quarta-feira, 5 de outubro de 2022

A esquerda na surpresa do segundo turno, dando com a cara na realidade fora da bolha

Estou observando atentamente as movimentações da militância petista nas redes sociais e na imprensa — no partidarismo entranhado no jornalismo, feito por profissionais que não aprenderam nas universidades que o distanciamento crítico é ferramenta essencial desse trabalho. Antonio Gramsci se espantaria com o que andei assistindo. O filósofo italiano comunista ficaria decepcionado em saber que a esquerda brasileira compreendeu pouco, quase nada mesmo, o que ele escreveu.


O que é isso, companheiros? A estratégia é a sedução das massas e não sentar o sarrafo no povo, diria o amado mestre da esquerda. Capisci? E guerra cultural não é só encaixar projeto nos esquemas para descolar uma grana.


Isso faz lembrar outro ponto histórico, sobre aquela frase dita por Winston Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história”. Quem vive em um país que já experimentou pelo menos duas ditaduras na história recente sabe muito bem como isso é verdade. Democracia, entanto, não precisa ser algo tão chato, como a esquerda e a direita fazem no Brasil.


Mas esta balbúrdia não deixa de ser um campo interessante para o estudo político, com material que deve se prolongar por muito tempo pela frente. A estupidez coletiva não vai terminar com o sinal de “confirma” no final deste mês. O furdunço certamente terá um acirramento, com os polarizadores do ódio — dos dois lados — postados a partir do ano que vem na oposição ou no poder, tanto faz.


Pobre eleitor. É uma escolha complicada. Optar pelo menos pior é cada vez mais difícil, com a diferenciação ficando embaralhada por esta competição entre esquerda e direita, com um querendo chegar na frente do outro, na disputa para saber quem rebaixa mais a sarjeta.


Numa avaliação do que tem que ser prático em uma eleição, nota-se que a esquerda complicou-se em seu mundo ilusório, no universo fechado que tem um exemplo no pessoal se reunindo no apartamento de Caetano Veloso e Paula Lavigne para decidir os rumos do país. Tudo bem, pouco importa o espaço físico para exercer consciência política, mas precisa sair depois fazendo videozinhos e posts nas redes sociais dando de dedo na cara dos outros e dizendo que a outra metade do país é fascista?


Ainda que a bolha não deixe de ser confortável, esta convivência restrita vai causando um retardamento na compreensão básica de elementos fundamentais no diálogo com o povo, o que fez, por exemplo, Marcelo Freixo levar décadas para compreender que a maconha é um desastre na vida familiar de quem vive na periferia. Ele entendeu esta questão só no mês passado, em conversas com donas de casa, que explicaram pra ele que um filho — ou “filhe”, tanto faz — fumando maconha desestrutura a vida familiar nas periferias.


Bem, agora é tarde para Freixo, que perdeu feio a eleição para governador do Rio de Janeiro no primeiro turno, não sem deixar uma boa lição sobre forma de fazer política, com especial atenção ao ilusório poder de gente famosa e de suas ideias — muito bem protegida nas suas bolhas — na hora de ganhar votos. É o fantasma de Gramsci, coitado, penando por aqui. Quem tiver curiosidade de passar pelo Instagram do Freixo vai pensar que entrou no catálogo de artistas de algum agente poderoso. Não falta por lá nenhuma dessas estrelas do lado do bem.


Claro que não é só por isso que o pobre Gramsci se espantaria. Ele, que escreveu toda sua obra trancado numa cadeia pelo fascismo comandado por Benito Mussolini. Foi preso em 1926 e saiu da cadeia só em 1937, para morrer em uma clínica de Roma. Gramsci acharia bastante estranho a moleza desse combate ao fascismo aqui no Brasil, assim, de boa, como diz a moçada.


E o que diria o mestre comunista italiano se soubesse que sua estratégia de sedução das massas pela via cultural acabou em funk, rap e grafiteiro semianalfabeto subvencionado pelo Estado?


Na ilusão do poder sobre o destino do povo, voltando ao aspecto prático da política, descuidaram da chamada “realpolitik”, o não é surpresa para mim, que conheço bem a tigrada, mas cabe apontar essa insensatez da militância esquerdista ainda descendo o porrete no outro lado, oposto de onde eles estão — sempre do lado do bem, claro. Nunca é aconselhável bater em vez de convencer, mas é ainda mais idiota quando isso é feito na véspera de uma decisão de segundo turno.


É a filosofia do ódio do bem, que pode ser sintetizada em uma tuitada da impagável Marcia Tiburi, em uma mensagem tão favorável ao bolsonarismo, que deve ter deixado o Carluxo vermelho de inveja. A tuitada faz sucesso nas redes sociais. Ela embraveceu junto com a militância, por não terem ganhado a eleição já no primeiro turno.


“Preferia que fossem urnas fraudadas do que o povo elegendo fascistas”, escreveu a professora que há de ter sua obra nos anais da nossa vã filosofia. Isso é que é solidificar preferência eleitoral. Para o adversário, claro. Só falta agora aparecer outra musa da militância esquerdista, a decana Marilena Chauí.


“A classe média é estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e ela é uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante”, ela disse em uma manifestação pública com Lula presente, gravada em vídeo. Lula aparece rindo gostosamente e aplaudindo o que ouve.


Existem ensinamentos para todo lado neste embravecimento geral, com o próprio Lula como exemplo vindo de cima, ele que é exaltado como gênio político. Pois o mestre da esquerda arrebentou candidaturas em todos os estados, desarticulou partidos e construiu todo tipo de alianças para montar um cenário favorável para sua vitória. Mas não é que o sabichão descuidou da estruturação política de seu próprio partido e de toda a esquerda, para eleger bancadas fortes e ganhar eleições estaduais?


Pois é. Jair Bolsonaro e seus aliados cuidaram desse assunto muito bem e saem desse primeiro turno com poder total no Congresso Nacional. Elegeram também governadores em estados importantes, além de se posicionarem com vantagem em São Paulo, onde estão com o palanque mais forte para este segundo turno.


A direita se consolidou como força política poderosa, com amplo apoio de massas. Com isso, o máximo que Lula pode obter agora é uma vitória eleitoral. Governar mesmo, isso ele terá que ver com a direita.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

As pesquisas, a construção de favorecimentos e os riscos para o país

E lá vai a imprensa com suas pautas fora do que a realidade apresenta, inclusive no que esta realidade tem a ver com a bagunça criada pelas pautas jornalísticas anteriores. Foi o caso das pesquisas, que nossos jornalistas, no geral, tomaram como mensagens de um oráculo que mereceria ter seus conhecimentos tomados ao pé da letra. Nesta eleição, antes mesmo dos partidos apresentarem candidatos, a pauta do noticiário foi dominada pelas pesquisas. Logo a referência absoluta de atenção sobre este ou aquele candidato tinha como base obrigatória os pontos de preferência do eleitor sobre sua candidatura.


Por esta cartilha, surgiram candidaturas que duraram muito pouco. Mas enquanto havia o prestígio garantido, dado pelos institutos de pesquisas, tais figuras eram tratadas como se já estivessem ocupando o Palácio do Planalto. Luciano Huck foi um desses quase-presidente. Quanto se perdeu de horas de trabalho de jornalistas especulando sobre a vitória anunciada de Luciano Huck? O sujeito era imbatível até no segundo turno. Bem, depois esse pessoal reclama da falência de jornais e revistas.


E vocês pensam que haverá uma autocrítica, mesmo que seja interna, apontando um rumo de melhor qualidade para a cobertura política? Vamos ao que está em andamento. A Rede Globo já anunciou a divulgação da primeira pesquisa de segundo turno. Vai custar R$ 237 mil e vai ao ar nesta quarta-feira. A nova pesquisa é do Ipec, que nada mais é que o ex-Ibope. Trocaram de marca depois da falência total da imagem do Ibope, causada pelas seguidas contradições, digamos assim, de várias pesquisas. Será que a Globo reserva uma surpresa com esta pesquisa? Pode ser que a divulgação seja na estreia de um programa de humor.


Mas e o Ipec, como estará o Ibope de logotipo novo? O último trabalho do Ipec foi a pesquisa que apresentou a disputa entre Jair Bolsonaro e Lula no primeiro turno, com 14 pontos de diferença a favor do petista: Lula com 51%, Bolsonaro com 37%. A divulgação foi no dia anterior à votação. Não é necessário ser marqueteiro para saber o efeito de uma pesquisa como esta na campanha de Lula. Tampouco precisa ter conhecimento técnico para saber como fica o ânimo da militância, com todos anunciando que o adversário está 14 pontos à frente. Onda positiva petista é pouco para definir algo assim. Já para Ciro Gomes e Simone Tebet foi um maremoto que os afogou na casa dos cinco pontos.


Estarei afirmando que houve fraude? Nada disso, porque não tenho como comprovar. Porém, não existe nenhum impedimento de que se tenha a suspeita de que aconteceu alguma coisa muito grave, que num país sério exigiria explicação. Mas será que estou questionando o valor científico de pesquisas? Vejo este problema como uma discussão mais dos fins do que do meio. Inclusive, sei muito bem que pesquisa eleitoral não é previsão, até porque neste caso seria adivinhação, algo que também na política não serve pra nada, embora no jornalismo atual usem tanto bola de cristal que dá até vergonha.


Porém, para que não haja confusão entre pesquisa e previsão é importante que a imprensa não faça dos números um guia fundamental nas pautas de política. Não deveria haver tanto destaque para as pesquisas. A interpretação podia ser mais séria, deixando claro ao leitor certas “subjetividades”. Os números também não deveriam ter tanto poder sobre qual o político ou as propostas que terão destaque nas coberturas jornalísticas. No geral, no entanto, não houve este equilíbrio no comportamento geral da imprensa, conforme eu disse logo no início deste texto.


A própria cobertura dessa incrível falha não está recebendo uma atenção mais aprofundada. As pesquisas merecem uma visão retrospectiva, especialmente quando dão problemas, como acontece agora. Fiquemos com a versão de que foi um erro. Então, deve-se procurar saber se este “erro” foi só agora, no final, ou vem lá de trás. Não temos como conferir discrepâncias do passado, mas cabe perguntar se há meses esses números já não batiam com a realidade. Como vimos então, isso serviu para a gradativa eliminação de candidaturas, reservando no final poucas opções de escolha para o eleitor, favorecendo Bolsonaro e Lula.


Será que de fato Ciro Gomes nunca chegou aos dois dígitos ou até ultrapassou esses números mágicos da política? Isso poderia ter ajudado muito no crescimento de sua candidatura. Ao contrário da má sorte do pedetista, números altos deram desde o início uma larga vantagem para Lula, favorecendo bastante, muito mesmo, suas armações para se colocar como a garantia da derrota de Bolsonaro, ou do “fascismo”, como os bravateiros apregoam. Isso para ficar apenas nos pontos positivos das pesquisas, porque já faz tempo que transparecia algo de muito estranho nas rejeições apontadas pelos institutos e também nos resultados das qualitativas.


Ainda na avaliação hipotética dos favorecimentos e dos danos, nesta análise é necessário observar também as responsabilidades sobre coisas muito graves que poderiam ter ocorrido em razão desse erro final. Supondo que Lula ganhasse no primeiro turno, na verdade seria por poucos pontos. Como no dia anterior as pesquisas traziam a diferença de 14%, o que poderia acontecer nas ruas deste país, com a população brasileira dividida pela metade, com uma parte tomada pela indignação?


Mais ainda: dias antes, o PT já havia reservado a Avenida Paulista, em São Paulo, para uma manifestação com a presença de Lula, que certamente estaria com sua arrogância turbinada pela vitória. Isso seria até mais que gasolina no fogo. É um demonstrativo do caráter do PT, na irresponsabilidade bem antiga, desde o nascedouro, do partido do Lula. Mesmo sem a grande diferença entre pesquisa e resultado, dirigentes políticos sensatos não colocariam o país sob tal risco. Mas aí o PT não seria o PT, não é mesmo?


Felizmente, por força do destino, foi evitado este perigo, que serve como demonstração do que teremos de enfrentar, independente da decisão dos eleitores no final deste mês. Os dois lados são terríveis. Não é fácil teclar nesta urna. Fala-se muito sobre as poucas diferenças de qualidade para o país entre Bolsonaro e Lula. Mas eu penso que esta equivalência é subordinada a certas competências. Com Lula, a maldade é mais bem organizada.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Lula e o PT entram emburrados no segundo turno

Lula já entrou no segundo turno com o pé esquerdo — digo sem me ater ao trocadilho, afirmando no sentido da forma errada de começar um trabalho. Em entrevista coletiva onde todos estavam muito murchos, logo que o TSE deu o resultado de primeiro turno, o candidato petista disse que é “apenas uma prorrogação”. Ora, não é nada disso: ele bem sabe como um segundo turno pode apresentar mais desafios do que o primeiro, senão ele próprio também não estaria de cara amarrada para falar do resultado contrário à expectativa de vitória no primeiro turno.


“Nós vamos ganhar”, disse Lula, com aquele tom de quem está sempre de mau humor. Faltou acertar o discurso, pois não é desse jeito que se entra em um segundo turno. Abre-se a porta sem esquecer de quem ficou para trás. Nesta reta final, aconselha-se ao menos que o candidato tire o salto alto usado durante toda campanha. A fala também não combinou com o clima de desânimo. Olhem a foto e digam se não estou correto em achar que o grupo está com medo de não ser feliz.


A expectativa da vitória certa foi criada de forma artificial, com ajuda de pesquisas muito suspeitas, além de ter sido desenvolvida sem equilíbrio. Afobado para ganhar logo a eleição, Lula criou ressentimentos que terá dificuldade de contornar neste segundo turno. O PT desmontou totalmente o quadro eleitoral, gastando bastante, desmobilizando outros partidos e repartindo um governo que ainda não tinham. Até a criação de ministérios novos foram prometidos.


Lula passou também aos eleitores uma imagem de arrogância, que terá para ele um peso bastante negativo nesta disputa final. Por extensão, estimulou na sua militância uma falta de respeito agressiva, até contraditória ao discurso que coloca os bolsonaristas como os brutos.


Pode-se dizer que combatiam o fascismo, porém não foi o que eu vi com espanto, no desmerecimento aos eleitores de Ciro Gomes, de Simone Tebet, enfim de qualquer pessoa que não aceitasse incondicionalmente Lula como o salvador do Brasil. Foi de uma brutalidade impressionante, até com a acusação das críticas a Lula feitas por Ciro Gomes fazer parte de um acordo entre Ciro Gomes e Bolsonaro, só porque durante o debate na Rede Globo o candidato do PDT ter trocado algumas palavras casuais com o presidente.


Hoje em dia isso é chamado de “cancelamento”, mas nada mais é do que a velha tática de eliminar o dissidente, anulando seus meios de subsistência e muitas vezes até matando. Isso me lembra bastante o que li em bons livros, nas práticas históricas entre a esquerda, quando, para ficar apenas em um exemplo, torturavam e matavam companheiros de luta contra o fascismo por causa de discordâncias, como aconteceu nos anos 1930 na Espanha, durante a guerra civil.


O cancelamento das vozes discordantes feitas pelo PT durante a campanha até agora vai complicar bastante para a obrigatória necessidade de conquistar apoios no segundo turno. E não se trata de acertar com Ciro ou qualquer outro líder. A maior complicação será no convencimento dos eleitores dos candidatos derrotados. Na minha opinião, os petistas foram longe demais, confundindo debate com conflito que precisa ser ganho de qualquer jeito. O próprio partido adotou essa petulância agressiva, com Lula dando o tom do desmerecimento ao direito de alguém se candidatar ou de votar do modo que quiser, sem ter que ser acusado de inimigo da pátria.


Será interessante assistir aos acenos públicos ao eleitorado de Ciro Gomes, a quem votou em Simone Tebet, sem esquecer do eleitor que votou nulo ou se absteve, enfim, como dizia a militância petista nas redes sociais, toda essa gente alienada, sem “consciência social” e a compreensão da urgência de derrotar o fascismo. A aceitação do necessário pragmatismo não será fácil para ninguém, muito menos para quem levou os tapas na cara.


E os primeiros passos do PT mostram que, pelo menos até agora, eles se mantêm incorrigíveis. O partido já havia conseguido junto ao TJ-SP a autorização para a utilização da Avenida Paulista ainda no 2 de outubro, para um pronunciamento de Lula. Isso pode parecer um erro tático, afinal foram em cima do eleitorado alheio com o argumento de que o Brasil corria risco de violência. Não havia o perigo da violência do fascismo? Dá para imaginar a festa que fariam neste dia em São Paulo.


A arrogância esquerdista exposta nas redes sociais permite prever o clima de provocação que poderia expor as pessoas a um risco a ser evitado. Lula e seu partido não sabiam do perigo a que seus militantes estariam expostos? Bem, dirigentes políticos que ganham votos firmando-se como bravos combatentes contra o fascismo teriam a obrigação de agir com cuidado. Afinal o Brasil estava ou não pronto para explodir?


Mas isso é apenas Lula sendo Lula, o PT sendo PT. Estavam prontos para jogar gasolina já no final do primeiro turno, cabendo apontar que a fogueira estaria garantida pelos três meses de Bolsonaro ainda no poder. Mas quem sabe os petistas aprendam finalmente uma importante utilidade do segundo turno. Nesta etapa, haverá a necessidade de Lula expor suas ideias e confrontá-las em público com o adversário, o chefão petista terá de adquirir equilíbrio, deixar de lado a arrogância, fazer composição com mais respeito, tratando aliados como parceiros e não na categoria de subordinados a um salvador da pátria. A aliança terá de ser torno de propostas em conjunto e não na adesão incondicional, como foi foi armada sua campanha no primeiro turno.


Ah, sim: ele e seu partido terão também de dar satisfação a uma peça essencial na democracia, até agora desprezada por eles e mantida como simples figurante na eleição: o tal do eleitor.



 

domingo, 2 de outubro de 2022

Jair Bolsonaro no segundo turno: pesquisas e a imprensa caem no descrédito


Jair Bolsonaro e Lula vão para o segundo turno, confirmando o que eu afirmava no início da semana passada. Disse então que desconfiava dos números das pesquisas, devido à impressionante demonstração de popularidade de Jair Bolsonaro nas ruas. “Será uma surpresa para mim se Jair Bolsonaro não tiver uma votação expressiva neste primeiro turno”, escrevi neste Facebook.


Os institutos de pesquisa erraram longe, especialmente o Datafolha, que curiosamente é o mais prestigiado. Mas será que foi erro mesmo? Digo há bastante tempo que o Datafolha é um criador de pautas para a Folha de S. Paulo, que se espalham depois pela internet e influenciam as eleições. Tampouco dá para levar a sério vários outros institutos, a maioria sem nenhuma transparência, sendo que um deles, o Ibope, que até pouco tempo era sinônimo de prestígio, foi obrigado a mudar de nome.


Na última pesquisa davam Lula com 50% e Bolsonaro com 36% dos votos. No final, deu Lula com 48,12%, Bolsonaro ficou com 43,47%. Com a pesquisa, dava-se uma excelente empurrada para frente em Lula e ainda servia para causar desestímulo na militância de Bolsonaro. Esta parte do plano não funcionou. Mas arrasaram com Ciro Gomes e Simone Tebet, que então tinham suas esperanças despedaçadas, para Lula subornar emocionalmente seus eleitores e tomar grande parte dos votos.


É com esse discurso que certamente os bolsonaristas entrarão no segundo turno. E neste caso, depois de uma diferença tão grande, não há como tirar a razão da queixa. Agora não é mimimi. Com a volta por cima, Bolsonaro a eleição final com uma militância fortalecida. Entrará na disputa com todo ânimo. Elegeu uma grande bancada na Câmara Federal e teve vitoriosos senadores em estados importantes, como São Paulo e Rio Grande do Sul. Em São Paulo, Tarcísio Freitas vai para o segundo turno à frente de Fernando Haddad, contrariando também as pesquisas.


Este primeiro turno comprova que o antipetismo é a grande força eleitoral do país, uma verdadeira alavanca para ganhar votos. Para o oponente. Com Lula como candidato, esta rejeição foi reforçada, servindo para amenizar até um presidente como Bolsonaro, que aprontou tantas maldades no poder, algumas até de uma crueldade desumana. É com Lula, esse político repleto de coisas negativas na vida, que anulam qualquer defeito do adversário, que Bolsonaro vai tentar a reeleição.


Ninguém dará ouvidos para pesquisas neste segundo turno. A imprensa também entra desacreditada nesta hora de definir quem será o presidente. O jornalismo, no geral, passou a guiar-se quase que exclusivamente por pesquisas, gradativamente concentrando as matérias em números, sem sequer aprofundar para os leitores o valor relativo de cada uma delas. Em eleição alguma no Brasil se fez tantas pesquisas. E será que foi só coincidência? A produção de pesquisas sempre foi uma forma de candidatos de maior poder econômico e mais dinheiro em caixa influenciarem a formação do cenário eleitoral em seu benefício.


Desta vez, os maiorais da política tiveram a cumplicidade da imprensa. Escaparam da cobrança de propostas e esclarecimentos sobre o que fizeram em suas carreiras. Deixaram de dizer ao eleitor o que pretendem fazer em Brasília. Turbinado por pesquisas que estavam erradas ou manipuladas, Lula teve até a arrogância de afirmar que só falaria dos seus planos depois de eleito.


As pautas jornalísticas ficaram concentradas na discussão dos números de pesquisas e mesmo neste assunto obsessivo, com matérias superficiais. O efeito foi o de tirar a atenção dos leitores sobre os reais problemas do país. Houve um abandono do debate dos problemas brasileiros, além do desmerecimento absurdo de várias candidaturas colocadas com menos pontos nas pesquisas. Com a justificativa de que obtinham poucos pontos junto aos eleitores, muitos políticos tiveram espaços negados em debates. Deixaram de ser entrevistados e foram esquecidos no noticiário.


Nunca a credibilidade da imprensa ficou tão desacreditada, pela escolha equivocada de dar tanta atenção ao que os institutos diziam. Mas, repito novamente: foi mesmo apenas um equívoco? A votação de Bolsonaro e Lula, completamente fora dos números que davam o tom das pautas jornalísticas durante meses, lança uma suspeição muito forte. E o descrédito deve aumentar muito mais no período de segundo turno, quando os bolsonaristas vão fazer muito barulho. E devo dizer novamente: quem poderá negar-lhes a razão?


Além da disputa para presidente, em vários estados o resultado final foi contra o que diziam as pesquisas, desmentindo números que eram tratados pela imprensa como se fossem resultados reais, enquanto as campanhas se desenvolviam, com espertalhões turbinados pelo noticiário favorável. Com esta porção de desacertos pelo Brasil afora e na eleição para presidente, não há como não suspeitar que há meses vários candidatos vinham sendo rebaixados artificialmente. Para mim, foi isso que ocorreu. É óbvio que não existem meios de comprovar esta minha visão, porém o que se apresenta agora faz suspeitar de que deve ter havido uma grave manipulação para derrubar candidaturas, além de estabelecer uma falsa realidade para estimular o eleitor a decidir a eleição no primeiro turno.


Desses candidatos surrupiados de forma antidemocrática, um dos mais prejudicados foi Ciro Gomes. Simone Tebet também teve sua candidatura atingida. E foram feitas também outras vítimas, que nem chegaram a levar adiante suas candidaturas, sendo eliminados do processo eleitoral por meio de números que parecem ter sido forjados. Muitos jornalistas foram cúmplices desse despropósito, levando a imprensa a ficar com a credibilidade seriamente abalada.


Antagonista sofre censura de Alexandre Moraes

O ministro Alexandre de Moraes determinou neste domingo a retirada do ar da reportagem “Exclusivo: em interceptação da PF, Marcola declara voto em Lula”, publicada ontem no site O Antagonista. A exclusão do material jornalístico foi feita a pedido da campanha de Lula. Escrevi ontem sobre esta reportagem. O Antagonista define como censura a ordem do ministro do STF e presidente do TSE. Concordo com a interpretação do site — foi mesmo censura. A justificativa de Moraes não tem fundamento e, além disso, abre espaço para exploração política da decisão.


Para o presidente do TSE, trata-se de “divulgação de fato conteúdo sabidamente inverídico”. O Antagonista refuta o argumento, explicando que “a matéria reproduz áudios obtidos pela Polícia Federal, no âmbito da operação Anjos da Guarda, com autorização judicial”. Portanto, embora a decisão de Moraes induza ao entendimento de que o site faz a publicação de “conteúdo sabidamente inverídico”, o que implica em grave prejuízo para um veículo jornalístico em sua credibilidade, sua argumentação baseia-se numa justificativa totalmente subjetiva dos advogados da campanha de Lula no pedido de exclusão da matéria jornalística.


Segundo O Antagonista, Moraes acolheu “sem direito ao contraditório, argumentos dos advogados da campanha do petista”. A alegação dos advogados de Lula é de que “na condição de condenado por decisão transitada em julgado, Marcola está com seus direitos políticos suspensos (artigo 15 da Constituição Federal) e, enquanto persistir essa situação jurídica, está impedido de votar”. A matéria, cabe apontar, fala em declaração de voto em Lula, feita por Marcola, líder do PCC.


A decisão de Moraes seria de espantar, mas isso em outra condição política, com um país menos bagunçado moralmente, com um equilíbrio ao menos razoável na aplicação da Justiça. A justificativa para censurar a matéria se sustenta em um argumento que em outras situações inviabilizaria a publicação de um vasto volume de material jornalístico. E evidentemente torna uma acusação sem sentido a sentença de “divulgação de fato conteúdo sabidamente inverídico”.


Este caso lembra bastante as inumeráveis argumentações alegadamente jurídicas em torno dos processos contra Lula, muitas vezes defendidas por advogados em pleno tribunal, mas que eram evidentemente a produção de material de propaganda e exaltação pública da figura do candidato do PT, de uso inclusive posterior para reescrever história política. É mais ou menos o que ocorre quando conquistam por meio de lobbies políticos alguma declaração favorável a Lula em certos “comitês” de instituições internacionais, como fizeram na ONU.


O ministro do STF acolheu a argumentação de que a falta do direito de votar não permite dizer que alguém faz uma declaração de voto. Como eu disse, essa manobra de linguagem inviabiliza escrever sobre muita coisa. E como ficaria, do mesmo modo, a produção de pesquisas? Só vale se o entrevistado provar que é eleitor. É uma forma de julgamento até engraçada — no sentido tragicômico —, pois transporta para o exercício do Direito a forma de acabar com um debate que se usa nas redes sociais, por meio de artimanhas, com ataques subjetivos, sem levar em conta o que o outro está realmente dizendo.


A decisão pode ser derrubada, porém, o simples fato dessa censura ser cogitada com este argumento, mostra que a coisa vai mesmo muito mal neste nosso Brasil. Alerto para o que se abre de brecha para a imposição do medo de escrever qualquer coisa. Nem vou dizer que o país está se encaminhando para uma situação extremamente perigosa, pois já estamos envolvidos por um ambiente de ruína política e moral, que vez por outra descamba para a insensatez. E tem seu lado cômico também, ainda que o riso aconteça com certo temor. Neste rumo, mais um pouco e teremos gente condenada e presa sob a acusação de produzir metáforas.

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Como registro, republico abaixo o texto 
que postei na noite de ontem no Facebook 

Lula saiu da cadeia, mas a cadeia não esquece dele. O site O Antagonista publicou na noite deste sábado uma matéria explosiva sobre a declaração de voto em Lula feita por Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. A preferência do líder do PCC pelo candidato do PT está em diálogos obtidos pela Polícia Federal na operação Anjo da Guarda, investigação que desmontou um esquema que pretendia libertar da prisão pela força líderes do crime organizado, entre eles o próprio Marcola, que foi pego em gravações de diálogos com parceiros do crime e advogadas.


A polícia monitorou as conversas entre Marcola, sua mulher Cynthia Giglioli da Silva Camacho e advogadas, além de comparsas que estão presos com o líder do PCC. Nos áudios, eles falam da esperança de que a mudança de governo os favoreça, inclusive com a transferência para um presídio em Brasília, desejo de Marcola, que se queixa do regime de isolamento na prisão em que está atualmente, em Porto Velho..


Numa conversa, a PF captou Cláudio Barbará da Silva, comparsa de Marcola, dizendo que espera que, se eleito, Lula faça um “trabalho excepcional”. Ele recebia a visita na prisão da advogada Vanessa Jeniffer Cabral. A advogada concorda, reforçando o elogio ao petista: “Ele é bom. Acredito que ele fica 4 anos, pela idade dele, para limpar, fazer um trabalho excepcional”.


Um interesse na troca de governo, com o retorno de Lula, está na amenização do regime carcerário enfrentado pelo chefe do PCC. Em outra gravação, Marcola reclama das condições duras impostas na carceragem de Porto Velho, ao que é tranquilizado pela sua mulher, Cynthia Giglioli da Silva Camacho: “Então, você vai ficar aqui provavelmente até a eleição, trocou o governo cê volta (sic) passando as eleições, você deve voltar para Brasília porque o muro que fizeram lá era por causa de você”.


Os políticos costumam dizer que voto não se recusa, não sei se é o caso de voto com esta origem. No entanto, a simpatia política do PCC por Lula faz sentido, afinal uma pauta histórica da esquerda é a do fim do rigor carcerário. A questão que interfere nesta discutível boa vontade com criminosos é que o relaxamento do rigor com o crime organizado facilita o controle dos chefes a partir da cadeia. Também é por este meio que são emitidas ordens de assassinato de adversários e até mesmo de autoridades públicas.


Um dos parceiros de cadeia que aparece nos áudios captados pela PF é Reinaldo Teixeira dos Santos, o Funchal. Ele foi condenado em 2003 pelo assassinato do juiz corregedor Antônio José Machado Dias. Na conversa com a advogada Vanessa Jennifer Cabral, Funchal fica satisfeito ao saber do fim dos processos da Lava Jato contra Lula no STF. Ele chega a fazer piada com a advogada: “Então tá bom, legal, vota nele em doutora, não vai votar de novo no Bolsonaro”.


Noutro diálogo em que aparece Marcola, o líder do PCC dá uma opinião que mostra que até mesmo os bandidos se sentem obrigados à optar pelo menos pior nesta eleição, ficando com Lula mesmo sem ter dúvida da desonestidade do candidato do PT. Ele acha que apesar de ser um “pilantra”, Lula é melhor que Bolsonaro.


“Ah, mas… para nós o Bolsonaro é pior (…) O Lula é ladrão mesmo, pilantra entendeu… só que é o seguinte, irmão. Essa fita do Covid mesmo, o Bolsonaro deu uma mancada. Bolsonaro é parceiro da política, da milícia. Cara é sem futuro. O Lula também é sem futuro, só que entre os dois, não dá nem para comparar um com o outro”, diz Marcola.


Em véspera de eleição, a matéria cai como uma bomba, por isso evidentemente os petistas vão tentar colocá-la sob suspeição, no entanto O Antagonista tem credibilidade. E a simpatia política de chefes do crime organizado por Lula faz todo sentido. A maquinação política para tirar o candidato do PT da cadeia, entre outras facilitações para escapar de punições, levou ao fim da prisão em primeira instância, por exemplo. Claro que este benefício se estende ao crime comum. Só por isso já valeria o agradecimento eterno dos criminosos, pelos processos se estendendo infinitamente. Mas outras amaciadas nas leis vêm sendo criadas pelas chamadas "políticas garantistas” da esquerda, que receberam apoio unânime entre o que há de pior entre os políticos brasileiros. Dependendo do resultado da eleição, essa impunidade pode avançar bastante a partir do ano que vem.

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Link- https://oantagonista.uol.com.br/brasil/exclusivo-em-interceptacao-da-pf-marcola-declara-voto-em-lula-e-melhor-mesmo-sendo-um-pilantra/

sábado, 1 de outubro de 2022

Casagrande, Neymar e a consciência social do nós contra eles

O pessoal da adesão incondicional ao Lula pegou o jogador Neymar como alvo de ataques neste final de campanha, por causa da sua declaração de voto em Jair Bolsonaro, com direito a “dancinha” no TikTok. Nesta indignação ensaiada destaca-se Walter Casagrande, figura que atua como um mentor intelectual desse tipo de manipulação política. O ex-jogador e ex-comentarista da Rede Globo está em todas e é o mais animado da torcida quando — por interesse partidário, em armações na obscuridade — coloca-se em campo algum plano de destruição de reputação, o chamado “cancelamento” que atormenta a vida de uma pessoa. Por ideologia tosca e mal aprendida em seus próprios termos, Casagrande é um aplicado quebrador de canelas.


Ora, seria ridículo acreditar que Neymar precisa fazer dancinha para Bolsonaro para que se fique sabendo que suas decisões não se guiam por princípios éticos ou em razão de interesses que não sejam absolutamente de lucro pessoal. Ninguém que tenha sensatez precisa disso, Casagrande muito menos, mesmo porque ele tem como estilo ficar futucando na vida dos outros em vez de se ater ao aspecto técnico do que está comentando. Faz isso também na política, quando acaba por desmerecer mesmo pautas razoáveis, por causa do tom pessoal das suas críticas sempre mal fundamentadas, com falta de respeito à opiniões discordantes, baixando o nível em desqualificações com base apenas no fato dele não gostar do posicionamento político do outro.


Indignado com a dancinha de Neymar favorável a Bolsonaro, ele produziu uma sintética avaliação do caráter social do jogador, além de fazer uma promessa que mesmo o torcedor mais neófito em política verá como uma tolice: “Neymar mostrou sua incoerência, alienação e falta de consciência social. Não torço contra a Seleção, mas de hoje em diante, não torcerei mais quando Neymar estiver em campo. Sabem por quê? Porque eu amo o meu país”.


Nada como tratar de um gênio político como Casagrande. Ele reformulou aquele velho argumento lógico que dizia o seguinte: “Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”. A nova premissa usaria outro Sócrates, o grande jogador do Corinthians. Então ficaria assim: “Sócrates tem consciência social. Logo, Sócrates é um craque”. Até hoje Casagrande deve pensar que era para ver a faixa de “Diretas Já!” na cabeça do Sócrates que os torcedores lotavam os estádios.


Seria engraçado saber do próprio Casagrande como é que um técnico poderia formar um time baseado na qualificação política que, conforme o que escreveu, parece estar acima de outras necessidades técnicas em campo. Neste entendimento, ele com sua “consciência social” faria bonito numa Copa do Mundo. O alienado Messi teria que encarar o barrigão do craque em ciência política. Outra coisa: a vida dos torcedores se complicaria muito, caso fosse aplicada sua visão de mundo, além de que os jornalistas esportivos seriam obrigados a falar do preparo físico dos nossos craques sem deixar de lado as referências quanto ao comportamento político de cada um.


Casagrande se enquadra no padrão básico de atitudes que faz tempo que a esquerda vem tendo neste país. A azucrinação se acirrou durante esta eleição. Do mesmo modo que a sua radical interpretação, digamos, social, a partir de uma dancinha de TikTok, esse comportamento é contraproducente também na política. Esse “nós contra eles” entra até na vida familiar, dividindo as pessoas, acabando com as amizades. A vida fica insuportável, e pode ter efeito reverso, como constatamos pela eleição de Jair Bolsonaro, que teve origem exatamente na brigaiada vazia que o PT colocou em prática quando esteve no poder.


E pelo que estamos vendo até agora, na véspera da votação, a infernização retornará caso haja a volta do PT ao poder. O próprio Lula não demonstrou a compreensão da importância de não estimular a confusão entre o papel dos que votam em Bolsonaro e de seus seguidores mais fiéis. Essa falta de estratégia vai acabar criando um ambiente para a criação pela direita de uma força política de massas a partir do ano que vem, independente do resultado da eleição.


Os brasileiros, no geral, sempre tiveram o hábito de depositar o voto na urna sem levar para casa as paixões da política. Qual é o sentido do eleitor passar a seguir, depois, com fanatismo, o candidato eleito? O país ganha mais se todos se juntarem como cidadãos na cobrança. O governo do PT já havia acabado com isso. E voltaram com tudo na campanha deste ano, com um vale-tudo que favorece a direita, pois traz exatamente o que eles precisam para manter o caldo de cultura que deve inclusive fortalecer uma sobrevida vigorosa a partir do ano que vem, mesmo com a derrota de Bolsonaro.


O Brasil é o país do futuro atormentado, mas o ano ainda está correndo. O PT criou ainda mais ressentimentos com sua estratégia de plantar na mídia uma vitória de Lula no primeiro turno, o que na minha opinião não acontecerá. Ciro Gomes já tinha visto que o cancelamento por falta de “consciência social” não é só com o Neymar. Simone Tebet também. Ou Felipe D’Ávila e Soraya Thronicke. Se nenhum deles passar para o segundo turno, o interessante seria ver como é que seus eleitores serão convencidos a esquecer os tapas na cara. É capaz do Lula ser obrigado até a esclarecer o que pretende fazer como presidente.


Vamos ver o pau comer neste país. Se o enfrentamento final for entre Lula e Bolsonaro, por consequência haverá muita dificuldade do PT convencer quem votou na chamada terceira via que Lula é uma opção menos pior para o Brasil. Acredito que eleitores com votos que definiriam facilmente a eleição vão apenas assistir ao espetáculo de troca de porradas, sem nenhuma preocupação sobre a “consciência social” de qualquer um dos lados.


sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Lula e o plano do retorno do Brasil do vale-tudo

Existe uma definição muito boa sobre o personalismo na política, nesta crença tola em salvadores da pátria, que é a frase “pobre do país que precisa de heróis”. O ponto preciso é de que só uma sociedade arruinada em quase tudo pode acreditar que pode haver salvação por este caminho, daí o lamento. E o que dizer então de um país que precisa do Lula como herói? Ora, talvez seja o cara certo, porque pelo menos não teremos que encarar o esforço de trabalhar para repor valores morais, que é a maior complicação numa sociedade em destruição, como a nossa.


Calma, eu sei que a honestidade é a base de qualquer trabalho de valor efetivo, ainda mais quando o objetivo é do interesse de todo o país. Mas esta a única razão que vejo como justificativa dessa corrida para apoiar a eleição de Lula, ainda mais com a alegação de “luta contra o fascismo”, que chega a ser insultuosa para verdadeiros heróis que no século passado combateram realmente fascistas, em tempos que duvido que esses bravos guerreiros da atualidade teriam coragem de sair nas ruas com essa conversa fiada.


Dá até tristeza pela condição terrivelmente antiética em que é jogado o Brasil, com esta incondicional adesão a um político que já demonstrou do que é capaz em matéria de imoralidade e noutras tretas em proveito próprio. A justificativa da luta pela democracia, ou contra o fascismo, só serve para passar menos vergonha por estarem colocando em prática aquele jargão de outros tempos difíceis dessa pátria desmantelada, na canção daquele sujeito que é ao mesmo tempo menestrel e guru na corte de Lula, que cantava “Chame o ladrão, chame o ladrão!”. Mas, espera aí: a música era de crítica, companheiros.


Lula na presidência será um sério problema prático, uma complicação que ele próprio garante que vai criar para nós, quando garante que está pronto para usar a experiência que adquiriu nos últimos anos. Ele diz que aprendeu muito, o que é assustador. Ainda mais? Eu diria que soa como ameaça, ao contrário dos que o aclamam como libertador do Brasil, todos agitando toalhas com a cara do larápio, marchando contra o fascismo. Lula já teve dois mandatos e mandou nos quatro que completam o período de governos petistas. Seu legado é de uma brutal queda moral que contaminou toda a sociedade brasileira, além de ter causado a destruição da economia do país.


Os números provam isso: o legado petista foi de 12 milhões de desempregados. Isso no oficial, é claro, pois os dados não pegam os trabalhadores que desistiram de procurar o que não existe. No final do governo Dilma, o Brasil estava com um déficit de 4,5%. O diagnóstico do desastre administrativo foi apresentado ao próprio Lula pelo jornalista William Waack, na CNN, durante a melhor entrevista feita com o chefão do PT neste período de campanha. Como é de seu costume, Lula negou tudo e ficou apavorado procurando em seus papéis um meio de contestar a verdade. Nada encontrou. O jornalista concluiu então a exposição dos números com a definição exata da consequência para o Brasil da visão econômica do PT: “Nenhum país que não esteve em guerra perdeu tanta renda como o Brasil perdeu ali entre 2014, 15 e 16”.


Waack foi claro, mostrando ao chefe político esquerdista o desastroso cenário que surgiu da “ideia de que o Estado seria um grande indutor do crescimento através de volumosos investimentos e papel dos bancos públicos”. Não se pode deixar de acusar a responsabilidade de Jair Bolsonaro e seu ministro Paulo Guedes na vida infernal que os brasileiros estão levando, no entanto — e sempre ressaltando a incompetência e má-fé do atual governo — deram prosseguimento do legado petista. Bolsonaro e Guedes vão entregar o país desgraçadamente parecido ao que foi feito pelas magias petistas da cervejinha e da picanha.


Lula resiste a apresentar um plano de governo, mas com este currículo, nem precisa. Que empresa contrataria um administrador como este? Muitas delas, como se vê pela correria de elites de todo tipo — inclusive as novas elites da nossa cultura, como Anitta e Pabllo Vittar — em apoio a um retorno, que o vice Geraldo Alckmin já definiu muito bem como “volta à cena do crime”. Ocorre que, embora não esteja devidamente exposto em um ideário do partido, já está mais que entendido a possibilidade de lucro com os valores morais, digamos, que se estabelecerão com uma volta ao poder como esta.


Já existem até estudos sobre o conceito de que o país ganha muito mais fechando os olhos para a corrupção e à incapacidade administrativa. É uma visão tão fora de propósito que não seria acreditável nem numa comédia grotesca sobre o Coringa elegendo-se prefeito de Gotham City com uma plataforma política de combate ao fascismo. No enredo proposto pela esquerda por aqui, na realidade, não se pune empresários ladrões e muito menos políticos idem porque — oh, dó! — senão eles perdem seus negócios. E não há motivo para espanto, afinal já foi avisado faz tempo que eles não têm medo de ser feliz. E tem até o gesto com a primeira letra da palavra “ladrão”.


Uma pergunta que faço aos que aclamam um sujeito tão trapaceiro é como faremos mais adiante com a educação dos mais jovens e mesmo nas relações entre todos os brasileiros. Como ficará a ética como conceito de vida depois da volta ao poder de um político que já aceitou a existência do mensalão e que também teve a roubalheira do petrolão na Petrobras? Como Lula mandava nos quatro governos petistas, ele não pode fugir de se enquadrar num dos dois casos. É com esse sujeito que o Brasil será salvo? Então a mensagem clara é de que valerá pouco, quase nada, ter respeito aos princípios morais de qualidade.


Aos brasileiros vai ficar a lição de que a aplicação honesta ao trabalho não abre portas para a realização pessoal, talvez nem mesmo para a subsistência — isso não dá futuro, será o conselho ao incauto que estiver agindo corretamente. Viveremos em um país onde quem passou a vida fazendo tudo com dedicação, de forma honesta, poderá achar que errou em defender princípios de dignidade e ética, sentindo que no decorrer da existência deveria ter se aproveitado dos outros? Isso é um tapa na cara dos mais velhos. E sinto dizer que servirá como um mau ensinamento aos mais jovens.


É um novo tempo que se anuncia. Uma revolução de costumes, que pode virar até jurisprudência jurídica, com certeza colaborando muito com o projeto de governo petista. Claro que de início será complicado explicar para os filhos e netos esse novo modelo de civilização, mas não há porque se preocupar: em pouco tempo a safadeza será tão normal que nem as crianças terão dúvida de que receberão aprovação ao bater no coleguinha e tomar seu brinquedo. E quem ainda tiver apego a métodos arcaicos de vida, como a honestidade e o respeito ao próximo, que arrume um jeito de se reinventar.



quinta-feira, 29 de setembro de 2022


 

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Jair Bolsonaro e Lula: para onde vão as massas na campanha e no pós-eleição

Será uma surpresa para mim se Jair Bolsonaro não tiver uma votação expressiva neste primeiro turno. Especialmente nas últimas semanas, apareceram comprovações materiais de um apoio popular à sua candidatura, em manifestações com toda a aparência de espontaneidade, mesmo porque as forças partidárias que apoiam a reeleição do presidente nunca tiveram a capacidade estrutural de levar as massas para as ruas. São partidos com experiência comprovada em arranjos de bastidores e na armação de esquemas de sustentação do governo, seja de que lado for, sem no entanto contar com o antigo aparato do PT, que garante participação com suas linhas de ligação com sindicatos, universidades, organizações civis e até no serviço público.


Entre agosto e setembro quebraram-se também alegações de fragilidade de Bolsonaro para o enfrentamento de entrevistas fora do circuito jornalístico que lhe dá apoio praticamente incondicional. Ele também desmontou com atitudes práticas a afirmação de adversários de que seria um desqualificado para discussão pública com adversários e que por isso fugiria de enfrentá-los em debates.


Ele se saiu bem no Jornal Nacional, a entrevista de maior visibilidade com candidatos neste fim de campanha, ainda mais levando em consideração a desigualdade no tratamento dos entrevistados. O rigor dos apresentadores do noticiário da Rede Globo não mereceria ressalva do ponto de vista jornalístico, se não tivesse ficado muito abaixo em comparação ao que William Bonner e Renata Vasconcelos tiveram com Lula, seu mais importante adversário.


O início da entrevista com Lula vai ficar na carreira de William Bonner como uma mancha complicada de explicar, com uma afirmação que soou como se tivesse sido soprada pelo marqueteiro da campanha petista. Falando sobre corrupção, Bonner disse que o ex-presidente envolvido em dois grandes esquemas de corrupção, o mensalão e o petrolão, “não deve nada à Justiça".


Nem de longe, mas longíssimo mesmo, Bolsonaro recebeu durante a entrevista algo parecido para seu uso político e eleitoral. Ciro Gomes tampouco saiu do programa levando para sua campanha uma conceituação tão favorável em relação a um sério problema de imagem, como aconteceu com Lula. A acolhida favorável tocou numa fragilidade política do petista. Cabe registrar a fala do jornalista da Rede Globo.


“O Supremo Tribunal Federal deu razão, considerou o então juiz Sergio Moro parcial, anulou a condenação do caso do tríplex e anulou também outras ações por ter considerado a vara de Curitiba incompetente. Portanto, o senhor não deve nada à Justiça”, disse Bonner. O marqueteiro João Santana não faria melhor, nem mesmo o criador original de Lula, o falecido Duda Mendonça. É quase uma sentença de absolvição. Foi a mais fantástica fake news desta eleição, feita ao vivo para milhões de telespectadores pela rede de televisão mais poderosa do país.


Claro que teve um aproveitamento total depois, por Lula e seu marketing de campanha. O petista até agradeceu com cinismo: “Adorei o comportamento do Bonner, quando ele teve a coragem de dizer: ‘Hoje, o senhor não deve nada’”. Depois, a mensagem foi sendo repassada infinitamente nas redes sociais. Equivalente a este mimo político, seria Bonner falar a Bolsonaro que o presidente nada deve em relação ao enfrentamento da pandemia. Ou dizer que Ciro Gomes é uma flor de pessoa.


A desconsideração proposital que era feita a Bolsonaro, de que fugiria de debates em razão de deficiência pessoal, teve também um desmentido cabal com a participação na TV Bandeirantes, no primeiro encontro entre candidatos, com o conhecido peso histórico nas eleições. Neste debate foi também demolido o mito de Lula como um grande debatedor político e obrigou sua retirada de cena, para se expor unicamente para plateias previamente organizadas em ambientes favoráveis.


Não tenho dúvida de que a falta de reação do chefão do PT aos ataques de Bolsonaro acendeu um alarme entre os dirigentes petistas, que até então tinham uma convicção religiosa na inteligência política de Lula e na sua capacidade pessoal em um embate cara a cara com adversários. Para mim, a tática extrema da busca de resolver a eleição no primeiro turno tem mais a ver mesmo com a dificuldade prevista em um encontro frente a frente com Bolsonaro. Na minha opinião, dos candidatos que aí estão, só Ciro Gomes tem garra pessoal para este enfrentamento direto.


O cenário com Lula em um segundo turno, no embate um a um, traz maiores motivos de preocupação. Outra complicação que deve ter causado tremores entre os dirigentes petistas é a dificuldade da campanha em atrair apoio popular visível, mostrando um estímulo eleitoral de massas, para Lula não ser sustentado tanto pelo poder financeiro da campanha – já chegaram no limite de 86 milhões de reais, falando só do oficial. É curioso que não haja uma aclamação nas ruas em torno de um candidato que se diz que vai ganhar no primeiro turno.


Essa ausência das massas populares é mais um acontecimento inesperado para os petistas, igualmente com uma surpresa reversa: é Bolsonaro e não Lula que mostra nas ruas um apoio vibrante de multidões sem uma relação direta com militância partidária ou de classe. São pessoas de idades variadas, muitos jovens e muitas mulheres – é bobagem a gozação esquerdista de que o candidato sustenta-se com seguidores da terceira idade.


O que Bolsonaro e sua equipe vão conquistar em votos com este ambiente favorável à participação popular dependerá da capacidade técnica da sua campanha, que terá sua constatação em poucos dias. Mas o prolongamento dessa força popular é garantido, independente de qualquer resultado eleitoral. E não existe garantia de que com a derrota de Bolsonaro seja bolsonarista este movimento de massas. Já escrevi várias vezes que vejo este amplo posicionamento coletivo contrário à esquerda no Brasil concentrado em Bolsonaro, mas de forma alguma tendo ele como condutor.


É uma massa de brasileiros que vai dar o tom do próximo mandato presidencial, com muita gente pronta para ir às ruas em oposição ao governo de Lula, caso ele seja eleito. Neste caso, cumprindo um papel estabilizador, o que pode ser favorável ao país: na minha visão, um governo petista trará muito risco ao Brasil. E no longo prazo, bem organizada e com boa condução, essa massa de brasileiros poderá dar à política brasileira um clima de maior equilíbrio, em termos de poder em todas as instituições. Como se diz, quando não dá para garantir o que vem pela frente: quem viver, verá.


segunda-feira, 26 de setembro de 2022


 

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Vladimir Putin: o vingador do passado

 Toda vez que Vladimir Putin aparece ameaçando o Ocidente, me chama a atenção o ambiente de filme antigo onde ele faz seus pronunciamentos, com os telefones fixos ao fundo e o fax, pronto para disparar ordens aos seus batalhões. Se as sanções internacionais apertarem, o ditador da Rússia pode abrir um brechó. A estética local, digamos assim, faz lembrar bastante aquele outro legado estúpido do comunismo, o ditador Kim Jong-Un, que costuma ser filmado fazendo disparos de mísseis em um cenário de “Perdidos no espaço”.

Tempos difíceis, não? Quem diria que no Terceiro Milênio viveríamos aterrorizados por uma figura de antiquário. Putin não só parece um ditador dos anos 1950, talvez um tanto mais atrás. Seu anacronismo é autêntico, inclusive pela base de seu poder, uma potência nuclear sustentada pela exportação de commodities.


O clima político de Guerra Fria fica perfeito nestas cenas que parecem de histórias de vilão do comunismo, em filmes americanos de décadas atrás. Só ficaria mais no tom se fosse Ronald Reagan o presidente dos Estados Unidos, mas aí seria pedir demais em matéria de metalinguagem.


É de dar medo. Poderá ser o fim do mundo se acabar o papel do fax ou um telefone desses não der linha na hora de reverter a ordem do ataque nuclear.


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Lula e seu pior inimigo: um passado da queda moral e da quebradeira da economia brasileira


Nesta eleição, Lula voltou a fazer seu velho jogo de aliciar muitos partidos por meio de promessas de cargos e sabe-se lá o que mais, montando um quadro eleitoral favorável. O exemplo de São Paulo serve para provar a montagem deste esquema obscuro que sustenta depois o mito de ganhador de eleição por meio do carisma político. Na disputa pelo governo paulista houve também a anulação de candidaturas, sejam aliados ou inimigos, que poderiam complicar para o lado do chefão do PT. Lula parte para o ataque direto ou apela para o aliciamento.

Contra Sergio Moro articularam a demolição da sua própria possibilidade legal de se candidatar para qualquer cargo em São Paulo. Guilherme Boulos foi presenteado com futuras mordidas em fatias do poder. Deram até o cargo de vice na chapa de Fernando Haddad para a esposa de Márcio França, uma mulher que nunca disputou cargo eletivo algum. Com esse mimo familiar, França abandonou o sonho de voltar ao Palácio Bandeirantes e virou candidato ao Senado, sabe-se lá com quais vantagens de campanha garantidas por Lula.

Foi com jogadas parecidas em vários estados, anulando obstáculos e formando artificialmente um ambiente favorável ao seu interesse, que Lula ganhou força, além de sua candidatura dispor de uma dinheirama – quinze dias antes da hora do voto já tinha alcançado o limite legal de 86 milhões (isso, milhões!) de reais, apenas no oficial, sem falar na mansão em que foi morar na capital paulista, alugada não se sabe por quem, que evidentemente não entra na contabilidade obrigatória do TSE.

Sejamos francos: com esses arranjos, até o “carisma” do eterno candidato Eymael faria diferença nesta eleição. E aqui cabe expor uma questão. Já se vão 40 anos com ele mandando em um partido e tendo o apoio, ano após ano, das mais variadas instituições civis, como sindicatos, movimentos organizados do meio rural e das cidades, além da relação estreita com a imprensa e as universidades. Lula ainda precisa desse esquema todo para confrontar um candidato desprezível, do feitio de Jair Bolsonaro?

Primeiro, o óbvio, o ex-trabalhador há muitas décadas sabe muito bem que não é pelo carisma que ele se mantém por tantos anos em destaque na política brasileira. E depois, Lula com certeza tem o conhecimento, com dados e avaliações de especialistas e cercado de conselhos de políticos experientes, de que não é contra Bolsonaro a disputa deste ano, do mesmo modo que não foi Bolsonaro o adversário da eleição passada.

Lula e seu partido se movimentam contra forças sociais que nasceram dos erros e das más intenções dos governos em que ele mandou. As políticas que arrasaram o país moralmente e na economia trouxeram o risco de gerar um monstro, que poderia ser qualquer político com o senso de oportunidade de aproveitar-se da desgraça. Foi por acaso que este oportunista se chamava Bolsonaro.

Pesam também contra Lula e o PT as atitudes políticas no governo ou na oposição, criando divergências destrutivas entre a população, intrometendo-se nos valores religiosos e morais das pessoas, estabelecendo um discurso de desrespeito à opiniões contrárias que trouxe ao Brasil um clima de divisão até entre familiares, de irmão contra irmão, amigos que não mais se falam. E teve também a impressionante roubalheira, no revolucionário método do rouba e não faz.

O ódio passou a prevalecer sobre o sentimento de amor e amizade, do respeito ao que o outro fala. E claro que vou concordar se disserem que isso é o que faz Bolsonaro, no entanto com a observação de que o caldo de cultura dessa cizânia nacional e de tanta maldade veio da pioneira prática petista – primeiro para ganhar eleições e depois dividindo a opinião pública e atiçando ódios para manter-se no poder e tocar um projeto político que não tem em vista a alternância no poder.

Que Bolsonaro é um coisa ruim, não se questiona. Cabe, no entanto, juntar aos seus malefícios a compreensão de que ele alcançou o poder alavancado pelo ambiente criado pelo PT no país.

A medida do significado do ressentimento popular pelo período petista está neste esforço extraordinário exigido de Lula para se contrapor ao presidente mais asqueroso que este país já teve que suportar. Usando a linguagem do próprio, Bolsonaro é o torturador que não faz questão de parecer bonzinho. Isso é com o Lula. O legado que se volta contra o PT é tão pesado que, mesmo depois de Bolsonaro ter feito até gozação com a terrível mortandade que abalou o Brasil, sua popularidade se mantém com uma extensão capaz de juntar multidões em todo o país, como se viu neste Sete de Setembro.

E que não se acredite que milhões de pessoas saíram às ruas nesse dia movidas por uma liderança carismática de direita. A motivação é muito mais poderosa e terá continuidade a partir do ano que vem. O PT sabe disso, mas suas lideranças não estão em condição de se ocupar agora do pós-eleição. A complicação mais urgente é a de encarar um segundo turno neste clima. Daí o esforço de resolver tudo no primeiro turno.

Vem disso tudo a preocupação em criar um oponente com uma imagem diabólica, o “genocida”, “fascista” e outras definições que não se encaixam de verdade nos crimes de Bolsonaro, que foram terríveis, mas não podem ser caracterizados dessa forma, a não ser que se reescreva a História. Como farsa, é claro. A estratégia é antiga: valoriza-se ao extremo o perigo do oponente, estimulando o orgulho da participação na sua derrota. O sujeito é um ogro, não tenho dúvida. Mas os petistas não ficam com vergonha de ter que piorar a imagem até de um ogro para obter vitória?

A questão é se desta construção eleitoral nascerá energia maior do que o peso da rejeição ao estado de coisas terrivelmente negativo, que veio do período petista de poder. Lula criou uma herança maldita para ele mesmo e junto com isso pode ter estabelecido a impossibilidade de convencer os brasileiros de que não é pior do que um adversário terrivelmente insuportável.