quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Gilmar Mendes, um insucesso de público

Nos anos 70 e 80 havia em São Paulo um jornalista que era temido pela sua destruidora capacidade de fazer colar apelidos e qualificações terrivelmente irônicas em personalidades da cultura e da política. Telmo Martino tinha uma coluna no Jornal da Tarde. Era muito bem informado, escrevia bem, muito bem mesmo, e não perdoava ninguém. Claro que sua coluna era muito lida e isso num jornal que tinha uma qualidade de texto e gráfica que nenhum outro ultrapassou no Brasil. Naqueles tempos não havia jeito de deixar de pegar o Jornal da Tarde para saber quem tinha sido a vítima do Telmo Martino naquele dia. Mas isso é coisa bastante antiga. Meninos, eu vi. E vocês jamais verão coisa igual. O Jornal da Tarde fechou, Telmo Martino morreu em 2013, parece que no Brasil só vai ficando o que não presta.

E falando nisso, foi por causa da entrevista do ministro Gilmar Mendes ao programa Roda Viva, nesta segunda-feira, que me lembrei do Telmo Martino. Fiz questão de perder. Esta figura que Joaquim Barbosa acusava de ter capangas no Mato Grosso desgastou-se demais, de modo que que sua opinião deixou de fazer sentido. Afinal, quando Gilmar Mendes expressa uma opinião jurídica, fala algo sobre política ou trata de qualquer outro assunto, quem vai saber se ele está mesmo falando sério ou simplesmente fazendo jogo sujo? Acho que nem ele sabe mais. De tanto que troca de convicção, até em sessão do STF acaba dando voto contrário à decisões suas do passado.

Então, por excesso de exposição e carência de seriedade pessoal e como juiz, Gilmar Mendes deixou de ser uma figura que mereça a atenção. E pelo que eu soube da audiência do programa da TV Cultura, está mesmo muito feia a saturação do cara-de-pau. Foi daí que Telmo Martino me veio à memória. Foi um fiasco a audiência da entrevista com o ministro do STF. Com uma média de 0,8% no Ibope, o programa ficou em sexto lugar na TV aberta, ficando na rabeira até da Band e da Rede TV. É provável que isso faça os jornalistas pararem de botar o microfone na boca do Gilmar. Colegas, muito cuidado: ele espanta a audiência.

Pois na época em que Telmo Martino era um sucesso entre os leitores do Jornal da Tarde uma conhecida apresentadora de televisão recebeu dele um apelido fatal, que acabou pegando. A vítima do fino esculacho foi Marília Gabriela, que vivia estreando programa novo porque nenhum pegava no gosto do público. É capaz dela ter trocado mais de emissora que o Ciro Gomes de partido. Com a dificuldade de Marília Gabriela conquistar audiência, Telmo Martino apelidou-a de “mulher-traço”. Vejo que temos agora outro fenômeno de falta de telespectadores. O ministro Gilmar Mendes é o “homem-traço” da atualidade.
.........................
POR José Pires

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Direita leva um chega-pra-lá dos eleitores em Portugal

Neste domingo a eleição em Portugal trouxe uma má notícia no plano internacional para Jair Bolsonaro, com a vitória da esquerda e a acachapante derrota da direita. O Partido Socialista vai se manter no poder. As coisas já não vão bem internacionalmente para o governo de Bolsonaro, atrelado a um discurso totalmente fora das necessidades atuais do mundo, que busca até de um modo desnecessário o confronto com as propostas de governos de países fundamentais na política internacional. Pois com o resultado em Portugal neste fim de semana as relações externas de seu governo ficaram ainda mais complicadas.

Entre os derrotados na eleição portuguesa se destacam forças políticas que se alinharam publicamente com Bolsonaro. A direita foi rejeitada totalmente. O maior perdedor foi o Partido Nacional Renovador (PNR), que festejou a eleição de Bolsonaro e se coloca entre os portugueses de forma muito parecida ao imponderado discurso bolsonarista. Levando aos portugueses propostas parecidas com as de Bolsonaro o PNR teve uma votação ridícula. Recebeu apenas 0,3% dos votos e ficará fora do Parlamento.

Outro partido de extrema-direita alinhando com as ideias de Bolsonaro, o Chega, teve melhor sorte, mas ainda assim elegeu somente um deputado entre os 130 da Assembleia da República. No geral. O resultado desta eleição é avaliado como um referendo à gestão do primeiro-ministro socialista António Costa. A contagem final deu 106 deputados ao PS, 36% dos votos em um parlamento de 230 cadeiras. A apenas dez cadeiras da maioria absoluta, a sigla deve se compor com facilidade com partidos de esquerda apoiadores do governo socialista nos últimos quatros anos.

A eleição foi um sinal positivo às políticas de esquerda de Costa, que no discurso de vitória deu um chega-pra-lá na direita. O resultado é tido pelo líder socialista como a “maior derrota da direita em Portugal”, onde a definição de direita traz naturalmente a memória do salazarismo, regime fascista comandado por Antonio Salazar, ditadura fascista que durou 33 anos e deixou o país entre os mais atrasados da Europa, em pior situação até do que alguns países do leste europeu dominados pela então União Soviética. Não adianta a direita brasileira procurar fraudar os acontecimentos mundiais para seduzir os brasileiros com uma ideologia ultrapassada. De um modo até pior que o comunismo, na Europa a direita é ligada ao passado pelo atraso de pensamento, o desrespeito à democracia e os crimes contra os direitos humanos.

Ao contrário da má lembrança que o passado traz grudado à direita portuguesa, o PS é associado historicamente ao honroso legado do 25 de abril, da Revolução dos Cravos, que no ano de 1974 derrubou a ditadura de Salazar. Com isso, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste também ganharam a independência. O regime salazarista tinha até esse componente de atraso, estendendo a opressão militar de forma colonial em terras africanas. Como se vê, a direita portuguesa tem uma carga pesada.

O voto dos portugueses neste domingo foi também um não à proposta do enfrentamento de problemas pela via do discurso violento e desagregador, algo que aqui no Brasil já é possível saber que tecnicamente é um absoluto desastre, além tornar a vida muito chata. Bolsonaro nunca disse o que pensa de Salazar, mas para um sujeito que gosta do sanguinário ditador Pinochet é provável que na sua cabeça o ditador português mereça um lugar de destaque em galeria pessoal de ídolos, onde conforme declarações suas, consta com muita honra o ditador paraguaio Alfredo Stroessner.

A votação dos portugueses indica que não haverá encontro entre os caminhos de Portugal e Brasil por meio de conversas extremadas, com ideias atravessadas de direita e a exaltação requentada de fórmulas políticas autoritárias, cruéis e de um atraso que é da mais espantosa burrice. Assim, deixamos de ter aberta uma porta importante para nossa entrada na Europa. O problema é que para este improvável presidente tudo resolve-se de forma pessoal. E pelo nível de empatia, o mais provável é que nosso país-irmão tenha ficado um pouco mais longe de nós neste domingo.
.........................
POR José Pires


____________________

Imagem- Outdoor em homenagem à eleição de Bolsonaro, colocado em Portugal em novembro
do ano passado pelo Partido Nacional Renovador. Na eleição deste domingo o partido português
de direita não elegeu nenhum deputado

domingo, 6 de outubro de 2019

Lei de abuso de autoridade: a impunidade já leva vantagem antes da lei entrar em vigor

A lei de abuso de autoridade, aprovada há poucos dias pelo Congresso Nacional, já vem sendo cumprida, com juízes dando liberdade a suspeitos de crimes como homicídio qualificado, tráfico de droga, roubo, desobediência, ameaça e resistência. A notícia é da Folha de S. Paulo. Isso vem acontecendo em vários estados. O jornal conta que em Garanhuns uma juíza mandou soltar 12 suspeitos de tráfico de drogas.

O detalhe, se é que isso pode ser definido desse jeito, é que a legislação ainda não entrou em vigor. Isso mesmo. Antes mesmo de sua oficialização, já está em prática o projeto da mais ampla impunidade, tocado por figurões do Judiciário como o ministro Gilmar Mendes, do STF, trabalho que juntou a esquerda brasileira (incluindo bravos puxadinhos do PT, como o Psol) ao interesse de corruptos tradicionais e gatunos ainda em início de carreira, procurando amaciar também os rigores da lei para traficantes e criminosos de variadas atividades, incluindo evidentemente milicianos que dominam grandes porções de territórios em cidades brasileiras. Ah, sim: para a efetividade desta incessante atividade pelo crime não se pode esquecer da atuação expressiva de milionárias bancas de advogados.

Com a lei do abuso de autoridade já sendo aplicada mesmo antes de sua oficialização, cumpre-se o que brasileiros sensatos vinham alertando sobre o clima que acabaria sendo criado pelo endurecimento de punições a agentes públicos. A lei abrange juízes, promotores e policiais, o que obviamente vai fazer com que policiais nas ruas deixem de cumprir a lei em várias situações que podem criar complicação posterior para o agente. Claro que o policial que atira em inocente pelas costas, o juiz que exige propina, o promotor que por desleixo ou caráter corrupto não se empenha pelo cumprimento da lei, estes sem dúvida não serão afetados em seus maus costumes.

O efeito da lei do abuso de autoridade é o de inibir juízes e promotores não no abuso, mas no cumprimento de suas obrigações. A pressão também se dará contra o policial mais decidido na obrigação de encarar com firmeza o crime. Por outro lado, facilitará muito a vida de juízes e promotores que não têm o interesse de se empenhar para que haja justiça no país. E repito: pouco importa se o agente público deixará de agir por desleixo ou para ganhar dinheiro por fora. A lei facilita do mesmo modo para a vagabundagem e a canalhice, dando ampla razão jurídica para quem não quer fazer nada.

Sobre a eficiência deste ambiente favorável à impunidade e ameaçador para quem acredita no rigor no cumprimento da lei, achei altamente esclarecedora uma declaração de Gilmar Mendes dada à Folha, em comentário sobre juízes mandando soltar presos baseados em uma lei que ainda não vigora. “É uma premissa errada [dos juízes]. Se não está nem em vigor, que ameaça há?”, ele disse. Este ministro do STF é notório pelo alto grau de cinismo, mas se superou com esta fala, embora tenha se entregado um pouco ao usar a palavra “ameaça”, definindo, talvez de modo involuntário o objetivo dessa lei, que teve dele sempre o maior entusiasmo. Notem que ele nem toca no ponto assustador, da soltura de figuras perigosas. Só lembrou que a “ameaça” ainda não é oficial.

Gilmar Mendes exemplifica muito bem o papel do legislador e do jurista que trabalha com as leis e regras tendo mais em vista o clima coletivo que advirá de sua aprovação. No caso desta lei, libera-se a impunidade e coloca sobre pressão não só pela via judicial quem acredita no rigor contra criminosos de todos os tipos. Já vai para meses que Gilmar e figuras do seu naipe se articulam para acabar com o maior rigor contra a corrupção, um movimento que adquiriu força nos últimos tempos e envolveu a maioria dos brasileiros, tendo como base simbolicamente e na prática a Operação Lava Jato. Como se vê, o esforço vem mostrando resultado. Nem foi preciso a legislação entrar em vigor para se estabelecer o clima de impunidade.
.........................
POR José Pires

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Lula, a esquerda francesa e outros enganos da história

Os petistas seguem no hábito suicida de viver da ilusão de um mito que não se sustenta nem internamente no partido e muito menos entre os brasileiros. Nesta sexta-feira os remanescentes deste autoengano repassam uma notícia de que Lula recebeu o título de cidadão honorário de Paris. Bem diferente do que é comum aqui no Brasil, o título é dedicado a pessoas ao redor do mundo que defendem os direitos humanos. Recentemente foi dado ao jornal Charlie Hebdo, que teve sua redação metralhada por terroristas islâmicos em janeiro de 2015, com 12 mortos e cinco feridos. Agora Paris desonra as vítimas desse atentado político, concedendo o mesmo título ao cínico gatuno brasileiro.

Será difícil para um esquerdista francês entender que Lula está preso por seus crimes e não por qualquer ato de heroísmo? Parece que neste caso a máquina de propaganda petista vem funcionando. Claro, que o ato de solidariedade com um líder latinoamericano preocupado com os mais pobres serve também, na própria Paris, para político esquerdista seduzir seu eleitorado local, mas esta falsa narrativa sobre Lula e seu partido é algo que vem sendo martelado há décadas no ouvido da esquerda européia.

Os petistas se aproveitam também de um amplo legado histórico de solidariedade e um pesado complexo de culpa que vem de tempos coloniais, muito presente entre os europeus. Isso faz muitos aceitarem sem discussão a narrativa da alegada qualidade do salafrário chefão do PT.

Claro que para o engodo dar certo contribuiu também a absoluta ineficiência dos partidos brasileiros nesses anos todos em informar no exterior a verdade sobre o governo do PT no Brasil. Essa é uma falha histórica dos tucanos, hoje em dia com pouquíssimo prestígio internacional, enquanto o líder de um governo que deixou o Brasil destruído em todos os aspectos e com 12 milhões de desempregados posa de redentor das classes mais pobres.

Historicamente os europeus têm há muito tempo uma queda por mitos latinoamericanos, por isso fica fácil para a esquerda enganar seus colegas franceses com a lengalenga do pai dos pobres e do PT como partido de políticas econômicas igualitárias. Cabe lembrar que estamos falando de uma esquerda que durante décadas fez a apologia do comunismo, fechando os olhos ao que foi um método da manutenção do poder em todos os regimes socialistas: o desrespeito aos direitos humanos.

É uma grande ironia da política internacional: intelectuais aproveitavam a democracia na França para exaltar regimes onde seriam imediatamente presos se tentassem exercer o mesmo direito de se expressar do jeito que quisessem.

Uma parcela muito grande da intelectualidade francesa deu apoio aos regimes comunistas mais cruéis, mesmo com o aviso claro e substancial de muitos intelectuais, entre eles André Gide e Raymond Aron sobre o clima de terror em países como a União Soviética ou na China de Mao Tsé-tung e mesmo em Cuba. Ainda em 1936, Gide já denunciava a decepção com o comunismo, conforme escreveu depois de uma viagem à União Soviética no livro Retour de l’URSS — a revolução soviética é de 1917, lembro para apontar a sua capacidade de visão e a admirável coragem pessoal.

Como sempre ocorreu entre a esquerda francesa, Gide foi pressionado, difamado e excluído pelos colegas, mas não voltou atrás em seu testemunho. Foi confirmado muitos anos depois e do pior modo, com as revelações do terror soviético e da falência do regime. Mesmo assim, passado muito tempo e já com os crimes do comunismo denunciados pelo próprio governo soviético, o filósofo Jean-Paul Sartre e uma porção de intelectuais ainda apoiava Mao Tsé-Tung e seu governo criminoso na China. E Sartre ainda viajava para Cuba, dando seu apoio ao regime de Fidel Castro.

Claro que Lula é fichinha perto de grandes criminosos internacionais da história da esquerda. Também não estou dizendo que Sartre seria capaz de visitar Lula na cadeia, em Curitiba. O filósofo francês apreciava criminosos de maior porte. Comparado a tiranos cruéis como Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro e mesmo o fundador da linhagem criminosa, o sempre esquecido Lênin, o chefão do PT é apenas um ladrãozinho barato, o idiota político que deixou de lado a chance de gravar seu nome de fato com honra na história brasileira para chefiar um esquema de gatunos do dinheiro público.

Mas não deixa de ser espantoso que ainda hoje tenha entre a esquerda francesa gente que não se dá ao trabalho de fazer uma rápida pesquisa sobres os crimes de Lula e seu partido em nosso país, inclusive o de aniquilar moralmente a esquerda local, com seus ladrões e incapazes que causaram rejeição suficiente para fazer os brasileiros elegerem um improvável presidente, de tanto que foi o nojo e o medo do PT voltar ao poder.
.........................
POR José Pires


___________________
Imagem- Em 1970, já com os crimes do comunismo revelados com toda sua crueldade em 
todo o mundo, Jean-Paul Sartre vende o jornal maoista La cause du peuple nas ruas 
de Paris; repare a efígie de Mao Tsé-Tung, bem grande no logotipo do jornal

 

Jair Bolsonaro e Adélio: unidos para sempre

Jair Bolsonaro criou uma síndrome de dependência do Adélio. Mais que uma doença, é uma tática, porém não deixa de ser patológico. Já se nota que Bolsonaro precisa manter a relação com o sujeito que tentou matá-lo, além de que seus seguidores foram definitivamente contaminados. Também não conseguem viver sem as teorias da conspiração armadas em torno do maluco que hoje está preso.

O advogado de Bolsonaro saiu em campo para requentar acusações sem sentido, já que o caso sofreu rigorosa investigação, concluindo que o criminoso é doido. Cabe observar também que Bolsonaro não é nenhum desassistido da Justiça. Como presidente tem canais suficientes para conhecer toda a verdade sobre a tentativa de homicídio.

Claro que ele sabe que foi vítima de um maluco, mas precisa manter as suspeitas bem acesas, pelo menos até 2022, quando poderá ter Adélio novamente como uma peça de campanha na tentativa de reeleição. Desta vez o maluco não servirá para livrar o presidente de debates e entrevistas, onde seria questionado em muita coisa para as quais não tem a mínima noção das respostas, mas o Adélio tem outras utilidades.

Por isso requentam o episódio da facada. O advogado Frederick Wassef disse ao Estadão que havia uma “organização criminosa” por trás da tentativa de assassinato. “Era necessário provar que Adélio não é louco. É um assassino profissional e foi pago para isso”, ele disse, repetindo o que corre pela internet, nos mais variados fake news criados pela rede bolsonarista de desinformação.

Em relação a Adélio, Bolsonaro parece o ex-presidente Lula com seu “Lula livre”. A dependência do chefão petista é tão doentia que ele nem aceita sair da cadeia. Como vai viver depois, sem o “Lula livre”? Bolsonaro, por sua vez, tampouco aceita a liberdade. Precisa manter-se preso ao Adélio.
.........................
POR José Pires

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Glenn Greenwald e seus parças hackers

A Polícia Federal vem descobrindo cada vez mais provas de que existe uma maquinação por detrás da exploração das mensagens roubadas de celulares de procuradores do Ministério Público, que vem sendo publicada pelo site The Intercept, do jornalista americano Glenn Greenwald. Desde que começou a publicação das mensagens, Greenwald insiste na história de que recebeu o material dos hackers sem que tivesse uma ligação direta com nenhum deles. Tudo teria ocorrido praticamente por acaso, a partir de um telefone ao jornalista por um dos participantes do esquema oferecendo o material.

Não é bem o que está sendo revelado, conforme avança a investigação da PF. Na semana passada foi preso mais um hacker, o estudante de direito Luiz Henrique Molição. Os policiais haviam chegado até ele a partir de um diálogo com um interlocutor com sotaque americano. E quem é nesta história que tem tal sotaque? Pois nesta segunda-feira o site O Antagonista deu a notícia de que os policiais concluíram que esta pessoa é mesmo Glenn Greenwald.

A prisão do hacker Molição reforçou a suspeita de que Walter Delgatti Neto, o Vermelho, primeiro hacker preso em 23 de julho, não agiu sozinho como ele dizia. Segundo os investigadores “a ação criminosa não foi obra de um indivíduo isolado”. Segundo O Antagonista, o diálogo entre Greenwald e hackers revela que ele falou com integrantes do grupo preso e também tratou com eles da estratégia da publicação do material roubado.

O relacionamento parece muito mais próximo do que a relação entre uma fonte jornalística e um profissional da imprensa, como alega Greenwald. A investigação da PF descobriu que até o humorista Gregório Duvivier manteve contatos com Walter Delgatti Neto. Duvivier articulava com o hacker e Greenwald a divulgação de mensagens em seu programa de televisão. Em áudio descoberto na investigação, Duvivier faz gracinha ao atender um telefonema de Delgatti. Demonstrando intimidade, o humorista cumprimenta com um “bom dia, hacker”.

As investigações prosseguem e certamente logo mais serão reveladas mais mensagens de conversas com os hackers. Acredito que o bom humor dessas figuras não deverá durar muito.
.........................
POR José Pires

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Greta Thunberg, a cobradora do futuro

A imagem que publico aqui é da capa da revista italiana Internazionale, de março deste ano, bem antes dos reclamos da suequinha Greta Thunberg e da meninada toda ressoar dessa forma impressionante no mundo todo, agora adquirindo o tom correto para tratar da questão ambiental, que é o da voz dos que vão arcar com as consequências do está sendo feito agora com o planeta Terra. Agora Greta está com 16 anos e nesta foto é ainda criança. Já faz tempo que a Europa vem debatendo seriamente os riscos graves que afetam nosso planeta. O aquecimento global já é mais que uma discussão teórica. O problema já se apresenta entre os europeus, com temperaturas altas que começam a afetar a agricultura e a saúde humana.

Simbolicamente, Greta é a cara dessa consciência que espero que seja avassaladora, no seu melhor sentido, como um tsunami mundial de mudança de comportamento. Quando ela e o pessoal que hoje em dia está nesta faixa de idade tiverem alcançado idade madura, por volta dos 40 anos, se algo não começar a ser feito de imediato, esses seres humanos estarão desesperados em um futuro próximo, procurando sobreviver em um planeta com problemas graves não só no meio ambiente, mas de convivência entre os povos e na administração política, econômica e da cultura do nosso mundo.

Passamos esses dias com manifestações em todo o mundo, trazendo finalmente este tom mais adequado do questionamento político, que é o clamor dos mais jovens, na cobrança da responsabilidade dos mais velhos pelo que estaremos deixando para os que estarão vivendo quando não estivermos mais por aqui. Jair Bolsonaro, como presidente do Brasil, deve discursar na ONU nesta terça-feira. No ambiente político que ele vai encontrar não será possível o encaixe de discurso algum que sequer amenize o estrago criado por ele próprio e sua equipe na sua imagem pessoal, de seu governo e na posição do Brasil em relação ao perigoso desajuste climático no mundo.

Bolsonaro não tem o que falar para resolver suas encrencas internacionais, criadas por ele mesmo. Assumiu políticas erradas em relação ao meio ambiente, aplicadas com agressividade, de forma tosca e numa incompreensão tão triste desta questão que fere até o interesse de grandes empresários da agricultura e da pecuária. Bolsonaro e seu ministro do meio ambiente, além dos demais ministros e de militares da reserva que o cercam, entendem menos deste assunto que um fazendeiro focado na lucratividade. Esses, pelo menos sabem do efeito negativo internacionalmente, no aspecto político e econômico, do estrago que se faz atualmente com o meio ambiente no Brasil.

Chega a ser idiota que no ponto em que chegamos mundialmente o Brasil tenha um governo que recusa aceitar qualidades até mesmos naturais, no potencial geográfico deste nosso canto do mundo, com tantos recursos e de tanta beleza. E ainda faz isso de forma grosseira, atuando exatamente em contrariedade ao papel que pode dar ao nosso país maior relevância internacional, gerar tecnologia de altíssima procura em muitos anos à frente, podendo trazer lucratividade em vários setores da vida econômica.

Mas infelizmente este é o governo que nos coube, produto de um erro colossal que além de tudo ocorreu numa hora totalmente errada, quando o Brasil tem que obrigatoriamente tomar outro rumo, para o qual tem pouco tempo e escasseiam os recursos. Não há mais como adiar respostas exigidas em todo o mundo.

Bolsonaro errou a mão, em grande parte pelo descaminho de seguir localmente na sua toada agressiva de campanha, atuando para a porção radical, bruta e ignorante do que há de mais básico, no desconhecimento desinteligente, de que ele próprio é um espelho fiel. Em seu governo, ele fez a opção de manter o ritmo de campanha e se animou com um debate interno facilitado pela paralisação de uma sociedade civil prejudicada por um desmonte político, econômico e cultural como nunca se viu em nossa história.

Mas uma coisa é lidar com uma oposição desmobilizada e comprometida com erros graves do passado, como o PT e seus puxadinhos do tipo Psol, que além disso mantêm ligação com esquemas esquerdistas autoritários como o criminoso regime chavista da Venezuela. Outra coisa, bem diferente e que exige articulação política e capacidade intelectual muito acima dos predicados do bolsonarismo, é lidar com um debate internacional com governantes estrangeiros e uma sociedade civil aplicados com seriedade em uma questão que na atualidade não permite mais raciocínios forçadamente encaixados em lados opostos, em manipulação política oportunista e sem benefícios, a não ser para poucos.

Isto é o bolsonarismo, uma doutrina de bate-boca, sistema talvez assoprado nos ouvidos bolsonaristas pelo guru boca-suja, com seus recados de youtuber mandados de longe, da Virgínia. Será difícil para Bolsonaro encontrar palavras para expor na tribuna da ONU — onde estará, repito, por ser presidente do Brasil — aquilo que realmente seu governo pretende implantar em questões que afetam o mundo todo.

Bolsonaro nem sabe para onde quer ir, muito menos sua equipe tem a ideia de um sistema que vá além da desconstrução que é feita desde que subiram ao poder. Desmontam tudo, quebram e desconstroem, sem nenhuma preocupação em consertar o que está errado, dar continuidade ao que vinha sendo feito acertadamente e propor práticas de qualidade. O governo é da agressão e do desmonte, da destruição vazia, na hora em que o planeta mais precisa de cooperação e esforço construtivo.
.........................
POR José Pires

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A família que virou piada

Corre pela internet muita piada sobre Bolsonaro e seus filhos. Algumas usam o PT como comparação, com a família do presidente como referência negativa. E o duro para o bolsonarismo é que as piadas são boas. Bolsonaro já vai mal em todas as pesquisas de opinião, mas ele e sua equipe tinham que prestar atenção a este fenômeno, para tomarem consciência de que é quase irremediável o desgaste de imagem.

Quando é possível comparar no sentido negativo a família de um presidente aos petistas e a piada ainda ficar boa isso é um perigoso sinal de que falta pouco para tudo estar definitivamente perdido para um governo.
.........................
POR José Pires

Bolsonaro colhendo o que plantou nas relações exteriores

Jair Bolsonaro precisou de pouco tempo para obter os resultados da sua tresloucada política de relações exteriores, que tem seu filho Eduardo como ousado articulador, com poder que parece acima do próprio ministro das Relações Exteriores, o inacreditável Ernesto Araújo. Logo depois de botar na cabeça o boné de campanha da reeleição de Donald Trump para o ano que vem, o filho que Bolsonaro pretende nomear como embaixador nos Estados Unidos fez várias preleções sobre a política internacional. Em poucos meses, movimentações em vários lugares mostram que todas eram furadas.

Os problemas começam com o ídolo máximo da família Bolsonaro, o presidente Donald Trump, que ao contrário do que se pensava não tem uma reeleição garantida. O presidente americano já está tendo que lidar com graves questões econômicas causadas por equívocos de seu governo. Especialistas em economia alertam até para uma recessão nos Estados Unidos, que pode pegar Trump no meio da campanha.

E mesmo um ignorante total em economia como Bolsonaro, conforme ele próprio confessou, já deve estar sabendo do panorama perigoso na economia mundial, causado em grande parte pelos conflitos desastrados e desnecessários que foram sendo armados por seu ídolo americano. Com quem Trump não brigou até agora? Ah, sim: ele mantém uma amizade sólida com Kim Jong-um, da Coréia do Norte. As complicações externas dos Estados Unidos já afetam os negócios de uma parcela importante do eleitorado de Trump, com a queda da exportação agrícola para a China deixando enfezados seus simpatizantes no meio rural americano.

Bolsonaro também acenou com bravatas arriscadas, onde até então o Brasil não entrava em encrencas desnecessárias, como a mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém e a perigosa hostilidade com o governo da Venezuela. O conflito militar que o filho dele e o chanceler Araújo queriam com Nicolás Maduro felizmente foi barrado pelos militares brasileiros, que sabem melhor do custo inclusive em vidas que pode ter uma coisa dessas. Quase o Brasil vira joguete de Trump na América Latina. Mas o moço não se emenda. Há alguns dias o poderoso estrategista dizia que "diplomacia sem armas é como música sem instrumentos".

No Oriente Médio também ficou configurado um cenário que coloca no ridículo as opiniões de Eduardo Bolsonaro, com a desatinada estratégia dele e do pai para a região. Quando foi questionado sobre os problemas que inevitavelmente seriam criados com a mudança da embaixada brasileira em Israel, o deputado do PSL disse que bastava o governo brasileiro aproveitar-se de desavenças antigas entre os países árabes e o Irã, buscando dessa forma amenizar o problema. Com uma dica muito simples, o gênio deu uma destravada numa questão que é mais antiga que o Brasil.

Na verdade, a base da proposta da mudança vinha da confusa preocupação de políticos evangélicos com a cidade bíblica, além de ter uma forte relação da admiração irrestrita de Eduardo e seu pai pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o Bibi. A tentativa do alinhamento do Brasil de forma praticamente incondicional com este político direitista se deu pela tola convicção de uma política de relações externas tendo como base relações pessoais, quando se sabe que isso ocorre entre Estados. Governos passam, sem falar que “amizades” entre governantes também.

No Oriente Médio em menos de três meses a tese bolsonarista já furou. Havia uma admiração pelo pretenso poder político e eleitoral de Netanyahu, que aos olhos de Bolsonaro era um eterno vitorioso. Pois depois da última eleição em Israel é difícil que o ídolo do governo Bolsonaro se mantenha como premier. E com o ataque com drones em postos petrolíferos da Arábia Saudita, pode-se inclusive fazer um teste mais rigoroso da tese de Eduardo do aproveitamento da inimizade entre os países árabes e o Irã. Porém, acho muito difícil que o filho de Bolsonaro encontre um cabo e um soldado do Exército Brasileiro para irem com ele dar um jeito nesta situação no Oriente Médio.

Bolsonaro não colheu nenhum resultado positivo na reviravolta cretina que deu nas relações externas do nosso país. Com a Argentina possivelmente ele terá más notícias em breve, tendo que se acertar com um presidente que ele chamou de “bandido”. Nosso presidente tem dificuldade até de viajar para o exterior, pois onde colocar os pés, seja na Europa ou nos Estados Unidos, poderá encontrar manifestações de protesto.

Entre os europeus nem é preciso falar das encrencas com o ambientalismo, que na atualidade não tem lado político naquele continente. Depois do insulto à Brigitte Macron, Bolsonaro comprou briga com todo o mulherio daquele continente, também independente de posição política. Só falta Donald Trump não ser reeleito. E não é pequena esta possibilidade.

É difícil saber o que Bolsonaro e seu filho pretendiam lucrar ao comprar brigas com a União Européia, a China, a Argentina e posicionar o Brasil de forma nada diplomática em uma região explosiva, hostilizando o Irã e os países árabes. Mas já dá para ter um conhecimento perfeito sobre as perdas e danos que a dupla de trapalhões criou para o nosso país.
.........................
POR José Pires

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Bolsonaro e seu governo onde é difícil trabalhar a sério

Como já se sabe, Jair Bolsonaro começou a manhã desta quinta-feira com a notícia da Polícia Federal vasculhando o gabinete de seu líder do governo, senador Fernando Bezerra, do MDB de Pernambuco. Com autorização do STF, a polícia cumpriu mandado de busca e apreensão contra a liderança do governo no Senado, no gabinete no Congresso e nas casas dele em Brasília e Recife. Ele foi alvo da operação Desintegração.

Bezerra foi ministro da Integração Nacional, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). O esquema criminoso de pagamento de propinas pagas por empreiteiras teria ocorrido entre 2012 e 2014.  Na decisão que autorizou as buscas, o ministro Luis Roberto Barroso diz que Bezerra e um filho teriam recebido um total de R$ 7 milhões. Barroso também autorizou o interrogatório do líder do governo Bolsonaro e de seu filho.

Logo cedo, Bolsonaro convocou auxiliares para uma reunião de avaliação da operação policial. Segundo o que se diz, o presidente ainda estava em dúvida sobre a saída de Bezerra da liderança. O site O Antagonista noticiou que na avaliação de interlocutores de Bolsonaro a eventual saída de Bezerra da liderança do governo no Senado “seria uma perda significativa para o Palácio do Planalto”. Bem, este é o tipo de dúvida para o qual só dá para fazer piada. Que deixem Bezerra na liderança. Um senador que acaba de sofrer uma ação da PF é de fato o líder ideal para um governo como este.

Mas o problema de Bolsonaro não é apenas a saída do político pernambucano suspeito de corrupção pesada, mas quem colocar em seu lugar. Onyx Lorenzoni e Davi Alcolumbre avaliam que ficou difícil a permanência do senador emedebista no cargo, mas ambos disseram à revista Crusoé que existe dificuldade de encontrar um substituto.

Na minha opinião, essa dificuldade de substituição de pessoas é hoje em dia um problema grave do governo Bolsonaro como um todo. No Senado, a bancada do PSL está em crise, com Flávio Bolsonaro desunindo a bancada em vez de trabalhar para fortalecer a base política do pai. Ele destratou aos berros a senadora Selma Arruda, que trocou o PSL pelo Podemos. O primogênito de Bolsonaro brigou até com o senador Major Olímpio, que teve votação histórica em São Paulo. “Que se dane se é filho do presidente”, disse o senador. Segundo Major Olímpio, a presença de Flávio no partido dá "muita vergonha a nós".

Qual seria o político disposto a encarar a liderança do governo neste ambiente de completa cizânia estimulada pelo próprio filho do presidente da República? E a complicação é ainda maior. Já pensaram que bacana entrar no lugar de um colega que acaba de ser acossado pela Política Federal e o MP? E isso em um ano pré-eleitoral.

O governo de Jair Bolsonaro está numa condição precária já no primeiro ano do mandato. É geral a dificuldade de encontrar gente qualificada para encarar pepinos. Não é só no Legislativo. Passada uma semana da demissão de Marcos Cintra da Receita Federal, o ministro Paulo Guedes ainda não anunciou um substituto. E do modo que ocorreu a demissão de Cintra, em repetição da humilhação pública feita por Bolsonaro com Joaquim Levy, fica mesmo difícil encontrar alguém qualificado que arrisque sua imagem profissional. Em época de desemprego generalizado, quem é bom de serviço nem quer saber de vaga no governo Bolsonaro.
.........................
POR José Pires

___________________
Imagem- Bolsonaro e Fernando Bezerra, em imagem de vídeo feito pelo senador pernambucano em maio deste ano; Bezerra havia acabado de ter R$ 258 milhões em bens bloqueados pelo TRF-4, mas Bolsonaro diz na gravação que ele é um “homem que realmente está fazendo pelo Brasil”.

Marilena Chauí: o sumiço da autora da filosofia do ódio à classe média

Falando sobre figuras cuja ausência preenche uma lacuna — como dizia o grande Stanislaw Ponte Preta —, lembrei de Marilena Chauí, que sumiu de cena. A professora de filosofia da USP teve participação intensa no debate político até um pouco antes do impeachment de Dilma Rousseff e depois disso não deu mais deu as caras. Ou o que ela andou falando não recebeu a mesma atenção de antes. Tudo anda tão amalucado no Brasil de uns tempos para cá que um doido a mais não faria diferença e talvez até por isso sua ausência não seja notada. Mas o fato é que faz tempo que não aparece algo dela de grande repercussão.

Marilena Chauí teve contribuição importante para a democracia brasileira, trazendo ao debate nacional uma tese que serviu para ampliar a rejeição ao PT. Foi a do ódio à classe média, exposta por ela com excitação em uma palestra com a presença de Lula, na época ainda a salvo da polícia, que no palco saboreava com evidente satisfação a descoberta fantástica de uma intelectual de grande importância no projeto de poder do partido.

Na época em que Marilena Chauí trouxe esta tresloucada tese o que o PT mais precisava era ampliar seu eleitorado, de modo que caiu bem para a democracia os rompantes gravados em vídeo. Foi um sucesso impactante nas redes sociais. E a classe média respondeu na mesma moeda da professora Chauí, passando a odiar o PT como nunca. Até hoje o partido do Lula se ressente eleitoralmente desse ódio correspondido, que, por sinal, Jair Bolsonaro amou.

Pois a mulher sumiu. Com certeza deve estar fazendo alguma coisa pelo partido, como todo intelectual petista, mas nenhuma dessas atividades tem tido repercussão. Que eu saiba, Marilena Chauí sequer fez uma visita ao Lula depois dele ter sido preso por corrupção. É um caso até de falta de curiosidade filosófica, pois como também é da professora da USP a emocionada constatação de que a presença de Lula é tão forte que chega a iluminar um ambiente (sic), ela podia pelo menos verificar se o fenômeno ocorre também na cadeia.
.........................
POR José Pires

___________________

Imagem- Marilena Chauí no dia da exposição da sua tese mais lembrada, a do ódio à classe média,
com Lula aplaudindo a filosofia do salto carpado (e escarpado) no abismo

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Flavio Bolsonaro pelo telefone e o bolsonarismo revelando sua verdadeira cara

O telefonema do senador Flávio Bolsonaro à senadora Selma Arruda, sua colega de partido desde a última eleição, deixou claro na semana passada qual é exatamente o lado do governo de Jair Bolsonaro, além de ter sido uma demonstração também evidente de método e da séria preocupação de Flávio não só com o governo do pai como também com sua própria situação.

Como se sabe, o governo Bolsonaro não quer de jeito nenhum a instalação da CPI da Lava Toga e para isso vem fazendo alianças com o que há de pior no Judiciário e no Legislativo, em contradição com o que levou uma grande parcela de eleitores a depositar seu voto em Bolsonaro. Flavio é um dos agentes dessa maquinação contra a CPI. E tem a mão pesada. Por telefone, ele pressionou a colega senadora aos gritos e falando palavrões. Como se diz, então: tal pai, tal filho.

A senadora Selma — que nesta quarta-feira está de mudança do PSL para o Podemos — contou para a revista Veja sobre a brutalidade do telefone de Flávio. O palavreado chulo do senador foi republicado depois em vários lugares. A senadora é juíza no Mato Grosso, não só por coincidência terra de Gilmar Mendes, onde segundo o sumido Joaquim Barbosa, o ministro do STF tem “seus jagunços”. Ela teve o mandato cassado em primeira instância no estado do ministro Gilmar. Segundo ela, antes já havia sido ameaçada de não receber o apoio do governo nem de seu partido se não retirar sua assinatura no pedido da CPI da Lava toga.

O jogo é pesado e conforme o que ela conta, a grosseria é explícita. O palavreado de Flavio Bolsonaro exige um pedido de compreensão para ser publicado, como costuma acontecer com as coisas da família Bolsonaro. Então relevem. A senadora, que está com 56 anos, ouviu do filho de Bolsonaro o seguinte: “Vocês querem me foder! Vocês querem foder o governo!”. Selma Arruda já confirmou o diálogo outras vezes, uma delas em entrevista a uma emissora de rádio. Ela disse também que Flávio teve o mesmo comportamento com outros políticos do partido de Bolsonaro. “Ele gritou comigo, com a Soraya [Thronicke] e com o Major [Olímpio]", ela disse.

O senador Major Olímpio confirmou o telefonema e os termos. “O tom foi muito ruim. Para mim, o Flávio não existe mais”, ele disse. Nesta segunda-feira, o senador disse ao Estadão que tentou convencer Selma a não sair do partido. Segundo ele, “quem tem que cair fora do PSL é o Flávio, não ela”. Ele afirmou ainda que gostaria que o filho de Bolsonaro “saísse hoje mesmo”. Por sinal, Major Olímpio foi quem até agora definiu melhor os lances desesperados da família Bolsonaro em razão das encrencas do próprio clã, que podem ser até maiores do que até então se suspeitava. Olímpio não aceita o nome de “acordão” para o que os Bolsonaro estão fazendo. “É um quebra-galho-geral”, ele diz.

De fato é muito precária a condução dos acertos políticos. Ficaram visíveis os andaimes da armação, de tal modo que muitos que votaram em Bolsonaro se sentiram trapaceados. Hoje em dia o bolsonarismo vem conseguindo manter apenas a porção radicalizada de seus eleitores, sem ter conseguido se estabelecer como movimento político. O desmonte vai com certeza trazer problemas sérios para Bolsonaro. Nominalmente o governo pode ser dele, mas terá de ceder a maior parcela do poder.

Já está inviabilizado o projeto de governar com a pressão popular, ideia que tem muito a ver com o que pensa Olavo de Carvalho, o guru da família do presidente. Das bandeiras que levaram Bolsonaro ao Palácio do Planalto, os estragos dos últimos gestos políticos do presidente fizeram ate o antipetismo deixar de fazer sentido. E a relação com a Lava Jato agora se dá de forma inversa, com o governo envolvido em parcerias para acabar com o rigor contra a corrupção.

A péssima diplomacia do senador Flavio Bolsonaro não causa surpresa, já que quando foi deputado estadual no Rio de Janeiro chegou a fazer discurso favorável às milícias, inclusive conceituando este esquema paramilitar como importante na segurança pública. O pai também já expressou publicamente esta admiração pelo uso da força sem apoio legal. Bem, é difícil supor um político que defende em público uma atividade repressiva extrajudicial vá se comportar com respeito à legalidade na obscuridade dos bastidores. Pode estar aí uma causa do desespero expressado nos berros do senador.

Acuados pelo passado e temerosos de serem contidos na ambição do que ainda pretendem fazer, o presidente e seus filhos foram criando lances políticos do jeitão deles, de uma forma que foi desmontando a imagem que junto com uma mistura das casualidades políticas deu a vitória a Bolsonaro na eleição passada. O projeto de poder agora não se sustenta mais com o processo natural que levou Bolsonaro ao governo. E nem se pode dizer que o bolsonarismo virou suco. Pelo jeito, está mais para chorume.
.........................

POR José Pires

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

MBL: um movimento que se perdeu no caminho

A imagem parece uma gozação de adversários com o MBL, mas foi mesmo o movimento de Kim Kataguiri o criador dessa coisa muito estranha. Sintam o apelo: Michel Temer é atração do 5º congresso nacional do MBL. E os rapazes parecem entusiasmados com a confirmação da presença. Vai bombar: garanta já o seu ingresso.

É por coisas desse tipo que vem a obrigação de questionar em que mundo afinal vive esse pessoal do MBL, que aliás virou algo que ninguém mais sabe exatamente para que serve. Perdeu o sentido com o final do governo do PT e depois do grupo aderir ao governo de Jair Bolsonaro para logo mudarem de ideia. Garotada precoce: tão novos e já com uma baita crise de identidade.

Estão totalmente isolados: não atrairam intectuais, artistas, ninguém com um trabalho de destaque juntou-se ao grupo. Até uns dias atrás falava-se que pretendiam formar um partido a partir do mesmo nome, porém Kim Kataguiri já informou que por enquanto a ideia está descartada. Na prática, isso os fez virarem políticos do DEM, o que não me parece soar como algo de muito futuro.

O MBL não serve mais como movimento de rua porque perdeu o caráter apartidário e também não se reformulou como grupo político. Ficou travado na imagem daquilo que lhe deu projeção, mas acontece que mesmo essa atividade exigiria uma reformulação que eles não tiveram capacidade nem de saber afinal qual seria. As últimas tentativas de organizar grandes manifestações não deram muito certo, exatamente porque querem continuar fazendo de uma forma que já não confere com o que vive hoje o nosso país.

Atualmente o MBL é nada mais que o movimento dos deputados Arthur Mamãe Falei, em São Paulo, e de Kim Kataguiri, em Brasília, sem ter tido uma transformação com a ampliação de sua representatividade. Eles se mantêm como meros criadores de memes nas redes sociais, quando deviam ser proativos, agregando pessoas com participação política consistente.

Mas é claro que não do jeito desta promoção especial com Michel Temer. Outras figuras foram convidadas, mas com Temer como destaque nem é preciso saber dos outros. Essa bobeira demonstra uma falta de sintonia impressionante com o momento atual brasileiro. Acho que nem o DEM pensaria em tentar se apoiar numa atração como esta hoje em dia.
.........................
POR José Pires

Augusto Aras, o procurador-geral de Bolsonaro pede a benção para o PP

Nos entendimentos para ser o novo procurador-geral da República, Augusto Aras teve um jantar nesta terça-feira na casa de Ciro Nogueira, senador da cúpula do PP. Durante o rega-bofe, Aras voltou a dizer que é contra “excessos” da Lava Jato. Foi o senador Vanderlan Cardoso, do PP de Goiás, que contou para o site O Antagonista. O pepista aprovou Aras. “Gostei muito dele, deu respostas firmes, se mostrou conhecedor”, ele disse.

Não há dúvida de que Augusto Aras pode contar com os votos dos cinco senadores do PP, partido que tem o falecido José Janene e Paulo Maluf como símbolos. Pode-se dizer que as necessidades do indicado à PGR se ajustam às da cúpula do PP. Do Oiapoque ao Chuí, o partido de Ciro Nogueira vive encrencado em denúncias de corrupção. De fato é um caso de “excesso”, mas de roubalheira. É o partido com maior número de investigados na Lava Jato e teve também sua cúpula envolvida no mensalão, com várias condenações.

O próprio Ciro Nogueira é réu no STF pelo chamado “quadrilhão do PP”, esquema que captou pelo menos R$ 377 milhões de empresários beneficiados por contratos da Petrobras. A abertura do processo criminal pela Segunda Turma do STF teve o voto favorável do ministro Edson Fachin, acompanhado de Celso de Mello e Cármen Lúcia. É claro que Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski foram contrários. Nogueira é presidente do PP, partido que, por sinal, teve o deputado Ricardo Barros como relator da lei de abuso de autoridade, feita para emparedar a Lava Jato.

O prejuízo da Petrobras com o superfaturamento do “quadrilhão do PP” é calculado em R$ 5,5 bilhões. Ciro Nogueira é também do lobby da legalização dos jogos de azar, que entre outras jogatinas libera a abertura de cassinos no Brasil. Ele teve um projeto nesse sentido recusado no Senado, mas vive fazendo pressão junto ao governo.

Em abril, Nogueira teve seu apartamento funcional e o gabinete alvos de mandado de busca e apreensão da Polícia Federal. A investigação do “quadrilhão do PP” está em andamento, do mesmo modo que segue firme a articulação contrária à punição de corruptos. A Procuradoria-geral da República é essencial nesta disputa. A animação do PP com o nome indicado por Jair Bolsonaro serve como referência da desvantagem dos cidadãos de bem nesta luta.
.........................
POR José Pires


___________________
Imagem- O senador Ciro Nogueira fala em reunião da executiva do PP, tendo à esquerda
o deputado Ricardo Barros, relator da lei do abuso de autoridade e sentado ao seu
lado Francisco Dornelles, atual governador do Rio de Janeiro, que tomou posse com a
prisão do governador Luiz Fernando Pezão.
Foto de Antonio Cruz, Agência Brasil