segunda-feira, 7 de novembro de 2022

A voz das ruas que o Brasil não compreende bem

Até agora a imprensa brasileira não compreendeu o que vem ocorrendo na política brasileira, com esses movimentos de rua em reação ao resultado eleitoral deste mês de outubro. A pauta do jornalismo mantém-se com o conteúdo errado, totalmente contrário a um conceito comum da profissão, que é o de ter distanciamento crítico ao levar informação ao leitor, mesmo que o que venha das ruas não esteja de acordo com as expectativas editoriais. Apontei essa desinformação, quando uma semana antes da eleição em primeiro turno afirmei que o jornalismo embalado por um sentimento oposicionista estava tendo uma falta de percepção sobre a quantidade de gente que estava indo às ruas em torno de Jair Bolsonaro.


Desde então, o Brasil vive um movimento de massas como não se via desde as manifestações das “Diretas já” ou o mais recente movimento dos “caras-pintadas”, que desencadeou a queda de Fernando Collor. Eu diria que nas manifestações que estão acontecendo atualmente existem mais elementos que permitem caracterizá-las como movimentos de massa. São mais espontâneas do que a imprensa vem dizendo, partem de sentimentos muito mais variados, além de trazerem novidades interessantes aos movimentos políticos desta nossa história recente.


A imprensa vem tentando fazer colar o apelido de “manifestações antidemocráticas” ao que vem acontecendo, o que revela não só uma visão pré-determinada sobre os fatos — o que vai contra o básico de qualquer manual de redação — como também uma estúpida falta de senso de oportunidade. Com isso, perde ainda mais leitores. A imprensa vive uma crise de identidade sem precedentes, que no Brasil tem menos a ver com a entrada em campo da internet do que com a doutrinação esquerdista nos cursos universitários, que fez as redações serem tomadas por profissionais que parecem mais disposto a dar lições aos leitores do que as informações que todos precisam.


Daí o rótulo de “manifestações antidemocráticas” aplicado às multidões de cidadãos inconformados que se juntam em todo o país, de maneira pacífica. E esta é a mesma imprensa que faz pouco tempo tinha a maior compreensão com a violência dos “black blocs” da esquerda, que até mataram um jornalista, e que também não faz reparos a Lula, quando o petista elogia correligionários seus que quase mataram um antipetista na frente do Instituto Lula, além de dar um tom de normalidade às suas relações pessoais com ditadores sanguinários como Daniel Ortega e Nícolas Maduro, além do convívio por décadas com os irmãos Castro, da ditadura cubana. Epa, isso nem pode ser mencionado, senão o TSE manda a Polícia Federal interrogar.


O rótulo contra as manifestações que começaram com o apertado resultado eleitoral do segundo turno serve apenas para afastar os sites e publicações impressas de milhões de pessoas que necessitam urgentemente de informação qualificada, até porque incapacidade de informar é outra qualidade que a direita brasileira não tem. Nossa direita faz jus à sua o origem recente, na confusão cultural e moral criada pela esquerda. A direita que aí está é também doutrinária, com uma visão cultural precária e simplificadora da realidade.


A esquerda não compreende o que está ocorrendo, tampouco seus jornalistas domados nas universidades. A direita também desconhece os meios para aproveitar o imenso capital político dessa multidão que acampa nas ruas por dias para expressar suas indignação, que tem também um triste sentimento de desconsolo, de uma cidadania abandonada por todos os lados.


Neste domingo fui observar de perto uma dessas manifestações que nos últimos dias juntou milhões de pessoas pelo Brasil afora. Em Londrina ocorreu uma de grandes proporções, entre as maiores do país, não só em comparação com a população da cidade, a maior do Paraná depois da capital. Sua população é de quase 600 mil habitantes. Os manifestantes se juntaram em torno do Tiro de Guerra, que fica na periferia da cidade. Que não se pense numa aparelhada fortaleza militar. O nosso Tiro de Guerra parece mais uma chácara próxima da zona rural, com poucas casas dos responsáveis pelo local, sem nenhuma cerca alta ou qualquer outra segurança.


Os jornais e sites vêm destacando essa preferência pela proximidade com localizações militares, apontando isso como uma visão golpista. Mas deveriam investigar se isso não tem a ver com valores de legalidade e respeito constitucional, que pode fazer muito mais sentido nessas manifestações do que um sentimento golpista antidemocrático. Certos setores podem ter de fato esta intenção, mas vem de uma minoria com uma visão absurda até por sua impossibilidade. Na generalização, no entanto, a imprensa deveria trazer aos leitores algo mais que a falsa caracterização de milhões de pessoas como golpistas, a menos, é claro, que tenha provas da existência de uma conspiração de tal magnitude.


Não é necessário aprofundar este tema. Basta experiência de vida para saber que nos aproximamos daquilo em que confiamos ou de onde esperamos proteção. Em vez de atacar e até fazer ironias com esses movimentos, nossa imprensa deveria ponderar sobre a razão desses movimentos não se aproximarem do Legislativo, mesmo do Executivo e muito menos do Judiciário. O correto seriam manifestações ao lado de instituição do Judiciário, porém os brasileiros sabem que a Justiça atualmente não serve para a defesa nem contra os crimes mais bárbaros.


Os manifestantes de Londrina ficaram toda a semana na frente do Tiro de Guerra. Passei por lá na tarde de sábado esperando encontrar um pequeno grupo de camiseta amarela. Fiquei impressionado com a quantidade de gente e voltei neste domingo para conferir se mantinha-se o ânimo de milhares de pessoas que tomaram quarteirões em torno da instituição militar. No domingo, a quantidade de pessoas era muito maior. Passei cerca de três horas caminhando por todos os lados, fazendo perguntas, conversando com gente de várias idades.


Havia uma grande quantidade de jovens casais com filhos, muitos adolescentes. Esqueçam aquela equivocada tentativa de desqualificação acolhida pela imprensa, de que esses movimentos são da chamada terceira idade, das “tias do Whatsapp”, como repetem com a teimosia de militantes esquerdistas, para desmoralizar esses movimentos. A maioria dos milhares de manifestantes pacatos, espalhados por todos os lados, era de pessoas jovens. O que chama a atenção também é a grande quantidade de mulheres. Muitas. Jovens mães e muitas adolescentes, o que garante uma previsão de continuidade na motivação de mudar as coisas no país.


Faixas pedindo intervenção militar eram muito poucas, podendo ser contadas nos dedos entre milhares de pessoas em vários quarteirões durante todo o domingo. Quando fui embora para casa na boca da noite, às sete horas, o local ainda estava lotado. Não observei a questão militar como uma preocupação das pessoas. Ninguém trouxe este assunto nas conversas comigo. O que pude constatar é um sentimento de que a eleição não foi justa, uma percepção que não deixa de fazer sentido em razão da condução autoritária do ministro Alexandre de Moraes, à frente do TSE. Encontrei pessoas que me afirmaram que acreditam que houve fraude, nenhuma delas fazendo alusão às urnas.


Transitei com a maior tranquilidade, evidentemente sem camiseta amarela. Cheguei a me identificar como jornalista, quando minhas perguntas levaram a pessoa a me questionar nesse sentido. Fui tratado com o maior respeito, inclusive quando pedi para subir em dois caminhões para tirar fotos. O clima era de uma grande festa familiar, até pelas tendas em que as pessoas se juntavam à espera de algo que nem elas sabiam, já que há um abandono inclusive das lideranças da direita, tão imbecis e desrespeitosas quanto as cúpulas esquerdistas. É assim que no geral se age na política brasileira quando se coloca à prova a capacidade política para o enfrentamento a desafios históricos. O Brasil vive mais uma vez o paradoxo de ter as piores lideranças, quando este pobre país precisa de figuras políticas de valor.


Na grandiosa manifestação de Londrina, onde juntou-se uma multidão jamais vista numa atividade política por aqui, outro fato que chamou a atenção é a tranquilidade presente, numa harmonia que, como eu disse, dava a impressão de uma imensa festa familiar. Não havia nem a tensão e gritaria que é normal em eventos políticos com multidão. Quase nada de bebidas alcoólicas, uma amabilidade geral sem conflitos de nenhum tipo. Devia haver cerca de 10 mil pessoas em trânsito enquanto caminhei durante a tarde naquele ambiente. Não vi nenhum bate-boca. Ninguém se negou a responder a qualquer pergunta minha ou me tratou com desconfiança ou agressividade.


Outra questão importante que a esquerda podia imitar dessas manifestações da direita é o cuidado com a limpeza do lugar. Nada de lixo espalhado, nenhum marmanjo usando o espaço público como banheiro. Foram instalados banheiros químicos. Ao microfone, ouvi várias vezes o pedido para a atenção com o próprio lixo e evitar sujeira no ambiente. Mas isso vem sendo a regra nesses últimos tempos. O pessoal do “movimento antidemocrático” parece que em manifestações cuida melhor do bem comum do que a esquerda.


O clima nesta manifestação de domingo me pareceu mais de desalento. Havia uma espécie de satisfação cívica em estar ali, mas era evidente a dificuldade de propósitos. O que pode ser observado até aqui é que temos uma ampla faixa da população numa triste orfandade cívica. E que não se pense que é um desalento apenas de gente da direita. Pelo menos um terço dos eleitores de Lula deram seu voto ao petista por exclusão. Os brasileiros perderam totalmente os canais de representatividade, a começar dos partidos, inexistente atualmente como instituições com real ligação com o povo. A direita também não tem capacidade de organização nem gabarito cultural para liderar esse sentimento espontâneo da população.


É nessa falta de compreensão do próprio destino da ação — que em política só pode adquirir sentido com lideranças capacitadas e organização — que está o risco para a nossa democracia. Não pela presença nas ruas de uma população inconformada, que tem no resultado desta eleição apenas uma justificativa prática para expressar o descontentamento. É nesta confrontação popular que se dá a polarização de fato e não no embate ideológico de propaganda feito por Lula e seu partido nas campanhas nos dois turnos.


Lula e seu partido forçaram a barra desde o primeiro turno para a criação de um falso clima de polarização. De um lado tinha até “fascismo”, lembram? Em arranjos de bastidores, quando foi derrubando candidaturas por meios de negociações que com certeza causarão muita indignação se um dia for revelado o que deu ou prometeu nesses acertos, Lula fez o de sempre: armou um cenário favorável. O chefão petista, no entanto, errou na avaliação dos níveis de rejeição. Esperava muito menos reação contrária dos eleitores e superestimou a rejeição a Bolsonaro.


É um problema de equivalências. Lula queria limpar sua imagem a partir do contraste com Bolsonaro. Ocorreu o contrário: Bolsonaro teve suas más-qualidades amenizadas na comparação com o passado de Lula. E não é pra menos. A própria eleição de Bolsonaro tem origem na corrupção e no desgaste moral dos governos petistas.


Pois então, Lula queria a polarização. Neste plano, o petista contava também com os arranjos tradicionais da política brasileira depois de uma eleição, quando chefes políticos e as elites deixam os conflitos de campanha para trás, acertando-se com o vencedor na divisão das lucratividades do poder.


Neste ano veio então esta novidade. As ruas trazem a polarização por uma via política de expressão da multidão que, pelo menos por enquanto, tem um vigor espontâneo. Se alguém acha que basta acionar as pessoas por Whatsapp para lotar as ruas é porque desconhece como se faz política e as dificuldades de juntar gente nas ruas. Se fosse assim tão fácil, a esquerda é que estaria exibindo força popular, algo que não demonstrou nas ruas nem durante a campanha eleitoral.


Sempre ouvi falar de “povo nas ruas”, na maioria das vezes em tom de exaltação da vontade popular. Pois aí está. A explosão popular, neste caso, se bem direcionada qualifica e não prejudica a democracia. Para isso é necessário lideranças de qualidade, um governo com abertura para uma união nacional, mas com o espírito de transição do que da hegemonia política. Bem, não precisa dizer que Lula e seu partido não são indicados para esta ocasião histórica.


O povo que está nas ruas, como eu já disse, pode ser classificado como uma vasta porção da população que não se sente representada não só por partidos — que sequer existem. O pessoal do verde-amarelo sente-se abandonado por todas as instituições, sem um anteparo nem dos poderes da Justiça ou dos profissionais do Direito. Passar o domingo com a família na frente de um quartel militar, como eu pude ver pessoalmente, foi a maneira de mostrar que é hora de pedir que se dê um basta no abandono de valores que são caros a uma parcela significativa de brasileiros.

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Por José Pires

segunda-feira, 31 de outubro de 2022


 

domingo, 30 de outubro de 2022


 

sábado, 29 de outubro de 2022

A disputa entre Jair Bolsonaro e Lula chega à hora do voto: o eleitor que se vire para decidir pelo menos ruim

Tenho acompanhado com certa vergonha alheia o desconforto de apoiadores de Lula e dos que pretendem dar seu voto ao candidato do PT — são duas coisas diferentes: tem os que votam por gosto e muitos votam em Lula apenas para derrotar Jair Bolsonaro. Essa observação acontece não só nas redes sociais, mas pode ser feita também nos programas de televisão retransmitidos, inclusive com recortes, nas redes sociais. É visível o constrangimento pelo apoio a um candidato que não reúne predicados para comandar o país numa complicada situação interna, agravada pelo que acontece em todo o mundo, quando os terráqueos dormem com uma má notícia, com o sono perturbado pelo medo de acordar com outra ainda pior.


Sempre é difícil votar por exclusão, mas a atitude é ainda mais delicada quando o candidato que, em tese, figuraria como um mal menor para o país, se envolve numa campanha de baixa qualidade política, caindo de cabeça num vale tudo com momentos até piores do que o adversário costuma fazer. Neste caso, a justificativa do voto fica mesmo apenas com a necessidade de se livrar de um estorvo, que tratando-se de Bolsonaro é um dos piores da nossa história. Só que é razoável que numa campanha se estabeleça um clima favorável à posterior governabilidade. Pois se for eleito, Lula terá muita dificuldade neste aspecto.


A campanha do candidato do PT chegou a tentar a criação de um clima de união suprapartidária, com a sociedade civil abraçando uma ampla frente democrática com o objetivo da reconstrução nacional. De fato, este seria um sentido político que poderia criar uma razoável harmonia no interesse não só do bem comum, mas como prevenção contra dias piores, que certamente virão. Mas foi só propaganda política, até porque é difícil levantar esta bandeira tendo à frente, no comando, exatamente um partido que no poder avacalhou a democracia no país.


Mas relaxem. Com esta classe política que resultou da suprema decadência brasileira, pelo menos não sofremos a angústia das expectativas inviáveis, porque a experiência garante que, dessa forma, não tem como esta coisa deixar de não dar certo. O Brasil vai se dar mal com um governo que vem sendo encaminhado com as barbaridades vistas nesta eleição, seja qual for o próximo presidente.


Vamos nos fixar, entretanto, nas possibilidades da eleição de Lula, que na terrível condição deste segundo turno, onde entramos de modo totalmente errado exatamente pela armação dos esquemas do desmonte das outras candidaturas que poderiam qualificar o primeiro turno. O PT teve que demolir essas candidaturas, articulando em bastidores obscuros a destruição, uma por uma, eliminando preferencialmente aquelas com tendência de crescimento.


O partido de Lula sempre fez essa armação de um cenário eleitoral favorável para no mínimo eleger uma bancada grande, que garanta a dinheirama do fundo eleitoral. Nessa eleição, a estratégia era vital. Um primeiro turno com candidatos competitivos certamente tiraria Lula do segundo turno. A prova disso é sua performance neste final, quando tem dificuldade até de debater com um sujeito de tão pouca qualificação em oratória e conteúdo, como Bolsonaro. A fragilidade de Lula é tanta que ele se abala até com um Padre Kelmon.


O debate da noite deste domingo, com dois homens despreparados para ser presidente de um país que vive uma crise próxima do insuperável, me fez lembrar do famoso debate entre Lula e Fernando Collor, em 1989, na primeira eleição presidencial depois da ditadura militar. A recuperação do comando civil no Brasil já começou errada. A partir daquele debate, o país viveu décadas revendo a fake news pioneira criada pelo PT, que afirma até hoje que a derrota petista se deu em razão da edição feita pela TV Globo nas cenas do debate, divulgadas depois no noticiário.


É mentira — ou fake news, como se diz hoje em dia. Assisti a este debate, ao vivo, a única forma que era possível naquela época. Lula diante de Collor. Foi uma decepção para muitos brasileiros, que viam na derrota de Collor uma chance melhor para o país se desenvolver e criar um ambiente social mais equilibrado — não era o meu caso: meu apoio ao PT foi só por exclusão. Eu vi o partido do Lula ser criado em São Paulo, conhecia bem a tigrada. E mesmo assim quebramos a cara. Anos depois, Lula disse que foi um erro o apoio ao PT contra Collor. Sua afirmação foi de que ele e seu partido não estavam mesmo preparados para governar o país.


Já então, os petistas agiam sem limites contra o setor democrático. Com setores militares ainda insatisfeitos com a abertura democrática, os petistas batiam forte em quem estava perto. Derrubaram a candidatura de Leonel Brizola, que por pouco deixou de ir ao segundo turno. Foi nesta derrubada de Brizola que a TV Globo ajudou Lula, mas desse assunto os petistas não gostam. Era mais fácil para Collor derrotar Lula, o que era minha opinião na época e de tantos outros democratas, no entanto, os petistas agiram como sempre ignorando o alerta. Lula teve 11.622.673 votos, para Brizola foram 11.168.228. E o candidato da estrela vermelha amarelou na frente da direita.


Décadas se passaram e no debate deste domingo foi possível assistir novamente Lula se rendendo à frente de um adversário desqualificado. A cúpula do PT já sabia dessa fragilidade, tanto é que desde o sufoco com o Padre Kelmon evitaram expor o candidato a um embate sério, com jornalistas ou adversários.


Neste domingo, o candidato do PT teve dificuldade de encarar Bolsonaro, fugia do olhar do candidato à reeleição, escapava para a tribuna no fundo do cenário do debate, logo que terminava de se queixar do cerco que o adversário lhe fazia, com acusações que podem até ser criticadas pelo tom, mas jamais por não serem verdadeiras.


É a mesma dificuldade de caráter que mostrou na frente de Collor, que para mim é um sentimento psicológico de quem sabe que é um usurpador. Em 1989, com a ajuda da TV Globo, atropelou Brizola, Mário Covas e outros políticos muito mais firmes. Foi ao segundo turno como um intruso, incapaz de vencer o embate.


Na eleição atual, articulou pesadamente para acabar com as outras candidaturas, servindo-se para isso — e sabe-se lá a que preço — de tucanos traidores de seu próprio partido. A imprensa também garantiu espaço para suas manobras traiçoeiras, com a parceria providencial de institutos de pesquisas. Já estava plenamente avisado que não daria conta do confronto com Bolsonaro, tanto é assim que teve que apelar para as maiores baixarias, até com desinformação brutal, como as acusações de que o adversário é “canibal” e “pedófilo”.


A derrubada de candidaturas no primeiro turno teve um papel importante na cristalização de um sentimento conservador, bem mais à direita, entre as massas. Este é o único movimento espontâneo atual entre a população brasileira. Este sentimento tem o emblema da bandeira nacional, estendida na frente de casas e de prédios durante todo o ano. No campo da esquerda, restou como suporte apenas o tradicional aparelhamento do estado, que inclui sindicatos e setores com poder no meio acadêmico, além da novidade do aparelhamento intenso nas áreas das artes, por meio de dinheiro público que banca burocratas da cultura e até mesmo nas assessorias culturais de empresas privadas.


Ao destruir candidaturas no primeiro turno, o PT ajudou muito na ampliação — e cristalização, como eu disse — desse sentimento conservador. A materialização desse fabuloso capital político está na tomada do Congresso Nacional por deputados e senadores à direita, eleitos com muitos votos. Parabéns, Lula e companheiros. O nome popular disso é tiro no pé. Candidatos mais equilibrados, políticos de centro ou mesmo de esquerda, muito mais capazes para a construção democrática, foram varridos para fora do debate político. Perderam feio nesta eleição, o que era óbvio que ocorreria quando seus partidos ficaram sem candidatura presidencial, essencial na relação eleitoral junto à população. O PL de Bolsonaro elegeu a maior bancada. A sigla emblemática do centro, o PSDB, traído pela cúpula partidária e pelo vice do Lula, virou um partido nanico e deve fechar.


Com a falta de apoio no Congresso e um vazio político estabelecido por uma candidatura sem propostas e que fez campanha pela negação do adversário e não pelas qualidades próprias do candidato, se Lula for eleito terá que governar pressionado pela direita, sem condições políticas de estabelecer um caminho de transição razoável entre estes quatro anos muito difíceis de Bolsonaro e a viabilização de um projeto de nação que contenha ao menos bom senso e equilíbrio.


Uma explicação interessante sobre este ponto delicado em que o Brasil foi colocado pode ser extraída de uma declaração de Simone Tebet, que abraçou Lula neste segundo turno com a sofreguidão de alguém que pode se afogar politicamente se não se encaixar no poder nos próximos quatro anos. Foi involuntária a conceituação sobre o nosso sufoco, como um ato falho.


Do alto de seus 4% de votos e com a língua como sempre embaralhando as sílabas, a senadora Tebet disse que pulou de “um penhasco político” ao apoiar Lula no segundo turno. Sim, foi isso mesmo que ela disse. Vejam na íntegra: “Eu sabia que seria a decisão mais importante e mais arriscada da minha vida política. Eu praticamente mergulhei num abismo, pulei de um penhasco político, mas o fiz por convicção“.


Mergulhar num abismo “por convicção” é muito interessante como tese política. Outra explicação que também serve para definir este momento crucial do nosso país pode ser extraída do pensamento do grande Millôr Fernandes, que me veio à cabeça quando li este devaneio desatinado da senadora. É um desenho do Millôr, de um homem que caiu do alto de um edifício e que durante a queda, ali pelo sexto andar, pensa o seguinte: “Até aqui, tudo bem”.


Este é o estado a que chegamos agora, na hora de votar em dois candidatos que a maioria dos brasileiros sabe que não têm capacidade de dar conta do enfrentamento duro que vem pela frente. A situação é muito grave, mas posso dizer que até aqui tudo bem.

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POR José Pires

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Lula e Jair Bolsonaro na hora da decisão de um vale-tudo que não termina neste dia 30 de outubro

Está chegando, enfim, o dia da decisão da eleição para presidente da República, mas já pode-se ter a certeza de que o resultado vai trazer ainda mais divisão entre os brasileiros, seja quem for o eleito. De Bolsonaro não se deve esperar outra coisa que não seja a continuidade da confusão desses quatro anos de governo. Se tiver um segundo mandato, ele vai contar inclusive com uma ampla maioria de parlamentares que podem contribuir bastante na sua prática de um desgoverno que impede até o atendimento do que seus eleitores esperam.


Fala-se muito que teremos uma composição mais ampla de direita no Congresso Nacional, mas na minha opinião esta é uma avaliação equivocada entre o caldo de cultura o que pode ser visto como um forte traço conservadorismo da nossa população e os reais interesses dos deputados e senadores eleitos. De fato, a eleição deste ano foi uma vitória de lavada sobre a esquerda, que teve partidos e candidaturas destroçados na estratégia furiosa de Lula para garantir um espaço privilegiado ainda no primeiro turno, no entanto, ao contrário do que se diz, não existe uma direita orgânica a nível do Legislativo, do mesmo modo que uma vitória de Bolsonaro também não estabelece um governo de direita no país.


Este capital político está presente nas massas, em parcela ampla da população que atinge mesmo eleitores atuais de Lula, que vão optar pelo petista apenas para tirar Bolsonaro do poder. Tampouco existe um “bolsonarismo”, que é nada mais que um rótulo, aceitável apenas na definição dos seguidores mais radicais de Jair Bolsonaro. A tendência conservadora do povo, em uma ampla parcela da população que prestigia a campanha de Bolsonaro e estende espontaneamente bandeiras brasileiras o ano inteiro nas fachadas, exige a atenção de partidos com organização nacional e capacidade de criar laços com a sociedade civil.


É neste lado da política que pode-se encontrar ambiente de crescimento político, que será vital nas próximas eleições. Quem correu para o abraço, no apoio a Lula seja qual for a justificativa, terá muita dificuldade com este eleitor. A começar pela reação que virá nas redes sociais assim que der o resultado no dia 30. Além disso, na sombra da esquerda nada cresce sem sujeitar-se à hegemonia do PT. E é claro que isso vai piorar se Lula for eleito.


Neste ponto, cabe destacar que não faço juízo de valor sobre os fatos. Sigo apenas um dever jornalístico, que é o de exercer plenamente o distanciamento crítico, para observar melhor a realidade. Não haveria necessidade desta ressalva, se não estivéssemos vivendo esta situação estúpida no país, com as tentativas de enquadrar as opiniões na alegada luta pela democracia, que trata como “fascista” quem preserva a independência pessoal e profissional. Não vou desenvolver este ponto agora.


É uma discussão que começa pela contradição tragicômica da missão de tirar um empecilho do poder e acabar com os problemas criados pelo seu governo, elegendo para isso um político que fez até pior do que ele como presidente há poucos anos, um passado muita incompetência e sujeira, quando foi criado inclusive o cenário nacional da condição política, econômica e até mesmo moral, que possibilitou a eleição deste péssimo presidente.


Tudo era uma mera jogada do PT, tentando evitar um segundo turno. Na minha opinião, a condução da estratégia foi um desastre para a composição de uma base de governo. Se vencer, Lula terá que depender muito mais dos atuais adversários, pois faltaram votos para seus apoiadores. Parece que as lideranças que se engajaram na encenação da “luta contra fascismo” deixaram de avaliar as consequências disso teria para seus partidos no primeiro turno.


A forma que o PT criou para sua entrada neste segundo turno, seguida pela estratégia política da campanha até agora, vai pelo menos evitar a angústia sobre as expectativas do que virá pela frente. Tranquilizem-se: não existe nenhum risco de não dar errado. Para começar, caso Lula ganhe a eleição, terá que usar o importante período inicial de governo para buscar um entendimento com uma oposição em larguíssima vantagem em qualquer negociação.


Pelo clima criado no vale-tudo, dificilmente ele terá o tradicional período de boa vontade da parte do Legislativo, correndo o risco de enfrentar as ruas ainda no primeiro ano. Uma vitória petista não terá a chancela da consagração pelo voto, não só porque o Brasil tem na atualidade um envolvimento de massa, com uma parcela muito grande de brasileiros contrários ao que Lula representa. Sua campanha também não foi propositiva. E no generalizado fracasso dos partidos que o apoiam foram-se as chances de criar uma base forte.


Lula optou por travar uma disputa aos moldes do adversário, com uma campanha eleitoral de ataques ao adversário, enlameando-se até com muito gosto no terreno da difamação e do fake news, na desinformação geral que os petistas estimularam desde o primeiro turno. Esta forma de fazer política, digamos assim, é outro grave problema político que também começou com o PT, quando Lula mandava em governos que aplicavam rigorosamente o conceito do “nós contra eles”, que é parte essencial do caráter político petista.


A ideia da formação de uma frente ampla pela democracia — vou dispensar as merecidas aspas — restringiu-se às fotografias com um monte de gente, incluindo lideranças políticas, com uma péssima história cronológicas de sustentação desta própria democracia, a começar pela incompetência fenomenal na própria atividade política. Falta também responsabilidade à tigrada, pois sumiu quase todo mundo, quando começou a batida violenta da campanha, no mesmo nível e às vezes até mais baixo do que fazem os que eles chamam de “fascistas”. Seria demais apontar que os “democratas” deveriam procurar influenciar no rumo da campanha ou se todos renderam de vez à pancadaria que privilegia o “janonismo” em vez da união entre os brasileiros?


Aqui temos a falta de compromisso com o que virá depois. Falta também a atenção ao que o PT poderá fazer em um governo conquistado dessa forma. Falava-se em “cheque em branco”, mas desse jeito é até mais escancarado. Mas o que podem fazer seus aliados? No espectro do que deveria ser o centro democrático, que ansiava para obter credibilidade, Lula cercou-se de líderes políticos que já vinham com seus partidos sendo enfraquecidos gradativamente. À esquerda e também pela direita, as ações do próprio Lula e seu partido foram fundamentais na falência agora decretada pelos eleitores.


Alguns, como o partido dos tucanos, foram sendo demolidos por anos pelos petistas e agregados em variadas instituições, como nas universidades. A deputada Marina Silva é outra que sofreu demais. Atualmente é quase uma sem-partido: na Rede, só tem ela e mais um deputado. Como em dez anos ela não conseguiu organizar o partido, sendo obrigada a correr para São Paulo para colher votos entre os petistas, isso pode servir como avaliação sobre sua capacidade como articuladora. Sua Rede alcançou a cláusula de barreira só porque fez “federação” com o Psol, que por sua vez, elegeu 12 deputados em razão da boa votação de Miguel Boulos. Mas muitos psolistas devem estar lamentando que Boulos tenha trocado a candidatura para o governo pelo mandato em Brasília.


O PSB é outro aliado que quebrou a cara. Alinhou-se com Lula em São Paulo, trocando a candidatura de Márcio França ao governo estadual por facilidades na sua eleição para senador. Não deu certo. Perdeu para o astronauta que já foi de Lula e hoje é de Bolsonaro. A aliança do PSB teve até a vergonhosa imposição da esposa de França como vice de Fernando Haddad. Na jogada, entrou até uma primeira suplência para o presidente do Psol. É esse pessoal que diz que vai dar dignidade à política. Na Câmara dos Deputados o PSB diminuiu de 24 para 14 deputados.


E o PDT, que poderia ser um incremento forte como base de um governo do PT, foi destruído no primeiro turno, com os ataques cruéis à candidatura de Ciro Gomes. O tiroteio pesado contra Ciro vitimou o partido todo. Dos 28 deputados eleitos em 2018, o partido caiu para 17 nesta eleição. E tiveram também o fiasco da derrota de Marcelo Freixo, no Rio, em candidatura que fez parte do acordo para o apoio a Lula. Poderiam ter eleito Alessandro Molon senador pelo Rio, que foi prejudicado pelo boicote tanto de Lula quanto pelo PT.


O partido do Lula fez uma boa bancada. Conquistou 12 vagas a mais que em 2018, ficando com 68 deputados. No entanto, não houve um crescimento orgânico do partido. Costumo dizer que de orgânico atualmente, a esquerda só tem o arroz do MST, e olhe lá. Ganhando ou perdendo a eleição para presidente, os petistas estão com uma séria questão a ser tratada, na queda total do na vala dos partidos sem nenhuma qualidade programática. Nem se pode falar em crise de identidade, pois afinal o que é isso hoje em dia para o PT? Diga-se, a propósito, que os petistas estão com dificuldade até de sustentar notas de apoio ao ditador Daniel Ortega ou Nícolas Maduro. Ou mesmo a Vladimir Putin.


O PT virou um partido como qualquer outro, em um sistema que privilegia caciques partidários e depende muito de verbas do fundo partidário. É exemplar a eleição no Paraná da presidente do partido, Gleisi Hoffmann. O estado serve também como prova da grave dificuldade de gestão em um partido que não revela novas lideranças e que tem dificuldade de relações com a sociedade civil, mantendo poder na atualidade por meio de antigas formas de aparelhamento de sindicatos e instituições, renovado agora em grande parte com verbas na área cultural.


No Paraná, os petistas tiveram que se virar com Roberto Requião como candidato ao governo, depois dele ter sido tocado fora do MDB. Requião encerrou a carreira, perdendo feio já no primeiro turno para Ratinho Júnior. Outros dados mostram a quantas anda o partido: o ex-juiz Sergio Moro foi eleito para o senado e Deltan Dallagnol foi o mais votado para deputado federal. E mesmo Gleisi tendo sido bem votada, sua eleição para deputada não serve de referência como boa gestora. Ela passou os quatro anos saindo nas propagandas gratuitas do partido, além de receber muita atenção da mídia, especialmente neste ano. E mesmo assim a renovação de seu mandato custou caro para o contribuinte. A parceira de Lula gastou dois milhões e seiscentos mil reais na campanha, a dinheirama toda vinda do fundo partidário.

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POR José Pires


quarta-feira, 26 de outubro de 2022


 

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Roberto Jefferson: uma história de tiros nos pés de aliados dos dois lados

A partir do episódio violento deste domingo, com os tiros dados por Roberto Jefferson contra policiais federais, bolsonaristas passaram a fazer nas redes sociais o velho jogo do “toma-que-o-filho-é-teu” tentando passar para o PT a responsabilidade política sobre o antigo cacique do PTB. Atualmente Jefferson é ex-presidente do PTB, mas de fato é ele quem manda no partido.


Afinal, o endoidecido petebista é coisa do PT ou de Bolsonaro? A responsabilidade da existência dele é dos dois lados que disputam este segundo turno, nesta história promíscua que envolve políticos que polarizam apenas na busca de votos. E não estou falando só de Lula e Bolsonaro. É todo um conjunto de espertalhões, que envolve até os que posam como avalistas de sentimentos democráticos que mal se sustentam na propaganda eleitoral ou nos fake news.


O ex-presidente e dono do PTB é um dos elos mais marcantes desse esquema que vem de antes da abertura democrática. Como personalidade é dos mais curiosos nesta trágica cronologia política que impede já há algum tempo que o nosso país avance para uma situação equilibrada, com os desacertos às vezes até muito bem arquitetados pela classe política, que virou um ambiente de ladrões sem a capacidade sequer de estabelecer a corrupção em níveis ao menos razoáveis, algo que já existiu antes nesta atividade e que dava ao país uma sensação de normalidade. Roubavam sem este caráter predatório atual, numa gula corrupta que começou a ficar sem controle a partir da eleição de Lula, ainda no primeiro mandato no governo.


O governo de Fernando Henrique Cardoso havia organizado razoavelmente a roubalheira instalada por José Sarney, depois desse lamentável oligarca ter virado presidente com a morte de Tancredo Neves. Era possível ter governabilidade sem fatiar todo o Governo Federal para dirigentes políticos incompetentes. Fernando Henrique tinha até uma técnica pessoal de controle, que aplicava sobre políticos que sabia que podiam meter a mão sem dó nos cofres públicos. Ele cedia cargos na composição do governo, mas colocava alguém de confiança próximo ao indicado, para evitar um exagero na apropriação dos bens públicos.


Além disso, não houve também a liberação ao aparelhamento do Estado, que evitava-se não por uma qualidade moral dos tucanos, mas porque Fernando Henrique, pelo conhecimento em lições estudadas ainda no tempo de professor da USP, já sabia que o domínio de grupos sobre a máquina administrativa inviabiliza qualquer governo. Houve um equilíbrio até acontecer as negociações para a emenda da reeleição, quando rompeu-se esta relativa harmonia entre o toma-lá-dá-cá e a governabilidade de fato.


Com Lula, esse equilíbrio desandou de vez, abalando até os valores percentuais exigidos por criminosos do colarinho branco, como pode-se ver nos subornos do mensalão e nos números ainda mais fantásticos da corrupção do petrolão. A partir do mensalão petista, ainda no primeiro mandato, o percentual em dinheiro exigido por políticos e o domínio sobre setores importantes do governo foi avançando de tal modo que essa lucratividade espúria foi criando complicações para aplicar a parte fundamental do orçamento público em obras e serviços. Depois, os corruptos se dedicaram à prospecção de mais dinheiro, com o petrolão.


Como a esquerda tem como premissa essencial a crença de que o fim justifica os meios, ainda no primeiro mandato foi criado o mensalão, como forma do governo do PT garantir o pleno controle sobre as votações no Congresso Nacional. Era para o bem do país, é claro. Afinal, este é o sentimento da esquerda, presente até nas tentativas de apagar crimes fenomenais na história de assassinatos e terror do chamado socialismo real, além da cumplicidade com ditaduras atuais que se beneficiam do imaginário religioso marxista, do qual a esquerda não se cura de modo algum.


É no mensalão que Roberto Jefferson teve um papel especial, quando denunciou o esquema de compra do Legislativo. Para quem não acredita em histórias se repetindo, Jefferson era uma espécie de Datena nos anos 1980, quando ficou famoso no programa "O Povo na TV". É onde o populismo costuma buscar vigor junto ao povo. Esqueça a tal da organicidade política da esquerda. Hoje em dia, de orgânico na esquerda só o arroz do MST, e olhe lá.


Jefferson virou político prestigiado, acabou se tornando dono do PTB, partido da base do governo Lula. A fama nacional veio em junho de 2005, com a denúncia do mensalão, feita por causa de desavenças em relação à propinas de campanha, que o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, estaria dificultando que chegasse às suas mãos. Dirceu foi exonerado do cargo, depois foi preso.


O político alucinado que atirou na polícia neste domingo criou forças no governo do PT e anos depois foi acolhido por Bolsonaro, ocupando espaço na confusa ala ideológica do bolsonarismo, no que ajudou seu estridente discurso e a falta de limites, com a experiência antiga como apresentador de programa de baixaria na televisão. Esta relação entre Bolsonaro e Jefferson ainda está para ser melhor explicada, mas pelo que se viu nesses últimos anos, o petebista era peça fundamental nos planos frustrados de radicalização política do presidente. E parece que não foi avisado a tempo que o plano mudou.


Esta parte radical do bolsonarismo é uma grave atrapalhação para a reeleição de Bolsonaro, já tendo sido obviamente apontada pelos políticos profissionais do centrão. A péssima personalidade do presidente pouco ajuda nessas revisões. É o seu jeitão, como dizem a cada burrada dele. Bolsonaro não só não se desfez desses complicadores, como não teve a sensatez de monitorar os movimentos de tipos como Jefferson neste final de campanha.


O episódio dos tiros na polícia resultam desta desatenção a uma bomba que explode em má hora. Um acontecimento desses na última semana torna ainda mais imprevisível uma eleição sobre a qual já estava difícil opinar com segurança sobre seu resultado. A experiência em campanha torna óbvio que, pela sua personalidade conturbada, Jefferson é o escorpião da fábula. Foi um erro manter até agora este perigo mantido no cangote, mas até na fábula se nota pouca atenção crítica ao espírito do sapo.


Bolsonaro vinha obtendo sucesso na sua performance como um sujeito equilibrado, espantosamente exercendo o papel em entrevista e nos debates, dispensando até a ajuda de uma camisa de força. Claro que ajudou também o medo de Lula de se colocar frente a frente com ele. Entretanto, é óbvio que um apoiador de alto escalão dando tiro na polícia complica bastante. Não duvido que entre o círculo mais estreito de Bolsonaro haja muita lamentação. Já estava claro que se fosse possível ter contido a péssima personalidade do próprio Bolsonaro desde janeiro deste ano, teria sido grande a chance dele ganhar esta eleição, talvez ainda no primeiro turno. Os tiros podem atrapalhar bastante o conserto que parece que fava resultado.


Lula é um adversário que facilita as coisas nesta campanha para o bolsonarismo até num caso espantoso como este. Com qualquer outro oponente, já poderia ser cravado com certeza o resultado desse episódio violento na votação de Bolsonaro. Um adversário sem nenhuma relação com quem apertou o gatilho nem teria que acelerar na reta final para deixar Bolsonaro para trás. No entanto, as relações estreitas que existiram de Jefferson com Lula e seu partido mantém a incógnita sobre o efeito na eleição. Em razão disso, pode até não haver estrago a ser considerado.


Esta é a herança bendita do governo do PT para o bolsonarismo. O que aconteceu nos governos petistas foi escandaloso em proporção exagerada até em termos mundiais. A possibilidade de Lula ser eleito novamente é vexatório para nosso país. O que estabeleceu um vigor eleitoral para Bolsonaro é que com Lula como candidato dá até vergonha de ser brasileiro, o que digo sem nenhum sentido retórico: é mesmo humilhante. É provável que uma parcela considerável dos que vão votar em Lula fará isso apenas porque é demais reeleger um presidente imprestável como Bolsonaro.


Mas não é fácil tomar esta decisão, que pode ser em futuro próximo um peso na consciência. Os que justificam o apoio atual a Lula em nome da defesa da democracia brasileira devem estar descartando o enorme mal que Lula fez a esta mesma democracia, inclusive na criação das condições que deu vigor à direita, fazendo de tudo para o partido ir ao segundo turno com Bolsonaro, batendo pesado durante a campanha em candidatos democratas, com o chefão do PT errando em oferecer o poste Fernando Haddad, que tinha pouca chance de evitar a eleição de Bolsonaro em 2018.


São inúmeras as provas do legado de desgraças petistas. Fiquemos numa delas, exemplar do que o PT fez com o país. É tão absurda a cena dos R$ 51 milhões encontrados em 2017 pela Polícia Federal dentro de caixas e malas em um apartamento em Salvador de Geddel Vieira Lima, que o episódio parece algo que fica na lembrança como mais uma minissérie exagerada de tempos atrás. Nada disso. Aconteceu de fato, com uma figura política influente nas quatro eleições do PT e que teve poder durante os governos petistas. E nesta eleição, Geddel está plenamente atuante na campanha de Lula, ainda mais entusiasmado pela impunidade que se prevê caso o PT ganhe a eleição.


A verdade é que, numa nação séria, para um crime desses estaria garantida prisão até agora para o culpado. Condenado a 14 anos e 10 meses de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa, Geddel foi preso em julho de 2017. No início de setembro de 2021 já estava no semiaberto, concedido pelo ministro Edson Fachin, o mesmo que — ora, que coincidência — livrou Lula da cadeia. Se Lula for eleito, é capaz de Geddel ainda ser condecorado com a Ordem do Rio Branco, ou qualquer outra “honraria” que quiser. E ainda que Bolsonaro seja reeleito, nada vai acontecer com ele e outros corruptos que deveriam estar presos, pois os arroubos lavajatistas do presidente e atual candidato acabam antes do Ano Novo.


Até agora, esta é a previsão garantida. Só vão ocorrer mudanças que garantam que nada terá que ser mudado a partir de janeiro do ano que vem.


sexta-feira, 21 de outubro de 2022

A censura à rádio Jovem Pan e a ameaça ao direito do brasileiro falar o que pensa

Não que fosse necessário algo para complicar a crise política brasileira, mas o Judiciário resolveu extrapolar as piores expectativas: censura à imprensa me parece que é um pouco demais. Depois de determinações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) restringindo a cobertura eleitoral da Jovem Pan, a emissora veiculou um editorial tratando a decisão como “censura” e também emitiu um comunicado interno com observações aos jornalistas e comentarista políticos da emissora.


Um trecho deste comunicado revela de forma tragicômica que vivemos um período perigoso para a liberdade de expressão, quando — sem trocadilho — pisca sem parar o sinal vermelho, em alerta sobre o perigo que corre este sofrido país. E o perigo é duplo, com um presidente que é marcadamente descumpridor de leis e um ex-presidente que quer voltar ao poder, agora mais animado com o clima de impunidade.


"Caros, com base em decisão do TSE proferida nesta segunda-feira”, diz o texto da Jovem Pan, “estamos orientados pelo jurídico a não utilizar as seguintes expressões nos programas da casa: Ex-presidiário, Descondenado, Ladrão, Corrupto, Chefe de organização criminosa”.


O cuidado da direção da emissora procede. O descumprimento da decisão do TSE pode levar ao direito de resposta e também multa de R$ 25 mil e a remoção dos conteúdos. Essas coisas não são novidade em período eleitoral. No entanto, a prevenção neste caso é em razão da censura decretada pelo tribunal que cuida exclusivamente da eleição.


Dois pontos desta decisão do TSE estão correndo misturados pelos sites e redes sociais e cabe separar o que é medida ordinária e o que é censura. Houve o atendimento de pedido de retirada de conteúdo e direito de resposta da campanha de Lula, o que faz parte dos procedimentos jurídicos relativos às campanhas políticas. Está dentro das quatro linhas, como se diz.


O que é grave é a ação de censura da parte do TSE, com o tribunal especificando inclusive assuntos que não poderão ser abordados na emissora. Presunção de inocência não vale nem para ler o futuro. Neste caso não cabe meias-palavras, como as relativizações que eu vejo sendo feitas por aí, além de atitudes ainda mais vergonhosas, de jornalistas posicionando-se favoravelmente a este abuso contra a Jovem Pan. Trata-se de censura prévia. E ainda com o agravante desta censura favorecer o candidato do PT, em uma eleição especialmente importante, em meio às complicações políticas e econômicas sofridas pelo país.


Claro que não é necessário dizer que as palavras proibidas na Jovem Pan se referem a Lula, candidato do PT. A proibição feita à Jovem Pan se estende até aos ilusionismos que Lula vem tentando enfiar na cabeça dos brasileiros. Na ação acatada pelo TSE, os advogados da campanha do PT encaixaram um trecho de comentário político que desagradou ao partido.


Vamos a ele: "O Lula falando no debate que ele foi inocentado em duas instâncias da ONU. Será que esse vídeo, esse trecho do debate, também vai ser retirado? Porque é uma grande fake news isso, que até agora ninguém se manifestou".


Pois é. O TSE determinou que a emissora não permita comentários ou notícias que digam que o petista mente sobre ter sido inocentado. Nada pode ser dito contrariando a inocência de Lula — sacramentada “em julgamento na ONU”, além de ter sido em “duas instâncias na organização internacional”, segundo o próprio.


Será que teremos jurisprudência sobre o tema? Espero que haja liberdade para ao menos rir quando Lula afirmar com a maior cara de pau que foi inocentado em “duas instâncias” da ONU. Mas, tirando a piada, me parece evidente que o clima que foi criado neste segundo turno estimula o que havia de pior em matéria de teorias de conspiração e das especulações mais variadas sobre as intenções dos dois candidatos.


E caso Lula ganhe a eleição, que agrado mais apropriado à sua explícita vontade de se vingar de adversários e de reescrever a recente história política do país, a começar pela decretação de que nunca se viu na história deste país alguém mais inocente do que ele.


Penso também que a medida fortalece também os argumentos de Bolsonaro e da sua massa de eleitores, sobre perseguição do TSE, além da acusação de estar havendo favorecimento ao candidato do PT. É mais um elemento, dentre uma porção de acontecimentos, que vão ao encontro das queixas do candidato da direita. Com tanta coisa no mínimo mal explicada, quem vai segurar depois a multidão?


E no que toca ao direito da totalidade dos brasileiros, na abertura ao debate de tudo que se relaciona aos dois candidatos neste segundo turno, a decisão contra a Jovem Pan cria também um clima de intimidação, que no final é o sentido da censura. Não é só na proibição de conteúdo que a censura à imprensa exerce um papel autoritário. O efeito se multiplica na imposição do medo generalizado entre a população, de expor opiniões com liberdade, mesmo na informalidade dos encontros entre amigos.


Este cala-boca é mais um ruído negativo nesta eleição que tem tudo para acabar mal, independente de quem for o vitorioso. Teve até o papelão — se é que foi só isso — das pesquisas que já davam como praticamente certa a eleição de Lula no primeiro turno, além da derrota de senadores e governadores fora do círculo do PT, vários deles eleitos ou passando para o segundo turno.


Não preciso dizer que não tenho nenhuma convergência de opinião com o que vem sendo dito por vários jornalistas e comentaristas da Jovem Pan, desde muito antes até de Bolsonaro receber o destaque que o levou a se eleger presidente. Até já escrevi sobre isso. Porém, prefiro ter desgosto com opiniões alheias do que ter o desgosto de vê-las censuradas, sabendo inclusive que uma consequência da aceitação da injustiça com os outros é que ela jamais fica restrita aos adversários.


A Jovem Pan também nunca escondeu que tem um lado nesta eleição. Mas é preciso dizer que a emissora tem também jornalistas e comentaristas que se posicionam favoravelmente ao PT. Além disso, é o candidato Lula que se recusa a participar de entrevistas e de debates. Lula tem este comportamento sem transparência com várias emissoras. O petista já foi convidado por várias delas, inclusive a Jovem Pan. Nunca aceita, talvez por não gostar de se expor onde não tem a garantia de que não será questionado sobre temas fora do interesse da sua campanha.


E quanto às preferências, cabe lembrar que o chefão petista recebe uma atenção bastante parcial da maioria da imprensa, seja dos veículos ou de uma porção de jornalistas. Não se vê nem mesmo aquele distanciamento, que tecnicamente é fundamental na profissão, tanto é assim que não entenderam o fenômeno de massas a favor da direita que houve no primeiro turno, com isso informando muito mal o público.


Ah, sim: com certeza este movimento social vai entrar no ano que vem ainda com mais vigor. Com censura ou sem censura, que nem tem a necessidade de ser usada em uma democracia. Para qualquer político que acha que está havendo alguma contrariedade legal, que pode ocorrer não só em relação ao período eleitoral, existe uma carrada de leis que servem para resolver a questão. Se algum inocentado sentir-se ofendido, basta buscar a Justiça. E claro que a Justiça não pode atropelar a Constituição.


A decisão do TSE vai contra a liberdade de expressão, garantida pela Constituição. Tanto é assim, que a ministra Carmen Lúcia teve dúvidas antes de dar o voto favorável à decisão do TSE. A ministra chegou a perguntar se não estavam dando um passo contrário a um direito constitucional, no caminho da censura. Pois deram. É censura prévia, que espero que seja logo derrubada no STF. No entanto, o mal já está feito, trazendo ainda mais perturbação política, que se junta às tantas que já formam uma confusão que impede o país de ter um foco sobre o que realmente importa nas nossas vidas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Lula e o PT partem para o vale tudo que fortalece a campanha de Jair Bolsonaro

Assisto com grande interesse ao enlameamento generalizado neste segundo turno, com o PT aderindo com gosto à chamada “janonização” na campanha de Lula. Já temos um resultado aparente a dez dias da eleição, com a animação que toma conta dos apoiadores de Jair Bolsonaro, a partir do efeito surpreendente que colocou o candidato da direita no papel de vítima. Como os petistas entraram no jogo do bolsonarismo, como consequência naturalizou-se a maldade da direita, inclusive com a justificativa de que daqui por diante mesmo o mais asqueroso fake news será apenas uma reação.


O bolsonarismo também recebeu com os golpes um revigoramento impressionante, até com a emoção da necessidade de lutar por um legado. Os petistas acabaram tendo reavivamento do sentido de missão, que é um fundamento essencial da militância bolsonarista, até em razão da direita ter sérias dificuldades de doutrina e da sua precariedade em conhecimento político. Nos dias finais de um segundo turno, é enorme o proveito que pode-se tirar de uma movimentação como esta.


Outro ponto que vejo nesta questão é que a equivalência de métodos sujos não me parece ser convincente para a principal tarefa do PT neste segundo turno, que é ganhar a confiança dos eleitores de Ciro Gomes e de Simone Tebet, com maior interesse em quem votou na candidata do MDB no primeiro turno. Creio que não se pode ter dúvida de que será difícil encontrar gente que votou em Simone em razão da sua violência e grosseria contra adversários.


Daí a minha suspeita, digamos assim, de que não é exatamente pelo jogo sujo que Lula poderia chamar para si esse tipo de eleitor. Vejam bem: não faço essas considerações a partir de princípios éticos. Estou tratando simplesmente de campanha política, especialmente na questão do marketing. O termo “janonização” acabou pegando, mas não vejo o jogo sujo a partir desta definição, que surgiu com a entrada do deputado André Janones para pegar pesado a favor de Lula.


A sujeira em campanha é coisa antiga no PT, desde a fundação do partido do Lula. Ou ninguém se lembra do xingamento de “herança maldita”, contra Fernando Henrique Cardoso e seu partido, que saiu do governo deixando a casa arrumada para Lula? Outro exemplo é dos ataques ainda mais questionáveis à Marina Silva, em 2014, quando a ex-companheira que agora volta aos braços de Lula foi acusada de estar à serviço dos banqueiros.


Aliás, a acusação fraudulenta apontava essa ameaça na presença como coordenador de programa de governo de Marina a educadora Neca Setúbal, herdeira do Itaú, que agora também dá seu apoio a Lula. Bem, já disse aqui que se preparem os que aceitam Lula sem avaliar bem o produto. Como dizia o poeta: meninos, eu vi! Sujam-se bastante as mãos, quando se tenta limpar a imagem de Lula. Ainda sobre o estilo petista em 2014, para evitar que Marina fosse para o segundo turno, a campanha do PT afirmou que ela iria tirar a comida da mesa dos pobres. No final, quem tirou a comida dos pobres foi Dilma Rousseff. Sua queda, logo depois, serve muito bem para exemplificar o resultado final de certos métodos para alcançar o poder.


Na campanha atual, Janones apenas personaliza a estratégia de golpes baixos, que faz parte da trajetória do PT, desde sua origem. A diferença é que os petistas disfarçavam melhor o “janonismo”. Como eu já disse noutro post, aqui mesmo, não vejo a partir dessa forma de fazer política uma boa orientação para um futuro governo. E não vou questionar, nem como pergunta retórica, se no poder esta truculência será mantida. O PT já fez isso em quatro mandatos consecutivos. E agora Lula nem disfarça sua sede de vingança.


Parte fundamental dos votos de Lula no primeiro turno é pela rejeição a Bolsonaro, evidentemente com um referencial importante na repulsa aos métodos da direita. A última pesquisa Quaest diz que, dos que votam em Lula, 54% tem como motivo eleger Lula, 41% é para tirar Bolsonaro. O que se deve avaliar é qual é a proporção que aceita um vale tudo para alcançar a vitória. E se houver esse abandono de princípios, como se faz depois para reformular eticamente as atitudes?


Por ora, o que se pode acompanhar nas redes sociais é que os petistas se renderam ao jogo sujo, com uma parcela considerável de seguidores de Lula até orgulhosos das incríveis fake news produzidas pela campanha, de deixar o Carluxo vermelho de inveja. Em live com influenciadores e comunicadores, nesta terça-feira, Randolfe Rodrigues orientou a militância a espalhar nas redes o caso das venezuelanas, de onde saiu a acusação de “pedófilo” a Bolsonaro.


“Aquela cena horrenda aliciando adolescentes de 13, 14 anos não pode desaparecer das redes”, disse Randolfe, contrariando até mesmo a determinação de Alexandre de Moraes, que ordenou a exclusão. Por muito menos, Moraes chegou até a mandar prender parlamentar, mas sabemos que desta vez vai ficar por isso mesmo.


A esquerda entra com tudo na era do “janonismo”, talvez até acreditando que de fato não existe pecado do lado de baixo do Equador. O próprio deputado Janones já explicou sua técnica, afirmando “estar combatendo o bolsonarismo de igual para igual”, que serve até como uma auto-incriminação. Como o bolsonarismo é chamado de “fascismo” e até de ‘nazismo”, iguala-se então ao horror. Os auto-intitulados defensores da democracia estariam usando as armas do fasccismo, é isso? Ora, já no primeiro turno o pessoal de Ciro Gomes viu que de fato é bem assim.


Mas e o resultado dessa habilidade toda? Olha, pode ser que eu seja um homem muito das antigas, envolvido demais no interesse do aprofundamento e do esclarecimento, nessa disposição antiquada de ponderar, procurando ler com atenção sobre o tema em questão, até voltando ao estudo de certos pontos históricos e da teoria política, mas me cabe repassar o que aprendi em tantos anos envolvido em coisas tão fora de moda: não sei de situação nenhuma em que, do ponto de vista da defesa da democracia e da qualidade de governo, o uso das mesmas armas do inimigo tenha dado em resultado de qualidade.