segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Debate entre Lula e Bolsonaro: o partido que sempre bateu com impunidade, agora também leva

Já se nota em certos sites e nas redes sociais um esforço para amenizar o baque sofrido por Lula no debate com Jair Bolsonaro na TV Bandeirantes, no entanto o que se viu, na verdade, foi um passeio bem controlado por Bolsonaro e um embate angustiante para Lula, que nervosamente chegou até a descuidar da administração do próprio tempo de fala, presenteando o adversário num trecho do debate com largo tempo para que este fizesse praticamente uma live com uma série de acusações aos governos petistas em que Lula mandava.


Mais uma vez cai por terra o mito que criava a falsa imagem de um Lula de alta capacidade discursiva, bom de debate e dotado de um carisma imbatível. Lula forjou esta imagem falsa nos confrontos, ano após ano, com adversários de princípios democráticos e adeptos da discussão de divergências em um nível de respeito pessoal. Bons tempos aqueles, para Lula: ele batia e não levava de volta. Agora com a direita não é assim, muito menos com Bolsonaro. Como foi possível ver em debate anterior, Lula treme e fica nervoso até com figuras de menor destaque político, como aconteceu na sua desestabilização psicológica durante discussão há três semanas com o chamado padre Kelmon.


Tem um lado divertido assistir ao chefão do PT perder o rebolado na frente de um dos políticos mais grosseiros que este país já teve que suportar, depois dele ter batido com crueldade em figuras mais elegantes e respeitosas, como fez muitas vezes com José Serra e Marina Silva, ou mesmo com Geraldo Alckmin, que antes de formar com o PT para “a volta à cena do crime” era tratado com cassetadas em disputas do passado — entre outros xingamentos, ele era chamado de “assassino de Pinheirinho” pela companheirada de Lula.


Os tucanos tiveram seu partido destruído depois de décadas tratando o PT com elegância. Isso faz lembrar o poeta francês Arthur Rimbaud, no desalento da sua famosa frase: “Por delicadeza, perdi a minha vida”. Os tucanos perderam tudo para Lula, que ainda tem ao seu lado no palanque o traidor da sigla, Geraldo Alckmin, berrando “Volta, Lula!”. Já a direita não tem tempo para a poesia, menos ainda para a delicadeza. Lula sabe disso. Nota-se seu desconforto no palco, quando ele encontra um oponente com uma visão diferente da antiga reverência dos tucanos à lenda fraudulenta criada por seu partido do líder popular apegado a valores democráticos.


Quem quiser aceitar este Lula de propaganda, que corra o risco, mas depois não justifique este grave erro com a desculpa de ter sido enganado. Terá depois de suportar no poder um partido que não consegue sequer se desligar de ditadores assassinos como Fidel Castro, Nícolas Maduro e Daniel Ortega, do qual Lula tem uma nostalgia sentimental, do tempo em que ambos festejavam a revolução que implantou uma ditadura sanguinária e corrupta na Nicarágua. Até hoje Lula apoia Ortega.


Lula tem sido claro sobre o que pretende fazer se for eleito. No debate da noite deste domingo destacam-se posicionamentos seus que na hipótese de sua eleição devem envolver o Brasil em graves confusões, talvez impondo medidas que complicarão bastante nosso futuro. Um de seus planos é o de estabelecer a estranha regra de que a investigação firme sobre a corrupção, com a devida punição de culpados, coloca em risco as empresas brasileiras, prejudicando inclusive a criação de tecnologia nacional da parte de estatais e empreiteiras que atuam em obras públicas. Em vez da limpeza, anula-se a possibilidade de uma Lava Jato.


Provavelmente, o candidato petista deve ter bolado esta técnica de administração pública quando esteve preso por corrupção. Foi na prisão que Antonio Gramsci criou a teoria da hegemonia, com a substituição da violência revolucionária pela construção de um consenso cultural gradativo em relação à ideologia comunista. Lula vem com a ideia de que não se deve combater a corrupção — na sua visão, ao invés do roubo aos cofres públicos, o que que prejudica o país é a dos ladrões.


No debate de ontem, o candidato petista veio inclusive com uma novidade ideológica que aponta para mais conflitos que podem causar graves confusões futuras, complicando a vida brasileira com conflitos inoportunos e de pouca efetividade. É uma daquelas brigas políticas que ocorrem por décadas, dividindo os brasileiros e causando apenas dissabores ao país. O petista anunciou a criação de um “Ministério Indígena”, chefiado, segundo ele, por um índio. Isso é nada mais que uma ideologia étnica firmando-se no Estado brasileiro. Os identitários não tem limites. A proposta de Lula é muito parecida com certas questões trazidas pela esquerda chilena na nova Constituição, rechaçadas por mais de 60 % de votos recentemente naquele país.


Um dos pontos controvertidos da nova Constituição fragmentava a nação chilena, trazendo a ideia de um “Estado plurinacional”, inclusive com o estabelecimento de "tribunais indígenas”. Lula ainda não chegou a este ponto. Mas a inclusão desta ideia identitária no Estado brasileiro é um primeiro passo que, se for dado, como os brasileiros sabem bem, poderá depois avançar sobre limites até do bom senso.


No debate da TV Bandeirantes, o que se discutiu foi a corrupção nos governos do PT e a irresponsabilidade de Bolsonaro como governante durante a pandemia. Não tenho dúvida sobre os crimes de responsabilidade praticados por Bolsonaro neste período dramático, no entanto críticas neste aspecto ficam difíceis para Lula, porque o PT e ele próprio não aceitaram os apelos da tomada das ruas para a criação de uma pressão popular para o impeachment do presidente. Lula optou pela manutenção de Bolsonaro, que tinha como um adversário fácil nesta eleição.


A estratégia lembra bastante a idiotice do PSDB de Fernando Henrique Cardoso durante o envolvimento do PT no mensalão, quando os tucanos optaram por deixar Lula “sangrar” para ser derrotado mais facilmente na tentativa da reeleição. Bem, não precisa dizer quem foi que de fato sangrou. A receita também desandou quando foi Lula que revelou-se como uma contraposição que beneficia Bolsonaro. Sua presença normaliza até os piores defeitos do presidente.


O clima de conturbação da campanha do PT demonstra que Bolsonaro não é tão fácil assim de derrotar. A agressividade não é comum em um candidato que chegou na frente. E o agravante é que as técnicas do bolsonarismo repletas de maldade e falsidade acabam sendo normalizadas pela estratégia petista de um segundo turno de ataques que não dispensam mentiras e manipulações.


O impeachment teria sido uma solução democrática que evitaria problemas que agora enfrentamos, abrindo a possibilidade da organização de um quadro eleitoral favorável à ampliação da qualidade política no Legislativo. Lula e seu partido, no entanto, boicotaram todos os esforços nesse sentido. O que tivemos então foi uma eleição com um amplo crescimento da direita, que a partir do ano que vem terá um domínio no Congresso Nacional. Sobreveio igualmente um extraordinário fenômeno de massas que deu sustentação a Bolsonaro em um segundo turno, com um estímulo no ânimo de seus seguidores, mais entusiasmados ainda para a sua reeleição.


E a esquerda viu-se numa condição de descompasso com os eleitores, numa dificuldade evidente de se comunicar com naturalidade com grande parte dos brasileiros. Em razão de exageros identitários, até sobre questões religiosas impõe-se uma posição defensiva, do mesmo modo que acontece com valores morais e de comportamento. É bobagem tentar deixar de ver que existe atualmente uma tendência natural de amplas massas pela via do conservadorismo ou mesmo da direita mais reacionária. Este é um processo espontâneo (e não estou tratando aqui da baixa qualidade política e cultural disso), enquanto a esquerda é obrigada a fazer propaganda pesada para seduzir os eleitores, apelando inclusive ao marketing da manipulação e da fabricação de mentiras, espalhada até pelos cantos mais obscuros da internet.


Não é possível ver na estratégia de campanha de Lula um compromisso sério com o futuro do seu próprio projeto político, que do jeito que está é apenas projeto de poder. Não estabelece uma interação com a sociedade. Se Lula for eleito, sua estratégia de vale tudo abraçada nesta campanha projeta um clima de confusão e desgoverno difícil de administrar a partir do ano que vem. Não existem propostas bem fundamentadas, nenhuma política pública para enfrentar problemas graves, sobre questões muito preocupantes da atualidade, nem mesmo para situações que beiram o colapso, como acontece com meio ambiente. As alianças são obviamente de mera partilha do governo. Haja cargos para tanta gente.


Se houver a eleição de Lula, esta vitória carregará a marca da disseminação de fake news, ataques ao adversário com informações manipuladas e tiradas do contexto. Ganha-se por propostas e melhor visão do que pode ser feito pelo Brasil? Não, ganha-se porque o adversário é canibal e pedófilo.


O enlameamento da esquerda é tão desgastante que Lula conseguiu a proeza de permitir a Bolsonaro fazer-se de vítima em dois casos que serão tratados como emblemáticos na política brasileira. No jargão ridículo do próprio petista, nunca antes neste país se viu baixaria igual. Vai servir como objeto de estudo das eleições brasileiras, entre as maiores armações em campanhas eleitorais no Brasil: a acusação de canibalismo e a tentativa de envolver Bolsonaro com a pedofilia. Ao futuro estudo servirá como prova da indução marqueteira o uso por Lula durante o debate de um broche no paletó com o símbolo da campanha de combate à exploração sexual de crianças.


A jogada politiqueira da pedofilia é tão absurda que o ministro Alexandre de Moraes rapidamente mandou tirar do ar, ainda sem equilibrar o alto número de vitórias da campanha do PT junto ao TSE, mas pelo menos fazendo justiça neste caso. O problema é que Moraes não tem poder para tirar o assunto da cabeça das pessoas. A manipulação espalha-se pelas redes sociais, causando brigas terríveis em grupos de WhatsApp. O ministro tampouco poderá evitar o revide da direita, que certamente virá ainda nesta eleição, muito menos a interminável guerra a partir do ano que vem.


A esquerda enveredou por um rumo que nada tem a ver com o que se espera desse lado da política. Estou falando de qualidades apenas supostas, isso é que é a verdade. Mas de qualquer modo são características sem as quais não é possível estabelecer diferenças, mesmo que seja apenas no terreno da linguagem, que no caso já está lançada na sarjeta. Tudo bem, ninguém vai discordar que o bolsonarismo joga bruto em política, porém a manipulação e a mentira não traz vantagens para a esquerda da forma natural que ocorre para a direita.


E nem cabe vir com a velha conversa do fim que justifica os meios. Aí então teríamos que situar apenas a vitória eleitoral como justificativa dos meios usados para tanto. Eu não tenho dúvida alguma de que política feita dessa forma não abre espaço de jeito nenhum para a governabilidade e a proposição de maior qualidade para a vida dos brasileiros.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022


 


 

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Bolsonaro, Lula e o fascismo como uma palavrinha a mais na política brasileira

Com cinco dias de horário eleitoral neste segundo turno, até agora o que se viu nos programas é um candidato que parece desesperado para ganhar votos e outro que administra o tempo de rádio e televisão com mais tranquilidade, trabalhando para marcar uma imagem de equilíbrio. Bem, tudo estaria normal, se o primeiro candidato de que estou falando fosse Jair Bolsonaro e o outro fosse Lula, afinal o petista entrou nesta fase final da eleição à frente de Bolsonaro, de modo que o marketing deveria trabalhar para firmar essa votação com razoável temperança, palavra que anda desaparecida da gramática e da vida brasileira.


Quem está na frente numa eleição tem que obrigatoriamente usar de moderação na comunicação. Como não é incomum que ataques sejam mal interpretados pelo eleitor e os tiros reverterem para o próprio pé de quem puxou o gatilho, o político que está na frente tem mais a perder do que ganhar em um ambiente de conflito. Como suposto favorito, o candidato do PT deveria estar explorando suas qualidades de modo institucional, em vez de partir para o ataque.


Mas é exatamente um clima de briga que Lula está buscando nos programas do horário eleitoral. Não parece preocupado com as pessoas se matando por política, como costuma dizer em discursos. Ataques pesados a Bolsonaro já começaram no primeiro programa e seguem até agora, quando o petista trouxe a impressionante acusação de que o adversário é um canibal. A criação petista lembra os ataques desleais do PT quando Marina Silva estava para ir ao segundo turno, em 2014.


Na época, Marina foi até acusada de planejar acabar com o pré-sal. O PT acabou com a então candidata, aniquilou a chance do país ter um grande partido como uma via ecológica à esquerda. A condição ambiental terrível de agora em todo o mundo permite uma avaliação retrospectiva do tanto que foi destruído pelo PT há cerca de duas décadas em termos de política de desenvolvimento. Espero que durante a luta em defesa da democracia tirem um tempinho para defender também o meio ambiente.


Mas o que é que Marina Silva tem a ver com Bolsonaro, em matéria de embate eleitoral? Afinal, Bolsonaro é do mal e ela é tão boazinha, não? Puxei de propósito a ex-companheira que voltou aos braços de Lula, porque em razão do comportamento asqueroso de Bolsonaro e de suas maldades, criou-se uma flexibilização da ética que pode fixar a noção falsa de que a imoralidade é relativa ao uso que se faz dela. O PT cresceu fazendo uso da aceitação de golpes baixos quando isso lhe convém, até que seu relativismo hipócrita resultou numa monstruosidade à direita.


A única prova de que Bolsonaro é um canibal pode ser colhida apenas como metáfora, na deglutição dos métodos petistas para adquirir força política e ganhar a eleição para presidente em 2018. O bolsonarismo é antropofagia total, devorando o legado do PT. Agora, ainda há pouco, houve outra canibalização do que os petistas costumam fazer no poder, com o uso eleitoral por Bolsonaro do Auxílio Brasil, que só foi possível porque em quatro mandatos com Lula mandando no governo federal, o PT não implantou nenhuma assistência social na forma de política pública. É sempre como se fosse uma esmola, deixando os mais pobres na condição de massa de manobra. E Bolsonaro gostou da coisa.


É a velha história do bico entortado pelo uso do cachimbo, que tem também o hábito irremovível do “nós contra eles”. Cabe lembrar que isso vem muito lá de trás, logo que começou a abertura democrática no final dos anos 70, que já nasceu com os petistas tratando o lado democrático com mais ferocidade até do que usavam contra os setores mais conservadores. Seus dirigentes sabiam que era desta via progressista que podia-se sugar a força da construção de seu partido.


Tancredo Neves, Franco Montoro, Mário Covas e até mesmo Leonel Brizola, os petistas tratavam mal qualquer um do setor democrático, nos primeiros anos muito difíceis da passagem da ditadura militar para o poder civil. Lula chegou a ser vaiado no enterro de Brizola, de tanto que havia destratado o político gaúcho. Nem Itamar Franco recebeu o apoio do PT no seu corajoso governo de transição, em um período em que setores extremistas entre os militares ainda cobiçavam uma volta ao poder.


Até existe quem minimize as más intenções de Bolsonaro, o que não é o meu caso. Porém, a sua derrota feita desse modo vai com certeza turbinar um ambiente de cultura política de direita que já está estabelecido, em grande parte por responsabilidade de uma esquerda identitária, racialista e de um feminismo partidário e radical, nascida de táticas eleitorais do PT.


Ora, passados quatro mandatos consecutivos petistas, além do PT ter sido governo em vários estados e cidades grandes, o partido de Lula não consegue levar à frente uma campanha sustentada pela exposição de qualidades administrativas e políticas. Lula não tem um partido, mas um paradoxo: o pessoal que propagandeia seus valores políticos precisa apelar, tentando colar no opositor a pecha de canibal. Mais, ainda: os revolucionários da distribuição de renda e do desenvolvimentismo precisam do aval dos economistas tucanos, liberais que viraram banqueiros. Não dá para ter dúvida de que isso vai pesar bastante na hora do eleitor ter que escolher o menos pior.


O partido de Lula faz essas maldades durante disputas eleitorais e depois, perdendo ou ganhando a eleição, acabam ficando sem o controle das consequências sociais. Ganhar de Bolsonaro com fake news de canibalismo vai facilitar para a direita extrair ainda mais força, logo adiante, solidificando o apoio de pelo menos metade da população do país. Imaginem o que se pode fazer politicamente com essa multidão que guarda com fervor a camiseta verde-amarela e a bandeira, para sair às ruas quando é chamada. Mas é assim mesmo: quem chama o adversário de canibal, dificilmente tem noção dos riscos políticos de um vale tudo eleitoral. Ou não está nem aí para as consequências de ganhar a qualquer preço.


É o que vem acontecendo nesta manipulação da linguagem, entre tantas definições que servem apenas como insulto, como no exemplo desta irresponsável conversa de “fascista”, algo que Bolsonaro nunca teve como ideário, além de não ter personalidade firme o suficiente para liderar um movimento com tamanha responsabilidade ideológica. O que o PT vem conseguindo impor, no entanto, é a naturalização desse termo, fora do contexto e sem que população tenha noção do terror que historicamente foi o fascismo. Desse desconhecimento até o “por que não fascismo?” pode ser um pequeno passo.


A direita brasileira não tem plano de ação algum, mas a partir do ano que vem poderá aparecer essa necessidade, com lideranças adquirindo mais noção de que é necessário uma organização, senão ideológica, mas ao menos política, para aproveitar o fenômeno de massas à direita que formou-se durante esta eleição. Tomara que não surja nenhum grande líder para aplicar na prática essa acusação feita pelo PT. Aí a esquerda vai sentir o que é encarar um canibal.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

 


A briga de Lula e Bolsonaro pelo legado da ruína na vida dos brasileiros

Foi Geraldo Alckmin quem definiu muito bem o projeto político de seu parceiro de chapa, quando disse, numa eleição anterior, que Lula queria “voltar à cena do crime”. Com espírito empreendedor e de olho nas boas oportunidades, este ano Alckmin está de vice, colaborando com o petista para o retorno ao poder. Quem somos nós para discordar da definição de Alckmin, que pelo jeito conhece Lula muito bem.


Só posso apontar que durante o tempo em que mandou no governo federal, por quatro mandatos, Lula foi autor de um crime perfeito, comandando a ruína econômica que o PT causou ao país. Foi uma espécie de investimento em mercado futuro.


Ele obteve resultados favoráveis, como pode-se ver nas ruas. Imaginem a dificuldade que seria para o petista, se ele fosse forçado a expor publicamente ideias ao menos razoáveis para enfrentar os graves problemas do país, com ideias bem fundamentadas e não a demagogia sem pé nem cabeça do projeto de governo da picanha e da cervejinha.


Lula deixou o país em tal precariedade que, como ele próprio afirma como uma filosofia política, no desespero, “o povo só quer alguém que cuide dele”.


Lula criou uma herança bendita para si próprio. Maldita, só para nós. Tem à sua disposição uma vasta quantidade de brasileiros que não tiveram acesso a uma boa educação e por isso não contam com um conhecimento claro do que foi feito ao país nos últimos anos — incluindo o eleitor que está na casa dos trinta anos, que pouco sabe do que ocorreu em nossa história recente, com a demolição moral e a tremenda incapacidade administrativa que resultou neste caos, legado por Lula e seu partido.


Na trágica condição do país, esses jovens não contam nem com a possibilidade profissional de um bom emprego, da constituição de uma família com relativo bem estar, numa residência que caiba os filhos com algum conforto, uma geladeira que não esteja sempre quase vazia, roupas e calçados, algumas coisas legais para a alegria das crianças, uma sobra de salário para o lazer, a possibilidade de viver com dignidade, tendo a garantia de que os filhos estarão em situação ainda melhor no futuro.


Colher votos nesta massa de seres humanos desesperados até com a subsistência do dia a dia é muito mais fácil do que seria com uma população com independência financeira, com boa formação que permitisse exigir e participar de uma discussão séria sobre o nosso destino coletivo.


Mas não é assim, porque como eu disse, o crime foi perfeito: Lula criou uma massa de manobras que favorece seu caráter de demagogo, para oferecer assistência social com algum dinheiro para amenizar a miséria, sempre sem abrir portas para que a pessoa se livre dessa dependência, nessas esmolas dadas como se fosse do bolso dele, de uma forma que o caracteriza muito bem como político.


E vejam só, com sua vocação de destruidor da moral e do progresso, por consequência, Lula ganhou uma legião de desesperados para trabalhar de graça para sua campanha — ou mais que isso, essa pobre gente financiando os produtos com trabalho suado, botando dinheiro do próprio bolso para vender as toalhas com a sua cara, pelo Brasil afora.


Só que teve um empecilho no seu plano quase perfeito. Apareceu alguém tão ruim quanto ele, que aprimorou a desgraça causada ao país, reforçando a massa de desesperados que penduram lado a lado a cara dos dois cínicos, na tentativa de ganhar uns trocados para não passar fome. A herança maldita de Lula encontrou em Bolsonaro um herdeiro que não quer sair da cena do crime.


quarta-feira, 5 de outubro de 2022

A esquerda na surpresa do segundo turno, dando com a cara na realidade fora da bolha

Estou observando atentamente as movimentações da militância petista nas redes sociais e na imprensa — no partidarismo entranhado no jornalismo, feito por profissionais que não aprenderam nas universidades que o distanciamento crítico é ferramenta essencial desse trabalho. Antonio Gramsci se espantaria com o que andei assistindo. O filósofo italiano comunista ficaria decepcionado em saber que a esquerda brasileira compreendeu pouco, quase nada mesmo, o que ele escreveu.


O que é isso, companheiros? A estratégia é a sedução das massas e não sentar o sarrafo no povo, diria o amado mestre da esquerda. Capisci? E guerra cultural não é só encaixar projeto nos esquemas para descolar uma grana.


Isso faz lembrar outro ponto histórico, sobre aquela frase dita por Winston Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história”. Quem vive em um país que já experimentou pelo menos duas ditaduras na história recente sabe muito bem como isso é verdade. Democracia, entanto, não precisa ser algo tão chato, como a esquerda e a direita fazem no Brasil.


Mas esta balbúrdia não deixa de ser um campo interessante para o estudo político, com material que deve se prolongar por muito tempo pela frente. A estupidez coletiva não vai terminar com o sinal de “confirma” no final deste mês. O furdunço certamente terá um acirramento, com os polarizadores do ódio — dos dois lados — postados a partir do ano que vem na oposição ou no poder, tanto faz.


Pobre eleitor. É uma escolha complicada. Optar pelo menos pior é cada vez mais difícil, com a diferenciação ficando embaralhada por esta competição entre esquerda e direita, com um querendo chegar na frente do outro, na disputa para saber quem rebaixa mais a sarjeta.


Numa avaliação do que tem que ser prático em uma eleição, nota-se que a esquerda complicou-se em seu mundo ilusório, no universo fechado que tem um exemplo no pessoal se reunindo no apartamento de Caetano Veloso e Paula Lavigne para decidir os rumos do país. Tudo bem, pouco importa o espaço físico para exercer consciência política, mas precisa sair depois fazendo videozinhos e posts nas redes sociais dando de dedo na cara dos outros e dizendo que a outra metade do país é fascista?


Ainda que a bolha não deixe de ser confortável, esta convivência restrita vai causando um retardamento na compreensão básica de elementos fundamentais no diálogo com o povo, o que fez, por exemplo, Marcelo Freixo levar décadas para compreender que a maconha é um desastre na vida familiar de quem vive na periferia. Ele entendeu esta questão só no mês passado, em conversas com donas de casa, que explicaram pra ele que um filho — ou “filhe”, tanto faz — fumando maconha desestrutura a vida familiar nas periferias.


Bem, agora é tarde para Freixo, que perdeu feio a eleição para governador do Rio de Janeiro no primeiro turno, não sem deixar uma boa lição sobre forma de fazer política, com especial atenção ao ilusório poder de gente famosa e de suas ideias — muito bem protegida nas suas bolhas — na hora de ganhar votos. É o fantasma de Gramsci, coitado, penando por aqui. Quem tiver curiosidade de passar pelo Instagram do Freixo vai pensar que entrou no catálogo de artistas de algum agente poderoso. Não falta por lá nenhuma dessas estrelas do lado do bem.


Claro que não é só por isso que o pobre Gramsci se espantaria. Ele, que escreveu toda sua obra trancado numa cadeia pelo fascismo comandado por Benito Mussolini. Foi preso em 1926 e saiu da cadeia só em 1937, para morrer em uma clínica de Roma. Gramsci acharia bastante estranho a moleza desse combate ao fascismo aqui no Brasil, assim, de boa, como diz a moçada.


E o que diria o mestre comunista italiano se soubesse que sua estratégia de sedução das massas pela via cultural acabou em funk, rap e grafiteiro semianalfabeto subvencionado pelo Estado?


Na ilusão do poder sobre o destino do povo, voltando ao aspecto prático da política, descuidaram da chamada “realpolitik”, o não é surpresa para mim, que conheço bem a tigrada, mas cabe apontar essa insensatez da militância esquerdista ainda descendo o porrete no outro lado, oposto de onde eles estão — sempre do lado do bem, claro. Nunca é aconselhável bater em vez de convencer, mas é ainda mais idiota quando isso é feito na véspera de uma decisão de segundo turno.


É a filosofia do ódio do bem, que pode ser sintetizada em uma tuitada da impagável Marcia Tiburi, em uma mensagem tão favorável ao bolsonarismo, que deve ter deixado o Carluxo vermelho de inveja. A tuitada faz sucesso nas redes sociais. Ela embraveceu junto com a militância, por não terem ganhado a eleição já no primeiro turno.


“Preferia que fossem urnas fraudadas do que o povo elegendo fascistas”, escreveu a professora que há de ter sua obra nos anais da nossa vã filosofia. Isso é que é solidificar preferência eleitoral. Para o adversário, claro. Só falta agora aparecer outra musa da militância esquerdista, a decana Marilena Chauí.


“A classe média é estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e ela é uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante”, ela disse em uma manifestação pública com Lula presente, gravada em vídeo. Lula aparece rindo gostosamente e aplaudindo o que ouve.


Existem ensinamentos para todo lado neste embravecimento geral, com o próprio Lula como exemplo vindo de cima, ele que é exaltado como gênio político. Pois o mestre da esquerda arrebentou candidaturas em todos os estados, desarticulou partidos e construiu todo tipo de alianças para montar um cenário favorável para sua vitória. Mas não é que o sabichão descuidou da estruturação política de seu próprio partido e de toda a esquerda, para eleger bancadas fortes e ganhar eleições estaduais?


Pois é. Jair Bolsonaro e seus aliados cuidaram desse assunto muito bem e saem desse primeiro turno com poder total no Congresso Nacional. Elegeram também governadores em estados importantes, além de se posicionarem com vantagem em São Paulo, onde estão com o palanque mais forte para este segundo turno.


A direita se consolidou como força política poderosa, com amplo apoio de massas. Com isso, o máximo que Lula pode obter agora é uma vitória eleitoral. Governar mesmo, isso ele terá que ver com a direita.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

As pesquisas, a construção de favorecimentos e os riscos para o país

E lá vai a imprensa com suas pautas fora do que a realidade apresenta, inclusive no que esta realidade tem a ver com a bagunça criada pelas pautas jornalísticas anteriores. Foi o caso das pesquisas, que nossos jornalistas, no geral, tomaram como mensagens de um oráculo que mereceria ter seus conhecimentos tomados ao pé da letra. Nesta eleição, antes mesmo dos partidos apresentarem candidatos, a pauta do noticiário foi dominada pelas pesquisas. Logo a referência absoluta de atenção sobre este ou aquele candidato tinha como base obrigatória os pontos de preferência do eleitor sobre sua candidatura.


Por esta cartilha, surgiram candidaturas que duraram muito pouco. Mas enquanto havia o prestígio garantido, dado pelos institutos de pesquisas, tais figuras eram tratadas como se já estivessem ocupando o Palácio do Planalto. Luciano Huck foi um desses quase-presidente. Quanto se perdeu de horas de trabalho de jornalistas especulando sobre a vitória anunciada de Luciano Huck? O sujeito era imbatível até no segundo turno. Bem, depois esse pessoal reclama da falência de jornais e revistas.


E vocês pensam que haverá uma autocrítica, mesmo que seja interna, apontando um rumo de melhor qualidade para a cobertura política? Vamos ao que está em andamento. A Rede Globo já anunciou a divulgação da primeira pesquisa de segundo turno. Vai custar R$ 237 mil e vai ao ar nesta quarta-feira. A nova pesquisa é do Ipec, que nada mais é que o ex-Ibope. Trocaram de marca depois da falência total da imagem do Ibope, causada pelas seguidas contradições, digamos assim, de várias pesquisas. Será que a Globo reserva uma surpresa com esta pesquisa? Pode ser que a divulgação seja na estreia de um programa de humor.


Mas e o Ipec, como estará o Ibope de logotipo novo? O último trabalho do Ipec foi a pesquisa que apresentou a disputa entre Jair Bolsonaro e Lula no primeiro turno, com 14 pontos de diferença a favor do petista: Lula com 51%, Bolsonaro com 37%. A divulgação foi no dia anterior à votação. Não é necessário ser marqueteiro para saber o efeito de uma pesquisa como esta na campanha de Lula. Tampouco precisa ter conhecimento técnico para saber como fica o ânimo da militância, com todos anunciando que o adversário está 14 pontos à frente. Onda positiva petista é pouco para definir algo assim. Já para Ciro Gomes e Simone Tebet foi um maremoto que os afogou na casa dos cinco pontos.


Estarei afirmando que houve fraude? Nada disso, porque não tenho como comprovar. Porém, não existe nenhum impedimento de que se tenha a suspeita de que aconteceu alguma coisa muito grave, que num país sério exigiria explicação. Mas será que estou questionando o valor científico de pesquisas? Vejo este problema como uma discussão mais dos fins do que do meio. Inclusive, sei muito bem que pesquisa eleitoral não é previsão, até porque neste caso seria adivinhação, algo que também na política não serve pra nada, embora no jornalismo atual usem tanto bola de cristal que dá até vergonha.


Porém, para que não haja confusão entre pesquisa e previsão é importante que a imprensa não faça dos números um guia fundamental nas pautas de política. Não deveria haver tanto destaque para as pesquisas. A interpretação podia ser mais séria, deixando claro ao leitor certas “subjetividades”. Os números também não deveriam ter tanto poder sobre qual o político ou as propostas que terão destaque nas coberturas jornalísticas. No geral, no entanto, não houve este equilíbrio no comportamento geral da imprensa, conforme eu disse logo no início deste texto.


A própria cobertura dessa incrível falha não está recebendo uma atenção mais aprofundada. As pesquisas merecem uma visão retrospectiva, especialmente quando dão problemas, como acontece agora. Fiquemos com a versão de que foi um erro. Então, deve-se procurar saber se este “erro” foi só agora, no final, ou vem lá de trás. Não temos como conferir discrepâncias do passado, mas cabe perguntar se há meses esses números já não batiam com a realidade. Como vimos então, isso serviu para a gradativa eliminação de candidaturas, reservando no final poucas opções de escolha para o eleitor, favorecendo Bolsonaro e Lula.


Será que de fato Ciro Gomes nunca chegou aos dois dígitos ou até ultrapassou esses números mágicos da política? Isso poderia ter ajudado muito no crescimento de sua candidatura. Ao contrário da má sorte do pedetista, números altos deram desde o início uma larga vantagem para Lula, favorecendo bastante, muito mesmo, suas armações para se colocar como a garantia da derrota de Bolsonaro, ou do “fascismo”, como os bravateiros apregoam. Isso para ficar apenas nos pontos positivos das pesquisas, porque já faz tempo que transparecia algo de muito estranho nas rejeições apontadas pelos institutos e também nos resultados das qualitativas.


Ainda na avaliação hipotética dos favorecimentos e dos danos, nesta análise é necessário observar também as responsabilidades sobre coisas muito graves que poderiam ter ocorrido em razão desse erro final. Supondo que Lula ganhasse no primeiro turno, na verdade seria por poucos pontos. Como no dia anterior as pesquisas traziam a diferença de 14%, o que poderia acontecer nas ruas deste país, com a população brasileira dividida pela metade, com uma parte tomada pela indignação?


Mais ainda: dias antes, o PT já havia reservado a Avenida Paulista, em São Paulo, para uma manifestação com a presença de Lula, que certamente estaria com sua arrogância turbinada pela vitória. Isso seria até mais que gasolina no fogo. É um demonstrativo do caráter do PT, na irresponsabilidade bem antiga, desde o nascedouro, do partido do Lula. Mesmo sem a grande diferença entre pesquisa e resultado, dirigentes políticos sensatos não colocariam o país sob tal risco. Mas aí o PT não seria o PT, não é mesmo?


Felizmente, por força do destino, foi evitado este perigo, que serve como demonstração do que teremos de enfrentar, independente da decisão dos eleitores no final deste mês. Os dois lados são terríveis. Não é fácil teclar nesta urna. Fala-se muito sobre as poucas diferenças de qualidade para o país entre Bolsonaro e Lula. Mas eu penso que esta equivalência é subordinada a certas competências. Com Lula, a maldade é mais bem organizada.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Lula e o PT entram emburrados no segundo turno

Lula já entrou no segundo turno com o pé esquerdo — digo sem me ater ao trocadilho, afirmando no sentido da forma errada de começar um trabalho. Em entrevista coletiva onde todos estavam muito murchos, logo que o TSE deu o resultado de primeiro turno, o candidato petista disse que é “apenas uma prorrogação”. Ora, não é nada disso: ele bem sabe como um segundo turno pode apresentar mais desafios do que o primeiro, senão ele próprio também não estaria de cara amarrada para falar do resultado contrário à expectativa de vitória no primeiro turno.


“Nós vamos ganhar”, disse Lula, com aquele tom de quem está sempre de mau humor. Faltou acertar o discurso, pois não é desse jeito que se entra em um segundo turno. Abre-se a porta sem esquecer de quem ficou para trás. Nesta reta final, aconselha-se ao menos que o candidato tire o salto alto usado durante toda campanha. A fala também não combinou com o clima de desânimo. Olhem a foto e digam se não estou correto em achar que o grupo está com medo de não ser feliz.


A expectativa da vitória certa foi criada de forma artificial, com ajuda de pesquisas muito suspeitas, além de ter sido desenvolvida sem equilíbrio. Afobado para ganhar logo a eleição, Lula criou ressentimentos que terá dificuldade de contornar neste segundo turno. O PT desmontou totalmente o quadro eleitoral, gastando bastante, desmobilizando outros partidos e repartindo um governo que ainda não tinham. Até a criação de ministérios novos foram prometidos.


Lula passou também aos eleitores uma imagem de arrogância, que terá para ele um peso bastante negativo nesta disputa final. Por extensão, estimulou na sua militância uma falta de respeito agressiva, até contraditória ao discurso que coloca os bolsonaristas como os brutos.


Pode-se dizer que combatiam o fascismo, porém não foi o que eu vi com espanto, no desmerecimento aos eleitores de Ciro Gomes, de Simone Tebet, enfim de qualquer pessoa que não aceitasse incondicionalmente Lula como o salvador do Brasil. Foi de uma brutalidade impressionante, até com a acusação das críticas a Lula feitas por Ciro Gomes fazer parte de um acordo entre Ciro Gomes e Bolsonaro, só porque durante o debate na Rede Globo o candidato do PDT ter trocado algumas palavras casuais com o presidente.


Hoje em dia isso é chamado de “cancelamento”, mas nada mais é do que a velha tática de eliminar o dissidente, anulando seus meios de subsistência e muitas vezes até matando. Isso me lembra bastante o que li em bons livros, nas práticas históricas entre a esquerda, quando, para ficar apenas em um exemplo, torturavam e matavam companheiros de luta contra o fascismo por causa de discordâncias, como aconteceu nos anos 1930 na Espanha, durante a guerra civil.


O cancelamento das vozes discordantes feitas pelo PT durante a campanha até agora vai complicar bastante para a obrigatória necessidade de conquistar apoios no segundo turno. E não se trata de acertar com Ciro ou qualquer outro líder. A maior complicação será no convencimento dos eleitores dos candidatos derrotados. Na minha opinião, os petistas foram longe demais, confundindo debate com conflito que precisa ser ganho de qualquer jeito. O próprio partido adotou essa petulância agressiva, com Lula dando o tom do desmerecimento ao direito de alguém se candidatar ou de votar do modo que quiser, sem ter que ser acusado de inimigo da pátria.


Será interessante assistir aos acenos públicos ao eleitorado de Ciro Gomes, a quem votou em Simone Tebet, sem esquecer do eleitor que votou nulo ou se absteve, enfim, como dizia a militância petista nas redes sociais, toda essa gente alienada, sem “consciência social” e a compreensão da urgência de derrotar o fascismo. A aceitação do necessário pragmatismo não será fácil para ninguém, muito menos para quem levou os tapas na cara.


E os primeiros passos do PT mostram que, pelo menos até agora, eles se mantêm incorrigíveis. O partido já havia conseguido junto ao TJ-SP a autorização para a utilização da Avenida Paulista ainda no 2 de outubro, para um pronunciamento de Lula. Isso pode parecer um erro tático, afinal foram em cima do eleitorado alheio com o argumento de que o Brasil corria risco de violência. Não havia o perigo da violência do fascismo? Dá para imaginar a festa que fariam neste dia em São Paulo.


A arrogância esquerdista exposta nas redes sociais permite prever o clima de provocação que poderia expor as pessoas a um risco a ser evitado. Lula e seu partido não sabiam do perigo a que seus militantes estariam expostos? Bem, dirigentes políticos que ganham votos firmando-se como bravos combatentes contra o fascismo teriam a obrigação de agir com cuidado. Afinal o Brasil estava ou não pronto para explodir?


Mas isso é apenas Lula sendo Lula, o PT sendo PT. Estavam prontos para jogar gasolina já no final do primeiro turno, cabendo apontar que a fogueira estaria garantida pelos três meses de Bolsonaro ainda no poder. Mas quem sabe os petistas aprendam finalmente uma importante utilidade do segundo turno. Nesta etapa, haverá a necessidade de Lula expor suas ideias e confrontá-las em público com o adversário, o chefão petista terá de adquirir equilíbrio, deixar de lado a arrogância, fazer composição com mais respeito, tratando aliados como parceiros e não na categoria de subordinados a um salvador da pátria. A aliança terá de ser torno de propostas em conjunto e não na adesão incondicional, como foi foi armada sua campanha no primeiro turno.


Ah, sim: ele e seu partido terão também de dar satisfação a uma peça essencial na democracia, até agora desprezada por eles e mantida como simples figurante na eleição: o tal do eleitor.



 

domingo, 2 de outubro de 2022

Jair Bolsonaro no segundo turno: pesquisas e a imprensa caem no descrédito


Jair Bolsonaro e Lula vão para o segundo turno, confirmando o que eu afirmava no início da semana passada. Disse então que desconfiava dos números das pesquisas, devido à impressionante demonstração de popularidade de Jair Bolsonaro nas ruas. “Será uma surpresa para mim se Jair Bolsonaro não tiver uma votação expressiva neste primeiro turno”, escrevi neste Facebook.


Os institutos de pesquisa erraram longe, especialmente o Datafolha, que curiosamente é o mais prestigiado. Mas será que foi erro mesmo? Digo há bastante tempo que o Datafolha é um criador de pautas para a Folha de S. Paulo, que se espalham depois pela internet e influenciam as eleições. Tampouco dá para levar a sério vários outros institutos, a maioria sem nenhuma transparência, sendo que um deles, o Ibope, que até pouco tempo era sinônimo de prestígio, foi obrigado a mudar de nome.


Na última pesquisa davam Lula com 50% e Bolsonaro com 36% dos votos. No final, deu Lula com 48,12%, Bolsonaro ficou com 43,47%. Com a pesquisa, dava-se uma excelente empurrada para frente em Lula e ainda servia para causar desestímulo na militância de Bolsonaro. Esta parte do plano não funcionou. Mas arrasaram com Ciro Gomes e Simone Tebet, que então tinham suas esperanças despedaçadas, para Lula subornar emocionalmente seus eleitores e tomar grande parte dos votos.


É com esse discurso que certamente os bolsonaristas entrarão no segundo turno. E neste caso, depois de uma diferença tão grande, não há como tirar a razão da queixa. Agora não é mimimi. Com a volta por cima, Bolsonaro a eleição final com uma militância fortalecida. Entrará na disputa com todo ânimo. Elegeu uma grande bancada na Câmara Federal e teve vitoriosos senadores em estados importantes, como São Paulo e Rio Grande do Sul. Em São Paulo, Tarcísio Freitas vai para o segundo turno à frente de Fernando Haddad, contrariando também as pesquisas.


Este primeiro turno comprova que o antipetismo é a grande força eleitoral do país, uma verdadeira alavanca para ganhar votos. Para o oponente. Com Lula como candidato, esta rejeição foi reforçada, servindo para amenizar até um presidente como Bolsonaro, que aprontou tantas maldades no poder, algumas até de uma crueldade desumana. É com Lula, esse político repleto de coisas negativas na vida, que anulam qualquer defeito do adversário, que Bolsonaro vai tentar a reeleição.


Ninguém dará ouvidos para pesquisas neste segundo turno. A imprensa também entra desacreditada nesta hora de definir quem será o presidente. O jornalismo, no geral, passou a guiar-se quase que exclusivamente por pesquisas, gradativamente concentrando as matérias em números, sem sequer aprofundar para os leitores o valor relativo de cada uma delas. Em eleição alguma no Brasil se fez tantas pesquisas. E será que foi só coincidência? A produção de pesquisas sempre foi uma forma de candidatos de maior poder econômico e mais dinheiro em caixa influenciarem a formação do cenário eleitoral em seu benefício.


Desta vez, os maiorais da política tiveram a cumplicidade da imprensa. Escaparam da cobrança de propostas e esclarecimentos sobre o que fizeram em suas carreiras. Deixaram de dizer ao eleitor o que pretendem fazer em Brasília. Turbinado por pesquisas que estavam erradas ou manipuladas, Lula teve até a arrogância de afirmar que só falaria dos seus planos depois de eleito.


As pautas jornalísticas ficaram concentradas na discussão dos números de pesquisas e mesmo neste assunto obsessivo, com matérias superficiais. O efeito foi o de tirar a atenção dos leitores sobre os reais problemas do país. Houve um abandono do debate dos problemas brasileiros, além do desmerecimento absurdo de várias candidaturas colocadas com menos pontos nas pesquisas. Com a justificativa de que obtinham poucos pontos junto aos eleitores, muitos políticos tiveram espaços negados em debates. Deixaram de ser entrevistados e foram esquecidos no noticiário.


Nunca a credibilidade da imprensa ficou tão desacreditada, pela escolha equivocada de dar tanta atenção ao que os institutos diziam. Mas, repito novamente: foi mesmo apenas um equívoco? A votação de Bolsonaro e Lula, completamente fora dos números que davam o tom das pautas jornalísticas durante meses, lança uma suspeição muito forte. E o descrédito deve aumentar muito mais no período de segundo turno, quando os bolsonaristas vão fazer muito barulho. E devo dizer novamente: quem poderá negar-lhes a razão?


Além da disputa para presidente, em vários estados o resultado final foi contra o que diziam as pesquisas, desmentindo números que eram tratados pela imprensa como se fossem resultados reais, enquanto as campanhas se desenvolviam, com espertalhões turbinados pelo noticiário favorável. Com esta porção de desacertos pelo Brasil afora e na eleição para presidente, não há como não suspeitar que há meses vários candidatos vinham sendo rebaixados artificialmente. Para mim, foi isso que ocorreu. É óbvio que não existem meios de comprovar esta minha visão, porém o que se apresenta agora faz suspeitar de que deve ter havido uma grave manipulação para derrubar candidaturas, além de estabelecer uma falsa realidade para estimular o eleitor a decidir a eleição no primeiro turno.


Desses candidatos surrupiados de forma antidemocrática, um dos mais prejudicados foi Ciro Gomes. Simone Tebet também teve sua candidatura atingida. E foram feitas também outras vítimas, que nem chegaram a levar adiante suas candidaturas, sendo eliminados do processo eleitoral por meio de números que parecem ter sido forjados. Muitos jornalistas foram cúmplices desse despropósito, levando a imprensa a ficar com a credibilidade seriamente abalada.


Antagonista sofre censura de Alexandre Moraes

O ministro Alexandre de Moraes determinou neste domingo a retirada do ar da reportagem “Exclusivo: em interceptação da PF, Marcola declara voto em Lula”, publicada ontem no site O Antagonista. A exclusão do material jornalístico foi feita a pedido da campanha de Lula. Escrevi ontem sobre esta reportagem. O Antagonista define como censura a ordem do ministro do STF e presidente do TSE. Concordo com a interpretação do site — foi mesmo censura. A justificativa de Moraes não tem fundamento e, além disso, abre espaço para exploração política da decisão.


Para o presidente do TSE, trata-se de “divulgação de fato conteúdo sabidamente inverídico”. O Antagonista refuta o argumento, explicando que “a matéria reproduz áudios obtidos pela Polícia Federal, no âmbito da operação Anjos da Guarda, com autorização judicial”. Portanto, embora a decisão de Moraes induza ao entendimento de que o site faz a publicação de “conteúdo sabidamente inverídico”, o que implica em grave prejuízo para um veículo jornalístico em sua credibilidade, sua argumentação baseia-se numa justificativa totalmente subjetiva dos advogados da campanha de Lula no pedido de exclusão da matéria jornalística.


Segundo O Antagonista, Moraes acolheu “sem direito ao contraditório, argumentos dos advogados da campanha do petista”. A alegação dos advogados de Lula é de que “na condição de condenado por decisão transitada em julgado, Marcola está com seus direitos políticos suspensos (artigo 15 da Constituição Federal) e, enquanto persistir essa situação jurídica, está impedido de votar”. A matéria, cabe apontar, fala em declaração de voto em Lula, feita por Marcola, líder do PCC.


A decisão de Moraes seria de espantar, mas isso em outra condição política, com um país menos bagunçado moralmente, com um equilíbrio ao menos razoável na aplicação da Justiça. A justificativa para censurar a matéria se sustenta em um argumento que em outras situações inviabilizaria a publicação de um vasto volume de material jornalístico. E evidentemente torna uma acusação sem sentido a sentença de “divulgação de fato conteúdo sabidamente inverídico”.


Este caso lembra bastante as inumeráveis argumentações alegadamente jurídicas em torno dos processos contra Lula, muitas vezes defendidas por advogados em pleno tribunal, mas que eram evidentemente a produção de material de propaganda e exaltação pública da figura do candidato do PT, de uso inclusive posterior para reescrever história política. É mais ou menos o que ocorre quando conquistam por meio de lobbies políticos alguma declaração favorável a Lula em certos “comitês” de instituições internacionais, como fizeram na ONU.


O ministro do STF acolheu a argumentação de que a falta do direito de votar não permite dizer que alguém faz uma declaração de voto. Como eu disse, essa manobra de linguagem inviabiliza escrever sobre muita coisa. E como ficaria, do mesmo modo, a produção de pesquisas? Só vale se o entrevistado provar que é eleitor. É uma forma de julgamento até engraçada — no sentido tragicômico —, pois transporta para o exercício do Direito a forma de acabar com um debate que se usa nas redes sociais, por meio de artimanhas, com ataques subjetivos, sem levar em conta o que o outro está realmente dizendo.


A decisão pode ser derrubada, porém, o simples fato dessa censura ser cogitada com este argumento, mostra que a coisa vai mesmo muito mal neste nosso Brasil. Alerto para o que se abre de brecha para a imposição do medo de escrever qualquer coisa. Nem vou dizer que o país está se encaminhando para uma situação extremamente perigosa, pois já estamos envolvidos por um ambiente de ruína política e moral, que vez por outra descamba para a insensatez. E tem seu lado cômico também, ainda que o riso aconteça com certo temor. Neste rumo, mais um pouco e teremos gente condenada e presa sob a acusação de produzir metáforas.

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Como registro, republico abaixo o texto 
que postei na noite de ontem no Facebook 

Lula saiu da cadeia, mas a cadeia não esquece dele. O site O Antagonista publicou na noite deste sábado uma matéria explosiva sobre a declaração de voto em Lula feita por Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. A preferência do líder do PCC pelo candidato do PT está em diálogos obtidos pela Polícia Federal na operação Anjo da Guarda, investigação que desmontou um esquema que pretendia libertar da prisão pela força líderes do crime organizado, entre eles o próprio Marcola, que foi pego em gravações de diálogos com parceiros do crime e advogadas.


A polícia monitorou as conversas entre Marcola, sua mulher Cynthia Giglioli da Silva Camacho e advogadas, além de comparsas que estão presos com o líder do PCC. Nos áudios, eles falam da esperança de que a mudança de governo os favoreça, inclusive com a transferência para um presídio em Brasília, desejo de Marcola, que se queixa do regime de isolamento na prisão em que está atualmente, em Porto Velho..


Numa conversa, a PF captou Cláudio Barbará da Silva, comparsa de Marcola, dizendo que espera que, se eleito, Lula faça um “trabalho excepcional”. Ele recebia a visita na prisão da advogada Vanessa Jeniffer Cabral. A advogada concorda, reforçando o elogio ao petista: “Ele é bom. Acredito que ele fica 4 anos, pela idade dele, para limpar, fazer um trabalho excepcional”.


Um interesse na troca de governo, com o retorno de Lula, está na amenização do regime carcerário enfrentado pelo chefe do PCC. Em outra gravação, Marcola reclama das condições duras impostas na carceragem de Porto Velho, ao que é tranquilizado pela sua mulher, Cynthia Giglioli da Silva Camacho: “Então, você vai ficar aqui provavelmente até a eleição, trocou o governo cê volta (sic) passando as eleições, você deve voltar para Brasília porque o muro que fizeram lá era por causa de você”.


Os políticos costumam dizer que voto não se recusa, não sei se é o caso de voto com esta origem. No entanto, a simpatia política do PCC por Lula faz sentido, afinal uma pauta histórica da esquerda é a do fim do rigor carcerário. A questão que interfere nesta discutível boa vontade com criminosos é que o relaxamento do rigor com o crime organizado facilita o controle dos chefes a partir da cadeia. Também é por este meio que são emitidas ordens de assassinato de adversários e até mesmo de autoridades públicas.


Um dos parceiros de cadeia que aparece nos áudios captados pela PF é Reinaldo Teixeira dos Santos, o Funchal. Ele foi condenado em 2003 pelo assassinato do juiz corregedor Antônio José Machado Dias. Na conversa com a advogada Vanessa Jennifer Cabral, Funchal fica satisfeito ao saber do fim dos processos da Lava Jato contra Lula no STF. Ele chega a fazer piada com a advogada: “Então tá bom, legal, vota nele em doutora, não vai votar de novo no Bolsonaro”.


Noutro diálogo em que aparece Marcola, o líder do PCC dá uma opinião que mostra que até mesmo os bandidos se sentem obrigados à optar pelo menos pior nesta eleição, ficando com Lula mesmo sem ter dúvida da desonestidade do candidato do PT. Ele acha que apesar de ser um “pilantra”, Lula é melhor que Bolsonaro.


“Ah, mas… para nós o Bolsonaro é pior (…) O Lula é ladrão mesmo, pilantra entendeu… só que é o seguinte, irmão. Essa fita do Covid mesmo, o Bolsonaro deu uma mancada. Bolsonaro é parceiro da política, da milícia. Cara é sem futuro. O Lula também é sem futuro, só que entre os dois, não dá nem para comparar um com o outro”, diz Marcola.


Em véspera de eleição, a matéria cai como uma bomba, por isso evidentemente os petistas vão tentar colocá-la sob suspeição, no entanto O Antagonista tem credibilidade. E a simpatia política de chefes do crime organizado por Lula faz todo sentido. A maquinação política para tirar o candidato do PT da cadeia, entre outras facilitações para escapar de punições, levou ao fim da prisão em primeira instância, por exemplo. Claro que este benefício se estende ao crime comum. Só por isso já valeria o agradecimento eterno dos criminosos, pelos processos se estendendo infinitamente. Mas outras amaciadas nas leis vêm sendo criadas pelas chamadas "políticas garantistas” da esquerda, que receberam apoio unânime entre o que há de pior entre os políticos brasileiros. Dependendo do resultado da eleição, essa impunidade pode avançar bastante a partir do ano que vem.

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Link- https://oantagonista.uol.com.br/brasil/exclusivo-em-interceptacao-da-pf-marcola-declara-voto-em-lula-e-melhor-mesmo-sendo-um-pilantra/

sábado, 1 de outubro de 2022

Casagrande, Neymar e a consciência social do nós contra eles

O pessoal da adesão incondicional ao Lula pegou o jogador Neymar como alvo de ataques neste final de campanha, por causa da sua declaração de voto em Jair Bolsonaro, com direito a “dancinha” no TikTok. Nesta indignação ensaiada destaca-se Walter Casagrande, figura que atua como um mentor intelectual desse tipo de manipulação política. O ex-jogador e ex-comentarista da Rede Globo está em todas e é o mais animado da torcida quando — por interesse partidário, em armações na obscuridade — coloca-se em campo algum plano de destruição de reputação, o chamado “cancelamento” que atormenta a vida de uma pessoa. Por ideologia tosca e mal aprendida em seus próprios termos, Casagrande é um aplicado quebrador de canelas.


Ora, seria ridículo acreditar que Neymar precisa fazer dancinha para Bolsonaro para que se fique sabendo que suas decisões não se guiam por princípios éticos ou em razão de interesses que não sejam absolutamente de lucro pessoal. Ninguém que tenha sensatez precisa disso, Casagrande muito menos, mesmo porque ele tem como estilo ficar futucando na vida dos outros em vez de se ater ao aspecto técnico do que está comentando. Faz isso também na política, quando acaba por desmerecer mesmo pautas razoáveis, por causa do tom pessoal das suas críticas sempre mal fundamentadas, com falta de respeito à opiniões discordantes, baixando o nível em desqualificações com base apenas no fato dele não gostar do posicionamento político do outro.


Indignado com a dancinha de Neymar favorável a Bolsonaro, ele produziu uma sintética avaliação do caráter social do jogador, além de fazer uma promessa que mesmo o torcedor mais neófito em política verá como uma tolice: “Neymar mostrou sua incoerência, alienação e falta de consciência social. Não torço contra a Seleção, mas de hoje em diante, não torcerei mais quando Neymar estiver em campo. Sabem por quê? Porque eu amo o meu país”.


Nada como tratar de um gênio político como Casagrande. Ele reformulou aquele velho argumento lógico que dizia o seguinte: “Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”. A nova premissa usaria outro Sócrates, o grande jogador do Corinthians. Então ficaria assim: “Sócrates tem consciência social. Logo, Sócrates é um craque”. Até hoje Casagrande deve pensar que era para ver a faixa de “Diretas Já!” na cabeça do Sócrates que os torcedores lotavam os estádios.


Seria engraçado saber do próprio Casagrande como é que um técnico poderia formar um time baseado na qualificação política que, conforme o que escreveu, parece estar acima de outras necessidades técnicas em campo. Neste entendimento, ele com sua “consciência social” faria bonito numa Copa do Mundo. O alienado Messi teria que encarar o barrigão do craque em ciência política. Outra coisa: a vida dos torcedores se complicaria muito, caso fosse aplicada sua visão de mundo, além de que os jornalistas esportivos seriam obrigados a falar do preparo físico dos nossos craques sem deixar de lado as referências quanto ao comportamento político de cada um.


Casagrande se enquadra no padrão básico de atitudes que faz tempo que a esquerda vem tendo neste país. A azucrinação se acirrou durante esta eleição. Do mesmo modo que a sua radical interpretação, digamos, social, a partir de uma dancinha de TikTok, esse comportamento é contraproducente também na política. Esse “nós contra eles” entra até na vida familiar, dividindo as pessoas, acabando com as amizades. A vida fica insuportável, e pode ter efeito reverso, como constatamos pela eleição de Jair Bolsonaro, que teve origem exatamente na brigaiada vazia que o PT colocou em prática quando esteve no poder.


E pelo que estamos vendo até agora, na véspera da votação, a infernização retornará caso haja a volta do PT ao poder. O próprio Lula não demonstrou a compreensão da importância de não estimular a confusão entre o papel dos que votam em Bolsonaro e de seus seguidores mais fiéis. Essa falta de estratégia vai acabar criando um ambiente para a criação pela direita de uma força política de massas a partir do ano que vem, independente do resultado da eleição.


Os brasileiros, no geral, sempre tiveram o hábito de depositar o voto na urna sem levar para casa as paixões da política. Qual é o sentido do eleitor passar a seguir, depois, com fanatismo, o candidato eleito? O país ganha mais se todos se juntarem como cidadãos na cobrança. O governo do PT já havia acabado com isso. E voltaram com tudo na campanha deste ano, com um vale-tudo que favorece a direita, pois traz exatamente o que eles precisam para manter o caldo de cultura que deve inclusive fortalecer uma sobrevida vigorosa a partir do ano que vem, mesmo com a derrota de Bolsonaro.


O Brasil é o país do futuro atormentado, mas o ano ainda está correndo. O PT criou ainda mais ressentimentos com sua estratégia de plantar na mídia uma vitória de Lula no primeiro turno, o que na minha opinião não acontecerá. Ciro Gomes já tinha visto que o cancelamento por falta de “consciência social” não é só com o Neymar. Simone Tebet também. Ou Felipe D’Ávila e Soraya Thronicke. Se nenhum deles passar para o segundo turno, o interessante seria ver como é que seus eleitores serão convencidos a esquecer os tapas na cara. É capaz do Lula ser obrigado até a esclarecer o que pretende fazer como presidente.


Vamos ver o pau comer neste país. Se o enfrentamento final for entre Lula e Bolsonaro, por consequência haverá muita dificuldade do PT convencer quem votou na chamada terceira via que Lula é uma opção menos pior para o Brasil. Acredito que eleitores com votos que definiriam facilmente a eleição vão apenas assistir ao espetáculo de troca de porradas, sem nenhuma preocupação sobre a “consciência social” de qualquer um dos lados.