sábado, 16 de novembro de 2013

Fuga fora do plano

É evidente que o plano do PT em relação aos condenados do mensalão é que cada um respeitasse a decretação da prisão pelo STF e fosse pra cadeia na esperança do assunto sair do noticiário para não ser lembrado durante a campanha eleitoral. Nem é um plano de grande elaboração. Não existia nenhuma outra possibilidade para enfrentar o problema, a não ser a opção desastrosa de uma fuga. E foi exatamente isso que fez o mensaleiro Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, condenado a 12 anos e sete meses de prisão

Pizzolato fugiu para a Itália, fazendo uso de sua dupla cidadania. A fuga de um mensaleiro condenado para um país estrangeiro é uma atrapalhação e tanto para o plano petista de varrer o mensalão pra debaixo do tapete. A relação do partido com a corrupção passa a ter repercussão internacional. E não poderia ser pior o país escolhido por Pizzolato. A Itália traz de volta o assunto da guarida que o governo do PT deu ao terrorista Cesare Battisti, condenado por assassinato pela justiça italiana e protegido pelo governo Lula.

Temos então uma piada pronta, que é a troca de um Battisti por um Pizzolato. E o mensaleiro fujão faz lembrar aos petistas aquele velho ensinamento que aparece em tantas histórias de detetive: não existe plano infalível. A fuga já é notícia na imprensa italiana. Aqui, pode ser lida uma matéria do Corriere Della Sera, um dos mais importantes diários da Itália. A reportagem já tem vários comentários de leitores indignados, com ataques ao nosso país e fazendo referência ao caso Battisti. Esta é a imagem que o PT dá ao Brasil no exterior.
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Por José Pires

O poder em cana

Ué, não entendi a tristeza dos amigos do Delúbio Soares. Não era para eles estarem rindo da "piada do salão"? Pois é, a situação não é nem um pouco engraçada para o esquema político que hoje domina o governo brasileiro. Os mensaleiros poderiam até ir para casa já nesta segunda-feira, algo que não acontecerá de forma alguma, mas mesmo se fosse assim já estaria criada uma situação que é uma linha de fronteira entre duas épocas distintas da nossa política, de antes e depois do mensalão. A prisão dos mensaleiros define este marco.

A preocupação de quem ficou de fora das grades não é com a situação do Delúbio, do Genoíno ou mesmo do poderoso José Dirceu. Isso se arranja, além do que a desgraça de cada um desses mensaleiros abre espaços no poder e no partido que já devem estar sendo objeto de muita disputa nos bastidores Tudo estaria bem, se não fosse o padrão determinado na política pela prisão dos mensaleiros. O pessoal gosta mais da palavra "paradigma" para definir este modelo que fica estabelecido a partir desse 15 de novembro, que foi um dos aniversários mais importantes da história recente da República.

Com a cúpula do mensalão em cana mantém-se agora a possibilidade sempre presente da punição até para os mais poderosos integrantes do crime organizado na política. Escaparam do julgamento no STF outros responsáveis pelo esquema, entre eles o ex-presidente Lula, que só não poderia saber de nada se fosse um idiota. Muito ao contrário disso, ele é um dos mais espertos da turma. Mas para o próprio Lula serve também este paradigma.

Foi por um golpe de sorte que o ex-presidente escapou de sentar-se no banco dos réus. Teve também um erro de avaliação da oposição, que acreditou na chantagem política feita pelo PT com a ameaça de criar uma conflagração nas ruas caso Lula fosse acusado oficialmente. Foi bravata pura e não é só agora que digo isso. Escrevi na época. E bastava ver o desespero dele naquela famosa "entrevista" filmada em Paris para perceber o blefe político. O poder de Lula e de seus companheiros é fruto de maquinações com o uso da máquina pública e de muito dinheiro. Estão bem longe de terem capacidade de grandiosas mobilizações populares. Nem se algum deles desse um tiro no peito.

Poderiam até ter criado esta condição política, que seria um inferno para o Brasil, mas estaria pronta para o proveito deles. Mas para isso teriam de ter se dedicado à construção de um projeto político e não caído no insaciável ataque aos cofres públicos. Mas agora também ficou tarde para isso e cada passo daqui por diante torna-se mais arriscado. Foi estabelecido pelo julgamento do mensalão um padrão mais rigoroso. Ou melhor, vamos usar essa palavra que eles falam tanto. Comecei a gostar dela. A punição dos mensaleiros foi um paradigma que não permite fazer da corrupção uma piada de salão.
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Por José Pires

O jeito Lula de ser companheiro

Que lealdade, respeito e solidariedade não são coisas do ex-presidente Lula já se sabe há muito tempo, mas mesmo vindo dele foi constrangedora a descartada que ele deu ontem em José Dirceu. Não era assim quando Dirceu ocupava a Casa Civil de seu governo, na época em que rolava o mensalão. Naquele época, ele era o "capitão" de seu time. E agora com a condenação pelo STF isso virou águas passadas. Mas o cara é assim mesmo. Ele vai largando os companheiros na estrada conforme sua conveniência. E quando a desgraça alheia tem relação com algo que pode também incriminá-lo, aí então é que ele some de perto.

Até companheiros assassinados são abandonados da forma mais injusta. Foi isso que ele fez com Toninho do PT, morto a tiros em 10 de setembro de 2001, quando era prefeito de Campinas. Na campanha presidencial de 2002 Lula prometeu para Roseana Garcia, viúva do prefeito assassinado, que colocaria a Polícia Federal para investigar o crime se fosse eleito. Ele acreditava em crime político, mas logo mudou de opinião. No poder, ele até se recusou a receber a viúva. Agora, no mês de setembro passado, o Ministério da Justiça recusou oficialmente o pedido para que a Polícia Federal entrasse no caso. O governo do PT levou 12 anos para dizer não. A família diz que vai denunciar o Estado por omissão na Organização dos Estados Americanos.

Outro companheiro morto que Lula fez questão de deixar para trás foi Celso Daniel, assassinado também no cargo de prefeito. Daniel era prefeito de Santo André e quando foi morto coordenava a campanha de Lula para presidente da República. Ele morreu com onze tiros depois de ser muito torturado pelos assassinos. O crime aconteceu em data muito próxima ao assassinato de Toninho do PT: 18 de janeiro de 2002. Os casos são parecidos também na teimosia do partido e de Lula de querer mantê-los na esfera do crime comum. A morte de Daniel tem corrupção no meio e o Ministério Público garante que era dinheiro desviado para a campanha do Lula.

São crimes muito estranhos, com o assassinato de Celso Daniel envolvido num enredo que não daria para aceitar nem em minissérie policial. Além da tortura e da quantidade de tiros, o que nunca acontece em crime comum, sete testemunhas morreram, todas em situações misteriosas. Porém, seja como for, o que causa mais estranhamento é que não tenha havido da parte de Lula nenhum interesse em esclarecer definitivamente os crimes, eliminando todas as dúvidas, afinal tratava-se também da morte violenta de dois amigos muito próximos.

Mas qual nada. Seu caráter é o de quem larga qualquer um para trás, sem lealdade, respeito, solidariedade ou mesmo compaixão. Com ele é companheirismo, companheirismo, negócios à parte.
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Por José Pires

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

E segue o mesmo jogo

É lamentável ver neste escândalo da “Máfia dos fiscais” da prefeitura de São Paulo a movimentação na internet do esquema de sempre para tentar livrar de responsabilidade o prefeito petista Fernando Haddad. A rede criada na defesa dos interesses do PT é forte e azeitada inclusive com dinheiro público, por meio de privilégios e anúncios de estatais ou até diretamente com publicidade oficial.

A tentativa marota de livrar Haddad colocando a culpa no ex-prefeito Gilberto Kassab nada tem a ver com procura de respostas honestas para o grave problema da corrupção que destrói a administração pública em todo o país. Quando desvia o assunto a militância petista evita também o aprofundamento necessário do debate.

As próprias personalidades (Haddad e Kassab) que estão no centro do escândalo de corrupção fazem cair no ridículo quem tenta desviar de alvo. O atual prefeito e o ex tem em comum nas suas carreiras políticas uma figura notória da corrupção no Brasil, o deputado Paulo Maluf, de cujo sobrenome apareceu inclusive o verbo “malufar”, cujo significado todo mundo conhece.

Kassab começou sua carreira como secretário de Maluf e Haddad teve seu batismo político mais importante feito na mansão de Maluf, com a presença da alta cúpula do PT e também do padrinho de sua candidatura a prefeito, o ex-presidente Lula. Ora, essas ligações demonstram que o sistema que domina a máquina pública é composto de forças muito mais determinantes que os partidos. E no caso de Haddad houve até uma declaração pública e de alto teor símbólico sobre a continuidade do sistema. A menos, é claro, que o Maluf do Haddad seja diferente do Maluf do Kassab.
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Por José Pires

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Imagem - Lula e seu pupilo beijam a mão de Paulo Maluf nos jardins de sua mansão: a luta continua, companheiro.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O lixo da história

Na imagem, o estado em que ficou a reitoria da USP depois da ocupação pelos grupelhos de extrema-esquerda. Além da depredação e do lixo espalhado por toda a parte desapareceram diversos equipamentos, inclusive computadores. Não me impressiona ver o estado em que esses militantes deixaram a Reitoria ocupada. Isso é próprio de quem sabe que não haverá consequências. A falta de responsabilização dessa militância vai fazendo com que eles avancem cada vez mais sobre o direito alheio. Como inexiste um cumprimento da lei, com as devidas penalidades, esse pessoal vai abusando cada vez mais. Talvez não tarde o momento de aparecer uma morte nestas confusões.
Por isso, a depredação não é uma surpresa. O que causa espanto mesmo é ver gente já com idade suficiente para ter a mente madura, mas que vem defendendo esse tipo de coisa como se fossem atos de idealistas. Me parece um triste drama psicológico e talvez até uma doença ideológica já diagnosticada lá atrás pelo próprio líder da revolução na Rússia, Vladimir Lenin: ele chamava isso de doença infantil do comunismo. Quase um século depois e já com o comunismo em escombros e ainda tem gente sofrendo dessa doença extremista.
Mas no caso presente pode ser também um drama pessoal de velhos "combatentes" da revolução, na aflição de saber que entre a companheirada a propina e a distribuição de cargos passaram a ter mais valor que as palavras de ordem de outrora. Isso é muito comum nesta nossa época em que a esquerda tem mostrado que o único preparo que teve nesses anos todos foi para a sistematização do roubo aos cofres públicos. Louvar os mesmos erros do passado cometidos agora por gente mais jovem é uma forma de aplacar a angústia pelos próprios desacertos históricos.
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Por José Pires

A cana dos mensaleiros em julgamento

O plenário do Supremo Tribunal Federal retoma nesta quarta-feira o julgamento do mensalão e já terá de tomar uma nova decisão além da análise sobre os embargos infringentes. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu a prisão imediata de 23 dos 25 mensaleiros. O chefe da quadrilha, José Dirceu, também pode ir para trás das grades. No entendimento de Janot a prisão não depende do resultado do julgamento dos embargos. Ele cita um dispositivo que diz “em caso de embargos infringentes parciais, é definitiva a parte da decisão embargada em que não houve divergência na votação”. Como os infringentes contestam apenas parte da sentença, as demais partes poderiam ser executadas imediatamente.
O raciocínio é tão lógico que até torna atrasado este pedido de prisão. Mas o problema é que o julgamento do STF fugiu da lógica depois da aceitação dos embargos infringentes, que atrasou ainda mais o julgamento mais importante dos últimos tempos e também um dos mais demorados. Tomara que vejamos amanhã indo pra cadeia os responsáveis por este atentado criminoso contra a democracia. Porém, mesmo que isso aconteça, sempre ficará a impressão de que falta alguém no xilindró, não é mesmo, companheiros? Sim, porque acima dos chefes do esquema havia alguém que mandava muito mais. Pois é, aquele cara que estava no comando da Nação e fez de conta que não viu nada bem que podia estar nessa também.
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Por José Pires

domingo, 10 de novembro de 2013

Em liquidação

Se alguém tinha dúvida do fim da linha para o chavismo na Venezuela, talvez a última notícia que vem daquele país possa dar uma luz sobre os derradeiros passos do obscurantismo populista que encantou até mesmo o governo do PT. O bolivarianismo está agora numa luta ideológica contra batedeiras de bolo, microondas, televisores, liquidificadores e qualquer outro eletrodoméstico de direita. Nicolás Maduro, ordenou uma "ocupação" militar na cadeia de lojas de produtos eletrônicos Daka. É mais ou menos como se no Brasil o governo mandasse o Exército Brasileiro ocupar as Casas Bahia. Centenas de pessoas foram às lojas da rede Daka para aproveitar os preços de até 50% mais baixos decretados pelo governo.

Hugo Chávez governou por 14 anos (sempre se esquece deste longo período de governo quando falam dele) e quando morreu deixou um país falido e sem projeto político algum. O chavismo sofre de um mal comum a qualquer regime caudilhesco, que é o do mandatário supremo se cercar de nulidades para evitar que o povo se encante com outro que não seja o chefão. Existe também o risco contínuo de um golpe, o que obriga o caudilho a evitar na sua equipe a presença de pessoas com personalidade própria. Daí a corte de incompetentes que toma conta de todo governo populista. Como os ditadores também morrem, o resultado sempre é o de uma sucessão acabar nas mãos de algum dos medíocres que rondam o poder, que terá de governar sem os instrumentos políticos do falecido, que incluem como qualidades essenciais o carisma e o poder pessoal sobre a máquina. Mas essas coisas ele leva para o túmulo.

O bolivarismo nasceu com a pretensão de se contrapor aos Estados Unidos ou qualquer outro dos países mais ricos do mundo. A bravata contaminou até o governo de Lula e depois o de Dilma Rousseff. Mas agora a revolução bolivariana foi literalmente pro varejo. A ideologia saiu do ataque ao Grande Satã e foi ocupar lojas comerciais. O bolivarianismo de Hugo Chávez entra finalmente na fase da queima de estoque.
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Por José Pires

quinta-feira, 7 de novembro de 2013


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Um adeus de muitos significados

Capa da revista "Les Inrockuptibles". O trocadilho é muito bom e não precisa traduzir: é a mesma coisa na nossa língua, apesar de que no Brasil é muito raro que haja 'inrockptíveis". Por aqui até o rock é dominado pelos bananas. E não é raro que haja um petralha na banda pegando por fora uns capilés do governo. Que país é este, ó céus, em que até a rebeldia é instrumentalizada. Mas voltando à "Les Inrockuptibles", a capa sobre Lou Reed é perfeita. Acertaram até no uso do preto e branco, que é o tom deste ótimo artista. A publicação semanal é francesa e é realmente uma revista de cultura. Nada dessa farsa comum no Brasil de dizer que algo é de "cultura", quando de fato é só entretenimento.

"Les Inrockptibles" publica 14 páginas com o falecido músico americano. Trazem também uma longa entrevista, feita em 1996. Lá no meio, citações do dramaturgo Eugene O'neill, Van Gogh, Shakespeare... Roqueiro brasileiro iria sentir-se desenturmado. Lou Reed não merece o uso de lugar comum, mas sua morte traz a impressão angustiante de que os verdadeiros artistas estão acabando.Independente da avaliação que se tenha do que ele fez é admirável sua integridade artística, vida e obra sendo tocadas de forma integrada. É dessa unidade existencial que estou falando quando lamento a extinção gradativa dos verdadeiros artistas. E vale destacar que Lou Reed era do rock, uma forma musical que sem esta integridade não faz sentido levar a sério. É o problema do rock brasileiro e essas levadas de garotos bobocas inventando sentimentos e dores que existem apenas em suas letras simplórias. É claro que não estou querendo que se quebre a cara para fazer arte, mas é preciso haver ao menos aquele mínimo de verdade que caracteriza um bom produto cultural. E para ser arte é claro que a integridade obrigatoriamente deve prevalecer.

Me lembro do meu desgosto olhando a moçada sacolejando o esqueleto ao som de rockinhos bobos na época ditadura militar. O país naquela barra pesada política e existencial e aquele negócio idiota de "me deixa de quatro no ato" e outras bobajadas. Conheci o trabalho de Lou Reed mais ou menos nessa época e achava muito estranho que essas coisas feitas no Brasil fossem classificadas como rock. Mas não é que tudo piorou? Já estamos num ponto que logo vamos ler textos de críticos pontificando sobre o rock dos anos 80 como "clássicos" da nossa cultura. Se é que já não estão escrevendo isso.

É por isso também que a morte de alguém como Lou Reed dói. Nem sou muito ligado especificamente em rock, mas ouço artistas como ele, o que foi facilitado pela internet. Tenho baixado aqui comigo o que ele fez de mais importante. Músicos de qualidade em qualquer área sempre foram isolados da cultura brasileira. A salvação é a internet, que permite que procuremos cultura nós mesmos, sem a dependência de cadernos (e atualmente os sites) que de cultural hoje em dia tem quase nada.

Vivemos por aqui um clima de fim de mundo na cultura, sem publicações da área (não temos hoje nenhuma revista de cultura) e com o setor dominado pelos tais "incentivos culturais". Nesta cultura estatal o foco criativo essencial é o de inventar um argumento técnico para arrumar um bom financiamento do Estado e aí então criar algum produto para justificar a grana. A intenção parece que foi a de fortalecer a arte, mas o efeito tem sido o contrário. Aqui no Brasil o Lou Reed já morreu há muito tempo atrás.
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Por José Pires

quinta-feira, 24 de outubro de 2013


O bom negócio da censura

Roberto Carlos quer censurar mais um livro e desta vez não é uma biografia dele. Esta nova tentativa de censura vem ajudar a comprovar a necessidade da derrubada do artigo do Código Civil que permite a censura-prévia de livros no Brasil. Alegando invasão de privacidade os advogados do cantor entraram na Justiça para barrar "Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude". A publicação nasceu de uma tese de mestrado e trata da influência dos artistas sobre a juventude. E como o centro da obra é a Jovem Guarda é claro que tem que ter Roberto Carlos. No entanto a autora do livro, Maíra Zimmermann, disse que não há menção à vida íntima de nenhum artista. "Meu foco é a construção da cultura nos anos de 1960", ela disse. Roberto Carlos exigiu a retirada do livro do mercado.

O cantor já tem contrato assinado com a editora Leya para a publicação de uma biografia autorizada, prevista para daqui cinco anos. No projeto tem também um filme sobre sua vida. E dessa forma vai se esclarecendo que o plano de Roberto Carlos é limpar o mercado de qualquer conteúdo que faça concorrência comercial com um livro de propriedade dele que vem por aí. Dessa forma ele pode ter não só o controle sobre sua imagem como também ganhar muito mais. O mercado vai ser só dele. A jogada não é biografia autorizada, mas sim biografia exclusiva.

Não é surpresa este foco de Roberto Carlos nos negócios. Tem sido assim desde que ele apareceu na música brasileira e foi se impondo, sempre tendo por detrás uma grande força comercial, na qual se inclui especialmente a maior rede de emissoras de TV do país, a Rede Globo. A própria Jovem Guarda, objeto de estudo do livro que ele quer proibir, é uma criação publicitária, com todos seus lances criados por uma agência de propaganda, desde seu lançamento em 1965. Roupas, comportamento, tudo saiu da cabeça de publicitários, até mesmo o programa de TV que era apresentado pelo cantor. É óbvio que Roberto Carlos tem muita habilidade para compor sucessos populares, mas a máquina comercial sempre teve um peso tremendo na sua carreira. E foi também favorável aos seus interesses a ação da ditadura militar, que reprimiu artistas e impediu a transgressão de fato, permitindo e até incentivando rebeldes de fachada, que era seu papel na época. Temas assim é que de fato preocupam Roberto Carlos. Defesa da privacidade é só um despiste de seu real interesse.

O que o cantor quer é manter um controle sobre sua imagem construída e ter o benefício comercial exclusivo do lucro que vier disso. E está pouco ligando que suas ações judiciais afetem a liberdade alheia ou criem impedimentos para a publicação da biografia de qualquer outra pessoa e também livros de história, como já vem acontecendo. Não é de hoje que o cantor só tem um tema na vida: ele mesmo. De rei mesmo o que Roberto Carlos tem é apenas o ego.
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Por José Pires

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Trocando as bolas

Chico Buarque não dá uma dentro na polêmica das biografias. É melhor o STF liberar logo o trabalho de biógrafos, até para que saia também uma biografia dele mais próxima da verdade. Logo de entrada ele atacou Paulo Cesar Araújo, o autor da biografia de Roberto Carlos, que de imediato divulgou gravações provando que ele havia dado um depoimento para a biografia.

Pegou muito mal, Chico pediu desculpas e com isso não fez mais que obrigação. Mas logo a babação idólatra que o cerca tentou fazer deste “mea culpa” mais uma de sua inúmeras qualidades. Mas aí já é tentar distorcer uma leviandade que podia ter destruído o livro escrito por Araújo e que Roberto Carlos conseguiu embargar, além de pedir uma alta indenização ao autor. Por coincidência (ou não, como diz o Caetano) Roberto Carlos quer exatamente acabar com Araújo e foi isso que Chico tentou fazer.

É claro que é justo que haja a suspeita de que o ataque veio de comum acordo com Roberto Carlos. O autor da biografia já afirmou que o Procure Saber traz argumentos iguais aos do processo contra ele feito pelo cantor. Também já se diz que uma condição da entrada de Roberto Carlos no Procure Saber foi que o grupo encampasse sua briga para censurar a biografia. Pode até ter sido coincidência, mas Chico foi na canela que o outro quer atingir.

Neste domingo Caetano voltou ao assunto em sua coluna em “O Globo” e trouxe mais uma tolice de Chico Buarque. Vem mais pedido de desculpas por aí. Na coluna, Caetano faz as costumeiras reclamações sobre a imprensa, os dois falando do jornalismo de fofoca do qual como figuras populares ambos são vítimas. Mas quem é que está discutindo a imprensa fofoqueira? Só eles, é claro. O tema do debate é o de biografias. Mas falando da revista Contigo e até lembrando da "Coluna da Candinha" eles reforçam a cantilena da “privacidade pessoal”.

Caetano e Chico estão evidentemente trocando mensagens o tempo todo e na sua coluna Caetano publica este trecho enviado pelo colega: “E a ‘Folha’ de hoje, ao dar a matéria em que respondo ao biógrafo do Roberto Carlos, suprimiu o parágrafo em que eu citava os esquadrões da morte na redação da ‘Última Hora’ de São Paulo, propriedade do Frias. E os censores somos sempre nós”. E aí Chico errou feio novamente.

O compositor confundiu feio as bolas, pois história de redação com ligação com a polícia durante a ditadura militar só existe envolvendo a “Folha da Tarde”, jornal que também foi do Grupo Folha, mas que já fechou. Mesmo esta história da “Folha da Tarde” sofreu ultimamente uma manipulação tremenda feita por petistas com a intenção de atingir a “Folha de S. Paulo”, um jornal do qual o PT e o governo não gostam. A manipulação é tão canalha que hoje em dia pode-se ver correndo na internet textos que já envolvem o próprio jornal no esquema ligado à repressão da ditadura, fazendo crer que isso era uma política de empresa, quando foi um acontecimento isolado que nada teve a ver com o jornal “Folha”. A novidade de agora é que Chico usa como alvo desse ataque a extinta "Última Hora", outro jornal que foi do Grupo Folha e que nada tem a ver com a história.

Se eu acreditasse no mito da eterna inocência de Chico Buarque até aceitaria que ele veio com esta história por descuido. Mas não caio nisso, não. Mas de qualquer forma, Chico errou de novo e desta vez se for pedir desculpas terá de ser para uma redação inteira.
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Por José Pires


Leilão de petróleo não pode


Quem é vivo sempre aparece. Mas também aparece cada coisa... A imagem é do ator Paulo Betti fazendo campanha contra o leilão do campo de Libra. A propaganda política veiculada na TV é da Federação Única dos Petroleiros, a FUP, que tem promovido manifestações contra os leilões. Não sei se o ator recebeu cachê pela filmagem, mas de qualquer forma é muito estranho que agora ele venha com isso.

Paulo Betti foi quem disse uma frase que ficou marcada na nossa história política recente e é quase como um slogan do projeto político que o PT vem implantando desde o primeiro mandato de Lula. "Não dá para fazer [política] sem botar a mão na merda", ele disse num encontro de artistas em apoio ao governo. A reunião foi em junho de 2006, na casa do então ministro Gilberto Gil, onde artistas se juntaram para dar uma força à campanha de reeleição de Lula e prestar solidariedade à cúpula do PT, que já havia sido flagrada no esquema do mensalão.

Pelo que se vê, para Paulo Betti não tem problema algum botar a mão na merda para fazer política. Botar a mão no petróleo é que não pode.
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Por José Pires

quinta-feira, 17 de outubro de 2013


A lição de casa do Chico Buarque

As intervenções de Chico Buarque no debate sobre a polêmica das biografias estão mais para samba de Noel Rosa: ele só dá palpite infeliz. Com um texto publicado ontem em O Globo ele arrumou encrenca até com seu editor, Luiz Schwarcz. O compositor disse que achava "justo" a indenização que a editora Companhia de Letras foi obrigada a pagar para herdeiras do jogador Garrincha, que embargaram a edição da biografia escrita pelo jornalista Ruy Castro.


Acontece que sem o trabalho feito por Ruy Castro é provável que Garrincha estivesse esquecido. A biografia, escrita depois de uma longa pesquisa, trouxe de volta o interesse pelo craque brasileiro e deu dignidade à sua imagem. No livro, Castro mostra que Garrincha nunca foi o bobalhão que acostumamos a ver apontado em histórias da crônica esportiva. Com as restrições pretendidas por Chico e seus colegas do “Procure Saber” seria impossível fazer uma biografia tão boa. Nenhuma editora bancaria os riscos. E autores sérios certamente vão se negar a trabalhar sob o monitoramento de herdeiros. Prevalecendo a posição de Chico Buarque será o fim de biografias com qualidade no Brasil.


A resposta do editor Schwarcz veio de pronto no blog da Companhia de Letras. Para ele, Chico e os outros artistas escolheram o "vilão errado" ao atacar escritores e editores. E o processo das herdeiras de Garrincha teve motivações puramente econômicas. “Com o pagamento realizado, nem a capa ou muito menos o conteúdo voltou a preocupar as herdeiras", ele escreveu.


No artigo de O Globo o compositor foi também tremendamente injusto com Paulo Cesar Araújo, autor de uma biografia de Roberto Carlos, que vem mostrando ter uma importância muito grande nesta polêmica. Araújo disse que os argumentos do “Procure Saber” são os mesmos dos processos que sofre de Roberto Carlos. Já li a biografia do cantor e nada vi que pudesse causar o sentimento de afronta que o cantor transparece. O que provavelmente deve tê-lo incomodado foi a revelação detalhada do acidente em que perdeu parte de uma perna. Este é um de seus graves problemas psicológicos. Mas nenhuma biografia do cantor pode ser levada a sério se não tocar neste e em outros assuntos perturbadores para ele.


Chico abriu o artigo afirmando que jamais foi entrevistado por Araújo, que disse que ele foi um dos artistas que deu depoimento durante as pesquisas sobre a vida de Roberto Carlos. Acontece que o biógrafo tinha a comprovação de que esta entrevista existiu. A conversa com Chico foi filmada e gravada. Essas provas foram divulgadas e já estão disponíveis inclusive na internet.


Pois nesta quinta-feira Chico enviou uma carta ao jornal desculpando-se com Araújo. Na carta ele diz que esquecera da entrevista, mas que de qualquer forma pede desculpas. Isso resolve ao menos esta questão, mas imaginem como ficaria a credibilidade de Araújo se ele não tivesse as gravações. Sendo apenas a sua palavra contra a de Chico é óbvio que o biógrafo ficaria muito mal.


Porém, os problemas de Chico Buarque não acabaram aí. O jornalista Reinaldo Azevedo pegou o assunto para analisar em seu blog no site da revista Veja e resolveu dar também uma boa corrigida na gramática do compositor. Chamou a atenção de Reinaldo a falta de sabor da prosa de Chico e também alguns erros espantosos. Ficou muito interessante o texto em que (e não "onde") ele faz esta revisão. É um desmonte do mito exatamente numa ferramenta essencial da sua fama.
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Por José Pires
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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Ameaça de corte

O jornalista Toninho Vaz foi amigo de Paulo Leminski e após a morte do escritor escreveu "Paulo Leminski, o bandido que sabia latim", elogiada biografia e se não me engano o único trabalho de maior fôlego que existe sobre a vida do escritor curitibano, que morreu em 1989, aos 44 anos. Pois a viúva de Leminski, Alice Ruiz e suas filhas, Estrela e Áurea, estão querendo censurar a biografia porque não gostam de uma parte que relata o suicídio de Pedro, irmão de Leminski. As três familiares mandaram uma correspondência à editora, que cancelou a publicação de uma nova edição que estava pra sair.

O irmão de Leminski é essencial na vida do poeta e tem presença de peso na biografia. Era o caçula, que numa crônica publicada em um jornal curitibano depois do suicídio, Leminski chama de "meu único professor de violão". A morte trágica foi uma razão de seus conflitos existenciais. É tão forte que é com a notícia do suicídio, recebida por ele do próprio Leminski ao telefone, que Vaz dá início ao emocionado livro sobre a vida do amigo.

Estrela, a filha mais nova, foi agressiva na sua página do Facebook: "Qual é a relevância de detalhes sórdidos do suicídio para uma biografia dele? Que relevância tem para a obra? Ou seria para dar um molho e vender mais?", ela escreveu, tocando numa ponto que tem sido a preocupação de herdeiros na recente polêmica sobre censura à biografias: a venda dos livros.

É uma argumentação absurda que faz crer que biografias são hoje em dia uma mina de ouro no Brasil, o que não é o caso nem de livros que tratam da vida de ídolos populares, quanto mais de artistas e escritores com uma obra restrita, mesmo que de qualidade. Escrever uma biografia é um trabalho de longo prazo e demanda custos e riscos que exigem um empenho que geralmente só acontece quando existe um interesse pessoal do biógrafo na obra da personalidade retratada.

E aí estão herdeiros de vários artistas praticamente insultando pessoas que têm feito um serviço de extrema importância pela preservação e divulgação de fatos essenciais na construção da identidade nacional. No caso da censura exigida por herdeiros de Leminski a situação é ainda pior, pois afeta um biógrafo que esteve próximo do poeta. Foi amigo dele e até hoje tem proximidade com os que conviveram com Leminski em Curitiba. Além do mais, quando Vaz se lançou na feitura da biografia nada garantia o sucesso que veio depois com a publicação. E a meu ver a biografia escrita por ele é em boa parte responsável pelo revivescimento do interesse dos leitores por Paulo Leminski.

Esta censura dos herdeiros é até uma afronta ao que o poeta construiu em vida e expressou em tudo que escreveu. Sua obra toca as pessoas exatamente pelo confronto com o conformismo e foi dessa forma também que ele viveu até o fim. A marca essencial que Leminski deixou é exatamente o contrário dessa tentativa de controle sobre o que o outro faz.
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Por José Pires

quarta-feira, 9 de outubro de 2013



Herança maldita

Uma herança política do PT que vai dar muito trabalho para o Brasil descartar no lixo da História – destino de quase todos os conceitos políticos deste partido no governo – é esta certeza obstinada de que apenas sua própria verdade tem valor e de que qualquer opinião discordante tem que ser menosprezada e atacada com agressividade, passando até dos limites da difamação e da calúnia.

É uma forma de fazer política que infelizmente parece que pegou, até porque o clima criado pela militância que gira em torno do poder parece exigir que qualquer um se comporte dessa forma intolerante, até como forma de defesa em meio a tantos ataques. Hoje em dia, quando a gente entra numa rede social corre sempre o risco de uma emboscada de algum bando militante ou até de um "camper", porque eles agem igual jogador de game que fica de franco-atirador estragando a diversão dos outros.

Dá até para compreender a tensão e agressividade que acomete tanta gente. Esta herança petista criou uma situação que pode deixar qualquer um em posição defensiva o tempo todo. Mas o problema é que muitas vezes acaba-se partindo para o ataque sobre pessoas que nada tem a ver com as táticas governistas de desqualificação de quem pensa diferente deles. Aí partem-se amizades e pode-se perder a ótima possibilidade do diálogo franco e aberto, que é o melhor que se pode tirar de um encontro com alguém na internet.

Esta herança intolerante veio de uma tática eleitoral que atualmente contamina o debate público. É coisa que nasceu do PT e foi até sistematizada e ampliada na internet, inclusive com profissionais pagos para isso. No entanto, isso já é bem antigo. É uma forma de luta política com raízes no leninismo soviético e que também foi muito usada pelos nazistas, especialmente nos esquemas criados para a ocupação do poder na Alemanha. Já foi também bastante usada no Brasil durante anos, da década de 60 até 1980, quando o Partido Comunista Brasileiro (o velho Pecezão) praticava uma política cotidiana de desmoralização de qualquer um que falasse ou escrevesse contra os interesses do comunismo.

O clima de grosserias já está aí, com muita gente pegando pesado mesmo quando o interlocutor está só querendo debater problemas que afetam a todos ou às vezes apenas ter uma boa conversa pela internet. Não podemos deixar que esta herança maldita do PT se instale em nossas mentes. E de forma alguma nos nossos corações.
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Por José Pires


terça-feira, 8 de outubro de 2013


Um político muito coerente

Um cuidado que é preciso tomar com a palavra "coerente" é que ela depende totalmente da atitude de quem sai por aí espalhando o autoelogio. Um exemplo significativo disso é Adolf Hitler, ele mesmo, o líder e criador do nazismo, que foi uma das pessoas mais coerentes que já passou pela face da Terra.

De vez em quando me aparece alguém com alguma teoria estrambótica acerca de Hitler, fazendo elaboradas teorias sobre supostas origens do grande mal que ele representou. Quase todas essas teorias pecam porque não contam com um traço de personalidade muito firme de Hitler: sua coerência.

Tudo o que ele fez na Alemanha e depois tentou impor ao resto do mundo está no livro "Mein Kampf", um documento muito claro sobre sua visão política e seus projetos como governante. Está lá inclusive o ódio absoluto pelos judeus. O livro foi publicado muito antes de sua subida ao poder, numa época que seria impossível prever que o cabo do exército que vinha de uma guerra perdida e pintor dos mais medíocres alcançaria a expressão política que conquistou.

Qualquer leitor sensato que pegasse o livro de Hitler logo que foi lançado suspeitaria do risco que havia do horror que de fato aconteceu depois. Bastava ponderar sobre a tragédia que seria o estabelecimento de um governo coerente com as ideias que autor colocou no papel. Mas acontece que "Mein Kampf" pode ser lido também como uma peça de ficção alucinada, onde impera o ódio e a desumanidade, de tal forma que indicava ser improvável que um político fosse capaz de formar um governo coerente com as barbaridades que estavam escritas ali. Mas Hitler fez isso. Afinal, ele era um político muito coerente.
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Por José Pires