segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A exploração da desgraça alheia: esquerda e direita na conturbação política e cultural do país

A bolsolavista Sara Winter divulgou neste domingo em suas redes sociais o nome de uma menina de 10 anos grávida após estupro e o endereço do hospital em que foi internada para fazer um aborto autorizado pela Justiça. O procedimento foi negado por um hospital do Espírito Santo, onde ela mora, o que obrigou sua viagem para outro estado.

 

O local era mantido em sigilo até que a discípula de Olavo de Carvalho e apoiadora de Jair Bolsonaro publicou uma postagem e pediu que seus seguidores fossem ao hospital e “colocassem os joelhos no chão”. Bem, isso serve como prova de que o país precisa encarar com seriedade a necessidade de impor a lei sobre o que é postado nas redes sociais, inclusive com a criação de normas rígidas de responsabilização, que podem muito bem existir sem que seja afetado o direito à livre expressão.

 

Depois da bolsolavista expor publicamente a paciente, um grupo de manifestantes foi para a frente do hospital onde será feito o aborto legal e absolutamente necessário, afinal trata-se de uma criança engravidada depois de um estupro. Lá fizeram sua encenação rezadeira e também xingaram os médicos de assassinos.

 

Qualquer pessoa sensata sabe que o que uma mulher mais necessita nesta situação, ainda mais sendo uma criança de 10 anos, é de tranqüilidade, apoio psicológico e de afeto, mas para esse pessoal que usa religião para os piores objetivos, amai-vos uns aos outros nem pensar — o que eu até acho bom como prevenção, porque confesso que tenho dificuldade em amar quem procura manipular a religiosidade dessa forma, tipos como Silas Malafaia, aquele deputado de trejeitos estranhos, o Marco Feliciano, a ministra Damares Alves, figuras assim, que se eu souber que vão para o céu não terei dúvida em me encaminhar de imediato para o inferno.

 

Com o furdunço criado na frente do hospital pelos manifestantes que se dizem cristãos, logo apareceram por lá as feministas e claro que a confusão aumentou. Penso que criou-se exatamente o clima desejado por esta direita oportunista e bem ruim da cabeça.

 

Mas que não se diga isso a uma combativa feminista, pois certamente ela dirá que é coisa de machista, do mesmo modo que pode ser tachado de racista quem disser para um militante racialista que não tem a expectativa de um bom resultado para os direitos individuais com multidões quebrando e tocando fogo nas cidades em protesto contra policiais despreparados e violentos.

 

A cena em frente ao hospital no Recife é didática quanto ao modo de proceder para melhorar o nosso país, com o debate público devendo ocupar um espaço importante no, digamos, aprimoramento democrático. Manifestantes postos de joelho e xingando profissionais da medicina a pedido de uma mulher obviamente desestabilizada psicologicamente são, em grande parte, a consequência do que a esquerda criou em um passado recente.

 

Cabe recordar, entre outros atropelos da razão, que não faltaram agressões morais a médicos em episódios protagonizados pela esquerda, em governo do PT, quando médicos cubanos explorados indignamente pelo regime castrista e pelo petismo eram aureolados como santos e a classe médica brasileira foi tratada como bandida.

 

Invertam-se os tempos e se entenderá melhor o que estou dizendo. Faz pouco tempo que esta doida da Sara Winter estava do outro lado, como manifestante, em situações muito parecidas com esta da criança estuprada, quando a atual militante bolsolavista atuava a favor do aborto no grupo feminista Femen, cujas ações são tão lamentáveis e partilham da mesma irresponsabilidade e falta de respeito desse grupo que se diz cristão. Naquele seu papel como esquerdista, a atual militante de direita participava de manifestações agressivas na Avenida Paulista, certamente sob aplausos de feministas.

 

Pode ter gente que vai logo dizer que estou propondo que não se faça nada contra fanáticos que atentam contra um direito fundamental da mulher — mesmo em um caso tão extraordinário —, apesar de ser óbvio que não é disso que estou falando.

 

Na minha visão, neste fervor destrutivo e insensato que coloca em risco até a sanidade mental dos brasileiros, é preciso equilibradamente ponderar sobre fatos que não podem ser vistos apenas como planos malignos de uma direita que só deseja o mal do nosso país, quando o que ocorre pode ser nada mais que a consequencia de formas equivocadas de promover o debate público e a atuação política.

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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

 

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Imagem- Puxando pela memória, para entender o atual descalabro, um post da bolsolavista Sara Winter sobre uma foto dela em outros tempos, com a companheira Carla Zambelli, quando faziam furdunço no outro lado


domingo, 16 de agosto de 2020

George Soros, o demônio da narrativa fraudulenta da direita e da esquerda

O jornal português Público conseguiu realizar uma façanha: publica neste domingo uma entrevista exclusiva com George Soros, personalidade que está o tempo todo nas notícias, mas que dá poucas entrevistas, talvez em parte para poupar o mundo de mais abalos porque  o que ele fala tem um peso que pode causar fortes consequências, até mesmo nas bolsas de valores.

 

Soros completa esta semana 90 anos. Como todos sabem, ele é um dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna adquirida no mercado financeiro, em lances fantásticos como da vez em que, em 1992, quebrou o Banco da Inglaterra. Com o tempo, Soros tornou-se um grande investidor em atividades políticas e na formação de pessoas, colocando muito dinheiro para o estímulo de sociedades abertas, por isso no mundo todo não é bem visto pela direita nem pela esquerda.

 

Que ninguém se assanhe, pois a entrevista neste jornal de Portugal — publicada em parceria com o diário italiano La Repubblica — não é de interesse por nada impactante. A matéria é importante porque traça um perfil muito bem feito de Soros e traz sua opinião sobre o que há de mais expressivo na atualidade, inclusive quanto aos dramáticos efeitos do coronavírus no comportamento humano e na economia global. Sobre a pandemia, ele diz que por exigir instrumentos de vigilância, ela torna aceitáveis instrumentos como os produzidos pela inteligência artificial, o que é um risco para a democracia. Quanto à perturbação provocada pelo vírus (agora rezem), ele diz o seguinte: "Esta é a pior crise da minha vida desde a Segunda Guerra Mundial".

 

Soros é um homem ponderado, faz suas considerações de forma equilibrada, sem ataques ou reações agressivas — ele que é uma das personalidades que mais sofre ataques na atualidade, pela esquerda e a direita. Também não propõe soluções absolutas nem tem receitas prontas na discussão de questões que preocupam o mundo todo, o que não surpreende vindo de um homem que teve como mentor o filósofo Karl Popper. O financista conheceu Popper na London School of Economics, quando foi para a Inglaterra aos 17 anos, depois de fugir da Hungria ocupada militarmente pela União Soviética.

 

Como se vê, não faz sentido algum as idiotices despejadas por uma direita composta de ignorantes e mal intencionados, sobre um George Soros articulado com comunistas para impor uma ordem global autoritária. Isso é uma das maiores besteiras direitistas, que são tantas, mas esta é uma das que tem menos base histórica. Para evitar o anti-semitismo na Hungria na década de 1930, sua família teve até que mudar de sobrenome — do judaico-alemão Schwarz para Soros. Com a invasão do país pelos nazistas, seu pai, Tivadar, ajudou muitos outros perseguidos, isso anos depois dele ter sofrido repressão dos bolcheviques na Rússia, quando fugiu de um campo de prisioneiros na Sibéria, em 1918, em plena revolução comunista.

 

Soros é “um grande crente de uma sociedade aberta”, conforme diz na entrevista, tendo recebido diretamente a influência do grande filósofo na convivência que teve ainda na juventude com Popper, uma experiência existencial que, cá pra nós, é de causar mais inveja que a dinheirama que ele tem. Um livro importante de Popper, A sociedade aberta e seus inimigos, é de 1947, de modo que pelo que Soros conta ele teve a oportunidade de conversar com o próprio autor sobre ideias essenciais na discussão da democracia e do papel do Estado, quando esta grande obra ainda estava na esfera de uns poucos iniciados.

 

Neste ponto, Soros credita ao “duplo pilar da falibilidade e da reflexibilidade” presente na obra de Popper, como um instrumento de previsão dos acontecimentos (no que ele tem toda a razão), com utilidade no sucesso dele no mercado financeiro, para ganhar muito dinheiro. O pensamento de Popper também não permitiria que se estabelecesse nele uma visão favorável ao comunismo, esta cretinice repetida no Brasil por olavistas e bolsonaristas, muito menos de um ponto de vista favorável à China, como esses ignorantes vivem falando.

 

Nesta avaliação geopolítica, Soros vê a China como um perigo para uma sociedade aberta, um risco ainda maior pela liderança dos chineses em inteligência artificial. “A China de hoje é uma ameaça muito maior para as sociedades abertas do que a Rússia”, ele diz, porém deixa claro que nos Estados Unidos existe um consenso bipartidário sobre a China como um rival estratégico. Ou seja: políticos do Partido Democrata têm a mesma preocupação que o presidente Donald Trump, mas na minha visão os democratas podem ser mais eficientes para conter o perigo representado pela China, além de não trazerem com esta luta os componentes lamentáveis de racismo, ataque à liberdade individual e falta de respeito ao próximo, além do favorecimento aos mais ricos, como é próprio de Trump e do mesmo modo repulsivo que faz a direita no Brasil.

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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌


sábado, 15 de agosto de 2020

Romero Brito na fogueira dos condenados das redes sociais

É um exercício interessante a observação de como se desenvolve o conceito de justiça nas redes sociais, maleável conforme as circunstâncias, com heróis ou bandidos eleitos às pressas, de tal modo que às vezes é preciso tirar ligeiro uma bruxa que começa a arder nas chamas do Facebook, do Twitter ou do Instagram, porque de uma hora pra outra aconteceu alguma coisa que aponta no herege as qualidades de um santo.

 

As ondas virtuais alteram de tal forma a compreensão do que é a virtude, que muitas vezes confunde-se como sendo admirável indignação o que é visivelmente apenas uma grosseria. Isso acontece com várias batalhas manipuladas da atualidade, mesmo em questões de bases muito sérias, como reivindicações identitárias ou raciais.

 

Hoje em dia, temas como este podem conduzir o debate a um nível impressionante de coação, tachando-se a opinião divergente simplesmente de racista, machista ou da defesa de privilégios de elite — evidentemente branca, masculina e também heterossexual. No clima embrutecido desses dias, até um breve porém pode levar à acusação de ser um fascista.

 

Tudo depende de como estão os nervos no momento. Na semana que passou teve este caso de uma mulher que entrou na loja do artista plástico Romero Brito em Miami e depois de falar brevemente com ele, aos gritos, quebrou jogando ao chão uma peça de sua autoria. Um desses idiotas que para lacrar filmam toscamente tudo que veem pela frente publicou o vídeo e de imediato decretou-se a culpa de Brito, contrariando o que está muito claro na gravação: ele foi a vítima.

 

Não gosto desse sujeito nem do que ele faz, mas isso não vem ao caso. Sou dos que o acham um desprezível puxa-saco, no entanto faço parte da minoria que vê como condenável a bajulação de um artista tanto a Jair Bolsonaro quanto ao PT. E Brito procurou obter vantagem aproximando-se dos dois governos.

 

Acontece que a imediata condenação no barraco armado na sua loja foi em grande parte porque ele fez recentemente um retrato de Bolsonaro. E não se enganem: se o governo fosse do PT ele estaria sendo condenado pelo outro lado, pois fez também um retrato de Dilma Rousseff.

 

Depois do artista já ter sido atacado ferozmente nas redes sociais soube-se finalmente, por outro trecho da confusão criada na sua loja, que a ação agressiva da mulher foi porque ele pediu desconto no restaurante dela, além de ter exigido que os profissionais que o atendiam parassem de conversar entre si.

 

Bem, não vem ao caso o modo que foi feito esse pedido, até pelo fato da avaliação disso ser subjetiva. Porém, um cliente tem o direito de exigir como deve ser atendido. Se terá o desejo satisfeito, isso é outra conversa. E caso se exceda na forma dessa exigência, existem meios do responsável resolver a questão, inclusive os legais. Não é com a agressão cometida pela mulher na loja do artista. O vídeo mostra que ela poderia até tê-lo machucado.

 

Conforme se diz nas matérias sobre a confusão, a peça destruída teria custado o equivalente a 29 mil reais, o que eu duvido que seja verdade, mas vá lá: aceitemos a versão. Pois a agressora agora depende da boa vontade do artista para não ter que pagar uma quantia muito mais alta em indenização, caso ele resolva entrar com um processo. Embora ela tenha sido exaltada porque Brito é um inimigo político de certa parcela das redes sociais no Brasil basta o que está nos vídeos para que haja uma severa condenação em qualquer tribunal americano.

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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O final da farsa do liberalismo de Jair Bolsonaro

Eu estava curioso para saber como é que Paulo Guedes iria desenvolver a implantação da economia liberal no Brasil em conjunto com um político de ideias confusas de extrema direita como Jair Bolsonaro, com a carreira tocada na obscuridade por quase três décadas entre os políticos de qualidade mais rasteira da Câmara, sendo inclusive um dos piores no meio dessas figuras que usam a política para satisfazer suas piores ambições pessoais. Bem, as demissões ocorridas no Ministério da Economia mostram definitivamente que Jair Bolsonaro já cansou da fachada liberal e daquela conversa eleitoreira de “Posto Ipiranga”.

 

A demissão nesta terça-feira dos secretários especiais Salim Mattar (Privatizações) e Paulo Uebel (Desburocratização) é praticamente um fecho ao estado de insatisfação dentro da equipe de Guedes com a dificuldade de implantar o liberalismo no governo de um sujeito que na estante do escritório tem apenas um livro do torturador Brilhante Ustra, cujo único papel como administrador durante toda a vida foi o de chefe de uma “holding familiar” que, segundo o líder do PSL no Senado, Major Olimpio, tinha Fabrício Queiroz como “um verdadeiro diretor financeiro”, fazendo depósitos até na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, chamada agora pelo povo de Micheque.

 

O que tivemos no ministério do Guedes foi uma debandada, conforme ele mesmo disse, naquele seu jeitão prosaico que nada tem a dever aos maus modos de Bolsonaro. É sempre uma aula a forma de Guedes explicar porque nada dá certo neste governo. Falando aos jornalistas sobre a saída de Salim Mattar do cargo de secretário de desestatização, o ministro disse o seguinte: “Não adianta ficar esperando a ajuda do papai do céu. Você tem que lutar”. Falas assim soam como demonstração de que não é só por insatisfação com Bolsonaro que a equipe econômica foi debandando.

 

Bem, parece que não será possível verificar como será a costura desse Frankenstein econômico, porque a suposta agenda liberal do ministro da Economia acabou de vez. É verdade que isso ocorre sem que Guedes tenha trazido algo realmente da sua lavra, pois ele nunca foi formulador de coisa alguma. Passou a vida longe do estudo e da aplicação qualitativa do conhecimento econômico, ganhando dinheiro no mercado financeiro e fazendo uma fortuna milionária inclusive com ataques a planos de recuperação da economia do nosso país, como ele próprio já confessou em entrevista.

 

Já escrevi que Guedes sempre me deu a impressão de que havia visto em Bolsonaro um Pinochet para chamar de seu, a exemplo dos discípulos da chamada “Escola de Chicago”, que preferem aplicar suas políticas sem a atrapalhação do debate de ideias com a opinião pública. É provável que seja por isso que eles se animam até hoje com o suposto sucesso do liberalismo durante a ditadura no Chile, comandada com crueldade entre 1973 e 1990 por Augusto Pinochet, militar corrupto que só não acabou preso porque morreu antes dos chilenos poderem pegá-lo.

 

Um dos ídolos de Guedes, o economista Milton Friedman, chegou até mesmo a visitar o Chile durante a sanguinária ditadura militar, levando seu apoio à política econômica de Pinochet implantada por seus discípulos. Claro que evitou visitar as masmorras. É uma cena de filme de zombies imaginar o economista americano dando palestras a políticos e acadêmicos, na sua defesa firme da liberdade de mercado, enquanto nas ruas de Santiago e de todo o Chile a polícia e milícias paramilitares do governo Pinochet espancavam, sequestravam e matavam opositores, levando parte deles para serem torturados nas cadeias da ditadura.

 

É aquele famoso abismo que costuma separar o liberalismo do interesse da maioria, entre eles o de viver em liberdade. O que pode explicar que no final da vida e já fora do poder, Pinochet gostasse de tomar chá com outra figura idolatrada pelos liberais, a ex-primeira ministra Margareth Thatcher, nas visitas do ex-ditador a Londres. Numa delas, em outubro de 1998, Pinochet acabou sendo preso, a partir de um mandado internacional de prisão jeito pelo juiz espanhol Baltazar Garzón e aceito pela Justiça Britânica, mas deixemos isso para outra hora.

 

O que importa é que o sonho de implantar no Brasil um liberalismo econômico entremeado à moral de um político de extrema-direita foram de encontro — uma porretada braba mesmo — aos instintos populistas de Bolsonaro. A lorota teve fim, definitivamente, nesta semana. Paulo Guedes só não acompanhou a debandada porque... bem, porque ele não é Sergio Moro nem Luiz Henrique Mandetta: ele é simplesmente o Paulo Guedes.

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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

 

 

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Imagem- Sintam o clima, por esta cena de Paulo Guedes em evento na semana passada, em foto de Marcello Casal Jr, da Agência Brasil



sábado, 8 de agosto de 2020

Guilherme Boulos e Luiza Erundina: equívocos de ontem, hoje e sempre

Em São Paulo, a esquerda lança uma chapa de candidatos com duas figuras que corresponderão às expectativas: Guilherme Boulos e Luiza Erundina para a prefeitura da capital paulista.

 

Juntos, esses dois são a certeza do que não deu certo no passado com a promessa do que certamente não dará certo no futuro.

 

Ninguém poderá reclamar que votou por engano. Como se diz quando se caminha para o abismo, não tem como não dar errado.

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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌



Olavo de Carvalho e o bolsolavismo: triste fim de carreira de um intelectual

Parece que de fato pegou o termo "bolsolavismo", para definir esta joça comandada por Jair Bolsonaro, que ninguém, incluindo o próprio, sabe exatamente o que é. Entre planos grotescos e os mais variados acasos, juntaram-se as atabalhoadas atitudes práticas de Jair Bolsonaro com uma montoeira de afirmações políticas de Olavo de Carvalho, retiradas do fragmentado caos de sua obra, com muita coisa que ele mesmo joga desordenadamente pro alto, sem nenhuma preocupação sobre onde vai cair e que rumo tomará.

 

Isso é que é o bolsolavismo. Em matéria de definição política soa até pesadamente como ironia do destino, pela marca inapagável fixada na obra de um sujeito que passou a vida acusando os outros de burros, os "analfabetos funcionais" de que tanto fala este Maquiavel às avessas, na falta do equilíbrio e da sabedoria, do estilo, sem aquela elegância com que o sábio filósofo tratava dos temas mais ásperos e fazendo o contrário do que ele ensinava, sendo desse modo um "maquiavélico" no sentido pejorativo e de leitura equivocada da existência e da obra do admirável florentino.

 

Olavo de Carvalho deve ficar conhecido como um mentor que pegou um "príncipe" muito ruim e conseguiu piorá-lo. Temos desse modo o termo "bolsolavismo" incluído no dicionário político brasileiro, onde deverá emparelhar-se com referências qualitativas em palabras como "ademarismo", "malufismo", "petismo", dentre o rebotalho criado por políticos clientelistas, desonestos e incompetentes, acostumados ao aproveitamento dos cofres públicos como objetos de uso pessoal.

 

Que coisa: o mestre de tantos e tão exaltados discípulos, o furibundo guru que professou com tamanha ênfase e de forma reiterada sobre os males da burrice coletiva dá um fecho à sua carreira intelectual legando seu pensamento a um analfabeto funcional como Jair Bolsonaro, que além de tudo ainda governa com uma tropinha de filhos tão estúpidos quanto o pai.

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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A pancadaria do bolsonarismo à toda, aumentando o prestígio de Sergio Moro

Quase todo mundo acha que o procurador-geral da República, Augusto Aras, age de acordo com o interesse do presidente Jair Bolsonaro ao atacar violentamente a força-tarefa da Lava Jato, mirando especialmente os procuradores do Ministério Público Federal comandados por Deltan Dallagnol e claro que fazendo referências negativas diretas em público a Sergio Moro.

 

É óbvio de quem Bolsonaro tem mais medo em uma eleição presidencial futura, do mesmo modo que nem adianta tentar esconder de onde vem o maior desconforto de parte dos políticos brasileiros, especialmente entre os mais influentes, sempre ávidos por mais poder e dinheiro. É dele mesmo, Sergio Moro, cujo nome, reparem, nem precisa mais de identificação, além dele estar com a imagem descolada de um governo incompetente como o de Bolsonaro, mesmo tendo sido seu ministro mais destacado.

 

Que Augusto Aras trabalha para Bolsonaro e não para o Brasil eu não tenho dúvida nenhuma. Ele age como preposto, até porque contraiu uma dívida grande com Bolsonaro, bem maior do que qualquer outro procurador-geral tinha com os outros presidentes. Cabe lembrar que Aras estava fora da tradicional lista tríplice. Ganhou um presentão, que exige bom comportamento. Com a cobiça pelo cargo de ministro do STF redobra-se o esforço para agradar o chefe.

 

Só que tem um probleminha. É que Aras está devidamente integrado na equipe de Bolsonaro até pela pouca capacidade política, com a mesma dificuldade de articulação e conhecimento estratégico de todos que cercam este sujeito sem noção. Com poucas tacadas, o procurador-geral situou Sergio Moro num patamar político que o recoloca na posição simbólica do homem que pode resguardar o legado ético da Lava Jato, para evitar que voltem os tempos em que maiorais não iam para a cadeia no Brasil.

 

Ineptos como Aras não vão conseguir entender que estão diante de um mito, muito menos que este mito não é Jair Bolsonaro. Eles também não estão aptos para compreender que com as ações que tomam estão colocando como pauta forte da política o combate à corrupção.

 

Já permanece em destaque o tema da segurança pública, não só em relação ao crime organizado, o narcotráfico e o domínio das milícias, como também na desesperadora condição em que se vive hoje nas cidades brasileiras. E politicamente, esta área tem um sinônimo na política em um nome que não é Jair Bolsonaro, nem tampouco Lula ou de qualquer outra personalidade.

 

Observo com naturalidade — mas sem deixar de rir — os equívocos de analistas e até a torcida escandalosa de alguns jornalistas, na afoita satisfação com as maquinações que podem levar a Segunda Turma do STF a finalizar o julgamento iniciado em 2018, em prejuízo do ex-magistrado na sua condução da Lava Jato. Bem, esta seria mais uma maneira de turbinar a lenda.

 

O cenário ficaria ainda melhor do ponto de vista eleitoral se inocentassem Lula e alguns criminosos do seu partido. O próprio PT entraria em campo para aumentar seu prestígio. Ah, mas tem a lei da Câmara Federal que pode impor-lhe uma quarentena de oito anos.

 

Bem, este não é um período de resguardo obrigatório que pode abalar de vez a carreira política de um homem com apenas 48 anos. E caso forcem tanto assim a barra, com lei aprovada especialmente para evitar sua candidatura, não existe meio de imposição legal a ninguém de impedimento da participação política.

 

Vejam só, mais que votar, ele poderá também apoiar alguém. Mas este plano de acabar com o Sergio Moro parece que tem uns descaminhos inquietantes, não é mesmo? Neste rumo, ele pode se tornar o eleitor mais influente da política brasileira. Como estão sempre acusando-o de ter atuado para eleger o presidente da República, pode ser que na próxima eleição de fato ele esteja com força suficiente para isso.

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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌



segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O programa Fantástico, da Rede Globo, revela o que tem por detrás do esquema de criação de fake news do bolsonarismo

Como se costuma dizer com marginais, a casa caiu para os fabricantes de fake news ligados ao bolsonarismo em suas mais altas esferas. O Fantástico trouxe neste domingo um apanhado do que esse pessoal andou aprontando. O material exclusivo do programa da Rede Globo traz detalhes inéditos da investigação do Facebook, no trabalho interno da plataforma que derrubou páginas em redes sociais ligadas ao presidente Jair Bolsonaro e a políticos do PSL. O STF também investiga os farsantes que fabricam fake news.

O jogo sujo consiste basicamente em criar notícias falsas e ataques a adversários do presidente, também com conteúdo falso, para manipular o debate público. Isso cria também falsamente uma aparência de força política do governo e desprestígio da oposição. Tudo é apresentado como notícia verdadeira, usando para isso linguagem imitada do jornalismo, até com páginas que se apresentam como jornalísticas, mas que na verdade foram abertas pelo esquema de desinformação.

>Claro que isso custa dinheiro, não só para o pagamento dos farsantes como para manter a estrutura material, que não custa pouco. O inquérito do STF provavelmente já chegou às fontes milionárias dessa farsa, que é criminosa não só em razão dos ataques e da manipulação, mas pelo aspecto financeiro, podendo conter inclusive aquela famosa ilegalidade que levou Al Capone para a cadeia: a sonegação de impostos. Ao que consta, existem empresários por trás, financiando tudo.

O material revelado pelo Fantástico é apenas uma parte dessa articulação criminosa. No entanto, a reportagem mostra muita coisa, como, por exemplo, o perfil dos integrantes da trama. Um deles é assessor especial do presidente Jair Bolsonaro e trabalha dentro do Palácio do Planalto, recebendo um salário de mais de R$ 13 mil. Ele é Tércio Tomaz, que além de uma conta pessoal, mantinha outras duas, anônimas, chamadas Bolsonaro News.

Segundo a reportagem, o esquema tem mais integrantes pagos com dinheiro público. Pelo menos oito páginas falsas eram da responsabilidade de Leonardo Rodrigues de Barros, que trabalhava no gabinete da deputada estadual Alana Passos, do PSL do Rio, com salário de mais de R$ 6 mil. Também sobre este criador de fake news, Bolsonaro não pode dizer que não sabia de nada. O presidente chegou a gravar um vídeo para uma de suas páginas.

Postagens feitas por Leonardo eram compartilhadas pela noiva, Vanessa Navarro, assessora do deputado estadual Anderson Moraes, do PSL. Sete páginas ligadas a Vanessa foram derrubadas pelo Facebook.

A rede de contas falsas era operada por dois assessores ligados ao deputado federal Eduardo Bolsonaro, o Eduardo Bananinha, filho do presidente. Um deles é Eduardo Guimarães. A CPI das Fake News já havia descoberto que ele usou um computador da Câmara dos Deputados para criar uma conta de ataques virtuais. Outro assessor do deputado Bananinha é Paulo Eduardo Lopes, que se apresenta como Paulo Chuchu. Seis contas dele foram derrubadas.

Em quatro ele praticava a fraude de que falei: se passavam por redações jornalísticas, como The Brazilian Post, The Brazilian Post ABC e Notícias São Bernardo do Campo, segundo o Facebook. A investigação também aponta a participação de funcionários ligados ao senador Flávio Bolsonaro. Toda a família Bolsonaro se negou a dar sua versão para o programa.

A reportagem do Fantástico faz uma devassa reveladora nesta jogada desonesta, que começou na campanha eleitoral, o que causa muito medo em Jair Bolsonaro e seus parceiros. Se houve crime eleitoral, o processo pode chegar até sua cassação. O programa de Rede Globo tem acesso aberto, para o qual coloco abaixo o link. A matéria apresenta muito bem o funcionamento dessa forma de manipulação política, revelando a relação direta dos fake news com o governo de Jair Bolsonaro.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A fuga do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos e mais uma louca denúncia direitista de conspiração

O bolsonarismo é algo que já nasceu atravessado, com doidices advindas do próprio líder Jair Bolsonaro, com seus ares de anunciação explosiva e grosseira, dizendo absurdos que infelizmente só foram levados a sério quando já era impossível conter o terrível efeito eleitoral. Depois foi aquela loucura no poder, como estamos vendo até agora. E quando a pandemia mortal chegou, o país foi jogado definitivamente em um formato de ficção, classe B, muito trash, com os brasileiros fechados em casa, assistindo a louca destruição do nosso país.

O bolsonarismo já nasceu doido e vai piorando, com sintomas mais preocupantes no chamado bolsonarismo de raiz, que não por acaso tem em Olavo de Carvalho o mentor intelectual. A filha do escritor, Heloisa de Carvalho, depois que rompeu com o pai andou contando que tempos atrás ele fugiu de um asilo psiquiátrico antes de receber alta médica. A denúncia procede, como se pode ver pelo que ele escreve nas redes sociais e fala em vídeos e entrevistas.

De fato, o velho parece doido, além de que é possível notar em seus discípulos um estranhamento preocupante com a realidade. Nesta segunda-feira tivemos a notícia de que um desses bolsonaristas ditos “de raiz”, adorador de Olavo, teve um surto fenomenal e fugiu do país. É o blogueiro Allan dos Santos, um dos apoiadores de Bolsonaro que estão sendo investigados no inquérito das fake news, do STF. Ele é dono do site Terça Livre, com um canal também no Youtube, além daquelas páginas todas nas redes sociais. Ou melhor, tinha isso até há pouco, pois em razão do inquérito, o ministro Alexandre de Moraes mandou fechar tudo.

A informação da fuga do país foi dada pelo próprio Allan dos Santos nesta sexta-feira, durante uma transmissão ao vivo na internet, de modo que em razão do histórico desse pessoal em matéria de veracidade é preciso esperar um confirmação vinda de outras fontes. Não existe nenhum mandado de prisão contra o blogueiro, além do país ter um governo que, ainda que mucho loco, é constitucional. Mas com esse pessoal tudo é possível, até fugir do país em que o ídolo deles é presidente.

Mas independente da fuga ser ou não verdadeira, uma conta atribuída ao blogueiro, em publicação também nesta sexta, afirma que, a pedido de um funcionário do TSE, uma empresa de segurança eletrônica “fez uma varredura em Brasília e descobriu maletas de escuta telefônica na Embaixada da Coreia do Norte, Embaixada da China e na casa do [advogado] Kakay”. O citado “Kakay” é alcunha de Antônio Carlos de Almeida Castro, que advogou para José Dirceu e Lula. Na gravação em vídeo, Allan dos Santos faz as mesmas acusações, dizendo ainda que o presidente Jair Bolsonaro é um alvo dessas ações.

Que coisa, não? Parece o crioulo doido, do Stanislaw Ponte Preta, narrando uma conspiração. O assunto ainda há de render e devem aparecer mais doidices pela frente, mas são fatos como este que já dão uma certeza: será de camisa de força que o bolsonarismo ficará marcado na história do Brasil.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Jair Bolsonaro e o PT: direita e esquerda se juntam contra a Lava Jato e Sergio Moro

Agora com Jair Bolsonaro totalmente empenhado em acabar com a Lava Jato, este presidente fake news — eleito exatamente no embalo do sentimento de ética na política trazido por um trabalho contra a corrupção altamente renovador da esperança — lança seus seguidores numa situação constrangedora: serão obrigados a extirpar mais esta peça fundamental de sua estrutura de caráter.

Mesmo o bolsonarismo já tendo eliminado Sergio Moro de sua galeria de ídolos, com a militância passando a atacar o lendário ex-juiz da Lava Jato com a mesma agressividade e acusações tão imbecis quanto as que costumeiramente fazem a qualquer adversário, será complicado entrar na mesma linha de ataque do PT e seus parceiros dos puxadinhos de esquerda.

Na retórica de um bolsonarista e mesmo de um olavista, nesta nova condição de estorvo aos planos de Bolsonaro e sua família, a Lava Jato teria de ser encaixada nos maléficos planos do comunismo chinês para dominar o mundo. Será uma dificuldade fazer qualquer um que não seja um bolsonarista idiota (com o perdão do pleonasmo) engolir algo tão fora de propósito, mas não duvidem que eles podem vir com mais esta.

Os petistas puxam de seu lado uma cantilena maledicente e desonesta de que a Lava Jato atende aos interesses do governo dos Estados Unidos, mas com seu grande líder fazendo continência por aí para a bandeira americana não dá para um bolsonarista seguir por esta retórica tola. Todo mundo conhece a lorota petista: a Lava Jato quebrou grandes empresas brasileiras “em conluio com o FBI, para criar mercado para as americanas”.

É um fake news que não pegou, mas encerrou a militância petista em mais um de seus raciocínios idiotas, fazendo do PT este partido de desqualificados que aí está, colocando a esquerda brasileira numa condição eleitoral de ter de bolar grandes estratégias até para eleger vereador de cidade pequena. Se o partido do Lula tivesse feito algo que presta no poder, esta defesa de corruptos da iniciativa privada mancomunados com ladrões dos cofres públicos talvez pudesse ser qualificada como um “rouba, mas faz”, mas como o PT não fez nada, tal raciocínio não serve nem pra isso.

Quanto à corrupção, quem conhece política sabe que faz muito tempo que Jair Bolsonaro e PT estão se dando muito bem neste assunto, cada um de seu lado. A aliança atual entre direita e esquerda para acabar com a Lava Jato nada mais é que o oportunismo forçando o círculo a se fechar. Aliás, mesmo no que toca a maledicência, a manipulação da informação e até mesmo a violência política, Bolsonaro e a maioria dos esquerdistas só divergiam em relação aos alvos, agora cada vez mais próximos.

No entanto, voltemos à parceria da esquerda e da direita na defesa da ladroagem, para a qual eles buscam enfiar na legislação eleitoral até uma lei anti-Moro e acabar com o “lavajatismo”, neologismo que no sentimento popular é um adjetivo. Agora bolsonaristas e petistas se juntam para transformá-lo em um palavrão. Para combinar o discurso, seguidores de Bolsonaro e petistas terão de fazer de Moro um agente duplo. Vocês não sabiam?

Não espalhem, mas na verdade não foi só a serviço dos Estados Unidos que a Lava Jato quebrou nossas empresas. Moro e os procuradores do Ministério Público agiam também para favorecer a China.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Quando a política vira instrumento de lucro nas redes sociais


Você sabia que a deputada petista Gleisi Hoffmann lucra com a monetização de seus vídeos no Youtube? Sim, a presidente do PT fatura com um instrumento que, pelo menos em tese, deveria ser usado por ela para a informação política. Recentemente ela afirmou que lucrou 32 mil reais. Deve ser um caso único da política internacional, de uma presidente de partido agindo como youtuber.

Um estímulo para a plataforma do Youtube ter virado um imenso criadouro de fake news, desinformação e conspirações absurdas, ataques pessoais, barbaridades de todo tipo, é esta cobiça pelo dinheiro, com a monetização dos vídeos. Quando maior a atração da balbúrdia, mais se ganha com as visualizações. Claro que isso tornou este espaço da internet um repositório do que se tem de pior na comunicação entre as pessoas.

O lucro das visualizações é arrancado falando-se qualquer coisa capaz de criar grandes polêmicas, não importando se com isso é preciso fazer uma devassa na privacidade das pessoas, forjar acusações, apelar para o insulto, a difamação, criar as mais loucas conspirações, enfim inventar qualquer coisa, até mesmo as piores  mentiras: isso é o que dá dinheiro.

Uma das revelações mais interessantes do inquérito das fake news, comandado no STF pelo ministro Alexandre de Moraes, foi mostrar que acima de ideologia ou doutrina política, a motivação de muitos ativistas políticos nas redes sociais é esta facilidade de ganhar dinheiro nas redes sociais, ligando-se a uma grande onda política para turbinar a audiência em um canal de vídeo. Quando se pensa que esse monte de lives, os debates urgentíssimos e tanta falação que rola por aí em defesa da pátria ou de algum mito, na verdade o pessoal está ali em sua maioria para ganhar dinheiro como youtubers.

Tanto é assim que mesmo antes do inquérito do STF desvendar esta ambição lucrativa, vários youtubers da direita bolsonarista vinham fazendo mimimi em seus vídeos, reclamando do fim das monetizações imposto pelo Youtube para páginas que avançam demais os limites da decência na plataforma, que por sinal sempre foi de uma tolerância extrema com a estupidez, a maldade e a má-fé.

Essa mania de atiçar uns contra os outros, mentindo e criando conspirações, vem sendo impulsionada em grande parte por estas monetizações. Claro que lucram mais os que naturalmente têm menos limites, digamos, civilizatórios em sua personalidade. Do jeito que está, psicopata leva vantagem. O Youtube acabou gerando estrelas que teriam dificuldade de aceitação até nos piores programas de baixaria nas emissoras de televisão e rádio dos cafundós do Brasil.

Todo mundo já sabe da ebulição política de péssima qualidade criada por este caráter de picaretagem da plataforma. Mas o mais triste é saber que políticos eleitos também entraram na onda de ganhar dinheiro, aproveitando-se do ambiente de furdunço que gera as monetizações. Deputados e outros políticos não atraem público apenas por suas personalidades pessoais, ainda que isso também importe. Existe toda uma carga de responsabilidades e compromissos — do próprio partido, das causas que defendem, do país — que envolvem uma variedade de interesses e necessidades que não devem ser usados para ganhar dinheiro.

E o pior é que até então, alguns deputados estavam usando dinheiro público para lucrar neste mercado. Nesta terça-feira a Câmara proibiu deputados de usarem o dinheiro da cota parlamentar para contratar serviços que gerem lucro na internet. A decisão veio depois da descoberta que deputados bolsonaristas vinham usando este dinheiro para manter seus canais monetizados.

Sete deputados estavam fazendo das suas atividades no Congresso um chamariz para este negócio lucrativo, ao monetizar seus canais no YouTube. São eles os bolsonaristas Carla Zambelli, Bia Kicis e Otoni de Paula, a ex-bolsonarista Joice Hasselmann, o petista Paulo Pimenta e Flordelis, do PSD. A cota parlamentar era usada para contratar os serviços técnicos de texto, edição e montagem dos vídeos de seus canais no YouTube.

É mais uma trapaça desse tipo de político, iludindo quem pensa que atende a um chamado para a participação séria no debate político, mas na verdade é estimulado a entrar em brigas das mais idiotas porque isso cria visualizações altamente lucrativas para os trapaceiros. E não só políticos estão nessa. Muitos youtubers que tocam fogo no debate político — e não é de hoje que fazem isso — estão de olho é na grana que isso dá.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

segunda-feira, 27 de julho de 2020

A PF na cola da primeira-dama do Piauí, a tragédia brasileira e os políticos serviçais de uma elite apodrecida

A Polícia Federal baixou logo cedo nesta segunda-feira na casa do governador do Piauí, o petista Wellington Dias, porém não era o governador o alvo da operação, e sim a sua esposa, a deputada Rejane Dias, também do PT.

Que baita encrenca, não? Em situações assim, governantes costumam rapidamente se desvencilhar dos implicados, com a demissão ou dando qualquer outro jeito de tirar de perto o alvo da polícia. Ninguém quer ter ao lado uma chave de cadeia. Mas o que se pode fazer quando a acusação de corrupção é contra a própria cara-metade?

A situação da governador do Piauí é de fato inusitada. Não dá para seguir o hábito do exaltado chefão de seu partido, o criminoso condenado Lula, que quando é pego em ilegalidade diz logo que não sabia de nada e não tem relação com o acusado. Como fazer algo assim com a patroa? Bem, Lula chegou até a tentar colocar a culpa de seus malfeitos na própria esposa, mas cabe lembrar que ele só buscou esta saída depois da morte de dona Mariza.

A investigação no Piauí vem desde o ano passado e envolve recursos desviados do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) e do PNATE (Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar). Não foi possível precisar ainda o total dos desvios, por causa da variedade de contratos ainda executados pelo grupo de empresas com o governo do estado e prefeituras, mas a Polícia Federal adianta que o esquema causou prejuízo ao Piauí calculado em ao menos R$ 50 milhões.

Parece que o que temos à frente é aquela velha jogada de políticos aliados a uma iniciativa privada que finge executar obras e serviços, em esquemas que existem apenas para desviar o dinheiro da população. Isso tomou conta de tudo, em negociatas que arrasam com a capacidade econômica do país. A população fica sem o retorno de seus impostos e nem se tem a abertura para o crescimento de um empresariado moderno e de qualidade.

A primeira-dama do Piauí é deputada desde 2014, evidentemente se elegendo em dobradinha com o marido, que também é político profissional há décadas. Ela ocupou a Secretária de Educação no primeiro mandato do marido governador, reeleito em 2018. Os fatos investigados na operação desta segunda-feira são do tempo em que ela foi secretária de Educação. O esquema  tinha contratos superfaturados em 40%.

Como se sabe, o Piauí é um dos estados mais pobres do Brasil, mantendo-se sempre em disputa com estados como o Maranhão para saber quem fica em primeiro na lista dos miseráveis, todos dominados por uma elite impiedosa, que não tem partido exclusivo, fazendo uso de qualquer ideologia ou projeto de governo para atingir o objetivo de se dar bem às custas dos cofres públicos.

Não importam bandeiras econômicas, se de direita ou esquerda, desenvolvimentistas e liberais — cabem até mesmo promessas socialistas, Deus acima de tudo, qualquer coisa. Vale tudo para manter o Estado sob o jugo de elites apodrecidas. E sempre temos políticos e partidos dispostos a sustentar este status quo que arrebenta com o Brasil, seja no PT de Lula e do governador do Piauí e de outros estados, além de poderem também se servir sempre do governo federal, por ora nas mãos atenciosas de Jair Bolsonaro.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

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Imagem- A primeira-dama do Piauí, deputada Rejane Dias, e o governador Wellington Dias