terça-feira, 12 de maio de 2020

A reunião ministerial que virou prova contra Bolsonaro

Tem muita gente querendo que ministro Celso de Mello, do STF, libere o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, em que Jair Bolsonaro ameaçou Sergio Moro de demissão. Essa liberação provavelmente ocorrerá, mas a verdade é que já se sabe de quase tudo que está na gravação que serve como prova no inquérito que investiga a interferência indevida do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

O vídeo confirma o que ex-ministro disse em seu pronunciamento no dia em que pediu demissão do cargo. Bolsonaro queria proteger sua família com a troca do comando da Polícia Federal no Rio e a demissão de Maurício Valeixo. Na reunião, o presidente disse que sua família estava sendo perseguida e queixou-se de que Moro não o protegia. Este foi o motivo da mudança do superintendente no Rio e da demissão do diretor-geral da PF e do ministro Sergio Moro.

Como se costuma dizer, o presidente não foi nada republicano ao expressar seus propósitos. “Não vou esperar foder alguém da minha família”, disse Bolsonaro, segundo quem viu o vídeo. Para defender seus rebentos, ele também ameaçou trocar “todo mundo”.

A expressão que vem sendo repetida por quem teve acesso ao vídeo é que o conteúdo é “devastador” para Bolsonaro. Segundo o site O Antagonista, os advogados de Moro afirmam que o vídeo configura “prova material” do presidente para as acusações feitas pelo ex-ministro. Moro é a favor da divulgação da gravação na íntegra.

É improvável que o ministro Celso de Mello impeça os brasileiros de assistirem a algo tão especial. Ao contrário do que assessores de Bolsonaro vêm afirmando, na tentativa de impedir que o conteúdo seja tornado público, não há nada que coloque em risco a segurança nacional. O abalo será unicamente para o politiqueiro Bolsonaro e a estabilidade de seu governo desqualificado.

E para piorar a situação de Bolsonaro com um vídeo desses rodando pelas redes sociais, segundo o que se diz, a gravação traz uma cena que consagra Moro. Contam que diante das sandices ditas por Bolsonaro durante a reunião, o ex-juiz federal apenas levanta-se da cadeira e deixa a sala.

A gravação revela os bastidores de um governo tomado pela grosseria e a falta de respeito, com figuras totalmente sem limites e nem mesmo percepção de suas obrigações pelo menos com o decoro do cargo que ocupam. Certas falas que já vazaram não têm relação com o objeto da investigação, mas certamente também causarão sérios danos políticos e de imagem ao governo.

Durante a reunião, a ministra Damares Alves defendeu a prisão de prefeitos e governadores. A informação é de O Globo. E o ministro Abraham Weintraub, que já tinha tido vazada uma fala sua em que xingava os 11 ministros do STF, foi bem mais além em seus despropósitos. Ainda segundo O Globo, pessoas que assistiram à gravação contam que o ministro da Educação afirmou que “tem que mandar todo mundo para a cadeia, começando pelo STF”.

Agora é só preparar a pipoca e esperar que para o bem de todos e felicidade geral da nação Celso de Mello libere o espetáculo bolsonarista. Pelo que já estamos sabendo apenas do que se conta do conteúdo da gravação, o governo de Jair Bolsonaro pode ser classificado com um antes e depois do vídeo dessa reunião de 22 de abril.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Olavo de Carvalho e suas lições contra a democracia

Existe um jargão em investigação policial, com a frase “Siga o dinheiro” indicando a origem de uma ilegalidade. Pois nas manifestações bolsonaristas cada vez mais doidas que ocorrem no país parece que a pista para saber de onde vem as orientações é “Siga o Olavo”.

Isso é o que dá a entender a ativista de direita Sara Winter, que já teve até cargo nomeado na equipe de Damares Alves, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Vejam na imagem um diálogo no Twitter entre ela e outro conhecido ativista bolsonarista, Allan Santos, do site Terça Livre.

Numa mensagem postada por Sara Winter — que na verdade se chama Sara Geromini — é possível entender de onde provavelmente são dadas as orientações para as tentativas de criar uma conturbação política no país, atiçando manifestações de rua contra o Congresso Nacional e o STF.

A dica surgiu no meio de uma discussão entre ela e Allan Santos, que tem ligação estreita com o bolsonarismo em suas altas esferas. Na resposta a uma divergência casual do responsável pelo Terça Livre, a ativista de direita que já foi da assessoria pessoal da ministra Damares entrega o mentor dos atos públicos comandados por ela.

Na tuitada ela é muito clara sobre o chefe da coisa. “Quem me pediu pra fazer tudo isso foi o prof. Olavo”, ela escreve. A ativista vem organizando um grupo de agitação política, definido como "milícia não violenta e desarmada" em defesa do presidente Jair Bolsonaro. O grupo tem o nome de “300 do Brasil” e instalou há alguns dia um acampamento em Brasília em frente ao Congresso Nacional, quando um jornalista sofreu agressão física. O acampamento é alvo de representação no MPF.

A linguagem usada é de tom militar, indicando que eles fazem cursos de doutrinação política em local não identificado. Em uma espécie de manifesto publicado na internet, o grupo comandado por Sara Winter fala em "revolução não violenta" e "táticas de guerra de informação".

A linguagem usada na convocação da militância é preocupante. Em um trecho, eles fazem o seguinte apelo: "Lembre-se, você NÃO É MAIS UM MILITANTE, VOCÊ É UM MILITAR, um militar com uma farda verde e amarela, pronto para dar a vida pela sua nação". Neste caso, mesmo com a dissimulação de não-violência, existe de fato uma semelhança o fascismo.

Movimentos como este formado por Sara Winter costumam ter em seu início uma aparência patética. Geralmente caem na gozação, mas existem terríveis acontecimentos históricos que servem como alerta de que a sociedade civil tem que levar a sério este tipo de movimento, que com o tempo pode crescer e adquirir maior poder de conturbação política, servindo de suporte para planos autoritários. Com o projeto de ditador que é Jair Bolsonaro, cabe ter todo cuidado.

E como a própria comandante de mais essa provocação pública bolsonarista já postou no Twitter a dica sobre a origem da ideia, convém ter ainda mais atenção ao despropósito. O sujeito que pediu a ela “pra fazer tudo isso” não costuma ter plano algum favorecendo a democracia. Se a proposta vem do “prof. Olavo”, como ela diz, então coisa boa pro Brasil é que não é.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O misterioso vídeo da reunião de Jair Bolsonaro com Sergio Moro

Qual seria a razão para Jair Bolsonaro tentar de tudo para evitar a entrega ao STF da gravação em vídeo na íntegra da famosa reunião ministerial do dia 22 de abril? O vídeo foi citado pelo ex-ministro Sergio Moro em depoimento à Polícia Federal no último sábado. Nesta reunião, Bolsonaro teria pressionado Moro para que fosse feita a troca na diretoria-geral da PF, quando o ex-juiz da Lava Jato recusou e os dois teriam tido um ríspido diálogo, com o presidente ameaçando demitir o ministro.

Logo depois da demissão de Moro, o papudo Bolsonaro disse que iria divulgar o vídeo da reunião. Claro que ele planejava editar a conversa para prejudicar Moro, o que demonstra sua dificuldade de avaliação. Como é que alguém poderia acreditar que Moro citaria para a PF um material que poderia ser convertido em prova contra ele próprio?

Bolsonaro acreditava nisso, mas pelo jeito deve ter sido avisado por alguém de que mesmo com edição do conteúdo ele não ficaria bem na fita, favorecendo seu ex-ministro, que acabou pedindo demissão, não sem antes fazer uma impactante apresentação à imprensa de suas razões para sair do governo.

Mas a coisa se complicou mesmo depois que o ministro Celso de Mello, do STF, incluiu o vídeo como uma das provas no inquérito que apura a ingerência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

E agora Bolsonaro procura evitar a entrega ao STF. Já apareceu até a conversa de que o vídeo teria sido apagado, uma versão que provavelmente Celso de Mello não vai engolir. Aos poucos, o conteúdo da reunião também vai sendo revelado, o que vai contribuindo para entender o pânico criado no Palácio do Planalto com a possibilidade dos ministros do STF assistirem a uma boa mostra do que vem acontecendo nos bastidores desse governo absolutamente inacreditável em sua grosseria, burrice e risco para o Estado de Direito.

No popular, quem não deve não teme. O fato de Bolsonaro não querer entregar o vídeo fez aumentar o interesse pelo conteúdo da reunião de maiorais de seu governo. O Estadão contou que além da demissão do diretor-geral da PF, na reunião o presidente disse que entregaria cargos ao Centrão. Segundo o jornal, Sergio Moro “teria demonstrado discordância”. Sem dúvida, esta parte Bolsonaro faria questão de excluir.

O interesse especial do presidente pela superintendência da PF no Rio de Janeiro, além da blindagem dele e dos filhos seria também por que o presidente queria informações sobre seus principais adversários políticos no Rio. Entre os alvos estaria o governador Wilson Witzel. Moro e Maurício Valeixo, então diretor-geral da Polícia Federal, foram contrários a este uso indevido da PF. Esta informação saiu na revista digital Crusoé desta semana.

Já se sabe também que a reunião teve bate boca e palavrões. O ministro da Fazenda, Paulo Guedes, discutiu aos gritos com Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, em divergência referente a gastos públicos na retomada da economia após a pandemia do coronavírus. Corre a notícia de que Marinho quer o lugar de Guedes no Ministério da Economia.

O jornal O Globo descobriu que Bolsonaro estava de “péssimo humor” e deu uma bronca generalizada nos ministros. Houve também muitas críticas à China. E como bom furdunço, não podia faltar a presença de Abraham Weintraub. O portal UOL afirma que o ministro disse na reunião que o STF é composto por “onze filhos da puta”. Claro que por enquanto tudo não passa de conjecturas, mas basta Bolsonaro mandar o vídeo na íntegra para o ministro Celso de Mello que tudo poderá ficar bem esclarecido.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

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Imagem- A reunião que pode ficar para a história; no destaque, o cinegrafista que
gravou o vídeo que o STF quer muito assistir

A crise do coronavírus de mal a pior

Seis estados brasileiros já vivem situação de colapso hospitalar. A superlotação atinge inclusive a rede particular. A informação é do presidente da Confederação Nacional de Saúde, Breno Monteiro, e foi publicada em O Globo, nesta sexta-feira.

Os estados praticamente em colapso são Amazonas, Pará, Ceará, Pernambuco, Maranhão e rio de Janeiro Quatro deles estão entre os cinco estados com maior número de mortes pela Covid-19, como Rio de Janeiro (1.205), Ceará (848), Pernambuco (803), Amazonas (751). O mais atingido é São Paulo, com 3.045 mortes.

O dirigente da Confederação Nacional de Saúde, disse que o impacto do Covid-19 foi sentido mesmo na rede privada, acostumada a trabalhar com um nível de ociosidade maior que o SUS. Segundo Monteiro, ter 90% de UTI ocupadas, com pacientes disputando leitos, já configura uma situação de colapso, ainda mais em meio à pandemia.

O presidente da confederação patronal é médico e mora em Belém, um dos lugares que mais sofre com o baque na estrutura de saúde. Ele conta que vive uma situação difícil em seu estado. “É muito triste ver as pessoas, ver conhecidos, implorando por leito, seja na rede pública ou privada”, ele diz.

O desastre provocado pela Covid-19 não tem limite de classe. O médico fala com palavras parecidas ao que a gente ouve em matérias jornalísticas de televisão, de parentes de vítimas lamentando com desespero a impossibilidade de fazer qualquer coisa para que as pessoas sejam salvas.

O desamparo atinge a todos. E do mesmo modo que era previsto que a situação chegaria a este nível desesperador, os prognósticos de especialistas também são muito ruins para os próximos dias.
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POR José Pires

Coronavírus e Bolsonaro: dois problemas que se completam

No depoimento à Polícia Federal de Sergio Moro existem razões sólidas para dar encaminhamento ao impeachment de Jair Bolsonaro, embora sua retirada do governo pela via democrática não exija as acusações surgidas do rompimento com o seu ministro mais popular. O presidente já havia aprontado bastante, antes de Moro apontar a interferência do presidente na nomeação da direção da Polícia Federal no Rio de Janeiro e a exigência da demissão do diretor-geral da Polícia Federal.

O crime de responsabilidade já basta como motivo de impeachment de um presidente. Porém, a pergunta que se faz é como abreviar o mandato de Bolsonaro em meio a uma pandemia do coronavírus, o que para mim é uma falsa questão. É mais razoável avaliar a tremenda dificuldade de enfrentar uma crise sanitária mundial muito grave em décadas, estando sob o comando de um comprovado incapaz, que ainda por cima parece ter sérios problemas psicológicos.

Ninguém sabe qual será a duração da pandemia, do mesmo modo que ainda não se tem conhecimento suficiente sobre a ação deste vírus. No entanto, desde o início da pandemia Bolsonaro vem se colocando contra os procedimentos que até agora servem no combate à propagação da doença, os únicos que conseguem conter o contágio, evitando ou ao menos amenizando o colapso no sistema público de saúde.

A ação contínua do presidente para atrapalhar o empenho dos brasileiros no combate ao vírus pode ser comparada a de um quinta-coluna, que é o sujeito infiltrado entre combatentes para colaborar com o inimigo. E o vírus vem sendo favorecido por Bolsonaro, com mais mortes do que poderia ter ocorrido se o presidente da República trabalhasse pela união dos brasileiros e não fosse o estimulador do boicote ao isolamento social e de uma desordem política que atrapalha tudo.

Se no Brasil não tivéssemos este presidencialismo com ares lamentavelmente imperiais há meses Bolsonaro já teria tido a queda democrática de seu governo, levando com ele toda sua equipe de figuras de uma incapacidade que não se via há tempos na política brasileira. E de qualquer modo é uma triste injustiça que este sujeito nefasto vá sendo poupado por uma tragédia que ele mesmo atua deliberadamente para agravar.

Bolsonaro vai acabar tendo que arcar com a responsabilidade da terrível quantidade de mortes previstas nesta crise, sendo exatamente esta trágica conta que vem sendo colocada por alguns como o fator que abriria caminho para o impeachment. Ora, esperar o agravamento da pandemia para resolver uma questão política muito grave — punindo um sério crime de responsabilidade de um presidente — vai tornar o impeachment ainda mais traumático, pois dessa forma a queda de mais um presidente estará ligada ao drama da dependência do número de mortos causada exatamente pela sua irresponsabilidade e incompetência.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

sábado, 2 de maio de 2020

O Brasil na boca do amigão Trump

Donald Trump vem falando bastante do Brasil e para o azar de Jair Bolsonaro não são coisa boas que encaixam nosso país na pauta do presidente americano. Trump se diz preocupado com o avanço do coronavírus no Brasil. O presidente chegou a sugerir a suspensão de voos entre os dois países ao governador da Flórida, Ron De Santis. O governador recusou a proposta, evitando mais este desgaste para o Brasil.

Trump voltou ao assunto pelo menos outras duas vezes, numa delas apontando o número de casos de coronavírus por aqui, dizendo que é muito alto. “Se você olhar os gráficos, quase todos apontam para o alto”, ele disse.

Não dá para saber exatamente qual o objetivo de Trump ter pego o Brasil como exemplo de país altamente infectado. Claro que a situação do nosso país é muito difícil. Em números novos de casos apenas os Estados Unidos estão à frente dos números brasileiros, com o registro de mais de 5.000 casos confirmados de Covid-19, com mais de 400 mortes diárias.

Até o nosso evasivo ministro da Saúde, Nelson Teich, já disse que em poucos dias o número de mortes diárias poderá chegar a mil. Só alguém muito fanático pelo bolsonarismo vai negar que, de fato, vivemos dias muito difíceis. No entanto, qual governante iria querer que Donald Trump fique falando disso para o mundo o tempo todo?

Numa das entrevistas em que falou do enorme perigo do coronavírus no Brasil, Trump afirmou que “poderia ligar” para o presidente brasileiro neste fim de semana. Bem, caso ele dê mesmo um alô, mesmo se Bolsonaro não conseguir convencê-lo a parar com essa conversa, que pelo menos acabe com a nossa curiosidade de saber o motivo dele ficar ressaltando pelo mundo a imagem do Brasil como um país infectado.
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POR José Pires

O bolsonarismo na onda petista do "É golpe!"

O bolsonarismo sempre foi muito parecido com o petismo, como pode-se constatar no comportamento de idiotas de ambos os lados nas redes sociais, onde atuam como um espelho em matéria de fanatismo e agressividade. Pois agora o bolsonarismo está usando até o bordão do PT, que gritava “É golpe!” para se defender do impeachment de Dilma Rousseff.

Como se sabe, para o PT não deu certo, mesmo com toda estrutura política historicamente mantida pelo partido do Lula, com seus sindicatos aparelhados, a forte penetração em várias instituições, o domínio político e cultural nas universidades, enfim todo o esquema de poder construído durante décadas.

Para um movimento como o dos bolsonaristas, que se dilaceram feito hienas em brigas infernais até entre eles, funcionará menos ainda essa tentariva de espalhar pela internet a narrativa falsa de que é um golpe a reação que se arma na sociedade civil brasileira para eliminar democraticamente um grave estorvo para o país sair da crise terrível que já vinha da absoluta incompetência de Jair Bolsonaro, incapaz de organizar um governo até mesmo nas suas mais ordinárias obrigações.

Para atacar medidas de prefeitos e governadores no combate ao coronavírus, Bolsonaro vive falando em “volta ao trabalho”, mas trabalho onde? Antes do coronavírus, com já mais de um ano de mandato de Bolsonaro, seu governo não havia recuperado significativamente os empregos perdidos no governo de Dilma. O primeiro ano de governo terminou com um PIB inferior ao do período de Dilma e Temer, no que ficou conhecido como o pibinho de Bolsonaro.

Claro que não é apenas pela impressionante incapacidade de Bolsonaro que a ideia de um impeachment foi crescendo entre os brasileiros. Infelizmente no regime presidencialista um governo não cai pela incapacidade, senão Bolsonaro já teria sido obrigado a ir para casa com poucos meses de mandato. No entanto, foram aparecendo vários motivos legais para a abertura de um processo.

Nos últimos dias, com sua demissão o ex-ministro Sergio Moro trouxe outras razões relevantes para o impeachment, como a planejada intromissão pessoal de Bolsonaro na Polícia Federal, que o espertalhão do presidente ainda confirmou depois, de própria voz, em uma das suas amalucadas aparições.

Moro tem depoimento marcado neste sábado na PF, exatamente sobre suas acusações, que foi o que deu impulso aos bolsonaristas para imitar o bordão petista do “É golpe!”. Os seguidores de Bolsonaro criaram as hashtags “golpe de Estado” e “golpe do STF”. E na manhã deste sábado, na frente do Palácio da Alvorada, onde faz aqueles ridículos comícios improvisados, Bolsonaro disse que “ninguém vai tentar dar golpe”.

O circo da direita brasileira está ficando cada vez mais animado e cada vez mais parecido com os espetáculos do PT quando houve o impeachment de Dilma. Como eu já escrevia uns dias atrás, será muito mais engraçado quando o bolsonarismo tiver que lançar também o seu “Bolsonaro livre!”.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O drama do coronavírus no país de um presidente negacionista

É muito triste o desespero que tomou conta de Manaus pela impotência em deter a mortandade causada pelo coronavírus. O prefeito da capital amazonense, Arthur Virgílio Neto (PSDB), disse o seguinte, em entrevista publicada nesta sexta-feira em O Globo: “A gente está vendo cenas de filme de terror”.

O cenário dramático se repete em vários estados. O Pará entrou em estado de alerta depois de o número de mortes ter quadruplicado em apenas uma semana. Somente no dia de ontem foram registradas 68 vítimas fatais do Covid-19. O total de mortes até agora é de 244. Os hospitais do estado estão no limite. Até o governador foi infectado pelo vírus.

O Piauí fechou suas fronteiras com o Ceará, estado que registra maior índice de casos confirmados de Covid-19 no Nordeste. O governo decretou calamidade e criou barreiras sanitárias nas divisas com outros estados. Os piauienses estão em quarentena oficial até 21 de maio.

No Maranhão houve uma corrida aos supermercados depois do anúncio de lockdown no próximo dia 5. A capital São Luís e mais três municípios maranhenses terão todas as atividades suspensas, mantendo aberto apenas o que é essencial.

O desespero faz sentido. Não se pode prever exatamente como a situação do país estará nos próximos dias, mas não resta dúvida de que o pior está por vir. Quando até um sujeito completamente evasivo como este novo ministro da Saúde diz que o número de mortos pode chegar a mil por dia, então é melhor se precaver e não levar a sério de forma alguma o tresloucado presidente Jair Bolsonaro em seus apelos para que se rompa de vez o isolamento social.

Em Manaus, o prefeito Arthur Virgílio Neto disse que na última segunda-feira houve o enterro de 142 pessoas, das quais das quais 28% morreram em casa. É quase um terço.

“Não sei se essas pessoas morreram porque se automedicaram, não tiveram acesso a atendimento ou se porque acharam que, como disse o presidente, era só uma gripezinha”, ele disse, apontando a influência da irresponsabilidade de Bolsonaro no quadro aterrador — “sinistro mesmo”, ele diz — na sua cidade.

Arthur Virgílio disse também que falta o auxílio do governo federal. A capital amazonense está racionando até remédios. Até agora não apareceu nenhuma ajuda do governo Bolsonaro. Ele se queixa também da ausência do Ministério da Saúde, o que não acontecia na época de Luiz Henrique Mandeta, que segundo o prefeito “se fazia presente”.

Em meio a uma dramática pandemia, estados e municípios brasileiros contam apenas com seus próprios meios, enquanto o presidente Jair Bolsonaro, que deveria comandar um esforço nacional no combate ao coronavírus, faz sua bagunça política e tenta jogar a culpa pela crise exatamente sobre os dirigentes públicos que estão mais empenhados na batalha sanitária.

Com a previsão de um agravamento dessa doença e diante de um Governo Federal ausente só vai restar a prefeitos e governadores apelarem pela ajuda de organismos internacionais, como a ONU, ou mesmo para governos estrangeiros.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

Paulo Guedes, um ministro descuidado com o combate ao coronavírus

Prefeitos e governadores que se empenham no combate ao coronavírus estão numa situação difícil, no desamparo provocado pelas atitudes de Jair Bolsonaro, um presidente negacionista isolado no mundo, que nos últimos dias vem levando pitos até de Donald Trump, ironicamente o grande inspirador que o levou a tomar o caminho equivocado da negação da gravidade do coronavírus, até agora a única medida encontrada para o controle da contaminação, com a comprovação científica na prática: a consequência foi grave onde essa medida deixou de ser tomada, com melhores resultados em lugares qwue adotaram o isolamento.

Bolsonaro insiste no erro, mesmo com a mudança de atitude do presidente dos Estados Unidos, que não avaliou acertadamente o enorme risco para o seu país do vírus que assolava a Europa, depois de ter surgido na China e matado muita gente por lá. A experiência direta com a mortandade em território americano, atualmente na casa das 60 mil vítimas fatais, obrigou Trump a uma revisão de sua visão, digamos, científica.

O governo de Trump mudou completamente de rumo, acionando mecanismos econômicos contrários a tudo o que ele pensa sobre a ação do Estado. Provavelmente sem saber quem foi John Maynard Keynes, o presidente americano deu uma guinada keynesiana espetacular.

Trump não é besta de manter-se ajoelhado à chamada mão invisível do mercado, quando uma força invisível e destruidora acaba com a vida de milhares de seus concidadãos. Só no Brasil economistas conservadores fazem de conta que não sabem que os mercados não se corrigem sozinhos diante de crises severas e para o azar de Bolsonaro ele tem ao seu lado o pior tipo de mente ortodoxa, a do ministro Paulo Guedes, que nunca teve capacidade de formulação de qualidade na sua área. Não é desse ramo.

Guedes fez carreira na especulação do mercado financeiro, ficando apenas nisso. Não escreveu livros, não tem um artigo sequer de importância sobre o tema. Em matéria de economia, seu status de qualidade como um “Posto Ipiranga” só existe na cabeça de um ignorante como Bolsonaro.

Guedes não conhece o país nem a economia brasileira, tanto é assim que teve que tomar conhecimento na marra que seu plano de acabar com certos direitos que assistem aos mais pobres iria demolir de imediato a economia de uma porção de municípios brasileiros, arrasando regiões inteiras que vivem do dinheirinho pingado na mão de cada cidadão.

No plano desse gênio econômico comparado por Bolsonaro a uma propaganda de posto de gasolina passava-se a tesoura, por exemplo, no Benefício de Prestação Continuada, o BPC, de amparo aos mais velhos. Por ele, acabava-se também com a aposentadoria rural.

O ministro foi avisado que medidas como essa acarretariam a falência de muitos municípios e deve ter ficado bastante surpreso com esta informação econômica que escapou à sua genialidade. Mas entende-se. Como é que um liberal de mercado que vive com a cabeça fora da realidade brasileira iria saber de uma conseqüência que até um vereador de cidade pequena do nordeste conhece desde pequeno?

Nunca se deve esquecer que o Guedes é um liberal econômico que não vê problema algum em liberar as forças do mercado enquanto um ditador mantém um país submetido à força bruta. Seu modelo de liberdade econômica convive muito bem com o terror de um Augusto Pinochet.

Claro que uma visão estreita dessas atrapalharia o combate ao coronavírus. Para um achatamento mais eficiente da curva de contaminação governadores e prefeitos necessitavam do apoio econômico que não tiveram desde o início da crise, inclusive com um planejamento nacional sobre organização para enfrentar o que virá depois, na desestruturação causada pelo vírus.

O ministro não só deixou de ajudar como trabalhou contra. Manteve uma atitude de desestímulo, que pretende ampliar, ajudando Bolsonaro a enfraquecer adversários políticos. Não quer repor de jeito nenhum a receita dos estados, algo que na prática serve para penalizar exatamente os governadores mais atuantes contra o coronavírus.

É um inferno atravessar uma pandemia com um presidente lançando perdigotos com sua retórica manipuladora de quinta-coluna, atrapalhando o esforço dos brasileiros para evitar o espalhamento de um vírus mortal e desestabilizador socialmente. Mas a hesitação de Guedes (se é que foi apenas hesitação) também prejudicou bastante e foi providencial para os planos de Bolsonaro de estigmatizar dirigentes públicos que não aceitam sua visão de que é preciso simplesmente aceitar a matança produzida pela pandemia.

No início de março, Guedes ainda negava os efeitos econômicos do coronavírus, fechando os olhos para a quebradeira que assolava a Europa e já havia abalado a economia chinesa. Sabe-se que ele teve que ser convencido por pessoas mais próximas de que sua visão de austeridade não se encaixava numa crise inédita criada globalmente pela pandemia. Ele demorou quase duas semanas para entender a dimensão do problema, desde o primeiro grande impacto na economia mundial, na primeira semana de março.

Em março, espantosamente o ministro ainda falava em corte de despesas e a aprovação das reformas de ajuste fiscal, procurando convencer que esta seria a melhor resposta aos problemas econômicos provocados pelo vírus. Ele foi o um dos últimos dirigentes da área econômica no mundo a começar a se mexer para atuar contra os efeitos da pandemia, sem ter tido a capacidade de compreender a necessidade do apoio efetivo do ponto de vista econômico nas ações de controle da doença, essencial para lidar com as conseqüências na economia.

Não se sabe ainda se o descuido de Guedes com o coronavírus foi pela dificuldade em compreender a questão, causada pela sua formação pessoal, ou foi mesmo de má-fé, em um boicote parecido ao que seu chefe vem fazendo.

Qualquer opção é muito desabonadora, ambas o desqualificam para um cargo público de destaque em um país sofrendo pesadamente os efeitos de uma pandemia de efeito trágico, como se viu poucas vezes desde os grandes sofrimentos em massa provocados pelas duas guerras mundiais do século passado. Claro que um sujeito desses não tem condição de comandar a economia brasileira em meio à desestruturação mundial que virá depois do controle dessa doença.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

quinta-feira, 30 de abril de 2020

O bolsonarismo na zombaria à dramática crise do coronavírus

Dentre as barbaridades do bolsonarismo sobre o coronavírus destaca-se uma idiotice dita pela deputada Carla Zambelli que em entrevista no programa Pânico, da rádio Jovem Pan, disse que quer logo ser contaminada pelo vírus. Ela disse o seguinte: “Eu queria abraçar alguém com o coronavírus pra pegar logo e tirar isso da minha cabeça”.

Embora seja uma afirmação idiota demais até para alguém da bancada do “E daí?”, do Bolsonaro, ela disse mesmo essa bobagem. Já fui conferir. Carla acredita também que tomaria a cloroquina e logo estaria livre da angústia causada pelo vírus. É sério: foi o que ela falou. Também conferi.

Bem, a deputada bolsonarista poderia resolver sua ansiedade pedindo uma audiência e dando um abraço no governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que voltou a testar positivo para a Covid-19. Witzel havia anunciado no dia 14 de abril que estava infectado pelo novo coronavírus e agora fez outro teste que deu positivo novamente.

A situação de Witzel mostra que esta doença não é tão simples como pensam os insensatos conduzidos por Bolsonaro. Imaginem a angústia — aí sim com uma aflição verdadeira — de alguém que pega este vírus e a doença não passa, como vem acontecendo com o governador e tantos outros brasileiros.

Figuras como a deputada Carla Zambelli e também os otários direitistas que repassam esse descaso do presidente do “E daí?” pelo coronavírus nas redes sociais estão na prática zombando do sofrimento de seres humanos que sofrem com uma doença que não permite nem o consolo ao paciente de ter um apoio pessoal ao lado da cama de hospital e em caso de morte não permite nem a presença de amigos e parentes no enterro.
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POR José Pires

Bolsonaro, um presidente sem embaixador no país de Donald Trump

O problema do coronavírus serviu para revelar que o Brasil ainda não tem embaixador nos Estados Unidos. Como se sabe, o presidente Jair Bolsonaro queria nomear para a embaixada em Washington o seu filho, deputado Eduardo Bolsonaro, conhecido como Eduardo Bananinha, mas teve que voltar atrás diante da dificuldade na aprovação no Senado.

Nesta quarta-feira apareceu no noticiário Nestor Foster, substituto no cargo que Bolsonaro sonhava para o filho. Foster surgiu com um pedido por carta ao governador da Flórida, Ron De Santis, para que não sejam suspensos os voos entre os Estados Unidos e o Brasil.

Foi uma tentativa de amenizar o desgaste do governo Bolsonaro depois que o presidente Donald Trump, em encontro com De Santis, disse que se houver um pedido do governador  o governo americano pode restringir os vôos para o país. Na ocasião, Trump disse que estava preocupado com o avanço do coronavírus no Brasil e a dificuldade do governo brasileiro no controle da contaminação.

Bolsonaro vivia se gabando das relações próximas com Trump e do presidente americano ter a maior simpatia pelo seu filho que, ainda segundo o presidente, “é amigo de familiares dele”. Pelo visto, faz tempo que ele e o deputado Bananinha não conversam com o poderoso amigão.

Na divulgação da carta da embaixada brasileira ao governador da Flórida, Foster aparece como “chefe da embaixada brasileira em Washington”. É que Foster foi aprovado para o cargo de embaixador, mas seu nome passou apenas pela Comissão de Relações Exteriores do Senado, faltando ainda ser ratificado pelo plenário da Casa.

Isso mesmo: Jair Bolsonaro se gaba das relações especiais com Donald Trump, mas já com quase um ano e meio de mandato seu governo ainda não tem oficialmente um embaixador no país do amigão americano.
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POR‌ ‌José‌ ‌Pires‌

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Imagem- O deputado Bananinha em reunião com o presidente Donald Trump, em março do ano passado, quando ele esteve no Salão Oval da Casa Branca, ocupando o lugar do chanceler brasileiro Ernesto Araújo. Claro que Bananinha estava lá oficialmente como filho do presidente brasileiro.

Nelson Teich, um ministro sem explicação

Algo que não se pode negar ao ministro da Saúde, Nelson Teich, que substituiu Luiz Henrique Mandetta no cargo, é a intranquilidade que ele passa toda vez que fala em público. Com a falta de firmeza do ministro ficamos todos inseguros. Ele nada traz de efetivo sobre o que afinal o governo de Jair Bolsonaro faz para enfrentar o coronavírus, principalmente sobre o planejamento governamental para ao menos controlar a dramática situação que já se prevê com o avanço da doença em vários estados.

Sua condição desde que assumiu o cargo parece ser a de quem está tomando conhecimento da situação. Isso inclusive é o que ele costuma dizer. Bem, independente de apenas há duas semanas ter aceitado fazer uma substituição decidida de forma irresponsável por Bolsonaro, como profissional da área esperava-se que Teich estivesse mais informado sobre o combate ao coronavírus.

Além disso, que se saiba é Bolsonaro que não tem capacidade de ler e interpretar documentos, conforme ele mesmo disse, alegando que não consegue ler textos de vinte (eu disse vinte) páginas. Espera-se de um ministro da Saúde mais dinamismo na leitura e, claro, capacidade de interpretação.

A reunião virtual de Teich com os senadores foi nesta quarta-feira, dia em que o Brasil bateu um recorde de mortos, com 474 vítimas fatais. Na videoconferência, o ministro não conseguiu dar respostas a perguntas objetivas dos senadores. Tampouco fez uma explanação mais explicativa sobre os afazeres oficiais da sua pasta.

Teich não trouxe dados importantes sobre ações do ministério, tendo dificuldade de esclarecer qual é a condição atual no Brasil do grave problema que causa medo nas cidades brasileiras, as ações planejadas pelo governo e o que tem sido colocado em prática no âmbito nacional. O ministro não conseguiu sequer responder quais são três ações concretas do governo federal no combate ao coronavírus. Perguntado objetivamente sobre isso, não falou nem de uma.

A videoconferência promovida pelo Senado deixou a impressão de que seria mais esclarecedor se em vez de dar respostas o ministro Nelson Teich fizesse perguntas aos senadores.
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POR José Pires

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O bolsonarismo e seu incorrigível hábito de piorar o que já não vai bem

Corre pela internet uma espantosa movimentação contrária à ideia do isolamento social como medida de tentativa de controle da contaminação do coronavírus. Este movimento tem um motor bem azeitado, com a máquina de comunicação bolsonarista fabricando fake news e uma tremenda desinformação que provoca um comportamento social de desunião entre os brasileiros, do confronto violento para agredir e desmerecer quem pensa de forma diferente.

Tudo bem, sem a discussão de ideias é difícil fazer algo direito, mas isso precisa ser feito de forma horrorosa? Já vimos algo muito parecido vindo da esquerda e agora temos o mesmo incômodo provocado pela direita, espantosamente de forma mais agressiva do que era feito pelos petistas. E agora tem o problema adicional dessa chateação se dar em meio a uma pandemia que não se sabe ainda exatamente como fazer nem o controle de danos.

Este vírus é uma incógnita, tanto na sua transmissão aos humanos como no comportamento nos diferentes organismos. A cada dia surgem mais hipóteses, sempre muito preocupantes, deixando as pessoas com mais medo, nessa condição absurda em que fomos envolvidos, em um mundo em que dá medo até tocar com a mão o corrimão de uma escada.

Na minha opinião, cabe sim ter a maior prevenção em relação ao vírus, sendo que neste caso já se tem vasta experiência de que o isolamento é que permite amenizar o trágico efeito da doença. Neste caso não dá para ter dúvida: países que não fizeram isso acabaram tendo péssimos resultados, com muita contaminação e mortes. Tudo bem, sei que pode haver divergências, mas o debate só será produtivo se for feito com equilíbrio, até pelo fato de que não é possível desconhecer que o país enfrenta um inimigo em comum: o coronavírus.

Já é grande demais a intranqüilidade causada pela doença para que tenhamos que suportar também esta beligerância insensata, colocada por bolsonaristas também sobre esta questão. Ora, em uma situação tão difícil no aspecto sanitário e econômico, ainda mais em um país que já vive há décadas em uma trágica desestruturação, evidentemente é melhor que seja aplicado o óbvio, que é a união para enfrentar objetivamente um problema com um terrível impacto atual e duras consequências que vão exigir muito trabalho por muitos anos à frente.

Creio também que como a contaminação e mortes já causam muito sofrimento entre nós, aqui no Brasil, é no mínimo razoável que se tenha compaixão com as vítimas e as pessoas que vivem diretamente nesta dramática situação. E esse comportamento de respeito humano não vem sendo observado entre os que apóiam a visão equivocada de Jair Bolsonaro, em seu conturbado governo.

Ao contrário, em ações espelhadas no comportamento lamentável do presidente, o que se tem é uma triste desumanidade que chega ao desrespeito pessoal, sem o sentimento de compreensão pelas perdas em vida e a condição terrível provocada mesmo entre os que se curam de uma doença que exige total isolamento dos pacientes e não permite nem rituais funerários.

União entre os brasileiros, senso de humanidade, compaixão, respeito pelo próximo em suas dores e nos temores sobre um risco invisível que não permite mais nem o abraço nos amigos ou o carinho nas pessoas que amamos. Será que é tão difícil ter um comportamento digno em meio a uma pandemia?

De virulência já basta a do próprio vírus. Ninguém precisa ser horrível como este insensato presidente. Esta é a receita para estes tempos difíceis. No enfrentamento deste colossal problema em um momento tão difícil para todos os brasileiros, creio que cabe ter em mente o poema emocionante de John Donne e ouvir o dobrar dos sinos pelos mortos sabendo que eles dobram por todos nós.
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POR José Pires

terça-feira, 28 de abril de 2020

Carla Zambelli, Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson: a base que garante o futuro de Bolsonaro

Só mesmo rindo com as análises que saem por aí sobre o futuro do governo de Jair Bolsonaro. Este governo simplesmente acabou, mesmo no âmbito ordinário da política local, bastando observar as figuras da sustentação pretendida por Bolsonaro depois do desmoronamento total da sua base, com o destaque para Valdemar da Costa Neto e Roberto Jefferson, notórios mensaleiros metidos até o pescoço nas falcatruas dos governo de Lula e Dilma Rousseff e mesmo depois, com a entrada de Michel Temer tomando o lugar de Dilma.

Alguém sabe de um governo que tenha adquirido solidez com essas mãos solidárias? E junto com essas complicadas adesões, Bolsonaro terá de administrar politicamente o que restou da sua base política, que nunca foi grande coisa, mas decaiu bastante, sobrando para ele figuras políticas de pouca experiência política, sem a mínima inteligência política e até mesmo com dificuldades de compreensão que pelo menos, em tese, simplesmente por serem adultas, não deveria lhes faltar.

Uma delas é esta deputada Carla Zambelli, a articulada intermediária de Bolsonaro no convencimento ao então ministro Sergio Moro, para que ele aceitasse negociar com o presidente a mudança do comando da Polícia Federal, substituindo o diretor-geral Maurício Valeixo por Alexandre Ramagem, amigão da família Bolsonaro.

Todos sabem que a história terminou com a demissão de Moro, que revelou depois as mensagens da deputada bolsonarista pedindo que ele aceitasse a troca de Valeixo por Ramagem (que ela escreve erradamente “Ramage”), recebendo para isso uma vaga no STF.

A genial articuladora então mostrou-se surpresa de saber que suas mensagens foram printadas por Moro. De fato, realmente é surpreendente que um ex-juiz federal da Lava Jato, com duas décadas como protagonista de importantes investigações contra a corrupção política e o crime organizado tenha o hábito de documentar o que acontece no seu cotidiano, até mesmo as trocas de mensagens com uma parlamentar da base de um presidente que todo mundo sabia que estava pronto para dar-lhe uma rasteira.

Mas se alguém ainda tem dúvida de que Carla exige de Bolsonaro um cuidado que o presidente não tem capacidade de dedicar nem a si próprio, nesta terça-feira ela trouxe mais uma, digamos, pérola política da sua especialidade. Em entrevista à rádio Jovem Pan, com ataques pesados ao ex-ministro Sergio Moro, a deputada dedicou também algumas palavras ao ministro Alexandre Moraes. “Sobre o Alexandre de Moraes, me desculpa, mas às vezes acredito que a ligação dele com o PCC era verdadeira”, ela disse.

Isso mesmo: a parlamentar mais próxima atualmente do presidente da República associou um ministro do STF a uma das facções mais perigosas do crime organizado. E cabe contextualizar um pouco mais a ousadia desta mulher que não só não teme como até gosta de correr riscos. Alexandre Moraes é relator do inquérito do STF sobre fake news, um dos maiores problemas do presidente Bolsonaro, com investigações no rastro dos seus filhos. Moraes relata também outra encrenca grave do governo, que pode atingir diretamente o presidente: as virulentas manifestações bolsonaristas a favor do AI-5 e contra o STF.

Ninguém vai negar que é muito singular a técnica de diálogo político da deputada bolsonarista. É com coisas desse porte que vai sendo elaborada a sustentação do futuro do governo de Jair Bolsonaro, cujo sucesso depende até de chefes mensaleiros que saem dos obscuros bastidores da política para destacar-se como, digamos, neobolsonaristas. Só não ri de um horizonte político desses quem está totalmente por fora ou é pago para fingir que tudo vai dar certo.
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POR José Pires