sexta-feira, 24 de abril de 2020

A saída de Sergio Moro e o fim de Bolsonaro, o presidente fake news

É a primeira vez na história da República que um ministro demite um presidente. Pois isso é o que foi feito por Sergio Moro na coletiva de imprensa desta sexta-feira sobre sua saída do Ministério da Justiça. Pelo que Moro falou, o processo de impeachment de Jair Bolsonaro já está pronto para ser encaminhado, com quase nenhuma chance dele não ter o mandato cassado.

A Bolsonaro restam as opções de encarar um processo em que será muito difícil ele não sofrer o impeachment ou renunciar ao mandato de presidente da República. A decisão seria difícil para qualquer um, mas o dilema é ainda mais complicado para um homem com o lamentável caráter de Bolsonaro.

Seja que rumo Bolsonaro tome, o Brasil será beneficiado livrando-se de um presidente que já quase no meio de seu mandato só trouxe desgraças para um país que já vinha de inúmeros prejuízos causados pelo longo período de incompetência e roubalheira dos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff.

Bolsonaro é um presidente fake news. Será lembrado como um erro lamentável que atrapalhou demais em um país com tanto para consertar. Depois de seu final, restará a todos nós brasileiros trabalhar duro para juntarmos os cacos da quebradeira causada primeiro pela esquerda e depois pela direita, nessa tarefa que parece interminável, de um povo sofrido tentando construir um país mais decente.
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POR José Pires

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A demissão de Sergio Moro e o abalo no governo Bolsonaro

O ministro Sergio Moro pediu demissão a Jair Bolsonaro. A notícia foi publicada em vários sites. O pedido de Moro ocorreu na manhã de hoje, depois do presidente comunicar ao ministro da Justiça que vai trocar a diretoria-geral da Polícia Federal, atualmente com Maurício Valeixo.

Um motivo para Bolsonaro querer tirar Valeixo é porque a PF desvendou o funcionamento da milícia digital do bolsonarismo, que tem uma sala ao lado do presidente, ocupada por um grupo de assessores, conhecido como "Gabinete do ódio". Segundo o site O Antagonista, descobriram até quem são os financiadores da milícia digital.

Moro pediu demissão do cargo e Bolsonaro está tentando reverter a decisão do ex-juiz federal da Lava Jato. Veremos o poder de convencimento de Bolsonaro, que aparentemente foi longe demais no seu despropositado autoritarismo. Seja como for, qualquer decisão de Moro leva o presidente a ter um problema sério.

Se a sua saída for evitada, estará oficializado que o governo tem um ministro com mais força política que o presidente. E se a demissão for mantida, bem, nesse caso cresce a possibilidade de Bolsonaro ter que esvaziar suas gavetas logo depois de Moro ir embora.
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POR José Pires

O fim do Posto Ipiranga chamado Paulo Guedes

Sempre que leio por aí que o chamado núcleo militar do governo de Jair Bolsonaro vai enquadrá-lo para que a condução do país siga por um melhor caminho não posso deixar de rir, às vezes perguntando quando é que afinal se dará esta equilibrada mudança e se ainda existe tempo para isso, já que o mandato desse presidente inepto já vai quase pela metade.

Bolsonaro é um homem tão desqualificado que, perto dele, qualquer pessoa destoa pela qualidade, o que favorece até os militares pegos por ele para compor um governo que já pode ser visto como o pior que este país já teve. O título é pelo conjunto de obra, sabendo-se que com Bolsonaro tudo acaba piorando, de modo que é praticamente certo que ele usará sua capacidade de estragar tudo para tornar as coisas muito piores do que já estão.

Com um ex-capitão de qualidade tão lamentável, seus colegas da oficialidade da caserna passaram a ser vistos como sumidades dotadas de admirável equilíbrio e alta capacidade de resolução, ainda que parte desses generais que Bolsonaro levou para o lado dele estejam mais para sargento de anedota.

Bem, para ter a percepção de que isso está mais para habilidade em javanês, basta observar o estado lamentável deste governo, que deve ser o que mais teve militares em altos postos, com a óbvia exceção do período militar, ainda que tenha-se que admitir que mesmo naqueles tempos ditatoriais certos setores ficaram sob a responsabilidade de lideranças civis, como é o caso da economia, que agora no governo Bolsonaro virou um assunto de guerra.

Nesta quarta-feira tivemos outra intervenção militar — com o perdão da má palavra — pelo bem do governo de Bolsonaro, desta vez em terreno bastante impróprio, atingindo a credibilidade e o prestígio do ministro Paulo Guedes, com este plano que pretende turbinar a economia com orçamento estatal a partir de grandes obras, em uma ideia que já vem acertadamente sendo comparada com o PAC dos governos de Lula e Dilma Rousseff, que deram no que todo mundo sabe: só mais contas para pagar e ainda mais desestruturação espalhada pelo país.

Outra parecença dessa joça está na fixação positivista dos nossos militares de que basta planejamento e aplicação da técnica para resolver qualquer questão. Isso lembra os planos mágicos da ditadura militar, cujos maus resultados foram se acumulando, até o General Ernesto Geisel ter a sensatez de perceber que era hora da volta para a caserna.

Não é bem uma visão militar a mais apropriada para que as coisas se resolvam na política, ainda menos na área econômica, com menos chance ainda de dar certo aplicando-se modelos que poderão não ter razão de ser no mundo pós-coronavírus, que só vislumbraremos em parte quando puder ser compreendida a situação criada por este vírus e, claro, quando sua ação mortal e demolição de hábitos e valores em grande escala estiver de fato situada como algo anterior.

Já se fala que Paulo Guedes foi atropelado pelo general Walter Braga Netto, chefe da Casa Civil colocado por Bolsonaro no comando de um plano que seria da esfera do Ministério da Economia. A ideia já veio com marca publicitária, com o nome pomposo de “Pró-Brasil”, que até lembra aquele outro slogan verde-amarelo, o inesquecível "Pra frente, Brasil!".

O lançamento foi feito sem nenhum representante da Economia. De fato a avaliação certa é de atropelamento, com a desmoralização daquele que já foi chamado pelo próprio presidente, na sua visão filosófica fundamentada em propaganda de TV, como “Posto Ipiranga”. O canetaço de Bolsonaro, apontando no general Braga a solução para os problemas econômicos criados pelo coronavírus rasura bastante o currículo de Guedes.

Colocando o orgulhoso Paulo Guedes sob a tutela de seus militares, Bolsonaro demole um símbolo fundamental da ilusão da sua governabilidade, a do ministro que sabe tudo de economia, tendo toda capacidade de dar um rumo de sucesso ao Brasil. Guedes perdeu credibilidade de um modo que prejudica a condução da economia até no plano internacional e evidentemente desarranja de vez a compreensão sobre o que deseja de fato fazer este governo.

Ao ministro da Economia é imposto também o humilhante dilema de rebaixar-se para se manter no poder ou ter a dignidade de sair logo do governo, condição aliás muito comum para qualquer um da equipe de Bolsonaro.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Bolsonaro apronta como mau militar no QG do Exército

Quem conheceu muito bem Jair Bolsonaro foi o general Ernesto Geisel, penúltimo governante do ciclo da ditadura militar e articulador da saída dos militares do poder. O poder passou dele para o general João Batista Figueiredo, que de 1979 a março de 1985 deu os toques finais da retirada. Geisel governou de 1974 a 1978, morreu em setembro de 1996.

Bolsonaro aparece rapidamente em um relato de Geisel em um livro muito bom, escrito por Maria Celina D’araújo e Celso Castro. É uma longa entrevista com o general, muito bem feita, de edição tecnicamente primorosa, com o registro de um importante relato sobre o período militar, feito por uma liderança de grande peso em nossa história recente, um homem que, como eu disse, foi quem protagonizou do lado dos militares os lances essenciais para o país ter de volta sua democracia.

Geisel afirma textualmente que Bolsonaro era um “mau militar”. O general disse isso em julho de 1993, já afastado do poder. Estava no governo o presidente Itamar Franco. Portanto, já havia transcorrido o julgamento de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Militar, sob a acusação de ter planejado explodir bombas em unidades da Vila Militar, da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no interior do Rio de Janeiro e em vários quartéis. Bolsonaro relatou seu plano para a revista Veja, alegando que procurava chamar a atenção para os baixos salários dos militares.

Bolsonaro foi absolvido em junho de 1988 em sessão secreta do STM por 8 votos a 4, em julgamento onde prevaleceu o espírito de corpo para preservá-lo. Mas houve a exigência da sua saída do Exército, o que ele fez seis meses depois. No entanto, não foi este episódio grotesco (o plano terrorista tinha até um nome estranho: “Beco sem saída”) que fez Geisel falar de Bolsonaro durante o depoimento para o livro, produzido e publicado pela Fundação Getúlio Vargas.

O general cita Bolsonaro em um momento em que comenta sobre os apelos para que ele liderasse um golpe militar, vinda de gente que o procurava pedindo a volta da ditadura militar.

Já como deputado federal, Bolsonaro era uma dessas “vivandeiras batendo nos portões dos quartéis”, conforme o próprio Geisel classifica essa corja, lembrando que era dessa forma que o general Castelo Branco os chamava quando falava dos acontecimentos anteriores ao golpe de 1964.

“Vivandeiras”, o ex-presidente explica, eram as mulheres que acompanhavam o Exército na Guerra do Paraguai. Eram as lavadeiras que ficavam perto das tropas. Neste trecho, Geisel comenta sobre militares envolvidos com política, mas exclui Bolsonaro de imediato como representante militar, dizendo que ele “é um caso completamente fora do normal”, quando diz que ele “inclusive é um mau militar”.

Como eu disse no início, foi perfeita a avaliação de Bolsonaro feita por Geisel. Neste domingo, o capitão que teve que dar o fora do Exército mostrou que continua sendo uma “vivandeira”, ao levar seu bando de histéricos fanatizados para pedirem intervenção militar na porta do Quartel General do Exército, em Brasília.

Ele inclusive saudou o bando de golpistas agarrados desonrosamente à bandeira brasileira. Bolsonaro mostrou mais uma vez que mantém-se como “mau militar”. Promoveu a manifestação golpista exatamente no Dia do Exército, colocando os militares em uma situação vexatória inclusive internacionalmente, envolvendo a imagem das Forças Armadas com a ideia de um golpe contra a democracia em plena pandemia que vem matando centenas de brasileiros todos os dias.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Bolsonaro, o presidente que não gosta de ministro que trabalha direito

Desde ontem Jair Bolsonaro vem bombando no item de busca do Google como “Pior presidente do mundo”. Nosso presidente se destaca como o pior na sua visão política do combate ao novo coronavírus. Como de costume, Bolsonaro fez tudo errado, escolhendo um caminho totalmente diferente de todos os governantes de países vitimados por este vírus que assola o mundo.

Não é pouca coisa ser o “pior presidente do mundo”, mas para a nossa desgraça bastaria que ele fosse nosso pior presidente, o que já está devidamente configurado, não só pelos seus grosseiros equívocos na guerra para evitar a contaminação em massa, com o consequente colapso do sistema sanitário, um duro combate em que o ex-capitão do Exército Brasileiro atua como quinta-coluna, sabotando o bravo esforço da população brasileira. Bem que o general Ernesto Geisel já havia afirmado que Bolsonaro era um “mau militar”. Pois agora revelou-se também um traidor do interesse coletivo do nosso país.

Para lembrar o mote daquele ex-presidente gatuno idolatrado pela esquerda, nunca antes neste país se viu algo como este mandato deplorável de Bolsonaro como presidente da República. Mas espera aí: não seria um exagero a consagração de Bolsonaro como o pior presidente, considerando os feitos de Lula e seu partido durante os quatro mandatos até Dilma Rousseff sofrer o impeachment, quando implantaram no governo brasileiro um esquema de corrupção como nunca houve em nossa história?

Não depois dessa lamentável performance de Bolsonaro durante a crise do coronavírus, quando ele definitivamente comprovou uma inacreditável incompetência, além da grosseria e até de uma desumanidade que parece provir de alguém com falta de empatia com o sofrimento do próximo. Não resta nenhuma dúvida de que Bolsonaro coloca em perigo o nosso país.

Mesmo depois que for assegurado o controle da contaminação deste vírus letal, manter este sujeito sem noção como presidente da República seria um atentado à razão, além do Brasil passar a ser considerado internacionalmente uma ridícula republiqueta, sob o comando do “pior presidente do mundo”.

Bolsonaro não consegue ser efetivo nem para o alcance de seus próprios objetivos. Ainda que na maioria dos casos suas intenções sejam politiqueiras, teoricamente bem fáceis de emplacar entre esta cada vez mais decadente classe política brasileira, o processo sempre esbarra na sua personalidade tomada por conflitos que, mais que um tratamento psicológico, parece exigir uma camisa-de-força.

O presidente é um homem gravemente perturbado por fantasmas que não cabe ao país ter sob seu cuidado, muito menos toda a sociedade civil aceitar o convívio cotidiano com os melindres de uma figura ressentida com qualquer coisa e que como chefe está fadado a se cercar de uma corte de puxa-sacos, levado por este seu defeito até risível como comandante, na constrangedora perturbação com o sucesso das ações de seus subordinados.

Bolsonaro trabalha com uma perspectiva muito simples — primeiro o que é dele e da família —, o jeito como sempre construiu sua carreira. A cantilena de “Deus acima de todos”, assim como o slogan “Brasil acima de tudo”, que virou marca de seu governo depois de ter sido arrotada incessantemente na sua campanha, tudo isso é mera propaganda política.

Na sua insensata hipocrisia, Deus pode ser trocado pelo gesto da arminha na mão, da cloroquina ou mesmo da pílula milagrosa que currava o câncer — Bolsonaro foi um dos autores do projeto que passou por cima da Anvisa, fazendo a Câmara avalizar aquela fraude. Qualquer lorota serve, se isso servir ao seu interesse imediato, perseguido de forma conturbada.

Mas ele se ressente quando vê pela frente a necessidade do trabalho duro, de perspectiva de longo prazo, sem a garantia ainda que ilusória do ganho rápido. Esta é a divergência dele com seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o trabalho da equipe do ministério no ataque ao coronavírus.

Bolsonaro é o homem dos ruídos, o que mantém o país nesta terrível dificuldade de encontrar um discurso unificado mesmo frente ao perigo de um problema dramático como a pandemia do coronavírus. Se os brasileiros não se conscientizarem de que o Brasil precisa se livrar de forma democrática deste sujeito que complica o que é de sua obrigação descomplicar, teremos sofrimentos demais pela frente, mesmo depois do país ter vencido este vírus.

Não basta achatar a curva maléfica do coronavírus. O mandato incompetente de Bolsonaro também precisa sofrer um achatamento.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

terça-feira, 14 de abril de 2020

O destaque mundial de Bolsonaro como governante isolado e desacreditado

Ontem o deputado Osmar Terra mandou um áudio pelo WhatsApp para Flávio Bolsonaro dizendo que a pandemia do novo coronavírus está “desabando”. O vídeo de quase nove minutos foi divulgado pela revista Época. Nele, Terra, que é ex-ministro de Bolsonaro, diz para o senador e filho do presidente: “A epidemia não está caindo, está desabando”.

Pois nesta terça-feira o Ministério da Saúde atualizou os números do coronavírus para 1.532 mortes. Em relação ao dia de ontem, da comemoração de Terra, foram registradas mais 204 mortes. Foi o primeiro registro de mais de duas centenas de mortes em um dia. Temos também 1.832 novos casos confirmados, saltando de 23.430 para 25.262. O aumento é de 7,8%. Levando em consideração que são números altamente subestimados, teme-se pelo pior.

Claro que se dependesse do otimismo interesseiro de tipos como o deputado Osmar Terra a situação no Brasil estaria totalmente fora de controle. O deputado é um dos que atuam contra o esforço nacional para conter a contaminação. Ele se alinha com Jair Bolsonaro, na ação deste quinta-coluna contra o isolamento social. O ex- ministro vive dizendo que a gripe H1N1 foi muito mais letal do que o coronavírus. A OMS já divulgou que o coronavírus é dez vezes mais letal, mas não adianta: Terra insiste no fake-news.

A situação não está nem um pouco tranquila, mas teria sido um desastre se tivesse prevalecido a posição do deputado, que sempre foi contrário ao isolamento social e por isso agora conta com a simpatia de Bolsonaro, depois de ter sido demitido desonrosamente do Ministério da Cidadania no mês retrasado. Com as idéias fora de lugar desse ex-ministro, imaginem como estaria hoje a imagem do governo brasileiro mundialmente.

E não é que sua imagem esteja grande coisa, mas seu desprestígio seria ainda maior. O posicionamento anti-científico frente ao coronavírus deixou o presidente numa situação de grave descrédito no plano internacional, a ponto do jornal americano Washington Post, em editorial na edição de hoje, ter colocado Bolsonaro entre os governantes de Belarus, Turcomenistão e da Nicarágua. Estes são os negacionistas que sobraram no mundo, com Bolsonaro em destaque no texto do jornal, que classifica como sendo, “de longe, o caso mais grave de má conduta”.

O Washington Post lembra que quando a infecção começou a se espalhar pelo Brasil, Bolsonaro falou do coronavírus como “uma gripezinha” e exortou os brasileiros a “enfrentar o vírus como um homem”. Claro que o presidente tomou este rumo equivocado seguindo sugestões de uma equipe de desqualificados, acatando palpites de tipos como Terra, além da filosofia sem fundamentos do guru Olavo de Carvalho, que se revelou um desastre como mentor de um presidente.

Bolsonaro poderia ter se dado razoavelmente bem, transitando por esta crise apenas fazendo o papel cerimonial do governante ocupado com o bem-estar de seus concidadãos. Bastaria ter deixado o ministro Luiz Henrique Mandetta fazer seu trabalho sem ser incomodado.

No entanto, ele resolveu se fazer de conhecedor de política sanitária, uma sumidade da infectologia, sem igual no mundo todo. Fez isso seguindo péssimos avaliadores e planejadores ainda mais incompetentes, como Olavo de Carvalho, que vivia falando do idiota político, sempre em tom crítico, mas acabou criando o maior deles, um idiota político no poder, com uma capacidade de demolição do próprio mito.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

O Brasil relaxando com o alerta ao novo coronavírus

A população brasileira começa a relaxar no isolamento social, antes da avaliação do resultado do que foi feito até agora e de qualquer planejamento para o abandono gradativo da quarentena, evidentemente se fosse esta a decisão viesse a partir de uma avaliação criteriosa feita por especialistas.

Pior ainda, este relaxamento começa a ocorrer exatamente quando todos que de fato conhecem o processo de uma epidemia dizem que a previsão para o Brasil é de que os próximos dias serão muito difíceis, com a possibilidade de um agravamento no contágio e no número de mortes. Depois de tanto empenho até agora, este abandono é até uma tolice — equivaleria a morrer na praia, sem querer fazer trocadilho.

Fiquemos com a opinião de quem conhece o assunto, um deles no comando do combate ao coronavírus no Brasil. Em entrevista ao site UOL, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi muito claro: a normalidade só deve voltar em agosto ou setembro. E o médico Jean Gorinchteyn, do Instituto Emílio Ribas, avisa que “a progressão da doença deve assumir um platô no mês de junho”. No entanto, ele esclarece que para isso acontecer não se deve “abrir as portas”, expressão dele, muito boa para alertar que não se deve relaxar a quarentena, que é exatamente o que vem acontecendo.

Gorinchteyn, que é médico infectologista e professor, é absolutamente claro sobre a conseqüência com essas portas se abrindo em todo o país para o vírus: “neste caso muita gente ficaria doente e muita gente morreria nos próximos dois meses”.

Há cerca de duas semanas eu já havia lido em vários lugares que as pessoas começavam a sair às ruas, encarando a quarentena como se fosse um período forçado de férias. Vi em páginas de Facebook o relato sobre grupos em praças, na praia, idosos reunidos para bater papo ou em volta de uma mesa com esses jogos que os mais velhos gostam.

Também andei observando nos últimos dias este relaxamento, que agora se amplia perigosamente. Eu mesmo, saindo estritamente para necessidades, tive que me proteger de perdigotos de pessoas pouco precavidas, de gente passando correndo ao meu lado em exercícios físicos e de desconhecidos que não respeitam a distância cautelar.

Claro que esta quebra prematura da quarentena vem sendo estimulada por comerciantes, industriais e a construção civil, sempre levados pelos dirigentes políticos desses setores, lideranças que no geral permanecem há décadas em um estágio pré-capitalista, de modo que não seria agora que agiriam com sensatez, embora seja espantosa esse abandono da precaução em meio à mortandade de uma pandemia que assola o mundo, desgraçando até países mais poderosos economicamente que o nosso, como Espanha, França, Itália ou mesmo os Estados Unidos, cujas populações sofrem exatamente por terem menosprezado a prevenção do isolamento, como começa a ser feito por aqui.

Fala-se demais no efeito negativo da quarentena na economia, sendo trágico como se perde com isso a oportunidade de debater o estrago da própria doença, que será muito pesado nos próprios custos médicos, com os gastos em saúde, pensões, na perda de mão de obra qualificada e tantos outros problemas econômicos centrados na própria ação do vírus e não no efeito econômico dos procedimentos para conter a contaminação.

Sou da opinião de que tenta-se impor a discussão do assunto errado, fugindo-se do objeto para a conseqüência, com uma pauta que atravessa o sentido da melhor condução para enfrentar o contágio e as mortes pelos vírus e os danos na vida do país, mas isso não é incomum em nosso país e tampouco se desenvolve pela boa-fé.

Este erro colossal do abandono da quarentena é movimentado por interesses de uma minoria que detém muito poder e dinheiro, vivendo neste estágio pré-capitalista de que falei, de uma ambição que mira o lucro no curto prazo, com muito pouca e às vezes até nenhum projeção da dificuldade de sustentação de seus ganhos imediatistas. Pelo visto encontraram um estimulante reforço no quinta-coluna Jair Bolsonaro, que atua a favor do vírus.

Não se sabe desta vez quanto será o custo se prevalecer este desatino, mas, se for quebrado de fato o isolamento, com certeza o país terá de se haver logo mais com uma conta pesada em vidas perdidas e o sofrimento humano terrível causado por uma doença que não permite nem a presença de familiares e amigos em volta do pobre do paciente e impede até os ritos fúnebres das vítimas fatais deste vírus mortal.

Não só pela dor e pelas lágrimas, vai custar bem mais que os efeitos colaterais na economia provocados pelos dias parados.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Coronavírus: aumentam as mortes e aumenta também o abandono do isolamento no Brasil

Com o contágio pelo novo coronavírus no Brasil chegando a números muito altos e as mortes alcançando seu milhar, exatamente neste ponto começa a haver um relaxamento do isolamento social. Nesta sexta-feira o Brasil terá o milésimo morto pela pandemia, evidentemente com a mortantade continuando a seguir em passos largos. Nesta semana as mortes já estavam em mais de uma centena por dia. É óbvio que a tragédia instalou-se, do mesmo modo que é muito claro que o relaxamento do isolamento dará uma dimensão ainda maior ao que já é desesperador.

O crescimento do contágio vem se acelerando, assim como as mortes. As pessoas tinham que ser confrontadas com os números desse crescimento. Esta verificação demonstra como serão os próximos dias, mesmo sendo mantido o isolamento. Os números servem também para prever como estaremos dentro de três semanas, que é o período para o agravamento até a morte dos que forem contaminados durante este relaxamento.

No dia 20 de março o Brasil tinha 11 mortos pelo Covid-19, infectados estavam em 904. Por esses dias é que começou a divulgação dos números pelo Ministério da Saúde, que dia após dia foram crescendo. Ontem estava em 17.857 os casos confirmados. Agora estamos com 19.638 casos confirmados. O número de mortes também aumentou — nesta sexta-feira o país passou da milésima morte, com 1056 vítimas. Mais 115 mortes foram confirmadas nas últimas 24 horas, um aumento de 12%. Desculpem a piada, mas este abandono do isolamento soa como uma espécie de comemoração.
Nem é preciso teorizar sobre este perigo de sair do isolamento. Aí estão os números que mostram um crescimento constante, que permite projetar o quadro dramático que se desenha para um futuro bem próximo.  Além disso, anteriormente tivemos meses para uma boa observação do que aconteceu em muitos países, desde que o vírus começou a matar na China. O vírus surgiu em dezembro de 2019 na cidade chinesa de Wuhan. O Brasil teve sua primeira vítima em 16 de março.

Primeiro na China e depois na Europa, tivemos nos outros países a observação prática de que a quarentena é o único recurso capaz de achatar a curva da contaminação para evitar o colapso do sistema sanitário. Isso foi inclusive reafirmado em Milão, depois que um relaxamento do isolamento em fevereiro causou um crescimento espantoso de mortes que até agora a Itália não conseguiu conter.

É simples assim, mas parece que mesmo sendo de tal simplicidade, a brutal realidade não entra na cabeça de parte dos brasileiros. Com um presidente desqualificado, como sempre na contramão do bom senso, este trabalho de convencimento fica ainda mais difícil. O discurso do “é só uma gripezinha” é criminoso e convincente porque acena para uma facilidade no tratamento de um grande problema. O que tem de melhor que enfrentar um vírus tomando batendo perna por aí? É disso que o brasileiro gosta.

Daí, vão-se arrumando subterfúgios para evitar encarar com seriedade o problema, que é, como todo mundo sabe, uma marca forte da nossa nacionalidade, junto com a ganância em se aproveitar dos recursos públicos. Espraia-se pelo país a capacidade engenhosa de enfrentar o novo coronavírus de forma diferente de como estão fazendo potências econômicas como França, Alemanha e tantos lugares em que os povos não têm a nossa manha, mas para ficar em apenas um exemplo, vou catar uma notícia que saiu hoje sobre a cidade paranaense de Ponta Grossa.

Um decreto municipal publicado nesta quinta-feira permite que restaurantes e lanchonetes recebam clientes a partir da próxima segunda-feira. Mas os pontagrossenses vão fazer isso seguindo regras científicas, com clientes respeitando a distância de um metro e meio nas mesas e filas para saldar a conta, que nós aqui no Brasil sabemos muito bem como enfrentar este vírus sem o alarde desnecessário que se vê na Europa e até nos Estados Unidos, em lugares como Nova York, que têm muito a aprender com Ponta Grossa e tantas outras cidades nossas, no jeitinho brasileiro de encarar o coronavírus.

Podia ser até o caso de cidades como Milão, Madri, Barcelona, Paris e até Nova York mandarem delegações para aprender no Brasil, talvez até em Ponta Grossa mesmo, como se dá essa solução mágica, mas isso com certeza terá que esperar um pouco. A embaixada da Alemanha já está pedindo que cidadãos que estejam no Brasil voltem o mais rapidamente possível para casa. O embaixador Georg Witschel fez o alerta em carta publicada nesta quinta-feira no site da embaixada.

No texto, o embaixador alemão fala da escalada de casos graves, da quantidade de mortes e afirma que teme o agravamento da situação. Ele diz ainda que os sistemas de saúde já estão sobrecarregados em alguns estados brasileiros. "É sua responsabilidade deixar o país agora e voltar para a Alemanha", escreveu Witschel. Pois é, parece que não tem jeito: esses estrangeiros são mesmos uns histéricos.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A hora é de mudar de ideia, com Keynes

John Maynard Keynes é autor de uma grande frase, muito simples como costumam ser as grandes sacadas, que é para mim uma das definições mais precisas do que é o pensamento científico e dessa atividade humana essencial na nossa existência: o ato de pensar. Keynes disse: “Quando mudam os acontecimentos, mudo de ideia”.

É interessante que este grande pensador volte a ser o ponto central da discussão sobre o que deve ser feito na condução do ataque a este sério problema do novo coronavírus que se abate sobre o mundo todo, nas ações práticas e imediatas exigidas na economia em razão de um vírus que provoca a morte e traz um efeito colateral de destruição dos chamados modos de produção e, enfim, de muita coisa que vínhamos fazendo nas últimas décadas, que a julgar pelo surgimento e rápido espalhamento do coronavírus, era uma forma de vida no mínimo muito arriscada.

Keynes foi o centro de um debate que atravessou o século 20 e entra nesse novo milênio, em questões muito parecidas, na discussão sobre a eficiência do liberalismo econômico e ainda com aquele velho fantasma — que arrasta correntes desde o século 19 — que Karl Marx e Friedrich Engels anunciaram que rondava a Europa, o fantasma do comunismo, que por sinal foi uma ideia enxotada da Europa pelo keynesianismo. Ou alguém duvida que estejam criadas as condições para que que seja reavivada esta velha solução do comunismo, tão absoluta e pretensamente científica, no cenário de terra arrasada previsto para depois do impacto avassalador dessa pandemia?

Nesses dias de desespero que ninguém ainda sabe até quando vai durar foi o liberalismo econômico que levou a maior pancada, até porque não há dúvida de que as bases para o espalhamento descontrolado do contágio foram criadas pela condução radical e totalmente sem limites desse sistema. Também se comprova que no liberalismo não há remédio econômico para tratar de imediato o paciente, daí a necessidade da mudança de ideia, em muitos casos longe de uma transformação pela inteligência, mas pela necessidade da sobrevivência, para alguns apenas na medida da circunstância política da própria carreira pessoal.

A volta de John Maynard Keynes teve que ser engolida até por Donald Trump, é verdade que com uma má-vontade de garoto adoentado forçado a tomar uma generosa colherada de óleo de fígado de bacalhau, até porque os liberais sabem que depois disso que estamos vivendo será muito complicado convencer populações inteiras a voltar ao pretensamente doce remédio de antes, de um liberalismo que desorganiza de tal forma a vida humana que em certos países, como no nosso Brasil, complica até para encontrar os desgraçados na hora da absoluta necessidade da ajuda.
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POR José Pires

Olavo de Carvalho, o mentor de Jair Bolsonaro na crise do coronavírus

Estava demorando para Olavo de Carvalho usar suas redes sociais pedindo a cabeça do ministro no ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, até que afinal ele não se conteve e passou a descer o sarrafo no ministro. Com a demora podia-se até pensar que ele poupava publicamente o ministro em razão de uma estratégia, o que não é o meu caso, pois sei muito bem que se tivesse senso estratégico o velho professor não teria ligado o conservadorismo brasileiro e sua própria imagem intelectual ao governo de um sujeito despreparado como Jair Bolsonaro.

E aproveitando que bolsonaristas são tarados por teorias conspiratórias, por que não perguntar se Olavo não seria um agente gramscista que infiltrou-se na direita brasileira para desmoralizar a própria direita e impedir que se estabeleça no Brasil um pensamento conservador inteligente e equilibrado? Mas, supondo que o guru do Bolsonaro não seja de fato um traíra esquerdista com a missão de quebrar a direita, mesmo nesse sentido o irascível mentor fez um serviço completo. Ah, isso ele fez.

Depois do maquiavélico Olavo e seu príncipe de araque Bolsonaro, por muito tempo ficará difícil aplicar no país um pensamento de direita, sendo que as agressivas trapalhadas de Olavo complicaram ainda o conservadorismo, que fica difícil de ser levado a sério depois de ter sido associado a tantas idiotices, que vão da terra plana à negação da existência da mortalidade do Covid-19 e até mesmo da existência da ditadura militar, entre outras estapafurdices, seja negando obviedades ou trazendo novidades que dão até vergonha alheia.

Então Olavo de Carvalho seria mais um desses gramscistas com suas matreirices? Desenvolvam isso, bolsonaristas, que eu sei que vocês conseguem. Ah, mais um dado: Olavo já foi do Partido Comunista e confessou em vídeo que trabalhava em missões sob as ordens da cúpula do partido.

Mas, voltando ao pedido de Olavo nas redes sociais pela cabeça do ministro Luiz Henrique Mandetta, a posição assumida por Bolsonaro em relação ao novo coronavírus é a repetição do que o velho professor vem publicando em suas redes sociais. Os filhos do presidente repetem a mesma ladainha, vinda de um sujeito que afirmou que nenhuma das mortes ocorridas no mundo foi causada pelo Covid-19.

Na sua visão muito peculiar, os procedimentos de combate ao contágio, como o isolamento social, não passam de manipulação política, sendo, ainda do jeito que ele falou, “a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana”.

“Essa epidemia simplesmente não existe”, ele disse da pandemia que assola o mundo com mais de 60 mil mortes até agora, causando perturbação até em países de alto poder econômico e capacidade científica, pela dificuldade de cessar a mortandade e para administrar as terríveis condições previstas no enfrentamento das consequências dessa dramática situação.

Bolsonaro segue mais ou menos nessa linha, um negacionista como Olavo, de modo que não dá para ter dúvida de quem vem as instruções da sua desastrosa posição como presidente da República. O presidente ficou isolado tanto no Brasil como no plano internacional, numa lição, digamos, filosófica, muito prática da diferença entre um velhaco afirmando bobagens sozinho de um escritório nas Virgínia e um líder popular fazendo o mesmo em meio a maior crise mundial depois da Segunda Guerra.

Mandetta virou alvo do ódio de Olavo por causa da recusa do ministro em obedecer as ordens insensatas de Bolsonaro. O Brasil segue aplicando o isolamento social e evidentemente acreditando que a ação letal do vírus não é ilusão criada por manipuladores. Acaba sendo um estorvo sério para o professor se impor como filósofo que haja esta recorrente negativa de um conjunto de pessoas em ajudá-lo a forçar uma disciplinada adequação da realidade às suas teorias. Ninguém colabora. Fica difícil também que ideias conservadoras ganhem respeito no país, criando, como eu já disse, horizontes de muita complicação para uma direita de uma burrice que chega a anular até seu instinto de sobrevivência.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Bolsonaro e Mandetta: a tentativa de fritura em meio ao coronavírus

Jair Bolsonaro ficou mal acostumado com as frituras de ministros, que no seu governo sempre contou com uma entusiasmada claque nas redes sociais, de tal modo alucinada em seus aplausos, que foi fazendo o carrasco perder-se na exibição da violência gratuita, na grosseria totalmente abusiva, em espetáculos fora do normal que gradativamente foram ficando excessivos, deixando de ter qualquer sentido político que não fosse o de divertir seguidores enlouquecidos.

Ele se dedicava à desmoralização pública de seus auxiliares com um sadismo deplorável e no seu prazer patológico foi perdendo o senso de oportunidade, até complicar-se ao fixar sua agressividade doentia no ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em plena crise do coronavírus. Bolsonaro não compreendeu a dramática complexidade do problema deste vírus mortal e entendeu menos ainda que politicamente o prestígio do ministro tomou uma dimensão relacionada diretamente com o peso da questão sob sua responsabilidade.

O presidente azucrinador do Brasil não compreendeu que não se frita um ministro dedicado ao ataque a um problema que envolve o mundo todo e que até o momento vem tendo um apoio unânime, até porque ninguém, a não ser Bolsonaro, seria idiota de procurar desestabilizar uma pessoa que está no comando de uma tarefa da qual depende nossa integridade física.

Ao empunhar fora de hora a frigideira, Bolsonaro ficou em uma condição politicamente perigosa. Se o presidente demite este ministro, pode ser o fim de seu mandato. Invertendo-se totalmente a posição em que planejava colocar o ministro Mandetta, Bolsonaro criou para si próprio uma cena de desenho animado: ele é o peixe que acha que pode fritar o cozinheiro.
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POR José Pires

Carlos Vereza tira o time do apoio ao governo Bolsonaro

O ator Carlos Vereza rompeu com Jair Bolsonaro nesta sexta-feira. Vereza era um apoiador entusiasmado do presidente, tendo sido um cabo-eleitoral de primeira hora da sua candidatura, mas ficou desgostoso com as ações de Bolsonaro nesta pandemia do novo coronavírus. Por causa do que Bolsonaro andou fazendo nos últimos dias, chegando até a desrespeitar publicamente o ministro Luiz Henrique Mandetta, o ator escreveu no Facebook que Bolsonaro é “irresponsável”.

“Desautorizar publicamente o ministro da Saúde por ciúmes não dá mais; tirei o time”, ele escreveu. Vereza chegou a ser cotado para trabalhar junto com Regina Duarte na Secretaria de Cultura. Deve ser uma das últimas personalidades importantes da cultura que ainda dava apoio ao governo de Bolsonaro. Sobrou mais alguém?

Bolsonaro está sempre debochando do Covid-19, que chamou de “gripezinha”, num desrespeito monstruoso às mais de 50 mil mortes em todo o mundo, 365 só no Brasil, numa mortandade que não se sabe quando vai parar. Foram registradas 60 mortes no Brasil nas últimas 24 horas. O país está com quase 10 mil contaminados e o risco do vírus obriga as pessoas a manter um afastamento dos amigos e familiares.

Atuando na sabotagem ao esforço dos brasileiros para conter o contágio e fazendo piadas com uma doença mortal, que impede até que o doente tenha a companhia de seus entes queridos, Bolsonaro acabou numa desesperadora solidão política. E seu isolamento não vai terminar depois que passar o perigo do Covid-19.
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POR José Pires

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O presidente mentiroso e o liberalismo sendo obrigado a usar receitas keynesianas

O presidente Jair Bolsonaro fez mais um pronunciamento em rede nacional, nesta segunda-feira, com uma manipulação muito feia sobre a fala de outra pessoa. Desse modo, ele repetiu a sujeira do pronunciamento anterior, também sobre a crise do novo coronavírus, quando citou fora do contexto um vídeo do médico Drauzio Varella. Fez o mesmo agora, tentando usar uma fala do presidente da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, para favorecer sua posição a favor de acabar com o isolamento social colocado em prática por prefeitos e governadores, também indicado pelo Ministério da Saúde.

Bolsonaro fez um recorte na fala do presidente da OMS, com um apelo para que governos levem em conta a população pobre na decretação de quarentenas, como se com isso Ghebreyesus estivesse sendo favorável ao isolamento vertical. No entanto, Bolsonaro não mencionou que Ghebreyesus simplesmente defendia a necessidade de dar ajuda a essas pessoas, reiterando a posição da entidade que preside, da continuidade do isolamento social.

Bolsonaro tirou do contexto a fala de uma autoridade mundial para validar suas incitações ao abandono do isolamento e a volta ao trabalho, na contramão do que todos os países atingidos pelo vírus estão fazendo para achatar a chamada curva de contaminação. Desonestamente, o presidente tentou transformar uma mensagem de solidariedade em um apoio aos seus ataques ao isolamento social. Bolsonaro criou o discurso oficial com fake news. A OMS já fez um desmentido, também oficial.

Claro que com isso ele aumenta sua rejeição internacional, dando ao Brasil a imagem de uma republiqueta comandada por um desmiolado. Bolsonaro distorceu a fala do chefe da OMS para no meio de uma pandemia. Não é qualquer presidente que faz isso em um discurso oficial.

Como eu já disse, depois de dar conta do coronavírus, os brasileiros terão de decidir se permanecem com este empecilho na presidência da República, até porque estão previstas outras crises mundiais, entre elas, a mais aterrorizadora de todas, que é a do aquecimento global. Não há fake news que recomponha o gelo nos polos da Terra, que, falando nisso, é redonda.

A crise do coronavírus exige um redirecionamento da política econômica do governo, com amparo aos mais pobres e auxílio direto aos trabalhadores informais, além de uma mudança total do padrão que o ministro Paulo Guedes queria implantar no Brasil, do desmantelamento do Estado e abertura incondicional ao mercado. Isso é exatamente o que não funciona em época de crise, como já se sabe pelo menos desde o New Deal, programa econômico implantado nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, pelo governo do presidente Franklin Delano Roosevelt, que acabou com a depressão americana, abrindo caminho para os Estados Unidos como potência econômica mundial.

O dilema deve ser muito complicado para um discípulo da Escola de Chicago, ainda mais que Paulo Guedes está entre os mais radicais, com uma visão ultraliberal de como deve ser a condução econômica de um país. A transformação imediata de Donald Trump em um keynesiano mostra o caminho que o Brasil deveria tomar, ainda mais rápido que o maior ídolo político de Bolsonaro, já que por aqui as condições materiais são bem menores que nos Estados Unidos.

Numa crise como a do coronavírus, com suas graves consequências econômicas, esfarela-se o mito do mercado como ativo transformador do progresso da humanidade. Políticos liberais estão obrigados a se amparar na ação do Estado que sirva, sem trocadilho, no mínimo como paliativo para o desespero coletivo.

Como pode-se observar na história mundial, com todo o século 20 como exemplo, nas crises o mercado costuma dar no pé, correndo de um lado para o outro procurando explorar os lugares com menor imunidade à sua sede de lucros mais facilitados. É aí que receitas como as do economista britânico John Maynard Keynes não caem nada bem ao estômago de tipos como Paulo Guedes.

Vale repetir que isso cristaliza a visão de que o liberalismo não tem mecanismos para o enfrentamento de situações que afetam com mais perigo nossa existência ou, para usar uma imagem apropriada ao momento terrível que vivemos, quando a mão invisível que cai sobre os seres humanos não é a da ilusão liberal de um arranjo mágico das forças econômicas, mas um vírus mortal que para ser contido no seu trágico extermínio de vidas humanas exige medidas que afetam pesadamente a estrutura material por onde ele passa.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

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Imagem- à direita do desorientado ministro Paulo Guedes, o economista John Maynard Keynes, que
há muitos anos falou o seguinte: “Quando mudam os acontecimentos, mudo de ideia”. Mas é claro
que para isso — e agora eu que digo — é preciso ter uma.