segunda-feira, 9 de março de 2009

PAC eleitoral

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sobre excomunhão

Um comentário de Newton Moratto, postado no texto que escrevi sobre as retrógadas ações do arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, traz informações escarecedoras sobre o ato da excomunhão na Igreja Católica. Moratto escreve usando como referência as intervenções recentes de Janer Cristaldo nesta polêmica. Cristaldo publica um blog, que hoje é um dos um do melhores da internet. No texto de Cristaldo, que pode ser acessado por aqui, você pode encontrar outras informações muito importantes sobre o tema, sendo ele um conhecedor da história das religiões. Vamos ao comentário do Moratto:

Esta história (que mais parece uma estória) é de doer mesmo. Então você não sabe como funciona esse negócio de excomunhão? Não creio que esteja muito preocupado com isto. Bem eu sei.

Contudo, o há pouco lembrado por você, Janer Cristaldo, num texto escrito logo depois do teu procurou esclarecer, e parece, ao menos em parte, que sabe como as coisas acontecem nos porões da igreja católica. Veja o que Janer diz:
"Mas não se preocupem os excomungados. Seus nomes não irão para a Serasa, nem serão privados de direitos de cidadão. As penas que atingem o excomungado são de outra natureza. A excomunhão é uma censura pela qual se exclui a alguém da comunhão dos fiéis e não pode consistir mais que na privação dos bens de que dispõe a Igreja, isto é, os bens espirituais ou anexos aos espirituais, mediante os quais a Igreja ajuda os fiéis, em nome de Deus, a conseguir a salvação. Por isso, a exclusão da comunhão dos fiéis representa um significado eminentemente canônico, isto é, a privação de todos os meios de que dispõe a Igreja e a comunidade dos fiéis para a salvação. A excomunhão proíbe receber os sacramentos, exceto a penitência e a unção dos enfermos, e celebrar ou administrar os sacramentos e sacramentais."

Faço força e me apresso em trazer a resposta, pois bem sei que a lembrada questão do Serasa pelo Janer Cristaldo é de suma importância para alguns católicos, que podem ou não saber como funciona ao certo o rito da excomunhão. Daí porque convém esclarecer.

Aliás, uma outra questão ronda e intriga o espírito do Janer, que a considero muito procedente, pois desde o primeiro momento que ouvi esta história da excomunhão também fiquei um tanto atormentado. Observa o nobre jornalista: "Além do mais, em seu ímpeto de proferir aiatolices, Dom José sequer se preocupou em saber se os responsáveis pelo aborto da menina pertenciam à Igreja Católica. Pois só pode ser excomungado quem a ela pertence."

Se são ou não católicos eu também não sei, mas aos católicos reafirmo o que está acima: para o Serasa é certo que não ficarão cadastrados.

Newton Moratto

quinta-feira, 5 de março de 2009

Passado redivivo

Veja aqui, numa reportagem da TV Globo, o arcebispo de Olinda e Recife falando sobre a excomunhão. É uma interessante experiência de linguagem observar por meio dessa fascinante tecnologia de comunicação que é a internet uma autoridade tornando atual coisas que já deviam ser apenas uma página, triste página, da história das religiões.

O som do meu computador até não é dos melhores, mas aqui de onde escrevo dá para ouvir ao fundo da fala do arcebispo, não muito nítido mas perceptível, o sussurro lúgubre da Idade Média.
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POR José Pires

Airbag: corra antes que acabe

Sabemos que no Brasil as coisas são mesmo atrasadas. Por exemplo, há algumas semanas a Câmara dos Deputados votou finalmente o projeto que torna o airbag obrigatório nos carros. Segundo estudos, entre 2001 e 2007 o airbag poderia ter evitado 3,426 mortes.

Com certeza evitaria mais. A estatística nos traz apenas os números. Porém, qualquer medida técnica traz sempre um avanço cultural — ou até é propulsionada por ele — que ocasiona outras transformações em torno do acontecimento. Por isso, se já tivéssemos airbag nos carros, certamente isso seria um sinal de avanço social. Então teríamos menos abusos e menos acidentes.

Mas esperem aí, não ocorreu avanço social algum. Na verdade, nem o airbag temos ainda. Nos Estados Unidos o equipamento é tão comum que é até motivo de piada em filmes. Aqui ele será obrigatório somente nos carros zero quilometro e, de forma gradativa, somente em cinco anos as fábricas estarão instalando em todos os modelos. Falta até o jamegão do presidente inzoneiro.

Desse modo o brasileiro terá pouco tempo para usufruir do privilégio. As previsões mais otimistas é de que o petróleo deixe de existir dentro de cerca 20 anos. Este, claro, é o prazo para extinção total. Teremos aí um período intermediário de grande escassez no qual o preço da gasolina estará lá em cima e os carros com airbag certamente ficarão parados na garagem.

Se o petróleo acaba em 20 anos, já pensou quanto estará o preço da gasolina em, digamos, dez anos? É chato, mas o Brasil chegou à sociedade de consumo quando já não há quase nada para consumir no mundo.

É claro que me tacharão de pessimista aqueles que acreditam que o mundo vai rodar movido pelo combustível vegetal do nosso presidente inzoneiro. É uma aposta com teores altamente excludentes na área do consumo. Você pode até sair por aí com seu carro movido a etanol, mas não vai ter espaço para criar boi para o hambúrguer.

Por isso, corra. Ou melhor, não corra... bem, sei lá. O airbag chegou tarde no Brasil. Ou melhor, o Brasil chegou tarde ao airbag.

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POR José Pires

E não sabem mesmo o que fazem

Eu falei do atraso brasileiro lá em cima, mas além da carência técnica que vivemos, tem notícias que deixam nos deixam com a sensação desconfortável de viver na Idade Média. Pelo que revelam de carência filosófica e intolerância, tais fatos trazem ares nada bons para a vida brasileira. E para este desconcerto espiritual e filosófico, certos setores da Igreja Católica, assim como as demais seitas que se autodenominam de “Igrejas”, ajudam bastante.

Vejam essa. O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, excomungou ontem a mãe, os médicos e outros envolvidos no aborto da menina de 9 anos, que foi feito anteontem. Excluiu a menina da pena, o que não deixa de ser um gesto bem bacana da parte dele.

A menina — uma criança de 9 anos — havia sido abusada sexualmente pelo padrasto e ficou grávida de gêmeos. A situação é muito simples: a criança corria o risco até de morrer durante a gestação. A gravidez foi interrompida dentro da lei, claro, já que em caso de estupro ou risco de vida para a mãe o aborto é permitido.

O arcebispo, que já havia se manifestado contra o aborto, agora excomungou todos os envolvidos no aborto. A prepotência e falta de equilíbrio impressiona mesmo em um país como o nosso. A intolerância não é exatamente uma singularidade na Igreja Católica, principalmente no reinado de Bento XVI (que já mandava na igreja quando João Paulo II estava vivo), apelidado de "o pastor alemão" pelo excelente Janer Cristaldo, mas tem vezes que até mesmo eles exageram.

Dá pra sentir o bafio podre da Idade Média. Já vejo dom José Cardoso Sobrinho catando lenha para queimar os infiéis. Calma, gente, um poucio mais de Giordano Bruno e menos, bem menos de Torquemada, por favor.

Não sei como é que é regida essa questão da excomunhão na Igreja Católica, mas nesse caso aí, se quiser, o arcebispo de Olinda e Recife pode me incluir. Mas que fique claro que da fogueira estou fora.
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POR José Pires

Torquemada ressuscitado

Citei acima Tomás de Torquemada (1420-1498), inquisidor geral espanhol que instalou a intolerância e o terror em um período terrível da história da Igreja Católica. Durante a Inquisição Espanhola teriam morrido cerca de 30 mil pessoas. Os atos de Torquemada eram em parte uma reação ao início do Renascimento.

Para saber mais sobre Torquemada, clique aqui, onde está um bom texto sobre esta triste fase da Igreja Católica, uma história que tem estar sempre sendo lembrada e discutida, pois os adeptos de Torquemada, ao contrário do que a lógica pode fazer crer, não estão todos enterrados com ele.
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POR José Pires

quarta-feira, 4 de março de 2009

Dando nome aos bois

Xô para a família Sarney inteira

Assim é difícil. O eleitor maranhense expulsou pelo voto a família Sarney do poder, acabando com mais de quarenta anos de uma oligarquia que colocou o estado em uma miséria em todos os sentidos, da economia à moral, além da deplorável situação cutlural, da destruição do meio ambiente. E aí vem a Justiça e repõe no poder essa gente....

Independente se há ou não razão jurídica para a deposição do governador Jackson Lago, essa forma de atuação da justiça eleitoral desmoraliza a política brasileira e pode acabar criando uma desmotivação tremenda no eleitor. E não é só no Maranhão. A leseira da justiça cria problemas em todo o país. Agem pouquíssimo, aturando situações que são até risíveis, como as prestações de contas dos candidatos, suas declarações de renda e de gastos em campanha, peças de ficção que fazem das nossas eleições uma piada. E quando alguma decisão é tomada é quase sempre desse jeito: com atraso e cercada de supeições.

O resultado final nunca é bom. Agora o Maranhão vive esse trauma. Tomara que os recursos jurídicos que ainda restam para Jackson Lago possam dar um conserto na atual decisão da Justiça. Se a família Sarney voltar mesmo para o governo do Maranhão quem é que por lá pode acreditar na força do voto?

Na ilustração, um adendo meu à imagem do Xô Sarney!,
campanha que nasceu nos muros da capital do Amapá e que
quase fez José Sarney perder a eleição para senador em 2006
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O Xô tem que ser para toda a família e até para todos os "sarneys",
já que a palavra parece ter virado sinônimo de político sem ética
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POR José Pires

Bancada do Lost

Cesar Maia volta com seu Ex-Blog. Desde o início da semana o correio eletrônico cai certinho no meu computador. Indepentente do que se possa achar de sua posições, o ex-prefeito do Rio é um caso raro na política brasileira. É um político que usa a cabeça para pensar a política com profundidade. E faz isso com raro talento, até com ótimas tiradas humorísticas.

Hoje ele aponta algo interessante que acontece com São Paulo e que a mídia está deixando de ver por estar envolvida em tantos outros assuntos aparentemente maiores. Maia fala sobre o "desaparecimento" da bancada federal do PT de São Paulo. E isso no meio de uma crise econômica global.

E a bancada paulista do PT sempre teve um peso político nacional exatamente por ser bastante representativa na área econômica. Cesar Maia tem razão: cadê eles? Até mesmo o senador Suplicy sumiu de cena com sua persistente bandeira da renda mínima.

O sumiço da bancada é ainda mais marcante no momento que o mundo atravessa. Faz falta aquele pessoal extremamente crítico em relação às mazelas econômicas brasileiras. E do mundo também, claro. Será que estão satisfeitos só com o bolsa família? Bem, parte do problema, é que o mensalão fulminou a imagem sobre a qual se assentava essa bancada. E os escândalos também varreram para o baixo clero ou para lobbies obscuros gente com o deputado José Genoíno e o cassado José Dirceu, além de outros que não cabe citar agora, uma porção de parlamentares com boa presença física e bons discursos, elementos essenciais em qualquer campanha.

É um problema para 2010. Sem um puxador de votos com o peso político de Lula na cabeça de chapa das próximas eleiçõesa, a tendência é de que haja muita dificuldade para o PT em São Paulo, o que acaba influenciando a imagem do partido em todo o país. E também a sorte do próprio cabeça de chapa.

Eu acredito até que o sumiço da bancada federal paulista é um dos motivos do fiasco na eleição para a prefeitura paulistana. E uma causa bem forte, já que a eleição na capital sempre teve as estrelas nacionais petistas com um papel definidor. E na eleição passada se a candidata à prefeitura saísse na rua abraçada com alguns expoentes de seu partido certamente a população gritaria pega ladrão.

E hoje é difícil apontar um deputado paulista do PT com presença marcante no cenário federal e que tenha o respeito da população paulista. Alguém aí lembra algum nome? Pois é. Vai ser um problema para Dilma Roussef nos passeios eleitorais pela Mooca, Itaquera, Penha, Sorocaba, Campinas, Ribeirão Preto e tantos outros lugares em 2010.
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POR José Pires

terça-feira, 3 de março de 2009

A ditabranda e outras durezas

O grande problema de uma estupidez é que ela sempre pode levar à outra estupidez. Talvez até maior que a inicial. E quando entram no meio certos setores da esquerda, então, aí a coisa está feita. Ou melhor, malfeita.

Quem começou foi a Folha de S. Paulo. O jornal publicou um editorial, em que chama a ditadura militar brasileira de “ditabranda”. Quem é que lê editorial? Pois agora este todo mundo leu. É uma besteira sem tamanho fazer o comparativo entre diferentes ditaduras. Não há metro para isso. Os contextos são diferentes. Há quem compare o número de mortos do golpe de 64 Brasil, com golpes na democracia de outros países, mas não creio que o caráter político de uma ditadura seja melhor compreendido por seus mortos. Uma ditadura pode até ter um número menor de assassinatos ou de prisões e ser tão implacável nos males para a democracia quanto um governo sanguinário.

Aqui tivemos menos assassinatos que no Chile. Mas em que isso diminui o caráter nefasto desta ou daquela ditadura para a humanidade? Para duas realidades tão dispares quanto o Brasil e o Chile, independente de quanto uma ou outra matou, a única coisa certa é que as duas ditaduras foram péssimas para ambos os países.
E a ditadura chilena durou menos, 17 anos, contra 21 anos da nossa. Lá no Chile já aconteceram punições contra os militares, sendo que seu chefe máximo, Pinochet, só não acabou condenado porque morreu antes. O neto do ditador, um capitão, também foi expulso do exército por defender a ditadura em discurso no enterro do avô. Aqui nada ocorreu, nem com os bagrinhos do regime. E volta e meio um general comete ato de insubordinação sem que nada aconteça. Qual foi a pior ditadura?

Mas, de qualquer modo, é uma comparação que não faz sentido, ainda mais com o número de problemas que temos pela frente. Branda ou não, o que importa são os efeitos do autoritarismo na vida e na cultura de um povo. E na nossa cultura os efeitos não tem nada de brandura. Basta ver a violência e a corrupção que ainda tomam conta da vida brasileira. Se isso não é coisa de ditadura, então não sei o que é.
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POR José Pires

Dando assunto pro adversário

Mas a Folha caiu na besteira de falar em “ditabranda” e acabou dando o mote que muita gente ligada ao petismo precisava. Mas a besteira do jornal não parou aí. Entre as pessoas que mandaram cartas para o jornal reclamando do estranho neologismo, duas delas, o professor Fábio Konder Comparato e a socióloga Maria Victoria Benevides, receberam uma resposta bem agressiva.

O diretor de redação Octavio Frias Filho escreveu e publicou o seguinte: "Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa".

Desde quando o senador José Agripino, do DEM, fez a famosa pergunta à ministra Dilma Roussef sobre seu comportamento debaixo de tortura que a esquerda não recebia um mote tão bom para ocupar espaço político e de mídia. Não sei se foi de caso pensado, mas o fato é que quando sentiram a linha fisgar com a "nota da redação", Comparato e Benevidez caíram com gana no assunto.

Comparato menos. Quem tem agido com intensa avidez na exploração da polêmica é Maria Victória Benevides. Aproveitando-se do incrível erro da Folha, a socióloga tem estimulado a criação de manifestos, manifestações públicas e o que mais surge para fortalecer a polêmica e elevar seu papel pessoal.

O editorial da "ditabranda" somado à patada em Comparato e Benevides acabou sendo uma oportunidade e tanto para grupos com o interesse de desviar o foco cerrado sobre a corrupção e a incompetência do governo Lula, assuntos que estão entre os mais populares da internet brasileira apesar do investimento pesado dos petistas na criação de sites e blogs governistas.

A chamada blogosfera petista é um componente homogêneo da internet, com sites e blogs que falam a mesma linguagem, todos bem pouco atraentes e por isso mesmo com pouco público além de internautas com a mesma posição política.

A inacreditável bobagem da Folha com sua "ditabranda" trouxe uma oportunidade para essa gente mascarar seus propósitos governistas com a discussão da liberdade de expressão e do papel da imprensa durante a ditadura — alguns desses blogueiros recebem vantagens do governo, sendo que existem suspeitas de que há por detrás de vários deles a mesma sustentação política e financeira.

Daria até para entender se o puxão de orelha da Folha nos dois militantes fosse no âmbito da uma opinião pessoal, pois ambos partilham mesmo da incoerência comum em nossa esquerda de discutir com ênfase a ditadura militar brasileira e fechar os olhos para ditaduras comunistas, como a cubana. Mas do jeito que foi feito, com uma "nota de redação", que caracteriza uma opinião editorial do jornal, a Folha criou um problema institucional.

Octavio Frias Filho parece ter agido mais com a cabeça de dono do jornal (o que ele é de fato) do que de jornalista. É um dos problemas de ter o dono do jornal diretamente no comando da redação.
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POR José Pires

Blogs governistas babam de prazer

E a linha auxiliar do governo Lula, formada de blogs, sites e revistas está querendo fazer do deslize uma formidável bandeira de luta. Já houve protesto na frente da redação da Folha e corre um abaixo-assinado na internet. Esse pessoal tem mais de uma dúzia, sobre os mais diversos temas. Tem até um em defesa do italiano Battisti.

Houve uma época que eles até aparentavam ter propósitos ideológicos, mas pelo jeito o pragmatismo lulista contagiou de vez a tigrada vermelha. Já baixaram a bola, aparada e mantida no terreno meramente eleitoral. A tática imediata evidente é garantir o poder.

Maria Victoria Benevides, cuja dificuldade estilística impede qualquer proximidade com algum tipo de sutileza, entrega o jogo na revista Carta Capital dessa semana, onde publicou um texto sobre o assunto.

Lá no meio do arrazoado de má qualidade que escreveu, Benevides supõe que uma das razões para a nota de redação da Folha seria, vai em aspas, é coisa dela, “A possível derrota eleitoral do esquema PSDB-DEM, em 2010”. Bem, acho que nem precisa dizer que essa é uma argumentação bem estranha para quem pretende liderar um movimento pela liberdade de expressão e discutir o dimensionamento dos problemas históricos do país. Parece mais propaganda da candidatura da Dilma Roussef.

E acolhendo um texto tão estapafúrdio, Mino Carta, que parece ter problemas até pessoais com Frias, acabou respondendo a um erro com uma bobagem ainda maior. Sabemos o quanto é vital a a publicidade governista em uma revista semanal para o resguardo do "irremediável fracasso", como ele mesmo já escreveu. A responsabilidade em uma atividade comercial de vulto como é a da revista tem esse preço. Mas creio que não é preciso tanto.
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POR José Pires

Vamos contar direito a História

Foi um erro crasso da Folha essa conversa de “ditabranda”. O coice antijornalístico nos dois missivistas também não está certo. Mas não aconteceu nada de tão grave que não pudesse ter sido esclarecido com outra pequena nota. A vida é assim: errou, conserta.

Mas eu comecei dizendo que uma estupidez leva à outra. Pois elas se acumulam. Agora querem reescrever a história do jornal. A polêmica trouxe de volta a conhecida história dos carros que a empresa que edita a Folha de S. Paulo teria colocado à serviço da repressão policial na década de 70.

Pode até ter acontecido, mas não é fato comprovado que isso fosse uma política da empresa. A versões que circulam falam de carros da Folha da Tarde. Mas tem muita gente se aproveitando das imprecisões para tentar construir uma imagem da própria Folha de S. Paulo como colaboracionista da ditadura militar.

Mas aí já passa de equívovo. É mentira construída. O referido episódio teria ocorrido com outro jornal da mesma empresa, a notória Folha da Tarde, de triste memória. Este sim foi um jornal que colaborou, e muito até, com os setores mais extremistas da ditadura. Sua chefia da redação era ligada à repressão política.

Alguns espertos não estão nem um pouco interessado em deixar isso claro. Ao contrário, até incentivam a confusão. Não era a Folha de S. Paulo que publicava notícias sobre mortes de presos políticos enquanto eles ainda estavam bem vivos na prisão. Mas isso eles não dizem.

A mistura é até uma injustiça histórica com a redação da Folha de S. Paulo. Seus jornalistas não aceitavam a postura da Folha da Tarde e tampouco a da empresa. Existia um clima mútuo de animosidade entre os jornalistas das duas redações, que sequer tinham relações pessoais. Nem a cerveja eles compartilhavam.

Mas os disparates não se restringem a esse embaralhamento deliberado de fatos. Já li em blogs até que a Folha de S. Paulo se engajou na campanha a favor de eleições diretas para presidente da República por mera questão de marketing. São os mesmo blogs que não fazem crítica alguma ao agora lulista José Sarney, este sim um esforçado ativista na derrubada da emenda das Diretas-Já.

Poderíamos até deixar essas bobagens para lá, mas a coisa não é tão inofensiva quanto parece. Essa gente não é lá de muita qualidade e, por isso mesmo, carecem de credibilidade, mas o problema é que esse tipo de versão pode ir pegando aos poucos. Isso ocorrendo, o que pode acontecer é um fortalecimento da cultura do do “somos todos iguais”, que veio com Lula e seus mensalistas, e que já está fazendo um mal danado á cultura brasileira.

E dizer que Folha de S. Paulo foi um jornal que colaborou com a ditadura militar, além de ser uma mentira escabrosa, também desmerece o árduo trabalho de toda uma geração de jornalistas da maior qualidade — tendo à frente o grande Cláudio Abramo, pe mais entre outros, Tarso de Castro, Paulo Francis, Plínio Marcos, Oswaldo Mendes, Lourenço Diaféria e Perseu Abramo — para fazer daquele jornal um importante veículo na luta pela democracia e também um abrigo democrático para as mais variadas opiniões políticas, um papel que desempenha, aliás, até hoje. Por isso, inclusive a senhora Maria Victoria Benevides teve sempre espaço por lá. Ela que pouco deve saber das dificuldades cotidianas para editar um jornal no período da ditadura, pois no máximo comparecia com um ou outro artigo.

Extremistas jamais estão preocupados com algo que não seja a demolição de valores, qualquer valor, desde que os favoreça oportunamente. E nem é estranho a atividade febril dessas patrulhas de esquerda a serviço de um governo que no final só lhes concede algumas migalhas. Isso é assim mesmo. A história mostra que eles se valem desses pequenos golpes sempre à espera do momento que pode favorecê-los definitivamente.

A nós, cabe vigiar e atuar para que eles não prevaleçam, pois quando conquistam o poder, aí é que não tem mesmo ditabranda. Com eles é ditaduríssima.
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POR José Pires

Pegando o mote


É muito engraçada a poesia que Miguelzinho de Princesa fez para a ministra Dilma Roussef, figura relativamente recente no plano nacional (alguém já tinha ouvido falar de Dilma Roussef antes do governo Lula?) e que tornou-se objeto do desejo dos políticos da noite para o dia. Não por causa dos esticados efeitos da cirurgia plástica, claro, mas pelo tilintar dos milhões do PAC.

Desde fevereiro o texto anda sendo publicado nos blogs do norte e do nordeste. Agora as rimas engraçadíssimas saltaram de lá para todo o país, levadas pela agilidade da internet. Neste pau-de-arara de tanta possança, do Cariri para o mundo agora é que é mesmo um pulinho.

O cordel de Miguelzinho de Princesa despertou meu lado de poeta (e de cangaceiro, dirão os inimigos) e peguei um trecho para escrever uma resposta para o poeta cearense, dialogando na forma dos cantadores do nordeste. Vamos ver o material? Está é a parte do Miguelzinho da Princesa:

Eu já vi um deputado
Dizendo no Cariri
Que Dilma é linda e charmosa
Igual não existe aqui
É capaz de ser mais bela
Que a Angelina Jolie!


E pegando o mote, agora a minha visão sulista dos encantos das inacreditáveis belezas petistas:

Também no Sul do país
Puxa-saco é sem limite
A Dilma é linda e charmosa
E o Lula é o maior hit
Pro PT ele é mais belo
Que o tal do Brad Pitt



E para ler toda a poesia de cordel de Miguelzinho de Princesa, clique aqui. E vamos correr trecho que faz tempo que a polícia já está de pé.
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POR José Pires

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Tudo dominado

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Apressadinhos

Nem bem o carnaval se foi e o PT já escolheu o vice da chapa de Dilma Roussef. O partido quer que seja o presidente da Câmara, Michel Temer, do PMDB de São Paulo.

O pessoal está com pressa. Nessa levada, acho que até setembro deste ano a Dilma já assume a presidência da República.
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POR José Pires

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Olha o pé-frio aí, gente!

O Salgueiro é o campeão do Carnaval 2009 do Rio de Janeiro. A Vila Isabel acabou em segundo lugar, ficando atrás por apenas um ponto.

Yo no creo en las brujas pero... o presidente Lula estava lá. E torcendo pela Beija-Flor. E o intéprete oficial da escola ainda cometeu a imprudência de juntar as energias da escola com as de Lula, quando passou no camarote onde estava o petista e trocou o tradicional grito de guerra da escola por "Olha o presidente Lula aí, gente!" Só o Coríntians fez algo semelhante e sofreu barbaridade depois. O time foi ao Palácio do Planalto fazer graça com o Lula e ainda deixaram ele pegar na taça de campeão de 2005. Pra que! Logo o time entrou em uma das piores crises de sua história e ainda caiu para a segunda divisão.

A pontuação das duas escolas — 399 para o Salgueiro, 398 para a Beija-Flor — mostra que havia completo equilíbrio na capacidade técnica das duas. O que pesou contra a Beija-Flor só pode ter sido mesmo algum fator extra-carnavalesco. Azar, talvez.

Bem, segundo lugar no carnaval é quase nada. A escola campeão é que vale. Alguém aí se lembra do segundo lugar do Carnaval do Rio no ano passado? Pois é, ninguém sabe. Mas o nome da campeã não sai da memória: foi a Beija-Flor. Aliás, foi bicampeã naquele ano. Pode até ser apenas coincidência, mas o fato é que Lula não estava lá.
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POR José Pires

Uma notícia boa, outra ruim

Primeiro a ruim: a crise econômica não é marolinha e, como o Lula disse, nós vamos sífu. Agora a boa: o Lula já está distribuindo camisinhas.
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POR José Pires

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Antes sem calcinha, agora com camisinha

Agenda do presidente Lula para hoje. É oficial: "O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passa a terça-feira (24 de fevereiro) em Brasília/DF, sem compromissos oficiais".

Lula passou o carnaval no Rio de Janeiro em um camarote na Sapucaí. De domingo para segunda-feira ficou oito horas na maior animação: às quatro da manhã estava atirando camisinhas para o público. Isso mesmo, distribuia preservativos. O Brasil é mesmo incoerente em tudo. Por muito menos e numa situação sobre a qual ele não tinha responsabilidade direta, o presidente Itamar Franco aguenta até hoje a imprensa pegando em seu pé por causa da moça sem calcinha que posou a seu lado no carnaval de 1994. Como vocês podem ver ao lado, na época a revista Veja até deu capa.

Não sei o que pretendem com um presidente da República atirando camisinhas para o povo em plena Sapucaí, no meio da festa nacional que mais chama a atenção do mundo. Será alguma campanha para estimular o turismo sexual? Parece. Mas é certo que o efeito para a imagem do Brasil no exterior pode até ser bem pior.

E em um momento grave como esse, de crise mundial, um pouco de resguardo com certeza poderia ser bem melhor para estimular o brasileiro a enfrentar o que vem por aí, porque o previsão é de tempos que não estão para folia. E, tirando o Berlusconi, da Itália, tem algum outro chefe de governo festando por aí?

Mas Lula agüenta ficar quieto em um canto trabalhando? É claro que ele não podia perder o primeiro carnaval da crise. O carnaval da marolinha. Não foi permitida a entrada da imprensa no camarote, mas dá para ver pelas fotos que o presidente inzoneiro estava animado. Mais do que o Itamar Franco na capa da revista. Lula trazia até aquele inchaço na cara que já levou um compungido Brizola a lhe dar conselhos.

Lula pode tudo? Parece que sim. Até jogar camisinha para o povo. Ou se congraçar com a contravenção. O presidente é Beija-Flor roxo e amigo do peito de Neguinho, intérprete do samba-enredo da escola. Em frente ao camarote onde estava Lula o sambista trocou o tradicional grito de guerra "Olha a Beija-Flor aí, gente!" pela frase "Olha o presidente Lula aí, gente!" Bem, sem comentários. Nem sobre a responsabilidade de Neguinho grudando sua escola desse modo às energias de Lula que, bem, toda torcida corintiana sabe que, toc toc toc...

Quem deve ter gostado da parceria foi o Aniz Abraão David, contraventor e patrono da escola. Ele já foi preso quatro vezes pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilítico.

Quando não custaria para Aniz Abraão David agregar sua imagem a de um presidente da República? Lula recebeu só o kit completo da Beija-Flor, com um jogo de camisas e brindes com a marca da escola, enviado pelo deputado federal Simão Sessim, primo de Anísio.

E hoje o presidente está sem "compromissos oficiais". A crise fica para amanhã. Ou para a próxima segunda-feira já que se foi metade da semana e ninguém é de ferro. E é oficial: hoje a ressaca em Brasília é braba.
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POR José Pires

Blogs d'além mar

Seria mesmo de muito bom proveito para os brasileiros uma real integração com os demais países de língua portuguesa. É claro que isso não será obtido por uma reforma ortográfica chinfrim. Isso nada vale, a não ser para criar terreno para a demagogia e o tilintar da caixa registradora de editoras. E para torrar a paciência de quem não passa o dia fazendo política, mas de fato usa a língua portuguesa.

Essa integração também nada tem a ver com almas e nem destino. Menos, menos... e menos romantismo também. Entre nações, relações baseadas em mútuo interesse já está muito bom.

Ah, puxa vida, nada daquela besteira que escreveram para o presidente Lula ler em discurso feito quando ele botou o jamegão no acordo ortográfico. Vamos ler de novo? Lá vai: “Quero destacar o imprescindível resgate dos nossos laços substantivos com a África, em particular com a África de língua portuguesa, que para nós representa mais, muito mais do que uma prioridade geopolítica. Diz respeito à nossa alma, à nossa identidade como nação multiétnica e multicultural, ao próprio destino da civilização brasileira”.

Deve ter sido um espanto para o Lula essas palavras saindo da sua boca. E depois, nossa, quanta emoção. Fico imaginando o Supremo Apedeuta de vez em quando virando-se para um assessor e comentando embevecido: “Como é mesmo aquele negócio bonito que eu falei quando mexemos na língua?”

Claro que a relação com os países de língua portuguesa é importante, mas não falemos em destino, não precisa, pois aí teríamos primeiro que ensinar inglês para a molecada. Claro, depois, de ensinar o nosso português.

Isso sem querer dizer que Portugal não tenha nada a oferecer para a gente. Tem e muito. Já pegamos bastante deles, ainda há muito para aproveitar. Mas se existe algum problema de entendimento, não é devido a uma consoante muda ou um trema. A não ser, claro, que a pessoa tenha azia com a leitura ou prefira encarar uma esteira de ginástica a abrir um livro.

Na internet, por exemplo, que permite uma comunicação eficiente e de longe — sem esse negócio de alma, ó pá! —, Portugal tem hoje um material de altíssima qualidade, principalmente em blogs pessoais, produção que evidentemente nasce de uma sólida formação cultural daquela gente. N'além mar estão fazendo ótimos blogs. No aspecto do estilo, da boa escrita e da escolha de assuntos realmente pertinentes eles por enquanto estão à frente dos brasileiros. E não sei a explicação, mas os sites jornalísticos deles não são lá essa coisa. Já os blogs, talvez porque não se fechem no em compromissos coemrciais e corporativos, são de ótima qualidade.

Mas um dia nós chegamos lá. Mas nada de romantismo de discurso, por favor. Do jeito que estamos, é bom encarar sem pudor nossos defeitos e consertar um por um. E estamos bem atrasados. Neste aspecto, o português José Almada Negreiros foi bem rigoroso como seus patrícios na primeira metade do século passado. Ele disse: “O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.” É um conselho duro. Mas não deixa de ser um bom começo.
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POR José Pires

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Agora vai

No domingo o jornal O Globo publicou uma reportagem revelando que pelo menos 300 oficiais e praças da Polícia Militar fazem a segurança privada do carnaval do Rio contratados pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) por meio de uma empresa terceirizada. 60 desses PMs são oficiais com patentes que vão de tenente a coronel. O coordenador de segurança da Liesa é um coronel da reserva da PM.

Com a publicação da matéria de O Globo a Subsecretaria de Inteligência e o Serviço Reservado da PM decidiram abrir investigação conjunta para apurar o caso. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrano, ficou até indignado ao ser informado pelo jornal de que os PM estão fazendo esse tipo de coisa.

Bem, isso não deixa de ser um bom sinal. Pelo menos ficamos sabendo que na Secretária de Segurança do Rio de Janeiro o pessoal lê os jornais.
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POR José Pires

Antes tarde...

Para certas coisas na vida o lugar comum basta como síntese do material analisado. Para entender um tucano, por exemplo. Com este ser político, o jargão “antes tarde do que nunca”, é sempre adequado, apesar de que a experiência também demonstra que assim como pode chegar à uma conclusão óbvia bastante tarde, o tucano também tem o hábito de manter a descoberta no terreno da teoria, com a sua aplicação prática impedida pelos compromissos e tratos corriqueiros do cotidiano da política e os interesses circunstanciais mantidos até com adversários. Então, além de chegar tarde o esclarecedor insight fica também paralisado no nunca.

A compreensão repentina que bateu na cachola do senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, é um desses casos. “O que nós precisamos é aprender a fazer oposição. Temos sido um fracasso neste quesito”, ele disse aos jornais nesta semana de carnaval. Mas que ninguém se anime, o senador e seus correligionários podem esquecer tudo na quarta-feira. Coisas do carnaval.

É já é bem tarde para a descoberta. O governo do PT já avança no terceiro ano do segundo mandato. E o fracasso do PSDB como oposição só é comparável ao sucesso que Lula teve em se apossar de quase tudo que o Fernando Henrique Cardoso deixou praticamente pronto ao deixar o governo. E era tão simples. Bastava fazer a troca, se apropriando da habilidade petista de fazer oposição.

Mas esperemos. Já é louvável que os tucanos parecem estejam acordando para mais esse fracasso. Já aprenderam que mesmo quando ferido o inimigo não sangra por conta própria. Antes tarde do que nunca. Mas agora tem que tirar as penas do rabo e usar nas flechas.

O problema é que o tempo é curto . E a situação atual não é estimula nenhum otimismo, levando em conta que a menos de dois anos da eleição o partido tem dois candidatos à presidente da República e ao mesmo tempo nenhum, enquanto a candidata do governo já faz campanha com um palanque solidamente estruturado em verbas federais e uma bolsa família na qual tem até o batom.

Ou os tucanos tem que correr — ou voar, o que é até melhor — e começar logo a fazer oposição. Se é que sabem. Mas, de qualquer modo, caso o tempo seja curto, depois das eleições do ano que vem eles terão bastante tempo para aprender.
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POR José Pires

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

E de novo o Brasil passa vergonha

E o caso Paula Oliveira terminou de um modo muito ruim para o Brasil. A advogada confessou à polícia que mentiu sobre a agressão que disse ter sofrido de três skinheads neonazistas próximo de Zurique, na Suiça, quando eles teriam feito cortes em seu corpo, marcando em sua pele a sigla do partido suíço de direita, o SVP, atualmente no governo.

O que vimos é que o problema estava bem encaminhado pela polícia suíça até a imprensa brasileira e governo Lula entrarem no meio. Poderia ter acabado de forma razoável também para a moça, que não estaria agora no centro de um imbróglio internacional e com a vida bem complicada. Na Suiça ela não pode ficar mais. Aqui no Brasil terá bastante complicações no cotidiano.

Já historiei o caso aqui no blog, desde o momento em que o jornalista Ricardo Noblat deu a notícia em primeira mão. A publicação da notícia no blog do Noblat resultou no efeito manada que costuma acometer nossa imprensa, especialmente em casos passionais. Blogs, sites e jornais se meteram em estranhas teorias sobre a perseguição a brasileiros no exterior e na dicussão de uma suposta xenofobia suíça, quando o que havia era evidentemente um caso obscuro que exigia o maior cuidado.

Para notar que havia algo pelo menos suspeito na versão contada pela moça, bastava prestar um pouco mais de atenção à foto que mostra as marcas no corpo dela — foto distribuída pela própria vítima, é bom lembrar. Teve gente, como o jornalista Reinaldo Azevedo, que desde o início apontou a superficialidade e também a regularidade dos cortes na pele, algo difícil de acontecer em uma agressão como a relatada.

Mas a imprensa preferiu compor uma manada. E manada costuma chegar é no abismo.
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POR José Pires

Até Lula tirou casquinha

E o governo Lula também entrou na história da mesma forma atabalhoada de sempre. Tudo é política para essa gente. Pois se tudo tem que ser tocado como se fosse um palanque eleitoral, por que não colocar o Itamaraty nesse ritmo? Apenas algumas horas depois do problema ser noticiado, Lula já dava sua opinião e fazia discurso sobre xenofobia. Antes, o ministério das Relações Exteriores, havia ameaçado levar o caso à ONU.

Qual caso? Não havia caso algum. Até então o que existia era só a nota dada pelo Noblat e a enxurrada de notícias em blogs e sites jornalísticos que vieram no embalo, todos apresentando informações muito superficiais.

O Brasil já tem problemas suficientes com sua imagem na Europa devido ao caso Battisti. Mesmo que não fosse por algo simples como o bom senso que deve reger a atividade diplomática, pelo menos esta situação deveria ter levado o governo brasileiro a buscar melhores informações antes de emitir qualquer opinião, ainda mais com tanta agressividade. Mas alguma lógica ainda funciona com este governo?
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POR José Pires

De olho atento

Agora a imprensa está catando os cacos da sua credibilidade. O próprio Noblat, que deu o primeiro grito que atiçou a manada, até agora tenta justificar o que fez, dando destaque a comentários de leitores e até trazendo artigos, como o do jornalista Zuenir Ventura, publicado ontem, em que ele tenta consertar o “desconcerto” geral entre os jornalistas. “Já pecamos muito, mas acho que desta vez não”, ele diz, para perguntar em seguida: “o que fazer com aquelas fotos e com as declarações desesperadas da vítima?” Bem, observar melhor a foto seria um bom caminho. Outra atitude seria ficar atento aos fatos, que desde o primeiro dia eram no mínimo nebulosos.

O jornalista diz que quase cometeu a “maior barriga" da sua vida profissional. Ele já tinha pronto para a publicação um artigo “contundente falando mal da polícia e da imprensa suiças". Bem, sem comentários. Zuenir Ventura tem 50 anos de jornalismo. É bastante chão. Talvez não precise de conselhos.

Mas no dia 16, às duas da tarde, o próprio blog do Noblat publicava, desta vez em um raro texto próprio, que Paula havia confidenciado a um amigo que era possível ela ter perdido os bebês antes da agressão. Zuenir Ventura não viu o gato no telhado? No mesmo dia, neste blog, eu já colocava em dúvida a história toda e até perguntava se o governo brasileiro já estava preparado para pedir desculpas aos suiços. E não me gabo de esperteza alguma: é que o gato miava bem alto.
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POR José Pires

História mal contada desde o começo

Não sei onde Zuenir Ventura estava no início desta história, mas não teve nenhuma ”declaração desesperada” da vítima. Paula falou bem pouco nesta história. Noblat escreveu que ela lhe disse apenas que “estava mal”. Quem passou toda a história para Noblat foi o pai de Paula, Paulo Oliveira, que é assessor do deputado Roberto Magalhães, portanto alguém supostamente bastante experiente no trato com a imprensa.

Na primeira nota publicada sobre o caso, “em primeira mão”, como destacava uma chamadinha cima do texto, Noblat cometeu a incorreção de ser extremamente afirmativo, sem deixar claro para o leitor que sua fonte era o pai da suposta vítima.

O texto de Noblat, já disse aqui, também é afirmativo demais. Pelo título do post já dá para se perceber o tom do texto : "Brasileira torturada na Suiça aborta gêmeos". Sim, foi assim que ele chamou a matéria feita com uma única fonte: o pai da suposta vítima.

Ele faz uma descrição detalhada da suposta agressão, sem colocar nenhuma dúvida sobre o fato. Só assume um tom crítico quando cita o policial suíço que teria alertado Paula com a seguinte frase: “Se a senhora estiver mentindo será processada”. Noblat não informa como soube desse diálogo. Ele escreve como se estivesse presente no acontecimento.

Hoje já se vê que era apenas um policial experiente fazendo bem seu serviço e que, suspeitando de algo, alertou a moça. Foi tratado como um prepotente. Eu até acharia engraçado, caso não estivesse dentro da piada, ver tanta indignação em um país como o nosso, onde a polícia chega ao local do crime já batendo na vítima.

Pois se a moça tivesse escutado o alerta do policial suiço, talvez nem tivessemos tomado conhecimento dessa história. Nada do assunto vazou da polícia suiça antes que a imprensa brasileira se metesse no assunto. Parece que lá, ao contrário daqui, a primeira coisa que a polícia faz não é chamar a imprensa e expor a vítima.
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POR José Pires

Toma que o filho é teu

No texto de Noblat que deu início à exploração do caso tem até bobagens como dizer que os agressores “entalharam” a sigla SVP no corpo da moça. Ah, não, por favor, entalhe é em madeira. Até se tatua na carne, mas entalhe no corpo é difícil. Mas deixemos isso pra lá, senão a gente não termina.

Depois que fizeram a besteira de tratar um caso tão sério com afobação, o passo seguinte foi o de tentar matar qualquer mensageiro com más notícias. Ontem Noblat publicava a matéria da Folha de S. Paulo que informava (ou, pelo tom, acusava) a revista suiça Die Weltwoche de ter, vou aspar as palavras do jornal, “claros laços ideológicos com o partido ultranacionalista SVP (Partido do Povo Suiço)”. Mas o problema mesmo foi a revista foi ela ter trazido uma má mensagem: a de que a brasileira teria confessado ter mentido sobre a agressão, notícia agora confirmada.

Os brasileiros ficaram o tempo todo tentando desqualificar a imprensa suíça. Até escreveram que a revista Die Weltwoche é de propriedade de um milionário. Claro, deve ser porque os donos da Folha de S. Paulo e a TV Globo são bem pobres.

Noblat publicou a matéria sem nenhum comentário pessoal. Seu blog, na verdade, está mais para clipping, com pouca participação autoral dele. Mas é bastante cômodo posicionar-se em torno dos assuntos apenas republicando notícias de jornais. Isso facilita bastante a vida do blogueiro. Além de economizar o ato de pensar, caso o tempo comprove algum erro de visão, a responsabilidade é sempre de outro.

Todo mundo agora quer se safar. Uma Escola de Base internacional é duro de segurar. Alguns tentam também dar uma força para que o governo se livre de responsabilidades. Luís Nassif, que acaba de ser contratado pela TV Lula, ou TV Brasil, do governo federal, quer até culpar a imprensa pela tremenda gafe internacional do governo Lula. Nassif está fazendo seu serviço, mas não é por aí. Se quer defender bem o governo, aliás, ele deveria fazer direito. Desse jeito, está acusando a diplomacia petista de se deixar conduzir pelos atropelos da mídia.

Mas a verdade é que a imprensa brasileira fez feio nessa história. Não seria melhor então encarar uma autocrítica e tentar melhorar? E para que isso se conduza nos melhores termos, primeiro é preciso deixar que os suíços cuidem da sua imprensa e de seu país e passar a olhar melhor para os erros cometidos aqui.

Rudyard Kipling dizia que as palavras são as drogas mais poderosas que a humanidade conhece. Sempre concordei com ele. O governo Lula não tem mais jeito. Mas nossa imprensa tem que aprender a evitar a overdose.
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POR José Pires