quarta-feira, 16 de março de 2011

O ministro neófito em energia virou especialista até em usina atômica

Mas, de qualquer forma, o que impressiona nessa extraordinária segurança em meio à polêmica mundial trazida pelo acidente em Fukushima, é a capacidade de aprendizado do ministro Lobão. Em cerca de três anos ele passou de Lobão para Professor Pardal. Quando foi nomeado por Lula para o ministério de Minas e Energia, em 2008, esse poço de auto-suficiência disse aos jornalistas que se espantavam com sua falta de currículo na área que ele estava se informando dos assuntos da pasta pelos jornais.

Como isso até parece piada de tão absurdo que é, transcrevo o que ele disse na época: "Estou lendo alguma coisa que chega às minhas mãos. A imprensa, por exemplo, está escrevendo muita coisa técnica. Todos os dias saem até informações boas. Estou me informando sobre energia elétrica, sobre hidrelétrica, sobre gás, sobre petróleo."

De lá para cá, nesse pouco mais de três anos, ele parece ter reunido um imenso cabedal de conhecimento da área, avançando até na especialização em usinas atômicas. Eu só não sugiro mandar essa sumidade para Fukushima para esfriar os reatores e, de quebra, também a cabeça dos japoneses, porque não podemos dispor de um especialista tão seguro sobre questões tão complicadas.

Quer dizer, para o Lobão não há nenhuma razão para se incomodar com um acidente preocupante para o mundo todo e que perturba especialistas em energia nuclear de tal forma que fez o comissário europeu de Energia falar até em “apocalipse”.

O acidente no Japão fez também a Suiça e a Alemanha anunciarem a revisão de seus programas nucleares e é óbvio que todos os governos estão esperando apenas o desfecho dos acontecimentos em Fukushima para discutir com mais profundidade a necessidade de revisão que isso trará inevitavelmente para qualquer programa nuclear.

Mas tudo isso é fichinha para o ministro Lobão, que até há pouco tempo se informava sobre energia pelos jornais. Haja paciência, mas, no final, temos à nossa frente uma antiga cena: a dúvida só pode freqüentar a cabeça do sábio. Todo idiota tem a cabeça repleta de certezas. Mas se a autoridade nas mãos de um ignorante já é preocupante em qualquer situação, essa perturbação tende a aumentar na razão do peso que suas decisões pode ter em nossas vidas.
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POR José Pires

A teoria petista do melhor dos mundos

Mas, infelizmente, nesse governo o comportamento tolo de investir sem nenhuma profundidade sobre qualquer questão não é uma atitude exclusiva do ministro Lobão. Essa é a pior herança do PT e que teve em Lula um misto de teórico e porta-voz: é a cultura de não medir riscos e subestimar situações perigosas ou o próprio adversário.

Podemos chamar isso de “Teoria da Marolinha”, que se aplica inclusive no enfrentamento de tsunamis e, vê-se agora, serve até para assuntos atômicos. Eles contemplam a realidade com uma confiança cuja única base de sustentação é o otimismo de um marqueteiro bem pago. O problema é que isso contagia de forma muito mais fácil que a exigência de enfrentar os problemas com trabalho duro. Aquela história de ter para oferecer apenas “sangue, suor e lágrimas”, nem pensar.

E quem tem o bom senso de apontar as inconveniências dessa auto-suficiência de fachada que faz parecer que vivemos no melhor lugar do mundo e acaba criando sérias dificuldades para exigir do brasileiro qualquer esforço coletivo, bem, quem aponta os problemas que estão na nossa frente é tachado de "tucano" ou pouco patriota.

Esta visão demagógica e trabalhada pela propaganda como se fosse de um otimismo realizador acaba levando a isso. Afinal, se o Brasil pode se dar bem em todas as situações, porque não à frente de um reator nuclear explodindo? Isso é uma quirera, ainda que nuclear, não é mesmo, merrrmão.

Somos o país do pré-sal e só podemos nos dar bem. Mesmo que as previsões preocupantes de estudiosos e cientistas estejam certas e que tenhamos daqui a vinte ou trinta anos um planeta com escassez de energia e metido em problemas graves ambientais, inclusive com a falta de água potável e até de recursos hídricos para a agricultura, nosso país estará no melhor dos mundos.

Passaremos o final dos tempos vendendo petróleo (com pouco sal, muito sal, tem tudo no cardápio) para o mundo inteiro. É provável até que os países mais poderosos mandem o pagamento em dinheiro a bordo de seus encouraçados, submarinos, aviões de combate e porta-aviões. Pena que até lá é provável que o ministro Lobão não esteja vivo para receber a bufunfa pessoalmente em nossos portos.
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POR José Pires

terça-feira, 15 de março de 2011

Acidente em Fukushima foi próximo dos 25 anos de Chernobyl

A situação em Fukushima está cada vez pior. O acidente está próximo de uma tragédia nuclear que pode abalar o Japão e mudar de vez a opinião mundial sobre o uso da energia atômica. Agora à tarde o comissário europeu de Energia, Günther Oettinger, definiu com palavras muito fortes o que está ocorrendo na central nuclear. "Se foi falado em apocalipse, na minha opinião é uma palavra muito bem escolhida".

Ele não exclui "o pior para as próximas horas ou dias". Outras avaliações sobre o acidente também levam a pensar o pior sobre o que está acontecendo de fato em Fukushima. Até o momento as autoridades japonesas estabelecem o nível 4 para o acidente, mas a Autoridade de Segurança Nuclear francesa afirma que o acidente está em no nível 6. A Escala Internacional de Eventos Nucleares (INES, pela sigla em inglês) vai até 7, um nível que foi alcançado no pior acidente nuclear do mundo, o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

Por coincidência o acidente de Chernobyl faz aniversário de 25 anos dentro de poucos dias — foi no dia 26 de abril. O desastre na antiga União Soviética espalhou radioatividade por centenas de quilômetros, alcançando a Europa e a Escandinávia. Várias regiões em torno do epicentro do acidente nuclear estão inabitadas até hoje. Foi determinada uma zona de exclusão de 30 quilômetros ao redor do que era antes a cidade de Chernobyl. A antiga União Soviética legou à região uma imensa zona de lixo atômico onde depois de mais de duas décadas ainda é impossível viver.

O Japão não parece estar fora do risco de viver uma tragédia parecida com a de Chernobyl. E, para piorar, o território japonês é tão pequeno que ficaria bem difícil de arrumar espaço para uma zona de exclusão do tamanho que a contaminação pode exigir. Se acontecer o "apocalipse" temido pelo comissário europeu de Energia, Günther Oettinger, praticamente acabou o Japão. A recuperação será difícil.

Já se noticia que a radiação foi detectada em Tóquio. Com uma olhada no mapa do Japão dá para perceber a dimensão da imprevidência dos japoneses. Fukushima fica à apenas 250 quilômetros da capital japonesa, quase a metade da distância entre Rio e São Paulo. Se a radiação atingir Tóquio de forma grave, para onde vão deslocar 13 milhões de pessoas? Pois é, construiram usinas atômicas num país onde não tem para onde correr.
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POR José Pires

No Japão até as boas notícias dão medo

A dimensão do acidente nuclear em Fukushima, no Japão, revela-se cada vez maior. É o gato japonês já no telhado. Já se teme um desastre nuclear. Neste tipo de problema a gente pode avaliar o perigo pelas boas notícias. O Japão informou à ONU que os níveis de radioatividade na porta da central nuclear estão baixando. É claro que esta é a boa notícia. Mas o problema é que os níveis estão muito acima do normal. E não é uma boa notícia para o náufrago avisar que ele vai se afogar, mas não é com tanta água. E com acidente nuclear é assim. Até boa notícia faz todo mundo ter vontade de sair correndo.

Ontem, como informei aqui, o presidente da agência de segurança nuclear da França, André-Claude Lacoste, havia situado em gravidade o desastre japonês além de Three Miles Island. A agência francesa posicionou o acidente no nível 4 (acidente com consequências de alcance local). Hoje a agência elevou o acidente ao nível 6 (influências externas longas). E a escala vai até 7 (catástrofe local com consequências globais).

Também nesta terça-feira, o primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan, em discurso televisionado deu a notícia de que a radiação se espalhou por quatro dos seis reatores da usina Fukushima. Até ontem 200 mil pessoas haviam sido retiradas da região. Yukio Edano, secretário do gabinete do primeiro-ministro, também admitiu que a radiação atingiu um nível que pode prejudicar a saúde. O governo japonês também ordenou que 140 mil pessoas evitem contato com o ar contaminado de material radioativo.

A agência de notícias Kyodo informou que já foram detectadas pequenas quantidades de radiação em Tókio. A embaixada da França no Japão recomendou a seus compatriotas que vivem na capital japonesa que evitem sair às ruas.

A França expressa claramente que considera o acidente em Fukushima pior do que dizem as autoridades japonesas. E como sabemos como se estabelece as relações entre nações poderosas, dá para suspeitar que os franceses mantêm em protocolar segredo tudo o que sabem, mas não podem conter-se de todo para não serem acusados futuramente por alguma conivência. Esta é uma visão pessoal, é claro. E espero sinceramente estar errado.

Outro sintoma de que o problema é bem maior do que as autoridades japonesas tentam fazer parecer é a opinião dos lobbies de defesa do uso da energia nuclear. Apesar de se manterem na defesa do uso dessa perigosa energia, nem eles se arriscam a expor otimismo com o que acontece no Japão.

Maria Teresa Domínguez, presidente do Foro Nuclear, um organismo que exerce lobby para as seis usinas nucelares da Espanha, mostra preocupação. Para ela, “o uso de água do mar demonstra o desespero da situação”.

A bem da verdade, a cena de dezenas de japoneses jogando desesperadamente água do mar para desaquecer o reator nuclear desmistifica de forma patética todo o conjunto de sofisticação tecnológica e responsabilidade criado em torno deste assunto. O lobby nuclear age desse modo para evitar que as pessoas vejam a questão dentro do contexto humano, onde o acaso e a falha fazem morada permanente.

Em um terremoto, num tsunami, um incêndio florestal, nos mais variados problemas que afetam nossa vida erro pode ser contornado ou até sanado. Em casos assim, pode-se até consumir muitos anos para que os danos sejam minimizados, mas com o tempo é possível consertar a vida. Com a energia atômica não dá para errar.

Daí o esforço do lobby nuclear para tirar o tema do meio das demais considerações técnicas que envolvem todas as atividades humanas. No entanto, os japoneses desesperados jogando água em um reator nuclear tiram o debate do nível de propaganda desejado pelo lobby para que o problema seja encarado no nível humano.

Concorre também para abalar o mito de que é possível o controle da energia atômica o fato do acidente nuclear ter acontecido no Japão, um país que além do altíssimo poder econômico e tecnológico também conta com a fama de ter um povo extremamente disciplinado e de altíssima responsabilidade.

Porém, também neste caso a realidade impõe-se a verdade inamovível de que, no final, estamos todos presos à escala do humano, com o potencial de falhas e deslizes de que todos somos capazes.

Uma notícia que, para mim, contribui mais um pouco para humanizar nossos irmãos amarelos surgiu há pouco. O primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, ficou bastante bravo com a Tokyo Electric Power Co. (Tepco), empresa que administra a central nuclear. Ele demorou muito para ser informado da última explosão de Fukushima I, a terceira explosão desde o início do acidente.

Segundo a agência Kyodo, o primeiro-ministro perguntou aos responsáveis pela central nuclear o seguinte: “Que diabos está se passando? A televisão informou sobre uma explosão, mas durante uma hora nada foi informado ao gabinete”.
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POR José Pires

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tem gato japonês nesse telhado

O comportamento do governo japonês neste acidente nuclear em Fukushima está parecendo desde o início com aquela história do gato que subiu no telhado. A piada é com os portugueses, mas parece que está acontecendo agora com os japoneses e num assunto muito sério.

As autoridades japonesas não tem um histórico confiável de transparência em relação aos problemas com seu programa nuclear. Não foram honestos sobre incidentes no passado. Logo que ocorreu o acidente, o site da BBC lembrava essa falta de transparência para pontuar que dificilmente as pessoas se convenceriam com as explicações que vinham sendo dadas e que minimizavam as consequências do acidente.

Logo que aconteceu o terremoto e o tsunami, com as explosões na central nuclear, as autoridades japonesas davam a impressão de que estava tudo sob controle. Porém, os fatos vão revelando gradativamente que sempre houve mais perigo na central nuclear do que os japoneses queriam admitir. É como na história do gato.

Agora há pouco o jornal espanhol El País noticiou que o presidente da agência de segurança nuclear da França, André-Claude Lacoste, afrmou que o acidente pode ser caracterizado como mais grave que o de Three Miles Island. As palavras dele: "Mais além de Three Miles Island, sem chegar a Chernobyl".

Esta aproximação com Chernobyl, usina da Ucrânia onde aconteceu o pior acidente nuclear do mundo, deixa a gente preso à história do gato. Fica bem claro que ele já está no telhado, porque ficar mais próximo de Chernobyl não é nada bom.

Desde a primeira explosão na central nuclear as autoridades japonesas garantem que o acidente foi de nível 4 (acidente com consequências de alcance local). Agora a agência nuclear francesa crê que o acidente alcançou o nível 5 (acidente com consequências de maior alcance).

O problema em Fukushima era de menor gravidade que os acidentes nucleares de Three Miles Island e Chernobyl. A França já diz que o acidente já está além do de Three Miles Island. Não será supresa para mim se esse gato cair do telhado.
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POR José Pires


Países bem mais ricos que o Brasil, como Suiça e Alemanha, já revisam sua política nuclear. E nós, quando vamos fechar as usinas de Angra?

O governo petista e seus ministérios da piada pronta

Para que criar piada se o governo petista já entrega pronta? Esta semana temos a do Ministério da Pesca, um ministério que já é a própria piada, mas que trouxe algo ainda mais engraçado que sua própria existência.

O Ministério da Pesca serve basicamente para dar uma boca no governo a quem não sabe pescar, em todos os sentidos. Nele está Ideli Salvatti que, sabendo que não se reelegeria senadora, optou pela derrota para o governo de Santa Catarina. Ficaria mais feio para ela não se reeleger para o Senado.

É o mesmo que fez o Aloizio Mercadante. Como não se reelegeria senador por São Paulo forma alguma, optou pela derrota mais, digamos assim, honrosa, para governador. Uma candidatura que também serviu para ele fazer um servicinho que rendesse um cargo no governo de Dilma Rousseff, onde foi para o ministério... ah, um desses tantos.

Para acomodar tanta gente que não pesca votos, tem que ter muita boca. O governo petista tem 37 ministérios. Não foi herança dos tucanos. FHC entregou o governo com 26 pastas. Lula entregou o governo para Dilma Roussef com 37 ministérios e ela ainda tem planos de fazer mais dois.

Numa matéria sobre a elevação de gastos com os novos ministérios inventados por Lula (só em aluguéis o gasto é de R$ 100 milhões por ano) o Estadão de hoje cita a situação do Ministério da Pesca. O ministério da Ideli Salvatti foi instalado num prédio de 14 andares alugado por R$ 7 milhões ao ano, onde ficam 374 servidores. A própria ministra não fica por lá. Ela e 67 assessores dão expediente na Esplanada

O Estadão destaca o caso do Ministério da Pesca como um exemplo do descompasso entre altos gastos e irrelevância política e econômica das pastas. O jornal informa que nos oito anos dos dois mandatos de Lula, os recursos da Pesca aumentaram mais de 70 vezes, de R$ 11 milhões para R$ 803 milhões. Já a produção nacional de pescado continuou em 990 mil toneladas.

Este é só um caso. O Estadão cita outros e a matéria cuida somente da situação dos novos ministérios que passaram a ser chamados de “Esplanada oculta”. Se for estudar seriamente todos os ministérios do governo petista, duvido que sobre algum numa análise de custo e benefício. E é claro que estou falando do custo para nós e do benefício para o Brasil, porque para os petistas é ótimo do jeito que está. Para eles, o benefício é sem nenhum custo.
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POR José Pires

Para que energia atômica? Vamos ficar só com os problemas que já temos

Não é preciso acontecer no Brasil nada parecido com a tragédia que abalou o Japão para que tenhamos a experiência de ver o atrapalho das nossas autoridades em qualquer situação de emergência. As explosões na central nuclear de Fukushima já está fazendo países ricos como a Suuição e Alemanha repensarem sua política nuclear. E nós, com as centrais de Angra e o histórico brasileiro de incapacidade de lidar com os problema que já temos? Bem, como já disse aqui, e nossas autoridades já são incompetentes no ordinário, que dirá no extraordinário...

Nem precisamos de problemas com usinas atômicas para saber o que é uma tragédia. Mas temos usinas atômicas também. Seria melhor tentarmos para os problemas que já são nossos e pensar seriamente em evitar novas complicações muito mais difíceis de resolver.

Basta uma chuva para o mundo cair por aqui. Agora mesmo, no Paraná, a cidade de Morretes está totalmente alagada, com oito mil pessoas expulsas de sua casa pela fúria da natureza. É mais da metade da população, hoje de 15 mil habitantes. É a natureza, mas com uma fúria que contou com a ajuda de políticos, de empreiteiros e do descaso com a prevenção. E Morretes fica praticamente ao lado da capital paranaense, que foi até alguns anos atrás um símbolo brasileiro de qualidade de vida.

Numa matéria do site G1 saiu uma interessante explicação do Capitão da Defesa Civil do Paraná sobre o que representa o estado de calamidade pública decretado em Morretes: “impossibilidade de o município reorganizar e administrar sozinho as estruturas” da cidade atingida por algum desastre. “É como um pedido de ajuda ao Estado”.

É claro que o Estado deveria ajudar antes, ou melhor, cumprir com suas obrigações para evitar o desastre, não é mesmo? Mas quem está a salvo hoje com os administradores públicos que temos? Até recentemente, o pessoal mais privilegiado, que observa as ruas de dentro de carros refrigerados e com vidro fumê, pensava que o drama não era com eles. Mas a tragédia recente no Rio não selecionou apenas os pobres que moram sempre mal. Condomínios e casas de alto luxo foram atingidos. Famílias muito ricas sofreram perdas terríveis.

Parece um recado dos céus, um grito até, avisando que somos todos iguais. Mas quem ouve uma coisa dessas no Brasil? Deveriamos ver também que não existe capacidade de se isolar dos problemas que afetam o bem comum. A tragédia no Rio ou em Morretes, ou qualquer outro lugar, pode ter sua causa fora das imediações. Um rio que avança sobre casas pode ter tido seu curso deformado muito longe. Em muitos casos o problema começa às margens do Lago Paranoá, em Brasília.

As cidades brasileiras podem até aparentar uma situação de anormalidade, se ficarmos apenas com a visão superficial das aparências, dos melhores lugares dos municípios, que pode ser até o nosso bairro. Que bacana a Avenida Paulista, em São Paulo, ou mesmo a Faria Lima, quanto poder e elegância, não é mesmo, ô meu? Porém, numa chuva dessas, numa passada em um bairro da periferia é que dá para ver a situação real das cidades brasileiras. Basta um chuvisco para a vida virar um inferno, a começar do transporte público.

As enchentes e deslizamentos ocorridos no Rio de Janeiro em fevereiro mostraram bem o que pode se esperar de governos do município, do estado ou do federal. A presidente Dilma Rousseff passou pela região atingida, onde morreram mais de mil pessoas, sem falar nos feridos, e depois foi de helicóptero para a capital posar sorrindo ao lado do governador segurando uma camisa do Fluminense.

É um símbolo da atuação casada dos nossos políticos. Mas como é que estão as pessoas atingidas hoje? Duvido que esteja havendo algum atendimento sério às suas dificuldades e duvido mais ainda que estejam sendo colocadas em prática para evitar adiante o mesmo problema. E nunca vamos saber como estão as coisas por lá, pelo menos até que outro desastre aconteça. Nossa imprensa também atua de forma circunstancial.

Mas os problemas vão pipocando, daqui pra lá, mudando apenas de lugar no conjunto desse grande drama das cidades brasileiras.
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POR José Pires

sábado, 12 de março de 2011

Energia atômica: um risco ainda mais claro com os acontecimentos no Japão

O Japão vive o pior acidente nuclear desde Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, e Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979. O acidente provocado pelo terremoto em Fukushima foi classificado como de nível 4 na Escala Internacional de Sucessos Nucleares.

E, como sempre, com a má-notícia surgem informações que poucos sabiam. As usinas japonesas foram construídas com segurança, mas para um terremoto de 7,5 graus. E o terremoto foi de magnitude 8,9.

O governo japonês procura acalmar a população, enquanto toma medidas para evitar uma tragédia nuclear. 45 mil pessoas estão sendo evacuadas de um perímetro de 20 quilômetros em torno da central nuclear Fukushima I e de 10 quilômetros de Fukushima Daini, também com problemas. O governo também começa a distribuir iodo, elemento para prevenir o câncer de tireóides.

Um porta-voz da Organização Mundial da Saúde disse que o risco do escapamento de radiação para a saúde é baixo, mas a afirmação foi feita a partir de dados passados pelas autoridades japonesas. E muitas pessoas evacuadas tiveram que passar por controles de radiação antes de abandonar a área.

O acidente em Fukushima não nos atinge diretamente, mas os efeitos do que acontece no Japão sobre o uso da energia nuclear fatalmente serão sentidos em todo o planeta e até para nós aqui. Afinal temos aqui as usinas nucleares de Angra.

O acidente traz ao debate sobre os riscos da energia nuclear o efeito de eventos imponderáveis, como foi o terremoto que provocou os danos na central nuclear. O terremoto de ontem foi o maior em 150 anos, de uma magnitude que foi impossível prever.

Aparentemente, o governo japonês está no controle da situação. É claro que para isso deve ajudar muito a famosa disciplina dos japoneses. A capacidade de reação dos japoneses é ainda mais admirável quando se vê as imagens do terremoto e do tsunami, com os terríveis estragos causados. 50 mil militares controlam a situação em torno das centrais nucleares e a evacuação e atendimento às vítimas se faz sem a confusão que costuma ocorrer em situações parecidas.

Algo parecido acontecendo em países como o Brasil seria para nós como o fim do mundo. Mas a dificuldade para lidar com catástrofes de tal magnitude não é só dos povos de países com menor desenvolvimento, como é o nosso caso. Pois até no país mais rico do mundo teve aquela confusão durante o governo Bush, em 2005, na enchente em Nova Orleans.

Mas é evidente que para nós as dificuldades seriam bem maiores. Já nos complicamos com que nem de longe podem ser comparados ao que ocorre agora no Japão. Qualquer chuva um pouco mais forte serve para demonstrar que nossas autoridades públicas são incapazes para enfrentar situações de emergência, o que não é nenhuma surpresa já que prefeitos, governadores e autoridades federais são ruins até no que é ordinário.

Durante os deslizamentos e enchentes ocorridos há cerca de dois meses no Rio de Janeiro deu para ver o desgoverno que temos no país, em todos os planos. Mais de mil pessoas morreram e até agora os problemas persistem na região, sem nenhuma indicação de que haverá uma melhor condução política e administrativa para evitar problemas semelhantes no futuro.

Dessa forma, dá até medo de pensar em algum evento climático ou geológico que possa afetar as usinas de Angra, situadas próximas a cidades com quase 200 mil habitantes, como é o caso de Angra dos Reis e à cerca de 160 km da capital do estado.

Sempre terá alguém para dizer que vivemos em uma terra livre de eventos terríveis, como os terremotos. Mas temos também que ver que mesmo no Japão não houve jeito deles se prevenirem para um terremoto de tal dimensão. E os japoneses convivem há séculos com terremotos.

E é preciso compreender também que o ambiente do planeta vem mudando bastante nos últimos anos, na maioria dos casos para pior, e que nenhuma região deixará de ser afetada.

Em razão da ação humana, hoje o planeta sofre transformações que tornam impossível prever em absoluto como serão afetados os mais variados empreendimentos humanos. Mas entre as atividades de risco do ser humano, a mais perigosa sem dúvida é a energia atômica.

Sei que o ser humano tem uma dificuldade danada em usar a experiência, mesmo aquelas com grandes tragédias, para dar continuidade a vida com menores riscos. Esse não é um problema só do brasileiro. Mas como seria bom se o que aconteceu de ruim no Japão servisse de lição para que o mundo abandonasse o uso da energia atômica.
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POR José Pires

Navegando pelo terremoto do Japão e de olho na internet

Se você busca imagens que revelem como ficou o Japão depois da catástrofe, não ficará satisfeito na internet brasileira. Em outros assuntos também é assim, mas num caso desses a ineficiência pesa mais. Nossos sites costumam trabalhar pouco com fotografia. E penso até que, quando são forçados a publicar mais imagens, este recurso não é aproveitado de forma eficiente.

E isso com a maioria desses sites sendo tocados por empresas com origem no jornalismo impresso. Ou talvez seja por isso mesmo. Os jornais brasileiros colocam na internet a culpa por seus dissabores econômicos, mas a verdade é que a decadência vem de antes da existência dessa nova tecnologia.

Vem de longe a queda em número de leitores, mas principalmente de qualidade e prestígio. E nisso influíram muito os interesses internos das empresas, que esqueceram ou até desprezaram o essencial investimento em recursos humanos para fazer bons jornais, revistas e, como ocorre agora, os sites. Para fazer qualquer coisa boa é preciso ousadia e criatividade, mas hoje se permite liberdade profissional nas redações brasileiras? Não parece.

Como eu disse, já era assim nas redações dos jornais impressos. E isso passou para a internet. Daí o panorama atual da internet brasileira, na qual falta profundidade, e onde raramente surge uma boa surpresa editorial. Raramente? Eu tenho a impressão de que nunca tem. Há quanto tempo você não se depara com algo realmente bom na internet brasileira?

Cuidado. Internet virou rotina. E, pior ainda, uma rotina de superficialidade, de coisas que parecem ter sido feitas na correria. Quando a revista Caras surgiu no Brasil, ela era uma publicação ridicularizada nas redações. Hoje, o estilo se impôs. A fofoca e a superficialidade dão o tom e o banal é apresentado como se fosse especial. O defeito virou prática.

Então, quando acontece algo como o terremoto do Japão, ai do internauta brasileiro se ele quiser ver fotos de qualidade feitas no local. E acontecimentos desse tipo exigem boas fotografias, um recurso de tal forma revelador que pode até liberar as redações para seguir caminhos editoriais mais criativos. Ah, mas tem que contratar fotógrafo, é isso? E teria de ser bons fotógrafos e não qualquer boboca com equipamento digital na mão atuando como paparazzo? É, parece complicado.


Com o papiro de volta
Mas voltando à superficialidade disseminada na internet brasileira, aqui temos também um problema de técnica editorial, uma concepção equivocada de que as pessoas querem ver algo parecido com televisão na tela do computador. Bem, posso até estar em minoria nessa discussão, mas para mim a internet tem mais a ver com a página impressa do que com imagens animadas.

E os tais dos "infográficos"? Esta é uma boa intenção que deveria estar no inferno. Teve uma vez que corri para um site para ver a lista dos réus do mensalão. Ora, é bem fácil. É só colocar um patife atrás do outro que o internauta pode ir descendo a página e se informando. Mas não fizeram isso. Bati a cara num infográfico onde deveria clicar em um réu de cada vez. E como os pilantras são quarenta... Nossos sites confundem ler com LER.

Costumo dizer até que a técnica de visualização da internet é pré-Gutenberg, porque o que temos à nossa frente é um papiro que vai se desenrolando. E não há nenhum mal nisso. Eu acho até bom. E é muito mais prático que ficar esperando fotos pequenininhas acenderem na tela. Ou clicar em quarenta vezes em meliantes disfarçados de políticos.

Os sites brasileiros um dia chegam lá. Mas é preciso antes reaprender com as técnicas do jornalismo impresso, todas prontas para botar na internet. O papiro é de um pouco antes.

Na apresentação de imagens, vários sites brasileiros optam pela apresentação de slides, com fotos pequeninas que muitas vezes exigem que o leitor clique uma por uma. Ora, temos aí algo que já era chato muito antes da internet, porque encher a paciência das pessoas com slides já é coisa antiga.

Mas, para não dizerem que só critico essa brava gente brasileira, temos aqui no Brasil o site do Estadão como uma boa exceção. Para imagens usam o velho papiro. Já a equipe novidadeira da Folha de S. Paulo vai de slide. Praticamente todos os sites brasileiros seguem esta forma.

Mas vamos ver imagens boas dos acontecimentos no Japão. Selecionei dois lugares estrangeiros muito bons para isso. O Denverpost, onde você entra por aqui. E o The Atlantic, para se vai por aqui. A imagem acima é de lá. Ah, e tem também o brasileiro Estadão, que é por aqui. Você vai desenrolando o papiro e se informando.

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POR José Pires

sexta-feira, 11 de março de 2011

A ética fora da normalidade

O Brasil é um país de espantar. Mas cada vez me espanto mais é com o espanto dos outros. Não deixa de ser correto se indignar com fatos como a recente nomeação do ex-deputado Genoníno Neto para assessor do ministro da Defesa, Nelson Jobim. Mas na situação em que chegou o Brasil, convém ter um certo cuidado para não causar estranhamento.

Não é em qualquer país que um réu em processo no Supremo Tribunal Federal, acusado em um caso grave como o do mensalão petista, acaba ficando na sala ao lado do ministro de uma pasta de tanta importância. É preciso que uma nação tenha descido bastante na escala ética para acontecer algo assim.

Porém, uma decisão como esta tem que ser vista também dentro do contexto de um país que tem José Sarney na presidência do Senado, o PT presidindo a Câmara, e também com a presença de ilustres mensaleiros como o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) na presidência da Comissão de Constituição de Justiça.

Genoíno no ministério da Defesa é também o desenvolvimento lógico da presença na comissão da reforma política de Paulo Maluf (PP-SP), que nem pode viajar para fora do país porque é procurado pela Interpol, Valdemar da Costa Neto (PR-SP), também réu no mensalão, e Eduardo Azeredo (PSDB-MG), o criador do mensalão mineiro.

É preciso ter cuidado. Num quadro desses, qualquer indignação ética pode muito bem ser vista como uma manifestação de grave anormalidade.
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POR José Pires

A cabeça-de-ponte dos EUA

Hoje foi divulgada um ranking com as melhores universidades em reputação no mundo. O trabalho é da organização Times Higher Education. A pesquisa é muito séria. O resultado saiu de consulta somente para convidados, com mais de 13 mil professores de 131 países do mundo.

O Brasil não tem nenhuma instituição entre as primeiras. A Universidade de São Paulo, a USP, sempre ela, é que está na melhor colocação: 232ª. É a única universidade da América do Sul na lista.

O ranking pode ser visto aqui, no site da Times Higher Education, e dele dá para extrair uma informação muito interessante e demolidora do mito esquerdista que afirma que os americanos têm muito poder só porque possuem os melhores canhões.

Os Estados Unidos estão com sete universidades entre os dez primeiros colocados e 45 delas na lista de 100 melhores.

  • No título, não resisti ao jogo de palavras com a linguagem militar. Cabeça-de-ponte é a posição ocupada por uma tropa de vanguarda para assegurar o espaço para o prosseguimento da operação de conquista.
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POR José Pires

quinta-feira, 10 de março de 2011

Um governo de distraídos

Aquela famosa lista do Tim Maia cada vez aumenta mais. Está certo. Como bem dizia o cantor, no Brasil é assim: aqui prostituta se apaixona, traficante se vicia e cafetão se apaixona... e ministro de Comunicação Social não tem controle nem sobre o que escreve em seu Twitter pessoal.

É a história de Helena Chagas, que substituiu Franklin Martins no ministério da propaganda do governo petista. No domingo passado ela repassou (ou retuitou, como dizem) no Twitter uma mensagem atacando Lula, o chefão de sempre. A mensagem:

"Ganhar menos que esta raça devoradora, políticos, como Sarney, Mubarak, Kadaf, Bush, Lula, Dirceu, Genoino, me envergonham, que nojo. Xau”."

Segundo a própria ministra afirma, ela demorou quatro dias para se dar conta que havia avalizado um ataque a toda a base do governo a que serve, inclusive ao amigo e irmão de Lula, o ditador Kadhafi. É uma distraída. E que gafe, não? É pior que xingar a imã do Chico Buarque.

Não tem outro jeito de explicar uma patetice como essa, senão com o dito do Tim Maia. Helena Chagas tem outras histórias de difícil explicação. A mais importante delas foi a história do caseiro Francenildo Costa, quando ela era chefe da sucursal de O Globo, em Brasília. Foi quando repassou (como repassa essa jornalista!) ao então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, a suspeita sobre a conta do caseiro Frana Caixa Econômica Federal.

Daí houve a quebra de sigilo do caseiro e toda a trama que se seguiu. Tudo se ajeitou, só Francenildo ficou no prejuízo. E a ética, é claro. Mas no Brasil essa sempre perde.

Todos estão muito bem colocados. Palocci foi para a Casa Civil. Helena Chagas virou ministra no lugar de Franklin Martins. E até o então gerente da Caixa responsável pela quebra do sigilo acabou levando vantagem. Jeter Ribeiro de Souza, foi nomeado assessor de Dilma, numa função de confiança que é uma piada pronta: Informações em Apoio à Decisão da Presidente.

E na relação entre Helena Chagas e Palocci sobrou a dúvida sobre quem quem é o mentiroso. Ele disse em depoimento à Polícia Federal que foi a jornalista que repassou a suspeita sobre o caseiro. E também em depoimento à PF a jornalista afirmou que não foi ela. Tem mentira aí.

Ou uma distração, que foi como ela justificou a bobeada no Twitter.
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POR José Pires

quarta-feira, 9 de março de 2011

Carnaval da mortandade nas estradas e as montadoras de cofres cheios

No Brasil, todo período prolongado de feriado traz más notícias no final. O carnaval não tem só o resultado da competição das escolas de samba no Rio: tem também o horrível rescaldo, sempre com muitos mortos e feridos, principalmente em acidentes de trânsito nesta terra da dobradinha terrível do automóvel particular e a irresponsabilidade, tanto de quem está dentro dos carros quanto de quem tem a responsabilidade de zelar pela segurança nas estradas brasileiras.

Este ano o saldo foi bem pesado. O carnaval de 2011 foi o mais violento da história. O aumento do número de mortos e feridos chegou a ser quase 50% maior que no ano passado.

Foram registrados 4.165 acidentes (28,7%), deixando 2.441 feridos (27,4%) e 213 mortos (47,9%). No ano passado, o balanço foi de 143 mortos em 3.233 acidentes. 1.912 ficaram pessoas ficaram feridas.

Se fosse no governo Lula, o Supremo Apedeuta poderia vir a público declarar que nunca neste país morreu tanta gente num carnaval. Mas a tragédia vem do governo dele que, como todos sabem, tem seu seguimento no governo Dilma. Como será que se define uma herança como esta, maldita ou bendita?

Na palestra que fez na semana passada na coreana LG Eletronics, o ex-presidente embutiu na exaltação a seu governo algo que ele considera como um admirável feito: o estímulo ao consumo.

Agindo como garoto-propaganda da LG, ele não poderia mesmo numa palestra dessas fazer uma análise crítica da economia, situando inclusive a necessidade de controle e planejamento do consumo de produtos industrializados. O negócio ali era vender, assim como foi feito principalmente durante os últimos dois anos, o período utilizado para construir uma plataforma eficiente para a eleição da sua candidata.

A plataforma era falsa, como agora se vê com o desmoronamento de todo o otimismo construído no ano passado. Para viabilizar a eleição de Dilma Rousseff foi instituído um vale-tudo na economia, inclusive com a maquiagem da situação fiscal brasileira.

Um dos artifícios para evitar a crise mundial e forjar uma situação de tranqüilidade foi injetar muito dinheiro na indústria automobilística, recursos que depois foram enviados pelas empresas para o exterior na forma de lucros. Segundo um estudo dos professores Fernando Sarti e Célio Hiratuka, do Instituto de Economia da Unicamp, no período 2008-2010 o governo Lula repassou por meio do BNDES financiamentos na ordem de US$ 8,7 bilhões. Durante o período 2008-2010 as remessas de lucros e dividendos foram 12,4 bilhões de dólares. E os investimentos externos de apenas 3,6 bilhões de dólares. O saldo negativo (para nós, é claro) foi de 8,8 bilhões de dólares.

O ano passado foi excelente para eles. Em 2010 o setor automotivo mandou de lucro para o exterior US$ 4 bilhões. Segundo os professores da Unicamp, no mesmo ano este setor, que engloba montadoras e autopeças, investiu aqui 450 milhões de dólares. É dez vezes menos que os lucros que foram daqui para o estrangeiro.

E além da grana oficial, as montadoras tem também as facilidades dos incentivos fiscais nos estados. É muito dinheiro para um setor que traz muitos problemas e tem um horizonte curto. Hoje, o estímulo ao consumo de automóveis é um dos mais delicados em qualquer país do mundo. No Brasil, com sua carência história de infra-estrutura rodoviária e o esgotamento do espaço para os carros nas cidades, forçar uma alta no setor é ainda mais arriscado.

Além do mais, não há futuro para o carro individual. Ninguém poder acreditar que a dinheirama investida pelo governo no setor vá dar algum lucro social. Mesmo que aparente dar muitos empregos e aquecer a economia, este tipo de investimento tem uma eficácia ilusória. Não sei se já fizeram as contas, mas acredito que se alguém colocar na ponta do lápis o custo de tudo quando é coisa ruim causada pela proliferação do automóvel, no final vai chegar à conclusão que as montadoras só dão prejuízo ao país.

E a questão fica ainda mais grave, pois enquanto o uso do automóvel é estimulado, pouca coisa é feita em contrapartida em termos de segurança, cuidado com o meio ambiente e até sobre a maior responsabilização dos crimes ao volante.

Mas deu pra dar uma incrementada na economia mesmo que a custa de caros subsídios. E as montadoras são inclusive moeda de troca na política. Por causa desta última eleição, por exemplo, Minas Gerais foi punida pelo governo Lula com a ida da Fiat para Pernambuco, onde Dilma não só ganhou de lavada a eleição mas também teve o apoio extremo do governador Eduardo Campos (PSB), que impediu que seu partido lançasse a candidatura de Ciro Gomes.

O governo petista tem uma estranha maneira de lidar com os carros. No mundo todo o automóvel particular é uma praga, do mesmo jeito que é no Brasil. Nossas cidades não têm mais espaço para os carros. Além dos acidentes, a poluição é outro grande problema. Mas, no entanto, por aqui existe um estranho orgulho das montadoras de automóveis, uma indústria que nem é brasileira de fato.

Números que deveriam ser vistos com preocupação acabam sendo saudados de forma positiva. Neste carnaval o recorde foi de mortos nas estradas, mas no mês passado outra façanha envolveu o automóvel.

A produção de veículos do Brasil em fevereiro cresceu 18,7 por cento sobre janeiro, atingindo o recorde para o mês de 310,7 mil unidades. Os números foram divulgados pela associação das montadoras, a Anfavea.

É claro que a mídia comemorou. Não teve nenhuma palavra crítica, mesmo que fosse só perguntar onde é que vamos botar mais esses carros. Mas é muito fácil saber porque este assunto nunca é discutido com profundidade. Basta folhear revistas e jornais, abrir um site ou ligar a televisão para ver que a quantidade de propaganda de carro é outro número espetacular dessa indústria.
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POR José Pires

Garoto-propaganda funciona: governo compra televisores da LG

Nessa última quarta -feira foi a estréia do ex-presidente Lula como palestrante num evento promovido pela empresa coreana da área de eletrônicos LG Eletronics do Brasil. O petista fez o de sempre. Lula parece uma escola de samba com enredo único: ele mesmo.

Na palestra para a empresa estrangeira o petista foi também garoto-propaganda da LG. Pareceria piada se não fosse com o Lula, mas ele fez uma palestra motivacional, no estilo dos picaretas da auto-ajuda. Elogiou a LG, repetiu slogans publicitários da empresa e fez uma relação no estilo lulista entre os projetos de seu governo e a venda de produtos da empresa. A receita é simples: o governo leva eletricidade para um miserável e ele compra um televisor da LG.

Não é bem assim, mas que Lula pode ajudar bastante a LG, isso pode. A empresa tem interesses em várias áreas onde a decisão do governo é que conta. Um exemplo é a licitação do trem-bala, que interessa muito aos coreanos.

A dobradinha Lula e LG parece forte. Neste carnaval a imprensa divulgou outra notícia que junta o governo do garoto-propaganda e a empresa. A equipe da Presidência da República vai comprar 30 televisores que vão custar quase 55 mil reais. Adivinhem de que marca.

É claro que não acho que uma relação tão interessante se restrinja a vender aparelhos eletrônicos para o governo, apesar de que um comerciante nunca vai deixar pra lá um comptrador tão bom, ainda mais se o cliente for amaciado por um garoto-propaganda como o Lula, mas a palestra seguida do negócio mostra que a Era Lula escancarou mesmo a falta de limites éticos na relação entre negócios públicos e negócios privados.
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POR José Pires

segunda-feira, 7 de março de 2011


Ou Obama é o jogador mais esperto do jogo e vai mostrar força no momento certo ou Kadhafi vence na Líbia. E aí Obama perde nos EUA.

Democracia em Angola: ainda não foi desta vez que a oposição saiu às ruas

O protesto contra o regime do MPLA em Angola foi cancelada. Hoje pela manhã os organizadores informaram sobre o esvaziamento da manifestação pedindo democracia. A explicação foi a "falta de condições" de juntar pessoas num protesto pacífico em razão da repressão do governo.

No sábado, o MPLA, partido que domina o país desde 1975 fez uma manifestação de apoio ao governo como uma reação à intenção da manifestação da oposição marcada para hoje. O movimento chapa-branca prometia dois milhões de pessoas nas ruas, mas a marcha teve menos de 500 mil. Neste final-de-semana já aconteceram conflitos com feridos graves.

E na madrugada desta segunda-feira a polícia deteve organizadores da passeata da oposição. Três jornalistas foram detidos. Foi preso também o popular rapper angolano, Luaty, que postou no Youtube um vídeo chamando para a manifestação. Na fala do rapper, chama a atenção um momento em que ele questiona sobre o fato de falar do governo em Angola ser uma ameaça à vida.

Além do rapper e dos jornalistas, que segundo fontes da oposição angolana apenas cobriam profissionalmente o acontecimento político, foram presas cerca de 20 pessoas. Todos foram libertados nesta manhã, mas durante toda a noite seus familiares e colegas ficaram sem nenhuma informação sobre seu paradeiro.

O clima de terror e intimidação criado pelo governo acabou levando a um esvaziamento da manifestação, mesmo não havendo um cancelamento formal do protesto.

O governo do MPLA é um dos mais duradouros do mundo. O campeão em permanência no poder é o ditador Kadhafi, há 42 anos mandando na Líbia. O angolano José Eduardo dos Santos está há 32, depois de suceder ao líder da independência de Angola, Agostinho Neto, que morreu de câncer cerca de três anos após o fim do colonialismo.

Angola teve uma independência difícil depois da saída de Portugal. As forças políticas locais se dividiram em três fortes facções que colocaram o país em guerra civil — FNLA, UNITA e MPLA, este último sempre no governo.

O país tem muita riqueza mineral, sendo o segundo maior produtor de petróleo da África subsaariana e grande exportador de diamantes. Em contraste com essas riquezas há uma imensa miséria em todo o país, causada em grande parte pela cleptocracia implantada pelo MPLA.

Uma reportagem recente da revista The Economist traz números sobre a situação angolana. Apenas nove por cento da população de Luanda (cerca de cinco milhões) tem água corrente. E se na capital a situação é tão difícil, dá para como está o resto do país.

Já conversei com gente que trabalhou em Luanda. Na cidade, o estrangeiro é aconselhado a beber somente água mineral. Os índices de saúde também são muito baixos. Metade da população não tem acesso algum a cuidados médicos. O país tem uma das mais elevadas taxas de mortalidade infantil e os únicos exemplos conhecidos de poliomielite urbana.

A burocracia implantada pelo MPLA é paralisante. Com um corpo de funcionários públicos de péssima qualidade, o país pena com uma máquina administrativa eficiente. A The Economist conta que o governo levou dois anos para entregar a documentação completa necessária para um empréstimo do Banco Mundial.

A corrupção também cobra um preço alto na cleptocracia em que a esperança de socialismo do MPLA se tornou. Numa lista de 178 países relacionados pela Transparência Internacional, Angola está como o 11º mais corrupto.

O governo tem um orçamento anual de 45 bilhões de dólares e cerca de 18 milhões de habitantes. O país tem recursos, muitas riquezas, mas a população não recebe os benefícios. Mas para onde vai o dinheiro, além de ir para o bolso da camarilha em torno do chefe do MPLA, José Eduardo dos Santos? Vai também para obras imensas, que a revista inglesa chama de "elefantes brancos" de utilidade duvidosa.

Aguns gastos são tragicômicos. Recentemente foi construído um grande edifício para a Bolsa, mas o país não tem mercado financeiro. Foram também comprados 3000 mil carros, mas o país só tem 1500 motoristas.

Outras grandes obras fazem fortunas no país e fora dele. Como já disse aqui, empreiteiras brasileiras fazem a festa em Angola, o que pode explicar o silêncio do governo brasileiro com a falta de democracia por lá e talvez até o fato da oposição também ficar quieta sobre o que acontece hoje neste país da comunidade da língua portuguesa.
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POR José Pires

Ah, esses exotismos éticos

É interessante observar países de comportamentos exóticos, como o Japão. Ontem o ministro das Relações Exteriores do Japão, Seiji Maehara, renunciou por ter recebido uma doação política ilegal. Não teve justificativa de caixa 2, de que era só uma tapioca, de que todos fazem igual, nada disso. O ministro pegou o boné (que evidentemente não era do MST) e foi embora.

A doação política ilegal, feita por um doador sul-coreano, era de US$ 50 mil ienes, cerca de R$ 976 na moeda brasileira. Uma merreca, como se diz por aqui, e bem menos, muito menos que os 15 mil reais que o sociólogo petista Emir Sader acha tão pouco para os cofres públicos que, para ele, nem deveria haver preocupação quando algum "merdinha" (sic) não fizer a prestação de contas.

E no mensalão, só um dos participantes do esquema, o então presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, recebeu aproximadamente dez milhões e oitocentos mil reais "a título de propina". São números do inquérito da Procuradoria-Geral da República. Em parte, a bufunfa selou o acordo que envolveu o presidente Lula e seu vice, José Alencar, na criação da chapa presidencial petista de 2002. E ambos estavam no local da negociação para autorizar a operação.

Mas isso são costumes locais. E nesses tudo fica por isso mesmo, ou seja, não acontece punição alguma e, em alguns casos ocorre até vantagem. Mas enquanto as coisas vão rolando sem nenhuma consequência séria em termos de ética por aqui, é importante irmos acompanhando costumes exóticos de países como o Japão. Quem sabe um dia a gente não se dê conta que os exóticos na verdade somos nós.
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POR José Pires

domingo, 6 de março de 2011

Dilma Rousseff não quer sair na foto

Nunca pensei que concordasse um dia com a presidente Dilma Rousseff, mas nessa folga durante o carnaval ela tomou uma medida que me parece certa. Ela vai passar uns dias descansando no Rio Grande do Norte, no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno.

Acontece que a presidente proibiu a entrada de celulares na Barreira do Inferno enquanto ela estiver por lá. É linha dura. Todas as pessoas que chegam à área militar são revistadas e o aparelho é recolhido ou tem sua bateria retirada para que não possa ser usado dentro das dependências do centro. Isso é informação que está nos sites e achei estranho essa última determinação. Por que alguém preferiria deixar a bateria e não o celular na mão da segurança? Será medo de roubo? Ou de treta pior?

Mas vamos ao apoio à medida da presidente da República. Eles dizem que fazem isso para impedir que façam alguma foto "roubada" da presidenta Dilma. Bem, mas quem é que pode ir visitar Dilma em lugar tão isolado? Não há como chegar lá nem por terra, nem pelo mar.

Claro que só poderão ir para lá os membros do governo petista, os ministros ou assessores muito próximos. E é nisso que eu apoio Dilma: eu também não confiaria nessa gente.
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POR José Pires

Brasil ignora a luta pela democracia em Angola

A imprensa brasileira sempre teve uma relação distanciada dos países da língua portuguesa. Na recente reforma ortográfica (ou remendo ortográfico, uma melhor definição) deitou-se falação aqui no Brasil sobre a aproximação dessas antes lusitanas que até hoje falam praticamente a mesma língua.

Se estamos longe da antiga matriz colônia, Portugal, mais distanciados ainda ficamos dos países da África que falam o português. O desinteresse pelos recentes acontecimentos muito importantes na política de Angola mostra bem a falta de uma política editorial com sentido mais profundo dos nossos jornais, sites e também das revistas.

A ex-colônia portuguesa vive um descontentamento com o governo de José Eduardo dos Santos, que à frente do MPLA (Movimento para a Libertação de Angola), controla o país há 32 anos. A oposição ao regime angolano convocou para esta segunda-feira, dia 7, uma manifestação pedindo liberdade no país, mo entanto não houve no Brasil nenhuma atenção a um fato tão importante.

Nossos jornalistas não tocam no assunto, mesmo com a manifestação dos angolanos vindo no contexto das revoltas que começaram na Tunísia e avançaram para o Egito e a Líbia, além de países árabes. O que acontece em Angola não serve nem para box em matérias sobre o confronto com o ditador Kadhafi.

O curioso é que também a oposição evita o assunto. Evidentemente não se espera que o governo do PT se envolva de forma alguma na luta dos angolanos por liberdade e democracia. Este governo tem uma relação de amizade com o regime do MPLA, com laços fortalecidos até por um interesse particular por Angola que existe entre alguns petistas. Mas é lamentável que nem a oposição compreenda a importância de revelar e debater o que anda ocorrendo em Angola.

Bem, mas nossa oposição só acorda para certos temas quando enfrenta uma eleição em que entra enfraquecida. Por enquanto, só dá para acompanhar os acontecimento em Angola por meio de jornais como o Público e do blog Página Um. E aqui neste blog, pois, pois...

Enquanto isso, em Angola a ditadura do MPLA pressiona a oposição. Neste sábado o regime organizou uma passeata de apoio a José Eduardo dos Santos. Os organizadores da manifestação chapa-branca anunciaram que milhões iriam às ruas aclamar o regime durante a marcha que eles definiram como "a favor das políticas de paz e desenvolvimento do Presidente". Porém, segundo o jornal português Público, a Rádio Nacional de Angola estimou em meio milhão de pessoas a multidão que integrou a marcha. Foram distribuídos gratuitamente bonés brancos e camisetas.

Já ocorrem confrontos no país entre a oposição e manifestantes favoráveis ao governo do MPLA. Segundo o jornal Público, em Dundo, na Lunda Norte, segundo informação do site Club-K, Club dos Angolanos no Exterior, ocorreram confrontos que provocaram ferimentos em, pelo menos, 28 jovens, cinco dos quais terão ficado em estado grave.

A conversa do regime sobre a reivindicação de democracia pela oposição é a mesma de qualquer ditadura ou de partidos que querem se perpetuar no poder. Durante a marcha chapa-branca, o vice-presidente o vice-presidente do MPLA, Roberto Victor de Almeida, denunciou a existência de forças que procuram travar o desenvolvimento do país e o bem-estar dos cidadãos. "Muita gente quer interromper a nossa caminhada. Querem que paremos o nosso trabalho, o que é inaceitável". Já ouvimos essas conversa por aqui em eleições, não é mesmo?

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POR José Pires

quinta-feira, 3 de março de 2011

Lula, um garoto-propaganda pra lá de caro

Lula falou em ser tanta coisa depois de encerrar o mandato de presidente da República, mas parece que optou por ser garoto-propaganda de empresa da área de eletrônicos ou de qualquer outra que lhe pagar um cachê. Ontem ele trabalhou para uma empresa multinacional, a coreana LG Eletronics do Brasil.

Ele fez uma palestra motivacional para a empresa e até usou o Bolsa Família como um exemplo de como seu governo ajudou a impulsionar os lucros do grupo estrangeiro. Então é por isso que o Bolsa Família não tem porta de saída. É pros bolsistas ficarem assistindo TV da LG.

Apesar do próprio Lula mandar proibir a entrada de qualquer jornalista, o jornal Folha de S. Paulo conseguiu acompanhar o evento. Vejam uma fala dele repassada pelo repórter clandestino: "Quando a gente distribui, as pessoas vão consumir. E vão comprar os produtos da LG logo, logo".

Ele falou também da eletrificação rural como um exemplo de estímulo para o trabalhador do campo comprar os televisores da LG. Fico imaginando os bóias-frias correndo para as lojas para comprar TVs digitais depois que o governo botou um ponto de luz em suas casas.

A palestra de auto-ajuda do Supremo Apedeuta teve muitas gargalhadas da platéia, com o direito inclusive a slogans da LG e a exaltação da empresa, com frases como "A LG apostou no Brasil". Segundo a Folha, Lula citou também materiais publicitários da empresa.

Se fosse apenas pelas palestra já seria uma vergonha nacional um ex-presidente da República fazer um papelão desses, mas o caso é ainda mais grave. É evidente que a LG não conta com Lula para vender televisão para pobre. Seus interesses estão muito acima disso. A empresa atua em um setor onde o governo tem um peso decisivo, por meio de regulações e também de incentivos fiscais e também está apta a participar de licitações milionáras de grandes obras no Brasil.

Lula precisava voltar à ativa e arrumar alguém para pagar R$ 200 mil por uma palestra, a quantia que ele diz ter recebido. Até que ficou ficou barato para a LG, apesar de um a quantia dessas ser apenas simbólica.

O preço faz parte da sua ciumeira com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma zanga em que pesa inclusive as duas derrotas para presidente que ele sofreu no primeiro turno. É uma disputa de prestígio com o tucano. Como soube que ele recebe 100 mil por palestra resolveu cobrar 200. E a megalomania ainda o levou a espalhar para a imprensa que recebe por palestra a mesmo preço cobrado pelo ex-presidente Bill Clinton. Mesmo vindo do Lula é besteira demais.

É evidente também que Lula sabe que ninguém está pagando por seus dotes oratórios, porque se fosse assim todo mundo optaria por FHC. O petista ainda é poder, bastante poder. Ao menos enquanto não brigar com sua sucessora, o que é muito comum conforme mostra a História em vários paises e diversas épocas.

Mas enquanto isso não ocorrer, a carreira de garoto-propaganda do Lula sairá bem cara, muito além, mas bem além mesmo dos 200 mil que embolsa. E o pior é que nós é que pagaremos esses excedentes de seu cachê.
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POR José Pires

Perdendo uma boquinha por causa da boca

O compositor Tom Jobim era um cara muito engraçado. Ótimo papo, frasista dos bons, trocadilhista insuperável, enfim ele era uma pessoa que estava sempre com uma tirada boa. Ao ler uma biografia dele, além de se encantar com esta belíssima figura humana o leitor ri o tempo todo.

Ele contava uma história absurda sobre uma vez que foi convidado para uma festa em sua homenagem feita por uma granfina. Num determinado momento, quando apreciava uma coleção de armas junto com a dona de casa, pegou um rifle da parede para verificar a mira. A arma estava com munição e disparou matando um dos convidados. O sujeito caiu de costas no salão, com o smoking todo emppado de sangue.

De imediato, Tom virou para a anfitriã com uma mão nos lábios e comentou: "que gafe!"

Lembrei dessa história por causa desse imbróglio que fez o o sociólogo Emir Sader perder a boca na Fundação Casa de Rui Barbosa antes mesmo de ser nomeado. Como já disse aqui, nunca neste país alguém levou um pontapé na bunda com tamanha rapidez.

Mas tem a gafe. Ora, Sader xingou a irmã do Chico Buarque. Que gafe, hein? Foi encrencar logo com a irmã do Chico. 2011 ainda está no começo, mas já é a gafe do ano.

Mas feita a bobagem, é claro que, como um bom petista, o sociólogo não quer arcar com sua respónsabilidade. Agora ele culpa a direita pela sua queda mais que ligeira do cargo.

Mas que direita é essa de olho na presidência da Fundação da Casa de Rui Barbosa? Bem, aí temos a lógica petista para encarar debates. Se a Dilma Rousseff não tivesse ganhado a eleição, certamente eles estariam berrando que foi a direita que não deixou. Porém, alcançaram novamente o poder apoiados pelo que há de pior na política brasileira. Ganharam o poder juntando em torno da candidata do PT tudo quanto é cacique político safado e sua capangaiada pelo Brasil afora, inclusive a direita mais grossa que reina acima das leis nos grotões da política brasileira.

Não há nenhuma novidade nisso. É o que Lula vem fazendo desde a conquista do primeiro mandato. Mas aí eles não vêm com esse papo de culpar a direita. O Sarney que está do lado deles, com o poder inclusive sobre a área da energia, uma das mais estratégicas da atualidade, é outro homem. Não é aquela Sarney de antigamente.

Além do mais, é gente do mesmo tipo de Sader que vai ocupar a Casa de Rui Barbosa. O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos já foi confirmado no cargo. Santos tem feito um serviço bom para o PT nos últimos anos, daquela forma matreira de opinar sobre a política brasileira em artigos nos jornais como se fosse uma voz independente. Normalmente eles se identificam como professor da USP ou qualquer outra universidade de prestígio. Apoiados numa dessas siglas independentes e respeitáveis eles mandam o recado partidário como se fosse uma contribuição acadêmica ao debate político.

Santos tem um trabalho mais bem feito, o que não significa exatamente uma boa coisa, pois pode enganar melhor o leitor. Também não fuzila (ou "fusila", como escreve Sader) a pobre língua portuguesa como costuma fazer o colega defenestrado do cargo que agora vai ocupar, mas faz o serviço político escamoteado pela imagem do acadêmico, do mesmo jeito que tem feito Emir Sader e tantos outros intelectuais a serviço do lulismo. São os intelectuáulicos — opa, o Tom iria gostar dessa, mas hoje, como dá para ver pelo título da nota, estou infernal. Mas, voltando ao que eu dizia, com esses intelectuáulicos nossa universidade pública vai se desmoralizando política e intelectualmente falando, mas quem é que se importa, não é mesmo? Enquanto tem o poder, eles acham que está tudo certo.

Mas, voltando à gafe do Emir Sader, seu ataque à ministra da Cultura, Ana de Hollanda, obedece à lógica do escorpião que ferroa as costas do sapo no meio do profundo rio. Nós estamos acostumados com este tipo de desqualificação vindo de petistas quando eles são contrariados. É sempre assim.

A coisa é tão grave que Sader partiu para a desqualificação sem atinar que a irmã do Chico seria sua chefe (ou chefa, como eles gostam agora). E ele ainda disse que a autista era ela. Que gafe, hein? Mas fica a lição política, ainda que involuntária, do mestre em política Emir Sader.
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POR José Pires

quarta-feira, 2 de março de 2011

Uma lição do mestre Emir Sader

Emir Sader sempre quis fazer história e não é que acabou fazendo mesmo? Ele entra para a nossa história política por ter levado o pé na bunda mais rápido que já se viu na história deste país. Sequer experimentou a cadeira de presidente da Fundação Casa Rui Barbosa. Nem teve a nomeação publicada no Diário Oficial. Foi defenestrado antes da nomeação.

Porém, Sader, que é um mestre da política, acabou trazendo uma valiosa lição política para os companheiros petistas: para conservar a boquinha não se deve chamar o chefe (ou a chefa) de autista.
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POR José Pires

Lula em brochuras

Com o fim do segundo mandato de Lula, várias pessoas estão interessadas em escrever sobre ele e seu longo governo, que perdura no governo de Dilma Rousseff. Denise Paraná, a autora de “Lula, o Filho do Brasil”, título que acabou ficando mais lembrado pelo fiasco do longa-metragem, que fazer um novo livro. E André Singer, Francisco de Oliveira e Kennedy Alencar também afirmam que escreverão sobre o lulismo.

Até Fernando Morais arriscou o desejo de fazer uma biografia do Lula, mas esse a gente não conta, porque seu histórico de livro sobre liderança petista empacou naquele que estava fazendo sobre o deputado cassado José Dirceu. Ia ser o livro mais bombástico das paradas, nitroglicerina pura, mas aconteceu de roubarem um computador onde estava armazenado todo o texto. Que peninha, não? Mas é a versão passada por Morais, que pelo jeito não faz nenhuma cópia do que escreve.

O livro de Keneddy Alencar ainda está em andamento. Francisco de Oliveira pretende fazer uma análise sociológica sobre a figura. E André Singer também irá por uma linha parecida, mas evidentemente com uma visão oposta a de Oliveira. Pela conversa de Singer sobre o que pretende, já dá para ver que sua obra será chapa-branca.

Já a Denise Paraná vai além da chapa-branca. Ela puxa tanto o saco do ex-presidente que é capaz até dele próprio não acreditar no exagero. Para ela, Lula substituiu Pelé como principal referência a respeito do país. “Muita gente que antes nem sabia onde fica o Brasil agora fala do país através da figura do Lula. É como se ele tivesse posto o Brasil no mapa-múndi”, ela disse ao jornal Valor Econômico. Devia estar babando no momento, mas a matéria não diz nada sobre isso. Dá para prever o livro que vai sair, só não dá para imaginar quem é que vai querer ler um troço desses.

Francisco Oliveira talvez faça algo bem formulado sobre Lula, afinal, durante muitos anos ele teve o ponto de vista em equilíbrio com o interesse do lulismo. Conhece a coisa por dentro e, também por isso, hoje é um dos melhores críticos do sistema que ajudou a implantar.

É dele uma das melhores teorias sobre o sistema de governo implantado por Lula e a companheirada, depois de darem uma banana para o eleitor assim que subiram ao poder. Oliveira pegou emprestada do iugoslavo Milovan Djilas a idéia de uma nova classe se locupletando no poder, depois de levada ao governo pelas esperanças da população.

Djilas escreveu sobre esta nova classe no início da década de 50, numa crítica à burocracia comunista. Abria-se ali uma dissidência forte com o sistema comunista, ele que foi uma alta figura do regime liderado por Tito na antiga Iugoslávia. Chegou a ser vice-presidente.

Oliveira transferiu para cá o conceito de Djilas para explicar a camarilha petista dispondo de privilégios concedidos pelo Estado no governo Lula. O sociólogo brasileiro vê na elite sindical que subiu ao poder com Lula traços daquela nomenklatura criticada por Djilas.

Tem lá sua semelhança. O dissidente iugoslavo falou da nomenklatura comunista no livro A Nova Classe, publicado inclusive no Brasil. A edição que tenho em mãos é de 1958, da editora Agir. Faz tempo, muito tempo. Também lá se vão anos da derrocada do comunismo, simbolizada pela queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989. Mas o discurso socialista ainda é uma ferramenta de bom uso para alcançar o poder.

Oliveira tem uma visão lúcida sobre o que está se passando no Brasil dominado pela figura de Lula. Para ele, a popularidade do ex-presidente foi construída sobre uma pobreza que, longe de ser natural, é uma opção das classes dominantes, a opção pelo atraso, como ele diz.

Lula seria então a culminância desse processo. Nisso concordo com ele. Lula foi o golpe perfeito das forças econômicas que sempre dominaram o Brasil. Quem melhor que ele manteve o país atrelado ao interesse de banqueiros, grandes empresários e de uma classe política corrupta e subserviente aos que tem dinheiro?

Lula foi uma figura tão eficiente para isso que ficou difícil até a formação de uma oposição ao seu governo, já que as forças que teriam de compor esta oposição sempre representaram de outras formas os mesmos interesses que o petista contemplou tão bem.

O livro de Oliveira parece que será bom. Ao menos pelo que ele tem falado aos jornais. Segundo ele, temos aí uma felicidade do consumo barato, o que mantém a euforia e a ilusão que dá a falsa sustança, e aí já sou eu falando, aos discursos dos apologistas Singer e Denise Paraná.

A base do livro de Singer é sua tese de livre-docência na universidade Estadual de São Paulo (USP). Seu papo é o da inclusão social, dos efeitos benéficos do Bolsa Família, uma conversa já bem conhecida e que duvido que desperte o interesse fora da militância partidária.


O dia em que a Folha deu para
Lula o cargo mais alto da ONU

Outro livro que tenho curiosidade de ler é o de Kennedy Alencar, que é jornalista da Folha de S. Paulo. Alencar não é chapa-branca oficial, mas ultimamente andou escrevendo coisas que agradaram e muito ao governo de Lula. Aliás, num passado recente o jornalista foi assessor de imprensa do PT.

No ano passado, durante a eleição para presidente, os blogs petistas faziam a festa com os textos de Alencar. É que o jornalista facilitava bastante para os lados de Lula. Um de seus feitos mais notáveis virou até chamada de capa, uma inacreditável manchete da Folha em maio, que está na imagem acima.

Pelo texto escrito por Alencar, após o final de seu governo Lula poderia escolher entre ser secretário-geral da ONU ou presidente do Banco Mundial, se quisesse pegar um cargo de visibilidade internacional. Quando o texto saiu com uma — repito — inacreditável manchete, já se sabia de dificuldades técnicas para que Lula ocupasse um cargo desses, mas a chamada foi para a capa sem discutir nenhum desses impedimentos.

Apenas levantaram a bola para pouco mais de um mês depois o próprio Lula descartar ser secretário-geral da ONU, cargo que ele jamais teve chance alguma de ocupar.

Só na cabeça do Kennedy Alencar, é claro. Não sei se o jornalista da Folha, que agora vai escrever um livro sobre o Lula, combinou a publicação do texto sobre a secretaria-geral da ONU com o pessoal de propaganda em torno de Lula e da sua candidata, que já andava de braços dados com ele pelo país, mas também nem precisava, não é mesmo?

A verdade é que num período pré-eleitoral, quando tinha como meta das mais preciosas passar aos eleitores uma imagem de força política, nem o mais bem pago marqueteiro conseguiria criar para Lula algo com o efeito da manchete da Folha.


Mas não teve jeito da coisa colar. Além dos blogs petistas, que acatam sem discussão qualquer louvor ao Supremo Apedeuta, o único entusiasmo com a chance de Lula pegar esse cargo na ONU veio do presidente Evo Morales, da Bolívia.

Barriga é um termo usado quando o jornal publica matéria falsa ou errada, mas não dá para dizer que a Folha cometeu uma barriga. Isso só ocorre quando o jornal comete o desatino sem querer.

Mas o fato é que o debate ficou ainda mais ultrapassado depois da desgraça de um dos grandes amigos — além de irmão e líder — do Lula, o ditador Muammar Kadhafi. Acho que ninguém na Folha deve pensar num secretário-geral da ONU com um amigo e irmão desses.


Mas ainda bem que o Kennedy Alencar ainda está no processo de escrita do livro sobre o ex-presidente. Pegaria muito mal se ele tivesse publicado a obra lá atrás, com a menção entusiasmada sobre o Lula no cargo de secretário-geral da ONU. O pessoal da editora iria ter um trabalhão danado para arrancar essas páginas.
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POR José Pires


Os EUA já enviam navios com fuzileiros para acossar o ditador da Líbia. E Lula, quando vai embarcar para ajudar o amigo e irmão Kadhafi?

terça-feira, 1 de março de 2011

José Dirceu e seu velho espeto de pau

Que José Dirceu é cara de pau todo mundo sabe. O deputado cassado e ex-ministro de Lula é osso duro de roer mesmo numa área como a política onde óleo de peroba não é usado em móveis. É para a maquiagem.

Num seminário de economistas em São Paulo ele disse que "sem gestores altamente qualificados o país terá problemas para ser governado". Bem, que Dirceu seja levado à sério hoje em dia mesmo depois de tudo o que aprontou, é um sintoma da queda moral do país, queda que contou com um belo empurrão do governo que ele ajudou a montar e do qual participou publicamente por um breve período, até ser obrigado a pedir demissão com o escândalo do mensalão, a compra de votos de deputados feita pelo governo.

Mas fiquemos na grande dica desse político que a Procuradoria Geral da República define no inquérito do mensalão como "chefe de quadrilha": ele diz que não podem faltar "gestores altamente qualificados", senão o país terá problemas para ser governado.

Coisas assim deixam a gente em dúvida se ligamos a máquina de risadas ou a de espanto. Pode ser o caso de ligar as duas juntas. Eu imagino que só por uma sacada dessas já deve ter valido a pena assistir a palestra dessa sumidade em gestão. Mas, também, um grupo de economistas que aceita receber lições de alguém como o ex-capitão do Lula está mesmo querendo um espeto de pau num churrasco de ferreiros.

Dirceu fala da falta de gestores e não é uma autocrítica pela equipe de segunda categoria apresentada pela presidente eleita pelo seu partido, o PT. Tampouco é uma confissão de culpa pelo estado em que está o Brasil, onde faltam não só "gestores altamente qualificados". Faltam profissionais de todo o tipo em áreas essenciais. São constantes as notícias da falta de trabalhadores, qualificados ou não, nos mais diversos setores.

É claro que a revelação desse tipo de carência nunca vem pelo governo, que age só pela propaganda e prega um otimismo inconsequente quando deveria se pautar por um realismo bastante crítico até porque, além do Brasil estar bastante atrasado em muita coisa importante, hoje temos também problemas planetários graves que exige uma postura mais equilibrada de qualquer governante.

As informações vêm sempre pela imprensa e em todos os casos especialistas fazem diagnósticos altamente preocupantes sobre a falta de gente em setores fundamentais como a Educação, a Aviação Civil e também na área de tecnologia de informação, só para citar três casos de carência de mão de obra que puxam o país para trás. Mesmo em coisas propagandeadas pelo governo como a salvação da Pátria, como é o caso do Pré-Sal, as projeções futuras sempre batem em problemas graves de mão de obra qualificada e de infraestrutura.

O apagão de mão de obra especializada é geral, mas hoje em dia é difícil encontrar até profissionais de menor qualificação, como um trabalhador para consertar um muro, fazer uma calçada, consertar um encanamento ou para qualquer outro serviço residencial. Qualificado mesmo, não está fácil encontrar nem jornalista.

Na ponta do problema e como causa determinante desse apagão está a falta de bons gestores públicos, sejam os eleitos pelo voto ou mesmo o corpo técnico de funcionários que entram no serviço público por concurso.

A culpa desse desastre é do governo no qual José Dirceu foi servidor de primeira hora, primeiro publicamente e agora atuando nos bastidores da política. O próprio Dirceu não é exatamente uma pessoa qualificada para falar de gestão. A Casa Civil tem como atribuição a assistência e assessoramento direto e imediato ao Presidente da República no desempenho de suas atribuições, em especial nos assuntos relacionados com a coordenação e na integração das ações do Governo. É o que está descrito no próprio site do Governo Federal.

Em teoria pelo menos a Casa Civil é essencial para a gestão. Mas, ao contrário disso, enquanto esteve à frente do órgão federal, Dirceu só fez política e nem isso fez direito porque a razão de sua cassação por falta de decoro e da sua queda do ministério foi exatamente sua incompetência de gestão política. O trabalho de Dirceu foi tão ruim que, no final, Lula só não caiu porque a oposição também teve uma gestão incompetente.

Enquanto montava a quadrilha com vistas a perpetuar no poder o PT, conforme diz a Procuradoria Geral, Dirceu não levou o presidente a zelar pela infraestrutura, pela construção de um futuro bem planejado aonde chegássemos bem capacitados. Nada de gestão. Quer dizer, procurava garantir votos no Congresso, mas da gestão mesmo cuidava bem pouco, quase nada. Tudo quanto era projeto que chegava ao seu ministério lá ficava empacado.

Com este estilo, a Casa Civil seguiu para um destino que acabou dando na Dilma Rousseff e sua incapacidade ranzinza e na amiga do peito Erenice. Aos atropelos, o governo foi conduzindo a administração pública de forma marqueteira e aberta às obras contempladoras do interesse de banqueiros e de grandes empreiteiros, visando mais a ampliação de caixas particulares (inclusive o 2) do que a função desses empreendimentos na qualidade de vida da população.


O mau exemplo que veio de cima
No entremeio disso, o então presidente Lula foi atropelando regras morais básicas e até mesmo jurídicas, desfazendo do respeito ao meio ambiente e do planejamento, num discurso onde a ética e o respeito ao bem comum eram menosprezados, inclusive com ironias pesadas que desrespeitavam o saber técnico e as diferenças políticas.

Até regras já bem definidas foram desfeitas por Lula, como no caso da telefonia, quando um decreto do presidente facilitou uma negociação entre duas grandes empresas que acabou criando um grande monopólio no setor, um ato onde se suspeita até de favorecimento de sua família com um ganho de milhões de reais.

Outro grande problema é que esta afoiteza de Lula, seu respeito por regras simples de administração e o descaso por qualquer tipo de regulação, até de órgãos mais básicos, como o TCU, toda essa retórica de desrespeito acabou se espalhando pelo país afora. A administração pública no Brasil acabou sendo contaminada de cima pra baixo pelo discurso maroto que pregava o atropelo às leis e taxava como estorvo à governabilidade o controle de gastos e as exigências legais.

Da Presidência da República saiu o grito de liberou geral para o prefeitinho ladrão do interior, o vereador patife, as ONGs e para os governadores, deputados e, claro, também para os nossos senadores. Isso sem falar nos ministros, esses, é claro, bem-vindos mesmo quando são flagrados usando dinheiro público para pagar motel. Ou para comprar tapioca.

É claro que não é nada bom o estado atual da gestão em qualquer área no Brasil, inclusive na iniciativa privada, hoje com dependência excessiva do Estado, como bem sabe o lobista Dirceu. E o futuro é pior. E ninguém precisa de nenhum petista para vir falar desse assunto, muito menos um dirigente como Dirceu, totalmente envolvido nos mecanismos que levaram a esse caminho que parece seguir para o colapso.

Vivemos num país com problemas graves de infraestrutura, onde nem avião decola mais no horário certo e onde tampouco existe a certeza de que teremos pilotos para os próximos vôos. A infraestrutura em vários setores beira o desastre. E não sairemos dessa situação de forma alguma enquanto gente como José Dirceu for levada a sério.
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POR José Pires