sexta-feira, 13 de agosto de 2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Haja pé-de-coelho para o Paulo Coelho escapar dessa olhada

Paulo Coelho posa de grande conhecedor de assuntos místicos, mas o que ele andou fazendo nesta semana revela que, na verdade, ele não entende de assuntos fora do âmbito da lógica que podem influenciar, para bem ou para o mal, nossas vidas. Coelho cometeu a insensatez de postar no twitter na última segunda-feira esta foto do presidente Lula com seu último livro na mão.

O olhar atento de Lula com os óculos na ponta do nariz é só pose. É óbvio que ele não é de encarar nem as páginas simplórias de um Paulo Coelho. Não deve acabar nem a orelha do livro.

Já falei aqui no blog sobre este absurdo do uso do título "O Aleph", que é o nome de uma das histórias mais conhecidas do escritor argentino Jorge Luis Borges e de um livro seu lançado em 1948 na Argentina. Mas não é sobre mais esta fajutice do Paulo Coelho que pretendo falar.

O que achei assombroso é o desconhecimento dele sobre a forma com que a energia de Lula se liga aos que o cercam. Sempre acaba em desastre. No esporte, seus maus fluídos já lhe deram fama internacional como pé-frio. A lista de profissionais de várias áreas esportivas prejudicados pelo seca-pimenteira é longa. Já publiquei a lista, mas a muvuca é tanta que tem sempre alguém me alertando sobre a ausência na lista de um ou outro desastre provocado pelo azarento.

Assim como seu "O Aleph", Paulo Coelho mostra que é um bruxo fajuto e pode pagar caro pelo imprevidente toque que deu no twitter dessa cena inusitada do Lula com um livro na mão. É uma imagem que pede o bordão "nunca na história deste país". Pois é, não me lembro de, na história deste país, ter visto o Lula com um livro na mão. E para azar do Coelho, foi logo o dele.

Vejam o olhar do Lula. É o mesmo lançado sobre a taça de campeão que a delegação do Flamengo levou até Brasília para ele pegar nas mãos. Depois, aconteceu com o Flamengo o que a torcida inteira do Corinthians já sabe e que sabem também as torcidas do Fluminense, Coritiba... e de tantos outros times, inclusive os torcedores da Seleção Brasileira, que voltou bem cedo para o Brasil porque antes de seguir para a África do Sul para disputar a Copa do Mundo deu uma passadinha para pegar umas energias com o Lula em Brasília.

Mas esperemos para ver no que dá o seca-pimenteira ter pegado "O Aleph" brasileiro para sair numa foto bisoiando a orelha do livro. Da minha parte, torço para que Maria Kodama, a viúva de Borges, sempre tão ciosa da obra do finado marido, lasque um processo em cima do Coelho por causa dessa fajutice de pegar um título consagrado da literatura universal para usar dessa forma abusada.
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POR José Pires

Jaime Lerner distribui atestado de "não lernista"

Nesta eleição chocha surgiu no Paraná algo interessante, que pelo menos sai desse clima em que todos os candidatos interpretam papéis com pouca sinceridade política e, em muitos casos, nenhuma mesmo. Jaime Lerner, ex-governador do Paraná e ex-prefeito de Curitiba, está passando atestados de não-lernista aos políticos paranaenses.

O que acontece é que na atual eleição nenhum candidato ao governo paranaense que ser identificado como lernista. Tanto o tucano Beto Richa quanto o pedetista Osmar Dias sentem-se difamados quando alguém diz que algum deles tem ligação histórica com Jaime Lerner.

Então Lerner resolveu emitir um atestado liberando diretamente Richa e Dias desse desconforto. Publico aqui o documento emitido por ele.

Lerner é um arquiteto reconhecido internacionalmente, especialmente pelo seu fabuloso talento de urbanista demonstrado na prática em Curitiba, onde implantou como prefeito vários projetos pioneiros que fizeram a fama da cidade, entre eles os calçadões reservados apenas para pedestres, uma novidade inventada por ele na década de 70, e um sistema de transporte público muito funcional, com linhas exclusivas para ônibus, além de terminais e pontos muito bem bolados tanto na forma prática quanto do ponto de vista estético.

O problema da má fama do lernismo apareceu quando Lerner se elegeu governador. Ele está certo quando diz no atestado que o que fez em Curitiba pode render votos até hoje, mas sua atuação como governador deixou bastante a desejar.

A industrialização, que ele cita como um benefício para o Paraná, foi até surpreendente vinda de um urbanista de talento como ele, pois privilegiou montadoras de automóveis e concentrou problemas graves em torno de Curitiba. Em relação ao que sua política de industrialização fez com a capital do estado, pode-se dizer que Lerner sufocou a própria cria.

Os incentivos fiscais para varias empresas, entre elas montadoras estrangeiras como a Renault, também foram muito suspeitos e até hoje não estão bem explicados. No governo do estado, Lerner também tentou privatizar duas estatais muito importantes, a companhia de energia Copel e a Sanepar, empresa de saneamento. Esta segunda teve a maioria das ações vendidas para uma empresa francesa, que acabou sendo revertida pelo governo Requião. Mas a questão permanece em litígio.

Lerner também se encrencou com todo o interior do estado quando privatizou estradas, com praças de pedágios que dificultam o intercâmbio comercial e cultural entre cidades próximas. E no Paraná as concessionárias fizeram pouquíssimas melhorias nas estradas.

No âmbito da ética, Lerner foi um desastre. Aliou-se ao que tinha de pior no Paraná. O grupo lernista foi determinante na eleição do prefeito Antonio Belinati, em Londrina, que recebeu todo apoio de Lerner, até ser cassado por corrupção pela Câmara do município. A mulher de Belinati foi vice de Lerner nos dois mandatos de governador.

Apesar da consagração como arquiteto e urbanista, na política Lerner fez muita coisa feia, daí a rejeição dos candidatos. É provável que com o que criou na capital do estado ele ainda renda votos, mas o problema é que o conjunto da obra acaba atrapalhando. Para se ter uma idéia, a última notícia nacional envolvendo uma figura muito próxima a Lerner, foi com o deputado Cassio Taniguchi, que foi prefeito de Curitiba com seu apoio. Taniguchi foi um dos mais poderosos membros do grupo lernista e acabou virando noticia em todo o país recentemente como secretário também muito forte do governador cassado de Brasília, José Roberto Arruda.

São as conseqüências da falta de cuidado na condução da vida política. De qualquer forma, Lerner mostrou criatividade e bom humor na interferência feita nesta eleição. Veja abaixo.
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POR José Pires



Atestado

Sempre que chega o período eleitoral, a ordem entre os candidatos é de se descolar de qualquer político ou coisa que seja polêmica ou que tenha reações contrárias sem levar em conta todas as coisas positivas as quais esses políticos também se associaram. Beto Richa, não precisa jurar que não é lernista; Osmar Dias, também não.

Vou facilitar a vida de vocês e de seus marqueteiros. Estou emitindo atestados de “não lernistas”. Podem apanhá-los na chapelaria.

Digo chapelaria porque certamente o chapéu de Curitiba fornecerá muitos votos. Herdou-se uma cidade que é referência no mundo todo, apesar de todas as suas carências e mazelas.

E ao Estado que se candidatam também creio ter dado alguma contribuição, como a onda de industrialização que multiplicou empregos e arrecadação.

Espero que o atestado de “não lernista” possa contribuir para que os ilustres candidatos aproveitem melhor a campanha, com mais propostas e menos sofismas.

E que tenham a coerência de pedir aos lernistas que não votem neles.

Jaime Lerner

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Lendo o futuro

Pode-se criticar Marcos Coimbra, dono do Instituto Vox Populi, pela parcialidade de suas opiniões, mas seus escritos na imprensa pelo menos revelam uma certa franqueza sobre o que parece ser o que virá por aí nas próximas pesquisas. É claro que uma pesquisa deve se pautar exclusivamente pela realidade e que esse negócio de discutir o futuro sem apresentar dados muito claros é coisa de vidente, mas Coimbra não parece preocupado em ser técnico e muito menos científico. Imparcial, então, nem pensar.

Já falei aqui da origem do Vox Populi, um instituto de pesquisas que era só uma portinha em Belo Horizonte e que cresceu com a associação que Coimbra fez com Fernando Collor na construção de sua vitoriosa candidatura a presidente da República. Collor nem existia fora de Alagoas e, de repente, começou a apontar na imprensa nacional em pesquisas. Adivinhem de qual instituto. Posteriormente, o próprio Collor se incumbiu de demolir com suas ações a farsa que encarnava. Saiu corrido do poder.

Mas o Instituto Vox Populi manteve-se na ativa e está aí até hoje influenciando a política brasileira. E nesta eleição presidencial, seu presidente, Marcos Coimbra tornou-se produtivo articulista. Tem até coluna na Carta Capital, antes uma boa revista brasileira, mas hoje uma publicação com uma vistosa chapa-branca aplicada da capa à última página, em edições entremeadas com anúncios do governo Lula e de estatais brasileiras.

É uma queda triste, que dá um fecho também infeliz na carreira de Mino Carta, antes uma pessoa de respeitável senso crítico, e que foi jornalista combativo no período da didatura militar.

Não sou dos que se alegram com uma situação dessas. Penso que o Mino Carta pré-governo Lula era melhor para a história brasileira e representava até um estímulo ético para os novos jornalistas que ingressavam na profissão. Mas o próprio editor de Carta Capital já explicou com clareza essa adesão aos desígnios ditados pela publicidade governista. Foi em seu antigo blog, onde afirmou que isso é que "resguarda CartaCapital do definitivo, irremediável fracasso".

Mas voltemos ao dono do Instituto Vox Populi. Gosto do que ele escreve. De certa forma, em seus textos podemos ler o futuro. No artigo que publica hoje no jornal Correio Braziliense e que depois foi habilidosamente espalhado pela internet, Coimbra aposta em vitória da candidata do Lula já no primeiro turno. Não apresenta ainda nenhuma pesquisa para corroborar a opinião que apresenta com uma certeza de fazer corar qualquer jornalista sério.

Está certo, Coimbra não é jornalista, mas o presidente de um instituto de pesquisas que apresenta regularmente pesquisas sobre esta eleição presidencial não deveria ser imparcial? Deveria sim. Num país sério ele nem deveria opinar sobre assuntos avaliados por seu instituto.

O artigo de Coimbra poderia muito bem ser distribuído como um release da campanha de Dilma ou até como um panfleto de propaganda da candidata petista, mas é apresentado como opinião abalizada de um sociólogo e profissional da área de pesquisas.

A idéia central do texto é muito evidente: apontar vitória de Dilma no primeiro turno. Ele diz que "as perspectivas de crescimento de Serra são reduzidas", sem explicar de onde tirou esta conclusão, e que Dilma pode ganhar no primeiro turno. Neste caso, Coimbra afirma que a vitória é considerada possível por "quem entende de eleição". Mas também não nomina nenhuma dessas sumidades que apostam em uma vitória no primeiro turno da criação de Lula, quando o próprio criador jamais ganhou eleição alguma no primeiro turno. O que ele teve foram duas derrotas no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso, o que o enerva demais até hoje.

Falando nisso, na última eleição, Lula ficou muito nervoso de ter que enfrentar duas vezes Geraldo Alckmin,  um candidato fraquíssimo e que mesmo assim levou a disputa para o segundo turno. Quando soube que não vencera no primeiro turno, dizem que, de tanta raiva, Lula até quebrou um copo. Deve tê-lo esvaziado antes, é claro.

Mas tudo indica que as pesquisas devem apontar novos rumos nesta eleição. Nem vou propor uma aposta, pois meus leitores não são bestas de entrar num jogo com tão poucas chances. Porém, não vou me espantar se logo mais o Vox Populi soltar uma pesquisa apontando vitória de Dilma no primeiro turno.
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POR José Pires

terça-feira, 10 de agosto de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A mulher de Lula fala: Aceitamos cartão de crédito

O Comitê de Campanha da Dilma Rousseff me mandou há pouco um e-mail pedindo colaboração financeira. Avisam que ja estão abertos para doações, que podem ser feitas pelo cartão de crédito. Cartão corporativo evidentemente eles não aceitam, ó gente malvada.

Para garota-propaganda pegaram a mulher do presidente Lula. No vídeo, dona Marisa diz que é muito simples fazer a doação: "É fácil, muito fácil. É só digitar o número e tal, põe o seu CPF, o seu nome e pronto, já tá certo a doação pra Dilma", ela diz de forma bem coloquial. E com esta declaração sucinta ela deve ter chegado bem próximo da marca de cinco minutos de falas em quase oito anos de vida pública, desde que o marido assumiu a presidência da República. É também sua frase mais relevante em tantos anos, talvez a única que deva ser levada em conta. Sem trocadilho.

A primeira-dama poderia com certeza doar bastante dinheiro para o partido do marido, afinal os Silva são hoje uma família muito rica. Isso sem contar Lulinha, o filho-prodígio que ficou milionário ainda bem jovem e apenas numa tacada. Mas a doação da primeira-dama foi de apenas R$ 1.113,00 reais, uma quantia de marqueteiro, por certo.

Quem comparece sempre aqui ao blog, sabe que gosto dessas simbologias que os petistas nos apresentam com certa regularidade. Gostei dessa também, não a do número do partido inserido na doação (que sacada original, hein?), mas do uso da mulher do Lula como garota-propaganda de anúncio de doação para campanha eleitoral. Nessa o marqueteiro caprichou: é muito significativo.

No vídeo se apresenta também o tesoureiro do PT, José de Filippi, pedindo para o eleitor comparecer com algum para a campanha petista. Em cena, Fillippi não pensa duas vezes antes de dar um abraço na mulher do presidente da República. Vejam a imagem acima. Não fiz nenhum retoque ou qualquer outra interferência na cena. É uma reprodução exata da inacreditável expressão facial de Fillippi, que vocês podem ver aqui.

Sei lá, talvez eu seja um cara à antiga ou pode ser minha natural relutância a esta desfaçatez que eles costumam justificar como uma falta de medo de ser feliz, mas eu preferia viver em um país em que houvesse um pouco mais de respeito com a mulher do presidente da República. Esse negócio de marmanjo meter o bração em volta dos ombros de uma mulher é coisa que não fica bem com mulher alguma. Mulher casada, muito menos.

Filippi safou-se recentemente da Lei da Ficha Limpa. Ele havia sido condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em maio, a devolver R$ 2,1 milhões para os cofres da prefeitura de Diadema, cidade onde foi prefeito. A condenação foi por causa da contratação sem licitação do escritório de advocacia do líder petista Luiz Eduardo Greenhalgh, contratado pela prefeitura de Diadema entre 1983 e 1996. Greenhalgh defendeu apenas duas causas e ganhou cerca de R$ 2,1 milhões para isso.

No início deste mês. Filippi, que é candidato a deputado federal, foi salvo pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), que suspendeu a condenação por improbidade administrativa.

Numa campanha como esta também seria natural que sentíssemos a falta do Delúbio Soares, o tesoureiro que tornou-se um símbolo histórico do PT. Como imagem da capacidade de arrecadação do partido, Delúbio é insubstituível. Mas pela expressão de Filippi, que agora ocupa a cobiçada cadeira que Delúbio teve que abandonar para sentar-se na cadeira de réu do STF, dá para ver que ele já pegou o espírito da coisa.
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POR José Pires

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O que pode vir de Minas

Nesta eleição, Minas Gerais pode fazer lembrar dois nomes fortes que o estado legou à história brasileira: Tiradentes e Joaquim Silvério dos Reis. Tiradentes, como todos sabem, acabou enforcado, mas é uma luz significativa na memória dos brasileiros. Já Joaquim Silvério dos Reis, cuja imagem se vê ao lado, se deu bem economicamente com sua traição, mas ficou para sempre com seu nome ligado ao que de pior se pode pensar de alguém. Virou excrescência histórica e como sinônimo de traição só fica abaixo de Judas. No meu tempo de escola, ser chamado de Joaquim Silvério dos Reis dava briga feia na hora do recreio.

Talvez haja quem ache demais trazer a lembrança do Tiradentes numa eleição presidencial numa época de relativa democracia, mas isso se a pessoa acreditar que esta é uma eleição como qualquer outra, o que não é o meu caso. Este ano o Brasil pode ser ver livre do lulo-petismo, o que não é pouco. E a vitória do lulo-petismo também não pode ser subestimada em seu potencial de autoritarismo e controle do Estado, que já vem sendo estabelecido de forma vergonhosa e bastante perigosa nesses quase oito anos do governo Lula.

Não dá para achar que o clima de desesperada luta pelo manutenção do poder que se vê na campanha do PT possa vir de algum sentimento de respeito à democracia e submissão à prática da alternância no poder.

Se tivessem respeito pela democracia, não fariam uso da máquina pública e de sindicatos, da forma escandalosa como vem ocorrendo. Também não haveria toda essa manipulação do processo eleitoral, como a campanha ilegal que Lula vem fazendo há pelo menos dois anos, além da derrubada de candidaturas, como a de Ciro Gomes no plano federal e a de vários outros candidatos nos estados. Tudo isso revela uma disposição que nada tem a ver com o respeito à democracia. São métodos que já revelam bastante o que pode vir pela frente com uma vitória de Dilma com jeito de terceiro mandato.

Não, esta não é uma eleição como qualquer outra, daí a necessidade que nossos políticos sejam mais Tiradentes e bem menos, muito menos mesmo, Joaquim Silvério dos Reis. A escolha é das mais fáceis, afinal é difícil acreditar que alguém queira se emparelhar simbolicamente com o dedo-duro que entregou Tiradentes, mas ainda tem político que parece relutar entre os dois.

Hoje a Folha de S. Paulo conta que surgiu mais uma movimentação ardilosa para dividir o voto dos tucanos em Minas Gerais, o voto “Helécio”, cuja idéia é juntar o voto no ex-governador tucano Aécio Neves para o Senado com o voto em Hélio Costa, do PMDB, para o governo mineiro. Com isso, o candidato Antonio Anastasia perderia votos na dobradinha com Aécio, que o apóia.

Este “Helécio” é uma das várias composições montadas com o nome de Aécio Neves em Minas, onde até Dilma Roussef foi tirar uma casquinha falando do voto “Dilmasia”.

Esta não é a primeira eleição em que Aécio Neves se destaca pela ambigüidade, mas pode ser a última em que ele colhe disso algum benefício. Desde 2002 ele vinha ganhando com o chamado voto Lulécio, pouco se importando com o crescimento nacional do seu partido e até esfaqueando pelas costas antigos companheiros. Nesse ano em que ele saiu como candidato ao governo de Minas, José Serra disputava a presidência com ótimos números nas pesquisas.

O voto Lulécio rendeu para Aécio a eleição no primeiro turno, com 57,68%. Já Serra teve em Minas Gerais Serra 22,86% dos votos contra 53,01% de Lula.

Em 2006, o voto Lulécio continuou rendendo. Candidato à reeleição, Aécio ganhou também no primeiro turno, desta vez com uma vantagem bem maior: 77,03%. A vítima foi Geraldo Alckmin. A votação em Minas do candidato tucano à presidência alcançou 41,60% contra 50,80 de Lula. Foi no segundo turno que a estratégia do voto Lulécio mostrou-se desastrosa para o candidato tucano à presidência: ele teve menos votos que no primeiro turno, com 34,81%. Já Lula subiu para 65,19%. Do primeiro para o segundo turno, Alckmin perdeu meio milhão de votos.

Agora em 2010 não tem Lulécio, porém, entre outros tipos de votação estimulados pela ambigüidade de Aécio Neves surge agora o “Helécio”. É o que parece um sinal vermelho, depois de um sinal amarelo emitido nas eleições de 2008 para a prefeitura de Belo Horizonte.

Naquele ano um Aécio confiante em sua popularidade teve a supresa de ver seu candidato a prefeito, Marcio Lacerda, ir para o segundo turno em disputa apertada (43% a 41%) com o azarão Leonardo Quintão, do PMDB.

Aécio, que já dava como certa a vitória de seu candidato no primeiro turno, teve que apelar até para uma aliança com o PT para derrotar Quintão no segundo turno.

Esta eleição para o governo estadual parece trazer para ele algo parecido. Com a diferença que desta vez o PT está com Hélio Costa. E o "Helécio" que inventaram agora no estado é estratégia que veio só para extrair o que for possível de votos para Hélio Costa, colando o candidato do PMDB ao prestígio da sua candidatura ao Senado.

A balançada do “Helécio” fez o ex-governador mineiro lançar até nota oficial, onde diz o seguinte: “Desautorizo veementemente qualquer tentativa de vincular o meu nome a qualquer candidatura que não seja a do governador Antonio Anastasia”.

Parece que o alarme soou bem alto. Se é que a idéia do "Helécio" vem mesmo da campanha do PMDB e do PT. Em Aécio a dubiedade é tanta que faz até duvidar das origens de uma artimanha como esta.

Mas o certo é que com o sucesso de uma movimentação como esta Aécio Neves pode até ir para o Senado, mas não faz o sucessor em Minas, o que não é nada bom para o seu futuro político. Mas a coisa pode até piorar se, além dele perder o poder em Minas Gerais, Serra também não se eleger para presidente.

E dificilmente uma vitória de Hélio Costa em Minas Gerais ocorreria em conjunto com a eleição de Serra. Parece claro que o fortalecimento de Costa no segundo maior colégio eleitoral do país pode ser determinante para a vitória de Dilma. Daí o esforço de Lula e a direção nacional do PT para apoiar Costa, inclusive derrubando a candidatura própria do partido no estado e fazendo muita pressão para o ex-ministro Patrus Ananias ser o vice na chapa.

Será que alguém com os anos de chão de Aécio pode achar que no final todo esse esforço é para ajeitar o futuro dele? Com Hélio Costa governando Minas Gerais, Alckmin como governador de São Paulo e o PT novamente elegendo um presidente da República é provável que Aécio Neves tenha que ordenar que seus assessores façam uma boa decoração em seu gabinete no Senado. E que a sala seja bem confortável, pois é lá ele deve passar os próximos oito anos, sem chance para sonhos mais altos. E como justa homenagem, o tucano pode também pendurar na entrada do gabinete o retrato de Joaquim Silvério dos Reis.
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POR José Pires

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Depois de recusar o apelo de Lula, Ahmadinejad escapou de boa

Escrevendo ontem sobre o chega-pra-lá que o Irã deu no presidente Lula, que, segundo o porta-voz oficial, não sabia do que estava falando quando se meteu no caso da iraniana condenada à morte por apedrejamento, comentei que ali os embates não são resolvidos por meio de divisão de cargos. Eles não têm por lá os PPs, PTs e PMDBs que, no final, se arranjam com empregos, privilégios e até encaixam um vice numa chapa ou noutra. Disputas políticas no Irã podem acabar até em morte.

Pois hoje noticia-se que tentaram matar o presidente Mahmoud Ahmadinejad, no que pode ser visto pelo mundo como a piada da notícia boa e a notícia ruim. Ahmadinejad escapou do atentado.

Sobre a resposta com um tom ofensivo dada à proposta feita por Lula do Brasil receber como asilada a iraniana, não se disse mais nada. Lula fez que não era com ele, tentou se concentrar na parte em que o porta-voz diz que ele tem "personalidade emotiva". Bem, aí Lula está exercendo aquilo no que ele e seus companheiros adquiriram muita prática: fazer-se de songamonga.

A resposta curta e grossa do Irã bateu na mesma hora em mesas importantes em todo o mundo. E a situação é bem clara. Lula foi tratado como alguém que não sabe o que diz. Nem era preciso um insulto desses para que ficasse claro que micou o papel de grande líder internacional que Lula queria interpretar, mas de certa forma a resposta do governo iraniano oficializou a derrocada.

Acostumado com a falta de consequência do seu hábito de não levar as coisas a sério no Brasil, com frequência Lula avança em considerações e até piadas em relação a outros países. Pode-se dizer até que é um hábito petista, pois quando era ministro da Justiça, Tarso Genro não resolveu fazer a crítica do funcionamento do Estado italiano? Hoje o candidato a Norberto Bobbio brasileiro é candidato ao governo do Rio Grande do Sul.

Parece coisa de maluco, mas o Lula não é lelé. Parece mal assessorado, daí a desinformação. A iraniana Mina Ahadi, porta voz do Comitê Internacional contra a Execução e do Comitê Internacional contra o Apedrejamento, escreveu esta semana uma carta aberta ao governo brasileiro.

É um texto curto, mas com o destaque de apenas um trecho é possível ajudar o Lula compreender o cuidado que é preciso para se meter com uma cultura política que tem o apedrejamento até a morte como pena para o adultério.

O trecho é este:

"Hoje, dia 2 de agosto, nove prisioneiros foram sentenciados à morte em Kerman. Em Teerã, seis prisioneiros políticos foram sentenciados à morte, entre eles Jafar Kazemi, que pode ser executado a qualquer momento. Zeynab Jalalian, um outro prisioneiro político, também corre o risco de ser morto em breve. Há mais pessoas na lista de execução: Mohammad Reza Haddadi foi setenciado à morte enquanto era menor; acaba de completar 18 anos e pode ser executado a qualquer momento. Há mais de 130 menores na prisão, com penas semelhantes. O regime islâmico é o único do mundo que executa menores."

Por estas informações da militante dos direitos humanos, é possível perceber o que seria desencadeado no Irã se Ahmadinejad atendesse ao apelo de Lula. E digo Ahmadinejad porque foi a ele que Lula se dirigiu, de cima do palanque de Dilma em Curitiba. Ou Lula se faz de besta ou não sabe que não é o Ahmadinejad que decide as coisas naquela teocracia militarista.

Ou talvez fosse melhor alguém chegar no presidente e colocar o problema da forma que ele gosta, no coloquial. Primeiro ele tem que ver um vídeo de execuções no Irã do "amigo querido". É fácil achar na internet. Estraga a tarde, mas um estadista, mesmo um emotivo, é obrigado a ver certo tipo de coisas. Depois o assessor pode mandar o lero:

— Seguinte, companheiro presidente, o governo do Ahmadinejad precisa matar a moça e se não for ela agora, serão outras. Se não fazem isso perdem uma importante ferramenta de pressão, entende? É mais ou menos como era o nosso AI-5 aqui, saca? Um apedrejamento até a morte em público é bem mais radical e espetacular, afinal lá não é uma ditabranda, mas o objetivo é parecido. É preciso que as pessoas tenham medo de alguma coisa, senão é capaz do Irã cair numa democracia.

Bem, depois não vão dizer que só critico: taí minha colaboração. A confusão da diplomacia petista mistura muito as coisas. Metem-se onde não são chamados e criam confusas relações. Uma divisão séria entre os iranianos, que atinge até a alta cúpula da teocracia instalada no poder pelas armas, é tratada como "briga de torcidas" e o linha-dura Ahmadinejad vira "querido amigo".

Talvez o atentado contra o Ahmadinejad abra os olhos deles para a necessidade de uma revisão na diplomacia do olho no olho. E se pegam o "amigo querido" e o Irã entra num conflito interno com a violência que sabemos ser possível no Oriente Médio? Bem, uma relação estreita dessas, olho no olho, exigiria uma ajuda imediata do Brasil.

Tem também um outro problema, bem pior. Não são poucos os analistas internacionais que acreditam que a crise nuclear criada pelo Irã vai acabar em um ataque militar dos Estados Unidos.

É claro que num caso como este, talvez nem um petista torça pelo quanto pior melhor. Mas a possibilidade de que isso ocorra não é pequena. E se os Estados Unidos atacam, como fica a relação do Brasil com o "amigo querido" do Lula? É bom dar uma conferida se as nossas tropas estão preparadas.
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POR José Pires

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Cesar Maia dá uma de amador onde sabe muita coisa

Aquele ditado do "casa de ferreiro, espeto de pau" me veio logo à cabeça quando vi um clipe com jingle que Cesar Maia mandou no seu Ex-Blog de hoje. Maia é candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro e em seu correio eletrônico costuma publicar peças de sua campanha.

No correio eletrônico enviado todos os dias aos internautas, o ex-prefeito do Rio faz um dos melhores materiais políticos da internet. Sua análises são lúcidas e trazem também bastante informação, inclusive com bons comentários sobre linguagem política e os materiais de comunicação produzidos por diversos candidatos, inclusive com boas opiniões sobre postura corporal, entonação de voz e outros aspectos da comunicação em política. Cesar Maia é um caso tão raro em nossa política que até escreve bem.

Com isso tudo, é claro que acabei me espantando com a peça que ele mandou para a apreciação. A campanha nem começou na televisão, mas acho que pode-se dizer que este clipe seu é o pior desta eleição, inclusive com espantosos equívocos simbólicos.

O clipe animado traz uma figura caricaturada representando o candidato. O problema é que, além de ser um desenho muito feio, Maia é representado de uma forma que parece um boneco tipo marionete. Confiram acima a imagem retirada do clipe. É surpreendente que tenha passado pelo crivo de alguém que entende tanto de comunicação uma imagem sua caracterizado em um desenho que lembra uma marionete, que é uma das coisas piores que se pode pensar de um político.

Mas não é só aí que está o espeto de pau. No final do clipe, o boneco de Maia aparece correndo com uma multidão atrás dele. Sei que os produtores do clipe queriam representar o candidato correndo junto com o povo. Mas o problema é que parece que Cesar Maia está correndo em fuga da multidão, num pega-ladrão. Veja abaixo se não estou com a razão. No vídeo, que você pode ver aqui, o efeito é bem mais forte.



É a impressão que tive já na primeira olhada e que foi reforçada quando procurei observar analisando de forma técnica o material. Não é provável que um deslize como esse possa afetar significativamente a candidatura de Cesar Maia ao Senado, que até agora tem bons indices em todas as pesquisas. Mas, de qualquer forma, é um ponto negativo na imagem.
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POR José Pires

O Irã dá um chega-pra-lá em Lula

Quando Lula fez a proposta de conceder asilo à Sakineh Mohammadi Ashtiani, a mulher condenada à morte no Irã, ele acabou entrando numa daquelas questões em que não importa se a resposta é negativa ou positiva. Qualquer uma delas é problemática.

O Irã deu hoje uma resposta que parece mostrar que por lá já se cansaram das lorotas do presidente brasileiro. Para o governo iraniano, Lula é "emotivo" e desconhece o assunto. Uau, na bucha! Imagino o espanto de Lula, acostumado com um povo que o aguenta com paciência há pelo menos duas décadas.

Dizem que o sucesso de Lula se deve ao fato dele ser muito bom em política. Não penso assim. O que ele tem de bom, além de um suporte fantástico e descarado da máquina pública, em sindicatos, Ongs e outras instituições ditas populares, é sua oposição. Para ele, é claro, pois com uma oposição de fato não teria nem sido reeleito. O mais provável é que fosse apeado do poder já no primeiro mandato. Fazer sua sucessora, como pode acontecer, isso nem pensar.

Está é a minha opinião. Porém, sou dos que não se enganam com o Lula muito antes de ele ser eleito, mas creio que sua performance no plano internacional demonstra que este não é um juízo de valor movido apenas pela minha ojeriza ao sapo barbudo. Em menos de dois anos, neste último período de governo em que resolveu ser espaçoso também no plano internacional, quase tudo deu errado para Lula. Claro, o debate internacional é substantivo. Até pode haver o lero-lero de que ele tanto gosta, mas por detrás das palavras tem de haver substância. Isso quando o que tem que ter mesmo são tropas.

Mas falemos da questão da iraniana, que Lula puxou para si em um palanque eleitoral.
Vamos primeiro falar da resposta positiva. Teoricamente até poderia ser vista como o melhor resultado, isso se não fosse um paradoxo. A negativa que veio do governo iraniano seria até, isso se não fosse o chega-pra-lá que veio com a resposta.

Ele passaria como um presidente humano, isso no plano interno, principalmente no aspecto eleitoral, pois onde importa mesmo internacionalmente sua proposta com certeza foi vista como ridícula. E tão tola, que nem os iranianos, que até aqui pareciam parceiros de LUla, puderam evitar de colocar o assunto dessa forma.

A oferta de Lula foi de uma comicidade trágica. Há muito tempo que ele vem exercitando este humor negro em suas intervenções públicas. E digo pela oferta de asilo em si, sem falar nas piadinhas que ele soltou quando tocou no assunto.

No Irã, o apedrejamento até a morte não é uma exceção bárbara como é visto com razão no Ocidente. O absurdo, que lá é uma normalidade penal, vem da leitura do Corão. Para atender apenas esse pedido de Lula, os aiatolás teriam de fazer uma revisão em muita coisa do que pensam.

Vamos fazer um raciocínio simples, expondo o problema de forma contrária. O que será que pensaríamos se o governo iraniano propusesse que começássemos a apedrejar as mulheres que cometem adultério? Calma, estou falando em hipótese e pensando em brasileiros de bom senso e não no Lula.

O Brasil não consegue resolver nem os problemas internos de violência contra as mulheres e isso para ficarmos só neste tipo de violência. A bem da verdade, o governo brasileiro não consegue conter violência alguma. A própria imagem que o presidente da República usou para se referir ao caso, tratando a iraniana como um “incômodo” para o governo iraniano e também fazendo piada com o adultério masculino mostra, aliás, que este tipo de violência é um problema cultural bem arraigado e ainda vai longe.

Mas se o Irã concedesse o direito da condenada asilar-se no Brasil, nosso país abriria um precedente que poderia conduzir à uma imensidão de casos similares em todo o mundo. Sabemos que o ponto essencial da questão, da qual Lula foge, é a violência do Estado iraniano sobre as mulheres.

É sobre isso que seu governo deveria tentar influir, mas aí toca-se na questão dos direitos humanos, algo que Lula não que discutir, nem no Irã, em Cuba, na Venezuela e tantos outros países, afinal sua política externa parece ter uma queda por regimes onde prevalece a injustiça.

E como não pode ir a fundo na discussão dos direitos humanos, malandramente ele buscou particularizar nesta condenação da iraniana uma suposta preocupação com o ser humano. É como ele faz no plano interno. Com o país destruído pela violência, com comunidades inteiras dominadas por quadrilhas armadas e mortes de uma violência aterrorizante acontecendo todos os dias, ele trabalha uma imagem humanística distribuindo afagos pessoais em solenidades oficiais e nos palanques.

Foi o que ele tentou fazer com o Irã e se deu mal. Podia pelo menos ter consultado Ahmadinejad, apesar de que seria difícil que o governo iraniano topasse o jogo. Lá no Irã, como em tantos países onde Lula vai e se comporta de forma leviana, eles estão envolvidos internamente em embates políticos cruciais. E lá essas coisas não são resolvidas em acertos por cargos. Não é acabem que terminem em morte.
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POR José Pires

O presidente que não sabe o que diz

Sabemos que Lula perdeu o pudor há bastante tempo, mas ele podia ao menos evitar de se aproveitar de situações onde há vida humana em risco. Imaginem o Irã aceitando sua proposta e mandando a iraniana condenada para cá antes das eleições presidenciais. Como ele já recomeçou a derramar lágrimas com a proximidade da eleição, com certeza estaria no aeroporto para chorar abraçado com a pobre mulher. Bem, seriam cenas de fazer um marqueteiro babar de prazer.

Mas imaginem também o probelma intrenacional que uma coisa dessas traria para o Brasil. Nos países africanos onde Lula confraternizou com uma alegria que pareceu até sarcástica tem carradas de mulheres sofrendo violências e até sendo mortas. Na África do Sul, por exemplo, o estupro é um grave problema nacional, numa proporção que atinge milhares de mulheres.

Deve ter problemas semelhantes também aqui em países fronteiriços. Ou será que entre os índios bolivianos de Morales, na bolivariana Venezuela ou até mesmo lá entre os companheiros das Farcs as mulheres são tratadas de forma igualitária e sem violência? Bem, duvido muito.

Como faria o Brasil então? Só mandando uma frota de navios buscar a iraniana, com eles passando pelos portos de vários países recolhendo mulheres que sofrem violências. Para ser mais justo, os navios do governo brasileiro teriam de passar também em portos brasileiros.

Mas falemos da oferta demagógica de Lula. Tem também os problemas terríveis de adaptação no Brasil de uma mulher de cultura simples, retirada de um país totalmente diferente do nosso, até com uma língua totalmente fora dos nossos padrões. É provável até que seja uma mulher sem profissão alguma.

Então ela teria de contar com o apoio do governo brasileiro? Bem, visto por este lado, a situação piora bastante. E aí então é que teríamos um problema bem sério para administrar, pois o mundo inteiro ficaria de olho na situação desta mulher aqui no Brasil.

A oferta de Lula foi feita em cima de um palanque, com a descarada intenção de puxar o assunto porque sua candidata é uma mulher. É mais um abuso contra a coitada da iraniana, mas nem vou falar sobre isso. Mas será que Lula não conversa com ninguém antes de fazer uma proposta de tamanha importância?

É provável que tenham discutido o assunto ao pé do palanque. Pois Lula e seus assessores estão maluquinhos se pensam que vão obter algum resultado positivo fazendo política por impulso.

Será que os responsáveis pela política externa brasileira acreditavam que o governo do Irã abriria a mão de cumprir uma lei básica da teocracia que implantaram naquele país sob a força das armas? Pelo jeito achavam que sim.

Mas o Irã deu outra resposta. Disse que Lula não tem “informação suficiente” sobre o caso e que ele tem uma “personalidade emotiva”.

A frase dita pelo porta-voz do Minstério do Exterior iraniano: "O presidente (Lula) da Silva tem uma personalidade muito emotiva e humana, mas provavelmente não tem informação suficiente sobre o caso". Sejamos francos: com palavras, digamos assim, diplomáticas, estão dizendo que Lula é boboca e não sabe do que está falando.

É mais um chega-pra-lá que Lula recebe no plano internacional. É o fim do olho no olho com Ahmadinejad.

A resposta à Lula sem dúvida vem de cima. O Irã vive uma situação delicada, tanto internamente como no plano internacional. Isso exige que manifestações de governo sejam muito bem colocadas no plano internacional. A resposta saiu da boca de um porta-voz. A voz é de instâncias superiores. Cabe à Lula entender o recado: agora a conversa é a sério e para isso ele não serve. Acabou seu tempo de fazer graça mundialmente.
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POR José Pires

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

domingo, 1 de agosto de 2010

Chega o mês do cachorro louco e suas coincidências

Pelo jeito este agosto promete fazer jus à fama popular de ser o mês do cachorro louco. Disparos contra quartel da Rota, tiros contra o comandante da tropa em sua própria casa, veículos incendiados. É mês de cachorro louco e de cachorros bem grandes.

Mas tem uma coisa muito curiosa: os anos eleitorais parecem ter uma relação com este fenômeno dos cachorros loucos. Em 2006 aconteceu coisa parecida em São Paulo, com os ataques do PCC na capital e em cidades importantes do interior paulista. E foi também há poucos meses da eleição. Daquela vez foi em maio.

Naquele ano tinha também um ex-governador paulista disputando a eleição presidencial em que Lula foi reeleito. Era Geraldo Alckmin. E este ano, quando temos paulista de novo na disputa e agora com mais chances de ser eleito, o terror recomeça.

Outro fato curioso é que a bagunça só acontece em São Paulo, exatamente onde existem números que mostram queda da criminalidade em todo o estado. Em um país aterrorizado de norte a sul pela violência e o avanço do crime organizado, mostrar esses dados no horário eleitoral que começa dentro de duas semanas daria um reforço na candidatura de José Serra.

Mas se persistir este clima, é evidente que será bem mais complicado para o tucano capitalizar estes bons resultados de sua atuação como governador de São Paulo, exatamente na segurança, área que terá muita influência na decisão do eleitor.

Calma, não estou acusando nenhum partido ou candidato, mas creio que é interessante registrar a coincidência. De qualquer forma, é um dado a mais para o mito do mês do cachorro louco.
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POR José Pires

sábado, 31 de julho de 2010

Imagens de grande competência


Aqui temos uma foto sobre um encontro de tatuadores, realizado esta semana em Taiwan. E lá embaixo publico uma foto de uma reportagem fotográfica sobre o trabalho de equipes médicas do exército dos Estados Unidos no Afeganistão. As duas imagens estão unidas pelo hábito da tatuagem, que se vê também no braço do jovem militar norte-americano que ajuda o soldado ferido do Exército Nacional do Afeganistão, mas pode-se ver também uma unidade no uso do jornalismo, feito de forma competente por redações de dois países bem diferentes e distantes entre si.

E, independente do que pensemos das duas atividades, também são retratos de trabalhos exercidos com a maior competência. A impressionante capacidade dos médicos militares dos Estados Unidos é de impressionar até mesmo um esquerdista que vê como "mocinhos" os Talibãs cortadores de narizes e orelhas de mulheres do Afeganistão.

A foto do encontro dos tatuadores foi publicada no jornal espanhol El País e a reportagem fotográfica feita no Afeganistão saiu no site do jornal Denver Post, dos Estados Unidos. Esta reportagem no Afeganistão é bem mais longa que a do encontro de tatuadores. São 40 imagens impressionantes pelo que mostram e pela qualidade das própras fotografias.

Este material serve para comprovar como os jornais e sites brasileiros ainda não se aperceberam da importância da fotografia na internet. Fotografia por aqui é publicada em poucos centímetros, mesmo quando usam o recurso do clique para aumentar a imagem.

As empresas também não investem em reportagens fotográficas, o que torna seus sites pobres naquilo que representa o melhor da linguagem da internet: a imagem. Eu creio até que computador é algo que parece ter sido inventado mais para a fotografia do que para o texto. Não é que o texto não tenha importância, é óbvio. Se eu pensasse assim, apenas desenharia para a internet. Mas fotografias funcionam bem demais neste vídeo iluminado por dentro que temos à nossa frente.

Esta pouca importância no uso das imagens, com sua publicação de modo tímido ou melhor, mesquinho mesmo, é um dos equívocos que os jornais brasileiros trazem para a internet. Antes dessa nova tecnologia eles já vinham descuidando nos impressos do prazer de se ver uma boa foto e um bom desenho.

Era uma economia burra que diminuía a qualidade do produto e que vejo como uma das razões que fazia a nossa imprensa estar definhando antes mesmo do advento da internet. Esta falta de investimento em recursos humanos é um problema histórico da nossa imprensa em todas as áreas. Com isso, os jornais e revistas vinham ganhando dinheiro e perdendo qualidade.

Pelo que se vê, a prática foi transplantada para a internet. É bem grande o número de internautas brasileiros, mas a qualidade fica bem baixa nesta relação. Daí, quem não se contenta com a fofocaiada que os poderosos da nossa internet acham que é a receita vencedora neste meio, tem que correr pra fora para ver algo de qualidade.

Para ver as fotos do El País clique aqui para ver a reportagem fotográfica do Denver Post, prepare-se bem, e clique aqui.
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POR José Pires

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Justiça proíbe a grande música-tema do lulo-petismo

Ao mandar retirar de circulação o jingle da candidatura de Fernando Collor ao governo de Alagoas, o Tribunal Regional Eleitoral está prejudicando a melhor expressão do que foi o governo Lula, que está para acabar, e do que pode ser o governo Dilma, caso a ameaça se consume.

Já falei aqui deste jingle, uma peça sociológica do lulo-petismo, tão brilhante que concentrou em poucas estrofes embalada por uma melodia simples o que muitos vem discutindo em artigos, entrevistas e até ensaios nos últimos anos.

Já publiquei um trecho e faço questão de republicar, já que tudo indica que dificilmente os advogados de Collor derrubarão a decisão que proibe a audição desta música-tema do projeto político de Lula e seus companheiros. Vamos ao trecho:

É Lula apoiando Collor
É Collor apoiando Dilma
(Pelos mais carentes!)

É Lula apoiando Dilma
É Dilma apoiando Collor
(Para o bem da nossa gente)

É Lula apoiando Collor
É Collor apoiando Dilma
(Pelo mais carentes!)

É Lula apoiando Dilma
É Dilma apoiando Collor
E os três pelo bem da gente!


Torcemos pelo sucesso deles no convencimento do TRE para que as ruas voltem a receber este singelo, porém potente som, já que não se trata apenas da candidatura do ex-caçador de marajás e de maracujás, agora amigo do peito de Lula, mas de uma canção rara que simboliza de forma precisa o lulo-petismo. Nem Chico Buarque, lulista de sempre e compositor competente, faria melhor. Gilberto Gil se pendurou no Ministério da Cultura, mas saiu sem deixar nenhuma contribuição. E a música Lula os 300 picaretas, de Herbert Vianna, ficou defasada: hoje os picaretas ao lado de Lula já somam milhares.

O hino do lulo-petismo acabou sendo composto por um simples marqueteiro do Nordeste, o que no fundo pode ser até bem mais forte para o conteúdo simbólico de uma relação (Collor e Lula) que começou no confronto agressivo e progrediu até tornar-se um forte elo da governabilidade (Lula e Collor), para finalmente configurar-se na trindade político-eleitoral do continuísmo com Dilma Rousseff.
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POR José Pires

Lei Ficha Limpa: nem todo político que passou por ela é "ficha limpa"

É preciso um pouco mais de cuidado com o uso do conceito "ficha limpa". O fato de um político não estar enquadrado nos impeditivos criados pela Lei Ficha Limpa não faz dele necessariamente um bom candidato. A Lei Ficha Limpa não é um aval que garante o apego à ética e muito menos a capacidade técnica de quem não teve a candidatura impedida.

Além disso, apesar da honestidade ser algo indispensável, outras condições também são necessárias para verificar a qualidade de um político. Para uma boa atuação no Legislativo ou no Executivo, além de ser honesto, o candidato tem que ter capacidade técnica e habilidade em gestão pública.

Mesmo com a Lei Ficha Limpa, o eleitor tem que ter o mesmo cuidado de antes e analisar muito bem a história pessoal de cada político. Sem esquecer nunca que vivemos em um país em que até criminosos notórios passam anos enrolando a Justiça por meio de advogados muito bem pagos e jamais recebem alguma condenação.

Ter a "ficha limpa", como está se dizendo muito nesta eleição, não pode ser visto como uma garantia de integridade política, pois a dificuldade da aplicação das leis, principalmente em relação aos políticos, permanece a mesma. E a Lei Ficha Limpa depende sempre da execução de outras leis, o que no Brasil infelizmente tem uma história com muitas falhas e bastante parcialidade.

E foi esse histórico de impunidade uma das razões da criação da Lei Ficha Limpa. Ocorre que, se o político desonesto não foi pego por outras leis referentes à gestão pública ou mesmo ao crime comum, a Lei Ficha Limpa não terá efeito algum sobre sua candidatura.

Dessa forma, a lista dos candidatos nesta eleição não pode ser vista em sentido algum como a de candidatos de "ficha limpa". E basta dar uma olhada no nome de muitos candidatos para ver que muitos espertalhões conhecidos por burlar outras leis naturalmente também se safaram dessa.

O eleitor não pode usar o termo "ficha limpa" como se isso assegurasse a priori a qualidade política de qualquer candidato. É preciso considerar com profundidade os fatos da vida de cada um, verificando com rigor questões profissionais e políticas. Até porque, mesmo sendo um "ficha limpa", se for incompetente o político pode arruinar uma cidade, um estado e até um país ou fazer um péssimo mandato no Legislativo.

Não podemos permitir que seja criado um falso conceito que faça do político não foi enquadrado na Lei Ficha Limpa, por extensão, um "ficha limpa".

Muitos políticos certamente vão usar esse argumento para passar como "fichas limpas" nesta eleição. Alguns vão até tentar limpar sua fichas sujas usando este falso raciocínio.

Não estou evidentemente colocando em dúvida a Lei Ficha Limpa, que é boa e muito oportuna. Com sua vigência, certamente o eleitor se viu livre de muitos patifes que, de outra forma, estariam aí disputando cargos eletivos, já que os partidos nunca usaram rigor ético na seleção de suas chapas eleitorais.

A bem da verdade, se os nossos partidos cumprissem de fato com o seu papel, nem seria necessário a existência da nova lei. Mas é preciso deixar claro que ela não é uma peneira com eficiência para garantir qualidade eleitoral. Suas malhas não têm o poder de reter sujeiras que não foram detectadas e punidas pela Justiça.

Então, é preciso ter cuidado para que não se crie um conceito imediato de qualidade para o político que não foi barrado pela Lei Ficha Limpa. É preciso bem mais que isso para considerar que um político é, de fato, um "ficha limpa".
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POR José Pires

quarta-feira, 28 de julho de 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Lula contra Lula


Em clima de final de mandato, o presidente Lula já está fazendo promessas para o futuro. Em entrevista ao jornal Diário de Pernambuco neste final de semana, ele falou sobre seus planos pessoais para o futuro.

Vejam o que ele disse: "Pretendo continuar a contribuir na política brasileira, não me metendo em questões do dia a dia, mas levantando bandeiras fundamentais parao Brasil, a começar pela reforma política".

Lula vai fazer então o que prometeu durante a campanha que o levou à presidência da República em 2006, e que ele reafirmou no dia da vitória, como pode ser visto na imagem acima, de 29 de outubro de 2006. "Os partidos políticos precisam se fortalecer e, por isso vamos discutir, logo no começo do mandato, a reforma política que o Brasil tanto precisa", ele disse nesse dia.

Fora da presidência da República vai lutar pelo que ele não fez como presidente. É uma situação bastante interessante, na qual ele poderá até inovar, bem no estilo "nunca-antes-neste-país", de que ele gosta tanto. Lula poderá ir para as ruas falar mal do governo anterior, o dele, que prometeu a reforma política e não fez.

Senta a lenha, companheiro Lula. Em vez de fazer a reforma política, o Lula presidente preferiu governar para as elites mantendo as mesmas estruturas políticas de sempre.
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POR José Pires

Com Marina Silva, os "batisttis" também ganham

Marina Silva disse ontem que, se depender de sua opinião, o ex-guerrilheiro Cesare Batistti fica no Brasil. O governo italiano está esperando há meses a decisão do presidente Lula sobre o pedido de extradição do italiano, que está preso em Brasília, para que ele cumpra pena por crimes cometidos em território italiano. Batistti está preso em Brasília.

Para um partido que precisa ampliar seu eleitorado, as opiniões bastante conservadoras da candidata devem atrapalhar bastante. O que sabemos por enquanto é que ela é contra o aborto e contra a união de homossexuais, o que parecia já bastar como contradições para uma candidata de um partido, como o PV, que internacionalmente tem um caráter altamente libertário.

Imagino que toda vez que um jornalista se aproxima de Marina, seus coordenadores políticos devem rezar para que não venha mais uma pergunta que estreite ainda os espaços de penetração eleitoral.

E parece óbvio que ela deve ter outras posições que entram em atrito em áreas que poderiam alavancar sua candidatura neste início de campanha. O problema é que um bom potencial para isso está em setores historicamente compostos de gente com a cabeça aberta e que não vêem nenhum problema em questões comportamentais, muito menos com o aborto ou a união entre homossexuais.

Não sei no que pode ajudar ela ser favorável à permanência do criminoso italiano em solo brasileiro. Não seria mais ecológico devolver o espécime ao seu próprio ambiente?

Para tentar amenizar polêmicas, Marina sempre vem com a velha conversa sobre a diferença entre a opinião pessoal e a função de um Chefe de Estado. Nem tanto. Um presidente conservador evidentemente vai procurar movimentar sua base política sempre em conformidade com o que ele pensa. Sempre foi assim, não seria diferente com Marina no poder. E se Marina tivesse que se posicionar como senadora quanto a estas questões como senadora, qual seria o seu voto? Mas quanto ao caso da extradição de Batistti, que depende da assinatura do presidente da República, ela já avisou que a sua caneta assinaria a soltura e o refúgio para o criminoso italiano no Brasil.

Neste caso ela também tentou encontrar uma boa justificativa. Mas acabou trazendo ainda mais dúvidas sobre sua posição. "O Brasil já deu abrigo até a ditadores. Por que com ele seria diferente? Aí o Brasil tem uma tradição. Se o princípio é dar apoio e suporte, mantêm-se os princípios", ela disse, explicando o apoio ao refúgio ao italiano.

Pois aí é que está. Com a escolha de um novo presidente temos a possibilidade de romper isso que ela chama de tradição. Até porque os indicativos são de que muito mais dificuldades surgirão no plano internacional em um mundo no qual já não está fácil viver. E temos problemas internacionais relacionados diretamente com o Brasil, que estão se acumulando e cairão na mesa de trabalho do próximo presidente já no ano que vem. Para falar de apenas dois, estão aí as Farc e o venezuelano Chávez, cada vez mais enlouquecido.

São exemplos me parecem suficientes para mostrar que não há bom senso na justificativa da candidata do PV. Sua opinião cria um indicativo de que, com ela na presidência da República, tipos como Batistti podem conseguir refúgio fácil no Brasil, já que ela teria que seguir a "tradição".
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POR José Pires

sábado, 24 de julho de 2010

Números que dizem muitas coisas

Notícia do portal G1 publicada hoje sobre a pesquisa do Datafolha, o único instituto de pesquisas ainda confiável no Brasil. Serra está um ponto à frente de Dilma. Ontem o Vox Populi colocou Serra oito pontos atrás. Vem para confirmar o que escrevi ontem (veja lá embaixo), mas nem é por isso que devemos perder o foco na crítica deste desvio que a imprensa vem criando com sua cobertura destas eleições: pesquisas prematuras e sem controle algum por parte de instituições legais acabam tendo um peso excessivo em toda eleição. E com o domínio de dois ou três institutos de pesquisas é possível influir muitas vezes até com bastante força sobre a opinião do eleitor.

Quem tal uma CPI sobre os institutos de pesquisas? Ou que o Ministério Público funcionasse com rigor neste setor. Ora, eles não vêm sempre com o argumento de que existe ciência por detrás destes números? Então tem que ter acompanhamento técnico, exigências legais bem rigorosas, preocupações como a que devemos ter com viadutos, pontes, enfim, estruturas que podem cair e prejudicar as pessoas.

E uma pesquisa (e no caso brasileiro nunca é uma só) pode prejudicar bastante pois desarticula estruturas vitais na construção de uma Nação, como é o caso do processo eleitoral. E não acho que uma CPI viria bem na investigação da atuação dos institutos apenas no aspecto eleitora. Não é só por aí que eles exercem influência.

Existe toda uma máquina de propaganda cuja base é a suposta capacidade técnica e científica de pesquisas, que estão sempre por detrás dos próprios interesses de produtos maléficos, seja para passar no cabelo, escovar os dentes, dirigir, vestir, comer, beber, essas porcariadas que estão na mídia o tempo todo.

Numa CPI dessas seria interessante ouvir o deputado Ciro Gomes e quase candidato à presidência da República, um político que de quatro em quatro anos ressurge praticamente do nada com bons índices em pesquisas e que afirmou que todas, com exceção do Datafolha, são fajutas. Ele disse, inclusive que o dono do instituto que no Brasil virou sinônimo de prestígio e popularidade, vende até a mãe. Além de ser bastante esclarecedor, um depoimento desses daria bastante Ibope.

Mas como é difícil que venha uma CPI dessas, uma última coisa: é sobre coincidências curiosas em relação à pesquisas, algo que acontece sempre. Ontem mesmo o presidente Lula foi pro palanque fazer campanha para sua candidata. Foi no Nordeste. Se comparou a Getúlio Vargas, João Goulart e até com Jesus Cristo e fez a propaganda de Dilma. E falou, ou melhor, berrou seu orgulho com os 8 pontos de vantagem de Dilma sobre Serra apontados pelo Vox Populi no mesmo dia. Nem pensem que é trocadilho, mas isso é que eu chamaria de coincidência bem legal.
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POR José Pires

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Jorge Luis Borges e "O Aleph" brasileiro de Paulo Coelho

Há alguns dias soube que Paulo Coelho estava para publicar um novo livro, cujo lançamento oficial é neste sábado. O nome é "O Aleph" e foi uma surpresa para mim. "O Aleph" é um livro de Jorge Luis Borges, que tem de tempo de publicação apenas um ano a menos que a idade de Paulo Coelho. "O Aleph" de Borges, foi publicado em livro em 1948 pela Editorial Losada, de Buenos Aires. Vejam a capa aí em cima. Ao lado está a edição italiana da Feltrinelli. É de onze anos depois, 1959, mas bem antes do livro do brasileiro.

Em arte, a pretensão é sempre proporcional à mediocridade do artista, porque em grande parte é sempre fruto de falta de conhecimento. Alguém que escreve tão mal como Paulo Coelho jamais publicaria livro algum se tivesse capacidade de compreender isso. O seu “O Aleph brasileiro” pode vir daí. Coelho ainda procura escamotear a apropriação de um título que já faz parte da história da literatura. Segundo o que li por aí, ele teria feito uma relação com Borges nesta obra, que também não seria de ficção. Mas não vou conferir. Para mim a capa do livro com o título já revela a fajutice.

Harold Bloom, que sabe tudo de literatura, fez um livro de nome "Gênios", onde juntou os 100 autores que ele julga os mais criativos da história da literatura. Jorge Luis Borges é um desses autores. Não gosto de listas, mas opinião mais válida que a de Bloom não existe. “Jamais me recuperei do golpe que sofri da primeira vez que li Borges, cerca de 40 anos atrás”, ele diz. Neste livro, ele fala de “O Aleph”. É um dos contos mais conhecidos da literatura universal e uma marca estilística da obra do escritor.

O manuscrito de "O Aleph" foi dedicado a Estela Canto, uma escritora com um certo peso histórico na Argentina e por quem Borges era apaixonado. Na época, ele fazia uma corte desajeitada à amada. Sua vida tem momentos patéticos, com dificuldades emocionais que hoje até parecem cômicas e que aparentam ser de fundo sexual. Ele não chegou a se casar com a musa, que anos depois vendeu os preciosos papéis na Sotheby's por U$ 27.770. Soube do preço lendo um livro mais recente, de Alberto Manguel, onde, entre outros ensaios, ele publica um muito bom sobre o escritor argentino.

Para quem, não sabe, desde jovem o escritor argentino foi muito ruim da vista. Praticamente não enxergava nada. Manguel leu livros para um Borges quase cego, em 1966. Num largo período ele ia às noites ao apartamento do escritor e lia para ele obras retiradas de sua magnífica biblioteca. Fazia isso de graça, o que não deixava de ser um privilégio, pois bem que Borges poderia ter cobrado por isso.

Ele conta que de vez quando o escritor parava a leitura e comentava sobre o livro, mais para si mesmo. Manguel, que tinha plena consciência do momento rico que vivia, escreve que dessa forma Borges lhe oferecia "uma edição particular anotada de seus clássicos". O livro onde ele repassa uma visão muito especial e bem particular não só desta relação, mas também sobre outros assuntos, está em "No Bosque do Espelho", da editora Companhia das Letras.

Borges foi um homem impressionante. Uma pessoa pode escrever muito bem e não ser uma figura interessante. Ele era os dois. Tenho um outro livro feito de conversas entre ele e o jornalista Osvaldo Ferrari, transmitidas pela Rádio Municipal de Buenos Aires no ano de 1948, que é uma jóia preciosa. Quantas vezes não reli com imenso prazer estes diálogos tão interessantes. Tenho a impressão de que Borges sempre viveu em um plano especial, como se fosse uma outra dimensão. Passar isso para a escrita parecia ser apenas parte dessa existência interior tão rica.

Seus comentários sobre as pessoas, os relatos sobre antigas amizades e até sobre os escritores de sua admiração, tudo flui numa conversação muito original e sempre interessante. Sua obra e sua fala é um prazer até muito perigoso para quem também escreve, pois tudo é expressado de uma forma tão deliciosa, que pode ser imensa a tentação de fazer igual.

Por sinal, estava lendo, ou melhor, relendo esta beleza de livro, quando fiquei sabendo dessa besteira de "O Aleph brasileiro". Não me espanta uma asneira dessas vinda de Paulo Coelho, mas que uma editora aceite algo assim vai além do aval a um autor de reconhecida mediocridade com a publicação de sua obra. Neste caso, a editora coloca sua credibilidade em risco internacionalmente. E a desorientação fica até engraçada numa editora de nome Sextante — a casa que publica o absurdo título.

Paulo Coelho não precisaria começar a publicar livros para eu achar de baixa qualidade o que ele faz. Para isso já bastavam aquelas músicas cretinas com Raul Seixas. Mas ele já foi muito bem definido como escritor por essa figura especial que foi José Mindlin, um homem que sabia tudo sobre livros e que, intrigado com tanto sucesso, pegou uma obra dele, leu e depois deu a opinião definitiva: Paulo Coelho está para a literatura assim como Edir Macedo está para a religião.

Mas, de qualquer forma, publicando "O Aleph" agora, mais de 60 anos depois de Jorge Luís Borges publicar um livro com o mesmo nome e que, ainda por cima, é o título de uma de suas histórias mais conhecidas, Paulo Coelho abre um campo vasto para sua, digamos assim, literatura.

Pensem só nas oportunidades; Ana Karenina, Os Irmãos Karamazov, O Velho e o Mar, A Educação Sentimental, Macbeth, A Cartuxa de Palma, Ulisses, Os Miseráveis, O Amante de Lady Chatterley, Vinhas da Ira, O Som e a Fúria, e por aí vai. Com certeza a obra de Paulo Coelho vai ser enriquecida com títulos inesquecíveis.
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POR José Pires

Vox de quem mesmo?

Vamos fazer um jogo daqueles de múltipla escolha. Nesta semana o candidato José Serra afirmou seguinte: “Vou bancar a reforma política neste país, vou peitar e bancar”.

Sobre essa fala de Serra, anteontem alguém publicou um artigo cuja essência está neste trecho, que é o final do artigo:

"Os dicionários registram dois sentidos para a palavra peitar. O antigo é de pagamento de uma obrigação, mas também de “dar uma coisa para que se faça outra (...) subornar com dádivas”, segundo o Houaiss. Certamente, não foi pensando em fazer algo parecido no Congresso para aprovar a reforma política que Serra a empregou.

A segunda acepção, mais próxima do clima da entrevista, é “abrir caminho com o peito”, “arrostar de frente, de modo destemido”, “dar encontrão ou batida”. Parece que está prometendo que, se eleito, vai fazer com que Câmara e Senado aprovem a reforma nem que seja à custa de trombadas.

Como José Serra nunca foi disso na sua vida pública (ainda bem!), só se pode debitar ao nervosismo de campanha sua declaração. Que nada mais é que querer navegar na onda do inconformismo das pessoas comuns frente ao que veem na política. E lhes oferecer a (perigosa) ilusão de que é “na marra” que iremos adiante.

Uma pergunta: o que diriam alguns de nossos jornais se a declaração fosse de Dilma?"

Então, quem escreveu isso?

1 - José Dirceu
2 - Marcelo Branco
3 - José Eduardo Dutra
4 - Marco Aurélio Garcia
5 - Marcos Coimbra


É claro que foi Marcos Coimbra. Se quisessem dizer a mesma coisa, os outros nominados certamente tentariam pelo menos disfarçar.

Marcos Coimbra publicou este artigo anteontem, um texto que é praticamente a repetição do modo que vem fazendo supostas análises desta eleição presidencial e que vem sendo republicado em sites e blogs. Ele nem procura disfarçar o tom descaradamente governista dos textos. Alguns poderiam ser confundidos com panfletos da campanha de Dilma Rousseff.

Marcos Coimbra sempre foi um nome ausente dos nossos jornais. Agora, neste período eleitoral, ele tem publicado uma média de dois artigos por semana. Até virou articulista do semanário Carta Capital, que já foi uma boa revista e acabou virando uma publicação governista, no triste fecho que Mino Carta dá para sua carreira. Além dos artigos, Coimbra também participa de muitas entrevistas e debates, opinando da mesma forma parcial sobre o embate entre Serra e Dilma.

Vejam o final de um artigo seu publicado no dia 18 de julho, em meio à ampla discussão sobre o programa radical que Dilma registrou no TSE e substituiu por outro poucas horas depois:

"Quem reclama da falta de “planos de governo” nestas eleições talvez não se dê conta, mas, para a maioria das pessoas, eles são claros: Dilma quer manter e Serra mudar o que Lula está fazendo. Essa informação basta para elas."

Este trecho também daria um curioso jogo de múltipla escolha. E também aqui muitos leitores certamente não teriam dúvida em cravar como autor o nome de José Dirceu ou de algum companheiro do deputado cassado por falta de decoro

Pois hoje o Vox Populi, instituto de pesquisas que ele preside, divulgou uma pesquisa eleitoral que dá 8 pontos de vantagem a Dilma sobre Serra.

Nem discuto os números que o Vox Populi apresenta. Ainda é cedo para esse tipo de discussão e também não vejo credibilidade neste instituto, que por origem histórica está relacionado à montagem da candidatura vitoriosa de Fernando Collor para presidente da República, uma farsa que o próprio Collor se incumbiu de destruir. Ele se elegeu em 1989 e foi retirado do cargo pela Câmara federal em 1992 por corrupção.

O que acho lamentável é que nossa imprensa ainda repercuta qualquer dado eleitoral trazido por um instituto de pesquisas como o Vox Populi.
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POR José Pires

Bolivarianismo no osso

Mas ninguém avisa o Lula de nada? Essa agora do presidente venezuelano Hugo Chávez romper relações com a Colômbia é mais uma surpresa que vem em má hora para o nosso estrategista do olho no olho.

Até o Maradona fica sabendo das novidades do bolivarianismo antes de Lula. E esse enredo juntando as FARCS — que deve receber de Chávez não só suporte logístico em território venezuelano, como também pode estar tendo apoio militar — parece coisa combinada com o vice do candidato José Serra, que andou falando na ligação do PT com as FARC.

O assunto bate aqui na campanha eleitoral de Lula, com sua candidata à frente. E ninguém pergunta para Dilma se as FARC também estão lutando pela democracia na Colômbia, como ela diz que fazia na luta armada no Brasil na década de 70.

E os problemas que a Venezuela tem pela frente não podem ser resolvidos com o olho de Lula nel ojo de Chávez. O último petista que tentou uma conversa franca com o presidente venezuelano foi José Dirceu, o então capitão da equipe lulo-petista (ele prefere dirceu-petista), que voltou corrido de lá.

A derrocada do bolivarianismo de Chávez é um dos pontos cruciais do modelo de diplomacia implantado por Lula. E também já era. Um pouco antes dessa maluquice do rompimento com a Colômbia, Chávez já havia mostrado ao mundo o espetáculo grotesco da exumação dos restos de Bolívar.

Vale a pena assistir a este espetáculo simbólico bem significativo do estado atual da esquerda latinoamericana. Aqui tem o melhor vídeo que encontrei na internet. A atuação de Chávez é tão grotesca que a blogosfera petista ficou calada e cheguei até a ver em um importante blog governista uma gozação do vídeo. Dá a impressão que entre a esquerda brasileira Chávez subiu no telhado.

Bem, se ele não se apressar com medidas de recuperação, logo seu bolivarianismo também estará exigindo uma exumação. Não vou deixar passar o trocadilho: a Venezuela está no osso. A política chavista enfiou o país na recessão, em um momento em que todos os países da América do Sul apresentam crescimento. A inflação também está bem alta, a maior do continente. A previsão para este ano é de mais de 30% e a medida mais marcante de Chávez até agora foi a de ameaçar colocar nas ruas a Guarda Nacional para impedir que os comerciantes aumentem os preços.

É curioso como essa esquerda latinoamericana tem dificuldade de repassar e compreender informações básicas. Fidel Castro, por exemplo, poderia dar uns conselhos para seu apadrinhado. Tudo bem, que o ditador cubano não tenha com Lula essa relação de confiança, mas não é essa a impressão que temos da sua amizade com o venezuelano.

Chávez entrou numa loucura econômica de colocar o governo venezuelano à frente do setor privado em quase tudo. Seu governo quer definir até a cor dos cabelos das atrizes de televisão. Ora, com uma boa observação da história do regime cubano, que já passou por isso tudo, é seria possível evitar muitas burradas.

Nos primeiro anos da revolução cubana, o governo castrista privatizou até carrinhos de lanche (e isso não é modo de dizer ou piada minha: os carrinhos de lanche foram de fato privatizados). Era um dos pontos morais de Che Guevara como administrador.

Existem várias linhas em economia, mas ninguém discute o fato de que o Estado não pode vender cachorro-quente e nem peito de frango, como Chávez está fazendo na Venezuela. Até os chineses já compreenderam isso.

Afundada na recessão e penando com a inflação, a Venezuela está também com graves problemas de infra-estrutura, o que resultou inclusive o apagão energético atual, estranho paradoxo em um país exportador de petróleo, mas o genial modelo bolivariano conseguiu isso.

Mas alguém esperava algo diferente do bolivarianismo inventado por Hugo Chávez? Quem é sensato sabia que ia dar nisso. Mas Lula e o PT apostaram nesse projeto, tanto que passaram os dois mandatos tentando tocar para a frente esta parceria alucinada, se metendo em questões internas de países como a Bolívia, o Equador e até Honduras. E fazendo isso com políticos comprovadamente ruins da cabeça como Evo Morales, Zelaya, Rafael Correa e o redivivo Daniel Ortega, da Nicarágua.

Bem, quem se associa a maluco está fadado a administrar as loucuras inevitáveis do condomínio. Corre Lula, corre. Como o Maradona ainda está na Venezuela, além de resolver as pendengas guerreiras de Chávez pode-se até criar uma copa só para a companheirada bater uma bola bolivariana. Com um bom olho no olho, talvez até a Colômbia entre em campo. 
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POR José Pires