada, como pude ver em dezenas de outras cenas, nas mais diversas situações, algumas delas de cerimônias festivas, onde ele aparece do mesmo jeito, como alguém que guarda para si um peso que impede que ele relaxe e desfrute do poder que alcançou.

Pode ser que eu esteja errado, mas é este desconforto pessoal que as imagens passam. É tão pesado que não parece ter relação apenas com as preocupações evidentes que qualquer um teria estando à frente de um governo com tantas complicações. Além disso, como já mencionei, essa atitude angustiada é de antes do surgimento de tantos problemas.

Bolsonaro parece viver uma tensão particular, que seu semblante não consegue esconder. De qualquer modo, mesmo que não seja nada disso, é o que parece. É um cuidado que sua equipe de comunicação não está tendo com sua imagem. Essa foto, por exemplo, ainda que muito boa do ponto de vista jornalístico, nem seria divulgada por uma assessoria mais atenta.
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POR José Pires


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Imagem - Foto de Marcos Corrêa, Presidência da República